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Abel e Helena

artur azevedo

Cena VI

HELENA, ABEL, depois MARCOLINA

Abel (Apertando com efusão as mãos de HELENA.) — Como estás, meu anjo?

Helena — Abel, que imprudência!

Abel — Não me crimines: estou autorizado por ti... (Pausa.) Então? estás pronta?

Helena (Estremecendo.) - Pronta? para quê?

Abel — Para... Faze-te agora de esquerda...

Helena — Não me lembro...

Abel — Helena?

Helena — Abel?

Abel — Estás zangada comigo?

Helena — Não.

Abel — Só fala por monossílabos! (À parte.) É a única coisa que sei de gramática...

(Alto.) Não temos tempo a perder... Vamos!

Helena — Meu Deus!

Abel — Hesitas?

Helena — Não sei...

Abel (Depois de pequena pausa.) — Helena, a ocasião não pode ser mais favorável.

Arranja a trouxa... Ainda não arranjaste a trouxa?

Helena (Estremecendo e olhando de soslaio para trouxa.) — Mas...

Abel — Pois arranja depressa a trouxa e partamos. Daqui a meia hora temos um trem.

Helena — Meu amigo...

Abel — Tens escrúpulos?

Helena — Ouve cá: não seria melhor revelarmos o segredo do nosso amor a

dindinho? (Aponta para o retrato.)

Abel (Dando com o quadro.) — Ah! pois não! É o que menos custa! (Tirando o chapéu

e com toda a cortesia, ao retrato.) Meu caro Senhor Nicolau, participo-lhe que eu e a

senhora sua afilhada nos amamos... e fugimos...

Helena — Não zombes, Abel! Quem sabe o resultado de uma revelação que lhe

fizéssemos? Donde não se espera...

Abel (Enterrando o chapéu na cabeça e em tom resoluto.) — Dize-me cá: já te achaste

algum dia em presença de um homem que trouxesse uma resolução?

Helena - Metes-me medo!

Abel — Pois olha: eu trouxe uma resolução, entendes? Não te digo mais nada...

Helena — Abel, se te mereço piedade...

Abel — Vamos! Arranja a trouxa!

Helena — Ah! mas não serás capaz...

Abel — Tu sabes que sou muito atrevido! Quem se apresentou candidato à cadeira de

primeiras letras desta freguesia, sem saber pitada de gramática, é capaz...

Helena (Assustada.) — De quê?

Abel — Vais ver! (Avança para ela.)

Helena (Evitando-o, a gritar.) — Marcolina! Marcolina!...

Marcolina (Entrando.) — Iaiá chamou?

Helena (A tremer.) — Nada é... nada é...

Abel (Descobrindo-se.) — Vejo que me enganei... Supus que sua palavra não voltava

atrás... Adeus! Oh! mas ainda me resta um meio...

Helena — Qual é?

Abel — Veremos... (Cobre-se e sai resolutamente.)

Helena (Depois de pequena reflexão, como que caindo em si.) — Marcolina!

Marcolina! vai ter com ele!

Marcolina — Com ele quem?

Helena — Com esse moço que acaba de sair daqui; chama-o!

Marcolina — Iaiá!

Helena — Dize-lhe que já tenho a trouxa pronta...

Marcolina — Ué!

Helena — Vai depressa!

Marcolina — Nada! Não me meto em fundura! Não quero cumo-chama comigo.

(Música.) Olhe: aí vem os brancos... Vêm pro víspora.

Helena — Malditos amoladores! Não podem jogar em outro lugar! Vai abrir a porta.

(MARCOLINA abre a porta da esquerda, vai colocar-se ao fundo da cena. Helena

senta-se no canapé.)

Cena VII

HELENA, MARCOLINA, PANTALEÃO, ALFERES ANDRADE, GÓIS &

COMPANHIA, CASCAIS, PEDRINHO, BENJAMIN, JUCA SÁ e VISITAS

(O Alferes Andrade tem trazido grande quantidade de cartões para o jogo do víspora.

Trazem a mesa para centro da cena e preparam o jogo.)

Coro

Joguemos por distração,

mas... pelo sim, pelo não,

companheiros folgazões,

paguemos só dois tostões

por cartão tão tão tão tão!

Cascais (Aproximando-se de Helena.) — O que é que tem, Dona Heleninha? Tão

retirada hoje...

Helena — Desculpe, se não apareci. O padre bem sabe...

Cascais (Em voz muito alta.) — Sei! Uma forte enxaqueca... (Baixinho.) Em que

ficaram?

Helena — Não tenho ânimo; é-me impossível abandonar assim a casa de dindinho...

Cascais — Está bem, minha senhora: ad impossibilia nemo tenetur...

Helena — Dê-me um conselho, padre.

Cascais —Já lhe dei um conselho; não lhe digo mais nada, porque conheço Nicolau

como as palmas de minhas mãos...

Helena — Aí, padre! Vossa Reverendíssima nunca amou!

Cascais — De mínimis non curat proetor...

Pantaleão (Sentando à mesa.) — Já vieram notícias do compadre?

Cascais — Cá está ele...(Pega no retrato e vai colocá-lo a um canto da cena.)

Helena — Nenhuma.

Pedrinho — É sinal que não há novidade.

Alferes Andrade (Impaciente.) — Começa o víspora ou não?

Benjamin — Ao que parece, o Senhor Alferes dá o beicinho pelo víspora.

Alferes Andrade — E o que lhe importa a você, seu pelintra?

Benjamin — Não seja malcriado!

Alferes Andrade (Tirando a espada.) — Até este fedelho!

Benjamin (Fazendo-lhe uma careta.) — Uh!

Alferes Andrade (Guardando tranqüilamente a espada.) — Vamos ao víspora.

(Hilaridade.) Cada cartão custa dois tostãos.

Pedrinho — Tostãos! Ah! Ah! Ah!

Alferes Andrade — Tostões! Arre! Não puxo pela espada porque estou com as mão

ocupadas. (Procede à separação dos cartões.) Quantos quer, seu vigário?

Cascais — Se quer que lhe fale com franqueza, Senhor Alferes: eu não gosto de jogar

com o senhor...

Alferes Andrade — Por quê? Por quê?

Cascais — O outro dia, no solo, o senhor foi mão três vezes seguidas! Eu não disse

porquê, enfim...

Alferes Andrade — Então, cuida que para ser mão só padre? Quantos cartões quer?

Cascais — De cá lá dez. Aqui tem dois mil réis. (Recebe os cartões e paga-os — mão

lá, mão cá.)

Pantaleão — Dê-me outros dez. (Paga e recebe-os.)

Pedrinho — Quem me empresta dez tostões? (Fazem-se todos desentendidos.)

Quem me empresta dez tostões? (Aproxima-se de Helena, que está pensativa.) Ó

Dona Helena, a senhora me empresta dez tostões?

Helena (Despertando de sua cisma.) —Hein?

Pedrinho (Impaciente.) — A senhora me empresta dez tostões?

Helena — Empresto. (Dando-lhe uma nota.) Aqui tem dois mil réis; com os outros dez

tostões compre cinco cartões para mim. (À parte.) Talvez me distraia.

Pedrinho (Ao Alferes.) — Dê cá cinco. (Recebe e paga.) Quantos queres, ó Juca Sá?

Juca Sá — Dez. (Compram, etc.)

Góis (Ao sócio.) — Quantos queres?

Companhia — Quantos quiseres.

Góis — E quantos hei de querer?

Companhia — Dez para cada um.

Góis — Então dez e dez... dez e dez são... (Calcula.)

Companhia (Contando nos dedos.) — Dez, onze, doze, treze, quatorze, quinze,

dezesseis, dezessete, dezoito, dezenove, vinte, vinte e um...

Góis — Já basta! Dez e dez são vinte. (Ao Alferes.) Dê cá vinte, Seu Alferes

Pancada... quero dizer, Andrade.

Alferes Andrade (Tirando meia espada.) — Eu dou-lhe mais são vinte espadeiradas!

(Guarda a espada tranqüilamente e dá os cartões.) Dê cá quatro mil réis. (Góis paga.

Acham-se todos munidos dos competentes cartões.) Quem mais quer? quem mais

quer?

Pedrinho — Já todos tem... Vamos com isso!

Alferes Andrade (Estendendo muitos cartões que restam diante de si.) — Tomem

lugares! (Remexendo os números em um saquinho.) Vamos principiar!

Cascais (Ao Alferes.) — Mas, com licença, o senhor não pagou!

Alferes Andrade — Como não paguei?...

Pedrinho — Ainda não, senhor!

Todos — Não, senhor! Pague! Pague e não bufe!

Alferes Andrade — Pois vá lá... pela segunda vez! Contra força não há resistência.

(Tirando dinheiro.) Cá está! (Marcolina sai pela direita.)

Pedrinho — Esta nota ainda não está recolhida?

Alferes Andrade — Eu é que te recolho já esta espada no bucho! Falta um tostão!

Quem empresta um níquel?

Pantaleão — Ninguém.

Alferes Andrade — Pois bem: quem tirar a mesa tem o direito de me exigir um níquel!

Benjamin — Mas haverá crédito?

Alferes Andrade — Menino, eu sou comandante de um destacamento!

Benjamin — Folgo muito.

Cascais — Se a dificuldade é um níquel, dignus est entrare.

(Marcolina, que tinha saído, volta com um saco de milho, do qual distribui um punhado

a cada jogador. Os personagens estão colocados do seguinte modo: Helena, no

canapé em que já estava sentada, estende seus cartões. No canapé, onde cabem

duas pessoas, vai sentar-se também outra moça. Cascais puxa uma cadeira para a

boca de cena e coloca seus cartões sobre a cúpula do ponto. A banca é ocupada pelo

Alferes, no centro, e nos dois lados por Pantaleão e Pedrinho. Góis senta-se numa

cadeira e estende os cartões no chão. O sócio vai buscar o retrato de Nicolau, colocao

nas costas de Góis, e, de pé, por trás da cadeira, espalha seus cartões na tela do

retrato. Benjamin e Juca Sá sentam-se no chão defronte um do outro. Na tábua de

engomar devem jogar três ou quatro moças. Os mais distribuem-se por todos os lados.

Marcolina vai guardar o saco de milho e, quando volta, coloca-se por trás do canapé.)

Alferes Andrade (Depois de contar o dinheiro que está sobre a banca.) — Vamos! A

banca é de vinte e quatro mil e setecentos... Com o tostão que estou a dever, vinte e

quatro mil e oitocentos. Pronto.

Todos — Pronto!

Alferes Andrade — (Remexendo no saco e tirando um número.) — Sete.

Alguns — Sete! (Uns marcam, outros não, - assim por diante.)

Alferes Andrade — (Remexendo no saco e tirando um número.) — Sessenta e nove...

Não! não! Ou é!...

Pedrinho — Veja no que fica!

Alferes Andrade — Eu não sei se é sessenta e nove ou noventa e seis...

Pantaleão — Deixe ver: é sessenta e nove.

Cascais — Ligere et non inteligerre, burrigere est.

Alferes Andrade — (Remexendo no saco e tirando um número.) — Muito obrigado!

Oitenta e oito.

Alguns — Oitenta e oito.

Alferes Andrade — (Remexendo no saco e tirando um número.) — Vinte!

Alguns — Vinte.

Alferes Andrade — (Remexendo no saco e tirando um número.) — Trinta e seis!

Alguns — Trinta e seis.

Cascais — Duque.

Alferes Andrade — (Remexendo no saco e tirando um número.)—- Noventa e nove!

Pedrinho — Olha que é sessenta e seis...

Alferes Andrade — É verdade: sessenta e seis!

Benjamin — Terno.

Alferes Andrade — (Remexendo no saco e tirando um número.) — Dois!

Alguns — Dois

Alferes Andrade — (Remexendo no saco e tirando um número.) — Noventa!

Pantaleão — Terno

Alferes Andrade — (Remexendo no saco e tirando um número.) — Doze!

Alguns — Doze.

Alferes Andrade — (Remexendo no saco e tirando um número.) — Vinte e quatro!

Cascais — Terno.

Alferes Andrade — (Remexendo no saco e tirando um número.) — Quatorze! (Desta

vez ninguém responde.) — Quatorze!

Cascais — Ciente.

Alferes Andrade — (Remexendo no saco e tirando um número.) — Sessenta e

quatro!

Cascais — Venha a boa!

Alferes Andrade — (Remexendo no saco e tirando um número.) — Trinta (Com força.)

Víspora!

Todos — Hein?

Alferes Andrade (Muito tranqüilamente.) — Quero dizer: duque... (Gritando.) Um!

Góis (Levantando timidamente a cabeça e em tom de lástima.) — Terno

Alferes Andrade — (Remexendo no saco e tirando um número.) —Vinte e três!

Pantaleão — Venha a boa!

Alferes Andrade — (Remexendo no saco e tirando um número.) — Oitenta e seis!

Pantaleão (Erguendo-se enfurecido.) — Por um ponto! (Batendo o pé com toda a

força.) — Caramba!

(GÓIS & COMPANHIA assustam-se e cai um por cima do outro. Caindo, Góis enterra

a cabeça na tela do retrato, que lhe fica em volta do pescoço. Confusão geral, Helena

deita as mãos na cabeça. Marcolina tira o retrato, leva-o para dentro e volta.O Alferes

aproveita-se da confusão para procurar no saco o número que lhe convém. Só

Pantaleão vê esta trapaça.

Alferes Andrade (Achando o número.) — Dez! Víspora! Víspora! Dez! Aqui está!

Dez!...

(Chegam-se todos para o Alferes, menos Helena e Marcolina, que voltam a seus

lugares.)

Canto

Alferes Andrade — É como se vê: são dez!

Todos — Dez!

Alferes Andrade (Atirando-se ao dinheiro.) — São meus os vinte e quatro mil e

setecentos

(Guarda o dinheiro)

Pantaleão — É muito atrevimento!

Patota fez você!

Alferes Andrade (Puxando a espada.) — Quem foi? quem foi que fez?

Pantaleão —Guarde o chanfalho, ó toleirão!

Góis — Não seja tão parlapatão!

Cascais — Então? então? Dê-me o que é meu!

Alferes Andrade — Vocês quem pensam que sou eu?

Helena — Seu Alferes, tal não fará!

Pedrinho — Entregue esse dinheiro e nada se dirá!

Alferes Andrade — Do meu bolso não sairá!

Todos —Dê-nos o cobre! Dê-nos já!

Alferes

Raspem-se já

senão, senão,

vai haver cá

revolução!...

Coro de Homens

Se não nos dá

nosso quinhão

gritamos já:

pega ladrão!...

Todos — Pega ladrão! Pega ladrão!...

Góis & Companhia (Colocam-se um de cada lado do Alferes, que tenta fugir.) — O

valentão que tanto arrota, e que no jogo fez patota, não leva já tunda de pau, em

atenção ao Nicolau...

Alferes

Raspem-se já, etc.

Coro de Homens

Se não nos dá, etc.

Todos — Pega ladrão! Pega ladrão!

Alferes Andrade —Não sou ladrão, não sou ladrão! (Foge.)

Todos (Acossando-o.) — Pega ladrão! Pega ladrão!

(Saída ruidosa pela esquerda. Helena e Marcolina ficam sós.)

Cena VIII

HELENA e MARCOLINA

(MARCOLINA deita a mesa em seu lugar, arranja os móveis e coloca os cartões sobre

a mesa.)

Helena — Que sempre há de haver disto! Por isso não gosto que se lembrem de jogar

aqui o maldito víspora!

Marcolina (Arranjando os trastes.) — Também aquele Seu Arfere é um tipo.

Helena — É um tipão.

Marcolina —- Fazer trapaça não é nada, mas deixar-se apanhar...

Helena — Vai para dentro; preciso estar só.

Marcolina — Outra vez, iaiá!

Helena — Deixa-me!

Marcolina — Vossem’cê não vai cear com as visitas?

Helena — Não; quero descansar.

Marcolina — Então, vá pro seu quarto.

Helena — Não quero. (Aparece Cascais.)

Marcolina — Aqui está...

Helena (Sobressaltada.) — Quem?...

Marcolina – Sinhô padre-mestre.

Helena — Ah!

Marcolina (À parte.) — Outra ah! Já sortou três!

Cena IX

As mesmas e CASCAIS

Cascais — Aquele Alferes Andrade é um tipo!

Helena — Um tipão!

Marcolina — Ele arrestituiu o dinheiro, sinhô padre-mestre?

Cascais — Só a metade... Que trapaceiro! Vade retro!

Helena — Deixa-nos a sós, Marcolina. Vai dizer a esses senhores desculpem minha

ausência... mas a enxaqueca...

Cascais (Em voz mito alta.) — Sim, uma forte enxaqueca...

Marcolina — Mas...

Helena — Vai!

Marcolina — Tá bom! (Sai.)

Cena X

HELENA e CASCAIS

Helena — Ó padre!

Cascais — O que temos?

Helena — Ainda há pouco não pudemos falar à vontade. Vossa Reverendíssima não

calcula o quanto padeço...

Cascais — Horribili dictu!

Helena — Ele esteve ainda agora aqui....

Cascais — Quando?

Helena — Antes do víspora.

Cascais — E não... fez víspora?

Helena — Oh! fiz-me esquecida... Hesitei... Ele saiu... Deixei-o sair, mas sabe Deus

com que vontade... Oh!

Cascais (À parte.) — Hoje é dia dos ohs! A rapariga já soltou dois...

Helena — O que diz, padre?

Cascais O que digo é isto... (Prepara-se para dizer uma sentença latina.)

Helena —Oh! não! não! Fale português.

Cascais — Então sabia que eu ia falar latim?

Helena — Já conheço pela sua cara.

Cascais — Então, o que digo é isto: nada de hesitações. deixe-se levar, e o resto fica

por minha conta...

Helena (Com piedade.) — E o dindinho?

Cascais — Ora! dindinho que vá plantar mandioca. A senhora ou bem há de querer o

dindinho, ou bem o Abel. Ambos juntos é impossível! São incompatíveis. Dois

proveitos não cabem num saco...

Helena — Oh!

Cascais (À parte.) — Mais um oh! (Alto.) E daí, quem sabe? Podem muito bem fazer

as pazes e meter ambos os proveitos em um saco só. Ande daí; venha cear.

Helena — Não. Tenho uma tal tristeza n’alma...

Cascais — Triste est anima mea.

Helena (Sentando-se no canapé.) — Verei se posso sossegar.

Cascais — Aqui? Não é melhor ir para o seu quarto?

Helena — Irei depois.

Cascais (Querendo retirar-se.) — Nesse caso, Dona Heleninha..

Helena — Não se vá embora por quem é! Sua presença faz-me bem.

Cascais — Favores que não mereço...

Helena (Recostando-se no espaldar do canapé.) — Estou com um sono... (Fechando

os olhos.) Ó padre, se eu dormir, peça aos céus que me enviem um sonho benfazejo;

sim?

Cascais — Sim (À parte.) Ora! para o que lhe havia de dar!

Helena (No mesmo.) — Por que não é dindinho amigo de Abel? Se eu pudesse vê-lo

em sonhos...

Cascais — A quem? Ao dindinho?

Helena (Enfadada.) — Não.

Cascais — O outro...

Helena — O outro... Se pudesse vê-lo em sonhos... Que mal havia nisso? Padre, peça,

peça aos céus que me enviem um belo sonho... Estão-se-me a agarrar as pálpebras...

Peça... (Outro tom.) Peça... se não fico mal com Vossa Reverendíssima... (Adormece.)

Cascais — Tem graça! pedir um sonho assim como quem pede um charuto! — Oh!

Fulano, dá cá um charuto. — Ó céu, manda lá um sonho à Senhora Dona Helena.

(Contemplando-a.) Como é bonita! (Dá dois passos para ela, e arrependendo-se,

benzendo-se.) Est ne nos induca in tentationem.(Nisto, Abel, que tem aberto lentamente

a porta do fundo, entrado e avançado, toca no ombro de Cascais, que se assusta.) Ai!

Abel — Não se assuste! Sou eu. Cale-se; não a desperte...

Cascais — O senhor pregou-me um susto...

Abel — Não vá agora pregar-me um sermão... Ah! desculpe...

Cascais — Essa é boa! Inter amicus non habet geringonça.

Abel — Silêncio... (Entra Marcolina; Abel oculta-se atrás de Cascais.)

Cena XI

HELENA, CASCAIS, ABEL e MARCOLINA

Marcolina — Então iaiá não quer ir pro seu quarto!

Cascais — Psiu... Está dormindo... Não a desperte, senão volta aí a enxaqueca.

Marcolina — Mas isto não tem jeito! Dormir aqui!

Cascais — Não faz mal.

Marcolina — Então, vamos embora.

Cascais — Vai fechar a porta. (Marcolina fecha a porta da esquerda. Cascais seguelhe

os movimentos e Abel os de Cascais, de modo que se conserve sempre a salvo

dos olhares de Marcolina.) Agora, vamos, passa adiante...

Marcolina — Sim, sinhô.... (Sai.)

Cascais (À porta do fundo.) — Oc opus hic labor est... (Sai.)

Cena XII

ABEL e HELENA

Abel (Contemplando-a.) — Como é bonita, ó minha casta Helena! Vamos! Ânimo,

Abel! o Nicolau está na fazenda e o deus do amor te protege!... (Ouve-se fora, à

esquerda, o coro seguinte.)

Coro

— Olá! que vinho tem na adega

Seu Nicolau!

Pode apanhar-se uma broega,

pois não é mau!

Quem saúde ambiciona

tome, com moderação,

de vez em quando uma mona,

de vez em quando um pifão!

Lá lá lá lá lá lá ...

Abel (Durante o coro.) — O que é isto? (Vai olhar pelo buraco da fechadura.) Estão

ceando. Que grande patuscada! (Deixa a fechadura e ajoelha-se perto de Helena.)

Helena (Despertando.) — Abel! Tu aqui?!...

Abel — Sim, sim, o teu Abel!

Helena — Mas... estarei sonhando?

Abel (À parte.) — O que diz ela?

Helena — Sim... é o sonho que ainda agora pedi ao padre...

Abel — Um sonho! Muito bem! Confunde-me com um sonho... (HELENA ergue-se

maquinalmente. ABEL condu-la à boca de cena.)

Dueto

Helena — O céu já me enviou o sonho celestial que o padre suplicou!

Que prazer vou sentir!

Que sonho venturoso Helena vai fruir

Juntos — Céus! ai! que sonho, que sonho de amor!

A noite dá-lhe seu mistério...

A noite dá-lhe seu favor...

Sinto um contentamento etéreo!

Ai! que gentil sonho amor!

Céus! ai! que sonho, etc.

Helena — Repete, ó Abel, e me farás feliz...

Diz — Eu te amo; — diz e rediz!

Pois te quero seguir...

Abel — Seguir-me, minha Helena?

Helena — A casa em que nasci, por ti deixo sem pena.

Mas... tu não me abandonarás?

Abel — Ó minha bela, tal suspeita do coração não vem direita!

Revoga-a já e já, com beijos ao rapaz!

Helena — Quantos então!

Abel — Só três...

Helena — Na mão?

Abel — Não, não, não, não; porém no rosto,de perfeições almo composto, que vida e

morte a um tempo dá!

Oh! dá-me, dá-me beijos!

Satisfaz meus desejos!

Helena — Se não é mais que um sonho... vá lá...

(Deixa-se beijar.)

Juntos — Céus! ai! que sonho de amor, etc.

Helena — Agora, ó meu Abel...

Abel — Ó minha Helena, agora... é fugir

Helena — Fugir!

Abel — Sem demora! não há tempo a gastar... o trem já vai chegar...

Helena — Serás meu bom amigo?

Abel — Sim!

Helena — Não mangarás comigo?

Abel — Não!

Um protetor em mim terás, ó coração!

Amanhã de manhã, manhã pura e serena, esplêndida louçã,

Um padre que eu cá sei casar-nos-á, Helena...

Esposos, meu amor, seremos amanhã!

Helena — Amanhã?

Abel — Amanhã...

Deixa portanto, Helena, a sala do engomado, e vem, longe daqui, seguir teu

namorado!

Helena (Apoderando-se da trouxa que está embaixo do canapé.) — Se não é mais

que um sonho... vá lá...

Juntos — Céus! ai! que sonho, que sonho de amor!

A noite dá-lhe seu mistério...

A noite dá-lhe seu favor...

Sinto um contentamento etéreo!

Ai, que gentil sonho de amor!

Céus! ai! que sonho, etc.

(Terminado o dueto, Helena deita sobre os ombros uma manta e dispõe-se a sair com

Abel, pelo fundo, quando a porta se abre de repente e surge Nicolau que solta um

grito.)

Cena XIII

Os mesmos e NICOLAU

Helena (Caindo, confundida, nos braços de NICOLAU.) — Dindinho! Oh! então não

era um sonho! (Atira para longe a trouxa.)

Nicolau (Deixando cair por terra todos os preparos de viagem com que saíra no final

do primeiro ato.) — Um sonho! Eu é que estou a sonhar!

Helena —Vossemecê fez boa viagem, dindinho?

Nicolau (Procurando ver ABEL, que HELENA trata de esconder.) — Fiz... fiz... Mas

aquele sujeito...

Helena — Os negros já estão acomodados?

Nicolau — Já... já... É o senhor...

Helena — E qual foi o motivo do levantamento?

Nicolau (Tirando HELENA da frente de ABEL.) — Ah! é o senhor?! Veio cá decifrar

uma charada?

Helena — Esteve sempre de saúde? Caçou muito por lá?

Nicolau — Eu cá sei o que cá sei...

Helena — O que caçou?

Nicolau — Eu cá sou muito tolo: a dar resposta. (Gritando.) Aqui d’el rei! Aqui d’el

rei!...

Abel — Cale-se! O senhor é um imprudente!

Nicolau — Eu cá sei o que cá sou! (Gritando.) Aqui d’el rei! Aqui d’el rei!... O senhor

Abel... Qual Abel nem meio Abel! De hoje em diante só o hei de chamar de Caim! O

senhor Caim não pode dotar a ofendida; pode? Não pode! Logo - aqui d’el rei! Ó de

casa!

Helena — Olhe que estão visitas! (Tira a manta.)

Nicolau — Ah! estão... Melhor! (Vai abrir a porta.)

Abel — Vem tudo aí! Sai cá um barulho...

Nicolau — Eu cá sei o que cá sai! Mas que é da Marcolina?...

Final

Nicolau (Gritando.) — Vem cá, ó Marcolina! Aqui!

Helena — Ó que imprudente

Abel — Vai sair cinza incontinente!

Helena — Meu Deus! Meu Deus! estou metida em bons lençóis! (Desmaiando. ABEL

corre para junto dela.)

Nicolau — Aqui d’el rei! aqui d’el rei! aqui d’el rei! Que dois heróis!

Cena XIV

HELENA, ABEL, NICOLAU, PANTALEÃO, CASCAIS, PEDRINHO, BENJAMIN,

JUCA SÁ, ALFERES ANDRADE, GÓIS & COMPANHIA, MARCOLINA e visitas

(Os homens, menos Cascais, vêm ligeiramente alcoolizados.)

Pedrinho —Olá! que vinho tem na adega

Seu Nicolau!

Pode apanhar-se uma broega, pois não é mau!

Quem saúde ambiciona tome, com moderação de vez em quando uma mona,

de quando em vez um pifão!

Lá lá lá lá lá lá lá...

Pantaleão (Dando com Nicolau.) — O Nicolau!

Todos — Olá!

Nicolau (Tragicamente.) — O Nicolau cá está!

(Agarrando Marcolina pelo pulso e trazendo-a à boca de cena.)

— Helena ia fugir co’aquele sedutor!

Responde já, ó Marcolina, tu, que eras a guarda da menina: que foi feito de seu

pudor?

Todos —Que foi feito de seu pudor?

(Nicolau deixa, furioso, o braço de Marcolina que foge para o fundo.)

Nicolau — Sim, seu pudor?

Alguns — Ora! o pudor!

Todos — Ai! o pudor!

Você não deve estar zangado, pois, de algum modo, é o mais culpado!

Nicolau — Pois sou culpado?

Helena (Tornando a si, e aproximando-se do padrinho.) — Qualquer parente que,

estando ausente em casa entregue a si deixou linda afilhada enamorada entrar não

deve como entrou.

Bem procedido tinha um marido assim chegando de supetão: mas meu

dindinho devagarinho não entra em casa um solteirão!

Todos — Mas, ó dindinho devagarinho não entra em casa um solteirão!

II

Helena — Que o namorado desconfiado observe a bela sem descansar; pai ciumento

em mau momento filha querida possa encontrar noivo zeloso e cauteloso queira por

gosto ser espião: mas, meu dindinho devagarinho não entra em casa um

solteirão!

Todos — Mas, ó dindinho devagarinho não entra em casa um solteirão!

Nicolau — Bem: mas se meus amigos são, mandem-no embora a pescoção!

Pantaleão — É já! É já... Seu professor, seu proceder me causa horror!

Abel — Ir-me daqui sem minha bela!

Então, senhores meus, então, voltarei noutra ocasião, e irei com ela! e irei com

ela!

Todos — Vai-te, ó sedutor!

Vai-te, parlapatão!

Helena (Baixo a Abel.) —Oh! vai-te! meu amor te seguirá...

O meu amor seguir-te-á...

Danados estão!

Vê que olhar tão furibundo!

Capazes que são

de mandar-te pr’outro mundo!

Abel — Sim! sou fanfarrão!

Pois aqui, só num segundo sou capaz, verão! de matar a todo mundo

Coro

Ó que fanfarrão!

Ó que professor imundo!

O parlapatão

quer matar a todo mundo!

Abel (Fazendo os gestos indicados nos seguintes versos.) — Eu sou capoeira!

Não me assustam, não!

Passo um rasteira: tudo vai ao chão!

Puxo um canivete pra desafiar!

Ai, que pinto o sete!

Mato dezessete e vou descansar!...

Coro

— Feroz punição

vamos dar ao badameco!

Merece ladrão

ser corrido a peteleco!

(Procuram todos evitar Abel, que se mostra satisfeito de seu triunfo.)

Pantaleão (A Abel.) — Ai, não se perfile,

file, file, file!

Não temo a você!

Não se rejubile,

bile, bile, bile,

pois não tem de quê!

Coro (Perseguindo a ABEL.)

—Ai, não se perfile,

file, file, file, etc.

Abel — Sou eu que direi: Ai não se perfile

file, file, file!

(Grande disputa em que só não tomam parte HELENA e CASCAIS, que tentam, em

vão, apaziguar os ânimos.)

Coro

— Feroz punição

vamos dar ao badameco!

Merece o ladrão

ser corrido a peteleco!

(ABEL retira-se pelo fundo, ameaçando sempre, e HELENA desmaia nos braços de

MARCOLINA.)

[(Cai o pano)]

ATO TERCEIRO

QUADRO QUARTO

O TREM DE FERRO

Estação da estrada de ferro (espécie de alpendre). À esquerda um balcão em

que se vendem vinhos e pastéis. Ao fundo a estrada. Paisagem em perspectiva.

Quadro animado; uns bebem e outros comem.

Cena I

PEDRINHO, BENJAMIN, JUCA SÁ, GÓIS & COMPANHIA, ALFERES ANDRADE e

povo

Coro

—Comer! beber!

Viva o prazer!

Aproveitamos nossa idade!

Brincar! folgar!

Quem não gostar

de ser assim, que vá ser frade.

Beber! comer!

Viva o prazer!

Recitativo

Pedrinho — O tal Nicolau é da pá virada!

É um trapalhão!

Todos — Ninguém diz que não!

Pedrinho — Contrariando o professor, deu grandessíssima patada, por isso que

irritou um deus chamado — Amor!

Voltas

I

Abel ama a Dona Helena...

Não lhe vejo nenhum mal

Todos — Abel ama a Dona Helena...

Não lhe vemos nenhum mal!

Pedrinho — Quer casar-se coa pequena: isso é muito natural!

Mas o grande Nicolau não quer dar-lha nem a pau.

Ah! Ah!

Passa fora, Nicolau!

Passa fora, meu patau!

Todos — Passa fora, Nicolau!

II

Pedrinho — Por orgulho, que apoquenta, não quer dar-lha por mulher!

Todos — Por orgulho, que apoquenta, não quer dar-lha por mulher!

Pedrinho — Presunção e água benta cada qual toma a que quer e...

Quer ele queira, quer não, marido e mulher serão!

Ah! Ah!

Passa fora, Nicolau!

Passa fora, meu patau!

Todos —Passa fora, Nicolau!

Pedrinho — Mas, enfim, o que resolveu o Nicolau?

Benjamin — Há casamento?

Góis — Fuga?

Companhia — Surra?

Alferes Andrade — Qual fuga nem surra! Não há nada disso!

Góis — Corre por toda a freguesia... Mas ao que corre pela freguesia não podemos

dar ouvidos...

Pedrinho — Se aqui estivesse o vigário, diria: Vox populi...

Alferes Andrade — Mas o que corre pela freguesia, seu Góis & Companhia?

Góis — Góis & Companhia somos nós dois, eu e este. Eu só sou o Góis.

Companhia — E eu a companhia.

Benjamin (Ao Alferes.) — Assim como do senhor pode-se também dizer: Alferes &

Companhia..

Alferes Andrade (Tirando a espada.) — Qual é a companhia?

Benjamin — Qual há de ser? A durindana...

Alferes Andrade — Ah! (A Góis.) mas vamos: o que é que corre?

Góis — Corre por toda a freguesia que, no trem das oito e três quartos, Dona Helena

vai para a corte, em companhia de um frade que a tem de vir buscar.

Pedrinho — Não sei se é isso um maranhão, mas, com certeza, é o motivo pelo qual

nos achamos aqui todos reunidos: confessem!

Góis — Deixe-se disso! Sempre foi costume encher-se a estação de gente.

Pedrinho — Eu nunca vi aqui nem você nem seu sócio...

Alferes Andrade — Está visto que, se não viu um, não podia ver o outro...

Benjamin — Ora até que afinal o Alferes disse uma coisa quase com graça!

Alferes Andrade (Brandindo a espada.) — Quase!

Pedrinho — Seu Alferes, quero dar-lhe um conselho.

Alferes Andrade — Dar ou receber?

Pedrinho — Ouça primeiro e depois esbraveje à vontade...

Todos — Ouça, seu Alferes, ora ouça!

Alferes Andrade — Vocês tomaram-me à sua conta! Deixem estar que eu os

ensinarei!

Pedrinho — O conselho é este: deite fora a bainha de sua espada.

Alferes Andrade — Por quê? Então não está nova?

Pedrinho — Não é por isso: é porque de nada lhe serve a bainha! A lâmina não pára

dois minutos lá dentro.

Alferes Andrade — Menino! (Brande furioso, a espada, que tem conservada em

punho.)

Pedrinho — Então! O que dizia eu? Lá está de espada em punho!

Todos — Ah! Ah! Ah!

Alferes Andrade — Protesto! Já estava fora da bainha!... Já estava fora da bainha!...

Todos — Ah! Ah! Ah!

Pedrinho — O que vale é que, se o chanfalho não leva muito tempo na bainha,

também na mão... É só mandá-lo guardar!

Todos — Guarde, guarde o chanfalho!

Alferes Andrade (Guardando tranqüilamente a espada.) — Vocês pedem com tão

bons modos...

Góis — Seu Alferes não é mau rapaz...

Companhia — Tem suas coisas... Ora! quem não as tem?

Juca Sá — No fundo é um bom moço...

Alferes Andrade — Pois não se fiem muito! Um dia faço aqui uma estalada! Vocês

não me conhecem!

Cena II

Os mesmos e CASCAIS

Cascais — Dominus vobiscum!

Pedrinho — Ora aqui está o senhor vigário, que é quem nos pode explicar a coisa.

Cascais — Que coisa?

Pedrinho — O que há e o que não há sobre Dona Helena?

Cascais — E o que têm vocês com isso?

Benjamin — Interessa-nos a sorte dessa desventurada senhora.

Cascais — Já que querem com tanta instância saber da vida alheia, o caso é este...

Pedrinho — Atenção!

Cascais — Dona Helena deixa o lar paterno.

Alferes Andrade — Paterno, não: padrinherno!

Benjamin — Bico, Seu Alferes!

Alferes Andrade — Ora bolas! o lar é do padrinho!

Pedrinho — Mas Dona Helena casa-se ou não se casa com o mestre-escola?

Cascais — Nada.

Alferes Andrade — Então o mestre-escola que se casa com ela?

Góis — Seu Alferes, não interrompa!

Alferes Andrade (Com força.) — Não me interrompa você!

Cascais — Dona Helena vai entrar para um convento.

TODOS — Ah!

Pedrinho — Mas como pode isto ser? Quem a pode obrigar a meter freira?

Companhia — Ela é maior...

Benjamin — É até maior do que eu!

Alferes Andrade — Vocês é que estão interrompendo; não sou eu!

Cascais — Quem a pode obrigar? O padrinho! Regis est imperare.

Pedrinho — Ouvimos dizer que vinha um frade buscá-la; é para levá-la ao convento?

Cascais — Adivinhou.

Alferes Andrade (À meia voz.) — Ela, então, vai entrar para um convento de frades?...

Cascais — Nada: o frade leva-a para um convento de freiras.

Benjamin — Mas por que não a leva o Nicolau em pessoa ao convento?

Juca Sá — Em vez de entregá-la a um estranho?

Cascais — Vocês bombardeiam-me com perguntas!

Alferes Andrade — Pois bombardeie-nos com respostas!

Cascais — Não é um estranho tal: o Nicolau me disse que não tinha ânimo de levar a

afilhada para a cidade e lá deixá-la metida entre quatro paredes; confrangia-se-lhe o

coração... Pediu-me que me encarregasse disso.

Companhia — Pobre Nicolau!

Alferes Andrade — E então?

Cascais — Recusei por dois motivos: primo, não podia abandonar a freguesia. (Tenho

medo de uma ex-informata que me pelo) secundo, quem me visse em companhia de

uma senhora, poderia fazer um juízo desairoso, tanto para mim como para ela.

Alferes Andrade — E o terceiro?

Pedrinho — Como o terceiro? Eram só dois!

Cascais — Há; ainda há um terceiro.

Benjamin — Vejamos.

Cascais — Tercio, Dona Helena, me quereria mal, se fosse eu que a levasse para o

convento...

Alferes Andrade — Bem pensado. E o quarto?

Cascais — Não há mais.

Alferes Andrade — E o quinto?

Cascais (Encarando-o) — O quinto é que você é um tolo!

Alferes Andrade — Ora é boa! Podia não haver um quarto, mas haver um quinto...

Cascais — Então, pediu-me o Nicolau que lhe lembrasse um alvitre qualquer, que

fosse eficaz. Disse-lhe que havia na corte um frade, amigo meu de velha data e pessoa

de maior confiança, que viria buscar Dona Helena, se lho eu pedisse por meio de uma

cartinha.

Pedrinho — E o Nicolau aceitou a alvitre?

Cascais — Aceitou. O frade entrega-a à superiora do convento, que já está prevenida

para recebê-la e competentemente autorizada. Deo Gratia.

Pedrinho — Isso é inverossímil! Isto só se vê em comédias!

Alferes Andrade — Ou em paródias!

Cascais — Pois é a pura verdade. Eu sou como o outro. A Deo veritatis diligens era,

ut ne loco quidem mentiretur... Ora adeus! Vocês não sabem disso; estou perdendo

meu latim...

Alferes Andrade — Mas é uma maldade roubar uma deidade à sociedade e entregála

a um frade para levá-la para a cidade! É uma atrocidade!...

Cascais — Oh! Senhor Alferes! quanta rima perdida! Quando quiser dizer versos,

previna a música: cante-os.

Pedrinho — Rapaziada, vamos dar uma volta; o trem ainda se demora um quarto de

hora.

Benjamin — Contanto que não deixemos de ver o frade!

Alferes Andrade — Voltaremos. Vamos, vamos dar uma volta; eu também não sei

estar parado.

Pedrinho — Irá, com a condição de não puxar a espada em caminho...

Alferes Andrade — Vocês tomaram-me à sua conta; vocês não me conhecem!

Todos — Até logo, senhor vigário.

Benjamin (Batendo com liberdade no ombro de Cascais.) — Até logo!

Cascais (Tomando-o pelo braço.) — Menino, adolescentis est majore nutu vereri...

Benjamin — Fiquei na mesma.

Cascais (Recomeçando.) — Adolescentis,,,

Todos — Vamos! Vamos! (Saem.)

(Alguns têm já se retirado pouco a pouco da cena. A orquestra toca em surdina o

estribilho das voltas cantadas por Pedrinho na cena primeira. Cascais fica só.)

Cena III

CASCAIS [Só]

[Cascais] (Dirigindo-se ao público com toda naturalidade.) — Os senhores hão de

estar lembrados daquela cartinha que recebi de meu irmão no primeiro ato. Pois bem:

ouçam a resposta. (Tirando uma carta e lendo.)

“Meu mano e prezado amigo,

estimo que passes bem,

pois é o que se dá comigo

e coa comadre também .

Os pequerruchos vão indo,

mas muito mal, caro irmão:

com coqueluche o Clarindo

e o Nho-nhô com dentição”

(Declama.)

— Isto não, intimidades. Inter amicus...(Continuando.)

“Recebi a tua carta

com data de vinte e três

e vou, antes que o trem parta,

respondê-la, como vês.

Não quero que seja diverso

o meu sistema do teu:

como escreveste-me em verso,

em verso respondo eu.

O Abel, teu recomendado,

há dias pra lá voltou;

foi demitido (coitado!)

do cargo que abiscoitou.

Não pode cantar vitória,

nada pode conseguir;

que ele te contasse a história

é muito de presumir...

Se tirá-la por justiça

decerto a pequena vai,

de volta de alguma missa,

que só é quando ela sai.

Que ao tutor ninguém dissuade,

tenho de mim para mim,

pois quod natura dat...

não sei se sabes latim.

Não posso ser mais extenso:

vou minha missa dizer;

ex-informata suspenso,

caro irmão não quero ser.

Lembranças cá da comadre,

não só a ti, como aos mais,

teu irmão e amigo, o Padre

Bernardo Teles Cascais”

(Declama.) — Há um post-scriptum, mas não vem ao caso. Enfim... (Lendo.)

“Post sciptum: É um dos maiores

o calor que faz aqui

por isso em trajos menores

desculpa escrever-te a ti”.

(Guardando a carta.) — Esta resposta, tinha-a eu escrito ontem. Ia deitá-la no correio,

quando encontrei o Nicolau que me pediu um meio para mandar a afilhada para o

convento. Lembrei-me, então, de que o Abel poderia muito bem passar por frade

barbadinho, e arranjei uma farsa... Em vez de mandar esta carta a meu irmão, escrevi

uma outra a Abel, dizendo que se apresentasse hoje, no trem que vai chegar, com o

competente disfarce, e... O resto adivinha-se... Não me posso sair bem desta

brincadeira: o Nicolau há de cair-me em cima como uma bomba, bumba! Mas, com

meios brandos e suasórios, tudo conseguirei...

Cena IV

O mesmo e PANTALEÃO

Pantaleão — Andava à sua procura, padre. Como passou?

Cascais — Doente.

Pantaleão — Doente?

Cascais — Ou velho: senectus est morbus. O que deseja?

Pantaleão — Falar-lhe sobre este maldito acidente...

Cascais — Da pequena?

Pantaleão — Sim.

Cascais — O que quer que lhe faça? Mortus est pinto in casca.

Pantaleão — É preciso que o compadre se esqueça de mandar Dona Helena para o

convento.

Cascais — A boas horas lembra-se você disso...

Pantaleão — Como assim?

Cascais — Você pintou...

Pantaleão (Formalizado.) - Eu não pinto, padre!

Cascais — Não se precipite! Não quero dizer que o senhor pinta o padre! — Você

pintou... ao Nicolau todo este negócio com as mais negras cores e, como delegado da

instrução pública, arranjou a demissão do pobre rapaz; Dona Helena há de agradecerlhe...

Pantaleão — E quem se encarregou de chamar o frade? Dona Helena há de

agradecer-lhe!

Cascais — Não estejamos a trocar palavras, Senhor de los Rios; resolvamos alguma

coisa!

Pantaleão — O que há de ser?

Cascais — Em vindo o Nicolau, chamemo-lo de parte...

Pantaleão — E...

Cascais — Toca catequizá-lo! Tais considerações faremos...

Pantaleão — Tais argumentos apresentaremos...

Cascais — Aí vem ele e a pequena. (Afastam-se.)

Cena V

Os mesmos, NICOLAU e HELENA

Nicolau (Sem dar com a presença de Cascais e Pantaleão.) — “Oh! então não era um

sonho!” É esta frase, Helena, é esta frase que espero que você me explique!

Helena — Dindinho!

Nicolau — Você é uma sonsa! pode vir com esses modos de santinha de pau

carunchoso: não tomo nada!

Helena — Dindinho!

Nicolau — Não tomo nada, ouviu?! Não tomo nada!...

Helena — Pois bem, já que não toma nada, tome lá este pião à unha...

Nicolau — Hein?

Helena —De hoje em diante quero viver sobre min!

Nicolau — Olé!

Helena — Ah! supõe que não sei que estou emancipada por lei?...

Nicolau — Olá!

Helena — Até hoje tenho passado por tola!

Nicolau — Olé!

Helena — Mas de hoje em diante hei de mostrar quem sou!

Cascais (A PANTALEÃO.) — Scintilla excitavit incendio!

Nicolau — A Senhora Dona Helena como deita as manguinhas de fora!

Helena — Onde me levam? Para que me obrigam a arrumar bagagem? O que venho

fazer à estação do caminho de ferro?...

Nicolau — Não é da sua conta!

Helena — Tome sentido, dindinho!

Nicolau — Olé!

Helena — Vossemecê não me conhece!

Nicolau — Olá!

Pantaleão (Intervindo.) — Então! Então!... O que é isto, compadre?...

Cascais (Idem, à HELENA.) — O que está fazendo, Dona Helena? (Baixinho.) Não

grimpe! Obedeça passivamente... Ele quer mandá-la para um convento! Vá, vá sem

respingar.

Helena — Mas...

Cascais — Fie-se em mim: amicus certus in re incerta cernitur.

Nicolau — Desavergonhada! Faltar-me ao respeito!

Cascais (Deixando HELENA e dirigindo-se a NICOLAU.) — Dona Helena acaba de

significar-me seu arrependimento...

Helena (Humildemente.) — É verdade, dindinho: esqueci-me por um momento do

quanto lhe devo. Perdoe.

Pantaleão — Perdoe.

Cascais — Perdoe.

Helena — Perdoe.

Nicolau (Sombrio.) — Perdôo.

Coplas

I

Helena — Não sou culpada, ó meu dindinho:

nunca fui mais pura que sou:

não me perdeu do bom caminho

este amor que cá dentro entrou.

Ai! tomo o céu por testemunha,

queira ou não queira acreditar:

quando eu ia fugir, supunha

dormisse a bom dormir, sonhasse a bom sonhar!

Se, por um sonho só, retira-me a amizade.

o que fará então pela realidade?...

II

Nos sonhos dão-se circunstâncias,

que se não podem revelar...

Eu já sonhei — que extravagâncias! —

eu já corei, mesmo a sonhar...

Fosse punido quem as sonha:

Helena, onde estarias tu?

Ou em Fernando de Noronha,

ou presa em Catumbi, ou morta no Caju.

Se, por um sonho só, retira-me a amizade,

o que fará pela realidade...

Nicolau (Depois de pequena pausa.) — Fiquei na mesma.

Cascais (A PANTALEÃO.) — Este seu compadre é muito tapado!

Pantaleão (Com acatamento, a CASCAIS.) — Não costumo desmentir os ministros

de Deus...

Cascais — Ó seu Nicolau, diga à menina que vá sentar-se àquela sala. Nós temos que

falar-lhe em particular...

Nicolau — A quem? a ela?

Cascais — Nada; a você. (A PANTALEÃO, enquanto NICOLAU acompanha

HELENA, que se retira para a direita.) — É preciso resolver o homem a abdicar da

idéia do convento.

Pantaleão — Faremos o possível.

Cascais (Á parte.) — Se terminar tudo na santa paz do Senhor, minha

responsabilidade ficará salva.

Cena VI

CASCAIS, PANTALEÃO e NICOLAU

Nicolau (Voltando.) — Sim, senhores: a rapariga tem me feito suar o tapete... quero

dizer, o topete!

Pantaleão — A culpa é sua!

Cascais — Pode dizer: Mea máxima culpa.

Nicolau — Então, por quê?

Cascais — Decerto! Quem é que se lembra de mandar uma rapariga para o convento

em pleno 1877!

Nicolau — Lembro-me eu! Oh! deixem-na estar, deixem-na estar, que o convento há

de ensiná-la! uma rapariga que sabe o código! Depois, eu cá tenho minhas tenções...

Pantaleão — Ah!

Nicolau — Passados cinco anos, tiro-a do convento. Há de vir de lá um modelo de

virtudes...

Cascais — Há de vir de lá fazendo muito boa goiabada...

Nicolau — Venha como vier: virtuosa ou quituteira, ou quituteira e virtuosa ao mesmo

tempo... (Observando a impressão deixada por suas palavras nas fisionomias de

PANTALEÃO e CASCAIS.)... caso-me com ela!

Pantaleão — Hein?

Cascais — Casar o padrinho com a afilhada!

Pantaleão — Ah! Ah! Ah!

Cascais (Benzendo-se.) — Abrenuntio!

Pantaleão — Ah! Ah! Ah! que lembrança!

Cascais — Pois você não vê que tem mais do dobro da idade de sua afilhada?

Nicolau — Mas daqui até lá, ela já tem vivido mais cinco anos.

Cascais — E você fica parado durante todo esse tempo?

Nicolau — É verdade...

Pantaleão — Vamos, vamos! Pense bem, compadre!

Cascais — Não contrarie o amor de Dona Helena!

Pantaleão — A liberdade, compadre, a liberdade!

Terceto

Pantaleão — Hoje, que o tempo é só de liberdade, da lei do elemento servil. tu vais

meter num claustro da cidade

Helena, a moça mais gentil!

Cascais — Poupe à menina essa desgraça!

Pantaleão — Tem dó de Dona Helena.

Cascais — Um convento é prisão onde não morre o coração

Nicolau — O que vocês querem que eu faça?

Pantaleão e Cascais — Hoje, que o tempo é só de liberdade, da lei do elemento

servil. tu vais meter num claustro da cidade

Helena, a moça mais gentil!

Nicolau — Eu vou meter num claustro da cidade

Helena, a moça mais gentil!

Cascais — Se p’rum convento a pobre entrar há de bem cedo se finar...

Pantaleão — E se acaso morrer a Dona Helena, o responsável será tu, pois és tu só

quem a condena!

Cascais — Sim, é você! pobre pequena!

Seu Nicolau, há de sentir fatal remorso, atroz pungir!

Pantaleão — Ouve lá, de um amigo velho, salutaríssimo conselho:

I

Juntos- Já os conventos não têm crédito,

não dão exemplo de moral;

Diz a Gazeta de Notícias

que de um dos tais (não sei de qual)

saltaram três freiras intrépidas

— caramba! — os muros do quintal!

II

Chame o Abel; não seja ríspido,

e deixa correr o marfim...

Com o casamento e sem escândalo,

há de ter tudo airoso fim.

Se tal fizer, cheios de júbilo,

hemos de dançar todos assim! (Dança.)

Nicolau,

para que hás de ser assim tão mau?!

Pantaleão e Cascais — Nicolau para que hás de ser assim tão mau?!

Nicolau — Não sou mau!

Nunca fui, não sou, nem serei mau!...

Cascais — É bom refletir bem!

Pantaleão — Convém pensar melhor!

Cascais — A reflexão é o que convém...

Pantaleão e Cascais —O casamento é dos males o menor... reflita bem, reflita bem!

Pantaleão — Ele hesita...

Cascais — Ele hesita...

Pantaleão e Cascais — Ó que padrinho austero!

(Examinam Nicolau, que reflete profundamente.)

Nicolau (Decidindo-se. — Não quero...

Pantaleão e Cascais — Se você manda a moça pro convento, arrepender-se-á! É

natural que ela perca moral cento por cento saltando o muro do quintal...

Nicolau — Se eu mando a rapariga pro convento, não hei de arrepender-me! É natural

que ela ganhe em moral cento por cento; não salte o muro do quintal...

(Dirigindo-se, ora a Cascais, ora a Pantaleão.)

— Dessas razões, padre, compadre,

a mim bem pouco se me dá!

Freira há de ser, compadre, padre!

Disse e direi, ora aqui está!

Há de ser freira! há de ser freira!

Pantaleão — Isto é que é: queira ou não queira!

Pantaleão e Cascais — Teimar assim desta maneira eu vejo, enfim, a vez primeira!

Juntos.

Pantaleão e Cascais — Se você manda, etc.

Se você manda, etc.

Nicolau — Se eu mando, etc.

Nicolau (A PANTALEÃO.) — Compadre, ponha o negócio em si: se sua filha

estivesse no lugar de Helena, você não a mandava para o convento?

Pantaleão - Minha filha! Deus me livre! Minha mulher, vá... Nicolau — Mas você

mesmo foi que me aconselhou...

Pantaleão — Refleti.

Cascais — Mas, enfim, em que ficamos?

Pantaleão — Sim.

Nicolau — Como?

Cascais — A menina vai?

Pantaleão — Vai, compadre?

Nicolau — Com padre não; vai com frade.

Cascais — É sua última palavra?

Nicolau — É minha última palavra!

Cascais (Avança solenemente para NICOLAU e desconserta-se.) —Diabo! Não me

lembra um trecho latino a propósito...

Cena VII

Os mesmos, ALFERES ANDRADE, GÓIS & COMPANHIA, PEDRINHO,

BENJAMIN, JUCA SÁ e povo

Pedrinho — Está aí o trem!

Benjamin — Lá vem! Lá vem!

Cascais —Já o trem?

Todos — Já! O trem! Ele aí vem!, etc.

Coro Geral

—Co’alvoroço o

trem de ferro

corre já

para cá!

(Ouve-se ao longe o silvo da locomotiva.)

Eu já ouço-o!

Ai! que berro!

Sem tardar

vai chegar.

Da cidade

vem um frade

receber

uma mulher!

Ei-lo já;

já parou;

aqui está;

já chegou!

(Durante os últimos versos, um trem de ferro vem, da esquerda, parar em frente à

estação. Entre alguns passageiros que saem e desaparecem, desce à cena Abel,

disfarçado em frade. Barbas longas e grisalhas, óculos e capuz. Cercam todos o frade.

Durante a cena seguinte, movimento de passageiros, etc.)

Cena VIII

Os mesmos e ABEL

Coro

— Ó reverendo, este povinho

só para vê-lo é que aqui está,

pois dantes nunca um barbudinho

por cá passou, passou por cá.

Tirolesa e coro

I

Abel — Eu, antes de mais nada, participo, caríssimos irmãos, que sou um tipo!

Ai! tenho muito horror ao cantochão...

Pesar de frade ser, sou muito folião!

— Sou}

Abel e Coro } muito folião, pesar de frade ser!

— É }

Abel — A cantar e a dançar tudo aqui quero ver!

Coro — A cantar e a dançar ele aqui quer nos ver!

Abel — Lá lá itu, lá lá lá lá!

Coro —Lá lá itu, lá lá lá lá!

(Dança geral e desenfreada.)

II

Abel — O meu sistema a todo mundo espanta; mas quem não gosta de pintar a

manta?

Quem assim fala hipócrita não é!

A mesmíssima coisa eu fiz em Taubaté!...

—Sou}

Abel e Coro } muito folião, pesar de frade ser!

— É }

Abel — A cantar e a dançar tudo aqui quero ver!

Coro — A cantar e a dançar ele aqui quer nos ver!

Abel — Lá lá itu, lá lá lá lá!

Coro — Lá lá itu, lá lá lá lá!

(Repetição da dança.)

Cascais (Baixinho a Abel, apertando-lhe a mão.) — Olha que esse modos não são

próprios de um frade!

Abel (No mesmo.) — Foram copiados do natural...(Alto.) Il signore Nicolau? Onde está

Il tutore de la fanciulla?

Nicolau (Que tem ido comprar bilhetes de passagem.) — Estou aqui, Reverendíssimo,

estou aqui! Tome Vossa Reverendíssima os cartões de passagem e esta carteira com

que muito mal desejo gratificar seus bons serviços.

Abel — Grazia. Aceito i biblietti, ma il denaro no. Noi altri, ministri de l’altare, siamo

tropo... tropo... Io parlo mal is portoghese... siamo tropo ... desinteressati.

Nicolau — Oui, monsieur, merci

Cascais (À parte.) — Aquilo será tudo, menos italiano.

Alferes Andrade (A PEDRINHO.) — Aquilo é que é língua! O italiano, oh! o italiano!

La dona é mobile qual piuma al vento!

Abel — Má onde está metida la sorella que devo conducire al claustro? (Apontando

para uma mulher do povo.) É questa dona?

Nicolau — Nada.

Abel — É questa?

Nicolau — Nada, nem questa também. Minha afilhada está ali; vou buscá-la. (Saída

falsa.)

(Ouve-se ao longe a locomotiva.)

Cascais — E não há tempo a perder, porque já se ouve o silvo do trem que os deve

levar.

Abel (Baixo a CASCAIS.) — Então? que tal estou?

Cascais (A ABEL.) — Muito bom, homem; você está muito bom! Mas o italiano está

melhor.

Abel (A CASCAIS.) — Que italiano? (Procurando em volta de si.) Ah! Sim! o italiano

que eu falo! (Outro tom.) Ainda nos havemos de ver.

Cascais — Assim o espero.

Nicolau (Voltando.) — Vem, minha filha, vem.

Abel (Contemplando Helena, que ainda não aparece ao público.) — Ah! ecco la

sorella! Oh! cielo, si giovani, cosi linda, giá desterrata em um claustro! Povera fanciulla!

Má, enfim, andiamo! andiamo presto. (Aparece Helena.)

Cascais (Á parte.) — Finis coronnat opus!

Cena IX

Os mesmos e HELENA

Final

Coro

— Ela aí vem! É ela!

Ela vem para cá.

Meu Deus, como é bela!

Mas tão triste está!

(Durante este coro, chega outro trem, em sentido contrário ao primeiro. Movimento de

passageiros, etc.)

Helena — Ouvi, suponho, voz amiga, que nunca mais me sai de cá. (Do coração.)

Nicolau — Para o convento é seguir já, com este frade, ó rapariga!

Bem caro vai pagar-me o mal que me causou.

Alguns — O mal que lhe causou!

Helena — Ir pro convento! Não! Jamais! Eu lá não vou!...

(Gesto de impaciência de Cascais.)

Abel — Io lá parlaré!

Pedrinho — Que lhe dirá o frade?

Alguns — Sim, sim! que lhe dirá?

Abel — Il cielo inspirerá!

(Baixinho a Helena.)

Pois não viste que este frade era o repelido Abel?...

Helena (À parte, comovida.) - Abel?...

Abel — Vem comigo pra cidade; segue o noivo fiel.

Helena (Com escrúpulo.) — Abandonar o meu dindinho!

Nicolau — Há de partir, que o quero eu!

Pantaleão e Cascais — São só três horas de caminho...

Helena (Á parte.) — Vou por meu gosto e pelo seu!

Todos — Vá já, Dona Helena; nos dá muita pena; mas vá!

Vá já!

Nicolau — Então? Vá pro convento!

Assim quero eu!

Alguns — Ó que grande judeu!

Pedrinho — Deus a leve a salvamento!

Cascais (À parte.) — Muito me hei eu rir...

Alguns — O frade é já seguir!

Pantaleão — Vão, embarquem num momento:

Vai partir o trem!

Abel e Helena — É já partir pro convento!

Obedecer convém!

Coro

— Vá para convento,

já neste momento!

Vá para o convento!

Vá com vento em popa! Já!

Vá! vá! vá! vá! vá!

(Durante o coro, ABEL sobre para o trem com HELENA, e aparece com ela a uma

portinhola.)

Recitativo

Abel — Ó Nicolau, triste papel fizeste em cena: cá levo Helena...

Eu sou Abel!

(Tira o capuz, as barbas e os óculos. Assombro geral.)

Uns — Segue Helena, o professor; segue, segue o teu amor.

Outros (A NICOLAU.) — Que maldito professor!

Vingá-lo-emos, senhor!

(Uns riem e outros estão indignados. O Alferes puxa pela espada e corre atrás do trem.

Nicolau cai fulminado por um ataque de apoplexia. Confusão.)

[(Cai o pano)]

FIM

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