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CIÊNCIA E RELIGIÃO

Ciência pode ter fé e religião, conhecimento?

Ciência e religião são práticas humanas freqüentemente vistas como opostas ou excludentes. As religiões têm preceitos mais estáveis, mas as ciências alteram seus preceitos e mudam as interpretações dos fatos. A fé religiosa não se baseia em comprovações materiais, ao passo que convicções científicas são contestadas por experimentações. Talvez por isso, a ciência tem sido considerada uma ameaça por certos religiosos, assim como a religião tem sido vista como obscurantista por certos cientistas.

As contradições entre esses dois campos da cultura têm produzido tensões por vezes trágicas: é difícil salvar vidas de certas crianças enfermas, quando a religião de seus pais proíbe transfusões de sangue; religiosos fundamentalistas ainda hoje tomam como heresias as teorias evolucionistas, pela mesma interpretação da bíblia com que, no século 16, o Tribunal da Inquisição condenou Giordano Bruno à morte na fogueira. No entanto, há cientistas religiosos, como Georges Lemaitre, abade belga que há quase um século compreendeu a expansão evolutiva do universo. Ele me lembra outro belga, Jan Talpe, que foi meu colega na Universidade de São Paulo; padre e bom físico, ele também se opôs à ditadura, que o aprisionou, torturou e deportou. Para estes e outros cientistas religiosos, o conhecimento da natureza não os afastava de Deus, mas os aproximava.

No entanto, para ciência e religião conviverem, depende de como se faz ciência e se pratica religião: para religiosos sectários, qualquer convicção além da sua é inaceitável; para cientistas arrogantes, qualquer conhecimento não científico é misticismo ou fraude. De fato, são visões de mundo distintas; mesmo que se usem métodos, como o do carbono catorze, para datação radiativa de relíquias sacras, é tão inútil provar cientificamente a existência ou a inexistência de Deus, quanto refutar ou confirmar resultados científicos, com base em convicções religiosas.

Sendo ambas dimensões da cultura, ciência e religião certamente também têm elementos em comum. Preceitos religiosos, como os de solidariedade ao próximo ou o de veto ao incesto, podem ser vistos como importantes sabedorias ancestrais. Desde o início das civilizações, há mais seres humanos que atendem a princípios ético-morais por conta das religiões, do que por obediência a leis seculares ou princípios filosóficos. Nessa medida, pode-se atribuir a religiões, além de seu componente de transcendência, uma sabedoria que tem servido à vida em sociedade.

Em contrapartida, as investigações científicas, ao produzirem conhecimento, também desenvolvem pontos de fé, convicções partilhadas por seus praticantes. Princípios como o da conservação da energia são exemplos de "dogmas da fé científica". Quando Enrico Fermi, um dos pioneiros da física nuclear, interpretou a radiação beta como sendo a emissão de um elétron por núcleos instáveis, considerou duplamente inaceitável perceber que a energia e a quantidade de movimento angular pareciam não se conservar, ao nêutron se transmutar em próton. Sem titubear, garantiu que junto do elétron se emitiria outra partícula, não visível e somente detectada anos depois, que respondia pelas quantidades faltantes. Ou seja, para salvar o dogma, simplesmente "inventou" o neutrino!

Portanto, ciência pode exigir fé, o que parece ser próprio das religiões, assim como religiões ou filosofias podem promover sabedoria, algo que se espera das ciências. A ciência surgiu depois das religiões, mas não as substitui, nem substitui as filosofias. Enormes desafios de nossos dias, como o da sustentabilidade sócio-ambiental, exigem que se combinem conhecimentos transformadores das ciências com sabedorias duradouras, mais próprias das filosofias ou das religiões, sem sectarismos de parte a parte. É claro que precisaremos também nos acautelar diante de problemas que envolvem estas práticas humanas, como as ciências a serviço da destruição ou as religiões a serviço do poder; e também vice versa, pois até mesmo alguns vícios elas têm em comum...

Fonte: www.novaescola.com.br

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