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O Homem

artur azevedo

CENA IX

O PORTEIRO, o CONSELHEIRO, MAGDÁ, CANECA, SOUVENIR, PRUD'HOMEM, a ÉPOCA, o PESCADOR, PESSOAS DO POVO, depois a GAZETA DE NOTICIAS, depois um CRÍTICO

PRUD'HOMEM -

- Encontrei um grande amigo
E venho à imprensa trazê-lo.

TODOS - Quem é?

PRUD'HOMEM - Um homem modelo!

CONSELHEIRO - Modelo? Então é comigo.

PRUD'HOMEM - Um pescador.

TODOS - Pescador!

(Aparecendo.) - Para servi vosmecês.

PORTEIRO - Que fez ele?

MAGDÁ - Ele o que fez?

PRUD'HOMEM -

- Fez prodígios de valor;
Por entre vagas daninhas,
Vendo um vapor naufragar,
Foi pescar homens no mar
Como quem pesca sardinhas.

PESCADOR -

- Quaqué outro em meu lugá
A mesma coisa faria;
É o mundo uma pescaria
É coisa face pesca.
A incasiáo não é má:
Eu estou entre gente amiga
Vou cantá uma cantiga
Do Esp'rito Santo...

TODOS - Vá lá.

Cantiga

(Música popular do Norte.)

I

PESCADOR -

- Nesta vida de interesse,
Neste mundo enganadô,
Não há home que não seja
Mais ou menos pescadô.
Pesca o pobre, pesca o rico,
Pesca aqui, pesca acolá;
Pesca uns porque precisa,
E outros pesca por pescá.
Atira a rede,
Pesca, seu bem!
Tem paciência,
Que o peixe vem!

CORO - Atira a rede, etc.

II

PESCADOR -

- Pescadores de águas turva
Na política se vé;
Há nas classes elevada
Pescadores como quê.
Mas há muito quem na pesca
Tenha só contrariação:
Desejando peixe fino,
Só apanha algum cação,
Atira a rede, etc., etc.

III

Se alguém vê uma menina
Na janela namorá,
Fique certo de que aquilo
É que chama-se pesca.
Mas cuidado, sinhazinha:
Nunca pesque um peixe só.
Lance a três a mesma isca,
Prende seis no mesmo anzó!...

Atira a rede, etc.

GAZETA DE NOTÍCIAS (entra, vem pensativa ao proscênio e cruza os braços).

- Não há decepção tamanha
Que, com a minha, se meça:
Fez a Relíquia do Eça
Fiasco monumental.

(Alegre.)

Mas ora adeus! cara alegre!
Tréguas ao meu desespero!
Para consolar-me, espero
As cartas do Demerval.

TODOS - Apoiado! (Olhando para dentro.)

- Silêncio! Ei-lo que volta!
Foi a São Paulo, andou à rédea solta...
Ei-lo outra vez!

O CRÍTICO (Entrando, lançando-se nos braços da Gazeta.)

- Venha esse longo abraço!
Pode apertar-me o rígido espinhaço!

A GAZETA - Vens encantado de São Paulo?

O CRÍTICO - Venho.

Não fui a Santos, apesar do empenho
Que houve pra que lá fosse;
Mas fui ameaçado cum banquete.
Eu farto estava já de tanto doce,
E a viagem tornava-se cacete.

CONSELHEIRO (Aproximando-se do Crítico.)

- Eu folgo de encontrá-lo,
Porque necessitava consultá-lo;
Em primeiro lugar saber preciso:
Se é solteiro ou casado?

O CRÍTICO -

- Sou casado.
Digo-lhe mais: não tardo a ter netinhos.

CONSELHEIRO -

Ouviste, minha filha? Eu perco o juízo!
Marido assim, nem mesmo encomendado!

MAGDÁ (À parte, depois de olhar para o Crítico.)

- Não há dois Fernandinhos!

CONSELHEIRO -

- Agora as impressões que daqui leva
Diga, embora mais tarde um livro escreva.

O CRÍTICO -

- Muito me agrada esta cidade: é linda;
Mas muita, muita coisa falta ainda
Para um país primeiro entre os primeiros.

A GAZETA - Já viste o nosso Corpo de Bombeiros?

O CRÍTICO -

- Podia ser mais limpa esta cidade.
Há ruas onde a vossa Edilidade
Deixa ficar imundos atoleiros...

CONSELHEIRO - Mas, entretanto, o Corpo de Bombeiros...

O CRÍTICO - Ser melhor a polícia bem podia...

MAGDÁ - O Corpo de Bombeiros, todavia...

O CRÍTICO - E não andar nas mãos de uns paturebas!

PESCADOR - Temos um Corpo de Bombeiros tebas!

O CRÍTICO -

- Deviam-se alargar diversas ruas,
Ficando apenas uma onde estão duas,
E pôr abaixo uns tantos pardieiros...

SOUVENIR - É pena que não visse o Corpo de Bombeiros!

O CRÍTICO -

- Mas construções oficiais, não deixo
De notar, francamente, algum desleixo
Por parte de arquitetos e engenheiros...

CANECA - Porém temos um Corpo de Bombeiros...

O CRÍTICO -

- As Belas-artes, coitadinhas, morrem,
E em seu auxílio rápidos não correm
Os velhos conselheiros...

PRUD'HOMEM - Mas deixa lá, que o Corpo de Bombeiros...

O CRÍTICO -

- Nas folhas diárias vejo as cerebrinas,
As ignóbeis mofinas,
A vergonha maior dos brasileiros...

PORTEIRO - Por que não vai ao Corpo de Bombeiros?

O CRÍTICO (Impacientado.)

- Pois bem! eu juro e atesto:
Tendes um belo Corpo de Bombeiros,
Mas falta-vos... o resto.

TODOS - Pois viva o nosso Corpo de Bombeiros!

(Música na orquestra. Olham todos para fora e apontam. Movimento.)

CENA X

OS MESMOS, a COLÔNIA PORTUGUESA, trazida num palanquim, acompanhada por algumas associações portuguesas do Rio de Janeiro; depois o GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA. (Depois de uma grande marcha.) Música de Adolfo Lidner. A colônia Portuguesa desce do palanquim e aproxima-se o Crítico

COLÔNIA PORTUGUESA

- Não vou a nenhuma parte
Senão por motivo forte...
Soube que estavas na Corte
E venho cumprimentar-te,
Merece tanta fineza
Tão robusta inteligência.

O CRÍTICO - Mas quem é Vossa Excelência?

COLÔNIA PORTUGUESA - A Colônia Portuguesa.

O CRÍTICO -

- Oh! perdão, formosa dama!
Eu protesto-lhe o respeito
A que tem todo o direito
A sua esplêndida fama.
Nesta cidade formosa,
Onde sei que não te queixas,
Tive uma mala do Seixas,
Tive a comenda de Rosa,
Tive uma pena, e o diploma
De presidente honorário
De um congresso humanitário,
Que, por patrono, me toma.
Enfim pelo brasileiro
Fui nas palminhas tratado;
Porém, senhora, ao teu lado
Menos me sinto estrangeiro.

COLÔNIA PORTUGUESA

- Nunca to sintas; bem vês
Que neste país tamanho
Uma coisa é ser estranho
E é outra ser português.
No fundo do coração
Pelo Brasil recebidos,
Nós somos irmãos queridos,
Não somos hóspedes, não.
Se o primeiro Imperador
Fez, numa situação crítica,
A independência política,
Não fez decerto a do amor.
Mas, para mostrar que valho
Tanta afeição e tão terna,
Esta divisa moderna
Eu adotei - o Trabalho.
Longo fora enumerar-te
Tudo quanto tenho feito,
Mas ficarás satisfeito
Se as minhas obras mostrar-te.

O CRÍTICO -

- Mostra-mas, e não presumas
Que com isso me incomodas.

COLÔNIA PORTUGUESA-

- Não. posso mostrar-te todas,
Mas posso mostrar-te algumas.

(As associações.) Em linha, desfilar! Um por um venha!

(Ao Crítico.)

Verás! quando outro espírito não tenha,
Possuo, ao menos, o de associação.
Atenção!

TODOS - Atenção!

(Música em surdina na orquestra. As associações desfilam d medida que são nomeadas pela Colônia Portuguesa.)

Eis a Beneficência,
A minha glória, o meu eterno orgulho!

O CRÍTICO - Porém houve entre os médicos barulho.

COLÔNIA PORTUGUESA

- Uma greve... não teve conseqüência.
O Liceu Literário...
Vê como vai catita;
Não há colégio mais humanitário,
Nem mais cosmopolita,
Não faz questão de nacionalidade:
Para aprender ali, basta a vontade.
A Caixa de Socorros,
A Caridade a jorros!
O Real Clube Ginástico...
Inteligente, pândego, fantástico...
Este é o Retiro Literário... um ninho...
O Congresso Ginástico aparece...
O Congresso a que vem Martins de Pinho...

O CRÍTICO - Bem sei, o tal que teve uma quermesse.

COLÔNIA PORTUGUESA

- Enfim traz cada qual o seu letreiro.
Não há em Portugal poeta ou guerreiro,
Varão ilustre que não esteja aqui...
Camões, Egas Munis, Vasco da Gama...
Vê... figurões de mais ou menos fama...
Bocage, Afonso Henrique...

O CRÍTICO -

- Vejo ali
O Marquês de Pombal, se não me iludo...

COLÔNIA PORTUGUESA - Há meia dúzia de Pombais.

O CRÍTICO (Vendo passar o último.) - É tudo?

GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA (Entrando.)

- Falta eu só pra que
O grupo se complete.
Tardei um pouco mais do que devia,
Porque estive a mudar de freguesia.

O CRÍTICO - Quem é? Não tem letreiro

GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA -

- O Gabinete Português de Leitura
Nasci modestamente ha cinqüenta anos,
Toda à casta sofri de desenganos,
E já bem perto andei da sepultura.
Mas felizmente esta senhora aos poucos
Se convenceu da minha utilidade;
Aos rogos meus não fez ouvidos moucos,
E abriu-me as portas da prosperidade.

COLÔNIA PORTUGUESA - Dei-lhe um palácio!

O CRÍTICO - Cáspite!

COLÔNIA PORTUGUESA -

- Menino,
Português, e mãos largas são sinônimos.

GABINETE -

- Um palácio soberbo, manuelino,
Que é, por fora, o Convento dos Jerônimos,
E, por dentro, um alcácer peregrino!

O CRÍTICO - Vai o palácio então fazer barulho?

COLÔNIA PORTUGUESA - É digno das maiores capitais.

GABINETE -

- A todo Portugal enche de orgulho
E causa inveja aos próprios nacionais.

O CRÍTICO

- Os próprios nacionais... um calembur diviso...

Mas vamos!... quero vê-lo!... e que me leve a breca,

Se aquilo é gabinete, e não biblioteca!
Vamos!

COLÔNIA PORTUGUESA -

- Não é preciso
Que saiamos daqui...

O CRÍTICO -

- Inda que invoques
As artes de berliques e berloques,
Duvido que possamos
O Gabinete ver sem que saiamos.

COLÔNIA PORTUGUESA -

- Esqueces com certeza
Que tudo pode a colônia portuguesa!
O edifício apareça resplendente
Que há de honrar o meu nome eternamente!

(Gesto, mutação.)

Quadro 6

O interior do novo edifício do Gabinete Português de Leitura. Música na orquestra. Todos os personagens dão vivas á Colônia Portuguesa.

[(Cai o pano.)]

ATO TERCEIRO

Quadro 7

(Parte do saldo do Teatro São Pedro de Alcântara Ao fundo a estátua de Antônio José.)

CENA I

CONSELHEIRO, MAGDÁ, ESPECTADORES

Coro

Que bela música!
Que perfeição!
Canta-nos, fala-nos
Ao coração!

UM ESPECTADOR (A outro.) - Então, seu Viana, que tal lhe pareceu a primeira parte do concerto?

O OUTRO - Magnífica. Gostei muito da Dança Macabra.

O ESPECTADOR - Não diga macabra... É macbra que se diz.

CONSELHEIRO (A Magdá.) - Decididamente estes concertos populares hão de popularizar-se. Eu, por mim, declaro que nunca ouvi tão boa música no Rio de Janeiro.

MAGDÁ - Temos andado estes últimos dias numa dobadoura!

CONSELHEIRO - Só exposições de pintura visitamos umas poucas. Nunca se pintou tanto nesta terra. Praias de Icaraí, vimos seguramente vinte...

MAGDÁ - Ainda ontem visitamos a exposição dos caminhos de ferro.

CONSELHEIRO - Não perdemos nada. Saí encantado da Liceu de Artes e Ofícios. (Vendo que os figurantes têm se retirado todos.) Já cá não está ninguém. Parece que principiou a segunda parte.

MAGDÁ (Que se tem aproximado da estátua.) - Papai, quem é este sujeito?

CONSELHEIRO - Não vês o letreiro? "Antônio José, poeta cômico". Foi grande brasileiro que morreu nas fogueiras do Santo Ofício.

MAGDÁ - Coitado. (A estátua reanima-se: o Conselheiro e Magdá fogem espavoridos cada um para seu lado.)

CENA II

CONSELHEIRO, MAGDÁ, ANTÔNIO JOSÉ

(Quando a estátua se reanima, há um acorde na orquestra, e a música continua em surdina até que Antônio José desça do pedestal.)

ANTÔNIO JOSÉ -

- Agradecido, senhora,
Senhora, muito obrigado:
Essa palavra - coitado -
Me comove e me penhora.
Em tempos que já lá vão,
Quando o mundo andava torto,
Eu, com efeito, fui morto
Pela Santa Inquisição.
Mas o espírito travesso
Que engendrou tanta obra-prima
De vez em quando reanima
Este boneco de gesso..
Sabem? fizeram de mim,
Pondo-me neste salão,
Comediógrafo não,
Mas moço de botequim.
Quando por trás do balcão
Eu presidia às bebidas,
As toalhas sujas, servidas,
Me penduravam na mão.

CONSELHEIRO (Ainda espantado.)

- Em coisa tão singular
Custa-me crer, minha filha!

MAGDÁ (Idem.)-

- Não há maior maravilha
Do que uma estátua a falar!

ANTÔNIO JOSÉ -

- O fato é bem natural,
Mas, pra falar mais a gosto,
Eu vou sair do meu posto,
Saltar do meu pedestal.

(Salta para o palco. Os dois se assustam.) Pronto!

MAGDÁ -

E ele pôde saltar
Sem que ficasse em pedaços!

CONSELHEIRO -

Se dá mais dois ou três passos,
Em fanicos vai ficar!

ANTÔNIO JOSÉ -

- Mas por que atônito estás?
Sou homem, como pareço! -

CONSELHEIRO -

- Homem?!... Nada... Homem de gesso
Não nos faz conta.

MAGDÁ -

- E por que sérios motivos
Deixas, agora, pergunto,
A posição de defunto,
E vens flanar entre os vivos?

ANTÔNIO JOSÉ -

- Senhora, descer aqui
Considero um sacrifício,
Triste percalço do oficio
Que neste mundo exerci.
São bem pouco interessantes
Estas vindas aqui em baixo;
Melhor lá nos mundos me acho
Dos espíritos errantes.
Se à minha terra natal
Atualmente eu venho ter,
É pra revista fazer
Do movimento teatral.

CONSELHEIRO -

- O mais honroso lugar
Na projetada revista,
A Emanuel, o grande artista,
Parece que deves dar.
A sua estréia no Otelo
Foi um acontecimento;
Não 'spero ver um talento
Mais singular, nem mais belo.
Não viste o velho Arduíno?
Nem Mercadet? nem Alceste?
Não sabes quanto perdeste...

ANTÔNIO JOSÉ - Era bom?

MAGDÁ -

- Era divino!
Na noite de sua festa,
Teve uma ovação... que horror!...

CONSELHEIRO -

- Raro com tanto calor
O povo se manifesta!
Nessa revista fecunda
Deve também ter entrada
A companhia chamada
Dona Maria Segunda,
Composta de alguns atores
De muito merecimento.

MAGDÁ - Brasão tem muito talento.

CONSELHEIRO -

E os Rosas são duas flores.
- Não te esqueças também disto...

(Põe-se a imitar os fantoches.)

ANTÔNIO JOSÉ - Isso o que é?

(Conselheiro continua.) -

- Não me deboches!
'Stou imitando os Fantoches. (Continua.)

ANTÔNIO JOSÉ -

- Não continues... tenho visto...
No circo de cavalinhos,
Estiveram duas vezes
Uns senhores japoneses...

MAGDÁ - Por sinal, que bem sujinhos...

ANTÔNIO JOSÉ -

Pelo teatro te interessas?
Verás que Antônio José,
Sem daqui arredar pé,
Evoca artistas e peças.
Poder sobrenatural,
Força magnética, imensa,
Faz vir à minha presença
Todo o mundo teatral.
Mas não aparecerão
Nesta cômica revista
Qualquer peça ou mesmo artista
De que hajas feito menção.

(Vendo entrar a Companhia Heller.)

'Stás vendo? a dança começa! (À Companhia Heller.)
Quem és tu, bela menina?
És uma atriz papa-fina?
És um teatro? uma peça?

CENA III

OS MESMOS, a COMPANHIA HELLER

A COMPANHIA HELLER -

- Sou do Heller a Companhia.
O meu querido empresário
Fez um ato extraordinário:
Dissolveu-me.

CONSELHEIRO - Quem diria?

A COMPANHIA HELLER -

- Em seguida, anunciou
Que nova empresa formava...

CONSELHEIRO -

Bem sei: que te reformava...
Porém não te reformou.

A COMPANHIA HELLER -

- Causar não pôde alvoroto
Reforma tão pequenita:
Pôs-se pra fora o Mesquita,
Pôs-se pra dentro o Peixoto.

ANTÔNIO JOSÉ - Que peças tens?

A COMPANHIA HELLER - Imagine:

A Princesa Flor de Maio...

ANTÔNIO JOSÉ -

- Uma mágica? Desmaio!
De que autor?

A COMPANHIA HELLER - Do Carrancini.

ANTÔNIO JOSÉ - Vamos, vamos! que mais há?

A COMPANHIA HELLER

- Serviram de amargo exemplo
A Toutinegra do Templo
E O Moleiro de Alcalá.
Sempre o teatro vazio!
Mas Jacinto não cansa,
Nem nunca perde a esperança...

ANTÔNIO JOSÉ - Essa virtude aprecio.

A COMPANHIA HELLER

- Pôs o Amor Molhado agora
E as mãos para o céu levanta,
Pois a concorrência é tanta,
Que vai muita gente embora,
Por nao ter bilhete achado.
O bilheteiro, por isso,
Vendo aumentar o serviço,
Pede aumento de ordenado.

CENA IV

OS MESMOS, um ADMIRADOR, trazendo pela mão uma atriz

O ADMIRADOR -

- Já que se faz a revista
Das teatrices deste ano,
Venho entusiasmado, ufano,
Apresentar uma artista.

(Apresenta a atriz, que cumprimenta e é Cumprimentada.)

A COMPANHIA HELLER -

- Eu despeço-me à francesa... (Sai)

O ADMIRADOR

Chegou há pouco da roça;
É nossa, nossa, bem nossa,
E vale bem quanto pesa.
Sem que dos gestos abuse,
Sem que os efeitos ignore,
Faz esquecer a Ristori
E põe num chinelo a Duse!
Sabendo do despontar
Desta estrela brasileira,
Resolveu fazer-se freira
A grande Sarah Bernhardt. (Novos cumprimentos.)
Faz amanhã beneficio:
Pois há de encher-se o teatro
E há de haver o diabo a quatro!
Nada, que eu sou seu patrício!
Haverá chuva de flores...
Musicata no jardim...
Balões chineses... assim!

(Gestos de que serão muitos.)

Poesias de bons autores!
Ao terminar a função,
Ao som de duas charangas,
Os fanáticos em mangas
De camisa ficarão.
Eu, que não sou nenhum gebo,
Organizei pr'esta atriz,
Uma marcha au flam-b-a-u-x,
Porém com velas de sebo,
Um belo carro ela toma,
Mas, antes de entrar em casa,
Há de, embora não lhe apraza,
Beber parati com goma.
Metidos entre os varais
Do carro a que ela subir,
Nós havemos de suprir
A ausência dos animais!
Mas basta de dar-lhes trela!
Ando cos preparativos
Para que tenha atrativos
Tão barulhenta ovadela!

(Sai com a atriz, depois de novos cumprimentos.)

ANTÔNIO JOSÉ - Como fala este rapaz!

CONSELHEIRO -

- E a pobre da atriz, coitada,
De um modo atroz debicada,
Deve andar de pé atrás.

CENA V

CONSELHEIRO, MAGDÁ, ANTÔNIO JOSÉ, KEAN, OUTROS KEANS

(Os Keans aparecem trazendo cada um uma cadeira na mão.)

CONSELHEIRO, MAGDÁ e ANTÔNIO JOSÉ - Oh! que é isto?

KEAN -

- Eu sou o Kean,
Quando, no ato terceiro,
Se veste de marinheiro
Na cena do botequim.

ANTÔNIO JOSÉ -

- Estes senhores, já vejo,
São todos Keans... não me engano...

KEAN -

Ah! nós temos Keans este ano
Por atacado e a varejo!

Coro

KEANS -

Dos Keans que o mundo conhece
A coleção aqui está;
E quanto mais Keans houvesse,
Mais Keans estariam cá.

PRIMEIRO KEAN (Declamando.)

Nós temos o Kean... Brasão
E pesa bem um Kean tal,
Por isso é bem natural
Do povo a consagração.
Nós temos o Kean Giovani,
Que, não sendo um manequim,
Não é, todavia, um Kean
De quem a arte se ufane.
Temos o Kean... Braga.

CONSELHEIRO - Oh! Oh!

KEAN -

- Não é nenhum Kean à toa,
Mas temos o Kean Lisboa
Que parece um Kean gombó.

CONSELHEIRO -

- Pois é artista terrível
Na opinião de muita gente;
Faz não só um Kean possível,
Como até um Kean decente.

KEAN -

Vamos ter. (Oh! que o destino
Dos Keans a raça dissipe!)
No Principe, o Kean - Filipe,
E no Santana, o Kean - Nino.
Mas de todos esses Keans,
O de mais aceitação
É decerto o Kean - Brasão,
Que tem do povo os quindins.
Se o Jordão pergunta assim,
Fazendo o anúncio: - Que drama
Quer que eu bote no programa?
Diz o Braga: - Bote Kean.
(Os Keans repetem o coro e saem.)

CONSELHEIRO - Que brava gente!

ANTÔNIO JOSÉ

- Pois sim!
Parecem bem contrafeitos
Alguns daqueles sujeitos.

MAGDÁ - Julgam que o Kean é o Nhô Quim.

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