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Identidade e Autonomia

3. O que trabalhar?

3.1 Imagem corporal

Espelho é elemento chave para a construção progressiva do "eu"

Imagem corporal
Exercícios em frente ao espelho ajudam os bebês a reconhecer a própria imagem

Um dos estágios mais importantes no desenvolvimento de qualquer pessoa é o que o psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981) denominou como estádio do espelho ("estádio", no caso, é sinônimo de fase ou período). Até mais ou menos os seis meses de vida, o bebê sente-se como parte de um corpo fragmentado - completado por sua mãe. Na medida em que cresce, adquire maior mobilidade, sofre intervenções do ambiente e deixa de ser amamentado, o bebê começa a perceber-se como um ser distinto. Quando colocado em frente a um espelho, ele progressivamente reconhece a imagem refletida de seu corpo e é a partir dessa experiência que o "eu" começa a ser construído.

Espelhos, portanto, são elementos imprescindíveis para a construção da identidade e devem estar em todas as salas na creche. Eles ajudam as crianças a ter consciência dos limites do próprio corpo e a observar os próprios movimentos, diferenciando-se dos colegas e do ambiente.

Mantenha-os baixos, na altura dos pequenos, e ofereça oportunidades para que eles façam caretas, dancem, comparem imagens e realizem desafios corporais em frente ao espelho.

Para os bebês também é possível imprimir cartazes com as fotos dos pequenos e colar no chão - já que eles engatinham - ou nos berços. Todas essas oportunidades de exploração vão ajudá-los a manter o contato com a própria imagem e a identificar a figura do outro.

Experiências que envolvam música e sensações também são bem-vindas, assim como as ações de cuidado com os bebês. Tomar banho, ser trocado ou mamar, por exemplo, são atividades essenciais para o reconhecimento de si e o estabelecimento de vínculos com o outro. À medida que percebe seu corpo separado do corpo do outro, a criança consegue organizar as próprias emoções e ampliar seu repertório e seus conhecimentos sobre o mundo que a cerca.

3.2 Regras e hábitos

Ações de autocuidado e de formação de vínculos são o cerne do trabalho

Regras de Convivência
Nas atividades em grupo, os bebês começam a aprender regras de convivência

Para desenvolver a capacidade progressiva de tomar decisões por conta própria, o bebê precisa de momentos de interação nos quais possa observar e ser estimulado a seguir regras estabelecidas dentro do grupo. Segundo o filósofo Immanuel Kant (1724-1804), o conhecimento se constroi, justamente, pela interação do homem com o meio - ideia retrabalhada na psicologia e nas investigações de cientistas como o suíço Jean Piaget (1896-1980).

Na fase de controle dos esfíncteres, por exemplo, é importante que a criança sinta-se incomodada com a presença de urina e fezes. Isso vai ajudá-la a, aos poucos, a abandonar a fralda e passar ao uso do penico e do vaso sanitário, o que acontece por volta dos 2 anos de idade.

A maior independência da criança passa, ainda, pelo domínio de ações de autocuidado - como ajudar o adulto a vesti-la (entre 2 e 3 anos) ou fazer a higiene das mãos, com ajuda. Mas a incorporação desses hábitos é gradativa e precisa ser devidamente estimulada por você na creche. Vale lembrar que o desenvolvimento das crianças não deve ser equiparado. Cada um tem o seu ritmo e deve ser observado como um ser único e competente para ser autônomo.

Os estudos de Piaget mostram que a criança não raciocina como os adultos e que a inserção de regras, valores e símbolos se dá gradualmente, até que se alcance a maturidade psicológica. Para ele, nos primeiros anos de vida, os pequenos conferem legitimidade a regras e valores determinados pelos adultos, já que mantêm vínculos afetivos com eles - especialmente pais e educadores. Apenas quando domina a chamada moral autônoma é que a criança tem maturidade para compartilhar regras e discuti-las com o grupo, levando em conta o próprio ponto de vista e as opiniões dos colegas.

Ao longo da rotina na creche encoraje a criança a realizar pequenas ações individuais e estimule os momentos de socialização com os colegas. Explique cada uma das ações de cuidado e valorize quando a criança conseguir expressar preferências ou desejos - seja por meio de gestos, do choro ou de palavras. Vale, também, demonstrar insatisfação quando a criança tomar uma atitude que destoe das regras estabelecidas para o grupo. A comunicação com diferentes parceiros é mais um ponto importante a ser trabalhado no desenvolvimento dos pequenos.

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