Chica Valsa (À parte.) — Oh! meu Deus!... Já nem me lembrava que Bitu podia chegar agora!
Clarinha — Estou te embaraçando?
Chica Valsa — Não, mas...
Escrivão (Entrando.) — Perdão, minha senhora, onde está sua senhoria, o senhor subdelegado? (À parte.) - A noiva do Barnabé aqui!
Chica Valsa — Não sei: está no meu bolso!
Escrivão — Vou procurá-lo. (Cumprimenta e diz à parte.) E no corredor o Nhonhô Bitu... Aqui há coisa... hei de saber! (Vai saindo e escorrega.)
Clarinha — Não caia, seu aquele!
Escrivão — Escorreguei no ispermacetes...
Chica Valsa — Tu, minha querida Clarinha, entra para este quarto; hei de ir ter contigo. Fica sossegada: não te casarás com o Mestre Barnabé.
Clarinha — Obrigada. (Sai.)
Chica Valsa — Manda entrar...
Genoveva — A preta velha e o moço?
Chica Valsa — O moço só, estúpida! (Genoveva sai.)
Cena VII
Chica Valsa, Bitu
Bitu (entrando.) — Ora esta! era você?!...
Chica Valsa — Sim, era eu! Venha de lá esse abraço!
Bitu — Mas isto foi uma traição! (Á parte.) Ainda está mais bonita!
Chica Valsa — Não tenhas medo! Abraça-me...
Bitu (Abraçando-a.) — Medo de que ?
Chica Valsa — Estava com muitas saudades suas. Chamei-te para fazermos as pazes.
Bitu — Estão feitas! (À parte.) E Clarinha, que deixei presa em Maria Angu. (Alto.) Julguei que não tivesse voltado da Europa.
Chica Valsa — Há quinze dias... Havemos de conversar.
Bitu — E... o motivo da nossa separação?
Chica Valsa (Embaraçada.) — Hein?
Bitu — O pomo?
Chica Valsa — Que pomo?
Bitu — O pomo da discórdia! O Sampaio!
Chica Valsa — E você a dar-lhe com o Sampaio! Que diabo! Seja razoável, Bitu!
Bitu — Não importa! Estou bem vingado!
Chica Valsa — Já sei que você pintou a manta em Maria Angu.
Bitu — A manta, o sete, o padre, o simão de carapuça e até a saracura! Pintei tudo!
Mas...
Chica Valsa — Mas... falemos de nós.
Duetino
Chica Valsa — Até que enfim, Bitu, eis-me a teu lado!
Bitu — Enfim ao lado meu estás!
Chica Valsa — Ingratidão!
Bitu — Não me dirás
Por que é que fui por ti chamado?
Chica Valsa
— Quero, ó Bitu, saber por quê
Lá em Maria Angu você
Me injuriou num papelucho!
Pois tu não sabes, meu Bitu
Que sem dinheiro não podias tu
Agüentar tamanho repuxo?
Bitu
— Oh! Não me digas isso, não!
Eu te adorava, coração!
Se dispensasses tanto luxo,
Se não andasses tão liró,
Podias tu ser minha só!
Se bem que pobre como Jó,
Eu agüentava tal repuxo!
Chica Valsa
— No peito meu rebenta uma esperança!
Inda és o mesmo, eu logo vi!
Meu coração enfim descansa!
Saudades tuas tive em França...
Bitu — Se tais saudades mereci,
Não me trouxeste uma lembrança?
Chica Valsa
—Nem mesmo numa sepultura
Eu poderia me esquecer de ti;
Trouxe-te uma abotoadura...
Bitu — Oh! não me digas isso, não!
Talvez custasse um dinheirão!
Chica Valsa — Oh! não!
Bitu
— Não me esqueceste, oh! que ventura!
É teu de novo o meu amor!
É tua a pena do escritor
E a tesoura do redator!
Eis-me a teus pés, ó minha flor!
— Mostra-me a tal abotoadura!
Cena VIII
Os mesmos, Genoveva, depois Clarinha
Genoveva (Entrando.) — Minh’ama! Minh’ama!
Chica Valsa (Dirigindo-se a ela.) — Que temos?
Genoveva (Baixo.) — Aquele home, escrivão de sinhô Sampaio, falou à preta velha
que acompanhou aquele moço, depois foi muito apressado dizer não sei o quê a
Sinhô Sampaio e todos dois vêm aí. Sinhô Sampaio estava no Largo do Rossio.
Vem furioso!
Chica Valsa (À parte.) — Fazer sair Bitu? Não! Há tão pouco tempo chegou... Ah!
(Chamando.) Clarinha! Clarinha!
Bitu (À parte.) — Clarinha! Que coincidência de nomes!
Clarinha (Entrando.) — Que é?
Bitu — Que vejo! Ela!
Clarinha — Ah!
Chica Valsa — Conhecem-se?
Genoveva — Minh’ama, ele aí chegam.
Chica Valsa (A Clarinha e Bitu.) — Por favor, não me desmintam! A tudo quanto eu
disser, Ora pro nobis; confirmem, ou estou perdida!
Clarinha e Bitu — Perdida!
Chica Valsa — Silêncio!
Cena IX
Os mesmos, Sampaio, o Escrivão
Sampaio (Entrando, zangado.) — Sei tudo! Sei tudo!
Chica Valsa — Que isto quer dizer?
Sampaio — Sei que a senhora e este senhor entendem-se perfeitamente!
Clarinha (À parte.) — Hein?
Sampaio — E que o recebeu em sua casa, isto é, em minha casa!
Clarinha — É só isso? É verdade que recebi este senhor em minha casa!
Sampaio — Minha! La maison est de moi! Je suis le subdelegué qui mande ici!...
Chica Valsa — Esta senhora é a minha melhor amiga. O Senhor Ângelo Bitu ama
Dona Clarinha Angu, e é correspondido. Eu quis aproximá-los... (Baixo.) e malograr o seu intento, percebe?...
Quinteto
Sampaio — Hein?
Escrivão — Ih!
Sampaio — Oh!
Clarinha — Eu cá zombar não quis...
Chica Valsa — Se o senhor de mim desconfia,
Faz-me chegar a mostarda ao nariz!
Sampaio — Pois bem! que jure aqui reclamo
Que gosta do Bitu!
Clarinha — Já que assim quer, eu lhe juro que o amo!
Chica Valsa (À parte.) — A pobrezinha corada ficou,
Repetindo tais c’raminholas!
Escrivão( À parte.) — Vai dizer que sou um bolas!
Sampaio (A Bitu.)
— E você lá, seu redator,
Aqui só está por causa dela?
Bitu — Juro, caríssimo senhor,
Que aqui vim ver a minha bela!
Escrivão —Uh!
Chica Valsa
— Meu caro senhor, é por ela
Que se acha aqui Nhonhô Bitu,
E não foi senão para vê-la
Que ele deixou Maria Angu.
Juntos — Meu caro senhor, é por ela, etc.
Sampaio e Escrivão
— Pois não será por causa dela
Que se acha aqui Nhonhô Bitu!
Foi para ver a tal donzela
Que ele deixou em Maria Angu.
Bitu e Clarinha — Não, não senhor, não é por ela
Que se acha aqui Nhonhô Bitu! {vê-la e dar-lhe trela Foi para {{ ver-me e dar-me trela Que lá deixei }} Maria Angu! Que ele deixou }
Sampaio (A Clarinha) — Mas não! Com Barnabé casar-se deveria!
Zombando estão de mim!
Chica Valsa — Aí com que perfeição
Mente aquele ladrão!
Sampaio — Isso é sério?
Bitu — Sério sou!
Escrivão (À parte.) — O pobre diabo acreditou!
Todos
— A coisa está patente!
A Chica tem razão!
Não pode tanta gente
Fazer combinação!
Sampaio — Seu escrivão, que diz a isto?
Você é um bolas, um grande animal!
Escrivão
— Perdão! Enganei-me, está visto...
Julguei mal...
Eu fiz uma apreciação falsa...
Mas vendo estou....
Sampaio — Que vês tu?
Escrivão — Que a Senhora Chica Valsa
Não faz caso do Bitu!
Chica Valsa
— Ora aí está que sem malícia
Me defende este escrivão!
O escrivão é da polícia;
Tem valiosa opinião.
Todos
— Ora aí está que sem malícia Me}} defende este escrivão, etc.A }
Sampaio — Está tudo acabado! (Estendendo a mão a Bitu.) Seja meu amigo.
Bitu (Apertando-lha.) — Obrigado, senhor.
Sampaio (Ao Escrivão.) — Você é um bolas, seu escrivão!... Vá se deitar...
Escrivão — As ordens de Vossa Senhoria serão cumpridas à risca. (Vai saindo.)
Sobem a escada...
Chica Valsa — Serão já os rapazes?
Escrivão — É o mestre barbeiro Barnabé. (À parte.) Decididamente, todo o Angu
mudou-se para esta casa. (Sai.)
Chica Valsa — É o Barnabé!
Clarinha — Meu noivo!
Chica Valsa — É preciso que ele não te veja! (Conduzindo Clarinha e Bitu à direita.)
Entrem para a sala de jantar. (Bitu e Clarinha saem.) Oh! que idéia! É preciso
desfazermo-nos deste Barnabé! Já nem me lembrava dele! Clarinha deve pertencerme!
(A Sampaio.) Dê-me o seu apito.
Sampaio — Para quê?
Chica Valsa — Não ouve? Sampaio dá-lhe um apito, Chica Valsa tira uma pulseira do braço.)
Cena X
Os mesmos, Barnabé, depois dois urbanos
(Música na orquestra.)
Barnabé (Sempre com a mala.) — Com licença! Já vim das figuras de cera. Mal empregados cinco tostões. Onde está minha noiva? (Enquanto Barnabé fala, Chica Valsa mete-lhe a pulseira no bolso: depois corre ao fundo e apita.)
Sampaio — Que é isto?
Barnabé — Que quer isto dizer?
Chica Valsa (Gritando.) — Um gatuno! um gatuno!...
Barnabé — Onde está o gatuno, minha senhora? onde está o gatuno? Socorro!
pega! Pega!... (Entram dois urbanos.)
Chica Valsa (Aos urbanos, mostrando Barnabé.) — Camaradas, este homem
introduziu-se em minha casa; é um gatuno! Vejam se ele não tem no bolso uma
pulseira! (Os urbanos revistam os bolsos de Barnabé.)
Barnabé — Mas que é isto?! eu não sou gatuno!... Não me meta a mão no bolso!
Onde já se viu isto?!...
Chica Valsa — Prendam-no! (Os urbanos acham a pulseira e entregam-na a Chica Valsa.)
Urbanos — Venha... venha! (Desembainham os refez e arrastam Barnabé para fora. Cessa a música.)
Sampaio (À parte.) — Esta mulher é da pele do diabo! Eu safo-me, senão é capaz
de me mandar também para a cadeia! (Sai apressado.)
Chica Valsa — Venham... venham...
Clarinha (Entrando.) — Dali vimos e ouvimos tudo.
Bitu (Entrando.) — Para que prendê-lo?
Clarinha — Que prisão esquisita!
Chica Valsa (À parte.) — É quase meia noite: os rapazes não tardam... (Genoveva
entra.) Clarinha, vai com a criada. Genoveva, leva esta moça para a saleta, onde
passará a noite.
Bitu (Á parte.) — Ela vai dormir aqui?!
Chica Valsa — Deita-te, dorme bem, a amanhã conversaremos.
Cena XI
Chica Valsa, Bitu
Chica Valsa — Eis-nos sós. Não percamos tempo! Sabes jogar o bacará?
Bitu — Por quê?
Chica Valsa — Responde! anda!...
Bitu — Eu sei jogar tudo, desde o burro e o pacau até o xadrez.
Chica Valsa — Tens dinheiro? (Bitu coça a cabeça.) Empresto-te duzentos mil réis.
(Dá-lhos.) Estás numa casa de jogo; não sabias?
Bitu — Deveras?
Chica Valsa — Quero-te ao pé de mim, e só jogando poderei consegui-lo... Depois,
acharei meio de me ver livre do Sampaio.
Bitu — Bem.
Chica Valsa (Com mistério.) – Eles aí vêm.
Bitu — Eles quem?
Chica Valsa — Os parceiros... Vem comigo... (Saem.)
Cena XII
Sota-E-Ás, Jogadores, depois Chica Valsa, Bitu
(Sota-e-ás e os Jogadores trazem todos suíças postiças, casacões e bengalas.)
Coro
— Dizem que é vício
Jogar, mas é
Amargo ofício,
Penoso até!
Dá-nos canseira,
Faz-nos suar
A noite inteira
Aqui passar!
A morcegada,
Que é muito sagaz,
Anda assanhada,
De pé atrás...
Estas suíças
É convenção
Trazer postiças
E casacão
Chica Valsa (Entrando.) Vêm disfarçados que faz gosto vê-los!
Sota-E-Ás — Sim! sim! de jogadores nós somos os modelos!
Ente nós, entre nós não há nenhum portão!
Bitu (Entrando.) — Inda bem!
Os Jogadores — Céus! (Procuram esconder-se.)
Chica Valsa
— Não tenham medo, não!
(Apresentando Bitu aos jogadores.)
Ora aqui têm mais um parceiro!
Não joga mal, mas tem dinheiro...
Vamos jogar! Fora a preguiça!
Então! Então!
Cartas na mão!
Sota — Mas ei não tem casacão...
Não tem também baba postiça...
Os Jogadores
— Mas ele não tem casacão...
Não tem também barba postiça..
Dizem que é vício
Jogar, mas é, etc.
Cena XIII
Os mesmos, Clarinha, depois as Cocotes
Clarinha (A Chica Valsa.) — Enfim te encontro!
Os Jogadores — Uma moça!
Chica Valsa — Imprudente!
Que vens aqui fazer?
Clarinha
— Prevenir-te que vi
Pelos vidros da janela muita gente
E alguns urbanos que vêm para aqui!
Os Jogadores —Os urbanos, oh, céus!...
Oh, meu Deus! oh, meu Deus!...
As Cocotes (Entrando assustadas.)
— A casa está cercada! a fuga é impossível
A gente toda é presa
E vai para a estação!
Ah! meu Deus! Com certeza
Temos multa e prisão!
Sota — Pisão!
Todos —Pisão!
(Apitos fora.)
Chica Valsa — Não! Não! Não! Não!
Ninguém vai para a prisão!
Todos — Como assim?
Chica Valsa
— O caso é já, neste momento,
Improvisar um casamento!
(Apontando para Bitu e Clarinha.)
E os noivos, ei-los aqui estão!
(Aos jogadores.) Mas essas barbas? Visto
Está que nos denunciarão!
Sota — Pa não imos para a prisão,
É já esconde tudo isto!
Os Jogadores — É já esconder tudo isto!
(Durante o coro que se segue, Sota-e-ás e os Jogadores tiram e escondem os
casacões, os chapéus, as barbas e as bengalas. Dois criados entram, e levam para
dentro todos os móveis.)
Coro de Urbanos(Fora.)
— Quem estiver aqui jogando
Pra estação vai já marchar!
Guerra a vício tão nefando!
Guerra, guerra a quem jogar!
Chica Valsa (Declamando.)
— Eles aí vêm! Vamos, senhores,
tirem pares para uma valsa!
(Valsa com Sota-e-ás.) Valsai! Valsai!
Não parar nem um segundo!
Os desgostos deste mundo
A valsar olvidai!
Valsai!
Todos (Valsando.) — Valsai! valsai!, etc.
Cena XIV
Os mesmos, uma autoridade, urbanos
Urbanos — Quem estiver aqui jogando, etc.
Chica Valsa — Queiram dizer o que desejam.
A Autoridade — Os jogadores que aqui estão!
Chica Valsa
— Jogadores aqui não sei quais sejam!
Temos dois noivos... estes são!
(Mostra Bitu e Clarinha.)
Tivemos hoje um feliz casamento,
E o nosso baile vem cá perturbar!
porém não damos cavaco um momento.
E os convidamos até pra dançar!
Aos bons urbanos
Nós, os paisanos,
Urbanamente queremos tratar...
Escolham pares,
E aos calcanhares
É dar sem dó.
(Á autoridade.) — Eu serei o seu par.
(Valsa com a Autoridade, enquanto os urbanos valsam com algumas das
cocotes.)
Coro — Valsai! valsai!, etc.
Clarinha (Valsando com Bitu.) — Como isto é bom! Valsemos mais depressa.
Bitu — Dize, ó Clarinha, que me queres bem!
Clarinha — Teu desespero, benzinho, não cessa!
Sou tua, tua, e de mais ninguém!
Chica Valsa (Que ouviu.) — Será possível
(Deixa seu par.)
A Autoridade (Valsando só.) — Diga o que tem!
Chica Valsa — Eu... eu...
A Autoridade — Se quer, eu pararei também...
Chica Valsa (Disfarçando.) — Oh! céus! que vejo!
(Reparando nalguma coisa na sobrecasaca da Autoridade.)
Um percevejo!
(À parte.) — Traída fui, mas eu me vingarei!
Vingada, sim, serei!...
Coro — Valsai! Valsai! etc.
(Valsa geral e muito animada.)
[(Cai o pano.)]
ATO TERCEIRO
Um arraial em Maria Angu, na noite da festa do Espírito Santo. Fogos de
artifício. Balões de papel. À direita casa do juiz da festa e à esquerda um igrejinha,
abertas ambas e iluminadas.
Cena I
Cardoso, Guilherme, Botelho, Chica Pitada, Gaivota, Teresa, operários, festeiros,
povo, depois o Juiz da festa
(Ao levantar o pano vem do fundo o bando do Espírito Santo. À frente o
Imperador representado por uma criança. repiques de sino. Foguetes.)
Coro de Festeiros
— Entoemos nosso hino
Perante o celeste altar,
Para louvar o Divino,
Para o Divino louvar!
(O bando do Espírito Santo entra na igreja.)
O Juiz da Festa (Saindo da casa e dirigindo-se aos que ficaram em cena.) — Então,
rapaziada! Venham trincar uma perna de peru cá em minha casa! Eu sou o juiz da
festa! Viva o divino Espírito Santo!
Todos — Viva! viva o Juiz! Vamos! vamos!... (Festeiros e homens do povo seguem
o Juiz, que entra em casa.)
Gaivota — Então? Não vamos nós também?
Guilherme — Eu não! Vão vocês, se quiserem!
Chica — Ora! é tão bom trincar uma perna de peru!
Cardoso — Trincar! Seria preciso que não tivéssemos coração!
Botelho — E que tivéssemos fome!
Cardoso — Trincar uma perna de peru quando não sabemos o fim que levou nossa
filha!
Gaivota — Sabemos que não está presa, porque escreveu-nos, dizendo que a
esperássemos hoje.
Botelho — Mas para que diabo foi aquela rapariga ler o maldito Imparcial? Isto é
que me tem feito pensar!
Guilherme — E o que foi fazer na Corte com o subdelegado?.. Nadamos num
oceano de conjeturas!
Chica — Uma mosca morta que não levanta os olhos!
Teresa — Parecia uma santinha!
Gaivota — De pau carunchoso!
Cardoso (Tirando uma carta da algibeira.) — Se ainda esta carta nos pusesse ao
fato de alguma coisa, mas de fato não põe ao fato de coisa alguma! (Lê.) “Peço a
todos os meus pais e mães que hoje à noite se achem às oito horas na festa do
Espírito Santo. Eu lá irei ter, e tudo saberão. Clarinha.”
Gaivota — Bem! uma vez que nos vem dizer tudo...
Teresa — É porque nada tem que ocultar.
Botelho — Está sabido! Mas queira Deus que ela diga toda a verdade... (Rumor
fora.)
Todos (Subindo ao fundo.) — Que é? Que é?
Chica — Uma moça bem vestida! Como vem cercada de povo! Aquilo é senhora da
cidade!
Cardoso — Mas não! é ela! é a nossa rica filha!
Todos — Clarinha!
Botelho — Ei-la aí vem!..
Cena II
Os mesmos, Clarinha, Povo
(Clarinha vem exageradamente vestida, e acompanhada pelo povo.)
Coro
— Ei-la! Ei-la! Vem tão janota!
Ei-la entre nós de novo enfim!
Mas que fatiota!
Onde ela foi vestir-se assim!
Cardoso — Chegaste enfim!
Chica — De onde vem tu?
Cardoso — Como é que assim nos aparece?
Chica — Deus me perdoe! Já não pareces
A filha de Maria Angu!
Coro — Deus me perdoe! Já não pareces
A filha de Maria Angu
Coplas
I
Clarinha
— Fizestes muitos sacrifícios
para que eu não tivesse vícios,
E eu tive sempre paciências
de aparentar muita inocência!
Constante fui no fingimento;
Sonsa como eu nenhuma havia!
Tudo isso, devo ao meu temperamento,
Por temperamento eu fingia!
De Maria Angu
Eu cá sou filha, não há negar.
II
— Sou Clarinha Angu!
Filho de peixe sabe nadar...
Olhem lá!
Venham cá!
Sou Clarinha Angu!
Coro — De Maria Angu
Ela é a filha, não há de negar! etc.
Clarinha
— Íeis me dar, não duvido,
Um maridão, um bom marido,
Porém a outro namorado
Meu coração eu tinha dado!
Querendo, embora por astúcia,
Impedir esse casamento,
Eu fiz com que me prendesse esta súcia!
Tudo por meu temperamento
De Maria Angu, etc.
Botelho — Como? pois foi por causa do teu temperamento que fizeste todo esse
destempero?
Chica — Por que não nos disseste francamente a verdade, em vez de te deixares
prender?
Cardoso — E como foste dar com o costado na Corte?
Clarinha (À parte.) — Aproveito a mentira do Sampaio. (Alto.) Fui para a Corte à
disposição do chefe de polícia, que me mandou embora... Depois contarei tudo. Só o
que lhes digo é que jugo ser traída!
Todos — Traída!
Clarinha — Por meu namorado!...
Chica — Não é outro senão Nhonhô Bitu!
Clarinha — Sim! É Bitu, é! E o que eu suspeito é verdade! Não me casarei com
ele...
Cardoso — Nisso fazes bem!
Clarinha — E ficarei solteira toda a minha vida!
Gaivota — Nisso fazes mal!
Teresa — E Barnabé?
Guilherme — Sim! Que lugar reservas em tudo isso para Barnabé?
Clarinha — Não se ocupem com ele; ficou preso na Corte.
Todos — Preso!
Clarinha — Também depois hei de contar-lhes isso... Não estejamos cá. Há de vir
aqui alguém, que encaminhei para cá, e não quero que me veja. Viva Deus! Hei de
provar-lhes que sou a filha da minha mãe!
Botelho — Não parece a mesma...
Cardoso — Filho de peixe sabe nadar.
Clarinha — E ainda não viram nada!
Guilherme — E esse vestido? Quem foi que te pôs nesse chiquismo?
Clarinha — Foi meu pai!
Todos — Seu pai?!...
Clarinha — o Barão de Anajá-mirim!
Chica — O Barão de Anajá-Mirim?... É ele!...
Todos — Quem?
Chica — O Barão do Hotel Ravot!
Clarinha — Também depois hei de contar-lhes isso! Vamos! (Saída geral, com um
motivo no último coro. Entra Sampaio, disfarçado, com um grande chapéu desabado
e barbas postiças.)
Cena III
Sampaio (só)
Sampaio — Cá estou. Vejo que fui o primeiro a chegar. Parece-me que estou bem
disfarçado... Vejamos se esqueci de alguma coisa, pois tenho andado com a cabeça
à razão de juros. (Tira uma carta da algibeira e lê.) “Senhor Sampaio” (Declama) Ela
escreve Sampaio com o cedilhado! (Lê) “O senhor é enganado. Se quer saber quem
é o amante de sua amante, esteja hoje à noite na festa do Espírito Santo, em Maria
Angu. Vá disfarçado e leve os olhos bem abertos. — Clarinha” (Declama.) Clarinha!
É ela, a noiva do Barnabé, essa bonita rapariga que daqui levei com intenção
perversa, e me foi roubada pela Chica, que a entregou ao Barão de Anajá-mirim. Foi
bem feito. O Barão encheu-a de presentes, porém, mal tinha trocado quatro palavras
com a pequena, reconheceu que era pai dela, e naturalmente arrepiou carreira!
Disse lá consigo: Nada! uma pequena que tem dois futuros e ainda aceita presentes,
não é digna de ser minha filha! mas, Clarinha, que se mostrava tão amiga da Chica,
escrever-me agora contra ela! À custa de quem quererá divertir-se esta moça? À
minha? Mas sou muito grande para palito. Que horas serão? Ali no relógio da igreja
é meia noite há oito anos. meia noite ou meio dia. Creio que a impaciência fez-me vir
antes de tempo... Se eu visse a Clarinha... (Saindo pela esquerda.) procuremo-la.
(Sai)
Cena IV
Barnabé, depois Sampaio
(Barnabé entra correndo e também disfarçado.)
Barnabé — Uf! Eis-me enfim em Maria Angu... e quase reduzido a angu! Que é isto?
ah! a festa!... Sarcasmo do destino!... (Pausa.) Quantas atribulações para um pobre
barbeiro sangrador! No dia do meu casamento sangram-me o coração: prendem-me
a noiva antes que eu a prendesse com os laços do himeneu! Sei que ela foge para a
Corte, levada pelo subdelegado! Vou também para a Corte e tenho a satisfação de
saber que ela não tinha fugido, mas fora apenas conduzida à presença do chefe de
polícia. Não sei como nem como não, roubo uma pulseira, que é encontrada no meu
bolso, prova cabal que a roubei... mas como? Mandam-me prender por uns
soldados que são tudo menos urbanos, e ferram comigo na estação dos ditos, na
Travessa do Rosário. No xadrez encontro o Jerônimo, vulgo cabeçada, preso
também por ter dado uma cabeçada num sujeito que lhe pilhou dando um beijo em
sua mulher... (Como lhe devia ficar a cabeça!) O Jerônimo é um amigo velho; fui eu
que lhe emprestei duzentos mil réis, quando residi na Corte, para prestar fiança
quando quis ser condutor de bondes. Por sinal nunca mais vi a cor desse dinheiro!
Levamos toda a noite a contar um ao outro nossas desventuras. O Jerônimo
lembrava-se dos duzentos mil réis, e teve pena de mim... Tinha de sair logo de
manhãzinha do xadrez, e, como não fazia muito empenho em tornar a ver a mulher,
lembrou-se de me fazer sair em seu lugar. Vesti a sua roupa, ele vestiu a minha, pus
o seu chapéu, e quando vieram soltá-lo, zás! por aqui é o caminho! Estava ainda no
Largo do Rossio, quando ouvi gritar: “Pega! pega!” Pernas pra que te quero?! Olho
um tílburi que saía! Brr... Entrei na estação... noutra, mas desta vez na da Estrada
de Ferro... Felizmente o trem estava sai-não-sai... Em viagem lembrei-me de minha
mala, mas o colete é o meu e os cobres cá estão... Chego a Maria Angu mais morto
que vivo, e eis-me numa festa! Numa festa... E talvez a estas horas a minha Clara
gema no ovo!... O ovo é o xilindró...
Sampaio (Entrando.) — Não a encontrei.
Barnabé — Vim buscar o auxílio de meus sogros e de minhas sogras, mas parece
estar escrito no livro do destino que não há livro do destino que a aguarda!...
Sampaio — Já devem ser horas.
Barnabé — Vou procurá-los.
Sampaio — Vamos por outro lado... (Esbarram-se.)
Ambos — Você está cego?
Sampaio — Oh! que bruto!
Barnabé — Pra lá!
Ambos — Céus! Quem será?
(Afastam-se com medo um do outro.)
Sampaio — Quem será?
Barnabé — Quem será?
Ambos (À parte.)
— Será, pois não! imensa asneira
Medo por ele aqui mostrar!
Eu vou, vou já, de um capoeira
As aparências tomar!
(Provocam-se como os capoeiras.)
Sampaio — Você não vê por onde anda!
Barnabé (À parte.) — Ai! que o sujeito é valentão!
(Alto) É que eu olhava pra outra banda...
Sampaio (À parte.) — Este indivíduo é fracalhão!
(Alto.) Zangado estou, e vou-lhe às ventas!
Barnabé (À parte.)
— Se eu recuar, perdido estou!
(Alto.) Eu quero ver se tu sustentas
O que da boca te escapou!
Se não retiras a expressão
Fanfarrão!
Levas muito cachação!
Sampaio (À parte.) — Ele é valente! Haja prudência!
Barnabé (Avançando.) — Há de ter santa paciência:
Apanhas como ladrão!
Sampaio (Fugindo, à parte.) — Ele me quer limpar a roupa!
Barnabé (À parte.) — O fanfarrão tremendo está!
(Alto, avançando.) Fazer-te quero numa sopa!
Sampaio (Fugindo.) — Adeus, e fique-se por cá!
(Barnabé agarra-o pelas barbas, que lhe ficam na mão.)
Barnabé — Hein? Deixou de ser barbado!
Sampaio — Bico! Bico por quem é!...
Barnabé — Que vejo? O subdelegado!
Sampaio (Á parte.) — Conheceu-me! Passo o pé!
(Vai fugir.)
Barnabé — E eu cá sou o Barnabé!
Sampaio (Voltando.) — O Barnabé!
Juntos
— Ah!ah!ah!ah!ah!ah!ah!
Estou aparvalhado!
Caso mais engraçado!
Decerto que não há!
— Ah!ah!ah!ah!ah!ah!ah!
Sampaio — Mas como pode isto ser? Eu supunha-o preso!
Barnabé — Preso não estou; estou apenas surpreso! (Lembrando-se.) Mas... oh,
meu Deus... dar-se-á caso que Vossa Senhoria queira catrafilar-me outra vez?
Acredite que estou inocente!...
Sampaio — Descanse. Folgo até de encontrá-lo aqui.
Barnabé — Por quê?
Sampaio — Quer me parecer que nós somos enganados...
Barnabé — Vossa Senhoria, quando diz “nós”, fala como autoridade, ou refere-se a
mim também?
Sampaio — Falo como barbeiro. Vejamos se alguém nos ouve... (Sobem a cena e
observam, um à direita, outro à esquerda. Sampaio põe as barbas.)
Barnabé — Senhor subdelegado, onde está Vossa Senhoria? Ah! Cá está! Com as
barbas já não o conhecia! (Clarinha aparece ao fundo e aí se conserva.)
Cena V
Os mesmos, Clarinha
Sampaio — Ninguém.
Barnabé — Ninguém também por este lado...
Clarinha (À parte.) — Hein?...
Sampaio — Este meu disfarce não o admira?
Barnabé — Decerto...
Sampaio — Pois foi sua noiva quem me aconselhou que o arranjasse.
Barnabé — Clarinha?
Clarinha (À parte.) — Meu nome?...
Sampaio — Ela escreveu-me...
Barnabé — A Vossa Senhoria?...
Sampaio — Para dizer-me e provar-me que Chica Valsa me engana... Agora não vá
dar com a língua nos dentes... Eu sou viúvo e tenho três filhas solteiras...
Clarinha (À parte.) — É o Sampaio! E o Barnabé solto!
Barnabé — Mas Clarinha não está presa? Não está embrulhada nestes negócios da
leitura do Imparcial?
Sampaio — Não, tolo: a Clara não está embrulhada...
Barnabé — Esta embrulhada é que não está clara!
Sampaio — Foi ela que lhe arranjou aquela prisão; que lhe meteu a pulseira no
bolso!
Barnabé — Ela!...
Sampaio — Queria desfazer-se de você!
Barnabé — De mim?!
Sampaio — Aqui para nós, que ninguém nos ouve: aquela sua noiva não é lá muito
boa peça...
Clarinha (À parte.) — Ah!
Barnabé — Clarinha! um anjo de inocência e de candura!
Sampaio — Você é um bolas seu Barnabé!
Barnabé — Chame-me Vossa senhoria o que quiser... para mim é o mesmo... mas
não diga mal da pobrezinha! Hei de defendê-la, enquanto puder, contra tudo e
contra todos!
Sampaio — Que lhe faça bom proveito!
Barnabé — Ela! Tão bonita, tão boa, tão amável, tão honesta!
Clarinha (À parte.) — Pobre rapaz!
Sampaio — E se eu lhe provar que ela está cá?
Barnabé — Ela quem? Clarinha? Aqui?!..
Sampaio — Olhe, ouça: vamos percorrer a festa, e, se a encontrarmos, desejo que
ela não me conheça. Quero observá-la a fim de saber com que fim me escreveu...
Clarinha (À parte.) — Ah! tu não queres ser conhecido. (Vai-se.)
Barnabé — Ela? Ela? decididamente fico idiota!
Sampaio — Siga-me, digo-lhe eu: mas, quando a virmos, não fale. Evitemo-la, sem
a perder de vista. (Clarinha cantarola no bastidor.) Uma voz de mulher!
Barnabé — Ai! meu Deus!
Sampaio — Quem é?
Barnabé — É ela! É ela!
Sampaio — Ela!... (Levando-o para um canto.) Deixemo-la passar! (Clarinha entra,
sempre cantarolando, e, depois de percorrer o fundo, aproxima-se dos dois e finge
que se assusta.)
Clarinha — Ui! Os senhores meteram-me um susto!
Barnabé — Pois quê! É ...
Sampaio (Dando-lhe um empurrão.) — Cale-se!
Clarinha — Ah! desculpem... não os conheço. Estão aqui para a grande questão,
não é assim?
Sampaio (Disfarçando a voz.) — Que questão?
Clarinha — Trata-se de mim...
Sampaio — Ah! trata-se da senhora?
Clarinha — De mim, Clarinha Angu.
Barnabé (À Parte.) — E como está vestida!
Sampaio — Ah! a senhora é...
Clarinha — Imagine o senhor que me queriam casar com um homem, oh! um
homem de bem, às direitas...
Barnabé (À parte.) — Ah!
Clarinha — mas tolo...
Barnabé (À parte.) — Eh!
Clarinha — Um coração invejável, um caráter como poucos...
Barnabé (À parte.) — Ih!
Clarinha — Um bom rapaz, enfim...
Barnabé (À parte.) — Oh!
Clarinha — Mas, como já disse, tolo o que se pode chamar tolo!...
Barnabé (À parte.) — Uh!
Terceto
Clarinha
— Está na conta o Barnabé
Para ser irmão ou amigo;
Porém meu ideal não é...
Não há de se casar comigo!
Barnabé — Céus! ela o que dizendo está!
Sampaio — Je comprends ça, je comprends ça!
Clarinha — Muito me custa vê-lo aflito,
Mas eu a outro amava já...
Barnabé — A outro!
Clarinha — Muito mais bonito!
Sampaio — Je comprends ça, je comprends ça!
Barnabé — Ah, meu Deus! cambaleio!
No chão vou já cair!
Clarinha
— Mas o meu namorado, creio,
Está pensando em me trair
Aí está o mistério
Que devo desvendar!
É esse o caso sério
Que tem-me feito suar!
Os Três
— Aí está o mistério
{deve
Que { desvendar!
{devo
É esse o caso sério
{ me
Que { tem feito suar!
{ a
Clarinha — Sabem vocês quem é a Chica Valsa,
Que vive os homens a enganar?
Barnabé — Sim, eu...
Sampaio — Não sei.
Clarinha
— Foi uma amiga falsa,
Mas eu a vou desmascarar:
Certo amante muito arruinado
Cedeu lugar ao macacão
Sampaio, o tal subdelegado...
Sampaio — Ao macacão!
Barnabé (À parte.) — Toma lá, meu vilão!
Clarinha
— O macacão tudo lhe dá,
Mas a Chica é mulher leviana:
Com o seu antigo amante, olá!
O s’or subdelegado engana!
Sampaio — Céus! ela o que dizendo está!
Barnabé — Je comprends ça, je comprends ça!
Clarinha
— Essa mulher da pá virada
Eu sei que considera já
O Sampaio um paio e mais nada!
Barnabé
— Je comprends ça, je comprends ça!
Ah, meu Deus! cambaleio!
No chão vou já cair!
Clarinha
— É co meu namorado, creio,
Que a Chica os eu conta iludir!
E aí está o mistério, etc.
Sampaio (Tirando as barbas.) — Olá! eu sou o subdelegado!
Clarinha — Já disso sei!
Sampaio — Já sabe então?
Clarinha — Olé!
Barnabé — E eu cá sou...
Clarinha — O Senhor Barnabé.
Barnabé — Sabia então?
Clarinha — Ora se não!
Sampaio — Vingança eu vou tomar!
Clarinha
— Vai tudo transtornar!
Daqui afastemo-nos já!
(Sobe ao fundo.)
Céus! Bitu que ali está!
Os Dois — Bitu!
Clarinha (Descendo.)
— Vingança!
Vingar-me é a minha esperança
Pra vingar-me um belo dia
Desse grande lheguelhé,
Eu capaz até seria...
(A Barnabé.) De casar-me com você!
Venham cá!
Venham já!
Vocês vão conhecer-me,
E dizer-me
Depois,
“Tens talento por nós dois”!
Os Dois
— Vamos lá
Vamos já!
Vamos lá conhecê-la
E dizer-lhe depois
“Tens talentos por nós dois!”
(Saem)
Cena VI
Bitu, (só)
Bitu (Entrando do fundo.) – Eis-me enfim na festa do Espírito Santo, o único espírito
que há nesta terra, não falando no engarrafado e no meu. Como me bate o coração!
A Chica escreveu-me, pedindo-me uma entrevista para hoje, as nove horas, aqui! É
esquisito! Uma entrevista em Maria Angu, quando na Corte não nos faltava sítio...
Ela, enfim, tem lá suas razões...
Cena VII
Bitu, Chica Valsa
Chica Valsa (Vestida de preto e de véu espesso.) — Enfim te encontro!
Bitu — Acho-te enfim!
Chica Valsa (Levando as mãos ao peito.) — Estou com o coração nas mãos...
Bitu — Não! estás com a mão no coração.
Chica Valsa — Obrigas-me a fazer coisas...
Bitu — Que receias tu?
Chica Valsa — Estou exposta a tanto! podia ser alguma cilada... mas, enfim, cá
estás; estou mais sossegada. Fiz tudo o que me recomendaste em tua carta.
Bitu — Em minha carta?
Chica Valsa — Que tal achas este vestuário de viúva? Não é assim que querias?
Bitu — Que eu queria, como? Não te entendo!
Chica Valsa — Pois tu, a quem não via desde aquela noite fatal, em que brigamos
por causa da Clarinha Angu, não me escreveste ontem...
Bitu — Eu?
Chica Valsa — ... dizendo que me achasse aqui, na festa do Espírito Santo, às nove
horas, assim vestida?... Achei o lugar esquisito, quando na Corte poderíamos fazer
as pazes!
Bitu — Mas foste tu quem escolhestes o lugar, benzinho.
Chica Valsa — Eu, meu amor?
Bitu — Tu, meu coração; nesta cartinha que já sei de cor e salteado!
Chica Valsa — Uma cartinha que eu te escrevi! Eu?!...
Bitu — Estás arrependida?
Chica Valsa — Queres divertir-te à minha custa?
Bitu — Já não te lembras? Nesse caso ouve lá! (Lê a carta.)
Dueto
— “Qu’rido Bitu que se esqueceu de mim,
É meu amor, amor sem fim!
Eu devo confessar, Nhonhô, que ao fazer desta
Padece o peito meu, e a causa disso és tu!
Hoje, às nove da noite, espero-te na festa,
Lá em Maria Angu.
Apaga-me esta chama,
Sufoca-me estes ais,
E não te esqueças mais
Desta infeliz que te ama.”
Chica Valsa — Assina-se quem?
Bitu — Vê: “Chica Valsa”.
Chica Valsa — Traição!
Bitu
— Esta firma é falsa?
A carta que aqui está
Tua não é?
Chica Valsa
— Ouve lá!
(Lendo outra carta que tira do seio.)
“Não passo de um jornalista da roça,
Sem ter futuro, sem ter posição,
Mas, meu amor, por ti sinto paixão;
Viver sem ti não suponhas que eu possa!
Longe, lá em Maria Angu
Há hoje festa do Espírito Santo.
Nesse poético recanto,
Meu doce amor, não queres tu,
Fingindo ser senhora viúva,
De capa preta, véu e luva,
Ir encontrar o teu Bitu?
Como eu presumo que me adoras,
Sem falta, amor, contigo conto,
Se tu não vem às nove horas
Eu me mato às dez em ponto!”
Bitu — Isto por artes só de Belzebu!
E assina quem?
Chica Valsa — Vê: “Ângelo Bitu.”
Ambos
— Que cilada se armou!
Eu envergonhad {o
{estou!...
{a
Chica Valsa — Fugir, fugir, se é tempo ainda!
Bitu
— Não!... Para quê?
Aqui fique você!
Minha Chica, tu és tão linda!
Oh! Eu te adoro!... O meu segredo aí está!
Ninguém o saberá!
Cena VII
Todos os personagens deste ato
(Todos, ao fundo, ouviam as últimas palavras de Chica e Bitu.)
Coro
— Ah! ah! ah! ah!
Segredo, olá!
Que todo mundo sabe já!
Bitu — Este senhora é muito minha!
Qu’remos passar!
Clarinha (Aparecendo.) — Mais devagar!
Todos — Clarinha!...
I
Clarinha
— Estás aí, Chica Morais?
Tem paciência: ouvir-me vais,
Pois me fizeste, por traição,
Ir ter cum velho solteirão!
Ó coisa ruim, não julgues tu
Que eu chore a perda do Bitu,
Canalha a vil que a quem mais der
Vende o jornal, vende a mulher!
Com ele podes tu ficar!
Luvas te devo até pagar!
Livre fiquei, graças ao céu,
De semelhante chichisbéu!
A mão lhe dá de esposa
E o mundo então dirá:
Não é lá grande coisa;
mas casada está!
Coro
— Que tal a rapariga?
Arrasa o seu Bitu!
Não há que se lhe diga!
Bem mostra ser Angu!
II
Chica Valsa
— Estás aí, Clarinha Angu?
Ouve também agora tu,
ó donzelinha, que a falar,
Um batalhão fazes corar!
não te faz conta o meu Bitu,
Porque o prender não podes tu;
Se ele aceitasse o teu amor,
Tu lhe darias mais valor...
Porém sabendo ficarás...
Não faço empenho no rapaz;
Casem-se, e não mostres assim
Tão negra inveja ter de mim!
A mão lhe dá de esposa, etc.
(As duas chegam às vias de fato; Sampaio vai separa-las e apanha bordoada)
Sampaio — Um bofetão me pespegou, senhora!
Chica Valsa — Quem é você? Não me dirá?
Sampaio (Tirando as barbas.) — Não me conheces agora?
Chica Valsa — Também você? Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
Todos — Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
Sampaio (Furioso)
— ‘Stou zangado!
‘Stou danado!
Vou de cólera saltar!
Ó senhora,
Sem demora
Vamos contas ajustar!
Bitu
— A Chiquinha
Só é minha!
Não a podes maltratar!
Meu amigo,
Só comigo
Terá contas a ajustar!
Todos
— Mas que é isto?
Jesus cristo!
Não precisam disputar!
Tudo agora
Sem demora
Vai-se elucidar!
(Confusão geral)
Clarinha — Cesse o rumor! basta de bulha!
(A Chica Valsa.) Dá-me tua mão!
Chica Valsa — Pois queres apertar...
Clarinha — Não faças caso: isto foi pulha!
Não deve a gente se zangar!
Chica Valsa(Apertando a mão de Clarinha.) — Pois bem!
Sampaio — Mas ouçam cá!
Clarinha (A Sampaio.)
— Neste momento
O que de melhor vai fazer,
Pra reputação não perder,
É aceitá-la em casamento!
Chica Valsa — E eu dou-lhe o meu consentimento!
Em casa do juiz agora um baile invento!
(A Sampaio.) Queira-me acompanhar.
(Entra na casa do Juiz da festa acompanhada por Sampaio.)
Coro — O que irá ela ali buscar?
Barnabé (A Clarinha, que tem estado a chorar.)
— Que vejo! Choras tu, Clarinha?
Clarinha — Eu não...
Barnabé — Tu sim, que vendo estou!
Coro — Então tu choras?
Clarinha (Enxugando os olhos.) — Já passou!
Bitu — Arrependeu-se a sinhazinha?
Oh! se assim foi, eu lhe ofereço a mão!
Clarinha
— Você não me conhece, não!
De raiva é que é este choro!
De raiva é que isto é!
Perdi o meu tesouro!
Perdi o Barnabé!
(Estendendo a mão a Barnabé, sem olhar para ele.)
Pois se eu lhe disser :”Toca”
Ele é capaz, até
De oferecer-me em troca,
Em vez da mão... o pé...
Barnabé (Tomando-lhe a mão com amor.)
— Eu te juro!
Eu trejuro
Pelas cinzas do meu pai,
Ó Clarinha
Vida minha,
Que o passado já lá vai!
Coro
— Que nobreza!
Que franqueza!
Que vergonha pro Bitu!
Que barbeiro
Cavalheiro!
Casa-se Clarinha Angu!..,
Bitu (À parte.)
— Ah! lá se vai o meu amor
Como a mamã, porém, fará!...
O que for
Soará...
Chica Valsa (Voltando, acompanhada por Sampaio.)
— Eu convido este ilustre auditório
Pra na casa dançar do juiz!
Barnabé — Ai, meu Deus! como eu sou feliz!
Vou celebrar meu casório!
Chica Valsa — Pois vai casar-se mais alguém?
Quem?
Clarinha
— De Maria Angu
A filha é noiva de Barnabé!
Sou Clarinha Angu!
Filho de peixe peixinho é!
Olhem cá!
Vejam lá!
Sou Clarinha Angu!
Coro
— De Maria Angu A filha é noiva de Barnabé!
É Clarinha Angu!
Filha de peixe peixinho é!
Olhem cá!
Vejam lá!
É Clarinha Angu!
[(Cai o pano)]
Fonte: www.dominiopublico.gov.br
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