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Atacou-se o inimigo errado na educação

A maioria dos jovens brasileiros entre 15 e 16 anos é analfabeta funcional: sabe ler as palavras, mas é incapaz de decodificar seus significados. Essa constatação está na pesquisa feita pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), entre os países-membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômicos, que analisou o nível de compreensão leitora (letramento) de alunos secundaristas de 32 países. O Brasil ficou em último lugar, atrás do México e da Letônia. O relatório final do estudo acaba de ser publicado com exclusividade em português, pela editora Moderna, e será apresentado amanhã, às 14h20, na Fundação Luís Eduardo Magalhães. Na mesa de debates, estará a doutora em Educação Magda Soares, considerada uma das maiores autoridades do assunto na América Latina. Professora da Universidade Federal de Minas Gerais, ela é autora do livro Português: uma proposta para o letramento e concedeu entrevista exclusiva ao repórter José Raimundo Silveira.

A TARDE - Na sua experiência em sala de aula, que problemas a Sra. enfrentou por conta dessa dificuldade de compreensão da leitura por parte dos alunos? Magda Soares - O grande choque é você encontrar alunos que terminam o ensino fundamental sem saber ler e escrever. Isso depois de cursar oito anos letivos. Não são casos isolados, são fatos que acontecem diariamente, com freqüência. O problema ocorre, sobretudo, pela implantação dos chamados ciclos, a promoção automática continuada. Nada mais é que o aluno ir passando de ano, independente de ter atingido um determinado nível. Sou contra a reprovação sumária, mas a situação também não pode continuar dessa forma absurda. Na minha visão, a avaliação deveria ser feita de modo que o aluno progredisse conforme alcançasse um determinado nível de aprendizado. Para isso, o conceito de ciclo e série deve ser repensado. Sem um esforço para a melhoria da qualidade de ensino no País, os alunos vão continuar passando de ano, mesmo sem ter aprendido.

Como a Sra. avalia o desempenho dos estudantes brasileiros no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes? Lógico que não dá para negar que o resultado é deprimente e entristecedor para todos os educadores. Mas não dou a mesma importância que outros para essa pesquisa. Ela é relevante, entretanto é preciso levar em consideração uma série de fatores para ter a real dimensão desses resultados. A avaliação foi internacional, com instrumentos internacionais, adaptados para a língua portuguesa. Por isso, deve-se dar um desconto. O letramento está ligado às questões culturais, diretamente relacionadas à língua pátria, portanto não é caso para alarme.

Quer dizer que ficar em último lugar, atrás de nações não tão avançadas em comparação ao Brasil, como Letônia, Hungria e o México não é preocupante? Claro que é preocupante. A questão é que essa pesquisa não mostrou muita coisa diferente daquilo que já foi apontado em outros estudos: a situação é muito ruim. O resultado mais recente do Sistema de Avaliação do Ensino Básico (Saeb), aplicado pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), é um bom exemplo. Esse estudo diagnosticou, com clareza, a extrema dificuldade de letramento que tem o aluno brasileiro médio, coisa que também é revelada nessa pesquisa.

Com base nessa e em outras pesquisas, pode-se deduzir que os dados oficiais sobre analfabetismo no Brasil são conservadores ou eles espelham a realidade de fato? Depende do que você chamar de analfabetismo. Uma coisa é medir a quantidade de pessoas que não sabe ler e escrever, outra coisa é medir os níveis de letramento, que é compreender e saber usar aquilo que se lê. Nos dois casos, os níveis de analfabetismo são altos, talvez maiores que os oficiais. Mas vejo que estão começando a se mexer, pois esses dados geraram uma campanha nacional de luta contra o analfabetismo (o Brasil foi o primeiro País a adotar o programa Década da Alfabetização, da Unesco; o Ministério da Educação firmou acordo com esse organismo, no valor de US$ 200 mil, assumindo a meta de alfabetizar 20 milhões de pessoas em quatro anos).

O que fazer para reverter esse quadro? Só há uma coisa a ser feita: melhorar a qualidade do nível de ensino nas escolas. Os resultados devem surgir em um prazo que não é curto, mas é necessário desenvolver iniciativas nesse sentido desde já, com urgência. A preocupação não deve ser só disponibilizar lugar nas escolas, mas dar qualidade de ensino e criar condições para uma boa aprendizagem. E isso é fundamentalmente questão de política pública. É um direito do cidadão, previsto na Constituição. É preciso acabar com essa tendência de querer entregar para a iniciativa privada atribuições próprias dos poderes públicos, como educação, saúde e segurança.

O problema é geral ou se localiza mais em escolas públicas? Uma recente pesquisa feita pelo Instituto Paulo Montenegro, vinculado ao Ibope, em conjunto com a Organização Não-Governamental Ação Educativa, de São Paulo, foi bem reveladora. Ela apresentou um resultado nada animador com relação ao nível de letramento do povo brasileiro. A avaliação teve uma amostragem significativa, com jovens e adultos oriundos de escolas públicas e particulares. Portanto, a questão não é se a escola é pública ou privada. É preciso falar em escolas com ou sem qualidade, até porque, como se sabe, existem escolas particulares boas e ruins em termos de qualidade, da mesma forma que as escolas públicas.

A dificuldade de letramento está mais concentrada em que região do País? O problema é geral. De Norte a Sul, de Leste a Oeste, nas grandes capitais ou em pequenas cidades brasileiras, sem distinção. Só existem raras exceções, em cidades que têm uma rede de ensino menor e mais concentrada. Mesmo assim, representam quase nada em comparação com o todo.

Até que ponto a qualidade dos produtos culturais oferecidos diariamente ao público influencia o baixo nível de letramento dos jovens? Acho que não há tanta ligação. Claro que há uma relação estreita entre língua oral e escrita, mas essa interação é normal, pois a língua é algo vivo. Em países com melhores níveis de educação que o Brasil, também há programas de TV ruins e músicas de péssima qualidade. Não é exclusividade do nosso País. A raiz do problema está na sala de aula, onde as coisas acontecem. É lá que os professores têm que desenvolver nos alunos as habilidades para compreender textos e utilizar os conhecimentos adquiridos.

Que barreiras um jovem com dificuldades de compreensão de textos enfrentará quando adulto? Inúmeras são as barreiras. Nas sociedades atuais, a escrita tem um papel fundamental. A pessoa depende do completo domínio da leitura em todos os aspectos de sua vida pessoal e profissional. Sem esse domínio, a pessoa não tem condições de exercer a cidadania em sua plenitude, porque muitas vezes sequer conhece os seus direitos e, o que é pior, não sabe como exigir o cumprimento deles. E quando é cumprido, ainda acha que é um favor.

Não seria do interesse dos políticos tradicionais, que exploram a ignorância popular, a manutenção desse quadro? Acho perigoso essa síndrome de que os políticos agem por má-fé. Não acredito que alguém em sã consciência condene milhões de pessoas ao analfabetismo por causa de projetos políticos. Seria assombroso. A questão é a secular falta de preocupação com a educação. Falta vontade política para resolver o problema. Nos momentos em que houve essa vontade, o esforço foi em uma direção que não era adequada. Atacou-se o inimigo errado, com iniciativas errôneas na área da educação. Fala-se muito em construir escolas, em aumentar a quantidade de anos obrigatórios em sala de aula, mas não se trabalha em cima dos fatores que realmente importam.

E quais são esses fatores? O foco deve ser em cima dos responsáveis pela transmissão do conhecimento: os professores. Os fatores convergem para esse ponto comum. Deve-se investir na formação dos educadores, promover constantemente cursos de atualização e reciclagem, além de incentivar esses profissionais com o pagamento de salários dignos e justos. Ao lado disso, é preciso melhorar profundamente as condições de trabalho nas escolas. Esse é o ponto fundamental da questão do ensino no País.

Lúcio Fonseca

Fonte: Rede Pitágoras

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