Facebook do Portal São Francisco Twitter do Portal de Educação Curtir
Home  Mal Por Mal (Artur Azevedo)  Voltar

MAL POR MAL...

artur azevedo

Há bons maridos que se tornam maus porque as mulheres não são boas.

O Sebastião está ou esteve nesse caso: tão apoquentado se viu pela cara-metade, que um belo dia resolveu procurar na rua os carinhos que não encontrava no lar doméstico.

Não foi preciso procurar muito. O acaso fê-lo encontrar na Avenida Central, diante de um cinematógrafo-anúncio, uma bela morena que lhe deu volta ao miolo e lhe tirou noites de sono.

Se D. Flaviana, a mulher d0 Sebastião, fosse meiga e condescendente, e não tivesse tão mau gênio, está visto que ele não se deixaria prender nos braços de outra; mas deixou-se prender - e preso ficou ao ponto de arranjar uma casinha lá para os lados da Cidade Nova, onde esconderam - a morena e ele - o seu delicioso pecado.

E tão bem escondidínho estava que ninguém sabia de nada, exceção feita de Sepúlveda, o melhor amigo de Sebastião.

E o Sepúlveda não podia ser mais obsequioso. Como percebeu que a felicidade do amigo estava naquele derivativo, ele próprio se encarregou de alugar a casinha e mobiliá-la. A sua obsequiosidade foi ao ponto de arranjar para a porta da rua uma fechadura que se abria com a mesma chave da fechadura conjugal. De modo que o Sebastião não tinha necessidade de andar com duas chaves, o que seria perigoso.

D. Flaviana, se fosse mais observadora, teria notado que de certo tempo em diante o Sebastião começou a sofrer resignado todas as suas impertinências. O pobre diabo dizia consigo: - "Lá tenho a Mirandolina para consolar-me." - Mirandolina era o nome da morena.

Entretanto, o Sebastião não ficava nenhuma noite fora de casa. Passava algumas horas com a Mirandolina, mas á hora conveniente lá ia para casa.

Uma noite destas encontrou D. Flaviana acordada e disposta a brigar. Ela andava já com suas desconfianças de que o marido tinha contrabando lá fora, e entendeu que naquela noite deveria pôr tudo em pratos limpos. Recebeu o pobre homem com duas pedras na mão.

- Onde esteve o senhor até estas horas?

- Não tenho que lhe dar satisfações!

Quero saber onde o senhor esteve! Olhe que eu perco a cabeça!

- Pois perca, mas antes disso deixe-me ir embora!

- Que a leve a breca! - disse consigo.

Mas era tarde, muito tarde, e o Sebastião precisava dormir. Lembrou-se de ir para um hotel, mas refletiu:

- Para que, se tenho Mirandolina? Ela não conta comigo! Vai ter um alegrão com a minha volta!.

E lá foi para a casa da Mirandolina.

Meteu a chave no trinco, abriu a porta sem rumor, e entrou devagarinho no quarto dela, que ressonava.

Aproximou-se e viu, surpreso, que um homem dormia ao lado de Mirandolina. Deu toda a força ao bico do gás, e reconheceu que esse homem era o Sepúlveda, o seu melhor amigo.

Este levantou-se extremunhado.

- Fica onde estás! A casa é tua deste momento em diante! disse-lhe o Sebastião.

E o mísero saiu, e voltou para o lado da mulher legítima, que encontrou chorosa e quase submissa.

- No final das contas, pensou ele, mal por mal, antes a obrigação que a devoção.

Fonte: www.biblio.com.br Voltar

Sobre o Portal | Politica de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal