Paulo — O meu coração não foi feito para o amor. Adeus, minha amiga, não me queiras mal; ofereço-te uma amizade de irmão, como nos romances. Aceitas? Se aceitas, muito bem; se não, viva!
Petronilha — Nada! não quero assim! Desejo que me ames para casar.
Paulo — Isto é o que se chama a faca aos peitos!
Petronilha — Vamos: faze-me a vontade.
Paulo — Não está em minhas mãos.
Petronilha — Mas está em teu coração; procura bem, que acharás.
Paulo — Não tenho coração.
Petronilha — Anda, dá cá um beijo, e eu te mostro se tens ou não tens coração...
Paulo — Estás doida! Eu dou lá beijos no meio da rua! (A cena vai ficando escura pouco a pouco.)
Petronilha – Então entremos... Onde está a chave?
Paulo — Tu enlouqueceste, mulher!
Petronilha — Vai, pedaço d’asno! A culpada sou eu, que me não devia apaixonar por um enjeitado!
Paulo — Se sou o enjeitado da família, tu és a enjeitada do amor. Ela por ela!
Petronilha — Olha que te esmurro!
Paulo — Pois esmurra! (Procurando a chave.) Nem assim conseguirás que eu te ame! (Abre a porta, entra e fecha-se.)
Petronilha — Paulo! Paulo!
Paulo — Adeus! Adeus!
Cena VI
Petronilha, só
[Petronilha] — Aqui anda coisa... Quem não come é porque já comeu, dizia meu avô. Mas digo eu: quem não come está para comer. deixa estar, que não te perco de vista. (Olhando para dentro.) Quem vem ali?! Uma mulher com o rosto inteiramente encoberto por um véu! Quem sabe se... Escondendo-se atrás da árvore.)
Observemos.
Cena VII
Petronilha, escondida, a Princesa, ao fundo, Paulo, que sai da cabana
cautelosamente.
Paulo — São horas de chegar a minha misteriosa amante. Custei a ver-me livre daquela maldita Petronilha!
Petronilha (À parte.) — Obrigada.
Paulo (Vendo a Princesa.) — Ah! Era tempo! Ei-la! (Corre para a Princesa, e trá-la à boca de cena.)
Petronilha (À parte.) — Então? Sempre há palpites...
Dueto
Princesa — Paulo
Paulo — Meu anjo!
Princesa — Aqui me tens! a tremer venho...
Paulo — A tremer vens...
Princesa
— Será saudade ou ciúme
O abalo que sinto aqui?
A pobre rolinha implume,
Ao verde ninho arrancada,
Não fica tão magoada
Como eu, se longe de ti!
Paulo
— Será ciúme ou saudade
A causa desta emoção?
Tristeza cruel me invade,
Pungente dor me quebranta,
Se tardas, ó minha santa,
Se tardas, meu coração!
Juntos — Ó meu }} amante,
— Ó minha } Caro penhor,
Que doce instante
Do nosso amor!
Amo-te muito:
Ama-me assim!
Amo-te muito,
Meu querubim!
Paulo — Mas quero enfim saber quem és, ó doce amada!
Petronilha (À parte.) — Ah! se ela o diz, estou vingada!
Princesa
— Saber não desejes,
Meu Paulo, quem sou!
Paulo
— Amor, não gracejes,
Que sôfrego estou...
Princesa
— Saber tu não deves
Quem sou, donde vim.
Paulo
— Por que não te atreves
A dizer-mo a mim?
Princesa — Segredos eu tenho...
Paulo
— Convenho, convenho;
Mas diz-mos!
Petronilha (À parte.) — Enfim!
Princesa (Com mistério.) — Eu a Princesa sou dos Cajueiros!
Paulo — A princesa!... Tu?!
Petronilha (À parte.)
— Tur lu tu tu
Tur lu tu tu
A filha! ó céus! d’El-rei Caju!...
(Saindo, com gestos ameaçadores.)
Vou me vingar destes brejeiros!
Paulo — És a princesa!
Princesa
— E no entanto,
Amo-te tanto, amo-te tanto...
Juntos — Ó meu }} amante,
— Ó minha }
Caro penhor,
Que doce instante
Do nosso amor!
Amo-te muito:
Ama-me assim!
Amo-te muito,
Meu querubim!
Cena VIII
Paulo, Princesa
Paulo — Mas tu... Vossa Alteza...
Princesa — Qual Vossa Alteza! Trata-me por tu... Ora aí está! Por essas e outras e que eu queria guardar o incógnito.
Paulo — Princesa! Filha do Rei! É impossível então que nos unamos! Nada pode haver de comum ente nós, senão o esquecimento mútuo.
Princesa — Por quê?
Paulo — Sou um pobre enjeitado...
Princesa — Que importa! Fugiremos!
Paulo — Fugir! pois há de Vossa Alteza...
Princesa — Trata-me por tu, sim?
Paulo — Desprezarás as honras que te cercam, o cetro de ouro que te aguarda, para seguir um miserável, sem passado, sem presente e sem futuro?!
Princesa — Deixa dizer-te, e acredita: o viver da corte me enfastia, faz-me mal aos nervos. Depois que morreu minha mãe, e já lá vão tantos anos, apoderou-se de mim um desapego tal pela corte... O que deu motivo a tanto azedume? Não sei... Não sei... O que é certo é que não me sinto Princesa... Os meus instintos são todos burgueses e triviais. Quisera viver tranqüila, ao lado de uma maridinho como tu... a pontear meias, marcar lenços...
Paulo — Eu, o inverso, senhora! Por isso mesmo que nasci sem pai nem mãe; por isso mesmo que sou o ínfimo dos homens, sinto-me talhado para as regiões supremas do poder! Ah! que se eu pudesse mandar cortar uma cabeça... ou duas... ou todas, como Caligula! Por ser o menor, desejava tornar-me o maior... Para quê?
Para vingar-me talvez! Para ter ocasião de desprezar os que me desprezam!
Princesa — Admiras-te de me ver aqui! O amor tinha para mim irresistível encanto.
Eu não o conhecera nunca, mas adivinhava-o.
Paulo — Não o conhecias?
Princesa — Não ligava o nome... Quem se atreve na corte a levantar os olhos para a infanta? O amor é-lhe interdito. Um dia, mandam o meu retrato a um príncipe de outro reino, e dizem-lhe, ao príncipe: — Aí vai a amostra, vede se vos agrada. Se assim for, mandai buscá-la. É sacrificando as princesas que se apertam os laços entre as nações. Não nos casamos por amor: casamo-nos por diplomacia. Ah! política! política!
Paulo — Meu anjo!
Princesa — Anteontem, descobri no meu aposento uma porta secreta que dá para o jardim. Descobri no jardim outra porta secreta que dá para a rua. É hoje! disse eu comigo. E saí! Vi-te, e amei-te. Daí é que principiei a ligar o nome...
Paulo — Mas... se dão pela tua ausência?
Princesa — Não dão. Tenho por costume fechar-me por dentro. O único que poderia interromper minha solidão é meu pai; mas esse anda todo entretido com a Duquesa da Guarda Velha!
Paulo — A Duquesa da Guarda Velha?
Princesa — Uma fidalga estrangeira, que foi há dias apresentada à corte... Uma excelente senhora. Ama-me como se me conhecesse de velha data. Diz-se no paço que meu pai casa com ela. É uma felicidade! Eu não escolheria outra madrasta. (Música. Aparece no mar uma suntuosa gôndola, distinguem-se a Duquesa da Guarda Velha e o Barão do Bonsucesso.) Oh! É ela!...
Paulo — Ela quem?
Princesa — A Duquesa da Guarda Velha! O que virá fazer aqui? Ai! O barão vem com ela! Não há mais tempo! Viram-me! Estou perdida! Condenam-me à morte!
Paulo — Cala-te. (Leva-a para a cabana.)
Princesa — Ah! (Entram ambos na cabana.)
Cena IX
Barão, Duquesa, gondoleiros e damas de companhia. Noite completa. Luar.
Canto
Coro Geral
— Dá Guarda Velha eis a Duquesa!
Cá ‘stá! Cá ‘stá!
Melhor senhora com certeza
Não há! Não há!
Barão (Saindo da gôndola e oferecendo a mão à Duquesa para sair também.)
— Eis-vos, enfim, chegada
À praia desejada.
(À parte.) Não sei por quê,
Nem para quê.
Duquesa — Muito obrigada.
Barão — Não há de quê.
Duquesa (A uma dama.)
— Manda embora os gondoleiros:
Volto a pé.
Todos — Volta a pé!
As Damas
— Ide embora, gondoleiros,
Ide ligeiros,
Que a Duquesa volta a pé!
Um de seus caprichos é.
Gondoleiros
— Dá Guarda Velha eis a Duquesa!
Cá ‘stá! Cá ‘stá!
Melhor senhora com certeza
Não há! Não há!
(As gôndolas desaparecem com os gondoleiros, e as damas ficam ao fundo.)
Coplas
I
Duquesa
— Não me foi a sorte avara,
Eu não me devo queixa.
Barão (Sempre à parte.)
— Não me é estranha aquela cara,
Mas não me posso lembrar.
Duquesa
— A ventura bem se esconde;
Mas, no entanto, a descobri.
Barão
— Não sei quando, nem onde
Aqueles olhos já vi.
As Damas
— Com é bela esta paragem!
Fresca aragem
Corre aqui!
II
Duquesa
— Da pobreza que vitória!
Pois Duquesa hoje sou!
Barão
— Dou mil tratos à memória,
E contudo, em branco estou...
Duquesa
— ‘Spero em breve ser rainha,
Pois El-rei morre por mim!
Barão
— Ai, que cabeça esta minha!
Nunca vi cabeça assim!
As Damas (Descendo à cena.)
— Que lugar! que formosura!
Que frescura!
Que jardim!
Duquesa (Às damas.) — Afastai-vos! Ide admirar os prodígios desta natureza privilegiada. Preciso conversar a sós com sua Senhoria, o Senhor Barão do Bonsucesso. (À parte.) A casinha deve ser esta.
(As damas afastam-se para o fundo, onde se dividem em grupos.)
Repetição
As Damas (Descendo à cena.)
— Que lugar! que formosura!
Que frescura!
Que jardim!
Duquesa — Afinal! Chegou enfim o momento! (Dirigindo-se ao Barão e fitando-o.)
Olhe bem para mim! Não me conheces?
Barão — Duquesa!
Duquesa — Desconhece-me! Não assombra! Há vinte anos que não nos vemos... as fisionomias transformam-se...
Barão — Ah! Virgínia!!
Duquesa — Mas ouve: eu reconheci-te à primeira vista. Assim deveria ser: conservava de ti a mais dolorosa impressão. Era impossível que se me varressem da memória estes olhos, que me mentiram... esses lábios, que me mentiram... esse nariz...
Barão — Nada! o nariz é que não te mentiu... E folgo de ver que ainda não deste de mão ao teu romantismo.
Duquesa (Em outro tom.) — Dê-me Excelência, Barão.
Barão — Dê-me Senhoria, Duquesa... e expliquem-nos. Desde que Vossa
Excelência chegou, que tenho buscado a adivinhar em suas feições a fisionomia de outra pessoa. Vossa Excelência é a Virgínia, minha pobre Virgínia, emendada e consideravelmente aumentada. Vossa Excelência dignar-se-á, se tanto mereço, explicar-me o modo pelo qual se operou tão estranha metamorfose.
Duquesa — Muito simplesmente, Barão: Vossa Senhoria lembra-se de que, logo depois de casada com primo Bernardino, fomos, eu e ele, a correr o mundo? Depois de andarmos por seca e meca, resolvemos firmar a nossa residência na Ilha da Guarda Velha.
Barão — O quê? Pois foram a seca e meca e não deram um pulo até a olivais de Santarém, que é tão perto?...
Duquesa — Oito anos depois, meu marido morreu, deixando-me uma avultada riqueza. Dois anos depois da morte do meu marido, comecei a ser requestada pelo fidalgo mais poderoso da ilha, o Duque da Guarda Velha, senhor feudal em dez léguas de terreno e homem de senso prático. Casei com o Duque da Guarda Velha.
Seis anos depois, enviuvei pela segunda vez. Há quatro anos que me sucedeu esta catástrofe.
Barão — Vejam de que escapei! Se me tivesse casado com Vossa Senhoria, estava a estas horas no outro mundo!
Duquesa — Deixei passar no feudo a minha lua de mel....
Barão — Outra?
Duquesa — A lua de mel da viuvez. E aqui estou. Vamos ajustar contas, Senhor
Barão: Vossa Senhoria sabe onde quero bater?
Barão — Perfeitamente. Vossa Excelência quer bater àquela porta... Agora percebo por que a Duquesa me pediu que a acompanhasse a este sítio...
Duquesa — Ainda bem que o percebe. Sem querer, fui informada que é ali que vive aquele cujos direitos extorquimos por amor da cabeça de Vossa Senhoria e por amor de minha filha.
Barão — Da nossa filha, Duquesa.
Duquesa — De nossa filha, Barão. — Pedi então a Vossa Senhoria que me acompanhasse a esta praia, para, de viva voz e em sua presença, informar-me se foram cumpridas as suas obrigações. Se assim não sucedeu, trema: Vossa Senhoria não deve ignorar que foi hoje tratado o meu casamento com El-rei Caju.
Barão — Não, Senhora Duquesa, e esse casamento é uma grande honra para mim... porque, enfim, eu... mas lembre-se Vossa Excelência de que mesmo porque eu... in illi tempore... compreende? não pode lançar-me no abismo, sem ser arrastada na queda pelo meu corpo...
Duquesa — Enfim, viveremos como anjos, se o Barão cumpriu o que prometeu há vinte anos. Serei feliz ao lado da minha filha...
Barão — De nossa filha, Barão. — Hei de habituá-la a dar-me o tratamento de mãe.
Duquesa — Eu é que não posso obrigá-la a chamar-me de pai... e no entanto, amoa...
Duquesa — Sei que a ama, e agradeço-lhe... Mas... vamos...
Barão — Não é preciso: aí vem a mulher a cujos cuidados está entregue o príncipe.
Ela nos dirá...
Duquesa — Silêncio...
Cena X
Os mesmos, Teresa, que vai atravessando a cena para entrar em casa, depois El-Rei
Barão (Embargando-lhe a passagem.) — Senhora Teresa...
Teresa — Quem é?
Barão — Um momento de atenção. Conhece-nos?
Teresa — Ah! o médico do paço!
Barão — Então já vê que não somos para aí quaisquer noctívagos. — Esta senhora deseja tomar certas informações...
Teresa — Estou às suas ordens, minha senhora. Não quer entrar?
Duquesa — Por ora não. Diga-me cá... (Toma-a de parte, e fala-lhe baixo. El-rei entra, embuçado dos pés à cabeça, sem ser pressentido pela Duquesa, e bate levemente no ombro do Barão.)
Barão — El-rei!
El-Rei — O que vieste fazer aqui em companhia da Duquesa?
Barão — Sua Excelência quis admirar esta praia... Faz um luar esplêndido... Pediume que a acompanhasse...
El-Rei — É singular! No momento em que firmamos nosso contrato de matrimônio, abandona-me, para vir admirar uma praia! Ah! Barão! quem me viu e quem me vê!
Quem diria que aquele El-rei Caju, o enérgico, havia de tornar-se um babão por esta mulher! Julguei que não devia contrair segundas núpcias; mas o amor, Barão, o amor...
Coplas
I
— Para ser livre, tinha resolvido
Não mais casar-me. Que dirás, ó povo?
Mas, ai! de amores, ó Barão, perdido,
Caio na asneira de casar de novo.
O amor de nós dá cabo!
É o diabo!
Ambos — É o diabo!
II
El-Rei
— A ninguém poupa de Cupido a seta;
Ninguém se isenta de ser alvo dela:
Se o mais altivo coração espeta,
O mais altivo coração debela!
O amor de nós dá cabo!
É o diabo!
Ambos — É o diabo!
El-Rei — E sabes o que aqui me trouxe. Barão? O ciúme... Ora aqui tens tu: teu rei tem ciúmes! — Quem é aquela mulher com quem conversa a Duquesa?
Barão — Uma pobre criatura... A duquesa, sempre que lhe apresenta ensejo, da expansão ao sentimento da caridade, que é o apanágio de seu boníssimo caráter.
El-Rei — Ah!
Duquesa — Muito bem. Aprecio suas virtudes, e hei de premiá-las. (Voltando-se.)
Estou satisfeita, Barão. (Vendo o Rei.) Quem é?
El-Rei (Desembuçando-se.) — Eu, Duquesa!
Teresa (À parte.) — El-rei! Que quer isto dizer?! (Entra em casa.)
Duquesa (Perturbada.) — Vossa Majestade! Que agradável surpresa!
El-Rei — Por que não me ordenou que a acompanhasse?
Duquesa — Oh! senhor... não me atrevia...
El-Rei — Nada de cerimônias... Não sei estar um instante longe da Duquesa... Estou caído, estou derreado... Oh! como a amo!
Barão (Que tem olhado para os bastidores.) — O que é aquilo? Um grupo.
El-Rei — Vamos para ali. Não convém que nos reconheçam. (Reúnem-se os três às damas, que se conservaram ao fundo.)I
Cena XI
Os mesmos, os Ministros, Nheco, Petronilha
(Os Ministros e Nheco trazem cada um a sua lanterna furta fogo na mão. Petronilha condu-los.)
Final
Petronilha
— Já cá não estão!
(Apontando para a cabana.)
Entrem; ali os acharão!
Nheco
— Isto parece estranho!
Há já vinte anos que não tomo banho!
Petronilha
— Não há tempo a perder!
Os melros podem as asas bater!
(Dirigem-se todos com muito mistério para a cabana.)
Nheco — Vamos lá! vamos lá!
Nheco e Ministros
— Cautela!
Cautela!
Baixai a voz!
Que a bela,
Que a bela,
Não dê por nós..
Os Outros
— O que quer dizer aquilo?
Que quer aquilo dizer?
Barão — Eu não estou nada tranqüilo!
Duquesa — ‘Stou a tremer!
Damas — ‘Stou a tremer!
Nheco (Batendo à porta.) — Em nome d’El-rei Caju!
El-Rei — D’El-rei Caju!
Todos — Em nome d’El-rei Caju!...
(Abre-se a porta e entram na cabana Petronilha, Nheco e o Ministros, repetindo o
coro
— Cautela!
Cautela!
Baixai a voz!
Que a bela,
Que a bela,
Não dê por nós..
Cena XII
El-Rei, Barão, Duquesa, damas, cortesãos, depois Nheco, Petronilha, Paulo,
Princesa, Ministros
Coro de Cortesão (Entrando em confusão.)
— Será possível!
Não pode ser
Que suceder
Possa este fato;
Mas, se assim for,
Que espalhafato!
Que horror! Que horror!
Os Que Estão Ao Fundo
— O que será?
O que haverá?
Do paço a gente toda aqui está!..
(Saem da cabana os Ministros e Nheco, segurando em Paulo e na Princesa. Acompanha-os Teresa e Petronilha. Assombro geral. Perturbação do Barão e da Duquesa.)
Nheco e os Ministros
— Cá ‘stão!
Precisam de uma boa lição!
El-Rei — Exijo disto explicação!
Nheco — Quem és tu?
El-Rei- (Deixando cair a capa.)— El-rei Caju!...
Todos — El-rei caju!...
Nheco
— Somente vos direi
Que Vossa filha está perdida. ó Senhor Rei!
El-Rei — Perdida!
Duquesa — Perdida!
Barão — Perdida!
Todos — Perdida!
El-Rei
— Por minha vida!
Vais-me explicar no mesmo instante!
Princesa — Pois não! Pois não! Eis meu amante!
Paulo — Sou seu amante!
Paulo e Princesa — Estamos perdidos!
Fatal situação!
E em breve metidos
Em negra prisão!...
Concertantes
Barão e Duquesa — Não posso salvar-me!
Fatal situação!
Vai prejudicar-me
Tal complicação!
El-Rei — Eu caio!
Desmaio!
Tombar vou no chão!
Foi como que um raio!
Foi um furacão!
Todos
— Imóveis de pasmo
Todos aqui estão!
Que enorme sarcasmo!
Que insulto à nação!
Paulo e Princesa
— Que desgraça infinda!
Que negro sofrer!
Tão novos ainda,
Nós vamos morrer!
Repetição do concertante
El-Rei — Tudo esqueceste, tudo, Princesa!...
Princesa — Meu pais, atenda!
El-Rei — Não sou teu pai!
E tremam todos! A Vossa Alteza
Castigo horrendo ser dado vai!
Todos — Ser dado vai!
I
El-Rei — Quer como pai, quer como rei,
Abuso tal castigarei!
Mas conheço,
Reconheço
Que o amor de nós dá cabo...
É o diabo!...
Todos — É o diabo!
II
El-Rei (A Paulo.) — E a ti, plebeu, vilão ruim,
Mandarei dar na forca fim!
Mas, no entanto,
Não é santo!
E o amor de nós dá cabo...
É o diabo!...
Todos — É o diabo!...
El-Rei — Senhores meus Ministros,
Tomai ares sinistros,
E os dois heróis levai!
(Encarando Paulo.) — Mas agora reparo!
Caso realmente raro!
Este insensato
Da minha mulher é o retrato!...
Todos — Justiça! Justiça!
Justiça fatal!
Não haja preguiça
Para um caso tal!
Paulo e a Princesa — Cruel castigo
Não nos importe!
É doce a morte
Ao lado teu!
Viver na terra
Não nos é dado!
Vem ao meu lado
Viver no céu!
Coro Geral — Mas na verdade
Na realidade,
O amor de nós dá cabo...
É o diabo!...
É o diabo!...
[Cai o pano]
ATO SEGUNDO
Sala do conselho no palácio d’El-rei Caju. A cena está armada para um julgamento. No centro, uma mesa coberta com veludo. Bancos em volta.
Cena I
Cortesãos, depois Nheco, depois os Ministros, depois El-Rei
(Ao levantar o pano, cada um dos cortesãos está a arranjar os bancos, e a espanálos. De vez em quando param o seu serviço e impõem-se mutuamente silêncio.)
Coro
— Psiu! Psiu! Psiu!...
Ninguém levante a voz neste salão!
Haja silêncio e discrição!
Psiu! Psiu! Psiu!...
(Entra Nheco. Todos se curvam.)
Nheco
— Oh! não façais cerimônia
Com quem delas mestre está!
(Recomendam-lhe silêncio, e, por gestos, pedem que lhes diga o que se tem passado.)
Vós sois pessoas idôneas:
Vou dizer-vos o que há.
Atenção!
Todos — Psiu!
Nheco (Baixo.)
— Atenção!
Psiu!
Todos — Haja silêncio e discrição!
I
Nheco (Com mistério.)
— Caso esquisito
Que é de pasmar,
Fato inaudito
De embasbacar,
Ontem, contrito,
Presenciar
Fui muito aflito,
Quase a chorar!
Coro — Psiu!...
II
Nheco
— Digo e repito
Que é de assombrar!
Nomes não cito
Que se os citar,
Desacredito
Quem devo amar!
Nomes evito
Pronunciar...
Coro — Psiu...
III
Nheco
— Eu me limito
Tal nova a dar;
Nomes omito,
Que é mau palrar...
Não facilito...
Sei me guardar!
Tudo hei vos dito...
Vou me banhar!
(Vai fugindo. Os outros impedem-lhe a passagem.)
Os Cortesãos
— Não se vá!
Venha cá!
Do que há
Nos fará
Narração,
Confissão!
Far-nos-á
Descrição!
Nheco (Volta, e depois de muito mistério, irrompe alto.)
— Trá lá lá lá!
Metida em maus lençóis nossa Princesa está!
Todos
— Trá lá lá lá!
Metida em maus lençóis nossa Princesa está!
Ai, que o caso é muito sério!
Nheco — Eis que chega o ministério!
(Arranjam-se todos a um lado da cena.)
Entrada dos Ministros
— Ministros somos
Do rei melhor;
Chamados fomos
Para compor
O conselho feroz que vai julgar
A princesa que deu pra namorar!
Nheco (Aproximando-se.) — Na qualidade de mestre
De cerimônias, que sou,
Fazer discurso que preste
Neste instante tentar vou
El-Rei (Entrando.) — Silêncio! o teu discurso é natural, dispense-o
Quem está como estou eu!
Todos — El-rei Caju!
El-Rei — Silêncio!
(Descendo à cena, sombrio.)
Tor ló tó tó!
Tor ló tó tó!
El-rei Caju quer ficar só...
Todos (Saindo misteriosamente.) —Tor ló tó tó!
Tor ló tó tó!
El-rei Caju quer ficar só...
Nheco (Saindo por último, ao som dos derradeiros compassos.) — Este momento apanho
Para tomar um banho...
Cena II
El-Rei, só
[El-Rei] — El-rei Caju quer ficar só... E para que quer ficar só El-rei Caju? Apenas para retardar este julgamento, porque afinal de contas, sou rei, mas também sou pai!
Sou pai! e hei de passar pela sensaboria de ver subir ao cadafalso minha querida filha? Sim, que a Constituição é clara neste ponto, apesar de escura em todos os outros. (Tirando um livrinho do bolso e lendo.) “Artigo duzentos. Toda pessoa real que, esquecendo o decoro que deve a si própria e ao povo, der escândalo público, será julgada por um Conselho composto de quatro Ministros de estado, e, averiguado o delito, condenada a pena última”. Se pudesse sofismar este maldito artigo duzentos! Vejamos por partes: “Toda pessoa real...” Minha filha é ou não é pessoa real? É. É real. É realmente real! Mas também quem se lembra de fazer um artigo contra as pessoas reais? Vejam se, nas partes descobertas do universo, os príncipes vão ao cadafalso por causa destas ninharias!.. “que esquecendo o decoro que deve a si própria e ao povo...” Disto se esqueceu ela... Comeu queijo... !der escândalo público...” Escândalo foi! Lá ser, foi!... É o diabo! Não há meio de sofismar! E o Conselho não pode estar à espera! (Vai chamar o Conselho e para.)
Mas, afinal d e contas, qual é o crime da minha filha? A pobre pequena passava aqui uma vida levada de todos os diabos. Um dia deu-lhe a mosca... e... psit! Isso acontece à mais pintada! E não é que o rapaz é um rapagão? Simpatizo com ele... é uma coisa esquisita! Que bonitos olhos! Parecem-se tanto com os de sua Majestade a falecida minha mulher... Que olhos! vamos lá ver essa gente... Enquanto julgam vou pensar... Hei de achar furo. (Vai à porta por onde saíram os Ministros.) Olha esse Conselho que saia! (Sai pelo lado oposto.)
Cena III
Nheco, os Ministros
Os Ministros – Não pode ser! não há tempo!
1º Ministro — Com mil raios! Pois o senhor mestre de cerimônias quer abandonarnos no momento do Conselho!
2º Ministro — Era o que faltava!
3º Ministro — Tomar banho quando serviço do Estado reclama-o!
4º Ministro — Incúria!
Nheco — Mas, Senhores Ministros...
1º Ministro — Com mil bombardas!
Nheco — Há vinte e tantos anos que não tomo banho!
4º Ministro — Quem esperou tanto tempo, pode esperar mais duas horas!
1º Ministro — Vamos! Mande entrar os réus, ou fuzilo-o, com mil canhões!...
Nheco — Este ferrabrás bem mostra ser Ministro da Guerra! (A um gesto seu, entram Paulo e a Princesa, escoltados por guardas, e cortesãos de ambos o sexos, ao som de uma marcha triste. Sentam-se todos. Os Ministros em volta da mesa. Os cortesãos em bancos. Os réus em bancos especiais.)
Cena IV
Os Ministros, cortesãos, guardas, Paulo, Princesa, depois os Advogados
Nheco (Aproximando-se.) — Como mestre de cerimônias que sou, vou proceder à leitura do artigo da Constituição, que tem relação com o cargo vertente. (Tira a Constituição do bolso.)
Os Ministros (Tirando cada um a sua Constituição.) — Nós todos sabemos. (Abrem os livros.)
Todos (Menos os réus.) — E nós! (Estão todos de livro na mão; leitura geral do artigo duzentos. Lendo.) “Artigo duzentos. Toda pessoa real que esquecendo o decoro que deve a si própria e ao povo, der escândalo público, será julgada por um Conselho composto de quatro Ministros de Estado e, averiguado o delito, condenada à pena última.”
1º Ministro — Manda entrar os advogados. (A um gesto de Nheco, entram os dois advogados.)
1º Advogado (Muito alegre.) — Meus senhores, minhas senhoras, bom dia.
2º Advogado (Sorumbático.) — Bom dia.
4º Ministro — Diabo! este aposto que é o da acusação!
2º Advogado — Está enganado: sou da defesa.
4º Ministro — Ah!
2º Advogado — Mas acredite que é contra a vontade... O meu desejo era vê-la morta...
Todos — Oh!...
1º Advogado (Sempre muito alegre.) — Pois eu, apesar de vir acusá-la, queria vê-la livre de culpa e pena. Que diabo! Amar nunca foi crime!
Todos — Oh!
1º Advogado (Ao colega.) — Uma proposta? vá o senhor acusá-la; eu irei defendêla.
2º Advogado (Vivamente.) — Aceito.
1º Ministro — A seus lugares, com mil duzentas e trinta e quatro espingardas! (Os advogados tomam seus lugares. Erguendo-se.) Estão em presença deste Tribunal... porque, não sei se sabem, isto é um Tribunal, dois réus.
3º Ministro — Não apoiado!
2º Ministro — Como não apoiado?
3º Ministro — Não são dois réus: é um réu e uma ré. (Todos riem.)
1º Ministro — Silêncio! com cem cartuchos! Cumpre-me fazer uma observação...
(Ao 4º Ministro, que ainda se ri às gargalhadas.) Esteja quieto, menino! (O 4º Ministro ri-se cada vez mais.) O culpado é Sua Majestade, que fez ministro um fedelho, que ainda cheira a cueiros. (O 4º Ministro fica sério.) Cumpre-me fazer uma observação. O julgamento do réu Paulo aqui presente, era da competência do júri popular; mas como o povo tem mostrado de algum tempo para cá certas tendências democráticas, julgamo-lo nós, para que não no-lo absolvam por lá.
— O Conselho... o Conselho conhece a história deste processo sumário: por denúncia de uma mulher do povo, o Ministério, que se achava reunido por amor do tratado de casamento de sua Majestade, o Ministério foi encontrar a herdeira presuntiva da coroa em casa do pescador Paulo. Enquanto o rei tratava de dar uma mãe à Princesa, esta compraziase talvez em dar um neto ao rei. — Vossa Alteza tem que alegar alguma coisa em sua defesa.
Princesa — Em minha defesa, não; mas na de Paulo: ele não sabia quem eu era.
3º Ministro — Vossa Alteza namorava incógnita?
Paulo — Nego! Eu sabia perfeitamente quem era Sua Alteza!
1º Ministro — Tem a palavra o advogado de acusação!
Coplas e concertante
I
2º Advogado (Erguendo-se.) — Há muito tempo eu não acuso
Delito assim tão desmarcado!
Juntos
Uns — Muito apoiado! Outros — Não apoiado!
2º Advogado — Senhores meus, tão grande abuso
Deve de ser bem castigado!
Juntos
Uns — Muito apoiado! Outros — Não apoiado!
2º Advogado — Está na vossa consciência
Que a tal indecência
Exemplo bom deve ser dado!
Juntos
Uns — Muito apoiado! Outros — Não apoiado!
2º Advogado — Mais não digo,
Não prossigo!
O que foi vós bem sabeis!
Eu sé quero,
Só espero
Que se cumpram nossas leis!
(Senta-se.)
Juntos
Uns — Muito apoiado! Outros — Não apoiado!
1º Ministro — A palavra agora tem
Da defesa o advogado
II
1º Advogado (Erguendo-se.) — O deus de amor tem uma venda;
Cupido é muito endiabrado!
Juntos
Uns — Muito apoiado! Outros — Não apoiado!
1º Advogado — Eu não sei mesmo o que defenda:
No’é crime amar e ser amado!
Juntos
Uns — Muito apoiado! Outros — Não apoiado!
1º Advogado — Está na vossa consciência
Não ser indecência
Ter a princesa um namorado!
Juntos
Uns — Muito apoiado! Outros — Não apoiado!
1º Advogado —Mais não digo,
Não prossigo!
Não é crime tal!
Um namoro
Sem decoro,
Nessa idade era fatal!
(Senta-se.)
Princesa (Levantando-se vivamente do lugar em que está, e vindo à boca da cena.)
Tango
— Amor tem fogo,
Tem fogo amor;
Tem fogo intenso,
Devorador!
Põe-nos em jogo
O coração,
Nosso bom senso,
Nossa razão!
E lavra,
Palavra!
Sem descansar;
Começa
Depressa,
Custa a acabar...
Todos (Erguendo-se maquinalmente e acompanhando o canto com um ligeiro movimento de corpo.)
Paulo
— Todos amam: japoneses,
Chineses, ingleses,
Franceses, malteses,
Portugueses, cordoveses,
Genoveses, irlandeses,
Hamburgueses, lubequeses,
Islandeses, holandeses,
Genebreses, escoceces!
Aragoneses,
Piemonteses,
Dinamarqueses
Cartagineses!
1º Advogado — Em vez de matá-los,
Casá-los pra bem!
2º Advogado — Em vez de casá-los,
Matá-los convém!
Matá-los!
1º Advogado — Casá-los!
Coro — Muito apoiado!
Não apoiado!
(Disputa geral, animada e calorosa.)
Coro Geral — Amor tem fogo,
Tem fogo amor;
Tem fogo intenso,
Devorador!
Põe-nos em jogo
O coração,
Nosso bom senso,
Nossa razão!
E lavra,
Palavra!
Sem descansar;
Começa
Depressa,
Custa a acabar...
1º Ministro — Toca a safar! O Conselho, porque saibam que isto é um Conselho, tem que deliberar. (Os fidalgos retiram-se. Aos guardas.) Direita volver! Marche! (Os guardas saem.)
2º Ministro — Mas havemos de deliberar em presença dos réus?
3º Ministro — Passemos à sala das deliberações. Senhor Mestre de Cerimônias, fica-lhe confiada a guarda destes dois pombinhos. — Vamos! (Ao 3º Ministro.) Mexase.
2º Ministro — Também é tão gordo! Vejam que barriga!
4º Ministro — Pudera! É ministro das Finanças! (Saem.)
Cena V
Paulo, Princesa, Nheco
Nheco — Vossa Alteza provavelmente vai morrer... Ao menos morre limpa... Eu parece que decididamente morro sem tomar banho! Faça idéia Vossa Alteza de que hoje, logo pela manhã, introdução de vossa futura madrasta, augusta noiva de vosso augusto pai. Ao meio dia, preparação da sala do Conselho. Eu pretendia tomar banho enquanto deliberavam: mas eis que me ordenam que vos guarde. E todos os dias são assim!
Princesa — Nheco, és meu amigo?
Nheco — Quem pode ver-vos sem querer amar-vos?
Princesa — Pois bem, se te mereço piedade, deixa-nos a sós um momento.
Nheco — Deixar-vos a sós. Sereníssima Princesa? Vossa Alteza não viu que me confiaram a vossa guarda? Não, isso não faço eu! O mais que posso fazer é fechar os olhos... (Cantarolando)
Oh! não façais cerimônias
Com quem delas mestre está...
Princesa — Nheco, tu nunca amaste?
Nheco — Nunca tive tempo de tomar banho, quanto mais de amar...
Paulo — Descanse, pois não fugimos... Amamo-nos... Precisamos da solidão e do silêncio para desafogar...
Nheco — Ainda se eu tivesse tempo de meter-me na água...
Princesa — Anda... faze-nos a vontade... Antes de morrer, pedirei a meu pai que te aposente...
Nheco — Com o ordenado por inteiro?
Princesa — Sim.
Nheco — Então, vá lá! Se apanho a aposentação, hei de passar os restos dos meus dias metido num tanque! — Até logo. (À parte.) Não irei para muito longe... Nada, que se fugissem... (Sai)
Cena VI
Paulo, Princesa
(Correm um para o outro, abraçam-se e beijam-se ardentemente.)
Ambos — Enfim!
Paulo — Que sorte nos aguardará?...
Princesa — E fui eu que te perdi...
Paulo — Tu?! Oh! não! Não falemos nisso...
Princesa — Vivias feliz e despreocupado, em companhia dessa excelente mulher a quem tanto deves, e que a estas horas teme pelo seu destino... A caça... a pesca... era essa a tua existência descuidada! Que fatalidade nos atirou nos braços um do outro!
Paulo — Foi uma fatalidade, foi; mas não te recrimines, porque me considero feliz
na minha desgraça! Morro contigo! Estava-me reservada essa ventura suprema!
Princesa — Meu pobre Paulo!
Dueto
Paulo — Que sorte funesta!
Princesa — Que funesta sorte!
Paulo — Nada mais no resta...
Princesa — Resta-nos a morte...
Ambos
— Abrem-se os céus! Nas asas de ouro,
A morte vai nos conduzir!
Juntos, ó meu casto tesouro,
À eterna luz vamos subir!
Princesa
— Castigo não se afigura,
Mas divinal, supremo bem,
A doce paz da sepultura
Que o fado meu trazer-me vem!
Paulo
— Eu morro satisfeito!
Acaba a minha dor!
Gelado, negro leito
Encontra o meu amor!
Juntos
Paulo Princesa
Eu morro satisfeito! Serenas; ó meu peito,
Acaba a minha dor! Acabas, minha dor!
Gelado, negro leito Gelado, negro leito
Encontra o meu amor! Encontra o meu amor!
Nheco (Voltando.) — Então? Vossa Alteza já desafogou? era tempo! Aí volta o Conselho!... (A música prolonga-se em surdina até o final da seguinte cena.
Cena VII
Paulo, Princesa, Nheco, Ministros, Advogados, Cortesãos, guardas.
1º Ministro — Sereníssima Senhora, o Tribunal, porque, afinal de contas, por mais que me digam, isto é um Tribunal... O Tribunal, dizia eu, usando da faculdade que lhe faculta o artigo duzentos da Constituição do reino, acaba de proferir a sentença que tem de ser cumprida tanto por Vossa Alteza como pelo indivíduo Paulo: estão ambos condenados à pena última.
2º Advogado — Apelo!
1º Ministro — Não há apelação nem agravo! — Guardas, sentido, com três mil buchas! Meia volta à direita, e prendam! prendam! (Três guardas levam Paulo e três a Princesa. Saem todos graves e silenciosos, como entraram. A cena fica só por alguns momentos. Cessa a música.)
Cena VIII
Barão, Duquesa, depois El-Rei
(A Duquesa entra aflita; o Barão acompanha-a no mesmo estado de agitação.)
Duquesa — Não há remédio senão confessar tudo a El-rei!
Barão — Eu perco a cabeça! E perco mesmo: isto não é figura de retórica. Vê Vossa Excelência como o demo as arma, Duquesa...
Duquesa — Estou resolvida a tudo, contanto que salve a minha filha!
Barão — Nossa filha, Duquesa...
Duquesa (De mau humor.) — Nossa filha, Barão!
Coplas
I
Por minha filha salvar
Do cadafalso
Mil passos pretendo dar
Embora em falso...
Sofrerei negra aflição
Eterna mágoa
Se der minha pretensão
Cos burros n’água!
Sou muito forte,
Mas desvelada;
Desesperada,
Nervosa estou!
Quem já viu sorte
Que mais capriche?
Madre infeliz
Mísera sou!
II
Para salvá-la verá
Que me rebaixo,
Embora o trono se vá
Por água abaixo!
Se não lhe alcanço o perdão...
Que escaramuça!
Hei de pintar o Simão
De carapuça!
Sou muito forte,
Mas desvelada;
Desesperada,
Nervosa estou!
Quem já viu sorte
Que mais capriche?
Madre infeliz
Mísera sou!
Barão — Aí vem Sua Majestade. Fale-lhe, que não tenho ânimo para isso. Uf! Não me posso ter nas pernas!
El-Rei (Entrando, angustiado.) — Barão, Barão! andava à tua procura meu velho amigo! Tenho te buscado por toda a parte! Onde te meteste?
Barão — Estava receitando: Vossa Majestade sofreu um violento abalo moral: precisa medicar-se. A receita cuja confecção levou-me três horas, já foi enviada para a botica.
El-Rei — Quem te fala aqui em despesa... quero dizer: em receita? O que eu quero é salvar minha filha! Põe-te em meu lugar: faze de que conta que és seu pai! Faça de conta que é sua mãe, Duquesa. — Tu, que tanto a estimas, Barão, não te lembras de algum meio? Não se pode sofismar aquele maldito artigo duzentos?
Duquesa (Irresoluta, ao Barão.) — Vai?
Barão — Vá! Um, dois, e... três!
Duquesa (Resoluta.) — Saiba Vossa Majestade que a Princesa, se ama o pescador Paulo, não lesa a majestade, nem ofende o povo que a venera.
El-Rei — Por quê?
Barão (Consigo.) — Um, dois, e... três! (Alto.) Real Senhor, o Príncipe Paulo é vosso filho!
El-Rei — Meu filho...
Barão — Vossa Majestade lembra-se do que me disse há vinte anos quando vossa real esposa estava para dar à luz? — Doutor, há de ser uma menina ou... Tur, lu, tu, tu, tur, tu, tu... verás quem é El-rei Caju! Ora, como a criança que estava para nascer era um menino, levei o menino para fora. eduquei-o longe das vistas de Vossa Majestade, e a menina tem até hoje passado por vossa filha. Acontece que vinte anos depois esta trapalhada, a menina apaixona-se pelo menino, o menino pela menina, e...
El-Rei (Interrompendo-o tragicamente.) — Horror! Horror! três vezes horror! As abóbadas deste palácio repercutam ainda uma vez esta palavra: Horror! e outra:
Horror!
Barão — É a mesma.
El-Rei — Afinal de contas, tiveste razão. O teu dever era salvar a própria vida. isso não impede, porém, que houvesse feito uma grandíssima maroteira!
Barão — Foi por instinto de conservação.
El-Rei — Por isso é que o rapaz parece-se tanto com minha mulher! Por isso é que simpatizo tanto com ele...
Duquesa — A natureza! a natureza!
El-Rei — Mas quem é o pai de minha filha? quero dizer — da suposta Princesa?
Não lhe entrego nem a cacete! (Terrível.) De quem é a filha?... Responde!...
Terceto
Barão
— É minha filha!
Seu papai sou!
Duquesa
— É sua filha!
Quem tal pensou?
El-Rei
— É sua filha!
Seu pai não sou!
Cruel partilha,
Desgraça pura,
A sorte escura
Me reservou!
I
Barão
— Sob este corpo cansado
Que o tempo quase vergou,
Sob este corpo, coitado!
Um coração já pulsou...
Na flor da minha existência
Todo aos estudos me dei;
Namorado da ciência,
Em vez de amar, estudei
Por isso,
Ah! Ah!
Por isso,
Ah! Ah!
Tive somente um derriço
Olá!
II
Cataplasmas e calmantes,
Ungüentos e fricções;
Laxantes e mais laxantes;
Cerotos, basilicões,
Sulfatos, plantas, altéias,
Tudo o mais, que não direi,
Foi com estas panacéias
Que a mocidade passei!
Por isso,
Ah! Ah!
Por isso,
Ah! Ah!
Tive somente um derriço
Olá!
El-Rei
— E esse derriço foi, Barão, que te valeu
A filha que passou por ser trabalho meu?
(A um gesto afirmativo do Barão.)
Passei por pai de quem não era!
Passo por pai de quem não sou!
Punido hás de ser tu, pudera!
Um juramento aqui te dou!
Ah!
(Dá uma grande volta pela cena, parodiando os artigos líricos italianos, e vem requebrar-se perto da Duquesa.)
Oh! je t’aime! je t’aime! je t’aime!
Deixa, ó bela, dizer-to em francês!
Vê, meu anjo, vê que a voz me treme!
Oh! je t’aime! je t’aime! je t’aime!
Juntos
El-Rei
— Oh! je t’aime! je t’aime! je t’aime!
Deixa, ó bela, dizer-to em francês!
Vê, meu anjo, vê que a voz me treme!
Oh! je t’aime! je t’aime! je t’aime!
Barão
— Que ela o ama, que o ama, que o ama,
Caso é certo, mesmo sem francês!
Ora, faça a vontade à madame!
Ora faça, que o peço por três!
Duquesa
— Oh! je t’aime, je t’aime, je t’aime,
Oh! je t’aime, meu bem, como vês!
Vê, meu anjo, vê que a voz me treme...
Oh! je t’aime, je t’aime em francês!
(O Barão e El-rei dão juntos outra volta por toda a cena, prolongando a última nota, que a Duquesa corta de súbito, tapando-lhes as bocas quando descem à cena, cantando.)
Duquesa
— Pois se me adoras,
Como protestas
E como atestas,
Meu coração,
Oh! tu, que uma alma
Tens, e tão boa,
Meu bem, perdoa
Dá-lhe o perdão!
Juntos
Duquesa
— Pois se me adoras,
Como protestas
E como atestas,
Meu coração,
Oh! tu, que uma alma
Tens, e tão boa,
Meu bem, perdoa
Dá-lhe o perdão!
El-Rei
— Eu, que te adoro,
Oh! pura! honesta!
Mulher modesta,
Meu coração,
Hei de, que o pedes,
Hei de lançar-lhe,
Hei de atirar-lhe
O meu perdão!
Barão
— Se és bom sob’rano,
Como protesta
E como atesta
Teu coração,
Oh! tu, que uma alma
Tens, e tão boa,
Ó Rei, perdoa,
Dá-me o teu perdão!
El-Rei — Mas sem castigo não desejo eu que fique este mariola!...
Barão — É melhor que as coisas fiquem no pé em que estavam. - Vossa Majestade tem amor de pai à Princesa, não tem?
El-Rei — Por força.
Duquesa — O Príncipe Paulo passará por filho de Sua Majestade, o rei da Ilha da Guarda Velha.
El-Rei — O meu augusto vizinho?
Duquesa — Depois de entender-me com ele, anuirá ao meu pedido, e perfilhá-lo-á.
Barão (À parte.) — Hum...
El-Rei — Sim, podemos contar com o assentimento do colega, que nada te recusa, como já disseste. Demais, sabendo que Paulo é meu filho...
Barão (Timidamente.) — É verdade.
El-Rei — Bico, Senhor Barão. — Senhor Barão! Nada! De hoje em diante não é mais Barão! Se está feito Barão por ter nascido uma menina, estás elevado a Visconde, maroto! É o teu castigo! — Vai chamar esta súcia! (O Barão sai.) Vou anular o julgamento... e, para segurança de minhas netas, convocar uma Constituinte para revogar o tal artigo duzentos.
Cena IX
El-Rei, Barão, Duquesa, Nheco, Ministros, Advogados, fidalgos, fidalgas,
guardas, depois Paulo, Princesa
El-Rei — Trazei minha filha e Sua Alteza o Príncipe Paulo para esta sala!
Todos — O Príncipe Paulo!
Duquesa — Esse que supondes um simples pescador!
Barão — O réu.
El-Rei — É um príncipe disfarçado. Tudo isto foi uma comédia. Queria experimentarvos.
Sois íntegros.
1º Ministro (Aos guardas.) — Direita volver! Ide buscar os réus, com trinta mil carabinas! (Saem os guardas, e voltam com Paulo e a Princesa.) Está portanto anulada a sentença proferida pelo Conselho, que, aquilo, digam o que quiserem, foi um Conselho.
El-Rei (A Paulo, que entra com a Princesa e os guardas.) — Príncipe Paulo, dê cá um abraço!
Paulo — Príncipe!!...
Barão (A Paulo.) — Tudo será mais tarde explicado a Vossa Alteza.
El-Rei (Depois de abraçar e beijar o Príncipe.) — Dê a mão à Princesa: é sua!
Princesa — Paulo!
Paulo — E Teresa? Um vez que sou Príncipe...
Barão — Não vos dê cuidado.
El-Rei — O Barão não deve ficar impune. Mas... qual deve ser o castigo.
Um Lacaio (Entrando, acompanhado de dois homens que trazem grandes caixas.)
— Aqui estão os remédios de Vossa Majestade, receitados pelo Senhor Barão. A botica ficou vazia.
El-Rei — Leva-os para fora. (Saem o lacaio e os homens. Ao Barão.) Querias que eu ingerisse aquela farmácia? Por causa do meu abalo moral, não é assim? mas como a filha era tua e não minha, tu é que hás de tomar aquelas drogas. (À parte.)
Achei um castigo.
Barão (À parte.) — Morri.
El-Rei (Tomando a mão da Duquesa.) — Apresento minha noiva à corte. (À Princesa e a Paulo.) Casar-nos-emos no mesmo dia... (Grandes mesuras dos cortesãos.)
Final
Coro Geral
— Viva El rei Caju!
Viva o
Rei Caju!...
Princesa
— É papai, do meu agrado,
Seja Nheco aposentado!
Nheco
— Se aposentação apanho,
Oh! que permanente banho!
Paulo
— O meu pedido é mais sério:
Deito abaixo o Ministério!
El-Rei — Caia, pois, o Ministério!
(A um gesto seu, os Ministros caem no chão)
Coplas ao público
Sei que o desejo, e único
Dos míseros autores,
É de fazer-te rir;
Assim, pois a comédia
Dispensa os teus favores,
E seja o Ministério
O único a cair.
Tur lu tu tu
Tur lu tu tu
Eis o que quer El-rei Caju!
Coro Geral
— Tur lu tu tu
Tur lu tu tu
Eis o que quer El-rei Caju!...
[Cai o pano.]
Fonte: www.dominiopublico.gov.br
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