Eusébio, Lola, Mercedes, Dolores, Blanchette, depois Figueiredo (Eusébio entra no meio das mulheres; traz o chapéu atirado para a nuca, e um enorme charuto. Vêm todos alegres. Acabaram de jantar e lembraram-se de dar uma volta pelo Belódromo.)
Eusébio — Não, Lola! Tu hoje há de me deixá i pra casa! Dona Fortunata deve está furiosa!
Lola — Que dona Fortunata nem nada!
Mercedes — Havemos de acabar a noite num gabinete do Munchen!
Dolores — Não o deixamos!
Blanchette — Está preso!... E, demais, vamos ter chuva!
Eusébio — Na chuva já tou eu, se não me engano. Aquele vinho é bão, mas é veiaco!
Figueiredo (Aproximando-se.) — Olá! viva a bela sociedade!
Lola — Olha quem ele é! o Figueiredo!
Mercedes — O Radamés!
Dolores — Você no Belódromo!
Figueiredo — Por mero acaso... Não gosto disto... No Rio de Janeiro não há divertimentos que prestem! Não temos nada, nada!
Eusébio (Num tom magoado.) — Como vai a Fredegonda, seu Figueiredo?
Figueiredo — A Fredegonda já não é Fredegonda!
Todos — Ah!...
Figueiredo — Tornou a ser Benvinda, como antigamente. Deixou-me!
Todos — Deixou-o?
Figueiredo — Deixou-me, e anda à procura de alguém que saiba lançá-la melhor do que eu!
Eusébio — Uê!
Figueiredo — Deve estar aqui no Belódromo... Acompanhei-a até cá para pedir-lhe que tivesse juízo, mas a sua resolução é inabalável... Pobre rapariga!...
Eusébio (Muito comovido, para o que concorre o vinho que bebeu.) — Coitada da Benvinda!... Podia tá casada e agora... anda atirada por aí como uma coisa à toa... sem ninguém que tome conta dela... (Com lágrimas na voz.) Coitada!... não façum caso... Eu vi ela pequena... nasceu e cresceu lá em casa... (Chorando.) Minha fia mamou o leite da mãe dela!
Todos — Que é isso?! Chorando?! Ora esta!...
Eusébio (Com soluços.) — Que chorando que nada! Já passou!... Não foi nada!... Que qué vacês! Mineiro tem muito coração!...
Todos — Vamos lá! Que é isso? Então?...
Lola — Há de passar. São efeitos do Chambertin! — Eusébio, ande... então?... vá comprar umas pules para tomar interesse pela corrida.
Eusébio — Eu não entendo disso!
Figueiredo — Escolha um nome daqueles. Olhe, ali, na pedra... Ligúria, Carnot, Menelik, Colibri e Félix Faure!
Eusébio — Colibri! Eu quero Colibri!
Figueiredo — Ouvi dizer que não vale nada... É o que aqui chamam um bacamarte... Não lhe sorri nenhum dos presidentes da República Francesa?
Eusébio — Não sinhô, não quero outro! Colibri é o nome de um jumento que tenho lá na fazenda.
Dolores, Mercedes e Blanchette (Ao mesmo tempo.) — Não faça isso! Se é bacamarte, não presta! É dinheiro deitado fora!
Lola — Deixem-no lá! É um palpite! Vá comprar cinco pules naquele guichê.
Eusébio — Naquele quê?
Figueiredo — Naquele buraco.
Eusébio — Canto custa?
Figueiredo — Cinco pules são dez mil-réis.
Eusébio — Mas como se faz?
Figueiredo — Estenda o braço, meta o dinheiro dentro do buraco, abra a mão, e diga: “Colibri”.
Eusébio — Sim, sinhô. (Afasta-se.)
Figueiredo — Pois é o que lhes conto: estou livre como o lindo amor!
Mercedes — Se me quiser tomar sob a sua valiosa proteção...
Dolores — Se quiser fazer a minha ventura...
Blanchette — Se me quiser lançar...
Lola — Vocês estão a ler! Ele só gosta de...
Figueiredo (Atalhando.) — De trigueiras! Eu digo trigueiras, por ser menos rebarbativo...
Acho que as brancas são encantadoras, apetitosas, adoráveis, lindíssimas, mas que querem?
— tenho cá o meu gênero...
Mercedes — Isso é um crime!
Dolores — Devia ser preso!
anchette — Deportado!
Lola — Sim, deportado... para a Costa da África!...
Quinteto
Lola
Ó Figueiredo, eu cá sou franca:
Estou com pena de você!
As Outras
Nós temos pena de você!
Figueiredo
Façam favor, digam por quê!
Lola
Por não gostar da mulher branca!
As Outras
Por não gostar da mulher branca!
Figueiredo
Meu Deus! Deveras? Por isso só?
Todas
Somos sinceras! Causa-nos dó!
Figueiredo
Oh! oh! oh! oh!
Todas
Oh! oh! oh! oh!
Lola
Pele cândida e rosada, Cetinosa e delicada Sempre teve algum valor!
Figueiredo
Que tolice!
Todas
Sim, senhor!
Lola
A cor branca, pelo menos, Era a cor da loura Vênus, Deusa esplêndida do amor.
Figueiredo
Quem lhe disse?
Todas
Sim, senhor!
Figueiredo
Se eu da Mitologia Fosse o reformador, Vênus transformaria Numa mulata!
Todas
Horror!...
Figueiredo
II
A mimosa cor do jambo Pede um meigo ditirambo Cinzelado com primor!
Lola
Que tolice!
Todas
Não, senhor!
Figueiredo
Eu com os ovos, por sistema, Deixo a clara e como a gema, Porque tem melhor sabor.
Lola
Quem lhe disse?
Todas
Não, senhor!
Figueiredo
Se eu da Mitologia Fosse o reformador Vênus transformaria Numa mulata!
Todas
Horror!...
Juntos
Figueiredo
As Cocotes Gosto do amarelo! Gosta do amarelo! Que prazer me dá! Maus exemplos dá! Nada mais anelo, Vara de marmelo Nem aspiro já! Merecia já!
Eusébio (Voltando.) — Aqui está cinco papezinho do Colibri. Custou! Toda a gente queria comprá! Eu meti o dinheiro no buraco, e o home lá de dentro perguntou: “Onde leva?” Eu respondi: “Colibri”, e ele ficou muito espantado, e disse: “É o premero que compra nesse bacamarte.”
Figueiredo — Vamos ver a corrida lá de cima. Pedirei um camarote ao Cartaxo.
Todos — Vamos! (Saem.)
Cena VI
Benvinda, Lourenço e Povo
Lourenço (Correndo.) — Correndo ainda apanho; mas olhe que o Menelik... (Desaparece.)
Benvinda — Não sinhô, não sinhô! Não quero Menelik! Compre no que eu disse! (Só, no proscênio.) Não gosto deste home: tem cara de padre... é muito enjoado... Nem deste, nem de nenhum... Não gosto de ninguém... O que eu tenho a fazê de mió é vortá para casa e pedi perdão a sinhá véia. (Ouve-se o sinal do fechamento do jogo.)
Pessoas do Povo — Fechou! Fechou! Ora! e eu que não comprei! (Dirigem-se todos para o fundo: vão assistir à corrida.)
Lourenço (Voltando.) — Sempre cheguei a tempo de comprar a pule! (Dando a pule a Benvinda.) Mas que lembrança a sua de jogar no Colibri!
Benvinda — É porque é o nome de um burrinho que há numa fazenda onde eu fui passá uns tempo.
Lourenço — Ah! é cabula? (Ouve-se um toque de campainha elétrica.) Se ele vencesse, você levava a casa das pules! (Ouve-se um tiro de revólver e um pouco de música.) Começou a corrida! Vamos ver! (Afastam-se para o fundo.)
Cena VII
Gouveia, Fortunata e Quinota
Fortunata (Entrando apressada à frente de Gouveia e Quinota.) — Não! não quero vê meu fio corrê na tá história!... E logo que acabá a corrida, levo ele pra casa, e aqui não vorta!...
Que coisa!... Benvinda desaparece... Seu Eusébio desaparece... Juquinha não sai do Belódromo... Tou vendo quando Quinota me deixa!...
Quinota — Oh! mamãe! não tenha esse receio!
Fortunata — Que terra! Eu bem não queria vi no Rio de Janeiro!
Quinota — Que vida tão diversa da vida da roça! (A Gouveia.) Não ficaremos aqui depois de casados.
Gouveia — Por quê?
Quinota — A vida fluminense é cheia de sobressaltos para as verdadeiras mães de família!
Fortunata — Olhe seu Eusébio, um home de cinqüenta ano, que teve até agora tanto juízo! Arrespirou o á da capitá federá, e perdeu a cabeça!
Gouveia — Apanhou o micróbio da pândega!
Quinota — Aqui há muita liberdade e pouco escrúpulo... faz-se ostentação do vício... não se respeita ninguém... É uma sociedade mal constituída!
Gouveia — Não a supunha tão observadora...
Quinota — Eu sou roceira, mas não tola que não veja o mal onde se acha.
Fortunata — Parece que já está chuviscando... Eu senti um pingo...
Quinota — O senhor, por exemplo, o senhor, se pensa que me engana, engana-se. Conheço perfeitamente os seus defeitos.
Fortunata (À parte.) — Aí!
Gouveia — Os meus defeitos?
Quinota — Oh! são muitíssimos — e o menor deles não é querer aparentar uma fortuna que não existe. Desagradam-me esses visíveis esforços que o senhor faz para iludir os outros. O melhor partido que o senhor tem a tomar... e olhe que este é o conselho da sua noiva, isto é, da pessoa que mais o estima neste mundo... o melhor partido que o senhor tem a tomar é abrir-se com papai... confessar-lhe que é um jogador arrependido...
Gouveia — Oh! Quinota!...
Fortunata — Não tem — ó Quinota nem nada! É a verdade!...
Quinota — Irá conosco para a fazenda, onde não lhe faltará ocupação.
Fortunata — Sim sinhô; é mió trabaiá na roça que fazê vida de vagabundo na cidade! — Outro pingo!
Quinota — Papai precisa muito associar-se a um moço inteligente, nas suas condições. Sacrifique à sua tranqüilidade os seus prazeres; case-se, faça-se agricultor, e sua esposa, que não será muito exigente e terá muito bom-senso, todos os anos lhe dará licença para vir matar saudades daquilo a que o senhor chama o micróbio da pândega.
Gouveia (À parte.) — Sim, senhor, pregou-me uma lição de moral mesmo nas bochechas!
Fortunata — Seu Gouveia, é mió a gente i pro lugá por onde Juquinha tem de saí!
Gouveia — Deve sair por acolá... Vamos esperá-lo na passagem. (Estendendo o braço.) É verdade! já está chuviscando. (Saem. O final da corrida. Um toque de campainha elétrica. Pouco depois de um pouco de música. Vozeria do povo, que vem todo ao proscênio.)
Coro
Oh! Quem diria
Que ganharia
O Colibri!
Ganhou à toa!
Pule tão boa
Eu nunca vi
Aqui!
Cena VIII
Lemos, Guedes, Lourenço, o Freqüentador do Belódromo, depois Eusébio, Figueiredo, Lola, Mercedes, Dolores, Blanchette, depois S’il vous-plaît, Juquinha, depois Fortunata, Quinota, Gouveia, depois Benvinda, depois Lourenço
Lemos — Ganhou o Colibri! Quem diria?
Guedes — o Colibri... que pulão!...
Lourenço — Que desgraça!... O Félix Faure caiu de propósito, mas por cima do Félix Faure caiu o Menelik, por cima do Menelik o Ligúria, por cima do Ligúria, o Carnot, e o Colibri, que vinha na bagagem, não caiu por cima de ninguém e ganhou o páreo! Que palpite de mulata! Onde estará ela? Vou procurá-la. (Desaparece.)
O Freqüentador (A Lemos e Guedes.) — Então? eu não dizia? ganhou o 24! Doze e doze, vinte e quatro. (Com uma idéia.) Ah! Os Dois — Que é?
O Freqüentador — Fui um asno! 24 é a data da missa de sétimo dia de minha mulher! (Lemos e Guedes afastam-se rindo.) Ora esta! ora esta!... E era um pulão!... (Abre o guarda-chuva.) Chove... Naturalmente não há mais corridas hoje... (Afasta-se. Há na cena alguns guarda-chuvas abertos. Aparecem Eusébio, Figueiredo e as cocotes. Vêm todos de guarda-chuvas abertos.)
Figueiredo — Bravo! Foi um tiro, seu Eusébio, foi um tiro!... O Colibri vendeu apenas seis pules e o senhor tem cinco! S’il vous-plaît (Metendo-se na conversa, e abrigando-se no guarda-chuva de Eusébio.) — Dá mais de cem mil-réis cada pule!...
Eusébio — Mais de cem mil-réis? Então? Eu não disse? Co aquele nome, o menino não podia perdê! O Colibri é um jumento de muita sorte! (A S’il vous-plaît.) O sinhô conhece ele?
S’il vous-plaît — Quem? O Colibri? Sim senhor!
Eusébio — Vá chamá ele. Quero le dá uma lambuge!
S’il vous-plaît — Nem de propósito! Ele aí vem! (Chamando Juquinha que aparece.) Ó Colibri! está aqui um senhor que jogou cinco pules em você e quer dar-lhe uma gratificação.
Juquinha (Aproximando-se muito lampeiro.) — Aqui estou. Quê dê o home?
Eusébio — Era o Juquinha!
Juquinha — Papai! (Deita a correr e foge.)
Eusébio — Ah! tratante! O Colibri era ele! Alembrou-se do jumento!... E foge do pai! Ora espera lá! (Corre atrás do Juquinha e desaparece. A chuva cresce. O povo corre todo e abandona a cena.)
Lola — Onde vai? Espere! (Corre atrás de Eusébio e desaparece.)
As Mulheres — Vamos também! Vamos também! (Correm atrás de Lola e desaparecem.)
Figueiredo — Então, minhas filhas? Não corram! (Vai atrás delas e desaparece.)
Fortunata (Entrando de guarda-chuva.) — É ele! É ele! É seu Eusébio! (Sai correndo pelo mesmo lado.)
Quinota (Entrando, idem.) — Mamãe! Mamãe! (Corre acompanhando Fortunata.)
Gouveia (Idem.) — Minhas senhoras!... Minhas senhoras! (Corre e desaparece.)
Benvinda (Entrando perseguida por Lourenço, ambos de guarda-chuva.) — Me deixe! Me deixe!... (Desaparece.)
Lourenço (Só em cena.) — Dê cá a pule, seu benzinho, dê cá a pule, que eu vou receber! (Desaparece. Mutação.)
Quadro X
A Rua do Ouvidor
Cena I
1º Literato, 2º Literato, Pessoas do Povo, depois Fortunata, Quinota, Juquinha
Coro
Não há rua como a rua Que se chama do Ouvidor! Não há outra que possua Certamente o seu valor! Muita gente há que se mace Quando, seja por que for, Passe um dia sem que passe Pela Rua do Ouvidor!
1º Literato — Tens visto o Duquinha?
2º Literato — Qual! Depois que se meteu com a Lola, ninguém mais lhe põe a vista em cima!
1º Literato — É pena! Um dos primeiros talentos desta geração...
2º Literato — Apaixonado por uma cocote!
1º Literato — Felizmente a arte lucra alguma coisa com isso. O Duquinha faz magníficos versos à Lola. Ainda ontem me deu uns, que são puros Verlaine. Vou publicá-los no segundo número da minha revista.
2º Literato — Que está para sair há seis meses?
1º Literato — Oh! vê que linda rapariga ali vem!
2º Literato — Parece gente da roça. (Ficam de longe, a examinar Quinota, que entra com a mãe e o irmão. Vêm todos três carregados de embrulhos.)
Fortunata — Vamo, minha fia, vamo tomá o bonde no Largo de São Francisco. As nossa compra está feita. Amenhã de menhã vamos embora!
Quinota — Sem papai?
Fortunata — Ele que vá quando quisé! Hei de mostrá que lá em casa não se percisa de home!
uinota — E... seu Gouveia?
Fortunata — Não me fale de seu Gouveia! Há oito dia não aparece! Fez cumo teu pai! Foi mió assim... Havia de sê muito mau marido!
Juquinha — Eu não quero i pra fazenda!
Fortunata — Eu te amostro se tu vai ou não vai! Anda pra frente! (Vão saindo.)
1º Literato (A Quinota.) — Adeus, tetéia!
Fortunata — Quem é que é tetéia? Arrepita a gracinha, seu desavergonhado, e verá como le parto este chapéu de só no lombo!... (Risadas.) — Vamo! Vamo!... Que terra!... Eu bem não queria vi no Rio de Janeiro! (Saem entre risadas.)
Cena II
1º Literato, 2º Literato, Pessoas do Povo, depois Duquinha
2º Literato — Tu ainda um dia te sais mal com esse maldito costume de bulir com as moças!
1º Literato — Nada disse que a ofendesse. “Adeus, tetéia” não é precisamente um insulto.
2º Literato — Pois sim, mas que farias tu se dissessem o mesmo à tua irmã?
1º Literato — Não é a mesma coisa! Minha irmã é...
2º Literato — Não é melhor que as irmãs dos outros. (Entra Duquinha, vem pálido e com grandes olheiras.)
Duquinha — Ah! meus amigos! meus amigos! Se soubessem o que me aconteceu?
Os Dois — Que foi?
Duquinha — Ainda não estou em mim!
Os Dois — Fala!
Duquinha — O fazendeiro... aquele fazendeiro de quem lhes falei?...
Os Dois — Sim!
Duquinha — Apanhou-me com a boca na botija!...
1º Literato — Mas que tem isso?
Duquinha — Como que tem isso? Aquele homem é rico! Dava tudo à Lola!
2º Literato — Tu também não lhe davas pouco!
Duquinha (Vivamente.) — Dinheiro nunca lhe dei —, nem ela o aceitaria...
1º Literato — Pois sim!
Duquinha — Jóias... vestidos... pares de luvas... leques... chapéus... Dinheiro, nem vintém! Quem sempre me apanhava algum era o Lourenço, o cocheiro.
2º Literato — És um pateta! Mas conta-nos isso!
Duquinha — Estávamos — ela e eu — na saleta e o bruto dormia na sala de jantar. Eu tinha levado à Lola umas pérolas com que ela sonhou... Vocês não imaginam como aquela rapariga sonha com coisas caras!
1º Literato — Imaginamos! — Adiante!
Duquinha — Eu lia para ela ouvir os meus últimos versos... aqueles que te dei ontem para a revista...
Depois que te amo, depois que és minha, Nado em delícia, nado em delícia...
1º Literato — Eu sei. Verlaine puro.
Duquinha — Obrigado. — No fim de cada estrofe, eu dava-lhe um beijo... um beijo quente e apaixonado... um beijo de poeta!... Pois bem, depois da terceira estrofe: Oh! se algum dia destino fero Nos separasse, nos separasse...
1º Literato (Continuando.)
—O que faria contar não quero...
Duquinha
Que se o contasse, que se o contasse... No fim dessa estrofe, Lola, que esperava a deixa, estende-me a face, eu beijo-a e o fazendeiro, de pé, na porta da saleta, com os olhos esbugalhados dá este grito: Ah! seu pelintreca!...
2º Literato — E tu?
Duquinha — Eu?... Eu... eu cá estou. Não sei o que mais aconteceu. Quando dei por mim estava dentro de um bonde elétrico, tocando a toda para a cidade!...
1º Literato — Fizeste uma bonita figura, não há dúvida! Podes limpar a mão à parede!
Duquinha — Por quê?
1º Literato — Essa mulher não te perdoará nunca tal covardia!
2º Literato — Olha, o melhor que tens a fazer é não voltares lá!
Duquinha — Ah! meu amigo! isso é bom de dizer, mas eu estou apaixonado...
2º Literato — Tu estás mas é fazendo asneiras! Onde vais tu buscar dinheiro para essas loucuras?
Duquinha — Mamãe tem me dado algum... mas confesso que contraí algumas dívidas, e não pequenas. — Ora, adeus! não pensemos em coisas tristes, e vamos tomar alguma coisa... alegre!
Os Dois — Vamos lá!
(Afastam-se pela direita, cumprimentando Mercedes, Dolores e Blanchette,
que entram por esse lado e se encontram com Lola, que entra da esquerda, muito
nervosa e agitada. Figueiredo entra da direita, observa
as cocotes, pára, e, colocado por trás, ouve tudo quanto elas
dizem.)
Cena III
Lola, Mercedes, Dolores, Blanchette, Figueiredo, Pessoas do Povo, depois Duquinha
Lola — Ah! venham cá. Estou aflitíssima! Não calculam vocês que série de desgraças!
As Outras — Que foi? que foi?
Lola
Rondó
Com o Duquinha a pouco eu estava Na saleta a conversar, E o Eusébio ressonava Lá na sala de jantar. O Duquinha uns versos lia, Mas não lia sem parar, Que a leitura interrompia Para uns beijos me furtar; Mas ao quarto ou quinto beijo, Sem se fazer anunciar, Entra o Eusébio, e o poeta vejo Dar um grito e pôr-se a andar! Pretendi novos enganos, Novas tricas inventar, Mas o Eusébio pôs-se a panos:
Não me quis acreditar! Vendo a sorte assim fugir-me, Vendo o Eusébio se escapar,Fui ao quarto pra vestir-me E sair para o apanhar. Mas no quarto vi, de chofre, —’Stive quase a desmaiar! — Vi as portas do meu cofre Abertas de par em par! O ladrão foi o cocheiro! Nada ali me quis deixar! Levou jóias e dinheiro Que nem posso avaliar!
Blanchette — O cofre aberto!
Dolores — Jóias e dinheiro!
Mercedes — O cocheiro!
Lola — Sim, o cocheiro, o Lourenço, que desapareceu!
Blanchette — Mas como soubeste que foi ele?
Lola — Por esta carta, a única coisa que encontrei no cofre! Ainda por cima escarneceu de mim! (Tem tirado a carta da algibeira.)
Mercedes — Deixa ver.
Lola — Depois! Agora vamos à polícia! Não! à polícia não!
As Três — Por quê?
Lola — Não convém. Logo saberão por quê.
Vamos a um advogado! (Julga guardar a carta, mas está tão nervosa
que deixa-a cair.) Vamos!
As Três — Vamos! (Vão saindo e encontram com Duquinha.)
Duquinha — Lola!
Lola (Dando-lhe um empurrão.) — Vá para o diabo!
As Três — Vá para o diabo! (Saem as cocotes. Figueiredo disfarça e apanha a carta que Lola deixou cair.)
Duquinha (Consigo.) — Estou desmoralizado! Ela não me perdoa o ter saído, deixando-a entregue à fúria do fazendeiro! Sou um desgraçado! Que hei de fazer?... Vou desabafar em verso... Não! vou tomar uma bebedeira!... (Sai.)
Cena IV
Figueiredo, Pessoas do Povo
Figueiredo — Ora aqui está como uma pessoa, sem querer, vem ao conhecimento de tanta coisa! Vejamos o que o cocheiro lhe deixou escrito. (Põe a luneta e lê.) — “Lola. — Eu sou um pouco mais artista que tu. Saio da tua casa sem me despedir de ti, mas levo, como recordação da tua pessoa, as jóias e o dinheiro que pude apanhar no teu cofre. Cala-te; se fazes escândalo, ficas de mal partido, porque eu te digo: 1º, que de combinação representamos uma comédia pra extorquir dinheiro ao Eusébio; 2º, que induziste um filhofamília a contrair dívidas para presentear-te com jóias; 3º, que nunca foste espanhola e sim ilhoa; 4º, que foste a amante do teu ex-cocheiro — Lourenço.” Sim, senhor, é de muita força a tal senhora Dona Lola!... Não há, juro que não há mulata capaz de tanta pouca vergonha! (Sai.)
Cena V
Gouveia, Pessoas do Povo, depois Pinheiro
(Gouveia traz as botas rotas, a barba por fazer, um aspecto geral da miséria e desânimo.)
Gouveia — Ninguém, que me visse ainda há tão pouco tempo tão cheio de jóias, não acreditará que não tenho dinheiro nem crédito para comprar um par de sapatos! Há oito dias não vou à casa de minha noiva, porque tenho vergonha de lhe aparecer neste estado!
Pinheiro (Aparecendo.) — Oh! Gouveia! como vai isso?
Gouveia — Mal, meu amigo, muito mal...
Pinheiro — Mas que quer isto dizer? Não me pareces o mesmo! Tens a barba crescida, a roupa no fio... Desapareceu do teu dedo aquele esplêndido e escandaloso farol, e tens umas botas que riem da tua esbodegação!
Gouveia — Fala à vontade. Eu mereço os teus remoques.
Pinheiro — E dizer que já me quiseste pagar, com juros de cento por cento, dez mil-réis que eu te havia emprestatado!
Gouveia — Por sinal, que disseste, creio, que esses dez mil-réis ficavam ao meu dispor.
Pinheiro — E ficaram. (Tirando dinheiro do bolso.) Cá estão eles. — Mas, como um par de botinas não se compra com dez mil-réis, aqui tens vinte... sem juros. Pagarás quando quiseres.
Gouveia — Obrigado, Pinheiro; bem se vê que tens uma alma grande e nunca jogaste a roleta.
Pinheiro — Nada! — Sempre achei que o jogo, seja ele qual for, não leva ninguém para diante. — Adeus, Gouveia... aparece! Agora, que estás pobre, isso não te será difícil!... (Sai.)
Cena VI
Gouveia, depois Eusébio
Gouveia — Como este tipo faz pagar caro os seus vinte mil-réis! Ah! ele apanhou-me descalço! Enfim vamos comprar os sapatos! (Vai saindo e encontra-se com Eusébio, que entra cabisbaixo.) Oh! o Sr. Eusébio!...
Eusébio — Ora! inda bem que le encontro!...
Gouveia (À parte.) — Naturalmente já voltou à casa... Como está sentido!... Vai falar-me de Quinota!...
Eusébio — Hoje de menhã encontrei ela beijando um mocinho!
Gouveia — Hein?
Eusébio — É levada do diabo! não sei como o sinhô pôde gostá dela!
Gouveia — Ora essa! a ponto de querer casar-me!
Eusébio — Era uma burrice!
Gouveia — Custa-me crer que ela...
Eusébio — Pois creia! Beijando um mocinho, um pelintreca, seu Gouveia!... Veja o sinhô de que serviu gastá tanto dinheiro com ela!...
Gouveia — Sim, o senhor educou-a bem... ensinou-lhe muita coisa...
Eusébio (Vivamente.) — Não, sinhô! não ensinei nada!... Ela já sabia tudo! O sinhô, sim! Se arguém ensinou foi o sinhô e não eu! Beijando um pelintreca, seu Gouveia!...
Gouveia — Dona Fortunata não viu nada?
Eusébio — Dona Fortunata?... Uê!... Como é que havera de vê?... Olhe, eu lá não vorto!
Gouveia — Não volta! ora esta!
Eusébio — Não quero mais sabê dela.
Gouveia — Deve lembrar-se que é pai!
Eusébio — Por isso mesmo! Ah! seu Gouveia, se arrependimento sarvasse... Bem; o sinhô vai me apadrinhá, como noutro tempo se fazia cum preto fugido... Não me astrevo a entrá in casa sozinho depois de tantos dias de osença!
Gouveia — Em casa? Pois o senhor não me acaba de dizer que lá não volta porque dona Quinota...
Eusébio — Quem le falou de Quinota?
Gouveia — Quem foi então que o senhor encontrou aos beijos com o pelintreca? — Ah! agora percebo! A Lola!...
Eusébio — Pois quem havera de sê?
Gouveia — E eu supus... Onde tinha a cabeça?... Perdoa, Quinota, perdoa!... Vamos, senhor Eusébio... Eu o apadrinharei, mas com uma condição: o senhor por sua vez me há de apadrinhar a mim, porque eu também não apareço à minha noiva há muitos dias!
Eusébio — Por quê?
Gouveia — Em caminho tudo lhe direi. (À parte.) — Aceito o conselho de Quinota: vou abrir-me. (Alto.) Tenho ainda que comprar um par de sapatos e fazer a barba.
Eusébio — Vamo, seu Gouveia! (Saem. Ao mesmo tempo aparece Lourenço perseguido por Lola, Mercedes, Dolores e Blanchette.)
Cena VIII
Lourenço, Lola, Mercedes, Dolores, Blanchette, Pessoas do Povo Lola e os Outros — Pega ladrão! Pega ladrão!... (Lourenço é agarrado por pessoas do povo e dois soldados que aparecem. Grande vozeria e confusão. Apitos. Mutação.)
Quadro XI
(O sótão ocupado pela família de Eusébio.)
— Cena I —
Juquinha, depois Fortunata, depois Quinota
Juquinha (Entrando a correr da esquerda.) — Mamãe! Mamãe!
Fortunata (Entrando da direita.) — Que é, menino?
Juquinha — Papai tá i!
Fortunata — Tá i?
Juquinha — Eu encontrei ele ali no canto e ele me disse que viesse vê se va’mecê tava zangada, que se tivesse, ele não entrava.
Fortunata — Oh! aquele home, aquele home o que merecia! — Vai, vai dizê a ele que não tô zangada!
Juquinha — Seu Gouveia tá junto co ele.
Fortunata — Bem! venha todos dois! (Juca sai correndo.) Quinota! Quinota!...
A voz de Quinota — Senhora?
Fortunata — Vem cá, minha fia. — Eu não ganho nada me consumindo. Já tou véia; não quero me amofiná. (Entra Quinota.) — Quinota, teu pai vem aí... mas o que está arresolvido está: amenhã de menhã vamo embora.
Quinota — E seu Gouveia?
Fortunata — Também vem aí.
Quinota (Contente.) — Ah!
Fortunata — Não quero mais ficá numa terra onde os marido passa dias e noite fora de casa!...
Cena II
Fortunata, Quinota, Juquinha, Eusébio, depois Gouveia
Juquinha (Entrando.) — Tá i papai!
Eusébio (Da porta.) — Posso entrá? Não temo briga?
Quinota — Estando eu aqui, não há disso!
Fortunata — Sim, minha fia, tu é o anjo da paz.
Quinota (Tomando o pai pela mão.) — Venha cá. (Tomando Fortunata pela mão.) Vamos! Abracem-se!...
Fortunata (Abraçando-o.) — Diabo de home, véio sem juízo!
Eusébio — Foi uma maluquice que me deu! Raie, raie, Dona Fortunata!
Fortunata — Pai de fia casadeira!
Eusébio — Tá bom! tá bom! juro que nunca mais! mas deixe le dizê...
Fortunata — Não! não diga nada! Não se defenda! É mió que as coisa fique como está.
Juquinha — Seu Gouveia tá no corredô.
Quinota — Ah! (Vai buscar Gouveia pela mão. Gouveia entra manquejando.)
Eusébio — Assim é que o sinhô me apadrinhou?
Gouveia — Deixe-me! Estes sapatos novos fazem-me ver estrelas!
Fortunata — Seu Gouveia, le participo que amenhã de menhã tamo de viage.
Eusébio — Já conversei co ele.
Gouveia (A Quinota.) — Eu abri-me!
Eusébio — Ele vai coa gente. Não tem que fazê aqui. Tá na pindaíba, mas é o memo. Casa com Quinota e fica sendo meu sócio na fazenda. Quinota — Ah! papai! quanto lhe agradeço!
Juquinha — A Benvinda tá i.
Todos — A Benvinda!
Fortunata — Não quero vê ela! não quero vê ela! (Quinota vai buscar Benvinda, que entra a chorar, vestida como no 1º quadro, e ajoelha-se aos pés de Fortunata.)
Cena III
Os mesmos, Benvinda
Benvinda — Tô muito arrependida! Não valeu a pena!
Fortunata — Rua, sua desavergonhada!
Eusébio — Tenha pena da mulata!
Fortunata — Rua!
Quinota — Mamãe, lembre-se de que eu mamei o mesmo leite que ela!
Fortunata — Este diabo não tem descurpa! Rua!
Gouveia — Não seja má, dona Fortunata. Ela também apanhou o micróbio da pândega.
Fortunata — Pois bem, mas se não se comportá dereto... (Benvinda vai para junto de Juquinha.)
Eusébio (Baixo à Fortunata.) — Ela há de casá com seu Borge... Eu dou o dote...
Fortunata — Mas seu Borge...
Eusébio — Quem não sabe é como quem não vê. (Alto.) A vida da capitá não se fez para nós... E quem tem isso?... É na roça, é no campo, é no sertão, é na lavoura que está a vida e o progresso da nossa querida Pátria! (Mutação.)
Quadro XII
(Apoteose à vida rural.)
Toda a música desta peça é composta pelo Senhor Nicolino Milano, à exceção das coplas às págs. 23 e 91, do coro à pág. 98, do duetino à pág. 73 e do quarteto à pág. 98 que foram compostas pelo Senhor Doutor Assis Pacheco, e da valsa à pág. 27, composição do Senhor Luís Moreira.
Fonte: www.dominiopublico.gov.br