Não, nós brasileiros não temos este direito, uma vez que o Brasil tem fome de pão e de justiça. A fome dói no estômago, dói na alma, diminui o raciocínio e afeta a dignidade. Há vinte e três milhões de brasileiros passando fome enquanto temos uma das maiores concentrações de renda do planeta! (Veja 23/1/2002) Que vantagens há em sermos a décima potência econômica, se o nosso povo não usufrui desta riqueza e se a nossa dívida social é cada vez maior?
"Maldito o país que consegue transformar a vítima em culpado, as crianças em ameaça, e declarar guerra a quem precisa, definitivamente, de amor."
Não, não temos o direito de pedir paz e abafar mais uma vez a exclusão social que traz a fome e a miséria em nosso país.
"Nós não queremos a paz dos pântanos, a paz enganadora que esconde injustiças e podridão."
Em vez de pedir, nós, cidadãos comuns, temos sim que trabalhar pela paz, deixando nossa posição cômoda, nosso egoísmo, nossa omissão e arregaçar as mangas.
Trabalhar pela paz é trabalhar pela globalização dos verdadeiros valores éticos. Lutar por uma JUSTIÇA sem armas de fogo e sem violência numa luta de raciocínios, de idéias e ideais. Usar e abusar do DIÁLOGO, para buscar soluções inteligentes para as injustiças. Assim como ninguém tem o direito de invadir nossas terras, de roubar ou de matar, ninguém também tem o direito de deixar mães nordestinas alimentarem seus filhos com água de cacto cozido! Precisamos punir os culpados pela violência com o objetivo de modificar o comportamento deles, não o de punir por punir. E quem são os culpados? Aqueles excluídos que assaltam e roubam ou é a sociedade que violenta o cidadão pobre, que o incentiva ao consumismo, mas não cria empregos e não faz investimentos sociais?
Neste país injusto, por que priorizar o setor de segurança? Trancafiando os excluídos na cadeia, estamos sim superlotando nosso sistema prisional e "balançando o berço" para que o crime se organize. O necessário é combater as causas da violência. Precisamos é retirar esta parcela da população da exclusão da terra, do emprego, da renda, do salário, da educação, da saúde, da economia, do lazer, da vida digna e da cidadania.
Trabalhar pela paz é também lutar pela globalização de outros valores éticos como o RESPEITO a si mesmo, o respeito à diversidade cultural e étnica e, ainda, o respeito ao meio ambiente. É ampliar os grupos de SOLIDARIEDADE e de VOLUNTARIADO. É buscar a SOBRIEDADE, lutando contra o desperdício, a futilidade e o esbanjamento que não dão retorno. É cobrar dos órgãos competentes a SUBSIDIARIDADE que deve dar suporte financeiro e técnico aos setores econômico-sociais fundamentais e deficitários.
Para finalizar, cito Molière: "Nós não somos responsáveis apenas pelo que fazemos, mas também pelo que deixamos de fazer".
(Artigo da autora publicado no Jornal de Opinião - 25 a 31/3/2002)