Quadro 4
A Praça da Aclamação na parte não ajardinada. A cena está cheia de curiosos, que esperam por um meeting abolicionista. Formam-se e dissolvem-se grupos. Um movimento extraordinário.
PRUD'HOMEM, PRIMEIRO ABOLICIONISTA, SEGUNDO ABOLICIONISTA, curiosos, depois o CONSELHEIRO e MAGDÁ
Coro
Só curiosidade
Traz os que aqui 'stão:
Querem ver se o meeting
Se fará ou não...
Vão ferver, decerto,
Murro e cachação!
PRUD'HOMEM - Sempre quero ver se havemos ou não de fazer o meeting!
PRIMEIRO ABOLICIONISTA - Decerto que faremos! Tinha graça que nos sujeitássemos a semelhante imposição!
SEGUNDO ABOLICIONISTA - Homem, não seja tão exaltado... não sejamos abolicionistas a ponto de querermos abolir a força da policia.
PRUD'HOMEM - Fizeram-nos sair do Politeama, mas não nos arrancarão da praça pública.
SEGUNDO ABOLICIONISTA - Conforme... conforme...
PRUD'HOMEM - Podem assestar contra mim uma peça de artilharia.
SEGUNDO ABOLICIONISTA - Não diga isso!
PRUD'HOMEM - Daqui não arredo pé!
SEGUNDO ABOLICIONISTA - Arredo eu.
PRIMEIRO ABOLICIONISTA - Pois deixa-nos?
SEGUNDO ABOLICIONISTA - Tenho que escrever o meu terceiro artigo contra o vizinho...
PRUD'HOMEM - O senhor tem estado de uma violência...
SEGUNDO ABOLICIONISTA - Sou delicado... sou brando... calço luva de pelica... Mas quando me fazem sair fora do sério, não respondo por mim! Estão vendo esta gravidade? Pois tudo isto desaparece desde o momento em que a mostarda me suba ao nariz. (Cumprimenta com muita gravidade. Entram o Conselheiro e Magdá.)
PRUD'HOMEM - Aí vem o Conselheiro Pinto Marques... (Ao Primeiro Abolicionista.) Tu, que tens com ele mais intimidade, vê se o resolves a tomar logo a palavra. (Dirigindo-se ao Conselheiro.) Ó, Excelentíssimo, como tem passado? Minha senhora!
CONSELHEIRO - Logo vi que o havia de encontrar, Senhor Prud'homem. Um exaltado de sua força! (Prud'homem cumprimenta e afasta-se. O Conselheiro, ao Primeiro Abolicionista.) Ó Senhor Barroso! (Baixo á Magdá.) Que tal o achas? Tem alguma coisa de seu...
PRIMEIRO ABOLICIONISTA - Aproveito o feliz encontro para participar a Vossa Excelência que me caso sábado. Se quiser dar-me a honra...
CONSELHEIRO - Felicito-o. (À parte, despeitado.) Mais um!
MAGDÁ (À parte, com alegria.) - Menos um!
CONSELHEIRO - Então? temos ou não temos meeting?
O ABOLICIONISTA - Se temos! É possível até que haja sangue, muito sangue mesmo!
CONSELHEIRO (Assustado.) - Acha?
O ABOLICIONISTA - Sangue? Que digo? Mortes!... Mas há de fazer-se o meeting!
CONSELHEIRO (Querendo sair.) - Com sua licença: tenho que tratar num negócio importante...
O ABOLICIONISTA - Nada! Já o não largo! Um homem como Vossa Excelência é que nós procuramos!
CONSELHEIRO - Ah! andam também à procura de um homem? Pois consolem-se comigo, que sou uma espécie de Diógenes.
OS MESMOS, a JUSTIÇA, depois DOZE INIMIGOS DA JUSTIÇA
JUSTIÇA (Entrando com as vestes rotas, a balança quebrada e os olhos vendados.) - Socorro! Acudam-me! Socorro!
TODOS - Que é isto? que foi? quem é a senhora?
JUSTIÇA - Eu sou a Justiça... e tão esfarrapada que, confesso, estou vendida no meio de tanta gente... Doze cidadãos, que deviam defender-me, juraram dar cabo de mim... Já me deixaram neste estado, e, não satisfeitos ainda de me haverem posto fora de casa a pontapés, perseguem-me até a rua!
MAGDÁ - Coitadinha! Ah! se eu fosse homem! (Entram os Doze Inimigos da Justiça armados de cacete e ameaçadores.)
UM INIMIGO - Havemos de levá-la a toque de caixa até o Asilo de Mendigos!
OS OUTROS - Isso! isso! Asilo com ela!
CONSELHEIRO - Pois, senhores, não se envergonham de tratar desta maneira uma pobre mulher vendida... quero dizer vendada?
O INIMIGO - Não atendemos a razões! Siga!
TODOS - Siga!
Coro
Vá lá! Vá lá!
Sem respingar, siga adiante!
Vá já! Vá já!
Saia daqui no mesmo instante!
Inda o asilo está distante,
Mas depressa chegará.
Vá lá! Vá lá!
(Saem esbordoando e perseguindo a Justiça.)
CONSELHEIRO - Mas com que ardor eles lhe atiçam!
MAGDÁ - Dir-se-ia que estão pagos para isso!
OS MESMOS, um EMPREGADO DO TESOURO, depois o DOUTOR COW-POX
O EMPREGADO - Ó Senhor Conselheiro! Venho agora mesmo de sua casa! tinha que falar-lhe sobre um negócio...
CONSELHEIRO - Ah! Sim? (À parte.) Vai pedir-me a pequena! (Alto, á filha.) Magdá, minha filha, cumprimente aqui o senhor: é um moço distinto.
MAGDÁ - Senhor...
O EMPREGADO - Há mais de oito dias que faço tenção de procurá-lo. Infelizmente um filhinho meu foi atacado de varíola...
CONSELHEIRO (À parte.) - Um filhinho! Ora sebo! (Alto, secamente.) Queira dizer então o que pretende.
O EMPREGADO - Como sabe, sou empregado do Tesouro, e, organizando a relação dos devedores à Fazenda Nacional, por títulos, condecorações, etc., encontrei o seu nome e lembrei-me de preveni-lo.
CONSELHEIRO - Quê! O senhor pensa que não tenho em que empregar o meu dinheiro? Como eu, há muitos, há milhares!
O EMPREGADO - Assim é, com efeito... mas, conhecendo e sabendo como são austeros os seus princípios...
CONSELHEIRO - O meu principal principio, meu caro senhor, é que quem é tolo pede a Deus que o mate e ao diabo que o carregue! Desde que a maior parte não paga, não serei tão pacóvio que...
O EMPREGADO - Porém...
CONSELHEIRO - E demais, escrevi no álbum que vamos oferecer ao Ministro...
MAGDÁ - Ah! papai escreveu? Algum pensamento? Qual foi, papai?
CONSELHEIRO - O meu nome ... como todos.
MAGDÁ - Ora um álbum de nomes!... que lembrança!
CONSELHEIRO - Sua Excelência vai ter algumas horas de deleitosa e instrutiva leitura.
MAGDÁ - Antes lhe oferecessem o Indicador Laemmert.
CONSELHEIRO - Pelo menos era muito mais barato.
MAGDÁ - E lia-se melhor, por ser letra de imprensa...
O EMPREGADO - Então não quer pagar?
CONSELHEIRO - Eu me entenderei com o Ministro.
O EMPREGADO - Faz muito bem: procure o homem...
CONSELHEIRO - Procure o homem! Mas eu não faço outra coisa há tanto tempo! Olhe, ali vem o Doutor Cow-Pox com a vacina animal. Agarre-se a ele para vacinar-lhe a família.
O EMPREGADO - O conselho não é mau; vou aproveitá-lo.
(Entra o Doutor Cow-Pox, puxando uma vaquinha que traz chocalho no pescoço.)
O DOUTOR - Vacina animal! único preservativo eficaz contra a varíola!
Coplas
Quem me vir co'esta vaquinha
Pensará que eu vendo leite,
Porém tal ninguém suspeite,
Pois que leite ela não dá;
Não é vaca a vaca minha;
Não é vaca e sim vitela,
Quando a vaca inda é donzela
Não é vaca: sê-lo-á.
Tlin! tím! tlin!
Quem quiser boa vacina
Superfina
Aproxima-se de mim.
Mas, voltando à vaca fria,
Saibam todos que esta vaca
Da varíola a sanha aplaca,
Ande embora a quatro pés.
Quem temer a epidemia
Vamos lá! não perca a vaza:
No Hospital da Santa Casa
Me achará das oito às dez.
Tim! tlin! tím!
Assim pois, meus senhores, só terá hoje varíola quem quiser tê-la!
O EMPREGADO - Se Sua Senhoria pudesse chegar com a vaquinha até a nossa casa... Tenho uma porção de filhos. É perto daqui.
O DOUTOR - Vamos lá então. (Saindo, acompanhado pelo Empregado e por alguns curiosos.) Vacina animal! o único preservativo eficaz contra a varíola!
CONSELHEIRO - É um servição que nos está prestando esse doutor...
MAGDÁ - Por que não lhe pediu que me vacinasse?
CONSELHEIRO (Distraído.) - É impossível, o doutor é casado...
MAGDÁ - Falo-lhe da vacina, e papai responde-me que o doutor é casado. Que maçada!
CONSELHEIRO - Sim... bem sei... mas não é de vacina que tu precisas: é de...
MAGDÁ (Vendo entrar o Padre Inácio.) - Um Padre!
CONSELHEIRO - O padre é o menos... Apareça o homem, que padres andam por ai às dúzias.
OS MESMOS, o PADRE INÁCIO, depois o BARÃO DE CAIAPÓ
O PADRE (Cumprimentando.) - Senhor... Sou o Padre Inácio.
CONSELHEIRO - Perdão, não era com Vossa Reverendíssima que eu falava. Não tenho a honra de conhecê-lo.
O PADRE - Eu sou o Padre Inácio.
MAGDÁ - O da cartilha?
O PADRE - Não, minha filha, o do balão. (Ao Conselheiro.) Já que o encontro: a sua graça?
CONSELHEIRO - Conselheiro Pinto Marques.
O PADRE - Já que o encontro, Senhor Conselheiro Pinto Marques, tenho a satisfação de convidá-lo para a experiência que vou, pela centésima vez, realizar daqui a pouco.
CONSELHEIRO - Pela centésima vez? De que se trata então?
O PADRE - Da direção dos aeróstatos.
CONSELHEIRO - Homem, Padre, eu acho que Vossa Reverendíssima faria muito melhor tratando da direção das almas.
O PADRE- E a glória? e a imortalidade?
CONSELHEIRO - Histórias, Padre, histórias.
O PADRE - Histórias, não, senhor; descobri o meio de dirigir os balões... Comprei o Santa Maria de Belém.
CONSELHEIRO - Entra, Santa Maria!
O PADRE (Espantado.) - Como?
CONSELHEIRO - Nada. Lembrei-me agora de uma nova gíria de capoeiras, que li nas Noticias Várias... Entra, Santa Maria!
O PADRE - Noventa e nove vezes tentei subir...
CONSELHEIRO - Mas não subiu?
O PADRE - Não subi, porque, em havendo gás, o balão arrebentava, e quando o balão não arrebentava...
MAGDÁ - Não havia gás.
O PADRE - É verdade, minha filha; mas hoje...
CONSELHEIRO e MAGDÁ - Hoje?
O PADRE - Hoje, ou eu vou aos ares no balão, ou vai tudo pelos ares! Foi um padre brasileiro o inventor dos aeróstatos... Outro padre, e também brasileiro, descobrirá o ponto de apoio.
CONSELHEIRO - Está então disposto a pintar o padre?
O PADRE - Pintar o!... Estou disposto a pintar sua avó torta! Veja lá se quer divertir-se à minha custa! (Saindo.) Eu lhe mostro se subo ou se não subo. (Sai.)
MAGDÁ - Para que papai foi bolir com o padre?
CONSELHEIRO - Ora! um homem... que não é homem! Oh! Há quem aqui vem: o Barão de Caiapó.
O BARÃO (Que tem entrado.) - Barão por hora: qual. quer dia passo a Visconde. Nada, agora fia-se mais fino! Riem-se? Continuem a rir, se lhes parece. A coisa custou, mas veio.
CONSELHEIRO - O que é que veio, Barão? Você explique-se!
O BARÃO - Não vê esta encadernação de luxo? Calça da Estrela do Brasil... sobrecasaca do Simonetti... Ah! Meu amigo! Passei a minha concessão a uma grande companhia inglesa, e recebi bom número de pelegas. Estou rico! Arre! que já não é sem tempo!
CONSELHEIRO - Está rico! (Tirando o chapéu.) O senhor vai agora quebrar a castanha na boca de muita gente!
O BARÃO - Vou mesmo.
CONSELHEIRO - Eu por mim declaro que Vossa Senhoria nunca me pareceu ridículo, sempre censurei certas pilhérias de mau gosto.
O BARÃO - Eu sei... Agora sou um cidadão importante.
CONSELHEIRO (Depois de alguma hesitação e consultando Magdá com os olhos.) - E Vossa Excelência não pretende mudar de estado?
O BARÃO - Casar-me, eu? Está doido! Pois acabo de sofrer horrores durante tantos anos para obter a minha concessão, e agora, depois de velho e de arranjado, hei de procurar nova sarna para me coçar? Ora viva! casar-me! Nem uma princesa que me aparecesse! (Sai.)
MAGDÁ - Ora que lembrança, papai! Fazer de mim Baronesa de Caiapó!
CONSELHEIRO - Minha filha, este homem é uma mina! Hei de voltar à carga!... (Vendo uns tipos suspeitos.) Sabe que mais? Vamos embora. Isto por aqui está cheio de capoeiras, e eu respeito muito esses senhores.
MAGDÁ - Capoeiras? ainda?... Mas depois das medidas votadas pelo Parlamento...
CONSELHEIRO - Pois sim! ainda agora acabam de formar uma nova malta... Os Conceições da Marinha... Estamos perto do Museu... Vamos ver o esqueleto da baleia que apareceu na Copacabana.
OS MESMOS, o PRIMEIRO ABOLICIONISTA
PRIMEIRO ABOLICIONISTA - Conselheiro, aproxima-se a hora do meeting.
CONSELHEIRO - Hem? Já? Vamo-nos embora!
PRIMEIRO ABOLICIONISTA (Agarrando-o.) - Não consinto! Vossa Excelência há de soltar o verbo!
CONSELHEIRO - E o senhor há de soltar-me o casaco. Está maluco? (Desprendendo-se.) Vamos ver a baleia! (Sai levando Magdá.)
PRIMEIRO ABOLICIONISTA (Falando a um grupo que se tem reunido.) Cidadãos, as cenas de violência de que foi teatro o Teatro Politeama...
VOZES - Apoiado!
PRIMEIRO ABOLICIONISTA - A perseguição sem tréguas de que somos vítimas... (Ouve-se apitar.)
VOZES - A polícia! (O Primeiro Abolicionista deita a fugir e desaparece. Entra a polícia, que dispersa o povo. Grande tumulto. Música na orquestra. Mutação.)
Quadro 5
O peristilo do Palácio da Imprensa.
UM PORTEIRO
PORTEIRO -
Isto aqui é o soberbo peristilo
Do Palácio da Imprensa.
Meus, senhores, e aquilo,
Aquela casa imensa,
É o Palácio, onde exerço
De porteiro as funções em prosa e verso.
A gente que me vê pasmada fica
De ter casa tão rica
Um porteiro tão sujo...
Quintino, Castro, Chaves, Araújo
E os demais jornalistas, bem quiseram
Despedir-me daqui, porém toleram
Minha ignóbil presença,
Porque sem mim, não pode haver imprensa
No Rio de Janeiro,
Nem no Brasil inteiro.
Dizem todos de mim o que Mafoma
Ao toicinho poupou, mas ninguém toma
A deliberação de me pôr fora.
Eu passo muito bem, não vou me embora.
Às ordens me acho aqui todos os dias
De Vossas Senhorias:
Se pretendeis na imprensa
Dirigir uma ofensa
Por detrás da cortina,
Quaisquer injúrias esta mão assina.
Nem procuro sequer saber o assunto,
Nem o nome da vítima pergunto.
Se acaso contra mim se volta a vítima,
Eu digo-lhe chorando
Que exerço honesta profissão legitima,
E movo-lhe a piedade,
E ela deixa-me em paz. É bem verdade
Que vou, de quando em quando,
Na cadeia cumprir uma sentença
Por delitos de imprensa.
Não faço cara feia,
Pois tenho na cadeia
Casa, cama e comida;
Só não tenho jornais, que é coisa proibida.
Se alguém precisa de ladrão pra cima
Ao próximo chamar, burro, bilontra,
Tudo quanto quiser, ao seu dispor me encontra:
Eu chamo-me Romão José de Lima.
O PORTEIRO, o CONSELHEIRO, MAGDÁ
PORTEIRO -
- Quem procura o senhor? Deseja acaso
Passar descomponenda
Que deite tudo raso,
Sem que dessa coragem se arrependa,
Ou que ponha vermelha,
A cara de Brantôme e a de Bocácio?
Quem procura o senhor neste Palácio?
CONSELHEIRO -
- O Doutor Várias e o Doutor Zé Telha.
(A Magdá.) Fala-me em verso; em verso lhe respondo.
MAGDÁ - Antes os versos do que a prosa chata!
PORTEIRO - Procura os dois? Será coisa de estrondo?
CONSELHEIRO - Coisa particular.
MAGDÁ - De que se trata?
CONSELHEIRO
- De ti se trata, minha filha: andamos
Há tanto tempo a procurar um homem;
Daqui pr'ali constantemente vamos,
E as ilusões efêmeras se somem.
Só poderemos encontrar marido
Que ofereça magnífico partido
Na bela imprensa. José Telha é moço
E de espírito um poço;
Tem pelas sogras um rancor profundo:
Tu não tens mãe, que a minha Gabriela,
Para eterno descanso - meu e dela -
Deixou-me só no mundo.
O outro, o Várias, é talvez mais velho,
Mas não é trapo que se atire ao canto:
Agrada-me, porquanto
Não quero ver-te esposa de um fedelho.
MAGDÁ -
Mas porque carga d'água na veneta
- Ser o sogro lhe deu de um jornalista?
CONSELHEIRO -
- Filha, eu leio o Jornal, leio a Gazeta:
Vi uma discussão fisiologista
Entre esses dois senhores, a propósito
Das suas respectivas qualidades,
E nenhum deles, se escreveu verdades,
É traste que se mande pro Depósito.
Se eu quero achar um homem, certamente
Melhor não posso desejar que aquele
Que declara que o é, publicamente.
PORTEIRO -
- Permita que uma coisa eu lhe revele:
O Telha e o Várias são papéis queimados.
CONSELHEIRO - Casados!
MAGDÁ (À parte, contente.) - São casados!...
CONSELHEIRO -
- É mais uma ilusão deitada fora.
(À Magdá.) Estás muito caipora!
OS MESMOS, o RIO DE JANEIRO
MAGDÁ - Veja, papai, que tipo extravagante!
CONSELHEIRO -
- Um defunto ambulante!
Olá, senhor, fugiu do cemitério,
Ou anda a procurar o necrotério?
PORTEIRO -
- Eis um que ao termo da viagem chega,
Sem me dar a ganhar uma pelega!
RIO DE JANEIRO
- Ó meu Romão, comigo não se enfade,
Porque não foi por falta de vontade.
CONSELHEIRO - Ele fala!
Rio DE JANEIRO -
- Meu caro Conselheiro,
Já não conhece o Rio de Janeiro?
Contemple neste pobre moribundo
Mais um jornal que resistir não pode
Aos artigos de fundo,
Se benéfica mão há que os pode,
Eu esfalfei-me a defender governos,
Escrevendo cadernos e cadernos,
Pra provar, com cinismo,
Que não estamos à beira de um abismo;
E, no entanto, de dividas cativo,
Eu passo por defunto estando vivo!
CONSELHEIRO -
- Eu supunha-o já morto, porque, em suma,
Não há meio de vê-lo em parte alguma!
PORTEIRO - Por que não passa a publicar-se à tarde?
CONSELHEIRO - Cure-se: o mesmo redator não guarde.
RIO DE JANEIRO
- Mudei de redator e noutra não me meto,
Pois foi pior a emenda que o soneto!
(Mostrando muitos papéis que traz debaixo do braço.)
Toda minha esperança
Na papelada que aqui está, descansa.
É do Bíblia o famoso testamento
E são todas as peças do processo.
Vou fazer um romance de espavento!
Se isto não me salvar, desapareço!
(Apertando a mão ao Conselheiro.)
Se eu morrer, acompanhe o meu enterro.
(Cumprimentando Magdá com a cabeça, e o Porteiro com um gesto.)
Minha senhora! - Adeus, testa-de-ferro!
(Entra no Palácio.)
PORTEIRO- Está por um momento!
MAGDÁ - Pois se ele até já leva o testamento!
O PORTEIRO, o NOVIDADES, o CONSELHEIRO, MAGDÁ
NOVIDADES (Saindo do Palácio e falando para dentro.)
- Arrasta-te, peralta!
Morre, vadio, que não fazes falta! (Descendo ao Porteiro.)
Recusa-se o Governo a socorrê-lo:
Pena melhor tem cá pra defendê-lo.
MAGDÁ - Este rapaz quem é, tão sacudido?
CONSELHEIRO - É um jornal, não serve pra marido.
NOVIDADES -
- Pois não conhece, moça,
O Novidades? Ouça:
Copla
Nasci modestamente
Na Rua do Ouvidor,
E tive incontinenti
O público a favor.
Na de Gonçalves Dias,
Par'onde me mudei,
Maiores simpatias,
Senhores, encontrei.
Das três às cinco e meia
Não há quem me não leia;
Não há quem não procure novidades
No Novidades!
(Declamando.) Não me dei bem cos ares matutinos,
E mudei para tarde os meus passeios,
Ando na mão de trêfegos meninos,
Outros tantos esteios
Dos meus risonhos, prósperos destinos.
CONSELHEIRO -
- Mas a sua política tendência
Simpática não é...
NOVIDADES -
- Não é?... Paciência,
Não posso ser um patacão luzente
Que agrada a toda gente...
PORTEIRO -
- Têm merecido apaixonadas críticas
Suas Notas Políticas...
CONSELHEIRO - Eu tenho-as lido... no Jornal.
NOVIDADES -
- Transcritas
Por algum tipo que as achou bonitas.
Mas... político eu sou por incidente;
Tenho principalmente
Notícias... novidades...
E me esforço por serem só verdades.
MAGDÁ - Tem o "Palanque"
NOVIDADES -
- Isso é o pior que tenho.
Falta-lhe graça, não lhe sobra engenho,
E decorre de graves e de agudos
Nestes tempos bicudos.
O PORTEIRO, o CONSELHEIRO, MAGDÁ, o NOVIDADES, CANECA
CANECA (Entrando.)
- Eu sou poeta; eu canto as borboletas
E o brilho das esplêndidas auroras...
Fiz um volume ornado de vinhetas
E intitulei-o Ondulações Sonoras.
NOVIDADES - Vem oferecê-lo à imprensa?
MAGDÁ (À parte.)
Ele é poeta,
E tem na fonte a palidez do asceta!
CANECA -
- Eu venho com meus versos sonorosos,
Tristes, ardentes, pudibundos, castos,
Encher o batalhão dos numerosos
Nunes Garcias e Barretos Bastos.
MAGDÁ (Entusiasmada.)
- Fez um livro de versos?
CANECA -
- E são meus!
Ninguém, graças a Deus,
Lhes dirá o que disse um crítico iracundo
Do soneto das Pombas do Raimundo.
CONSELHEIRO (À parte.)
- Querem ver que afinal achei o homem?
(Alto, a Caneca.)
Senhor, poeta, diga-me: é solteiro?
CANECA - Certamente.
MAGDÁ (Contente.) - Solteiro!
CONSELHEIRO -
- Cavalheiro,
Quer casar-se?
CANECA -
- Casar-me? Vade retro!
Se me tomam por doido, não me tomem!
Um casamento?! Pavoroso espectro!
Pois não vê que sou padre?!
CONSELHEIRO - Mais um padre!
CANECA - Eu casar-me? Essa é boa!
PORTEIRO (Tirando o chapéu a Caneca.) - Pois se o homem tem c'roa!...
CONSELHEIRO (A Magdá.) - E não achamos noivo que te quadre!
MAGDÁ (A parte.) - Fernandinho, perdoa!...
OS MESMOS, SOUVENIR, O DIÁRIO ILUSTRADO
SOUVENIR (Ao Novidades.)
- Sabes? um telegrama aí está de Pernambuco
Dando eleito o Nabuco!
NOVIDADES
- O Nabuco?! E Portela, o meu melhor amigo?!
Vou fazer um artigo! (Entra no Palácio.)
SOUVENIR -
- Acabo de assistir aos últimos momentos
De três colegas! Três falecimentos!...
O RIO DE JANEIRO
- Inda agora soltou o artigo derradeiro.
O DIÁRIO ILUSTRADO
- Tinha apenas, coitado,
Nascido, e de repente... neste instante,
Morreu de apoplexia fulminante!
Pobre Vida Moderna!
De nada lhe valeu chamar-se Vida!
PORTEIRO - Não era a vida eterna!
SOUVENIR - Morreu também... morreu por não ser lida!
(Vendo Magdá e tomando notas a lápis num caderninho.)
- Olé? uma senhora!
Caderninho na mão! lápis de fora!
Tomemos nota da toalete!
CONSELHEIRO - Diga.
Quem é aquele tipo interessante?
'Stá fazendo o retrato à rapariga?
PORTEIRO -
É o Cupido da Imprensa, o petulante
Gregório Souvenir. Faz as delicias
Dos leitores do Diário de Notícias.
Se vê dama janota,
Das fanfreluches corre a tomar nota.
CONSELHEIRO - Que vocação tem ele pra modista!
CANECA
- Tem vantagens a lista,
Que publica, das gentis madamas
Que pela Rua do Ouvidor passeiam.
CONSELHEIRO - Reverendo, quais são?
CANECA -
- Famosas damas,
Que daqui para ali saracoteiam
Na ausência dos maridos,
Temendo ver seus nomes inseridos
Na lista, deixam-se ficar em casa,
E o jantar não se atrasa...
SOUVENIR -
- Eu vi uma dengosa moreninha
Comendo no Pascoal uma empadinha;
Os seus dentes alvíssimos entravam
Num camarão gostoso,
E os seus olhares rútilos lançavam
Um raio luminoso
Entraste na crisálida do beijo,
Ditoso camarão! como eu te invejo!
Avec un charme extrême
Ela trajava bela jupe en faille,
Corset vertceladon, chapeau en paille,
Garni de roses et de ruban crème.
Vi mesdames: T, F, A, B, P, M.
G, K, T, O, P, A, B, B, C, T.
G, R, A, G, T, A, D, I, J, V.
Quinteto
Desse modo, meu amigo,
Poderá vossemecê
Transformar qualquer artigo
Numa carta de abc!
Tal sistema, com certeza,
Faz lembrar a Arquiduquesa.
A.B.
C.D.
E.F.G.
H.I.J.K.L.M.N.O.P.Q.
R.S.T.
U.V.
X.Y.Z.
TODOS - A.B.C. etc.
PORTEIRO (A Souvenir.)
- É certo que o Diário
Mudou de proprietário?
SOUVENIR -
- Mudou; mas eu fiquei... Não me repeles,
Meu bom Diário, enquanto neste mundo
Comprido, largo e fundo,
Houver madames e mademoiselles!
PORTEIRO -
- Eis ai vem a Gazeta de Notícias.
A Gazeta? Que pândega!
(A Gazeta de Notícias, entrando acompanhada de dois carregadores trazendo um caixão em que se lê: "Senhores Araújo e Mendes, Rio de Janeiro".)
A GAZETA -
- Bravo! tenho as primícias
De um belo livro! Fui buscá-lo à Alfândega!
Valioso mimo que me manda o Eça.
(Ao porteiro.) - Abre aquilo depressa.
(Aberto o caixão, sai de dentro a Relíquia. Os carregadores saem levando o caixão.)
CENA VII
O PORTEIRO, o CONSELHEIRO, MAGDÁ, CANECA, SOUVENIR, a GAZETA DE NOTÍCIAS, a RELÍQUIA
A GAZETA - Como te chamas, meu tudo?
A RELÍQUIA - A Relíquia.
CONSELHEIRO - Um belo título!
A GAZETA -
- Que livro! Cada capitulo
Vai dar-me um conto...
O PORTEIRO (À parte.) - E um canudo!
(Alto)
O meu Bacharel Raposo
Há de ser apreciado,
Por estar monografado
De um modo meticuloso,
Porém o que mais espanta,
E o que mais agradar deve,
É o trecho em que se descreve
A famosa Terra Santa.
CONSELHEIRO -
Ora! o mau gosto penetra
Em toda a parte hoje em dia.
Preferirão a Judia:
"Fui, corri o mapa... Et cetera."
A GAZETA (Dando a mão á Relíquia.)
- Anda daí por quem é!
Não temos tempo a perder!
Venha, sinhá! vai fazer
Figura no rodapé. (Entra no Palácio com a Relíquia.)
MAGDÁ (Ao pai.) - Vamos, basta de maçadas!
CONSELHEIRO - Se o homem [............]
Mas se encontram camaradas.
O PORTEIRO, o CONSELHEIRO, MAGDÁ, CANECA, SOUVENIR, PRUD'HOMEM, depois o SPORTMAN, depois o ESPORTE, depois a ÉPOCA, depois a GAZETA NACIONAL
Coplas
- Inda eu tenho miolos na pinha!
Inda um fogo bem vivo aqui arde
Não escrevo nem mais uma linha
Pra famosa Gazeta da Tarde.
Mas eu vejo mil crimes impunes
E não quero passar por vadio:
Lá na casa que foi Faro e Nunes
Vou fundar a Cidade do Rio. (Sai.)
SOUVENIR - Tem talento: longe irá.
PORTEIRO -
- Um cidadão prestadio:
Funda a Cidade do Rio
Depois de Estácio de Sá.
MAGDÁ (Vendo entrar o Sportman que vem chorando.) - Papai, um homem chorando!
PORTEIRO -
- O Sportman, um jornal novo...
Saiu agora do ovo,
Mas vai posição tomando.
(Recrudesce o choro do Sportman.)
CANECA - Mancebo, não te desvaires!
SOUVENIR - Por que choras?
SPORTMAN -
- Faça idéia:
A nossa grande Frinéia
Foi perder em Buenos-Aires!
SOUVENIR - Talvez seja algum cancã...
CONSELHEIRO -
- Mas esse animal querido
Tinha sido aqui batido
Por Salvatus e Satã.
SPORTMAN -
- Não é vergonhoso, creia,
Fazer má figura em casa,
Mas é coisa que atenaza
Fazê-la na casa alheia.
PORTEIRO (Vindo buscar o Esporte que entra com a cabeça amarrada, emplastro no olho e manqueando.) - Um jornal recém-nascido.
O ESPORTE - O Esporte!
CONSELHEIRO -
- Ainda! Mas veja!
Traz ligaduras!... Manqueja!...
Onde é que esteve metido?
O ESPORTE -
- Ó senhor, não me exacerbe
Recordando-me a desgraça:
Eu quase deixo a carcaça
Numa corrida do Derby.
SOUVENIR - São de prazer os percalços.
PORTEIRO -
- Tenha o Derby uma botica,
Onde haja bastante arnica,
Ungüentos e pontos falsos.
A ÉPOCA (Entrando.) - Meus senhores, com licença...
CONSELHEIRO - Que bela menina!
SOUVENIR- Olé! (Toma nota.)
A ÉPOCA -
- Sabem dizer-me: não é
Este o Palácio da Imprensa?
PORTEIRO -
- Sim, minha bela senhora;
E, mal seu nome disser,
Levá-la-ei, se quiser
Sem a mínima demora.
A ÉPOCA -
- Eu sou a época. Acabo
Neste instante de nascer,
Porém prometo fazer
Na nossa imprensa o diabo.
Não tenho programa.
CONSELHEIRO
- Homessa!
Mas isso é programa?
SOUVENIR - Imenso!
A ÉPOCA -
- Terei sintaxe e bom senso,
Não é programa: é promessa.
O meu redator em chefe,
Conquanto ensine rapazes,
Não tem mãozinhas capazes
De palmatória e tabefe;
Eu, por conseguinte, espero
Que as folhas, colegas minhas,
Me recebam nas palminhas,
E é um sorriso...
PORTEIRO - Oh! sincero!
(Entra a Gazeta Nacional arrebatadamente, cantando a Marselhesa. Todos se assustam.) - Olé! Também é jornal!
CONSELHEIRO (Que de medroso se escondeu reaparecendo.) - Desculpa: doida supu-la.
(A Gazeta Nacional mostra-lhe o seu barrete frígio.)
Bravo! Como se intitula?
A Gazeta Nacional.
A Gazeta Nacional.
PORTEIRO -
- Dona, se não a importuna
A pergunta, dê licença:
Que veio fazer na Imprensa?
GAZETA NACIONAL - Vim preencher uma lacuna.
MAGDÁ -
É justamente o que faz
Toda a folha recém-nata.
GAZETA NACIONAL -
- Republicana exaltada,
De grandes coisas capaz,
Venho salvar o pais...
E, sem mais tirte nem guarte,
Vou metendo em toda parte
O petulante nariz.