Espectadores, criados de botequim, cocotes, etc.
Sala bem mobiliada em casa de Alberto. Uma porta à direita, outra á esquerda e outra ao fundo.
MILU, sentada a ler um livro e ALBERTO, que entra calçando as luvas
MILU - Vais sair?
ALBERTO - Vou.
MILU - São quase horas de jantar.
ALBERTO - Não janto em casa.
MILU (Deixando o livro.) - Não jantas em casa?
ALBERTO - Não. Pois tu mesma não recebeste um chamado urgente pelo telefone? Vou ver um doente no Pedregulho.
MILU - Maldita profissão. Não há meio de ficares duas horas em casa!
ALBERTO - Que queres, Milu? Se assim não fosse, estávamos bem aviados!
MULU - Se eu soubesse que havia de passar uma vida assim, não casava com um médico.
ALBERTO - Você bem sabia... por que quis?
MILU - Ora! eu vejo outras que são também casadas com médicos, e têm sempre os maridos ao pé de si, e não têm telefone em casa...
ALBERTO - Infelizmente para eles isso quer dizer que não têm clinica. A vida patriarcal não se coaduna com a profissão de médico.
MILU - O que é sei eu.
ALBERTO - Que é?
MILU - Eu sei.
ALBERTO - Explica-te.
MILU - Ora, você bem sabe... O que eu desejo é que não suponha que eu sou tola.
ALBERTO - Não te entendo.
MILU - É; a Medicina é a capa. O telefone serve para arredar suspeitas. (Erguendo-se.) Maldita hora em que a gente saiu da Bahia. Lá ao menos não há umas mulheres tão assanhadas como aqui na Corte.
ALBERTO - Bom, agora ciúmes! Iaiazinha, vê que já estamos casados há dois anos, e que isto é ridículo.
MILU - Eu bem sinto que já não sou para o senhor a mesma que dantes era. O senhor, na Bahia, também clinicava, e nunca passou noites fora de casa, e jantava sempre com sua mulher. É verdade que lá não tínhamos telefone.
ALBERTO - Censuras-me por ter metido em casa esse melhoramento? Ora, valha-te Deus!
Coplas
ALBERTO -
Dantes pro médico ter clínica
E aos seus doentes fazer fé,
Devia ter tílburi próprio,
Nunca jamais andar a pé!
Hoje, porém, se quer o médico
Na bolsa alguns vinténs meter,
Além do mencionado tílburi,
Um telefone deve ter,
Sim, meu amor, além do tílburi,
Um telefone deve ter.
MILU - Pois sim, mas foi preciso que a gente viesse para esta terra para o senhor mudar de vida, que nem parece o mesmo.
ALBERTO - Milu, eu afirmo-te...
MILU (Chorando.) - Vá para o diabo! Qualquer dia meto-me num vapor e vou para a casa de meus pais.
ALBERTO - Vem cá... Valha-me Deus!
MILU (Repelindo-o.) - Lá ao menos há quem me estime.
ALBERTO - Não digas tolices... ouve...
MILU - O que mais me dói é o senhor querer fazer-me de tola. Eu não nasci ontem, nem sou nenhuma inocente. Podia dizer logo: "Milu, eu gosto de Fulana e não gosto de você."
ALBERTO - Para que lhe havia de dar!
MILU - Ainda ontem achei no seu bolso um ramo de violetas.
ALBERTO - Comprei na Rua do Ouvidor.
MILU - Saia daí!
ALBERTO - No ponto dos bondes de Vila Isabel. Pergunta ao Viana da Charutaria. Ele viu.
MILU (Chorando.) - Sou muito infeliz!
ALBERTO - Sabes que mais? Não estou para te aturar!
MILU - Isso sei eu muito bem. Pois dê cá trezentos mil réis, e no dia dez embarco no Espírito Santo. Morta por isso estou eu.
ALBERTO - A senhora deve estar onde estiver seu marido! MILU - Isso é se eu tivesse marido. O senhor é meu hóspede e nada mais. Passam-se horas e horas e eu aqui sozinha.
Voz DE GOUVEIA - Pode-se entrar?
ALBERTO - Olha, aí tens o Gouveia para te fazer companhia. (Gritando.) Entra, Gouveia. (A Milu.) Já não te podes queixar.
MILU - Antes só do que mal acompanhada.
CENA II
MILU, GOUVEIA e ALBERTO
GOUVEIA - (Apertando a mão de Alberto.) - Vais sair?
ALBERTO - Vou, mas fica. Faze companhia a minha mulher, que está muito nervosa. Janta com ela.
GOUVEIA (Aproxima-se de Milu, apertando-lhe a mão.) - Então, que tem, Dona Milu?
MILU - Nada.
GOUVEIA - Há de ser do tempo.
ALBERTO (Descendo.) - Ia-me esquecendo... tem paciência, Milu; vai ao gabinete buscar o meu estojo. (Saída falsa de Milu, para a direita baixa.)
GOUVEIA - Quando percebi que era Dona Milu que estava no aparelho, disfarcei o mais que pude a voz. Gostaste? Mandei-te para o Pedregulho. Não podia ser mais longe.
ALBERTO - és um grande homem.
GOUVEIA - Vais jantar com a Jeannette?
ALBERTO - Vou. Desde ontem que não a vejo.
GOUVEIA - Decididamente: vocês estão caídos um pelo outro.
ALBERTO - Eu estou, ela não sei. Que queres? Pago o meu tributo. Casei tão moço...
GOUVEIA - E a Jeannette é tão bonita!...
ALBERTO - O diabo é que minha mulher anda com a pedra no sapato.
GOUVEIA - Sim?
ALBERTO - Já desconfia do próprio telefone. Oh! esperta é ela...
GOUVEIA - Olha lá, hein? Seria melhor que te deixasses disso... Dona Milu é provinciana... tem um arzinho de santa, mas é muito sagaz... Eu sou mais velho que tu e posso dar-te conselhos.
ALBERTO - Guarda-os para quem tos pedir. (Gritando.) Então? O estojo? (A Gouveia.) Eu peço-lhe sempre o estojo para disfarçar... É um trambolho que levo na mão. (Vendo entrar Milu e disfarçando.) Mas dizias tu...
GOUVEIA - Que há três dias não saio da Secretaria da Agricultura. O Ministro me considera muito, mas não há meio de lhe apanhar um engenho-central para o Comendador Salgado.
ALBERTO - Deveras? (Toma o estojo das mãos de Milu.)
GOUVEIA - Já desisti. Era negócio para meter cinco ou seis contos no bolso sem trabalhar.
ALBERTO - Não há como ser advogado.
GOUVEIA - Administrativo, meu amigo, administrativo. Não confundas.
ALBERTO - Até logo. Ó Gouveia, vê se aplacas os nervos de minha mulher. (Quer dar um beijo em Milu, ela volta-lhe o rosto.) Tolinha... Adieu! (Sai ao fundo. Gouveia acompanha-o até a porta.)
GOUVEIA e MILU
GOUVEIA - Então? sempre com ciúmes de seu marido?
MILU - Olhe, seu doutor, eu lhe previno que se vem repetir as bobagens do outro dia, fecho-me no meu quarto e não lhe apareço mais.
GOUVEIA - Por que há de ser assim tão ingrata, Dona Milu? Eu amo-a como ninguém a amou nesta vida; consagrei-lhe todos os meus cuidados, todos os meus pensamentos... e a senhora faz-me sofrer tormentos que o Dante não imaginou para o seu inferno! Sacrifiquei-lhe tudo, tudo! até o meu próprio futuro político. O Ministro do Império, que me considera muito, ainda há dias me ofereceu a presidência do Sergipe... Recusei, recusei porque não queria interpor tantas léguas entre os seus lábios e os meus!
MILU - Que atrevimento! (Quer sair para a direita.)
GOUVEIA (Embargando-lhe a passagem.) - Atrevimento, sim, porque o meu amor é atrevido. Já não estou na idade em que as paixões são balbuciantes e tímidas. Por isso, expando-me com o risco de ofendê-la e magoá-la. Oh! mas creia que não é esse o meu desígnio! Adoro-a, e sentiria muito causar-lhe o menor desgosto.
Romance
O amor em meu peito mora
E o faz com força bater.
E tão casto como a aurora
Por trás do monte a nascer,
Senhora!
Senhora!
Não vê que me faz sofrer?
Piedade um triste implora
E não lhe ofende o pudor:
Um anjo do céu não cora
De ouvir qualquer pecador.
Senhora!
Senhora!
Não vê que morro de amor?
(Declamando.) Então não me responde?
MILU - Respondo que não sei o que mais admire: se o seu atrevimento, se o cinismo com que o senhor engana o Alberto, que tão seu amigo se mostra, e sai de casa deixando-nos sozinhos e até lhe recomendando que me aplaque os nervos.
GOUVEIA - Ora, o Alberto! Mas a senhora não vê que o abomino, que o odeio... e que se finjo ser amigo dele é para estar ao lado da senhora... falar-lhe... expor-lhe os meus tormentos, e pedir a misericórdia do seu amor.
MILU - O senhor tem palavreado... mas para cá vem de carrinho. Hei de ser sempre a esposa honesta que até hoje tenho sido... E sinto-me tão forte nesta minha elevada resolução, que se não chamo o feitor para pô-lo no meio da rua, é porque tenho toda a confiança em mim. O senhor está muito enganado se me supõe como essas moças da Corte, que vão atrás de cantigas de bacharéis. Boas!
GOUVEIA - Oh! não imagine um momento que eu a confunda com outra mulher! Nem a própria Vênus Capitolina... nem a Gioconda de da Vinci seriam capazes de substitui-la no meu pensamento. Quer saber duma coisa? Ainda a semana passada estive em casa do Ministro da Guerra, que me considera muito, e lá encontrei uma das senhoras mais lindas, mais espirituosas e mais provocantes do Rio de Janeiro. Ela o que fez, Santo Deus, ela o que fez para que eu queimasse iucenso e mirra nos seus altares. Resisti, porque a sua imagem, Dona Milu, de tal forma me enche o espírito, que não há meio de ocupá-lo com outra mulher!
MILU - Pois olhe, faz mal; se realmente precisa de distrações desse gênero, convença-se de que errou a porta. Acho bom que o senhor aproveite a boa fortuna que encontrou em casa do Ministro da Guerra, mas ainda melhor me parece que aceite a presidência de Sergipe. Dizem que em Sergipe há moças muito bonitas.
GOUVEIA - Não zombe assim do meu afeto. Não me obrigue a recorrer a meios extremos para alcançar a sua piedade!
MILU - De que meios extremos quer falar?
GOUVEIA - Cá sei.
MILU - Diga! Não gosto de reticências!
GOUVEIA - Não... Para que afligi-la?
MILU - Pois é coisa que me possa afligir?
GOUVEIA - Naturalmente. Trata-se de pessoa que lhe toca muito de perto.
MILU - De meu marido? Sabe alguma coisa a seu respeito?
GOUVEIA - Não... não... senhora... esqueça-se das minhas palavras.
MILU - Oh! Conte-me tudo, pelo amor de Deus! Há muito tempo que desconfio... e quero ter certeza...
GOUVEIA - É melhor que não a tenha.
MILU - Mas não vê que isso vai ser o meu desespero? Diga-me tudo.
GOUVEIA - Não lhe digo nada.
MILU - Nesse caso sabê-lo-ei dos próprios lábios de meu marido. E então conto-lhe tudo. Digo-lhe que foi o senhor quem me deu o alamiré para seduzir-me.
GOUVEIA - Não faça isto!
MILU - Se o senhor teima em estar calado, convenço-me de que pretendeu caluniá-lo!
GOUVEIA - Caluniá-lo?!... Eu?!... Oh!... A senhora não me conhece!
MILU - Para certos homens, todos os meios são bons para conseguirem os seus fins.
GOUVEIA - Pois a senhora acredita que, se seu mando fosse um modelo de fidelidade conjugal, eu ousaria declarar-me, como tenho feito?
MILU - Diga-me tudo. Olhe que se arrepende.
GOUVEIA - Pois bem, já que a todo transe o quer saber, saiba-o: - Ele tem uma amante!
MILU - Uma amante!...
GOUVEIA - Uma amante, sim senhora. Uma mulher por quem a despreza, por quem a substitui infamemente! (Milu fica estática. Gouveia toma-lhe a mão, e continua com fogo.) Enquanto a senhora sozinha, aborrecida, metida entre estas quatro paredes, pensa em seu esposo e aguarda ansiosamente o momento em que ele volte da rua, para recebê-lo com singelos e honestos carinhos; ele delicia-se lá fora nos braços de uma cortesã, e traz para o lar doméstico o rosto sulcado por beijos vendidos. Essa ingratidão fez com que o meu amor recrudescesse. Não é só amor; é também piedade. Ofereço-lhe um coração virgem de afetos... um coração onde a senhora entrou sem desalojar ninguém... um coração que de noite e de dia palpita por ti... (Transportado.) Oh! não imaginas como te amo e como sofro por te amar assim. Dize-me, dize-me que poderei alimentar uma vaga esperança de que os teus rigores cessarão um dia. (Pausa.) Então, Milu? Não me respondes? Dize-me; posso esperar?
MILU (Retirando a mão e afastando-se.) - Me deixe.
GOUVEIA (À parte.) - É minha.
GOUVEIA, MILU, JOSÉ, depois BERMUDES
JOSÉ (Entrando a correr.) - Iaiazinha! Iaiazinha! Uma grande notícia: Sinhô Bermudes, o tio de ioiô, vem aí.
MILU - Que dizes?!
JOSÉ - Vem de carro. Quando dei com ele, já vinha atravessando o jardim!
MILU - Que felicidade!
A voz DE BERMUDES - Ó de casa! Ó de casa!
MILU (Correndo para a porta.) - Entre! Entre!
BERMUDES (Entrando.) - Ora Deus Nosso Sinhô esteje nesta casa. Venha de lá um abraço, laiá! (Abraça-a.)
Tango
Chega agora da Bahia, Com três dia,
Com três dia de viage...
Pra um homem andá nas ondas
hediondas,
É preciso ter corage!
Não gostei d'água sargada,
Só me agrada,
Só me agrada água do pote.
Tava o barco tão danado, que, enjoado,
Não saí do camarote.
Mas, finalmente,
Graças a Deus,
Aqui estou co minha gente,
Aqui estou co filhos meus.
(Declamando.) Então vocês não quiseram ir me buscá a bordo?
MILU - Não sabíamos que vossemecê viesse.
BERMUDES - Como não sabia? Então o telegrama?
MILU - Que telegrama? Não recebemos telegrama algum!
BERMUDES - Antes de embarcar, passei um telegrama para o meu sobrinho.
MILU - Até agora não o recebemos.
BERMUDES - Home! Pois vinha a casa e o nome, tudo direitinho.
MILU - Provavelmente se desencaminhou. O serviço é tão mal feito.
BERMUDES - Eu, quando digo que isto de porguesso é tudo uma farofada! Faça favô de me dizê pra que serve o telégrafo?
MILU - Mas, dê-me... dê-me noticias do papai, da mamãe e do Tonico.
BERMUDES - Tá tudo bom, iaiá! O compadre teve umas febrinha, mas não foi coisa de cuidado. Foi para cinco dias na Itaparica e se arrestabeleceu. A comadre, essa não há mal que lhe chegue, e meu afilhado está empregado em negócio de estrada de ferro. Tá mesmo um doutorão o diabo do engenheiro, e muito bonito moço, benza-lhe Deus. Anda namorando uma moça da Rua Quinze Mistério, e aquilo tá ali, tá de casamento tratado. (Dando com José.) Olha isto! O diabo deste moleque como está um homem.
JOSÉ - Bênção!
BERMUDES - Deus te faça branco. Anda, vai lá na carruage buscá minha mala e o resto. (José sai ao fundo. A Milu.) Teu pai te mandou três quartinha... uma se quebrou na viage... Tua mãe te mandou um cesto de manga e um frasco de doce de araçá feito pela Maximiniana. O Tonico te mandou muita arrecomendações.
MILU - Maximiniana está boa?
BERMUDES - Tá boa. Inda a semana passada, teve um moleque.
GOUVEIA - Dona Milu, tenha a bondade de me apresentar a seu tio.
MILU - Ah! desculpe. (Apresentando-o.) O Senhor Doutor Gouveia.
GOUVEIA (Apertando-lhe a mão.) - Já o conhecia de nome. É muito estimado nesta casa.
BERMUDES - Vossoria é doutô em Medicina ou em Leses.
GOUVEIA - Sou advogado.
BERMUDES - E é amigo de meu sobrinho?
MILU - Oh! muito! muito amigo de meu marido.
GOUVEIA - Para o servir, meu caro senhor.
BERMUDES - Encontra-se a necessidade co desejo, porque eu vim na Corte tratá daquela questáozinha das terra. (A Milu.) Te alembras? O Coroné Casimiro tomou conta do que é meu, e não há forças humana que ponha aquele desavergonhado de lá para fora. O persidente da Provinça caçoou comigo até agora, hoje amanhã, hoje amanhã, não houve meio de fazê com que o home despache meus papé.
GOUVEIA - Oh! descanse; há juizes em Berlim.
BERMUDES - Que me importa os de Berlim! Eu quero é que haja disso no Rio de Janeiro. O compadre, que é home sisudo me aconselhou que viesse me entendê diretamente co Ministro, e eu vim.
GOUVEIA - Creia que não pôde confiar a sua causa em melhores mãos que as minhas, porque o Ministro me considera muito.
BERMUDES - Ora muito que bem, porque toda a minha desgraça foi ter ido atrás de um rábule muito ordinário, um tal Secundino Barbosa.
GOUVEIA - O senhor trouxe os seus documentos?
BERMUDES - Tá tudo aqui. (Tira uma papelada do bolso.) Trago sempre os documento no bolso, porque o seguro morreu de véio.
GOUVEIA (Tomando os papéis.) - Dá licença?
BERMUDES - Tem toda, seu doutô. (Gouveia senta-se à mesa e dispõe-se a examinar os papéis.)
MILU - Seu doutor, entre para o gabinete do Alberto, e lá examinará esses papéis à vontade. Preciso conversar com meu tio.
GOUVEIA - Pois não, minha senhora. Com licença. (Sai pela porta da esquerda.)
BERMUDES e MILU
BERMUDES - É um home bem apessoado. É mesmo um advogado, não?
MILU - Parece... Eu pouco entendo destas coisas.
BERMUDES - Ele disse que é amigo do Ministro... É mesmo?...
MILU - Sei lá... O mesmo diz de toda a gente que tenha certa posição. Está sempre se gabando das amizades e da importância que tem... e dos empregos que lhe oferecem e não aceita. Só sei que quis ser deputado e teve dez votos. Já ouvi dizer que escreve nas folhas, defendendo o Governo, mas já ouvi também dizer que isso não é exato... que ele é que se gaba que os artigos são seus...
BERMUDES - Nesse caso é um home todo cheio de imposturias?
MILU - Não... não sei com certeza, é o que se diz... No Rio de Janeiro mente-se tanto. E quando assim fosse? Julga vossemecê que nesta terra a mentira seja um vício, e a hipocrisia uma infâmia? Demore-se quinze dias na Corte e verá que não estamos em Camamu.
BERMUDES - Terra grande, iaiá, terra grande... isso é que eles diz que é porguesso. Mas, meu sobrinho? Por onde anda? Se demora muito?
MILU - É dele justamente que lhe quero falar.
BERMUDES - Apois.
MILU - Vossemecê não podia chegar mais a propósito.
BERMUDES - Por que, iaiá? Temos novidades no beco? (Milu quer falar, mas é acometida pelo pranto, e atira-se nos braços de Bermudes, chorando dolorosamente.) Que é isto, iaiá? Que tem você? Por que está chorando?
MILU - Eu sou a mais infeliz das mulheres!
BERMUDES - Uê!
MILU - Alberto é um mau marido.
BERMUDES - Mau marido? Meu sobrinho?
MILU - Há dois anos apenas estamos casados, e já me despreza e abandona por causa de outra mulher...
BERMUDES - Por causa de outra muié! Não é possive! Tire por fora, iaiá. Meu sobrinho é um home de bem. Quem foi que lhe meteu isso na cabeça?
MILU - Não queira saber por que meio vim ao conhecimento desta verdade terrível. O que é certo é que meu marido tem uma amante.
BERMUDES (Tapando vivamente a boca de Milu.) - Bico, iaiá! não diga nomes feio. Ó meu Nosso Sinhô do Bonfim, é preciso vir ao Rio de Janeiro para ouvir certos nomes na boca das moça. - Não acredito nessa demoralízage. Meu sobrinho era incapaz de se meter com outra muié... (Milu continua a chorar. Fazendo-lhe festas.) Coitadinha da iaiá!... Não chore. Deixe que, se isso for verdade, eu e seu marido ajustemo nossas continha... Mas não chore, não chore, iaiá. Mesmo antes de jantá, eu mostro a ele de quantos paus se faz uma jangada.
MILU' - Alberto não vem jantar em casa.
BERMUDES - Pois ele deixa de jantá com iaiá?
MILU - Não só deixa de jantar comigo, como me faz ficar na companhia desse Doutor Gouveia, que daqui saiu, recomendando-lhe que me aplaque os nervos.
BERMUDES - Nervo de boi merecia ele no lombo. Minha Nossa Sinhora! Numa ocasião que devia ser de tanta alegria, venho te encontrá chorando. Ora, meu sobrinho! Deixe está, iaiá. O negócio fica por minha conta, mas há de me prometê que não chora mais.
MILU - Pois bem, restitua-me Alberto tal qual era há um ano, e só me verá sorrir.
BERMUDES - Deixa a coisa comigo.
BERMUDES, MILU e JOSÉ
JOSÉ (Entrando.) - Iaiazinha, eu pus as malas do Senhor Bermudes no quarto dos hóspedes.
MILU - Fizeste bem.
JOSÉ - Firmina está pedindo a chave da despensa.
MILU - Eu vou lá. Vou dar algumas ordens para o jantar. Quando quiser, vá entrando... o seu quarto está preparado. (Sai pela direita baixa.)
JOSÉ (Consigo.) - Coitadinha! como chorou!
BERMUDES e JOSÉ
JOSÉ (A Bermudes, que ficou pensativo.) - Sinhô Bermudes está cada vez mais moço!
BERMUDES - Cala a boca, moleque! Tu continuas a ser pernóstico... e então, agora na Corte, faço idéia!
JOSÉ - Ih! Sinhô Bermudes não imagina. Eu me matriculei cidadão fluminense. Já conheço esta cidade na palma das mãos! Quando vossemecê quiser passear, me leve, e eu lhe mostro como estou um carioca da gema! Até já tenho partido...
BERMUDES - Partido! Pois aqui moleque também se mete em política?
JOSÉ - Não é partido político, não sinhô. Como político, eu sou republicano. É partido de capoeirage. Eu sou guaiamu.
BERMUDES - Tu é o quê, moleque do diabo?
JOSÉ - Guaiamu, legítimo guaiamu, de princípios. Esse partido é a facção mais adiantada da flor da gente. Quando houver rolo, hei de convidar o Sinhô Bermudes.
BERMUDES - Apois.
JOSÉ. - Verá como eu sei entrar bonito. (Fazendo uns passes de capoeira.)
BERMUDES - Pra lá, moleque!
Coplas
JOSÉ -
A fama já me apregoa,
Eu sei armar um chinfrim,
Não há na Corte pessoa
Que não se esconda de mim.
Sou formado em capoeira,
pois talento tenho até,
no pé!
Pra passar uma rasteira,
O Brasil como eu não tem
ninguém!
Olá!
Nesta terra não há,
Olé!
Pé melhor que o meu pé,
Oh!
Quem me disse não viu,
Olô!
Sou feliz porque sou,
Olu!
Porque sou guaiamu!
Quis a polícia levar-me
Um dia para o xadrez,
E para catrafilar-me
Os pândegos eram três.
Com três belas cabeçadas,
Pus a todos três no chão,
Pois não!
E soltando gargalhadas,
Esquipático fugi
Dali!
Olá, etc.
(Declamando.) Sinhô Bermude, pode-se informar. Não há aí quem não conheça o Zeca Baiano! Agora, não imagine que eu sou um mau moleque. Não, sinhô! Olhe, por iaiazinha, aqui está quem é capaz de se atirar ao fogo.
BERMUDES - E por meu sobrinho?
JOSÉ - Ioiô é homem... não precisa tanto de minha amizade - Quem dera que ele estimasse tanto iaiazinha como eu.
BERMUDES - Moleque, tu está pondo defeito em teu sinhô?
JOSÉ - Ora! Então o Senhor Bermudes pensa... que eu não ouvi tudo?
BERMUDES - Tudo o quê?
JOSÉ - As queixas e as lágrimas de iaiazinha. Para que serve a porta do quarto, senão para a gente ouvir o que se diz na sala?
BERMUDES - Então, seu diabo... você sabe quem é essa desavergonhada que meu sobrinho tem fora de casa...
JOSÉ - Eu, Sinhô Bermude? Eu não me meto com a vida de ioiô. Posso ver as coisas, mas é como se não visse nada. Bem sei que ela é francesa e que se chama Jeannette, bem sei, mas desta boca nunca saiu nada a esse respeito. Não sinhô; ninguém pode dizer que Zeca Baiano seja linguarudo.
BERMUDES (Depois de pensar.) - Pois olha; amenhá hás de me levá na casa dessa francesa. Tenho o meu plano!
JOSÉ - O melhor é arranjar isso com a lavadeira dela -, uma ilhoa minha conhecida, que mora num cortiço na Cidade Nova. É melhor que vossemecê se entenda com essa mulher.
BERMUDES - Tá bom, vou pensá; esta noite hei de arresorvê tudo e amenhá de menhá te falo.
JOSÉ - Mas, Sinhô Bermudes não diz nada a ioiô que fui eu quem disse.
BERMUDES - Não digo, não. Fica descansado.
JOSÉ - Aí vem iaiazinha.
CENA VIII
BERMUDES, JOSÉ e MILU
MILU (Entrando.) - Vamos jantar.
BERMUDES - Vamos, iaiá... eu confesso que estou morrendo de fome. A bordo não comi nada.
MILU - José, vai ao gabinete e diz ao Senhor Doutor Gouveia que venha jantar. Vamos indo.
BERMUDES - Iaiá não espera o homem?
MILU - Ele conhece a casa e infelizmente não é de cerimônia.
BERMUDES - Apois. (Saí com Milu pela direita baixa.)
JOSÉ, depois GOUVEIA
JOSÉ (Só.) - Eu disse tudo porque parece que é em benefício de iaiazinha. Se este tabaréu acabar com as bilontrages de ioiô, merece uma comenda. (Chamando à porta.) Jantar!
GOUVEIA (Entrando com uma carta na mão.) - Em vez de examinar os papéis do velho, escrevi uma carta a Milu. Hei de arranjar meios de fazer com que lhe chegue às mãos.
JOSÉ - Iaiazinha e Sinhô Bermude já estão na mesa.
GOUVEIA (Consigo.) - Homem, este moleque... (Alto.) Vem cá... queres ganhar uns cobres?
JOSÉ - Isso não se pergunta.
GOUVEIA - Entrega esta carta a Dona Milu. (José tem um movimento de indignação, mas contém-se.) Não é o que supões... o assunto desta carta é muito sério.
JOSÉ (Sorrindo.) - Posso então entregar na presença de ioiô?
GOUVEIA (Vivamente.) - Não!
JOSÉ (Sorrindo e tomando a carta.) - Seu doutô, para me enganá era preciso que nascesse de novo e se formasse outra vez.
GOUVEIA - Vamos, deixa-te de luxos... Toma. (Quer dar-lhe dinheiro.)
JOSÉ - Guarde o seu dinheiro. Nada de pagamento adiantado. Pode ser que não faça a coisa a seu gosto.
GOUVEIA - É provável que ela responda. Na ocasião em que me trouxeres a resposta, podes contar com dez mil réis. (Saindo.) Todo o cuidado, hein?... todo o cuidado! (Sai.)
JOSÉ (Só.) - Que patife! que grande patife! Deixa estar, que te ensino!... Iaiazinha, coitada!... tão pura!... tão séria!... tão virtuosa, que nem parece uma senhora casada. (Abrindo a carta com um movimento impetuoso e febril.) Bendita a hora em que ela se lembrou de me ensinar a ler.
A voz DE MILU - José!
JOSÉ (Sem prestar atenção e lendo a carta.) - "Meu doce amor"... Tratante! "Convence-te de que te mereço muito mais do que esse Alberto que não sabe apreciar-te devidamente."
A voz DE MILU - José, vem servir a mesa, José!
JOSÉ - Já vai, Iaiazinha. (Continuando a ler.) "Se corresponderes a este afeto sublime"... (Guardando a carta.) Bom, por ora, não preciso saber o resto. Deixa estar, que hás de receber uma boa lição das mãos dum negro.
JOSÉ e BERMUDES
BERMUDES (Entrando com um guardanapo na mão. Música até o final.) - Então, moleque, não ouves? Que estás fazendo metido na sala de visitas? (Toque de campainha elétrica na porta.)
JOSÉ - Tem gente aí. (Saída falsa pelo fundo.)
BERMUDES - A hora é má. Quando a janta tá na mesa, não se arrecebe visita.
JOSÉ (Voltando com um telegrama na mão.) - É o telegrama. (Dá-lhe.)
BERMUDES - O meu telegrama! Eu cheguei primeiro! Quando digo que isto de porguesso é uma farofa... (Sai, acompanhado por José. Forte na orquestra.)
(Cai o pano.)
Sala luxuosa em casa de Jeannette. A esquerda, duas janelas de sacada, à direita duas portas e outra ao fundo. Divã e mesa ao centro.
JEANNETTE e ALBERTO
JEANNETTE (De penteador, repoltreada no divã. Alberto está ajoelhado aos seus pés.) - Va t'en, mon petit chéri, tu est ici depuis trois heures. Ta femme doit être inquiête.
ALBERTO - Je t'ennuie?
JEANNETTE - Oh! non! tu ne m'ennuies jamais... mais enfin... tu dois penser à tout... et á ta femme.
ALBERTO - Toujours ma femme!...
JEANNETTE - Du reste, j'ai une migraine affreuse.
ALBERTO - Milu n'est pas toute seule.
JEANNETTE - Qu'est ce que c'est ça, Milu?
ALBERTO - Milu... ma femme. Nous avons maíntenant chez nous un vieil onde de Bahia.
JEANNETTE - Eh! bien, ton víeil oncle aussi remarquera tes absences et t'en voudra.
ALBERTO - Ne suis-je pas médecin? Je luí dirai comme je dis toujours à ma femme, que j'ai eté chez un malade.
JEANNETTE - On ne te croira pas. Tu as la mine pas trop ch:ffonne, mon petit.
ALBERTO (Erguendo-se.) - Eh! bien! Je m'en vais. Adieu, Jeannette.
JEANNETTE (Dando-lhe modestamente a mão.) - Adieu, je vais sommeiller... (Alberto sai muito desconsolado. Jeannette fecha os olhos; passados alguns minutos, Alberto volta.)
ALBERTO - Esqueci-me do estojo! Sempre este trabalho! (Vai buscá-lo sobre a mesa.)
JEANNETTE (Sem abrir os olhos.) - Tu es encore lá?
ALBERTO - Je m'en vais; mais le porterais un grand poids sur le coeur.
JEANNETTE - Pourquoi donc?
ALBERTO - Je te trouve froide, je te trouve un je ne sais quoi que me fait un drôle effet. Tu n'étais pas comme ça au commencement de notre amour.
JEANNETTE - Je suis toujours la même Jeannette. C'est toi quí me regardes avec d'autres yeux.
ALBERTO (Ajoelhando de novo.) - Dis-moi que tu m'aimes toujours... et que ton coeur n'est occupé que de moi...
JEANNETTE - Mais oui... mais oui... je te le répête toujours, mon cher. Je suis toute à toi, et je n'ai pas d'autres soucis en tête. Ah!
ALBERTO - Oh! merci. Ces paroles me font du bien!
JEANNETTE (Estendendo-lhe a mão.) - Adieu?
ALBERTO - Adieu! (Beija-lhe as mãos.) Jusqu'ã?
JEANNETTE (Fechando os olhos.) Quand tu voudrais, tu sais... (Volta o rosto.)
Duetino
ALBERTO -
Ma charmante, si je t'aime,
Je t'aimerais plus encore
Sans cette froideur extrême.
JEANNTTE - Va t'en! va t'en! car ta Jeannette dort!
ALBERTO (À parte.)
- Ela deseja dormir!
O meu dever é partir!
(Alto.) Sur tes lêvres, avant de m'en aller,
Il faut, Jeannette, que je pose
Um doux baiser...
JEANNETTE
- Oh! non! non! non!
Laisse-moi donc!
Demande-moi toute autre chose;
Mais il vaut mieux [que tu] ne me
Demandes rien!
Vá t'en! va t'en! car ta Jeannette dort!
ALBERTO - Je vais, je vais! adieu mon cher trésor!
JEANNETTE - Adieu!
ALBERTO - Pense à moi.
JEANNETTE - Je penserai à toi.
ALBERTO (Afastando-se.) - Adieu. (Perde-se a voz no bastidor. Jeannette verifica se está só e ergue-se muito esperta.)
Tradução da Cena I:
JEANNETTE - Vai-te embora, queridinho; já estás há três horas aqui. Tua mulher deve estar encucada.
ALBERTO - Eu te enfado.
J. - Oh! não! tu nunca me enfadas... mas enfim... tu deves preocupar-te com tudo... e com tua mulher.
A. - É minha mulher a dar-lhe!...
J. - Ademais, estou com uma enxaqueca horrível.
A. - Milu não está sozinha.
J. - Que quer dizer Milu?
A. -Milu... minha mulher. Estes dias está lá em casa um tio meu vindo da Bahia.
J.- Está bem, teu tio velho também notará tuas ausências e ficará de olho em ti.
A. - Será que não sou médico? Eu lhe direi como sempre digo a minha mulher, que estive na casa de um doente.
J. - Não acreditarão em ti. Tu não tens o rosto muito abatido, queridinho.
A. - Está bem! Vou-me embora. Até logo, Jeannette.
J. - Até, vou dormir...
J. - Tu ainda estás aí?
A. - Vou-me embora, mas carregarei um grande peso no coração.
J. - Ora por quê?
A. - Acho-te distante, acho-te um não sei quê que me provoca um efeito estranho. Tu não és a mesma do começo de nosso amor.
J. - Sou sempre a mesma Jeannette. Es tu que me olhas de outra forma.
A. - Dize-me que me amarás para sempre... e que teu coração não é de outro senão meu.
J. - Mas sim... mas sim... eu to repito sempre, queridinho. Sou toda tua e não tenho outro cuidado na alma. Ah!
A. - Muito obrigado. Essas palavras me fazem um bem...
J. - Adeus?
A. - Adeus!... Até?
J. - Quando quiseres, tu sabes...
Duetino
A. - Meu encanto, se te amo,
-----Te amaria mais ainda
-----Sem esta frieza extrema.
J. - Vai-te embora! vai-te embora! pois tua Jeannette dorme!
A. - Nos teus lábios, antes de ir-me embora,
-----É preciso, Jeannette, que eu deposite
----------Um doce beijo...
J. - Oh! não! não! não!
-----Deixa-me pois!
-----Pede-me outra coisa qualquer;
-----No entretanto é preferível que tu
----------Nada me peças.
-----Vai-te embora! vai-te embora! pois tua Jeannette dorme!
A. - Eu vou, eu vou! adeus meu caro tesouro!
J. - Adeus!
A. - Pensa em mim!
J. - Pensarei em ti.
A. - Adeus!