ALBERTO, GOUVEIA e figurantes
GOUVEIA - Teu tio ficou a conversar no corredor das cadeiras com um amigo da Bahia. Íamos à caixa e não chegamos a entrar. (Estende-lhe a mão.) Como vais?
ALBERTO - Pois o senhor atreve-se ainda a estender-me a mão.
GOUVEIA - Hein?
ALBERTO - Nunca o supus um miserável que escrevesse esta carta. (Mostra-lhe. Gouveia fica petrificado.) Não lha esfrego na cara para não dar um escândalo. Infame, há tantas mulheres no Rio de Janeiro e o senhor não achou senão esta que me pertencia, que eu amava e que devia - por minha causa, não por ela - merecer-lhe algum respeito. Ela nada me disse, encontrei esta carta por acaso. Essa mulher ama-o. Se isso lhe dá prazer, exulte. Ama-o e é sua. Ela mesmo mo disse. Vá, vá ter com sua amante... Naturalmente espera-o. Quanto a mim, nunca mais hei de vê-la, nunca mais! Fique, porém, sabendo que, de ora em diante, se tiver a petulância de olhar para mim, dou-lhe uma bofetada! (Sai.)
GOUVEIA, depois FRASQUITA
GOUVEIA (Fica como sem acordo, depois olha cautelosamente em volta de si, como para certificar-se de que os insultos de Alberto não foram percebidos. Vendo que ninguém olha para ele, anima-se.) - Ninguém ouviu. (Pausa.) Bom; para um marido ultrajado a cena foi o menos violenta possível. Outro fosse ele, e me daria um tiro. - Mas, como diabo se entende isto? E o bilhete de Milu? (Tira-o.) É o seu papel... cá está o seu monograma! (Aspirando.) E o seu perfume. Se ele fez cena em casa, se ela lhe declarou que era minha, como nada me diz no bilhete? (Lembrando-se.) Tolo que sou! o escândalo foi posterior à remessa deste adorado papel. Mas ficaria ela em casa? Estou perplexo, não sei o que faça...
FRASQUITA (Vindo tomar-lhe o braço.) - Vamos?
GOUVEIA (Assustando-se.) - Hein? Ah! és tu? (À parte.) Já não me lembrava.
FRASQUITA - Anda daí.
GOUVEIA - Vamos (À parte.) Mesmo porque o mais previdente é retirar-me. (Sai de braço com Frasquita pela esquerda.)
CENA VII
ALBERTO, SINFRÓNIO, figurantes
ALBERTO (Continuando uma conversação com Sinfrônio.) - Disse-lhe o diabo à cara, e acabei ameaçando-o esbofeteá-lo se tivesse a petulância de olhar para mim.
SINFRÔNIO - E ele?
ALBERTO - Ele nem pio. Engoliu tudo calado. Nunca vi um covarde assim.
SINFRÔNIO - Mas não condene a pobre Jeannette.
ALBERTO - Hein?
SINFRÔNIO - Você sabe o que houve?... quem sabe... Talvez alguma intriga. E se ela fez o que fez, foi despeitada e enraivecida? Que diabo! Eu tenho muita pena destas desgraçadas. São tão fracas, tão ingênuas, coitadinhas. Imagine que o Gouveia, para conquistá-la mais depressa, lhe fosse dizer cobras e lagartos a seu respeito. Afinal de contas, que lhe fez ela? Disse o tal -Fiche... Como é?
ALBERTO - Fíche-moi la paíx.
SINFRÔNIO - O tal - Fiche-moi la paix. - Mas essa carta? Que prova essa carta? Se fosse escrita por ela, vá! Mas por ele!
ALBERTO - Isso é verdade, mas...
SINFRÔNIO - Mas o quê?
ALBERTO - Ela disse que tinha um amante. J'ai un amant.
SINFRÔNIO - J'ai un amant - é - tenho um amante? ALBERTO - É.
SINFRÔNIO - Acho mais forte o fiche. Talvez dissesse que tinha um amante para vingar-se de você. É que lhe encheram a cabeça de caraminholas.
ALBERTO - Quem sabe mesmo?
SINFRÔNIO - Olha, se quer, vamos até a Rua do Conde; faço-lhe companhia, serei o primeiro a dizer-lhe: - Jeannette, minha filha, vem cá, vamos acabar com isto.
ALBERTO - E este bilhete? Este maldito bilhete anônimo?
(Os figurantes começam a apontar para a esquerda e a rirem-se. Alguns saem. Alberto e Sinfrônio não dão por isso.)
SINFRÔNIO - Ora, esse bilhete não vale nada, e a prova é que ela não está no teatro - Vamos até lá. Você vai ver como a pobre pequena está muito sossegadinha em casa a pensar em você.
ALBERTO - Pois vamos.. - mesmo porque (confesso a minha vergonha) gosto muito daquele diabo. (Tem aumentado o rumor.)
SINFRÔNIO - O que é isto?
ALBERTO, SINFRÔNIO, depois JOSÉ, JEANNETTE, depois BERMUDES, figurantes
CORO
- Vem dando o braço à francesa,
Janota cor de carvão,
Nós vamos rir, com certeza,
A custa desse tição.
Ah! ah! ah! ah!
ah! ah! ah! ah!
É parente do príncipe Obá.
(Entra José, vestido como no segundo ato, trazendo pelo braço Jeannette ricamente vestida. Admiração de Alberto.)
ALBERTO -
É o meu moleque José,
Vou corrê-lo a pontapé.
SINFRÔNIO (Detendo-o.)
- Não faça tal,
Aguardemos o final Da festa.
(Ã parte.) Eu, que a supunha tão honesta!
Coplas
JOSÉ -
Eu supus que nos achássemos
Num país americano,
Caminhando a largos passos
Para a civilização.
Fantasia foi do espírito,
Laborei num puro engano,
Pois dum modo tão ridículo
Injuria-se o Barão,
O Barão,
O Barão de Pituaçu,
Como se fosse algum zulu.
CORO
O Barão,
O Barão de Pituaçu
Não é pr'aí nenhum zulu.
JEANNETTE -
Il n'a pas une peau blanche,
Mais je l'aime éperdument!
J'en refoule; je suis franche!
Le voilá! C'est mon amant!
JOSÉ -
Sem tardar vai tudo raso!
Temos murro e cachação!
Quem me ofenda, por acaso,
Tem que haver-se co Barão,
Co Barão,
Co Barão de Pituaçu,
- Que é capoeira e guaiamu.
(Faz o gesto de capoeira.)
CORO (Arremedando.) -
Co Barão,
O Barão de Pituaçu,
Diz que é capoeira e guaiamu!
Tradução do trecho francês da Copla:
JEANNETTE -
Ele não tem a pele alva,
Mas amo-o perdidamente!
Insisto nisso; sou franca!
É isso aí! Ele é meu amante!
Concertante
JEANNETTE -
Je l'aime, une peau blanche,
Quand même!
Por ele, juro, apaixonada 'stou!
Censuram,
Murmuram,
Que bem me importa? Independente sou!
CORO
- Que ama
Proclama!
Isto nos faz embasbacar, senhor!
Um bode
Não pode
Da alva pombinha usufruir a flor!
BERMUDES (Aparecendo e dominando a cena.)
- Meu sobrinho,
Agora espero que hás de entrá no bom caminho;
Vê, a madama
Que tu tanto ama,
De braço dado co José
E será sua, se o não é!
JOSÉ (Atônito, ajoelhando aos pés de Alberto.).
- Meu Ioiozinho, meu Ioiozinho,
Ai não sapeque
O seu moleque.
Senhor Bermudes, nestas funduras,
Foi-me metendo,
Sempre dizendo
Ser pro seu bem.
JEANNETTE - Est-il possible, juste ciel.
SINFRÔNIO - Pobre pequena! que papel!
(A Jeannette.) Minha filha, aqui tem meu braço,
Por você,
Bem vê,
Tudo faço.
(Dá o braço a Jeannette e retira-se com ela.)
CORO -
- Ah! ah! ah! ah!
O caso é muito engraçado,
O caso é novo e faz rir;
Um moleque disfarçado
Pôde a francesa iludir,
Ah! ah! ah! ah!
É parente do príncipe Obá.
(Os coros cercam José. Bermudes afasta-se com Alberto.)
(Cai o pano)
Jardim da casa de Alberto, num arrabalde. À direita, a entrada da casa com escada e alpendre; um lampião de gás que a seu tempo dará luz. Ao fundo um muro, e além, em perspectiva, o Corcovado. À esquerda, a grade da entrada. Na cena, árvores, canteiros, mesas e três cadeiras de jardim.
ALBERTO, MILU e BERMUDES
BERMUDES (Têm acabado de jantar e tomam café no jardim; José distribui as xícaras numa bandeja em que há também uma garrafinha de conhaque e cálices.) - O café é bão?
MILU - É torrado em casa.
ALBERTO - Quer um cálice de conhaque, tio Bermudes?
BERMUDES - Quá, conhaque nem quá história! Vocês co seu francesismo deita a perdê a indústria nacioná. Pra depois do jantar não há nada como um copinho de cotréia e um cachimbo. O cachimbo cá está... como não há cotréia, paciência. (Tira o cachimbo, acendendo-o.)
ALBERTO - Questão de rótulo. Prove o conhaque, e verá que não há de se dar mal.
MILU - Aqui tem um cálice.
BERMUDES - Vá lá. (Bebendo.) Irra que é forte!
JOSÉ (Que tem bebido um cálice ás escondidas.) - Não acho.
MILU - Você não sai hoje, Alberto?
ALBERTO - Não. Hoje sou todo teu.
MILU - Admira. Há três meses é este o primeiro sábado em que ficas em casa.
BERMUDES - E de hoje em diante só não ficará com iaiá por força maior; não é assim, meu sobrinho?
ALBERTO - Certamente. (Toma uma das mãos de Milu e acaricia.)
BERMUDES - Apois!
MILU - Vossemecê foi um anjo bom que entrou nesta casa.
BERMUDES - Não me agradeça, iaiá; agradeça ao Barão de Pituaçu. (Vendo José e erguendo-se.) Vá lá para dentro, moleque. (José sai requebrando-se e levando a bandeja, xícaras etc.)
ALBERTO - Meu tio...
MILU - Que história é essa do Barão de Pituaçu?
ALBERTO (Vivamente.) - Não é nada.
MILU - Não; eu quero saber...
ALBERTO - É melhor que nada saibas.
MILU - Ora.
BERMUDES - Pois há de sabê, sim senhô. Meu sobrinho, iaiá, tinha uma doente que lhe tomava todo o tempo. A moléstia era muito cheia de complicâncias, e, se ele sarvasse a doente, ganhava fama que nem o defunto Valadão. Mas eu cheguei da Bahia; lalá se queixava-se de que seu marido não parava em casa... Eu tratei de me informá e sube que a doente era uma muié da vida... Então, fiz uma intrigage de todos os diabos. Fui na casa da muié e disse a ela que meu sobrinho não prestava para nada cumo médico, que botasse ele pra fora e chamasse um doutá da Bahia que está na Corte: o Barão de Pítuaçu. A muié aceitou o meu conselho. Quando meu sobrinho encontrou outro doutô em casa da moça, deu um cavacão, e agora... agora, acabou-se a história. Agora, iaiá tá livre da tal doente.
MILU - Mas o Alberto nunca me falou em semelhante mulher.
BERMUDES - E fez ele muito bem. Como era uma muié da vida, iaiá podia mardá.
ALBERTO - Com licença, vou para o gabinete estudar um pouco. (Ergue-se e entra em casa.)
BERMUDES e MILU
MILU (Levantando-se.) - Vê, seu sobrinho não pôde sustentar esta comédia.
BERMUDES - Que comédia?
MILU - Então vossemecê me supõe tão tola, que acredite numa palavra do que esteve para aí a dizer?
BERMUDES - Iaiá, óie... é um véio que lhe fala. A gente pra sê feliz, principalmente as moça, deve fingi que acredita em certas coisas... já se sabe, cando essas coisas é pra seu bem.
MILU - De toda essa história mal arranjada, de todos esses mistérios, concluo que se passou um fato extraordinário na vida de meu marido. Não quero saber qual foi, contanto que vossemecê me assegure que, de hoje em diante, ele será para mim o que não tem sido até hoje.
BERMUDES - Isso juro até pelas minhas arminhas benditas! Iaiá, de hoje em diante, há de vivê satisfeita.
MILU - Deixe-me dar-lhe um abraço e um beijo. (Dá-lhos.)
BERMUDES - Muito bem. Agora vá fazer o mesmo em seu marido, iaiá. (Entra José.)
MILU - Com mil vontades. (Sai.)
BERMUDES - E eu vou procurá o tá seu Doutô Gouveia pra sabê se o Ministro já arresolveu qualquer coisa. (Julgando-se só.) Meu sobrinho há de se emendá... a lição foi boa... e depois o sermão que eu preguei a ele... (Vendo José.) Olá, seu barão!
BERMUDES e JOSÉ
JOSÉ - O que é que o Senhor Bermudes qué que eu faça daquela roupa?
BERMUDES - Que roupa?
JOSÉ - A roupa do Barão de Pituaçu.
BERMUDES - Fica co ela pra ti. A molecage anda por perto de duzentos mil réis, mas não me arrependi. - Vai buscá meu chapéu e meu chapéu de só.
JOSÉ - Senhor Bermudes, vai procurar o seu Doutô Gouveia?
BERMUDES - Não é da tua conta.
JOSÉ - É... é... é que eu queria dar um conselho ao Senhor Bermudes.
BERMUDES - Moleque, onde é que tu já viu preto dá conselho a branco?
JOSÉ - Pois não! Neste país tem havido muito conselheiro preto!
BERMUDES - Nenhum deles nunca foi moleque como tu, apresentado!
JOSÉ - Isso é o que resta averiguar. Enfim o que eu lhe queria dizer era para seu bem.
BERMUDES - Diz, diabo, diz.
JOSÉ - Seu Bermudes, não se fie no tal Doutor Gouveia.
BERMUDES - Por quê?
JOSÉ - Aquilo é um tratante, um caradura.
BERMUDES - Moleque!
JOSÉ - Moleque é ele!
BERMUDES - Hein? Varra a púia.
JOSÉ (Explicando.) - O Doutor Gouveia.
BERMUDES - Apois.
JOSÉ - Senhor Bermudes não podia entregar a questão a um advogado mais chinfrim. Aquilo mente por quantos dentes tem na boca.
BERMUDES - É amigo de meu sobrinho.
JOSÉ - Ioiô é muito fácil em fazer amizades... e vai abrindo a sua porta a todo o mundo sem saber quem mete em casa. Senhor Bermudes há de ver que o Doutor Gouveia não tarde em dar-lhe uma facada.
BERMUDES (Levando a mão ao ventre.) - Hein?
JOSÉ - Não é facada de sangue; é de dinheiro.
BERMUDES - De dinheiro já deu.
JOSÉ - Então?
BERMUDES - Mas não foi para ele; foi para um empregado.
JOSÉ - Olhe, Senhor Bermudes, o Ministro mora nesta mesma rua... naquele chalé azul... vossemecê vai lá e fala mesmo com o homem... Aposto que o Ministro ainda não tem notícia de sua pretensão.
BERMUDES - Ó moleque de uma figa! se o doutô me disse que falou com ele!
JOSÉ - Qual falou, nem meio falou! Vá até lá, vá até lá, não lhe digo mais nada. Eu vou buscar o seu chapéu. (Saída falsa.)
BERMUDES - Hem? Este moleque é pernosco e é mais sabido que muito doutô. O diabo é capaz de ter razão, e não me custa nada i na casa do Ministro. Tá decidido. Vou lá.
JOSÉ (Entrando com o chapéu e guarda-chuva de Bermudes.) - Está aqui. (Dá-lhos.)
BERMUDES (Pondo o chapéu.) - É o chalete azu, não é?
JOSÉ - Senhor Bermudes vai lá?
BERMUDES - Vou sim. Se tu acertaste, moleque, podes contar com a molhadura.
JOSÉ, depois FEITOR e COZINHEIRO
JOSÉ (Só.) - Bom. É tempo de preparar as coisas. (Chamando para dentro.) Psiu! Ô seu Joaquim! Psiu! venha cá e traga seu Manduca. - O Feitor é homem pra dez, e o Cozinheiro não lhe fica devendo nada. O patife há de ficá bem escorvado. - Psiu! venham cá. (Entram o Feitor e o Cozinheiro. Tipos característicos. José recebe-os solenemente.) Meus senhores, façam favor de se abancar.
O FEITOR - Essa agora!...
O COZINHEIRO - Pra que quer você que a gente se abanque?
JOSÉ - Os amos estão lá para dentro. Sentem-se e sem cerimônia. (Dá uma cadeira a cada um. O Feitor e o Cozinheiro sentam-se e José senta-se entre eles. Pausa.) Meus senhores, o momento é solene; e eu vou revelar um grande um terrível segredo. (Voltando a cadeira para o lado do Feitor.) Seu Joaquim, você é amigo do seu patrão?
O FEITOR - Se sou amigo de seu doutore? Pois não me tratou ele com tanto carinho, cando estive tan doente?
JOSÉ - E estima a sua patroa?
O FEITOR - Pois se ele é um anjo, sem desfazer em ninguém! Nan foi ela a minha enfermeira? Nan cuidou de mim como se cuidasse de seu pai dela?
JOSÉ (Apertando-lhe a mão.) - Muito bem. (Voltando a cadeira para o lado do Cozinheiro.) Agora, seu Manduca, você também é baiano.
MANDUCA - Legítimo. Não digo isso a Deus e a todo o mundo porque não sou vaidoso... não gosto de me gabar...
JOSÉ' - Portanto, deve possuir um coração de ouro. - É amigo de seu patrão?
MANDUCA - Eu sempre fui amigo de quem me dá trabalho. Mas, por quê...
JOSÉ - Não interrompa o orador. E da sua patroa?
MANDUCA - Desde que seja preciso fazer um sacrifício por ela, podem contar comigo!
JOSÉ' - Muito bem. Eu não esperava de vocês outra coisa, senão essas declarações leais! (Endireitando a cadeira.) Agora eu! Era escravo de iaiá. Um dia, ela me passou a carta de liberdade e eu declarei que queria ficar nesta casa, escravo como dantes, até o dia em que me pusessem na rua. Me parece que não preciso dizer mais nada!
O COZINHEIRO - Mas foi pra isto que esta cabeça de breu mandou me chamar?
O FEITOR (Erguendo-se.) - Está a mangar com a gente, o dianho!
O COZINHEIRO (Erguendo-se.) - Tenho mais que fazer: vou arrumar a cozinha.
JOSÉ (Sem se erguer, puxando-os pelo fato.) - Ouçam o resto. Abanquem-se. (Os dois sentam-se de novo.) Que fariam vocês se nesta casa se introduzisse um infame, e pretendesse seduzir iaiá?
Os DOIS (Erguendo-se ao mesmo tempo.) - Hein?
O FEITOR - Seduzir a patroa? Isso é lá possível?
O COZINHEIRO - Eu dava-lhe muita bordoada!
O FEITOR - Eu desancava-o! rachava-o de meio a meio.
JOSÉ (Erguendo-se.) - Pois saibam que esse infame existe!
OS DOIS - Quem é?
O FEITOR - Como soubeste disso?
JOSÉ - O burro quis fazer de mim pau-de-cabeleira. Deu-me uma carta para eu entregar a iaiá. Uma declaração de amor.
O COZINHEIRO - Como você sabe que é uma declaração de amor?
JOSÉ - Abri e li a carta. Transgredi um artigo da Constituição do Império.
O FEITOR - E depois entregaste a carta?
JOSÉ - Não entreguei, não. Respondi por minha conta.
O FEITOR - Tu?
JOSÉ - Respondi, sim. Fui ao quarto de iaiá... tirei uma folha de papel marcado com o nome dela, e um envelope... botei um pingo de perfumância, e, como eu escrevo muito mal, pedi a seu Braga da venda para escrever o seguinte, pouco mais ou menos: "Amanhã, sábado, vai ao portão dos fundos da chácara; se o portão estiver encostado, empurra e entra", e deixei a carta no Hotel Globo, onde vai jantar todos os dias.
O COZINHEIRO - Que arteiro!
O FEITOR - Bom; e agora?
JOSÉ - Agora. (Toma-lhes as mãos e trá-los ao proscênio.)
Terceto
JOSÉ - Haja cautela.
OS DOIS - Pois haverá.
JOSÉ -
E na esparrela
O tipo cairá. (Com mistério.)
A hora marcada
Vocês estarão
Fazendo emboscada
Por trás do portão.
OS DOIS - Por trás do portão.
JOSÉ -
- O tipo, isso eu juro,
De manso entrará
Com os olhos no escuro
Buscando iaiá.
OS DOIS - Buscando iaiá.
JOSÉ -
Dá dois ou três passos
Dizendo: Milu,
Vem! corre aos meus braços!
Onde é que estás tu?
OS DOIS - Onde é que estás tu?
JOSÉ -
Vocês vão sem bulha,
A porta fechar,
A fim de que o pulha
Não possa escapar.
OS DOIS - Não há de escapar.
JOSÉ
- E o pintalegrete
Reduzam a pó!
No corpo o cacete
Lhe cante sem dó!
OS DOIS
Daremos sem dó.
JOSÉ
- Depois que lhe derem
Pancada a fartar,
Depois que estiverem
Cansados de dar...
OS DOIS - Cansados de dar...
JOSÉ -
Vocês o conheçam:
- Pois era o senhor!
- Desculpa lhe peçam:
- Perdoe, seu doutor.
OS DOIS - Perdoe, seu doutor.
JOSÉ -
E tragam-no em braços
Aqui pro jardim.
Pois esses devassos
Castigam-se assim.
O COZINHEIRO (Interrompendo o canto e declamando.) - Mas por que não lhe dá você a tunda?... e nos passa procuração?
O FEITOR - É verdade! por quê?
JOSÉ - Por dois motivos: - Primó: - Porque eu sou capoeira e posso matá-lo com uma cabeçada na boca do estômago; secundó: - Porque não sou egoísta, e quis dividir com vocês dois o prazer de castigar o infame...
Os DOIS - Ah! bom... (Continua o canto.)
- Pode ficar descansado,
Que há de levar O marau,
De forte pulso alentado,
Famosa tunda de pau!
JOSÉ - Haja cautela.
OS DOIS - Pois haverá.
OS TRÊS -
E na esparrela
O tipo cairá.
Cautela...
Cautela...
Vamos para lá...
Vão para lá...
(O Feitor e o Cozinheiro saem. A cena tem escurecido gradualmente.)
JOSÉ, depois GOUVEIA (Da esquerda.)
JOSÉ (Só.) - Nunca mais o bicho há de ter vontade de fazer declarações de amor a senhoras casadas. (Vendo entrar GOUVEIA.) Olá! ele por aqui?
GOUVEIA - Alberto está em casa?
JOSÉ - Está, sim senhor.
GOUVEIA - Vai-lhe dizer que estou aqui.
JOSÉ - Sim, senhor. (Vai saindo.)
GOUVEIA - Olha. (José volta.) Já recebi a resposta daquele bilhete que entregaste a Dona Milu. Toma lá os dez mil réis que eu prometi. (Dá-lhos.)
JOSÉ - Muito obrigado. (À parte.) Vou dar cinco mil réis ao Feitor e cinco mil réis ao Cozinheiro. (Entra na casa depois de acender o lampião do alpendre, alumiando assim os primeiros planos da cena.)
[GOUVEIA, só]
GOUVEIA (Só.) - Depois da cena de ontem, julguei que nenhuma explicação fosse possível entre mim e Alberto. Entretanto, estava a jantar no Globo, quando o criado me veio dizer que me chamava. Era o Alberto. Pedia-me que cá viesse depois jantar, e disposto a perdoar-lhe. E acrescentou: - Já tenho a explicação de tudo. É extraordinário! Ah! mulheres! Mulheres! Naturalmente Milu achou meios e modos de explicar a minha carta, e ele engoliu a pílula. Entretanto, ela fez mal em não me prevenir... posso escorregar... por isso hei de falar o menos que puder... E a entrevista de noite? Falta apenas uma hora e ele está em casa. Ei-lo.
GOUVEIA e ALBERTO
ALBERTO - Não te mandei entrar porque aqui no jardim podemos conversar a gosto. Minha mulher está lá dentro entretida. Antes de mais nada, dá cá um abraço! Pobre Gouveia, que descompostura te passei, que coisas te disse! e como lá por dentro devias rir-te de mim. Tudo por causa de uma mulher. (Abraça-o.)
GOUVEIA (Sem perceber.) - É... é... tudo por causa...
ALBERTO - Desculpa, meu velho... eu não sabia nada... e tu compreendes... eu gostava dela... andava iludido...
GOUVEIA - É...
ALBERTO - Depois percebi que estavas combinado com o meu tio, se bem que lhe não falasse a teu respeito, e soube que a carta foi feita para ser entregue pelo moleque. Respirei. Também porque não disfarçaste a letra?
GOUVEIA - Ora.... para quê?
ALBERTO - Hás de convir que o moleque saiu-se perfeitamente... Lembrou-me o Mascarillo das Preciosas ridículas Entretanto, meu tio, um matuto lá dos sertões do norte da Bahia, nunca leu Moliêre.
GOUVEIA (À parte.) - Cada vez entendo menos!
ALBERTO - E sabes? Vou pôr no olho da rua o Barão de Pituaçu.
GOUVEIA - O Barão?
ALBERTO - Sim, não o quero em casa. Demais, há muito tempo que é livre. Nada! um sujeitinho destes não nos convém em casa. Estou desmoralizado. Com que cara queres tu que eu olhe para este moleque, que sabe tudo!
GOUVEIA - É, tens razão.
ALBERTO - Bem, agora que estamos de pazes feitas, vais fazer-me um favor. Hoje mesmo hás de entregar a Jeannette um anel de brilhantes que tenho em meu poder e lhe pertence.
GOUVEIA - Pois não.
ALBERTO - Não quero conservá-lo nem mais um momento em meu poder. Vou buscá-lo... está no meu gabinete escondido.
GOUVEIA - Sim.
ALBERTO - Mas não me falas senão por monossílabos. Olha que está tudo acabado,- homem de Deus! Esquece-te do que te disse ontem! (Entra em casa. José aparece à direita, terceiro plano.)
GOUVEIA e JOSÉ
GOUVEIA (Julgando-se só.) - Está doido.. - pobre rapaz, está doido... não diz coisa com coisa... O moleque... o Barão de Pituaçu... Moliêre... quem diria?... Agora começo
a ter repugnância da tal entrevista... a mulher de um
doido...
JOSÉ, (Aproximando, a meia voz.) - Senhor Doutor... iaiá mandou dizer que não se esqueça, às oito horas.
GOUVEIA - Ah! ela...
JOSÉ - Eu não sirvo para estas coisas, não senhor... obedeço por ser iaiá.
GOUVEZA - Mas Alberto está em casa...
JOSÉ - Qual! não tenha susto. Ioiô não fica em casa, não.
GOUVEIA - Bom! Toma lá mais cinco mil réis. (Dá-lhos.)
JOSÉ (À parte.) - Estes cinco são para mim. (Alto.) Muito obrigado! (Sai por onde entrou.)
GOUVEIA (Só.) - Isto está uma confusão de todos os diabos.
GOUVEIA, ALBERTO, depois MILU
ALBERTO (Entrando.) - Aqui tens. Faze-me este favor hoje mesmo. A Jeannette tinha-me dado este anel para que
eu mandasse mudar a gravação e eu esqueci-me.
GOUVEIA. - Queres, pois, que eu lhe entregue isto?
ALBERTO - Sim.
GOUVEIA - Não é preciso dizer-lhe mais nada?
ALBERTO - Nada... Que queres tu que eu diga à Baronesa de Pituaçu?
GOUVEIA - (À parte.) - Temos outra.
MILU (Entrando.) - Alberto, teu tio saiu?
ALBERTO - Parece que sim. Olha quem está aqui.
MILU - Ah! (Secamente.) - Boa-noite.
GOUVEIA - Boa-noite, Dona Milu... (À parte.) Que frieza! quanta dissimulação!.... Ah! mulheres. (Alto.) Até sempre.
ALBERTO - Já.
GOUVEIA (Com intenção, olhando de soslaio para Milu.)
- Tenho que ir.
ALBERTO - Não te detenho porque vou também sair.
GOUVEIA - Boa-noite - (Indo apertar a mão de Milu, piscando-lhe os olhos.) Boa noite.
MILU (Admirada.) - Boa-noite.
GOUVEIA (Ã parte.) - Quanta dissimulação! Ah! mulheres!... (Sai.)
ALBERTO e MILU
MILU - Tu vais sair?
ALBERTO - Não.
MILU - Pois não acabaste de dizer?...
ALBERTO - Para que ele se fosse embora mais depressa Quero estar só contigo. Vou refazer a nossa lua-de-mel. (Senta-se ao lado dela.)
MILU - Ora; Deus queira!
ALBERTO - Por que trataste o Gouveia com tanta frieza?
MILU - Ultimamente comecei a embirrar muito com ele.
ALBERTO - Por quê, coitado?
MILU - Não sei... antipatias súbitas, que não se explicam.
ALBERTO - Nem se discutem.
MILU (Depois de uma pausa.) - Vocês são muito amigos?
ALBERTO - Amigo é um modo de dizer. Eu estimo-o porque não tenho razão de queixa contra ele.
MILU - Conhece-o bem?
ALBERTO (Dizendo por dizer.) Conheço...
MILU (Brincando com o anel de médico de Alberto.) - Se te dissessem alguma coisa de mal contra ele, serias capaz de não crer?
ALBERTO - Conforme. Se me dissessem, por exemplo, que ele roubou o sino de São Francisco de Paula...
MILU - Isso não. - Mas se dissessem que ele namora senhoras casadas.
ALBERTO - Isso pode ser. O que não creio é que as senhoras casadas o namorem a ele. Coitado, nesse ponto é um pouco tolo, dizem, mas afinal de contas, os seus namoros são tão inofensivos...
MILU (Deixando-lhe a mão.) - Achas então que é digno de desculpa o sujeito que namora a mulher do seu amigo?
ALBERTO - Perdão, mas tu não me disseste que ele namorava a mulher de nenhum amigo...
MILU (Depois de uma pausa.) - E não crês que ele o faça?
ALBERTO - Homem, essas palavras! Dar-se-á o caso que o Gouveia?...
MILU (Vivamente.) - Não é de mim, nem de ti que se trata. (Erguendo-se.) Entretanto, fazes-me um grande obséquio se lhe fechasses a nossa porta.
ALBERTO - Milu, o Gouveia faltou-lhe ao respeito?
MILU - Não.
ALBERTO - Vejo pela tua cara que sim.
MILU - Ora! que tem a minha cara?
ALBERTO - Dize-me tudo!
MILU - Deus me livre!
ALBERTO - Então é certo que...
MILU - Tu zangas-te, fazes um escândalo e quem sofre sou eu.
ALBERTO - Não... juro-te que não me zangarei.
MILU - Ora, isso dizes...
ALBERTO - E faço. Acredita que usarei de toda a prudência. Que te disse ele?
MILU - Que me amava.
ALBERTO - Oh!
MILU - Aí está... vês? Eu não devia ter-te dito nada. Quanto mais se...
ALBERTO - Quanto mais o quê? Que mais fez, que mais disse esse homem?
MILU - Tudo.
ALBERTO - Tudo o quê?
MILU - Que tinhas uma amante.
ALBERTO - Miserável. (Quer sair.)
MILU - Alberto! (Ele volta.) Aí está! Aí está! Eu devia ficar calada. Se tudo te disse, foi para que conhecesses o amigo que recebes em tua casa.
ALBERTO - E eu, que o mandei chamar pelo telefone para pedir-lhe perdão e abraçá-lo.
MILU - Agora, vais procurá-lo, brigar com ele... dar um escândalo! E o meu nome virá à baila. E hão de dizer por
aí que eu fui a amante desse patife! No Rio de Janeiro essas coisas dizem-se com uma facilidade extraordinária! Não! Não quero que faças nada! (Abraçando-o.) Escreve-lhe uma carta muito simples, dizendo-lhe que tua mulher tudo te comunicou... e que lhe não cortas a cara a chicote para não envolveres o meu nome num escândalo. Despede-o assim de tua casa e de tua amizade, e ama-me sempre, meu Alberto, sempre; tanto mais que... (Chorando e rindo ao mesmo tempo. Bermudes aparece.) Tanto mais que tenho uma grande noticia a dar-te... tu... eu... nós temos um filho!...
ALBERTO - Ah!
ALBERTO, MILU, BERMUDES
BERMUDES (Da esquerda.) - Muito bem! Era isso o que faltava nesta casa! Bela noticia! Amanhã de manhã vou passar um telegrama à comadre. O diabo é se a notícia chega à Bahia depois da criança nascê. A comadre é que vai pulá de satisfeita! (Abraçando a Milu.) Nossa Senhora do Parto lhe dê uma boa hora, iaiá!
ALBERTO - Então? onde foi o passeio?
BERMUDES - Mal sabem vocês. Vim da casa do Ministro.
ALBERTO - Oh! foi à casa do Ministro?
BERMUDES - Fui, e bendita a hora em que o moleque me aconseiou que fosse... Óie que o tá seu Doutô Gouveia é um tratante muito desavergonhado. O Ministro nem conhece ele. O malandro há de me dá conta dos meus papé...
ALBERTO - Isso fica a meu cuidado!
MILU - Conte-nos.
BERMUDES - Eu fui. Bati. Veio um sordado e preguntó o que eu queria. Falá a sua insolência, o Sinhô Ministro. Sua insolência não fala a ninguém! Apois. E eu já ia me arretirando, quando o Ministro mesmo me chamou da janela. Subi, e ele preguntou-me o que desejava, mas que falasse depressa, porque ele estava muito atropelado. - Não diga isso, Sinhô Ministro: vossa insolência nunca viu atropelo. Atropelo é um home a cavalo, o cavalo empacado, a muié na garupa, uma criança no braço, o chapéu de só aberto, uma porteira rezinguenta, um charco adiente. Isso é que é atropelo. O Ministro começou a rir como um perdido e uns home que tava lá também começou a rir... e parece que foi por isso que me escutou com tanta atenção. O Doutô Gouveia nunca em sua vida falou ao Ministro, nem entregou a papelada a ele. Ele só conhece Doutó Gouveia de nome, e por síná que lhe fez umas osenças muito feia. Eu contei a ele toda a minha questãozinha das terra. O home ficou irado e prometeu que amenhá mesmo tomaria as porvidências, e que eu fosse na Secretaria. Quando eu disse a ele que o Doutô Gouveia me pediu cem mil réis pra dá a um empregado, o Ministro deu um pulo na cadeira e disse que vai proibi pelas foia que o patife tenha entrada na repartição. (Ouvem-se pancadas e gemidos.)
OS TRÊS - Que é isto? que é isto?
OS MESMOS e GOUVEIA, depois o FEITOR, o COZINHEIRO, depois JOSÉ
(Gouveia atravessa a cena desancado, coxeando e sai correndo pela direita.)
O FEITOR (De pau em punho.) Desculpe, Senhor Doutore, eu não sabia.
ALBERTO - O Gouveia! Que quer isto dizer?
O FEITOR - Aquele senhor entrou na chácara pelo portão dos fundos...
O COZINHEIRO - Nós supusemos que fosse um ladrão, e demos-lhe uma tunda de pau!
ALBERTO - Mas, expliquem-nos...
JOSÉ (Entrando.) Eu explico tudo, iaiá.
BERMUDES - Eu logo vi que era coisa deste moleque.
JOSÉ - Seu Doutô Gouveia me deu uma carta de namoro para eu entrega a iaiá.
MILU - A mim?
JOSÉ - Eu li a carta, e em vez de entregá-la a iaiá, entreguei-a certa pessoa que ioiô sabe quem é...
ALBERTO (Tossindo.) - Bem, bem...
JOSÉ - Mas eu respondi a carta, em nome da iaia, dando-lhe uma entrevista na chácara.
ALBERTO - Com que fim, demônio?
JOSÉ - Com o fim de lhe arranja a sova que ele levou e foi muito merecida.
ALBERTO - Olha que não me ficas nem mais um dia em casa!
BERMUDES - Eu tomo conta de ti, moleque. Quero te meter nos estudos - (José vai cumprimentar o Feitor e o Cozinheiro.) Vocês, meus filho, se alembre de que, numa famia, a confiança é tudo.
Copla final
BERMUDES -
Há sempre em casa bonança,
Sem uma nuve siqué,
Quando existe confiança
Entre o marido e mute.
CORO - Haja sempre confiança...
BERMUDES - Apois.
CORO - Entre o marido e muié.
(Cai o pano.)
Fonte: www.biblio.com.br