Era em 1875. Numa pequena casa do Engenho Novo habitava, em companhia dos
pais, a moça mais bonita do Rio de Janeiro. Como houvesse nascido a
2 de maio, recebera na pia batismal, por simples indicação da
folhinha, o nome de Mafalda; entretanto, ninguém a conhecia por esse
nome, pois desde o berço começaram todos de casa a chamar-lhe
Fadinha, corruptela e diminutivo de Mafalda. E bem lhe assentavam aquelas
três sílabas, porque a moça, aos dezoito anos, possuía
todos os encantos que têm, ou devem ter, as fadas, e na sua beleza extraordinária
havia, realmente, qualquer coisa de sobrenatural e fantástico.
Morena, desse moreno fluido que só Murillo encontrou na sua maravilhosa paleta, de olhos negros e úmidos, narinas dilatadas, lábios grossos mas graciosamente contornados, abrindo-se, de vez em quando, para mostrar os mais belos dentes, cabelos negros como os olhos, abundantes, ligeiramente ondeados, apanhados sempre com um desalinho estético, deixando ver duas orelhas de um desenho tão impecável, que fora crime cobri-las - e todas essas partes completando-se umas às outras no oval harmonioso do rosto, Fadinha, por unânime deliberação do júri mais rigoroso, ganharia com toda a certeza o primeiro prêmio, se naquela época se lembrassem de abrir no Rio de Janeiro um concurso de beleza feminina. Todo o seu corpo se compadecia com a cabeça; era esbelta sem ser alta, robusta sem ser gorda, e as suas formas apresentavam uma extraordinária correção de linhas. As mãos e os pés eram modelos.
Exagerado parecerei, talvez, dizendo que Fadinha reunia a esses dotes físicos as melhores qualidades de alma; entretanto, a verdade é que era boa, afetuosa, submissa e compassiva. Tinha a sua ponta de vaidade, isso tinha, mas que outra mulher não a teria, sendo assim tão bonita?
Duas coisas, portanto, a desgostavam: ter vindo ao mundo a 2 de maio e chamar-se Mafalda, quando poderia nascer a 10 de julho e se chamar Amélia - e não ter nascido rica, muito rica, para fazer valer ainda mais a sua formosura. Todavia conformava-se alegremente com a precária condição de filha de um funcionário público paupérrimo. Sim, porque seu pai, o Raposo, chegara aos cinqüenta anos simples oficial de Secretaria, sendo obrigado, para agüentar a vida, a empregar os afazeres escriturando livros comerciais, ora numa padaria, ora numa venda, ora numa casa de penhores. E a vida sedentária fez com que ele engordasse extraordinariamente. O dr. Souto, médico da família, costumava dizer: o Raposo é uma apoplexia ambulante.
Fadinha não era filha única: tinha um irmão mais velho arrumado no comércio, e outro, ainda muito novo, que estudava para doutor, porque o pai o considerava o "talento da família".
A mãe era uma senhora de quarenta e cinco anos, que não se parecia absolutamente com a filha. Não sei por que fenômeno fisiológico, de um casal tão feio (porque o Raposo, coitado! era outro desfavorecido da natureza) saiu aquele esplêndido produto, aquela criatura escultural, aquela beleza inverossímil! Note-se que os dois rapazes também eram feios, principalmente o futuro doutor - narigudo, orelhudo, enfezado, anêmico, insignificante.
Não contente de levar parte da existência às voltas com os santos do seu oratório particular, d. Firmina - assim se chamava a mãe de Fadinha - andava constantemente pelas igrejas, adorando os de fora; mas, em que pesasse a tanta piedade não perdoava à filha o ser tão bonita, e revoltava-se intimamente contra o singular monopólio que a moça recebera da natureza como se fosse uma dádiva escandalosa; entretanto, Fadinha era toda a sua ambição de fortuna, toda a sua esperança de melhores tempos. O seu sonho era ser sogra de um argentário, pois que o não poderia ser de um príncipe. Se o Raposo não fosse um chefe de família, às direitas, essa mulher tê-lo-ia dominado, usurpando toda a autoridade no lar; felizmente ele batia o pé, não consentia em nada que lhe desagradasse.
Mas a nossa Fadinha tem um namorado. E tempo de apresentá-lo aos leitores.
Linda como era, não faltavam à moça adoradores de todas as idades e categorias. Muitos homens se abalavam da cidade até o Engenho Novo, só pela satisfação de contemplá-la, muitos deles conduzidos pela simples curiosidade, muitos deles instigados pela vaga esperança de uma promessa envolvida num sorriso ou num olhar. Pode-se dizer que durante muito tempo a formosura célebre de Fadinha contribuiu para o aumento da receita dos trens dos subúrbios, e para a animação do bairro, que naquele tempo não tinha a população de hoje. Muitos desses adoradores chegaram à fala, declarando-se animados das intenções mais puras, e entre eles alguns havia realmente dignos da singular ventura de casar com Fadinha; ela, porém, todos repeliu com a maior delicadeza e compostura.
Um dia, o Raposo convidou para jantar em sua casa o Remígio, um bom rapaz, seu colega, empregado na mesma repartição em que ele exercia as suas funções oficiais. Esse Remígio era uma das pérolas dá Secretaria, modelo de zelo, inteligência e assiduidade, funcionário "de muito futuro", como diziam todos; mas não era bonito, nem elegante, nem primava por nenhuma outra qualidade exterior. Entretanto, de todos quantos passaram diante dos formosos olhos da Fadinha, foi esse o único homem que lhe mereceu atenção. Negociantes acreditados e dinheirosos, funcionários bem colocados, advogados, médicos, oficiais do Exército e da Armada, etc. - tiveram todos que ceder lugar, no coração de Fadinha, a esse amanuense pálido, desajeitado, mal vestido, que apenas ganhava 166$666 réis mensais.
A moça parecia ansiosa por que o seu coração se manifestasse; imediatamente deu a entender ao Remígio que ele seria vencedor entre os numerosos candidatos à sua mão. O amanuense, que era modesto por natureza, e nem mesmo em sonhos imaginara esposar algum dia a moça mais bonita do Rio de Janeiro, ficou desvairado pela preferência que não solicitara, e apaixonou-se deveras por Fadinha.
Logo que se manifestaram claramente os primeiros sintomas daquele amor, houve um sobressalto na família. D. Firmina viu aproximar-se o perigo, e um dia, depois do almoço, quando o marido se dispunha a sair de casa, arrastando a sua obesidade até o trem, comunicou-lhe os seus receios; mas o Raposo, que tinha pelo Remígio uma afeição paternal, e não via com maus olhos a perspectiva do seu casamento com Fadinha, limitou-se a sorrir, dizendo:
- É muito natural que eles gostem um do outro e que se casem.
- Você está falando sério?
- Ora esta! Muito sério! Quem sabe se o Remígio não é digno da pequena!
- Um amanuense!
- E eu quem sou?... Que era eu quando fomos à igreja?... Fadinha se casará conforme a sua inclinação; se gosta de um amanuense e não de um ministro, paciência! Não quer ser rica; faz bem, porque a felicidade não está no dinheiro. Demais o Remígio não é para ai nenhum pobre-diabo carregado de esteiras velhas; o pai deixou-lhe alguma coisa; tem duas ou três casinhas, algumas apólices e muito juízo, que é o essencial Estimado como é na Secretaria, não lhe dou cinco anos para estar chefe de seção. Acenda você a lanterna de Diógenes, que não encontra genro mais ao pintar.
- Deixe-se disso! Nossa filha é muito bonita, e...
- Aí vem você com a boniteza de nossa filha! Isso não vale nada, absolutamente nada! E muito bonita, é, mas não tem vintém, e se se casasse à força com algum ricaço, o casamento pareceria mais um negócio que outra coisa. Demais, seria humilhante para nós que somos paupérrimos. Que diabo! Não quero especular com a beleza de minha filha, nem me opor à sua ventura contrariando os seus sentimentos. Você, que é tão religiosa, devia pensar como eu...
- Mas nós poderíamos fazer ver à Fadinha que...
- Basta! Já vejo que não nos entendemos neste particular. Na minha opinião, o Remígio é um excelente partido, e não vejo a razão por que a pequena deva aspirar a outro!
- Mas...
- Não há mas nem meio mas! Ela que decida, porque - e peço-lhe que tome em consideração as minhas palavras - a Fadinha não se casará com quem você ou eu quisermos que se case, mas com o noivo que escolher por sua livre vontade, seja amanuense, praticante, czar da Rússia, ou xá da Pérsia!...
- Eu...
- Nem mais uma palavra, Firmina! Você bem sabe que isto aqui não é casa de Gonçalo! Não admito que debaixo destas telhas outra voz se erga mais alto que a minha!
- Mas o que você está dizendo é uma asneira!
- Uma asneira!... Uma asneira!... É a mim que a senhora diz isso?!...
- Sim, sim... é ao senhor! Estou farta de representar nesta casa um papel tão subalterno!
- Nesse caso, vista as minhas calças e passe para cá as saias! Ora não seja tola! Hoje mesmo vou dizer ao Remígio que a pequena é dele!...
- Pois não há de ser, digo-lhe eu! Quero fazer a felicidade de minha filha!
- Não minta!... A senhora quer fazer a sua própria felicidade, não a dela! Não me obrigue a falar, porque, se falo, temos escândalo e escândalo grosso!
E o Raposo contrafazia-se, abaixando a voz para não ser ouvido pelos demais da casa:
- A senhora nunca a estimou como devia; nunca lhe teve amor de mãe, de verdadeira mãe!... E agora quer vendê-la... Boas!... Hoje mesmo falo ao Remígio!...
- Isso é uma infâmia! Eu sou mãe dela, e o senhor não tem certeza de ser seu pai!...
-Hein?... Que é isso?...
O Raposo cresceu para d. Firmina, mas uma onda de sangue lhe subiu à cabeça; ele abriu desmesuradamente os olhos e a boca, agitou os braços no ar e caiu fulminado.
Quando chegou o dr. Souto, chamado a toda a pressa, encontrou-o morto.
- Bem dizia eu que o Raposo era uma apoplexia ambulante!
O Remígio mostrou-se verdadeiro amigo: pediu a d. Firmina licença para tratar do enterro, e nem esta nem os filhos conheceram até hoje a importância das respectivas despesas.
Tão piedosa solicitude, e as lágrimas acerbas que o moço derramou sobre o cadáver do velho colega aumentaram os sentimentos de Fadinha a seu respeito; agora não era somente o afeto, era também gratidão que aproximava aqueles dois corações. Com a morte do Raposo, ambos se sentiram órfãos, e essa identidade de situações cimentava ainda mais a mútua simpatia que os dominava.
Não teve d. Firmina uma palavra de agradecimento para tais favores e, mentalmente, o Remígio atribuiu essa falta à dor violenta que a viúva manifestava, a todos os momentos, com lágrimas e gritos. Na ocasião do enterro foram necessários três homens para arrancá-la de cima do caixão e, sete dias depois, terminada a missa, ele teve, na sacristia da igreja de São Francisco de Paula, um ataque de nervos tão violento, que parecia chegada a sua última hora.
Também os rapazes, quer o estudante, quer o empregado no comércio, não agradeceram ao Remígio o enterro e a missa; dir-se-ia que todos da casa consideravam aquilo uma obrigação.
Todos, não: Fadinha volta e meia falava da generosidade do moço, e as suas palavras, a que ninguém respondia, eram ouvidas com indiferença pela mãe e pelos irmãos.
O mais velho, o Alexandre, moço de vinte e dois anos, empregado na casa comercial do barão de Moreira, estava lisonjeadíssimo pelo fato de haver o patrão se dignado assistir pessoalmente à cerimônia fúnebre. Não queria acreditar nos seus olhos quando, no corredor da igreja, encontrou o barão parado, segurando o chapéu com a mão atrás das costas, de cabeça erguida, a examinar atentamente o retrato de um benfeitor da Ordem, pintado pelo Fragoso. O caixeiro a princípio supôs que o barão viesse a outra missa qualquer, mas, não obstante a sua tristeza, rejubilou-se quando viu que, ao começar a cerimonia, o titular tomava lugar entre os que tinham vindo render a derradeira homenagem ao defunto Raposo.
Acabada a missa, quando o padre, acompanhado do seu acólito, voltou para a sacristia, dobrando o joelho diante de cada altar, o barão foi o primeiro a abraçar o Alexandre, que estava perto da mãe dos irmãos.
- Seja homem! Todos nós passamos por estes dissabores... O mundo é isto mesmo...
- Obrigado, senhor barão.
- Não conheço sua família; peço-lhe que me apresente às senhoras.
A viúva não pôde ser apresentada porque chorava um oceano lágrimas, e não tinha atenção para mais nada além da sua dor espetaculosa; mas o barão, pasmado diante da beleza de Fadinha, deu-lhe um longo aperto de mão, dizendo-lhe:
- Minha senhora, seu irmão é empregado de nossa casa, e eu sou muito amigo de quantos me servem bem. Peço-lhe que diga à senhora sua mãe que o barão de Moreira está à sua disposição para tudo em que ela o queira ocupar, seja o que for.
- Muito obrigada, senhor barão.
Este oferecimento surpreendeu Alexandre, que não estava habituado às amabilidades do patrão, homem ainda novo, mas seco, autoritário, frio, orgulhoso da sua educação, da sua elegância, do seu títu1o e dos seus contos de réis; na sua humildade de subalterno, o rapaz imaginava que, se o barão o encontrasse na rua, não o reconheceria; admirava-se, portanto, de que esse ricaço comodista se abalasse de Botafogo para vir assistir a missa rezada por alma de um funcionário obscuro, e tão interessado se mostrasse pela família. Os leitores vão ter mais adiante a explicação desse fenômeno.
Quando todos os convidados se retiraram, e a família Raposo ficou só na sacristia, os dois rapazes despediram-se da mãe e da irmã: o mais velho ia para a casa onde era empregado e onde almoçava, e o mais novo para a Escola de Medicina: estavam à porta os exames, não convinha faltar; almoçaria no Rocher de Cancalle, à Travessa do Ouvidor.
O Remígio ofereceu-se para acompanhar as senhoras até o Engenho Novo; mas a viúva, que na ausência de espectadores já não parecia tão angustiada, recusou formalmente.
- Não, senhor; não quero que se dê a esse trabalho; o senhor precisa ir também para a sua repartição.
Fadinha interveio:
- Um dia não são dias. Venha, seu Remígio; almoçará conosco.
- Já disse que não!
O amanuense curvou a cabeça e levou as duas senhoras até o carro: fê-las entrar e fechou a portinhola.
- Apareça - disse Fadinha tristemente e agitou os dedos num delicado adeus.
D. Firmina, essa não articulou uma palavra; mas quando o carro se afastou, na direção da rua do Teatro, ela vociferou, com uma indízivel expressão de cólera no olhar:
- Trata de te esqueceres deste sujeitinho! Já não tens o pai toleirão que tinhas! Quem manda sou eu, estás ouvindo?...
Agora, a explicação do fenômeno:
O barão Moreira tinha vindo para o escritório mais cedo que nos outros dias, e entretinha-se a conversar com o seu amigo Pimenta, que de vez em quando o procurava para palestrar com ele, recordando juntos os bons tempos em que ambos freqüentavam o Colégio Vitório.
O Pimenta abraçara também a carreira comercial, mas não foi tão feliz como o seu condiscípulo. Percorrera, durante muitos anos, um grande número de casas, e em nenhuma delas encontrou a fortuna a que lhe dava direito a sua prodigiosa atividade. Aos trinta e tantos anos ainda não tinha no comércio uma posição definida, mas, enfim, sempre se arranjava como corretor de mercadorias, cujas vendas, feitas por seu intermédio, lhe deixavam pingues porcentagens.
A sua longa passagem por um grande armarinho da rua do Ouvidor, de onde ao cabo de quinze anos de sonhos e esperanças, saíra irritado contra os patrões, e com uma mão atrás e outra adiante, valeu-lhe duas qualidades excepcionais: conhecer como ninguém aquele gênero de negócio e ser a crônica viva de toda a população carioca. Não havia fato, escandaloso ou não, que o Pimenta não armazenasse na memória e não glosasse no momento oportuno.
Era má língua, e, sem esse defeito, estaria talvez rico e independente como o barão de Moreira, escusado de andar acima e abaixo, de porta em porta, suando as estopinhas, munido de amostras, faturas e conhecimentos. Uns diziam: - O Pimenta não é mau sujeito, mas tem uma língua que o perde - e outros: - É muito vivo, muito esperto, mas não há maior caipora. Entretanto, como se conservava solteiro e não tinha obrigações de família, o Pimenta suportava de cara alegre o seu caiporismo, ganhando o preciso para viver sem ser pesado aos amigos.
Naquele dia ele aparecera, como já dissemos, no escritório do barão de Moreira para dar dois dedos de palestra ao amigo de infância e talvez papar-lhe o almoço.
Conversavam ambos, quando o Alexandre entrou no escritório para participar ao barão ter recebido naquele instante a notícia que seu pai falecera repentinamente, e pedir-lhe alguns dias de dispensa.
O barão, que era de uma altivez de autocrata para com os empregados da sua casa, observou, sem levantar os olhos:
- Isso é com o senhor Motta; já lhe falou?
- O senhor Motta não está.
- Pois pode ir.
E o Alexandre saiu sem receber uma palavra de condolência.
- Conheces este teu empregado? - perguntou o Pimenta ao barão.
- Não; quem o admitiu foi o meu sócio, o Motta; creio ser esta a primeira vez que lhe falo; bem sabes que tenho por sistema ligar pouca importância aos caixeiros...
- Foi por isso que te perguntei se o conhecias.
Houve uma pausa.
- Nesse caso não conheceste o pai, o Raposo, que acaba de falecer repentinamente?
- Não.
- E não sabes que o teu caixeiro é irmão da moça mais bonita do Rio de Janeiro?
- Não!
- É singular! Nunca ouviste falar da Fadinha do Engenho Novo?
- Tenho idéia...
- Pois é ela!
- E é realmente bonita?
- Se é bonita! É formosa! É linda!... Não há reputação mais merecida!
- Que diabo! Estás me aguçando a curiosidade! Como poderei vê-la?
- Muito simplesmente: vai a missa do sétimo dia. Como o irmão é empregado em tua casa, procura esse pretexto para oferecer, mesmo na igreja, os teus serviços à família, e terás ocasião de vê-la bem de perto.
- Lembras bem. Só assim iria eu à missa do pai do senhor... como se chama o rapaz?
- Alexandre.
E ali está por que o barão de Moreira compareceu a missa: mera curiosidade sacrílega.
Quando o titular voltou da igreja, encontrou no escritório o Pimenta à sua espera.
- Então? Que tal?
- Meu amigo, aquela não é a moça mais bonita do Rio de Janeiro, é a mulher mais bela do mundo!...
Se o Alexandre se admirara de que o barão de Moreira houvesse comparecido à igreja, mais admirado ficou vendo que o patrão, daquele dia em diante, começou a tratá-lo com uma simpatia e uma atenção que em pouco tempo se transformaram em familiaridade. Chamava-o para o auxiliar em todos os trabalhos do escritório, confiava-lhe serviços de responsabilidade, incumbia-o de receber grandes somas ou levá-las ao banco, e um dia, estando o moço a passar uma carta a limpo, carta confidencial, de muita importância, o patrão ofereceu-lhe um dos seus magníficos havanos, dizendo-lhe:
- Fume, Alexandre.
Motta, o sócio do barão, que era a antítese deste, bonacheirão, amável, amigo dos empregados, estava estupefato e não sabia a que atribuir aquele favoritismo; o guarda-livros, porém, e os outros caixeiros, já enciumados, e talvez instruídos pelas perversas insinuações do linguarudo Pimenta, murmuravam: - Não há nada como ter irmã bonita...
O barão pedia constantemente noticias da família, interessando-se pela viúva, e repetindo, quase todos os dias, o oferecimento dos seus serviços e da sua amizade para prevenir, remover ou sanar qualquer dificuldade criada pelo súbito falecimento do velho Raposo. O rapaz desfazia-se em agradecimentos e, chegando à casa, contava à mãe todas as atenções e finezas que merecia ao patrão.
D. Firmina, perspicaz e manhosa, desconfiou naturalmente que o barão, impressionado pela beleza de Fadinha, procurasse meios e modos de se aproximar da família, e um dia aconselhou o filho a que lhe oferecesse a casa dizendo-lhe que ela, d. Firmina, muito reconhecida a todos os favores do titular, teria muita satisfação em lhos agradecer pessoalmente.
Se d. Firmina bem o disse, Alexandre melhor o fez, e o barão, já se vê, não deixou fugir uma ocasião que havia já dois meses provocava. Um belo domingo resolveu ir almoçar no Engenho Novo. Para dar maior solenidade à visita, d. Firmina foi esperá-lo na estação, acompanhada pelos rapazes, só pelos rapazes, porque Fadinha, sabendo da vinda do barão, fechou-se na alcova, pretextando uma enxaqueca violenta, e não houve súplicas nem ralhos, carinhos nem ameaças que a fizessem sair.
A moça estava desesperada: havia mais de um mês que não punha os olhos no seu querido Remígio. Foram tantas as grosserias de d. Firmina e dos rapazes, que o namorado, compreendendo que o queriam afastar, e vendo que era impossível afrontar a pé firme aquela súcia de ingratos, fez-lhes a vontade, sem, contudo, renunciar os seus projetos de casamento, porque Fadinha continuava a ser a mesma, e ele considerava-a digna, por todos os respeitos, do seu afeto e da sua constância.
- Façam o que fizerem, serei tua, só tua, juro-te por alma de meu pai! Quanto mais me oprimirem, quanto mais te ofenderem, mais crescerá, se é possível, o ardente amor que te consagro! Sou tua noiva!
Animado por essas palavras de fogo, em que Fadinha pusera toda a energia da sua alma, toda a sinceridade do seu coração, o Remígio esperava resignadamente ensejo de fazer valer os direitos do seu amor; entretanto - digamo-lo - o seu espírito vacilante e timorato não tinha forças para a luta a que o incitavam. Ele amava deveras, mas começava a maldizer intimamente aquela singular formosura, que fazia de Fadinha um objeto de cobiça, uma esperança de fortuna, espécie de seguro de vida de uma família inteira. Não obstante a última vontade, o desejo extremo e sagrado do venerando Raposo, receava que a sua insistência causasse a desunião e a desgraça da família. Entretanto, Fadinha, todas as vezes que, iludindo a vigilância materna, lhe podia escrever, repetia cada vez mais veementes protestos de fidelidade.
Mas voltemos ao barão de Moreira que, na estação do Engenho Novo, com o seu terno de flanela clara, o seu chapéu de palha branca, a sua gravata polícroma, o seu alfinete de brilhantes e a rosa enorme que trazia ao peito, contrastava com o aspecto daquela matrona e daqueles dois rapazes vestidos de luto, luto fechado, em que eram pretos até mesmo os punhos e os colarinhos.
No dia seguinte, entrando no escritório do barão, o Pimenta encontrou-o de mau humor.
- Então? Foste?
- Fui. Fui a Roma e não vi o papa.
- Não entendo.
- Roma é o Engenho Novo e o papa é Fadinha; entendes agora?
- Não a viste?
- Já te disse que não. Estava doente; não me apareceu.
- Deveras?
- Imagina que estupidez almoçar com dona Firmina e os filhos, e vê-la por um óculo! Almoçar é um modo de dizer, porque não comi nada. Fiquei desesperado!
- E que te disse a velha?
- A velha estava ainda mais contrariada do que eu. Era uma coisa que entrava pelos olhos. Pediu-me muitas desculpas pela ausência da filha, e disse-me - sem nenhuma convicção, aliás - que ela estava realmente indisposta.
- Não creias.
- Está visto que não creio.
- Tens um rival.
- Já desconfiava disso.
- Um concorrente sério. Informaram-me de tudo hoje pela manhã.
E o Pimenta contou ao barão o que os leitores já sabem: os amores de Remígio e Fadinha, a última vontade do velho Raposo, os obséquios prestados à família, a oposição de d. Firmina e dos filhos, o afastamento de Remígio - e acrescentou:
- A pequena desconfiou que te queriam impor-lhe para marido, e fechou-se no quarto. Aí tens por que foste a Roma e não viste o papa.
- Que me aconselhas tu?
- Para responder a essa pergunta, preciso primeiramente saber quais são as tuas intenções.
Houve um longo silêncio.
- Gostas dela?
- Muito. Já gostava, e depois do maldito almoço fiquei gostando ainda mais!
- Estás disposto a ser seu marido?
Houve outro silêncio, ainda mais longo que o primeiro.
- Se não queres fazê-la baronesa - redargüiu o Pimenta - esquece-te da moça. Que diabo! Ela pode ser feliz com o tal Remígio, que é rapaz honesto.
- Mas quem te disse que as minhas intenções não sejam boas?
- Tu ficaste calado...
- Fiquei, porque o casamento me apavora. E tão deliciosa e tão completa a minha liberdade! Sim, confesso-te que o matrimônio jamais figurou no programa da minha vida, mas se for preciso...
- Como "se for preciso"? Pois entrou-te em cabeça que Fadinha poderia pertencer-te independentemente da intervenção do padre? Aquela família é pobre, mas tão honrada como a tua! Se queres ser seu marido, luta, e vencerás, talvez; senão, desiste de uma idéia indigna de ti!
O barão olhou muito tempo para o havano que tinha entre os dedos, deixou cair a cinza numa escarradeira, meteu o charuto na boca, ergueu-se, e disse resolutamente, numa baforada de fumo:
- Lutarei!
Quando o Pimenta saiu do escritório, encontrou no armazém o Alexandre, e disse-lhe rapidamente, a meia voz:
- O homem casa.