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Função Social da Leitura da Literatura Infantil

RESUMO

A laicização da literatura, instalada com o Romantismo, muda a concepção da leitura. A aprendizagem da leitura, transformada em prática social e servindo de legitimação da burguesia, possibilita a emancipação da criança e a assimilação dos valores da sociedade. Nos seus primórdios, a literatura infantil tem função formadora, ao apresentar modelos de comportamento com a finalidade de reforçar os valores sociais vigentes. A literatura infantil contemporânea oferece uma nova concepção de texto escrito, aberto a múltiplas leituras, questionamentos e reflexões. A biblioteca escolar desempenha um papel relevante no despertar o gosto pela leitura da literatura infantil. O bibliotecário, consciente de sua função de educador, prioriza a leitura de textos de qualidade que desenvolvam a capacidade crítica da criança.

1 INTRODUÇÃO

Ao buscar no grego o pleno sentido de ler como sendo legei – temos colher, recolher, juntar, que no latim transformou-se em lego, legis, legere – juntar horizontalmente as coisas com o olhar. Entretanto, os latinos também usavam interpretare para ler, mas com um significado mais profundo, o de ler verticalmente, sair de um plano para outro, de forma transcendente. Nesse sentido, a leitura ultrapassa o passar de olhos por algo, mas vai além do visualizar, aventurando-se no desconhecido para uma plena compreensão do sentido das coisas.

Se a escritura se configura como um meio transmissor de informação, a leitura se configura como um meio de aquisição do que se passa ao redor do homem. A leitura é, portanto, um ato social, e como tal, uma questão pública.

Tem-se como assertiva que a criança, ao realizar a leitura de textos literários, não passa apenas os olhos pela página impressa. Busca um sentido nas palavras, aventura-se no desvendamento do enigma do código escrito.

A quantidade dos textos literários infantis no mercado livreiro propicia a criação de diversos públicos-leitores, cada qual com sua preferência. Mas, induzido pelo autor, pode o leitor-criança ser ingenuamente levado no rol das ideologias dominantes, visto que é o adulto (com seus valores) que escreve o texto literário infantil. Entretanto, no decorrer de muitas leituras e à medida que vai ganhando experiência, pode esse leitor inferir sentidos à leitura, ou, como diria Iser (1999), preencher as lacunas do texto.

O discurso literário infantil apresenta-se em uma linguagem carregada de ideologia. O uso social desse discurso reforça a estrutura vigente e, portanto, cabe à leitura preparar a criança para refletir sobre os valores da sociedade.

No presente artigo, resgata-se a função social da arte e da literatura, a função social da literatura infantil, a função social da leitura, e a função social da biblioteca escolar como disseminadora da leitura da literatura infantil.

2 A FUNÇÃO SOCIAL DA ARTE E DA LITERATURA

A arte implica atividades de construção, expressão e conhecimento. Possui técnicas peculiares, nascidas da intencionalidade de “fazer artístico”. E configura-se, segundo os teóricos, no motivo principal da interação do homem com o universo, com o outro e consigo mesmo.

Na Idade Média, coube à arte “revelar o divino”, pois a concepção da beleza relacionava-se exclusivamente com Deus. Por outro lado, no Renascimento, buscou-se o ideal de perfeição humana que fosse ao mesmo tempo estético, moral e espiritual. A partir da Modernidade, identificada com a ascensão da burguesia e com a ideologia do Romantismo, a obra de arte passa a incluir a destinação ideológica, sem, contudo, perder a magia que lhe é peculiar.

Na atualidade a arte torna-se mais necessária, pois o homem contemporâneo anseia superar o cotidiano, absorver o mundo e controlar a realidade. Porém, deve-se recordar que a obra de arte é representativa da classe dominante e tenta mascarar as diferenças sociais existentes. Não existe, entretanto, obra artística desvinculada do contexto histórico no qual é produzida. Todo o “fazer artístico” cumpre uma prática ética e social. É, por conseguinte,

Enc. Bibli: R. Eletr. Bibliotecon. Ci. Inf., Florianópolis, n. 15, 1º sem. 2003

uma ideologia, podendo ou não se comprometer, em grau diversificado, com o mundo referencial.
Pode-se dizer, então, que a arte é social porque sofre ação do meio e exerce influência sobre ele. Muito embora perceba a imbricação meio/obra – obra/meio, Candido concentra-se mais nas indagações acerca das influências do meio sobre a obra. Ao afirmar que a arte é a expressão da sociedade, Candido (2000, p.20) apresenta a idéia de que

A arte é social nos dois sentidos: depende da ação de fatores do meio, que se exprimem na obra em graus diversos de sublimação; e produz sobre os indivíduos um efeito prático, modificando a sua conduta e concepção do mundo, ou reforçando neles o sentimento dos valores sociais.

A arte, sendo social, liga-se aos valores ideológicos vigentes que o artista utiliza nos seus temas e causa impacto quando se comunica com seu público. Por esse motivo, a obra está completa somente no momento de interação artista/público, quando seus efeitos se fizerem sentir nesse último.

A esse respeito, expressam-se Yunes e Pondé (1988, p.10): “um dos papéis da arte na vida social, hoje [...] é a formação de um novo homem, uma nova sociedade, uma nova realidade histórica, uma nova visão do mundo”. A obra literária é, então, “um objeto social; para que exista é preciso que alguém escreva e um outro a leia” (YUNES; PONDÉ, 1988, p. 38).

Candido (2000) observa que a literatura desempenha o papel de instituição social, pois utiliza a linguagem como meio específico de comunicação e a linguagem é criação social. Observa, também, que o conteúdo social das obras em si próprias e a influência que a literatura exerce no receptor fazem da literatura um instrumento poderoso de mobilização social.

Ao considerar que “a arte e a literatura são atividades permanentes, correspondendo a necessidades imperiosas do homem e da sociedade”, Candido (1995, p.16) também confirma a função social de ambas.

3 A FUNÇÃO SOCIAL DA LITERATURA INFANTIL

A laicização da literatura, na época moderna, instalada com o Romantismo e servindo de legitimação à burguesia, muda a concepção da leitura. O resgate da dimensão social da literatura, pela burguesia, tem repercussões até nossos dias. A nova escritura, além de atingir e influenciar o público adulto, privilegia textos direcionados às crianças com o intuito modificar o comportamento infantil ao reforçar os valores sociais vigentes que são apresentados como modelos a serem assimilados e seguidos.

Portanto, não é temerário afirmar a função social da literatura infantil, pois é na infância que se forma o hábito da leitura. Nos seus primórdios, a literatura para crianças tem função formadora: apresenta modelos de comportamento que facilitam a integração da criança na sociedade. Lajolo e Zilberman (1999) acreditam que a valorização da família na sociedade burguesa é a mola mestra que transforma a leitura em prática social, quando constitui atividade privada nos lares tendo o livro como instrumento ideal para a formação da moral burguesa. Desde então, segundo as Autoras, “ser leitor, papel que, enquanto pessoa física, exercemos, é função social, para a qual se canalizam ações individuais, esforços coletivos e necessidades econômicas” (LAJOLO; ZILBERMAN, 1999, p. 14).

A literatura infantil aparece nesse contexto histórico-social definido: a ascensão da burguesia e a posição que a criança passa a assumir na família. Segundo Lajolo e Zilberman (1999), a nova unidade familiar, centrada no pai-mãe-filhos e fortalecedora do Estado, privilegia a criança como um ser merecedor de atenção especial com status próprio, para o qual convergem as preocupações com a saúde, a educação e a religiosidade.

Ao historiar os princípios da educação e instrução oitocentista no Brasil, Mauad (1999) registra que paralela à literatura de caráter universal, prevalecia uma literatura de cunho moralista, própria do século XIX, direcionada à infância e à adolescência: formadora de caráter, de moral identificável, com modelos de virtude, amor e desprendimento a serem seguidos pelas crianças e jovens. Os títulos já indicam o seu conteúdo: Modelos para os meninos ou rasgos de humanidade, piedade filial e de amor fraterno, publicado em Recife em 1869 e que consiste numa coleção de historietas recheadas do código moral vigente; e As manhãs da avó : leitura para a infância, publicado pela Garnier em 1877, com várias histórias morais dedicadas às mães de família que norteariam seus filhos nos princípios , usos e costumes de nossa terra.

Entretanto, pode-se lembrar que a literatura infantil brasileira desenvolveu-se, segundo Riche (1999, p.130), “na virada da modernidade para a pós-modernidade e vai refletir esteticamente esse sistema social complexo vivendo entre o pré-capitalismo de algumas regiões [...] e as grandes cidades”.

Tem-se, então, uma cena social plural, com duas realidades distintas no território nacional: de um lado – crianças com pouco ou nenhum acesso ao livro infantil e à leitura, e, de outro – facilidade incrível aos bens de consumo, entre eles a literatura para crianças.

Muito embora se conviva com tal disparidade no Brasil, o que se pretende destacar, entretanto, é que na atualidade, o livro infantil apresenta a realidade – os problemas sociais, políticos e econômicos. Ao assim fazer, não foge do lúdico, pois continua a transmitir emoções, a despertar curiosidade e a produzir novas experiências. Por outro lado, desempenha uma importante função social que é fazer com que a criança perceba intensamente a realidade que a cerca.

A função social da literatura é facilitar ao homem compreender – e, assim, emancipar-se - dos dogmas que a sociedade lhe impõe. Isso é possível pela reflexão crítica e pelo questionamento proporcionados pela leitura. Se a sociedade buscar a formação de um novo homem, terá de se concentrar na infância para atingir esse objetivo.

Nesse sentido, pode-se dizer que o movimento da literatura infantil contemporânea, ao oferecer uma nova concepção de texto escrito aberto a múltiplas leituras, transforma a literatura para crianças em suporte para experimentação do mundo. Dessa maneira, as histórias contemporâneas, ao apresentarem as dúvidas da criança em relação ao mundo em que vive, abrem espaço para o questionamento e a reflexão, provenientes da leitura.

Por outro lado, os contos clássicos não impedem o raciocínio lógico, porque não embotam a inteligência da criança. Envolvem, isto sim, o aguçar de sua sensibilidade artística e o equilibrar o sonho com o real. É um jogo estimulante – a criança sabe que o que está lendo não é verdade, mas finge acreditar – é a magia do imaginário, tão necessária ao desenvolvimento infantil.

De acordo com Silva (1986, p.21), a leitura do texto literário “pode se constituir num fator de liberdade e transformação dos homens”. Em conseqüência, pode-se dizer que tanto a leitura do texto maravilhoso quanto a leitura do texto realista cumprem o papel social de transformar a infância, na medida em que fazem a criança pensar criticamente.

Cumpre lembrar que o texto artístico somente pode desenvolver sua função social em uma coletividade contemporânea que compreenda os códigos culturais. Tais códigos fazem parte do conhecimento acadêmico e são uma forma de poder e uma fonte de sobrevivência. O conhecimento é mantido, difundido e estocado pelo livro, seja o de papel, seja o eletrônico, pois sua forma de transmissão não é via oral, é pela leitura.

4 A FUNÇÃO SOCIAL DA LEITURA

É ponto aceito sem contestação que a leitura do texto escrito constitui uma das conquistas da humanidade. Pela leitura, o ser humano não só absorve o conhecimento, como pode transformá-lo em um processo de aperfeiçoamento contínuo. A aprendizagem da leitura possibilita a emancipação da criança e a assimilação dos valores da sociedade.

Como diz Silva (1985, p.22-23), “a leitura, se levada a efeito crítica e reflexivamente, levanta-se como um trabalho de combate à alienação (não-racionalidade), capaz de facilitar ao gênero humano a realização de sua plenitude (liberdade)”. Dessa forma, a leitura se caracteriza como sendo uma atividade de questionamento, conscientização e libertação. O Autor questiona se a sociedade permite a presença desses leitores críticos e transformadores; vê a leitura como causadora de bem-estar do povo; e coloca a questão da circulação do livro que não se processa democraticamente para toda a população.

No seu primeiro momento de assentamento, o modelo burguês de integração da criança na privacidade e no afeto familiar estende-se também à classe proletária, não com tanta intensidade e com outros objetivos: diminui o custo, social do Estado, que até então mantinha institutos de caridade para cuidar do menor abandonado.Essa criança, criada a partir de agora no seio de uma família pobre, mas unida, contribuirá para sua manutenção, uma vez que trabalhará precocemente. A criança burguesa é separada socialmente; recebe seu próprio espaço de atuação – a escola - isolando-se do mundo dos adultos. A criança proletária, por outro lado, muito embora estando inserida no contexto escolar, tem acesso às ruas e sua formação é mesclada, consistindo em uma educação formal e informal.

Dessa forma, a leitura, decorrente da necessidade da burguesia de expandir o conhecimento, socializou a informação, não mais se restringindo a uma classe privilegiada – a aristocracia. O ensino obrigatório à criança pobre serviu, também, para sanar, em parte, um grave problema social; o desemprego do adulto, até então preterido em favor de uma mão de obra barata e lucrativa.

A sociedade burguesa transformou a leitura em prática social, mas, paradoxalmente, observa-se que o corte social se faz, sobretudo, pela leitura. Em decorrência do ideal da igualdade proclamado pela burguesia, cria-se um espaço de escola democrática. Contudo, a educação oferecida direciona-se à classe mais favorecida. O contexto social vigente prepara a criança burguesa para assumir funções de direção e a criança proletária para desempenhar seu papel de comandada. A não acessibilidade ao livro e à leitura a todas as classes sociais é uma falha no processo de socialização do indivíduo, pois a capacidade de interpretar o código escrito e de usufruir a beleza das palavras é essencial à dignidade humana em uma sociedade que privilegia a escritura e que se afasta da oralidade. A iniciação estética proporcionada pelo livro leva o indivíduo à insatisfação com o cotidiano e faz nascer nele o desejo de mudança de uma vida medíocre para uma vida plena.

Se até o século XIX a leitura foi privilégio de uma minoria,no século XX e no atual já não se pode dizer o mesmo. Apesar de mal compartilhada, reconhece-se que é um direito de todos. O analfabeto não sabe ler e nem escrever, mas o iletrado funcional é incapaz de ler e escrever o mínimo necessário à vida profissional. Em que pese o nível de desenvolvimento dos países, os iletrados funcionais atingem a casa dos milhões só nos Estados Unidos e França, conforme estudo de Morais (198-). O Autor demonstra como o desenvolvimento econômico exige que todos saibam ler e o façam com facilidade. Isto é exigido não só no trabalho, como também nos afazeres cotidianos. Aumenta vertiginosamente a demanda social da leitura, uma vez que a sociedade está passando por rápidas transformações e a informação se multiplica assustadoramente. A mão-de-obra necessita cada vez mais de especialização, o que implica em mais leituras e leituras mais consistentes. O desemprego aumenta na mesma proporção em que aumenta a riqueza porque já não é necessário tanto trabalho para produzir os bens. A automatização substitui o trabalho braçal e aumenta o nível de exigência em termos de capacidade de leitura. Daí ser alarmante o número de crianças de lares de baixa renda que não dominam a leitura e saem da escola sem estar de fato alfabetizadas. Essas crianças chegam à idade adulta com dupla desvantagem: a de serem pobres e iletradas. Essa disparidade social e cultural aumenta a distância das oportunidades de trabalho e constitui um sério problema ao desenvolvimento de qualquer país.

Em que pese a escolaridade obrigatória no ensino fundamental, pode-se dizer que a alfabetização insere o indivíduo no mundo da escrita e da leitura textual mas não garante sua plena atuação em virtude de outros fatores: recursos financeiros para adquirir o livro, tempo para freqüentar bibliotecas e a falta de um projeto social que desperte a consciência crítica por meio da leitura.

Silva (1985, p.24) afirma que “com raras exceções em pontos isolados do processo histórico brasileiro, não houve a preocupação em se desenvolver uma política ‘honesta’ que promovesse o homem brasileiro em toda a sua plenitude”. Assim sendo, os bens culturais, no Brasil, têm uma distribuição injusta, restringindo-se às elites. As classes trabalhadoras encontram-se em desvantagem para produzir e expressar suas idéias porque não tiveram o direito de ser leitoras.

Vale lembrar que o destino da leitura está ligado às instituições especializadas – escola, biblioteca – e à sociedade como um todo. Leitura, conhecimento e cultura estão interligados. Perrotti (1990, p. 75) alerta sobre a urgência de apresentar a leitura como “atividade natural e reconhecida pelo e no grupo social” para conferir à infância identidade sócio-cultural.

5 O PAPEL SOCIAL DA BIBLIOTECA ESCOLAR COMO DISSEMINADORA DA LEITURA DA LITERATURA INFANTIL

A biblioteca escolar é o local por excelência para apresentar a leitura como uma atividade natural e prazerosa, posto que, para muitas crianças, configura-se como a única oportunidade de ter acesso aos livros que não são didáticos.

Em que pese, entretanto, a ausência de bibliotecas nas escolas públicas, quando existe tal espaço privilegiado e o mesmo conta com o profissional bibliotecário, sua responsabilidade de fomentar a leitura não diminui se ele dispõe apenas de uma coleção pequena de livros ficcionais infantis.

O bibliotecário de biblioteca escolar, que, entre outras, acumula as funções de educador e disseminador da leitura, deve preocupar-se com a quantidade de dogmatismo presente na literatura infantil para, na ocasião de montar ou atualizar seu acervo de obras literárias, realizar uma seleção que propicie à criança textos de qualidade, que seduzam para o exercício da reflexão, textos questionadores, conquanto lúdicos. Sua criatividade e perseverança para captar recursos serão postas à prova. Visitas às livrarias solicitando exemplares grátis, participação nas reuniões pedagógicas reforçando a idéia da necessidade de melhorar o acervo, contatos com a comunidade apontando a biblioteca como centro cultural e não como armazenadora de livros (visando doações) – são algumas atitudes que poderão garantir um aumento quantitativo e qualitativo da literatura infantil. Esse é o primeiro passo. O segundo é selecionar – separar o didático, o informacional e o lúdico. Dentre esse último, verificar quais os textos literários infantis que proporcionam à criança aguçar seu senso crítico.

Neste sentido, é mister recordar Ribeiro (1994), que lista nove itens como auxílio na avaliação do conteúdo de livros, baseados no Conselho Internacional de Livros Para Crianças e utilizado no Estado da Califórnia. As sugestões do Conselho Internacional contemplam a análise: a) nas ilustrações – a representação de estereótipos das minorias; b) no texto - de atitudes racistas e sexistas de maneira dissimulada ou não; c) no estilo de vida - julgamento desfavorável de valores das minorias; d) no relacionamento – se a liderança cabe sempre aos brancos; e) nos heróis – existem heróis negros?; f) no efeito sobre a imagem das crianças – a cor negra está associada com o mal e o sujo? g) no sentido das palavras – quais os adjetivos utilizados para referir-se às minorias?; h) no autor – verificar a intencionalidade e o grau de imparcialidade; i) na literatura dentro de uma perspectiva histórica – verificar o contexto cultural.

Claro está que, para fazer tal avaliação, o bibliotecário necessita ler todo o acervo infantil disponibilizado na biblioteca escolar. Isto significa que ele precisa modificar seu paradigma de leitura. A leitura técnica – suficiente para a catalogação, classificação e indexação, não basta para a análise e observância das perspectivas, dos enfoques, das posturas, da densidade e da condensação textual e dos valores vinculados no discurso escrito.

Ler ou não ler – eis a questão. Se o bibliotecário pretende assumir a posição de agente disseminador da leitura da literatura infantil, precisa gostar de ler, tem de ler e deve incentivar a leitura.

Ao enfocar a leitura como fator de cidadania, deve ter como metas a serem cumpridas no espaço da biblioteca escolar: o congregar ou reunir crianças para ouvir histórias; despertar nas crianças o desejo de ler ou contar histórias às outras; desembaraçar atitudes, abolir inibições e a timidez, por meio de reprodução oral das leituras; ressaltar os diferentes tipos de temperamentos encontrados nas personagens das histórias, a fim de que as crianças aprendam a conviver em sociedade; propiciar a reflexão e o questionamento.

Lembrando que a leitura não é mera decodificação, mas, acima de tudo, interpretação, e, segundo o pensamento moderno, a criação de um novo texto, deve, sobretudo, viabilizar atividades que instiguem a escritura e o registro do discurso infantil, seja em forma de prosa, seja em forma de poesia. Para tanto, pode organizar exposições e concursos literários, fomentando o gosto pela leitura e pela escrita.

O enfoque dado às bibliotecas escolares é, quase sempre, o de suporte informacional ao estudo e à pesquisa. De acordo com Stumpf (1987), entretanto, constituem-se funções da biblioteca escolar desempenhar um papel educativo (apoio no desenvolvimento das atividades curriculares), um papel político (democraticamente possibilitar a todos os alunos o acesso aos livros ), um papel cultural (depositária dos conteúdos da cultura) e um papel social (centro de lazer da comunidade escolar).

Muito mais do que um espaço educativo e um centro de recursos documentais, a biblioteca escolar deve ser, acima de tudo, geradora de novos talentos. Isso será possível apenas se o bibliotecário escolar abdicar de sua mera condição de técnico e gestor da informação para assumir a posição mais ampla de educador, compromissando-se com o corpo discente a fomentar a leitura de textos literários infantis com o propósito de estimular o senso crítico e a veia artística da criança-aluno.

Transformar o silêncio sepulcral considerado adequado ao ambiente da biblioteca em vozes que discutem o texto impresso é resgatar o prazer da leitura e quiçá garantir sua continuidade fora dos bancos escolares, pois, “ se fosse possível imaginar uma estética do prazer textual, cumpriria incluir nela: a escritura em voz alta” ( BARTHES, 1999, p. 85, grifo do autor).

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com a avalanche de conhecimento impresso e disponível, o papel da literatura é desenvolver nas pessoas, principalmente nas crianças, um espírito analítico e crítico, o que não acontece quando a oportunidade lhes é negada.

Quando, no século XVIII, os mediadores do texto literário, sacerdotes e críticos, cederam espaço à figura do leitor-intérprete, foram abertas infinitas possibilidades de dar sentidos à leitura. A partir dessa premissa ler é sempre interpretar, e a leitura tem uma dimensão social. Provoca, enriquece e encaminha à reflexão.

Por si só, a questão da diversidade de interpretação é uma forma de democracia, ao permitir que o texto literário seja o lugar da discordância de múltiplas vozes e leituras.

Dessa forma, a leitura, enquanto oportunidade de enriquecimento e experiência é primordial na formação do indivíduo e do cidadão. A formação de leitores se configura como imperativo da sociedade atual. Pessoas afeitas à leitura, aptas a penetrar os horizontes veiculados em textos mais críticos, são pessoas capazes de melhor desempenho em suas atividades e apresentam melhor aptidão para o enfrentamento dos problemas sociais.

Se, por um lado, a leitura pode ser um instrumento de dominação, por outro lado é um instrumento de cidadania. E, muito embora a leitura não seja o único caminho para a cidadania, ela constrói a cidadania à medida que o homem se constrói dentro dessa sociedade. Para que o homem se “construa” dentro da sociedade, precisa ele de conhecimento – uma forma de poder e uma fonte de sobrevivência.

Complementam-se conhecimento, leitura e cidadania, pois sem leitura não há formação, nem conhecimento, nem cidadania. E sem cidadania não pode existir exatamente uma sociedade.

O ato de ler é, pois, uma ação política, e por isto pode-se dizer que o acesso à leitura depende da organização da sociedade e do Estado, que ajuda a mantê-la e a reproduzi-la.

O domínio da capacidade de leitura gera maior mobilidade dos grupos humanos, aumento qualitativo da capacidade crítica e crescimento de seu potencial reivindicatório. A leitura, portanto, dá voz ao cidadão, no sentido de que sua interpretação pode gerar a transformação do mundo.

Agente disseminador da leitura, o bibliotecário de biblioteca escolar assume o compromisso com a criança de proporcionar-lhe textos de qualidade, que intervenham na formação das mentes e seduzam para o exercício da reflexão.

REFERÊNCIAS

BARTHES, Roland. O prazer do texto. Tradução de J. Guinsburg. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 1999. CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. 8.ed. São Paulo: Queiroz, 2000. CANDIDO, Antonio. Literatura, espelho da América? Luso-brazilian Review, n.32, p. 15-22, 1995. ISER, Wolfgang. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético.Tradução de Johannes Kreschmer. São Paulo: Ed.34, 1999. 2 v. LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. A formação da leitura no Brasil. 3. ed. São Paulo: Ática, 1999. MAUAD, Ana Maria. A vida das crianças de elite durante o Império. In: DEL PRIORE, Mary (Org.). História das crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 1999. p. 137-176. MORAIS, José. A arte de ler. Tradução Álvaro Lorencini. São Paulo: Ed. UNESP, [198-]. PERROTTI, Edmir. Confinamento cultural, infância e leitura. São Paulo: Summus, 1990. RIBEIRO, Maria Solange. Desenvolvimento de coleção na biblioteca escolar: uma contribuição à formação crítica sócio-cultural do educando. Transinformação, v. 6, n. 1/3, p. 60-73, jan./dez. 1994. RICHE, Rosa Maria Cuba. Literatura infanto-juvenil contemporânea: texto/contexto - caminhos. Perspectiva, Florianópolis, v.17, n.31, p. 127-139, jan./jun. 1999. SILVA, Ezequiel Theodoro da. Leitura e realidade brasileira. 2. ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985. SILVA, Ezequiel Theodoro da. Leitura na escola e na biblioteca. Campinas: Papirus, 1986. STUMPF, Ida Regina. Funções da biblioteca escolar. Cadernos do CED, Florianópolis, v. 4, n. 10, p. 67-80, jul./dez. 1987. YUNES, Eliana; PONDÉ, Glória. Leitura e leituras da literatura infantil. São Paulo: FTD, 1988.

Fonte: www.encontros-bibli.ufsc.br

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