O Homem

Transeuntes, passageiros, vendedores ambulantes, marinheiros franceses, inimigos da justiça, policiais, carregadores, keans, atores e atrizes.

MONÓLOGO PRELIMINAR

O ATOR COLAS
(Vindo do proscênio antes de subir o pano para o primeiro quadro)

Senhoras excelentíssimas.
Ilustríssimos senhores,
Desta revista os autores,
Qualquer deles bom rapaz,
Depois de mil circunlóquios,
Cada qual mais estudado,
Chamaram-me de lado,
E me disseram: - Colás.

Utilizar os teus préstimos
Nós pretendemos, amigo:
Contamos ambos contigo
- Oh! não nos digas que não
- Pra recitar o monólogo
Feito em verso fantasista,
Que à nossa pobre revista
Servirá de introdução.

Porém, do ponto na cúpula
Permitirás que eu me assente:
Assim mais comodamente
Posso conversar talvez.
No Casamento de Fígaro
(Este exemplo é respeitável)
O Emanuel, ator notável,
A mesma coisa já fez.

(Senta-se na cúpula do ponto, mas fica mal acomodado.)

Muitos supõem que a platéia
Facilmente se conquista
Por meio de uma revista
Que faça rir um calhau...
Não! pra aquela Macedônia
Não há decerto Alexandre...

(Levantando-se incomodado e referindo-se â cúpula do ponto.)

Esta é de folha-de-flandres,
E a do outro era de pau...
Tanto o Artur como o Sampaio,
Apesar de bem tratados,
Cada vez mais empolgados
Se sentem pelo terror...
De uma batalha o prenúncio
Têm por pérfida tortura:
Não lhes aumenta a bravura,
Não lhes inflama o valor.

De medo tremem os míseros,
E não se diga, senhores,
Que esses naturais temores
Sejam tolos, sejam vãos;
Eles receiam que o público,
Com pateada bravia,
Desfaça cos pés, um dia,
O que têm feito coas mãos!

Não teve nada de cômico
Este ano de oitenta e sete;
Fez-nos suar o topete,
Um ano bárbaro foi!
Ano cruel dos naufrágios,
Ano cruel das bexigas,
Lá no inferno em que te abrigas
O mundo te amaldiçoa!

Vão lá de um ano tão fúnebre,
De males enciclopédia,
Extrair uma comédia
Que possa fazer-vos rir!
Que peseis tais circunstâncias
E sempre as tenhais em vista
Os autores da revista
Por mim vos mandam pedir.

Buscaram eles o título
Desta peça num romance:
Haverá quem se abalance
Ao levar-lhes isso mal?
Pois teve o livro tal êxito,
Que aproveitar-lhe passagens
E dois ou três personagens
Foi coisa bem natural.
Mas que não veja o Aluísio
Nesta paródia vazia
Menos que uma cortesia
Que ao seu talento se faz.

(Cumprimentando)

Sou de Vossas Excelências
Um servo dos mais submissos,
Precisam dos meus serviços?
Procurem pelo Colás.

(Retira-se; sobe o pano)

ATO PRIMEIRO

Quadro 1

Sala em casa do Conselheiro Pinto Marques. Sobre uma mesa, entre outras coisas, um grupo de biscuit, representando o Amor e Psiché.

CENA I

O CONSELHEIRO, depois o DOUTOR

(Ao erguer o pano, ouvem-se os gritos da Magdá, que tem um ataque. A pouco e pouco os gritos vão diminuindo até cessarem de todo. Ouve-se tocar uma campainha. O Conselheiro saí da direita, em robe de chambre e boné, atravessa a cena e vai abrir a porta da esquerda. Entra o Doutor, que conserva o chapéu na cabeça e tem modos brutais.)

CONSELHEIRO - Ah! venha, venha, Doutor. Estou numa ansiedade!

O DOUTOR - Viva, Para que me mandou incomodar? Pra ver a Barata Velha? Dê-lhe uma pitada de estricnina, e mande atirá-la ao mar!

CONSELHEIRO - Não, Doutor, não se trata de minha irmã, mas de minha filha, de minha querida Magdá.

O DOUTOR - Que tem ela? Hão de ver que são luxos! E para isto incomoda-se um homem que tem tanto que fazer!

CONSELHEIRO - Peço-lhe que me ouça com toda a paciência.

O DOUTOR - Vá lá.

CONSELHEIRO - Lembra-se do Fernandinho?

O DOUTOR - Que Fernandinho?

CONSELHEIRO - Ora! aquele rapaz que eu eduquei e que morava conosco... Aquele que se formou há um mês, e partiu logo para a Europa.

O DOUTOR - Já sei... a pequena gostava dele... está com saudades, e tem faniquitos. Para isto incomoda-se um grande médico? Ora viva! (Vai a sair.)

CONSELHEIRO (Retendo-o.) - Venha cá, pelo amor de Deus! Que homem! A coisa é mais séria do que se pode supor. A pequena gostava dele... mas imagine que são irmãos.

O DOUTOR - Irmãos?

CONSELHEIRO - O Fernandinho é meu filho.

O DOUTOR - Seu filho? Natural?

CONSELHEIRO - Naturalmente.

O DOUTOR - Rapaziadas... Eu também no meu tempo...

CONSELHEIRO - Hein?

O DOUTOR - Nada; não nos lembremos de coisas tristes E sua filha sabe que ele é seu irmão?

CONSELHEIRO - Fui obrigado a dizer-lhe) mesmo porque o caso complicava-se. Magdá a princípio pareceu resignar-se... mas desde que o rapaz se foi embora, adeus minhas encomendas! são ataques, espasmos nervosos, alucinações maluquices, verdadeiras maluquices. O outro dia deu-lhe para subir ali à pedreira... Subi com ela... Ficamos a botar os bofes pela boca. Ela teve um delírio e desceu nos braços de um cavoqueiro... Por sinal que fiquei de dar-lhe uma gorjeta e ele ainda não veio buscá-la.

O DOUTOR - Você fez muito mal em deixar estes dois irmãos crescerem ao lado um do outro, expostos a todos os perigos da convivência e do Amor. Você é um idiota!

CONSELHEIRO - Escolha os termos, Doutor!

O DOUTOR - Um idiota, um pedaço d'asno, Ouviu? Isto não se faz! Agora queixe-se de si!

CONSELHEIRO - Olhe, ela aí vem. Ainda agora acabou de ter um ataque.

CENA II

OS MESMOS, MAGDÁ

(Magdá, de penteador e cabelos soltos, entra triste e abatida, e canta.)

Coplas

I

Dês que perdi meu Fernandinho,
Sinto estalar-me o coração...
Ele fugiu de nosso ninho...
Vivo a chamar por ele em vão.
Ó Fernandinho!
Meu doce irmão!
Vem cá!
Vem já!
Não tardes não!
Ah! ah! ah! ah!

II

Hoje, meu Deus, de amor definho...
Sinto fugir-se-me a razão...
E não há luz no meu caminho:
As cegas vou na escuridão.
Ó Fernandinho! etc.

(Pegando na estatueta e examinando-a.) - Amor e Psiché! Abraçados! Como são felizes! Irrita-me tanta felicidade! (Atira a estatueta pela janela.)

CONSELHEIRO - Ó minha filha! Um objeto de arte!... E me custou tanto dinheiro! ... (Magdá não responde e afasta-se.)

O DOUTOR - Aquilo cura-se. Xarope de Easton com ela.

CONSELHEIRO - Já ontem quebrou um quadro que representava Romeu e Julieta... Tive que esconder o pendant, que era Fausto e Margarida.

MAGDÁ - Recebeu cartas de Fernandinho, papai?

CONSELHEIRO - Não, minha filha... Pois se não há ainda vinte dias que teu irmão partiu!

MAGDÁ (Consigo dolorosamente.) - Meu irmão...

CONSELHEIRO (Ao Doutor.) - Faz a mesma pergunta de duas em duas horas.

O DOUTOR (Ao Conselheiro.) - Você tem sido um idiota. (Aproximando-se de Magdá.) Venha cá, menina, venha cá... deixe ver a língua... (Magdá obedece.) Está saturada de embaraço gástrico... Agora os olhos... (Examina-os.) Falta de sangue... olheiras profundas... noites mal dormidas... sonhos... pesadelos... (Auscultando-a.) Palpitações irregulares... Tussa. (Magdá tosse.) Os pulmões estão perfeitos, mas há contração tônica dos músculos...

CONSELHEIRO (À parte.) - Que diabo será contração tônica dos músculos?

O DOUTOR - E como vamos de apetite?

CONSELHEIRO - Come muito pouco... é um passarinho...

O DOUTOR - Pois é preciso alimentar-se bem... Carne sangrenta, mariscos, bom vinho do Porto... Diga-me cá: tem tido muito namorados? (Magdá tem gesto de ofendida.) Pergunto-lhe se tem tido muitos namorados!

MAGDÁ - (Com o primeiro grito de um ataque.) - Ah!

CONSELHEIRO - Ai, mau! ai, mau! aí volta o ataque!

MAGDÁ - Ah! ah! ah! (Tem um ligeiro ataque; o Conselheiro e o Doutor seguram-na.)

O DOUTOR - Vai passando...

CONSELHEIRO - Vou levá-la para o quarto. (Leva Magdá carregada.)

O DOUTOR - Você é um idiota.

CENA III

O DOUTOR, só, abanando a cabeça

O DOUTOR - Hum... hum... hum... É preciso um tratamento enérgico!

Coplas

I

Estes dados sintomáticos
Causam graves apreensões;
Há fenômenos dispépticos,
Sobressalto dos tendões.
Pode a excitação do encéfalo
Conseqüências ter fatais;
Alguma coisa há no cérebro
Ou de menos ou de mais.

II

Bom regime higiênico
Sem tardar se faz mister;
Não dispensam certos tônicos
Macacoas de mulher...
Não convém que o estado anêmico
Continue a progredir.
Hei de ver a terapêutica
Que tal possa conseguir.

CENA IV

O DOUTOR, o CONSELHEIRO

CONSELHEIRO (Entrando a limpar o suor.) - Lá ficou mais sossegada.

O DOUTOR - Meu amigo, sua filha precisa entrar em obras.

CONSELHEIRO - Em obras!

O DOUTOR - Noto na rapariga uma perigosa exaltação nervosa que, uma vez agravada, pode interessar os órgãos encefálicos e degenerar em histeria... É o diabo! sua filha já se devia ter casado!

CONSELHEIRO - Isso sei eu... e, se ainda não tem marido, não é por falta de esforços de minha parte, creia.

O DOUTOR - Se não se casar quanto antes, hum! não respondo pelo resultado.

CONSELHEIRO - Então o Doutor acha que...

O DOUTOR - Você, se não fosse um idiota, bem podia compreender o que são esses temperamentozinhos impressionáveis. São terríveis, violentos, sobretudo quando os contrariam. Não pedem: exigem, reclamam!

CONSELHEIRO - Oh! meu amigo!... assusta-me!...

O DOUTOR - Se não alcançam o que reclamam, aniquilam-se, estrangulam-se, como leões atacados de cólera. É perigoso brincar com a fera que principia a despertar!... O monstro já deu sinal de si... e, pelo primeiro berro, você bem pode calcular o que será quando estiver deveras assanhado!

CONSELHEIRO - Valha-me Deus! Que hei de fazer, não me dirá?

O DOUTOR - Já lhe disse... procure um marido, seja como for, custe o que custar... Se for preciso, necessário, compre-o.

CONSELHEIRO - Mas isso não é coisa fácil... minha filha tem recusado uma dúzia de noivos...

O DOUTOR - Pois case à força... O que é preciso é um homem, ora aí tem você! Se ela não se casar quanto antes, irá padecer muito, irá viver em luta aberta consigo mesma!

CONSELHEIRO - Em luta?... que luta, Doutor?

O DOUTOR - Ora é boa! A luta da matéria, que impõe, e da vontade, que resiste. Imagine você que tem uma fome de três dias, e que, para comer, só dispõe de um meio. Que faria neste caso?

CONSELHEIRO - Não sei, mas com certeza não roubava.

O DOUTOR - Então morria de fome. Todavia, um homem de moral mais fácil que a sua não morreria, porque roubava. Compreende? Pois aí tem!

CONSELHEIRO - Mas, meu Deus! que hei de fazer? Não posso ir para rua com minha filha à procura de um marido.

O DOUTOR - E por que não? É justamente o que deve fazer. Vá até o inferno, se for preciso, mas descubra um homem! Meta a rapariga à cara de quantos vistam calças! Vamos ao gabinete; quero receitar. Você é um idiota!

CONSELHEIRO - Seja tudo pelo amor de Deus! Vamos. (Saem.)

CENA V

LUÍS, depois MAGDÁ

LUÍS - Bossoria dá licença? Nan está cá ninguém!

MAGDÁ (Aparecendo.) - Quem é?... quem está aí?

LUÍS - Sou eu, menina... Binha pelo patrão!... Sou o moço dali da pedreira, que carregou a menina...

MAGDÁ (Enlevada.) - Ah! reconheço-te!... És o meu príncipe...

LUÍS (Espantado.) - O quê?

MAGDÁ - Como rescendes a murta, meu amor!...

LUÍS - Bossoria está muito mal enganada. Olhe que eu sou o moço dali da pedreira, que...

MAGDÁ - Sim... bem sei que te aprouve tomar este disfarce, meu formoso cavalheiro...

LUÍS - Aproube, nan senhora... a mim nan me aproubo nada... e eu nan sou cabaleiro, proque eu nan monto a cabalo... (À parte.) A moça nan me parece voa... (Alto, querendo sair.) Eu bolto noutra ocasião....

MAGDÁ - Oh! não! não vás!... não fujas!... Aqui me tens!... sou tua!...

LUÍS (Conseguindo fugir-lhe.) - Quando Bossoria quiser dar a gorjeta, pode mandá-la à pedreira...

MAGDÁ - Oh! não! Vamos antes para a gruta!...

LUÍS - Com sua licença. Bou deitar fogo a uma minota... (Saindo, á parte.) Coitadinha! é doida!

MAGDÁ - Foi-se!... Ingrato!...

A voz DO CONSELHEIRO - Magdá! Magdá! Minha filha!

MAGDÁ - Aí vou, papai. (Sai. Mutação!.)

Quadro 2

A Praça Dom Pedro II. À direita a Estação das Barcas Ferry. A cena está cheia de transeuntes, pessoas que vão tomar a barca, catraieiros, vendedores, etc.

CENA 1

Figurantes, PRIMEIRO SUICIDA, depois SEGUNDO,

TERCEIRO e QUARTO SUICIDAS

Coro

Um dos maiores prazeres
É decerto passear;
Em vez de fazer colheres,
Passeemos à beira-mar.

(Primeiro Suicida entrando muito triste e vindo ao proscênio.)

PRIMEIRO SUICIDA -

Não resisto... Não posso resistir...
Retroceder não posso...
Começava a sorrir

O mundo agora ao coração de moço
Que aqui palpita, e não palpitará
Dentro de meia hora...
Ingrata, fica em Jacarepaguá,
Enquanto expira o tolo que te adora!
Para eu matar-me, bastam, meu amor,
Dois tostões... e coragem...
Coragem tenho, sobra-me o valor,
E o níquel aqui está para a passagem,
Vou a barca tomar, de Niterói,
E atirar-me do pélago no fundo,
Ria-se embora o mundo
E diga o que disser Elói, o Herói! (Entra na Estação.)

SEGUNDO SUICIDA (Entrando.)

- Estou de falência aberta,
E é mentiroso infeliz,
Mente o povo quando diz:
Quem quebra vai pela certa.
Os meus credores - uns ursos! -
Desejam todos que eu morra,
E que ao recurso recorra
Dos que já não têm recursos. (Ouve-se apitar a barca.)
A barca da Praia Grande
Está chamando por mim!

(Vai a entrar na Estação, dá um encontrão no Terceiro Suicida, que entra da esquerda, e toma a mesma direção.)

- Desculpe.

TERCEIRO SUICIDA -

- Senhor! Assim
Pisando os outros não ande!
Mas não me engano; é o Macedo!

SEGUNDO SUICIDA - O Juca Santos! Homessa!...

TERCEIRO SUICIDA - Onde ias com tanta pressa?

SEGUNDO SUICIDA

- Direi, se guardas segredo. (Depois de ver que o não o ouvem.)
Eu ia atirar-me ao mar!

TERCEIRO SUICIDA (Com o mesmo jogo de cena.) - E dois!

SEGUNDO SUICIDA - Também?

TERCEIRO SUICIDA - Também.

Outro recurso não tem
Ao que cheguei quem chegar
- Estou de todo perdido:
Querem abrir-me a falência...

SEGUNDO SUICIDA

- Na mesmíssima emergência
Estou.

TERCEIRO SUICIDA - Falido?

SEGUNDO SUICIDA - Falido.

TERCEIRO SUICIDA - Estimo.

SEGUNDO SUICIDA - Estimas, ó Santos!

TERCEIRO SUICIDA -

- Um mergulho na baia,
De um amigo em companhia
Talvez tenha os seus encantos.

SEGUNDO SUICIDA

- Exp'rimentemos... Morramos!... (Ouve-se novo apito.)
Segundo apito da barca!

TERCEIRO SUICIDA

- Não é barca, não: é Parca!
- Vamos meu amigo!

SEGUNDO SUICIDA - Vamos!

(Dirigem-se para a Estação, um deles pisa no pé ao Quarto Suicida, que entra da esquerda com o mesmo destino.)

QUARTO SUICIDA -

- Safe! estão cegos, senhores?
Esborracharam-me um dedo!...
Mas... o Santos e o Macedo!
São ambos meus devedores!

SEGUNDO e TERCEIRO SUICIDAS - O Soares!...

QUARTO SUICIDA -

- Ah! tratantes!
Deus vos conduziu aqui
Para que vejais suici-
Dar-se a flor dos negociantes!
Vós e outros tais como vós,
Causastes as minhas mágoas!
Eu vou atirar-me às águas!
Eu vou morrer!

SEGUNDO e TERCEIRO SUICIDAS - Também nós.

QUARTO SUICIDA - Vão suicidar-se?

SEGUNDO SUICIDA - Bem vês.

QUARTO SUICIDA -

Rapazes, têm companheiro:
Onde morre um brasileiro
Podem morrer dois e três.

SEGUNDO SUICIDA - Cara alegre! Bizarria!

TERCEIRO SUICIDA - Não tarda a barca a largar!

QUARTO SUICIDA -

- Eu acabei de almoçar:
Receio uma apoplexia...

SEGUNDO SUICIDA - Eia! a morte satisfaz-nos!

TERCEIRO SUICIDA - Não nos falte a intrepidez!

(Vai saindo, o Quarto suicida retém-nos.)

QUARTO SUICIDA - Um instante... nós somos três...

SEGUNDO e TERCEIRO SUICIDAS - Somos.

QUARTO SUICIDA - Três pedaços d'asnos.

SEGUNDO SUICIDA - Eu só vejo dois...

TERCEIRO SUICIDA - E eu...

QUARTO SUICIDA -

- Tem razão: só vejo dois...
Mas deixemos pra depois
A modéstia.

SEGUNDO SUICIDA - Sim.

TERCEIRO SUICIDA - Valeu!

QUARTO SUICIDA -

A morte é uma covardia.
Diz a conhecida chapa:
Se a gente da morte escapa
E funda uma companhia?

SEGUNDO SUICIDA - Mas não temos um ceitil!...

QUARTO SUICIDA - Razão demais.

TERCEIRO SUICIDA - Sim... que em suma...

QUARTO SUICIDA

- Eu tenho o projeto de uma
Associação dos Cem Mil

SEGUNDO SUICIDA - Vamos estudá-lo?

TERCEIRO SUICIDA - E já!

QUARTO SUICIDA -

- Verão... é o rei dos projetos!
Publicados os prospectos,
Dinheiro não faltará!...
Dos tolos a espécie abunda
(Não é tolice supô-lo.)
Mas dos tolos o mais tolo
É o que nas águas se afunda,
Pois se podemos achar
Em terra firme a ventura,
Por que buscar sepultura
Ali no fundo do mar?
Embarquemos, não na barca,
Mas numa especulação,
E os outros, de nós dirão:
Oh! que espertalhões de marca!
Eia! tempo não percamos!
Time is money, diz o inglês.
Muito breve todos três
Enriqueceremos.

OS TRÊS - Vamos!

(Saem abraçados. Logo que desaparecem, ha' muito movimento em cena; ouvem-se vivas, aclamações. Entram o Conselheiro e Magdá, que vêm da Estação com outros passageiros, que desaparecem.)

CENA II

O CONSELHEIRO, MAGDÁ

CONSELHEIRO - Bem, está feita a tua vontade: fomos á Praia Grande. Agora esperemos aqui um bondinho do Rossio Pequeno.

MAGDÁ (Que olha para o bastidor.) - Que é aquilo, papai?

CONSELHEIRO - São os acadêmicos, que foram buscar a bordo o Doutor Domingos Freire.

MAGDÁ - Ah! sim! o tal que descobriu o micróbio da febre amarela. Dizem que fez um figurão na Europa!

CONSELHEIRO - E há de fazer outro figurão nos Estados Unidos, para onde vai brevemente partir. É pena que não seja solteiro... Aí estava um ótimo partido para a pequena! (Tem se restabelecido o silêncio sai da Estação um indivíduo acompanhado por um agente.)

CENA III

OS MESMOS, um AGENTE DE POLÍCIA, acompanhado por um MANÍACO, depois o GENERAL e sua comitiva, PRIMEIRO, SEGUNDO e TERCEIRO SECRETÁRIOS

O AGENTE - Ora a minha vida! ora a minha vida! (O Maníaco pára a acender um charuto e o Agente pára também.)

CONSELHEIRO - Por que tanto se lastima, meu amigo? (A Magdá). É um rapaz bem apessoado; não te parece?

MAGDÁ - Ora, papai!

O AGENTE - E obriga-se a isto um homem casado e pai de filhos!

CONSELHEIRO (À parte.) - Casado... (Alto.) Mas a que o obrigam, afinal?

O AGENTE - A acompanhar aquele senhor, que tem a mania das perseguições. Fui dar hoje com os ossos em Icaraí.

CONSELHEIRO (Examinando o Maníaco com interesse.) - Ora ali está um moço que...

MAGDÁ - E de quem se queixa ele?

O AGENTE - Queixa-se principalmente da esposa, que é, aliás, uma excelente senhora.

CONSELHEIRO (À parte.) - Também casado! Que sina!

O AGENTE - Quando eu menos esperar, este sujeito será capaz de me fazer alguma. Veja como ele me olha! Agora quer ir por força ao Café de Java... e não há remédio senão acompanhá-lo. (O Maníaco tem acendido o charuto e sai.) Lá vai ele! (Sai.)

CONSELHEIRO - Acho que o mais prudente seria trancafiá-lo. E este bondinho, que não chega!

MAGDÁ - Naturalmente houve transtorno na linha.

(Entra o General acompanhado por sua comitiva e por pessoas do povo. Todos o examinam com admiração. O General traz brilhantes por toda parte: no peito da camisa, no cabo do guarda-sol, nos dedos e até nos botões da sobrecasaca.)

Canto

O GENERAL - Eis aqui o ex-presidente!

OS SECRETÁRIOS - És muito valiente!

O GENERAL -

- Eu venho fazer figura,
E talvez fique por cá;
Aqui qualquer caradura
Perfeitamente se dá.

No Rio de Janeiro
Faz o que bem quer,
Tipo de dinheiro,
Venha de onde vier.
Nos bolsos não trago
Menos de um milhão!
Tenho muito bago,
Muito patacão.

CORO -

Que grande charlata!
Vale um Potosi!
Maior patarata
Não vimos aqui!

MAGDÁ - Papai, veja como este homem tem brilhantes por toda parte!

CONSELHEIRO - É verdade! Até nos botões da sobrecasaca!

O GENERAL - Ainda não viram nada. No meu palácio não há porta sem brilhantes, nas maçanetas dos trincos.

CONSELHEIRO (À parte.) - Oh! que partido! (Cumprimentando-o com muita amabilidade.) Eu sou o Conselheiro Pinto Marques, e tenho a honra de apresentar a Vossa Excelência minha filha.

O GENERAL - É guapa... Minha mulher estimará muito conhecê-la.

CONSELHEIRO (À parte.) - Ora bolas! É também casado!

O GENERAL - Senor secretario...

PRIMEIRO SECRETÁRIO - General!

O GENERAL - Tenciono partir hoy mismo para Petrópolis. Infórmese usted a que horas tendremos conduccíón.

PRIMEIRO SECRETÁRIO - Señor secretario.

SEGUNDO SECRETÁRIO - Presente!

PRIMEIRO SECRETÁRIO - Infórmese usted a que horas tendremos conducción para Petrópolis.

SEGUNDO SECRETÁRIO - Senor secretario!

TERCEIRO SECRETÁRIO - Presente.

SEGUNDO SECRETÁRIO - Infórmese usted a que horas tendremos conducción para Petrópolis.

TERCEIRO SECRETÁRIO - Voy a mandar mi secretario (Sai.)

CONSELHEIRO - Safa! é uma secretaria ambulante! (A Magdá.) E vão ver que nenhum destes secretários é solteiro.

O GENERAL - Estão todos admirados e de boca aberta, a olhar para mim, como se fosse alguma raridade!

MAGDÁ - Têm-no pintado como um herói.

O GENERAL - E o sou, caramba! É justamente por isso que me expatriaram, depois de me terem quase dado cabo do canastro!... Olhe... Vê? (Mostra a boca.) Faltam-me aqui dois dentes: foi uma bala!

CONSELHEIRO - Olhem que brincadeira!

O GENERAL - Agora vou, mas é tratar de tornar a minha vida aqui o mais agradável possível. Vou comprar uma casa... vou mandar vir os meus animais de corridas...

MAGDÁ - Ah! Vossa Excelência também é amador de esporte?

O GENERAL - Tenho uns cavalos que não correm...

CONSELHEIRO - Então não servem?

O GENERAL - Não correm: voam, caramba! são tão velozes, que, ainda bem não se deu o sinal de partida, e já eles estão no poste do vencedor.

TERCEIRO SECRETÁRIO (Voltando ao Segundo Secretário.) - Mi secretario informa que la barca de Petrópôlis parte a las cuatro.

PRIMEIRO SECRETARIO (Ao General.) - El secretario del secretario del secretario de mi secretario informa que la barca de Petrópolís parte a las cuatro.

O GENERAL - Não temos muito tempo. Vamos. (Ao Conselheiro.) Caballero... señoríta... (Saem repetindo o coro. O Conselheiro e Magdá acompanham-no até o bastidor.)

CENA IV

CONSELHEIRO, MAGDÁ, afastada, o PRIMEIRO SUICIDA, depois o DOUTOR MODESTO, e mais tarde um ALFAIATE

PRIMEIRO SUICIDA (Muito alegre, sem chapéu, vindo ao proscênio.)

- Eu não tive coragem...
Quando cheguei ao meio da viagem,
Olhei para esta bela natureza,
Contemplei esta esplêndida riqueza,
E resolvi da vida não dar cabo...
A água deve estar fria como o diabo!
Mas fiz uma pilhéria
Que vai dar que falar à imprensa séria;
Deixei na barca o meu chapéu e a carta
Que do mundo me aparta...
Quando ela ler aquela despedida,
Há de chorar o mísero suicida!
Ó tu, que amor esbanjas
Sem que me dês uma migalha ao menos,
Chora por mim, que eu vou formosa Vênus,
Pra Jacarepaguá comer laranjas. (Sai.)

CONSELHEIRO (Descendo com Magdá.) - E nada do bondinho!

MAGDÁ - Alguma coisa que atravancou a linha.

CONSELHEIRO (Ao Doutor Modesto, que sai da Estação.) - Oh, meu caro Doutor! que feliz encontro!

MAGDÁ (A parte.) - Deus queira que seja casado.

CONSELHEIRO - Desejava imensamente falar com Vossa Senhoria.

O DOUTOR - Estou sempre às suas ordens.

CONSELHEIRO - Ainda hoje li um anúncio seu: é certo que pretende introduzir efetivamente entre nós o hipnotismo?

O DOUTOR - Assim é; hoje só curo por sugestão hipnótica, sem ser preciso adormecer o doente. Tem que me fazer alguma consulta?

CONSELHEIRO - Mais tarde trataremos desse ponto...

MAGDÁ (Baixo ao pai.) - Eu comigo não quero sugestões... fique papai sabendo desde já.

CONSELHEIRO (À filha.) - Espera. (Ao Doutor.) O que antes de mais nada eu desejo saber é se a sugestão se aplica a todos os entes humanos independentemente de qualquer ação patológica.

O DOUTOR (Sem entender.) - Como?

CONSELHEIRO (À parte.) - Mau! parece que disse asneira... (Alto.) Por exemplo: um indivíduo pode tocar piano, fazer uma fritada, pôr fundilhos numas calças por sugestão hipnótica, ou para isso é necessário que ele seja pianista, cozinheiro ou remendão?

O DOUTOR - Conforme: depende do indivíduo, cuja natureza pode prestar-se ou não à influência hipnótica.

ALFAIATE (Entrando arrebatadamente, ao Doutor.) - Apanhei-te, cavaquinho! Se é capaz, negue-se agora! Diga que não está em casa!

O DOUTOR (A parte.) - Oh, diabo! o alfaiate!... (Alto.) Que quer o senhor, não me dirá? Que modos são estes?

ALFAIATE - Ainda mo pergunta? Quero dinheiro! Há mais de um ano que o senhor anda a zombar de mim... a esconder-se... A fazenda custou dinheiro e o feitio também... Quero para aqui os meus trezentos e vinte e sete mil e quinhentos!...

O DOUTOR (Ao Conselheiro.) - Ora vamos ver se este sujeito tem uma natureza flexível. (Aproxima-se do criado e começa a fazer-lhe passes magnéticos.) Com que então o meu amigo diz que...

ALFAIATE (Abrandando-se a pouco e pouco.) - Sim, os meus trezentos... e vinte e sete mil e quinhentos...

O DOUTOR (Continuando com os passes.) - Pois já se não lembra que eu?...

ALFAIATE - Sim... que Vossa Senhoria... me pagou... Pois não... Não havia tanta pressa... Quer que lhe passe o recibo? Onde há de ser? Ah! ali! Já lho trago! já lho trago! (Sai.)

CONSELHEIRO - É espantoso!

MAGDÁ - Assombroso!

O DOUTOR - Não acham?

CONSELHEIRO - Pouco liso... mas espantoso...

O DOUTOR - Ah! foi apenas uma experiência. Não vá agora pensar que eu me valho do hipnotismo para pagar as minhas dívidas.

CONSELHEIRO - Se o Doutor pudesse fazer com que chegasse por sugestão hipnótica o bondinho do Rossio Pequeno...

ALFAIATE (Voltando.) - Cá está o recibo... e sempre às suas ordens. (Dá a mão a apertar ao Doutor, que lhe faz novos passes magnéticos.) Ah! sim... queira desculpar-me... ia-me esquecendo do troco... Vossa Senhoria deu-me duzentos e cinqüenta mil réis; aqui estão vinte e dois mil e quinhentos... (Cumprimentando.) Quando precisar de alguma coisa, lembre-se de nossa casa, tenho agora umas casimiras... (Sai.)

O DOUTOR - Conselheiro, apareça... Minha senhora... (À parte, saindo.) Já não perdi o meu dia...

CONSELHEIRO - Que grande gatuno...

MAGDÁ - Hipnótico!...

CENA V

O CONSELHEIRO, MAGDÁ, marinheiros franceses, CAVAIGNAC, duas meninas cearenses

CONSELHEIRO - Xi! que porção de marinheiros! Ah! vejo que pertencem à guarnição da fragata francesa que ali está no porto.

MAGDÁ - Parecem contentes. (Entram os marinheiros franceses e saem depois de cantar um longo coro, cuja letra se suprime, porque tomaria muito espaço e não interessa á leitura da revista.)

CAVAIGNAC (Entrando com as duas meninas.) - Senhor Conselheiro, minha senhora, compadeçam-se destas pobres meninas.

CONSELHEIRO - Quem são estas crianças?

CAVAIGNAC - As heroínas do naufrágio do Bahia... Ando a esmolar em favor delas... Fui levá-las à Praia Grande, onde tenho muitas relações.

CONSELHEIRO (Dando-lhe dinheiro.) - Pela minha parte não duvido concorrer...

CAVAIGNAC - Vão Vossas Excelências amanhã, no Teatro Lucinda, assistir à conferência que o Paula Ney realiza em benefício destas infelizes... a tese é O Ceará e suas Grandezas... As ordens de Vossas Excelências. (Sai com as meninas.)

CONSELHEIRO - Passar bem, Senhor Cavaignac. (À Magdá.) Também é casado... Uma conferência de Paula Ney! Deve ser enorme!

MAGDÁ - Enorme é aquela mulher que ali vem. Quem será? (Entra a Divida Lamberti, representada por uma mulher extremamente alta.)

CENA VI

O CONSELHEIRO, MAGDÁ, a DÍVIDA LAMBERTI

A DÍVIDA LAMBERTI (zangada.) - Súcia de galfarros! Cheirou-lhes bem a coisa! (Ao Conselheiro, apontando para o bastidor.) Não vê, meu senhor? A Praça do Mercado está sitiada... São trinta cães a um osso... Querem todos arrendá-la... Mas a minha proposta é a melhor, e a que mais vantagens oferece. Só assim poderei diminuir, porque, crescendo desta maneira, não sei onde vá parar!

CONSELHEIRO (A Magdá.) - Tu percebeste?

MAGDÁ - Nada!

CONSELHEIRO - Quem é a senhora?

A DÍVIDA LAMBERTI - Pois não me conhece? Sou a Dívida Lamberti!

Tercetino

A DÍVIDA LAMBERTI

- Há poucos anos passados,
Eu era assim pequerrucha...

CONSELHEIRO e MAGDÁ - Pequerrucha...

A DÍVIDA LAMBERTI - E não tinha estes ares de bruxa...

CONSELHEIRO e MAGDÁ - E não tinha estes ares de bruxa!

A DÍVIDA LAMBERTI -

- Com juros acumulados,
Eu fui crescendo... crescendo...

CONSELHEIRO e MAGDÁ - Foi crescendo...

A DÍVIDA LAMBERTI

- Do tamanho fiquei que estão vendo!
Por sentença do juiz do Comércio,
Há de a tal Municipalidade,
Muito embora não tenha vontade,
Escarrar o meu justo valor;
Porém ela não sei com que conta:
Cada vez que lhe falo, respinga,
E vai sempre fugindo à seringa
Com desculpas de mau pagador.
Há poucos anos passados, etc.

CONSELHEIRO - Ela até já parece maior do que quando chegou! (A Dívida Lamberti tem saído depois do canto.)

MAGDÁ - Papai, vamos a pé... Decididamente não chega o tal bondinho!

CONSELHEIRO - Pois vamos, filha! (Vozeria; a cena enche. se de gente, que foge toda para direita, como atraída por alguma coisa.) Que é isto? Vamos ver também! (Sai com Magdá. A cena fica vazia. A orquestra executa o Hino Nacional em surdina, enquanto lá fora continua uma vozeria confusa.)

CENA VII

A POPULAÇÃO FLUMINENSE

- Sou a População chorosa, amargurada,
Que vê partir pra longe a pérola dos pais...
Forte, robusto e são, de novo à Pátria amada,
Trazei-o meigamente, ondas que mo levais!
e este dia de luto ateste o mundo inteiro
O seu merecimento e o meu profundo amor,
Transunto fiel de todo o povo brasileiro,
O povo fluminense adora o Imperador.

(Sai. A cena transforma-se.)

Quadro 3

A baia do Rio de Janeiro no dia da partida do Imperador para a Europa, em 1887. A orquestra executa a toda força o Hino Nacional.

(Cai o pano.)

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