Facebook do Portal São Francisco Google+
+ circle
Home  Por Que A Informática Não Tem Melhorado Significativamente A Escola?  Voltar

Por que a informática não tem melhorado significativamente a escola?

Uma leitura, ainda que rápida, da literatura da área de Gerenciamento de Sistemas de Informação dos últimos 20-25 anos mostra que, durante boa parte desse período, as empresas, embora investissem pesadamente na automação de seus processos produtivos, comerciais e administrativos, não constatavam ganhos significativos de produtividade e rentabilidade, ou visível melhoria no escopo e na qualidade de seus produtos e serviços- pelo menos não a ponto de justificar os investimentos feitos.

Custou para que se percebesse que a mera automação de processos, sejam eles industriais, comerciais ou administrativos, concebidos para uma realidade tecnológica diferente, era equivalente ao "asfaltamento de trilhas de bois"- ganhos e melhorias podem aparecer, mas não são significativos, diante dos investimentos necessários e das expectativas geradas.

As novas tecnologias só começaram trazer retorno ao investimento e corresponder s expectativas, indo até mesmo além delas, quando se descobriu que uma nova realidade tecnológica exige uma nova maneira de fazer as coisas - não apenas um pequeno aperfeiçoamento na antiga - para que haja ganhos significativos de produtividade e melhoria na qualidade dos produtos e serviços. Não se faz cinema colocando câmeras para filmar uma peça de teatro que acontece no palco.

Assim, depois de um longo período de perplexidade, as empresas aprenderam (e as que não o fizeram não estão aqui para contar a história) que a mera introdução da tecnologia para automatizar ou alavancar processos (de produção, distribuição ou gestão) concebidos para a era industrial, embora trouxesse pequenos ganhos de eficiência, não as tornava capazes de atender às necessidades da era da informação - isto é, não as tornava eficazes na nova realidade que as confrontava. Para isso, foi necessário que elas se reinventassem, isto é, que reconcebessem o seu negócio, à luz das novas tecnologias disponíveis, e redefinissem a melhor maneira de promovê-lo, com o apoio dessas tecnologias. Foi nada menos do que isso que propôs a reengenharia de processos: recomeçar do zero, colocando em xeque até princípios supostamente inquestionáveis no mundo dos negócios, como a divisão do trabalho e a especialização...

Foi desta forma que a IBM, maior empresa de computadores do mundo, reconcebeu seu negócio como sendo a informação e se salvou da falência, e a ITT, maior empresa de telefonia do mundo, reconcebeu seu negócio como sendo a comunicação, e se salvou da obsolescência tecnológica. Apesar das deslavadas mentiras que a propaganda do governo federal proclama, a experiência tem mostrado que os resultados da introdução da tecnologia na escola têm ficado, até aqui e na maior parte dos casos, muito aquém das expectativas.

Na educação as coisas não serão muito diferentes do que foram no mundo dos negócios. Se, antes, a escola não se reinventar, a introdução da tecnologia (aí inclusos os meios de comunicação de massa) na sala de aula pouco contribuirá para a melhoria da qualidade da educação que a escola torna disponível à população. Estaremos apenas testemunhando, nesse caso, mais um exemplo de asfaltamento de trilhas de bois.

Para que a tecnologia possa contribuir decisivamente para a melhoria da qualidade da educação (pública ou privada), nada menos é necessário, hoje, do que reconceber as finalidades da educação e, por conseguinte da escola, para a nossa época, luz das novas tecnologias disponíveis, e, em seguida, "reengenheirar" a escola para que ela possa promover esses fins (isto é, ser eficaz), com a ajuda da tecnologia e em parceria com outras instituições que hoje se revestem de papel educacional (até porque a escola não vem exercendo seu papel a contento).

As concepções de educação como processo de transmissão da herança cultural da sociedade ou da humanidade ou como processo de formação (formar= dar forma a, modelar) as crianças e adolescentes segundo um projeto político necessariamente coletivo de educação, precisam ser descartadas, como concepções gerais de educação, em favor da concepção de educação como processo de desenvolvimento humano, processo esse que nos ajuda a elaborar nossos projetos de vida e a desenvolver as competências e habilidades necessárias para transformá-los em realidade- ou que nos ajuda a aprender a ser, a conviver, a fazer e a aprender, para usar os "Quatro Pilares" da UNESCO.

Essa nova concepção de educação requer uma nova escola, cujo currículo não esteja voltado para a transmissão de informações organizadas em disciplinas, mas, sim, para o desenvolvimento de competências e habilidades organizadas ao redor dos "pilares". Uma escola cujo método de trabalho não seja voltado para aulas expositivas, quebradas em segmentos de 50 minutos, e organizadas em séries, mas, sim, para o desenvolvimento de projetos de aprendizagem, voltados para os interesses dos alunos (individualmente ou agrupados em função dos seus interesses, não de sua idade), e, por isso, necessariamente, transdisciplinares. Enfim, uma escola que tenha como ator principal, não o professor, detentor das informações que a velha escola pretende transmitir, mas o aluno, de cujo desenvolvimento, de cuja aprendizagem e de cuja educação a escola deve se ocupar.

E é exatamente essa a preocupação de um dos programas desenvolvidos pelo Instituto Ayrton Senna, o Sua Escola a 2000 por Hora, que tem como parceiros a Microsoft, a Microtec e a TCO - Centro Oeste Celular. Esse Programa tem como objetivo propor caminhos para "reinventar o negócio" da escola e descobrir como "reengenheirar seus processos com o carro em movimento", ou seja, desenvolver uma verdadeira tecnologia social que, uma vez produzida e disseminada, poderá ajudar a escola brasileira a dar sua contribuição para que o país saia do vergonhoso 73º lugar em que se encontra no ranking de Desenvolvimento Humano divulgado pelas Nações Unidas (PNUD, 2002).

Eduardo Oscar de Campos Chaves, 58, é Professor Titular de Filosofia da Educação da Universidade Estadual de Campinas, onde se encontra desde 1974 e já foi Diretor da Faculdade de Educação e Pró-Reitor Administrativo. Também é Consultor do Programa "Sua Escola a 2000 por Hora" do Instituto Ayrton Senna (programa realizado em parceria com a Microsoft e, regionalmente, a TCO - Centro Oeste Celular), membro do Conselho Consultivo do Portal EducaRede da Fundação Telefónica, e Diretor da empresa Mindware - Tecnologia Educacional, com sede em Campinas. É autor de vários livros, entre os quais O Uso de Computadores em Escolas: Fundamentos e Críticas (com Valdemar W. Setzer) e Educação e Tecnologia: O Futuro da Escola na Sociedade da Informação. Seu livro Uma Nova Educação para uma Nova Era deve ser publicado no início do ano que vem pelo Instituto Ayrton Senna.

Eduardo O. Chaves

Fonte: www.redepitagoras.com.br

Sobre o Portal | Política de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal