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A JÓIA

artur azevedo

Cena VI

Valentina, depois O Joalheiro

VALENTINA (Dirigindo-se à porta por onde saiu Carvalho.)
— Tu queres fazer-te de esperto...
Oh! mais esperta sou eu!
O JOALHEIRO (Pondo a cabeça fora da porta.)
— Entrar já posso?
VALENTINA — Decerto.
O JOALHEIRO (Descendo à cena.) — Tolo! chamar-me de judeu
e tratante! Eu tudo ouvi
por trás daquela cortina!
VALENTINA —Viu que o maldito sovina
diz que não valem...
O JOALHEIRO — Vi... vi....
Quem lhe dera que valesse
tanto quanto os meus brilhantes!
Mas olhem que estes amantes...
VALENTINA — Todos eles são como esse!
Já homens eu não descubro.
Ora, imagine que há meses,
e isso se dá muitas vezes,
em que as despesas não cubro!
O JOALHEIRO — Também me queixo um bocado,
pois o negócio vai mal,
tudo o que vendo é fiado
e não recebo um real!
Mas vamos; em que ficamos?
Olhe: tentá-la não quero...
VALENTINA — Uma idéia tenho; espero
que há de aprová-la.
O JOALHEIRO — Vejamos...
VALENTINA — Disse ele que, se comprar
por quatro contos a jóia,
dá-me dois contos, e foi à
casa o dinheiro buscar.
O JOALHEIRO — Sei tudo e não peço bis,
graças àquela cortina.
Saiba, Dona Valentina,
que é uma primorosa atriz!
Sei o que quer: que lhe entregue
a jóia por quatro agora,
para receber da senhora
os outros dois: pois sossegue:
estou por tudo, na ‘sp’rança
de que os seis contos receba.
VALENTINA — Mas ele que não conceba
a menor desconfiança!
O JOALHEIRO — E os dois contos? Onde estão?
VALENTINA — Dar-lho-ei quando os tiver.
O JOALHEIRO — Como assim?
VALENTINA — Quando mos der
o fazendeiro.
O JOALHEIRO — Isso não!
VALENTINA — Dúvida de mim?
O JOALHEIRO — De tudo!
Ai, minha rica senhora,
não me dizia inda agora
que este tempo anda bicudo?
Desculpe... que quer? Sou franco...
VALENTINA — ‘Stá bem. ‘Stá bem! Não insisto:
é justo. (Tirando papéis do bolso.)
Sabe o que é isto?
O JOALHEIRO — Olé! São cheques do banco!
VALENTINA — Que horas tem?
O JOALHEIRO (Vendo o relógio.) — É meia hora.
VALENTINA — Pois vou buscar o dinheiro.
Quando vier o fazendeiro...
O JOALHEIRO — Vá descansada a senhora:
julguei que só mo daria
quando lho desse o sujeito.
Há de encontrar tudo feito,
quando voltar coa quantia.
VALENTINA (Pondo o chapéu.)
— Posso fazer um bom gancho...
O JOALHEIRO — Quatro contos arrecada;
mas se está contrariada,
todo o negócio desmancho:
não tento...
VALENTINA — Espere-o. Adeus (Sai.)
O JOALHEIRO — Vá descansada.

Cena VII

O Joalheiro, só

[O JOALHEIRO] — É barato;
mas o lucro imediato
é bem bom, graças a deus!
Daqui a dez dias talvez
a jóia não seja dela:
por cinco me há de vendê-la;
por sete a vendo outra vez.
(Desembrulha a caixa da jóia, que tira da algibeira, abre-a, e contempla-a com ar compassivo.)
Alvos brilhantes, peregrina jóia,
vou brevemente me ausentar de vós!
De vendedor não julgueis ser tramóia
este elogio que vos teço a sós!

Ninguém nos ouve nem nos vê; portanto
não é suspeito o cândido louvor.
Sinto nos olhos da saudade o pranto,
sinto no peito a languidez do amor!

Durante o tempo em que tu foste minha,
prenda formosa, prenda sem rival,
todos os dias à minh’alma vinha
lástima prévia... Adivinhava o mal!

Adivinhava enfeitarias breve
o corpo impuro que te apeteceu;
foi rara jóia de valor que teve
melhor destino que o destino teu.

Ai, se eu te visse envelhecida, gasta...
toda arranhada... não fazia mal...
Mas nas orelhas de uma esposa casta...
prenda formosa, prenda sem rival!

Cena VIII

O Joalheiro, Carvalho

CARVALHO (Entrando.) — Ora viva! (À parte.) Ele por cá!
É mau sinal... (Vendo a jóia.)
E os brilhantes...
O JOALHEIRO — ‘Stava aqui há alguns instantes
a sua espera.
CARVALHO — Onde está
Valentina?
O JOALHEIRO — Saiu; tinha
algumas voltas que dar.
CARVALHO — E o senhor vem cá buscar
o quê?
O JOALHEIRO — Eu lhe digo... eu vinha...
CARVALHO — Para que voltou aqui?
O JOALHEIRO — Saiba Vossa Senhoria...
CARVALHO — Uma ridicularia
pela jóia ofereci.
Não quer decerto vendê-la
por quatro contos...
O JOALHEIRO — A instâncias
das minhas circunstâncias,
sou obrigado a cedê-la. (Dando-lhe a jóia.)
Aqui tem. Tudo isto é seu.
De não vendê-la com medo
a qualquer outro, é que a cedo
pelo que me ofereceu.
CARVALHO (Sem aceitar a jóia.)
— O quê? Pois por quatro contos
quer ma ceder?... Vale seis!
O JOALHEIRO — De quatro contos de réis
nós precisamos de pronto.
Se inda agora não cedi,
foi porque tinha contado
com eles por outro lado..
É sua jóia: ei-la aqui! (Entrega-lha.)
É pechincha! Mas... que quer?
Tenho uma letra a vencer-se... (Vendo o relógio.)
E não me dá que converse
vinte minutos sequer.
CARVALHO — Se Valentina tivesse
dinheiro acaso, diria
que entre o senhor e ela havia
combinação.
O JOALHEIRO (A meia voz.) — Mas, se houvesse,
eu, muito em particular,
Tudo diria.
CARVALHO — Acredito
(À parte.) Outro remédio - bonito -
não tenho senão pagar!
O JOALHEIRO — Veja que esplêndidos são!
Veja que são opulentos!
CARVALHO (deita a caixa da jóia sobre o sofá, tira do bolso a carteira e dá notas do banco ao joalheiro.)
— Oito notas de quinhentos!
O JOALHEIRO (Depois de conferir e guardar o dinheiro.)
— Da nossa casa o cartão
aqui tem.
CARVALHO — Faça favor...
Traz estampilha?
O JOALHEIRO — Sim, trago...
CARVALHO (Apontando para a secretária.)
— Diga-me ali que está pago.
O JOALHEIRO — Pois não; é pouco trabalho.
(Senta-se à secretária, toma papel e pena.)
Seu nome? - Que bom papel!
CARVALHO — O Tenente-coronel
Joaquim dos Santos Carvalho.
(O joalheiro escreve. Á porta da esquerda, segundo plano, aparece João de Sousa.)

Cena IX

O Joalheiro, escrevendo, Carvalho, O Joalheiro, João de Sousa

CARVALHO (Admirado, vendo Sousa.) — Ó compadre João de Sousa!
SOUSA (Também admirado.) — Ó compadre!
(Correm um para o outro e abraçam-se com efusão.)
O JOALHEIRO (Parando de escrever, consigo.) — Me enternecem!
(Aproximando-se dos dois, que novamente se abraçam em silêncio.)
— Uma vez que se conhecem,
mandem vir alguma coisa.

[Cai o pano]

ATO TERCEIRO

A mesma decoração

Cena I

João de Sousa, Joaquim Carvalho

(Este sentado na poltrona, aquele de pé.)
SOUSA — Agora, caro compadre,
que boas novas te dei
dos pequenos, da comadre,
que de saúde deixei,
explica a tua presença
aqui
CARVALHO — É bem natural.
SOUSA — Se me concedes licença,
direi que começa mal:
meter aqui o bedelho
homem casado não vem!
E além de casado, velho!
De natural nada tem...
CARVALHO — E você? como é que explica
sua presença? Ande lá!...
SOUSA — A minha só significa
que sou bom pai: aqui está!
Na casa em que estou agora
não era capaz de entrar,
me pagassem muito embora!
CARVALHO (À parte.) — E eu entro para pagar...
SOUSA — Fui obrigado a fazê-lo...
Hei de contar-te depois.
Mas, tu, compadre! Um modelo!
CARVALHO — Ouve, e fique entre nós dois...
Porém, agora reparo
que não te queres sentar!
SOUSA — Eu tenho um caráter raro,
tenho uma alma singular!
Sentar-me nestas cadeiras!
Livre-me Nosso Senhor! (Escarra e cospe.)
Cuspir nas escarradeiras
farei... por muito favor.
Da morte embora nas ânsias,
sentar-me... Oh! Não sou capaz!
Eu não venço as repugnâncias
que esta miséria me faz!
Este luxo deslumbrante
é vil, é mais do que vil:
produto negro, infamante,
do falso amor mercantil!
Não sei que nome lhe quadre,
não sei seu nome qual é...
(Outro tom.)Você desculpe, compadre,
mas hei de ouvi-lo de pé.
CARVALHO — És rigoroso, contudo...
SOUSA — Eu penso assim...
CARVALHO — Pensas bem. (Erguendo-se.)
E para dizer-te tudo,
eu me levanto também.
(Depois de alguma pausa.)
Como sabes, compadre, vim à corte
vender uma partida de café;
era gênero de primeira sorte;
nos comissários não fazia fé.
Fiz bom negócio. Efetuada a venda,
as malas a arrumar me decidi.
Os deveres chamavam-me à fazenda...
Infelizmente Valentina vi...

Encontrei-a no Prado Fluminense;
ela, a sorrir, mandou-me o seu cartão...
Um pecador que se já não pertence
tornei-me desde aquela ocasião.

Vivemos sós. Aqui ninguém mais entra.
Neste retiro sinto-me feliz.
E a minha f’licidade se concentra
no que ela pensa, ordena e diz!

Forçoso é dar um paradeiro a isto!
Lá na fazenda espera-me o dever!
É grande a sedução, mas eu resisto:
e posso me ausentar quando entender!

Com parcimônia me regrado tenho;
só um conto gastei; nem mais um vintém.
Só hoje é que quatro gastar venho
co’estes brilhantes que lhe dei.

SOUSA (Pega na jóia; depois de examiná-la com indiferença.)
— Pois bem.
(Deixa a jóia onde estava. Pausa.)
Compadre, vou expor-te:
apareceu lá na roça,
em minha casa... na nossa...
um rapaz aqui da corte.
Foi há seis dias... e meio.
Como pelo meu cunhado
me fora recomendado,
em minha casa hospedei-o.
— Era muito divertido;
conversa muito bem;
finalmente, que haja alguém
mais simpático duvido.
Descobri (sabes, meu rico,
que não há quem me embarrele)
que entre minha filha e ele
havia seu namorico.
Tu sabes: eu sou pão-pão.
queijo-queijo; sabes?
CARVALHO — Sei.
SOUSA — Por isso lhe perguntei
qual era sua intenção.
Era casar. Ela quer...
Eu não sou dos mais incautos,
pois não estive pelos autos...
e disse à tua mulher:
“Vamos ver se ele a merece.
Não é seguir boa trilha
entregar um pai a filha
a um homem que não conhece.”
— Portanto, a missão que trago
é indagar; tu bem compreendes
que, se a filha me pretendes
e eu não te conheço, indago.
CARVALHO — Ele é só?
SOUSA — Tem uma irmã
viúva e muito bonita,
que nesta cidade habita.
CARVALHO — Tu viste-a?
SOUSA — Certa manhã
vi-lhe o retrato: é bonita
Ele ficou de voltar
para saber da resposta;
minha filha está disposta
a se esquecer, ou casar.
Minha medida acertada
não achas?
CARVALHO — Acho.
SOUSA (Inflamando-se.) — Pois bem;
sabes, compadre, com quem
casava a tua afilhada,
se eu não fizesse este exame?
CARVALHO (Intrigado.) — Com quem?
SOUSA (indignado.) — Com um homem nojento,
um tipo asqueroso, odiento,
maroto, velhaco, infame!
CARVALHO (Benzendo-se.) — Valha-me Nossa Senhora!
SOUSA — Esse covarde, esse réu
de polícia, é chichisbéu
da sujeita que aqui mora!...
CARVALHO — De Valentina?! Não!... Qual!...
Enganaram-te compadre...
Pintaram contigo o padre...
Aqui não entra um mortal!
SOUSA — Não entra! Digo-te mais:
esse miserável homem.
qual outros que á custa comem
destas harpias sensuais,
pelas famílias malditas,
é quem às compra lhe vai,
quem com ela às vezes sai...
É quem lhe traz as visitas!...
CARVALHO — E tu, por mais que me digas,
compadre, estás enganado.
SOUSA — ‘Stou muito bem informado:
é seu chichisbéu!
CARVALHO — Cantigas!
SOUSA — Tens uma venda nos olhos,
pois deixa que hei de arrancar-ta
enquanto é tempo, te aparte
destes ásperos abrolhos.
Não seja o tipo eterno
do ridículo matuto,
o lorpa, o simples, o bruto,
sem juízo, sem governo!
a quem já nem mesmo importa
mulher ou filha, se topa
um desses demos que a Europa
todo os dias exporta!
— Como vês, compadre, aqui,
a este lupanar lascivo,
me trouxe melhor motivo
que o mau que te trouxe a ti.
Meu espírito recua
em frente desta desonra:
mas venho salvar a honra...
e tu vens perder a tua...
— Que mal vos fazem, serpentes -
víboras vis, - não direi
homens assim (Aponta para Carvalho.) que bem sei
vos procuram imprudentes;
porém a esposa, que vive
da confiança do esposo,
e perde da alma o repouso
ao mais ligeiro declive
da sua felicidade?!
É o filho, cujo futuro
‘stá no respeito seguro
do pai pela sociedade?...
— Tua mulher nunca teve
brilhantes. Nunca lhos deste,
e contudo os dá a peste
que na corte te reteve,
enquanto lá na fazenda
o obrigação te esperava
e ao deus-dará tudo andava!...
— Que o que digo não te ofenda;
mas o teu procedimento,
compadre, não tem desculpa!
Não lava tão grande culpa
sincero arrependimento!
— Vamos! nem mais estejamos
em casa desta mulher!
Amanhã, se Deus quiser,
o trem de ferro tomamos. (Pegando na jóia.)
A jóia! ninguém a pilha!...
Sou eu que a quero guardar. (Abrindo a caixa.)
Olha, isto fica a matar
na orelha de tua filha...
(Guarda a jóia na algibeira.)
Como hás de ficar contente
- parece-me estar a ver -
quando Laura agradecer
um tão bonito presente.
Ouve os meus conselhos sábios:
de Laura os beijos na testa,
certo valem mais que o que esta
mendiga te dá nos lábios.
Vamos! Anda! (Dá-lhe o chapéu e o sobretudo.)
CARVALHO (Vestindo o sobretudo e pondo o chapéu.)
— Não discuto
sobre a verdade dos fatos,
que não sei se são exatos,
nem mentirosos reputo.
Vamos embora, mas quero
que, antes de irmos, te convenças
desses boatos que ofensas
me parecem.
SOUSA — Pois espero
Nós aqui, com alguma arte,
tudo havemos de descobrir;
tomara que eu possa rir
de maneira que me farte. (Dispondo-se a sair.)
Espera-me alguns instantes,
Em casa desta jibóia
não há de ficar a jóia.
Confia-me os teus brilhantes. (Sai)

Cena II

Carvalho, só

[CARVALHO] — Zombaram do compadre! Aquele coração
não pode alimentar tamanha perversão!
Valentina é um anjo: as lágrimas que chora
não se podem fingir. Não digo que me adora,
mas ama-me, decerto. Um anjo, que me diz:
“Se tu não fosses rico, eu era mais feliz!”
Eu não lhe pago o amor; apenas eu lhe pago
as cadeiras, o leito, o canapé que estrago
e os quadro que desfruto. O mal, o grande mal
foi vê-la e gostar dela. É muito natural
que um velho feio, achando uma mulher que o ame
que, sem saber se é rico, o seu amor reclame,
sinta que lhe desperta o morto coração. (Pausa.)
Mas o compadre... Não! Não é possível! não!
O compadre... Ora adeus! Até causou-me tédio!
Vamos, Joaquim Carvalho: o que não tem remédio
remediado está. É preciso sair!
Mas não como ele quer; sair e não fugir!
A ingratidão não está na minha natureza.
As bichas hão de ser a última despesa...

Cena III

Carvalho, Gustavo

GUSTAVO (Entrando sem cerimônia, sem reparar em Carvalho, pela esquerda, segundo plano.)
— Valentina
(Vê Carvalho e tira o chapéu atrapalhado.)
— Perdão... perdão...
CARVALHO — Quem é?
GUSTAVO — Senhor,
eu vinha procurar... o doutor... o doutor...
CARVALHO — O senhor, ao entrar, exclamou: — Valentina!
Pois é quem mora aqui. Que quer dessa menina?
GUSTAVO — Não! Vossa Senhoria enganou-se...
CARVALHO — Ora qual!
Ouvi distintamente o seu nome.
GUSTAVO — Ouviu mal.
CARVALHO — Pior é essa! Ouvi — Valentina!
GUSTAVO — Eu procuro
o doutor... Perdigão...
CARVALHO — Ai, mau!
GUSTAVO (À parte.) — Não acho furo!
(Alto.) Julguei que aqui morasse o Doutor Perdigão:
É Vossa Senhoria?
CARVALHO — Ai, mau!
GUSTAVO (À parte.) — Que entalação!
CARVALHO — Antes de entrar aqui, devia bater palmas!
Nesta população de quinhentas mil almas
só o senhor assim procede!
GUSTAVO — Mas, senhor,
eu vinha procurar o doutor...
CARVALHO — Que doutor!
A senhora que aqui reside não é dessas...
Vá lá! Não continue! Sai-lhe o trunfo às avessas!
GUSTAVO — Pois bem, adeus; perdoe um desalmado!
CARVALHO — Bem!
(Enquanto Gustavo sai por onde entrou.)
Aqui não se costuma a desmentir ninguém.

Cena IV

Carvalho, só

[CARVALHO] — Que grandíssimo idiota!
Talvez que também suponha...
É muito pouca vergonha...
(Depois de dar alguns passos pela sala, para, como ferido por uma idéia súbita.)
Esperem! Este janota
será o tal chichisbéu
de quem falou inda há pouco
o meu compadre?.. Estou louco!
Não pode ser. Deus do céu!
Porém verdade, verdade,
não deve entrar um estranho
assim com tanto arreganho,
com tamanha liberdade
em casa e uma pessoa
que não conhece! Ele entrou,
e “Valentina” gritou!
Havia de entrar à toa
sem que por ela estivesse
autorizado? Não vê!
Ah! compadre, que você,
se não tem razão, parece...
(Fica pensativo. Senta-se no sofá.)

Cena V

Carvalho, Sousa

SOUSA (Entrando pela esquerda. segundo plano, e indo a Carvalho.)
— Donde estão os teus brilhantes
nem mil mulheres os tiram!
(À parte.) Do bolso meu não saíram;
é bom que os julgues distantes
pelas dúvidas... (Alto.) Então?
Que tens, que estás pensativo?...
dessa tristeza o motivo
ou motivos quais são?
Dar-se-á caso que o remorso
dos teus negros pecadilhos
contra a esposa e contra os filhos
se te escarranchasse ao dorso?
Serão saudades pungentes
daqueles que tanto adoras?
Como eles choram, já choras?
O que eles sentem já sentes?
Ou simplesmente suspeitas
são de que verdade era
quanto disse da megera
por quem a perder te deitas?
CARVALHO (Erguendo a cabeça.) — Não é nada.
SOUSA — Dentro em pouco
sucede à melancolia,
que o teu semblante anuvia
um contentamento louco!
(Aproximando-se de uma das janelas e entreabrindo a cortina com a bengala.)
A recrudescer começa
o movimento das ruas.(Consultando o relógio.)
Já passa um quarto das duas. (Olhando para a rua.)
Compadre, vem cá depressa!
CARVALHO (Erguendo-se e aproximando-se de Sousa.)
— O que é?
SOUSA (Apontando para a rua.) — Vês ali parado
aquele sujeito... Aquele...?
Pois é o chichisbéu!
CARVALHO (Como reconhecendo.) — É ele!...
SOUSA — Vais ver se estou enganado,
ou se é certo o que te disse!
Há de ficar cuma cara...
CARVALHO (Olhando para a rua.) — Lá vem Valentina; para;
conversa com ele; ri-se!
Parece que ele lhe conta
a aventura de inda há pouco...
SOUSA — Que aventura?...
CARVALHO — Que descoco!
Para este lado ele aponta.
SOUSA (Que tem observado;) — Espera! Se não me engano
é a senhora do retrato!
CARVALHO — Quem? Aquela? (Aponta.)
SOUSA — Exato! Exato!
CARVALHO — Que é Valentina te digo!
SOUSA — Valentina! Valentina!
Ela chama-se Joaquina
e é mana do tal amigo.
(Tirando Carvalho pelo braço.)
Depressa! Esconde-te cá
Por detrás desta cortina,
se é Joaquina ou Valentina,
verás!
(Faz com que Carvalho se coloque atrás da cortina da outra janela. Olhando para a rua.)
— Eles aí vem já! (Indo para a outra janela.)
Eu aqui também me escondo.
Não faças rumor!
CARVALHO (Escondido.) — Descansa.
SOUSA — Deixa, que a nossa vingança
há de aqui fazer estrondo!
CARVALHO (Pondo a cabeça para fora.)
— Mas que queres tu que eu faça?
SOUSA — Se ver tudo não puderes,
ao menos ouve!
CARVALHO — Ah! mulheres!...
SOUSA (Abrindo a cortina com repugnância.)
Pegar nisto! Que desgraça!
CARVALHO — É preciso ser malvada,
para que esta moça me iluda:
tantas provas dei...
SOUSA — Caluda!
que sinto passo na escada.
(Desaparecem ambos.)

Cena VI

Carvalho, Sousa, escondidos, Valentina, depois Gustavo

VALENTINA (Entra pela esquerda, segundo plano, e começa a procurar Carvalho.)
— Carvalho! Joaquim Carvalho!
Quincas! Quincas! Carvalhinho!
(Entra, procurando sempre, na direita, primeiro plano.)
CARVALHO (A meia voz, pondo a cabeça para fora.)
— Que diz a isto, ó vizinho?
SOUSA (No mesmo.) — É preciso tempo; dá-lho. (Escondem-se.)
VALENTINA (Volta e convencida que está só, vai à porta da esquerda, segundo plano, e diz para fora.)
— Podes vir, que foi-se embora. (Vem sentar-se.)
Fecha a porta à chave. (Gustavo entra.)
CARVALHO (À parte.) — É ele.
GUSTAVO — Então foi-se embora aquele
‘stúpido?
CARVALHO (Na janela, à parte.) — Hein?
VALENTINA — Foi-se.
GUSTAVO — Inda agora
estava ele aqui.
VALENTINA — Já sei...
já me disseste... Mas vamos...
GUSTAVO — Lá vou.
VALENTINA — Tempo não percamos.
GUSTAVO (Sentando-se em uma cadeira.)
— Numa vila em que eu andei,
hospedou-me um fazendeiro
que se chama João de Sousa;
tipo que deve ter coisa
de cem contos em dinheiro.
Tem uma filha bem boa;
tivemos logo um derriço
pequeno...
VALENTINA — Não passou disso?
GUSTAVO —Nada! Há coisa que mais doa
que uma carga de pau?
— O pai, que não é simplório,
deu-me a entender que o casório
não tinha nada de mau.
Não refleti um momento...
SOUSA (À parte.) — Mas eu é que refleti.
GUSTAVO — Sem mais nem menos, lhe pedi
a pequena em casamento...
VALENTINA — Mas isso não vem ao caso...
GUSTAVO — Do resto vou por-te ao fato:
eu levava o teu retrato
comigo, por mero acaso.
O velhote estava um dia
a meu lado, e viu nas malas...
(Eu estava a desarrumá-las..)
... a tua fotografia.
Quis saber logo quem era!
Imagina o que lhe disse
- fora de certo tolice
falar verdade.
VALENTINA — Pudera!
Na tua situação!
GUSTAVO — Que eras minha irmão viúva...
VALENTINA — Tira o cavalo da chuva!
Pois lhe disseste isso?...
SOUSA (À parte.) — Cão!
GUSTAVO — O velho achou-te uma flor!
Muitos elogios fez-te!
Enfim, nunca tiveste
mais sincero admirador!
VALENTINA — Finalmente... o que concluis?
GUSTAVO — Que concluo? Ora essa é boa?
Que do velho na pessoa
raro tesouro possuis!
Armamo-lhe um forte logro!
Ele supõe que és honesta:
casa-se contigo.
CARVALHO (À parte.) — E esta?...
GUSTAVO — Por esse tempo é meu sogro.
Liquidamos o que houver (Ação de furtar.)
e fugimos para a América!
— Que tal esta idéia?
VALENTINA — Homérica!
GUSTAVO — É um país. como se quer,
a América! De lá passamos
à Itália, à França, à Alemanha,
à Suíça, à Áustria, à Espanha!
Todo mundo visitamos!
quando voltarmos, ninguém
de nós se lembra, descansa...
VALENTINA — Só de ser rica a lembrança,
não sei por quê, faz-me bem.
CARVALHO (À parte.) — Custa-me a crer!
GUSTAVO — Mas que dizes?
Se tomas conta do pai
e a filha nas mãos me cai,
seremos muito felizes!
Eu, que desveladamente
faço a tua f’licidade,
batendo toda a cidade,
buscando quem te freqüente,
venho trazer-te a ventura,
a independência talvez!
VALENTINA — Mas trata-se desta vez
de uma arriscada aventura!
GUSTAVO — Que tem que seja arriscada?
Somos alguns trapalhões?
Já pensei nas precauções
que exige a empresa arrojada.
Minha irmã viúva morreu:
podes bem passar por ela,
e o marido que foi dela
passa por marido teu.
Mudas de nome, isso sim!
Em lugar de Valentina,
tu ficas sendo Joaquina.
Ela chamava-se assim.
(Batem à porta da esquerda, segundo plano.)
VALENTINA — Quem bate? (A Gustavo.) Vai para a sala
de jantar. Já lá vou ter.
(Gustavo saí pela direita, segundo plano. Valentina abre a porta. Entra o joalheiro.)
Ah! é o senhor!

Cena VII

Carvalho, Sousa, escondidos, Valentina, O Joalheiro

O JOALHEIRO — Vim trazer
o seu recibo. Esperá-la
não pude, que o fazendeiro
estava aqui.
VALENTINA — Bem, dê cá.
(O joalheiro dá-lhe o recibo, que ela lê.)
O JOALHEIRO — ‘Stá tudo conforme?
VALENTINA — Está!
(Tirando um maço de notas da bolsa e dando-lhas.)
Aqui tem o seu dinheiro.
O JOALHEIRO (Depois de contar as notas.)
— Dois contos. Está exato. (Guardando-as.)
Muito obrigado. — A menina
fez um negócio da china!
Por um preço tão barato
nunca brilhantes daqueles
ninguém possuiu!
VALENTINA — Lamento
que aquele tolo e avarento
não pagasse tudo.
O JOALHEIRO — E eles.
Os brilhantes? Já lhos deu.
o fazendeiro?
VALENTINA —Inda não;
mas não tarda aí.
SOUSA (À parte.) — Ladrão!
O JOALHEIRO — Pois aproveite-o.
CARVALHO (À parte.) — Judeu!
O JOALHEIRO (Apertando-lhe a mão como para retirar-se.)
— Se os brilhantes quer vender...
VALENTINA — Por quanto?
O JOALHEIRO — Por cinco contos...
VALENTINA (Pensando.) — Ganho três
O JOALHEIRO (Deixando de apertar-lhe a mão e batendo no bolso.)
— Já cá estão prontos;
se quiser, é só dizer...
VALENTINA (Pensando.) — Não é má idéia, não..
(Resoluta.) Vou consultar com Gustavo...
Espere um pouco...
(Sai pela direita, segundo plano.)

Cena VIII

Sousa, O Joalheiro, Carvalho

O JOALHEIRO (Que se julga só.) — Bravo!
Um conto de pé pra mão!
SOUSA (Saindo do seu esconderijo e tomando o braço do joalheiro.)
— Passe já para cá os cinco contos. Já!
Não pense! Não reflita! A jóia, ei-la aqui está !
(Tira a jóia da algibeira e arremessa-a aos pés do joalheiro.)
O JOALHEIRO (Atônito, apanhando a jóia.— Mas, senhor...
CARVALHO (Da cortina.) — Não recuse! Em flagrante delito
por crime preso está de estelionato!
(Puxando um apito, a Sousa.) Apito?
SOUSA — Não apites! não! — Já cinco contos de réis!
E dê-se por feliz que eu não lhe peça os seis!
O JOALHEIRO (A Carvalho.)
— Mas Vossa Senhoria há de passar recibo!
(Dá o dinheiro a Sousa.)
CARVALHO Eu dou-lhe o seu, cá está! (Dá-lho.)
SOUSA (Tendo verificado o dinheiro.)
— E saiba que o proíbo de estar
mais tempo aqui! Já! Rua!
(O joalheiro sai pela esquerda, segundo plano.)
CARVALHO — Muito bem!
SOUSA — Esconda-se, compadre: os ladrões aí vem.

Cena IX

Carvalho, Sousa, escondidos, Valentina, Gustavo

VALENTINA (Entrando pela direita, segundo plano, acompanhada por Gustavo.)
— Já cá não está,
GUSTAVO — Foi-se embora?
VALENTINA — Arrependeu-se talvez...
GUSTAVO — Pois olha: mesmo por três
é negócio.
SOUSA — Nós agora!
(Salta do esconderijo e agarra Gustavo pelo pulso.)
Ai, grandíssimo cachorro!
CARVALHO (O mesmo com Valentina.)
— Canalha! corja! canalha!
SOUSA (Agitando a bengala.)
— Vais ver como isto trabalha!
CARVALHO — Pede já perdão!
VALENTINA (Caindo de joelhos.) — Socorro!...
CARVALHO (Cruzando os braços.)
— Pois lucrei com a minha vinda
aqui!
SOUSA — Com que tua irmã
é uma torpe barregã,
e tu és mais torpe ainda!
Apanha! (Dá-lhe com a bengala.)
GUSTAVO (Esquivando-se) — Senhor!
SOUSA (Perseguindo-o e dando-lhe.) — Apanha!
Toma! Toma!
GUSTAVO (No mesmo.) — Ai! Quem me acode?
SOUSA — Toma, patife!
GUSTAVO — Não pode!
(O joalheiro entra pela esquerda, segundo plano e interpõe-se.)
CARVALHO — Pouca vergonha tamanha
nunca se viu!
O JOALHEIRO (Apartando Sousa e Gustavo.) — Mas que é isto?
SOUSA — Deixe matar este cão!
CARVALHO (A Gustavo.) — Que é do doutor Perdigão?
O JOALHEIRO — Que fez o pobre de Cristo?
VALENTINA (Como ferida por uma idéia súbita.) — E a jóia?
(Cai desmaiada em uma cadeira; Sousa e Carvalho dão-se o braço e descem à cena. Gustavo corre para Valentina, e vendo que está desmaiada, sai pela direita, primeiro plano. Saída falsa. O joalheiro fica ao fundo como que apreciando.)
SOUSA (A Carvalho.) — ‘Stá satisfeita
de todo a nossa vingança!
Partamos sem mais tardança!
CARVALHO — É compadre, a conta feita,
saio com o cobre que trouxe.
SOUSA — Eu sinto um prazer estranho;
mas hei de tomar um banho
quando sair deste alcouce.
GUSTAVO (Volta com um frasquinho, que faz aspirar Valentina.)
— Valentina!
SOUSA (Ao público.) — O exemplo importa
da estranha aventura nossa,
não só aos tolos da roça
como aos espertos da corte.

[CAI O PANO]

FIM

Fonte: www.ufpel.edu.br/

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