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Escrever é comprometer-se

A palavra texto significa "tecido". Com efeito, o texto é um tecido composto de palavras que se reúnem em frases, períodos e parágrafos. Mas antes de assumir essa forma, o texto começa na mente de quem vai escrevê-lo.

Aí é que reside o grande problema do ensino de "redação": Ensinam-se técnicas, macetes, dicas, truques, fórmulas pré-fabricadas de textos, esquemas, roteiros etc., mas não se ensina a pensar.

Tem sido comum, nas aulas de redação, a prática de sugerir aos alunos que escrevam sobre um assunto em relação ao qual, na maioria das vezes, não têm sequer afinidade ou aproximação com suas experiências de vida. A essa prática não se agrega um componente fundamental que é o de levar os alunos a se debruçarem sobre a questão proposta, a discutirem a matéria, a questioná-la, a enxergá-la de diversas facetas.

Em outras palavras, os alunos não são levados a pensar sobre o assunto; não se propõe uma discussão na qual possam expor o que pensam relativamente à questão. As aulas de redação têm sido momentos enfadonhos dos quais os alunos participam mais para se verem livres da tarefa do que para terem a oportunidade de exteriorizar suas opiniões; mais para receberem notas do que para assumirem um compromisso intelectual.

No entanto, "o escrever" é comprometer-se intelectualmente; é assumir antes um compromisso com você mesmo diante do que pensa sobre o assunto, sobre aquilo em que acredita, sobre aquilo que forma seu conjunto de valores e concepções do mundo. Escrever é conhecer-se; como dizia Clarice Lispector, "é lembrar-se do que nunca existiu"; e, segundo Roland Barthes, "é espantar-se".

Espantamo-nos à medida que conhecemos um pouco mais sobre nós mesmos, sobre o que nos impulsiona, sobre o que nos mantém ligados à existência etc.

Mas nada disso parece merecer a atenção de nossos alunos e professores, que se encontram num ensino de redação cujo foco consiste em distanciar cada vez mais os alunos de constituírem os sujeitos de seu próprio dizer, de seu próprio texto, que se assenta em experiências de vida, pessoal e intransferível.

Daí o medo da ‘folha em branco’, dos bloqueios que costumam vir associados ao ato de escrever. Porque o escrever, na maior parte das vezes, esteve ligado a um ato que gerou mais frustração do que prazer, que causou mais traumas que benefícios, que serviu mais para aferir a correção gramatical do que para aferir a capacidade de organização textual-discursiva, que sempre esteve associado mais a um dom de poucos do que a uma habilidade que todos podem adquirir.

O escrever sempre gerou medo. Temos medo de escrever porque não sabemos pensar. Porque à proporção que o ensino nos levava a não pensar, nos levava também a ter medo de escrever. E escrever, dentro dessa concepção, pressupunha conhecer as regras gramaticais, que o ensino também não nos ensinava. Somos um misto de sem-língua, sem-texto, sem-escrita, sem-pensamento com outra porção bem grande de com-medo, com-frustração, com-bloqueios. O resultado, como se vê, não é nada animador.

Devemos mudar o foco de nossas aulas de redação alterando as estratégias, transformando o ‘medo de escrever’ em ‘prazer de escrever’. Quando há prazer, tudo fica mais fácil; é mais gostoso, não percebemos o passar das horas, nos sentimos superbem, ficamos de bem com a vida. É hora de ficarmos de bem com o ato de escrever, conferindo-lhe prazer e não o medo.

Sérgio Simka

Professor universitário e autor de Ensino de Língua Portuguesa e Dominação: por que não se aprende português?

Fonte: www.moderna.com.br

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