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APOSENTADORIA ELA CHEGOU E AGORA?

Em 24 de junho deste ano, Elza de Oliveira completou 70 anos. Apesar de ativa e cheia de saúde, a professora paulistana não teve muito o que comemorar. A data marcou também o seu último dia na sala de aula, já que foi aposentada compulsoriamente por causa da idade. Elza acredita que longe dos alunos - alguns deles sua companhia até nos finais de semana - a vida vai perder muito de sua graça e até se tornar vazia. "Dar aula é minha grande paixão." A dedicação da professora ao magistério é tanta que ela chegou a escrever para a secretária de Educação do município pedindo para continuar lecionando, ainda que de graça. Nada feito. Mesmo assim, ela não pretende se afastar das crianças, que, carinhosas, não paravam de pedir que ela ficasse. "Vou continuar indo à escola todos os dias como voluntária."

O drama de Elza pode parecer exagero, mas esconde um dilema comum. Muitos educadores passam os últimos anos de trabalho contando as horas para se aposentar, mas, quando o tão sonhado dia chega, ficam sem saber que rumo tomar. Quem não planeja como preencher o tempo com novas atividades corre o risco de se acomodar dentro de casa, com a impressão de que não tem mais nada para fazer na vida.

Falta dos colegas

Mas ficar de pernas para o ar não é tudo o que se deseja depois de décadas correndo de uma escola para outra, corrigindo provas e trabalhos nos finais de semana e preparando aulas à noite? O problema é quando o ritmo de férias perde o encanto e bate a saudade da antiga agitação - aquela mesma que muitas vezes foi motivo de queixas. "Sozinhos em casa os professores sentem falta da convivência com os alunos e da conversa com os colegas na hora do intervalo. Aí, entram em desespero", relata Abigail do Amaral Maduro, do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp).

Abigail conhece bem o problema porque coordena no sindicato um setor especializado no assunto. A entidade oferece aos educadores que já deixaram a ativa cursos e oficinas em diversas áreas, como inglês e francês, dança de salão, coral, pintura e ioga. Quem ainda está trabalhando recebe orientação sobre como se preparar para deixar a escola e aproveitar bem a nova etapa da vida.

Tempo de despertar

"Tive amigos que esperaram ansiosamente a aposentadoria e, quando ela chegou, gastaram todo o tempo livre na frente da TV", conta Mario Omura, professor de Matemática, de São Paulo. Não são raros os casos de docentes que passaram 30 anos na função e vivem outros tantos na aposentadoria. Ao se levar em conta a crescente expectativa de vida do brasileiro, o problema fica mais evidente. É um tempo longo demais para só ver TV ou cuidar dos netos - se isso não for um prazer, mas uma obrigação passada pelos filhos aos que "não fazem mais nada".

Quando chegou a sua vez de se aposentar, Omura se lembrou de tudo o que sempre falava que tinha vontade de fazer, mas não tinha tempo. "Para não me sentir perdido, preparei a mente e planejei minhas futuras atividades." Aposentado desde 1991, ele admite que nos primeiros meses foi difícil se ver longe da rotina de lecionar nos três períodos (de manhã e à tarde no Ensino Médio da rede pública e à noite em uma faculdade particular). Do que mais ele sentia falta era dos debates com os alunos. Colocando em prática antigos sonhos e projetos, ele conseguiu ocupar esse espaço. Hoje Omura se dedica à fotografia, faz parte de um coral, pratica dança de salão e é voluntário em uma organização não governamental que cuida de crianças abandonadas. "Estou mais ativo do que nunca. Equilibrei lazer, vida social e atenção à família."

A ONG que ele ajudou a criar, a Amigos de Dom Bosco, leva o nome da figura que sempre o inspirou durante o magistério. O santo, fundador da ordem dos salesianos, é conhecido na Igreja Católica pelo trabalho educacional que realizou na Itália no século 19 - e que se espalhou pela Europa e América do Sul. "Ele fez voto permanente de educador e essa luz continua me guiando no trabalho." Incansável, o professor Omura ainda leciona para uma turma de Ensino Superior três vezes por semana. "Assim, mantenho a atividade mental."

A preocupação de Omura faz sentido. Para Antonio Rodrigues da Silva, vice-presidente do Sindicato dos Professores do Município do Rio de Janeiro e Região, preservar alguma atividade intelectual faz bem para quem está se aposentando. "Esse é o momento de estudar e voltar a ler." O Sinpro-Rio oferece uma série de cursos para o aposentado em áreas como informática, idiomas e história da arte. As aulas são gratuitas para associados.

As universidades também mantêm projetos voltados para a terceira idade. Procurar uma atividade alternativa é importante mesmo se você for parecido com a professora Elza, que não quer largar a escola de jeito nenhum. Até ela já planejou a matrícula em cursos de inglês e de espanhol. "Dar aula é a melhor coisa da vida, mas eu também gosto de aprender."

Fonte: www.novaescola.com.br

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