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O Homem

artur azevedo

O HOMEM DOS DUZENTOS E CINQÜENTA - Hum!...

ESPECTADOR - Mas, afinal o terremoto?

O LOGRADO - Que terremoto, que nada! Foi pulha! Mas não perdi o tempo: ao menos fui ver as obras do túnel. Entrei no Rio Comprido e saí nas Laranjeiras. Ah! mas estou moído como não fazem idéia!

ASTRÓLOGO (Entrando.) - Não a viram, meus amigos não a viram?...

TODOS - Quem?

ASTRÓLOGO - Ela, Cinira, a minha estrela! Uma estrela que eu descobri, e que desapareceu do meu firmamento! (Vendo o Repórter, que entra.) Ah! um repórter! Chega a propósito... vai prestar-me um grande serviço!

REPÓRTER - Qual?

ASTRÓLOGO - O senhor, que anda à cata de notícias, vai descobrir onde se oculta a minha estrela!

REPÓRTER - É impossível... Tenho entre mãos uma diligência importantíssima. Imagine que a polícia atirou no que viu e matou o que não viu. Deitou a unha num fabricante de moeda falsa, quando julgava apanhar um casal de pombinhos.

ASTRÓLOGO - Que com certeza não fabricavam notas...

REPÓRTER - Quando disse fabricante, disse mal... O homem levava uma máquina.

ASTRÓLOGO - De fazer dinheiro?

REPÓRTER - De fingir que o faz.

ASTRÓLOGO - Ora bolas!

REPÓRTER - O sujeito pretendia dá-la por bom preço a um matuto. (Sai.)

ASTRÓLOGO - Mas venha cá... a minha fugitiva... (Desaparece com o Repórter. Entram o Conselheiro, Magdá e Batata.)

BATATA -

- Aqui se esconde a pessoa
Daquele Antônio José,
Morto num auto de fé
De Santo Ofício em Lisboa.
É este o Éden-concerto
Tão gabado e tão falado,
Que tem o grande Furtado
Por diretor?

CONSELHEIRO - Sim

MAGDÁ - Decerto.

BATATA - Palavra que é bonito!

CONSELHEIRO - O Furtado não é Manuel de Sousa.

MAGDÁ - Tem dedo para a coisa.

BATATA - Que gastasse bons cobres acredito.

CONSELHEIRO -

- Em matéria de gosto não dá raia,
Justamente ele aí vem.

(Batata quer sair.) Então? não saia!

BATATA -

- Ia ver as pequenas,
Pois há delas aqui um sortimento
De todos a contento:
Magras e gordas, claras e morenas.

CONSELHEIRO (À parte.) - Ora o diabo é sujo!

(Alto.) Pois até o senhor.

BATATA - Psiu... Eis o cujo.

(Entra o Diretor do Eden-concerto e dirige-se aos grupos com os quais conversa.)

CENA III

O CONSELHEIRO, MAGDÁ, BATATA, FIGURANTES, o DIRETOR, depois o ASTRÓLOGO

MAGDÁ (Ao pai.) -

Como é lindo o Furtado!
Inda o não tinha visto assim barbado!
Por ele amor dentro em meu peito ferve.

CONSELHEIRO - Tira a idéia daí: esse não serve.

MAGDÁ - Será também casado?

CONSELHEIRO -

- Pois não sabes ainda
Que ele é o marido da gentil Lucinda?

MAGDÁ (À parte.) - Fernandinho, perdão!

BATATA (Ao Diretor, que desce.)

- Comendador, consinta
Que eu, com todo o prazer, tenha a distinta
De apresentar-lhe aqui O Conselheiro
Pinto Marques.

CONSELHEIRO - Senhor...

O DIRETOR -

- Ah!... verdadeiro.
Prazer é o meu.

BATATA -

- E a sua gentilíssima
Filha Dona Magdá.

O DIRETOR -

- Excelentíssima!
Como quê, vieram ver meu Paraíso?
Satisfeitos então? Saber preciso.

MAGDÁ - Decerto.

CONSELHEIRO -

- Com efeito,
Não pensei que isto fosse tão bem feito.

MAGDÁ - É na verdade, um Éden.

DIRETOR -

- Certamente.
Só lhe falta... a serpente.

CONSELHEIRO -

Mas as Evas aqui são levadinhas,
E os Adões uns janotas...

BATATA -

- Sim, mas é para que eles tragam botas
E elas tragam anquinhas...

ASTRÓLOGO (Entrando e vendo Magdá.)

- É ela! a minha estrela!
Torno, afinal, a vê-la!...
Vem, meu querido amor; vem, meu tesouro!
Não pode haver sem ti nem Galo de Ouro,
Nem Bearnesa, nem Mercúrio, nada!
(Agarra Magdá.)

CONSELHEIRO - Querem ver que esse tipo tem pancada?

MAGDÁ - Senhor, me largue, que não sou peteca!

CONSELHEIRO (Arrebatando Magdá.)

- Não julgue ser alguma fulustreca
À mercê de casquilhos!
É solteira, e o respeito sabe dar-se,
Em breve há de casar-se
E há de, querendo Deus, ser mãe de filhos!

ASTRÓLOGO -

- Não pega essa mentira!
Sua filha? Ora qual!
Esta é minha Cinira!
Há de ser filha, mas do Senescal.

BATATA -

- Não te deixes levar pela aparência;
Tem razão no que diz Sua Excelência.

CONSELHEIRO - É minha.

MAGDÁ - Sou sua filha!

TODOS - É sua filha!

ASTRÓLOGO -

- Bom... 'stá bem... Visto isto,
Senhores, não insisto.
Vou procurá-la! Oh! hei de reavê-la,
A minha linda entrela! (Sai.)

BATATA (Com muita volubilidade.)

- Imaginem se é possível
Um relógio sem ponteiro,
Um engenheiro sem nível,
Satisfeitos então? Saber preciso.
Um jardim sem jardineiro,
Uma casa sem janela,
Uma missa sem sacrista,
Um bonde sem manivela,
Um cosmorama sem vista;
Modista sem figurino,
Sapateiro sem tripeça,
Festa de gala sem hino,
Defunto rico sem essa;
Copo-d'água sem discurso,
Sorveteiro sem sorvetes,
Um teatro sem Castro Urso,
Um Castro Urso sem bilhetes;
Uma pesca sem caniços,
Um engraxate sem graxa,
Um mulher sem postiços,
Um São Jorge sem tarraxa.

CONSELHEIRO -

Oh! que grande linguarudo
Veja ao menos se respira!

BATATA -

Pois o pior do que isso tudo
É o Lucinda sem Cinira!

CENA IV

OS MESMOS, depois CANJA, um POETA, depois o CAPADÓCIO DO MERCÚRIO, depois a ACADEMIA DE BELAS-ARTES

O DIRETOR -

C... Can... Canja! Conselheiro.
Olhe ali!

CONSELHEIRO - Onde!

O DIRETOR -

Não vê?
Ó menina do letreiro!
Diga lá: quem é você?

CANJA - Uma bebida afamada.

BATATA -

- Produz dores de barriga.
É tal qual a limonada
De citrato...

CONSELHEIRO - Olha que espiga!

CANJA (A Batata.)-

- És o primeiro, asseguro,
Que me tens tamanha birra!

BATATA -

- Ah! és melhor que o maduro
E mesmo que a gengibirra...

CANJA - Maldizente! petulante! (Sai.)

CONSELHEIRO - Vexada, se pôs a fresco.

BATATA -

- Anda a fingir que é refresco,
E não passa de laxante.

O POETA (Entrando choroso e cabisbaixo.)

- Quando o desânimo ataca
Um corpo sadio e nédio,
O corpo não tem remédio:
Morre de morte macaca.
É triste encontrar a morte
Tendo alguns meses apenas...

CONSELHEIRO - Bolem comigo estas cenas.

BATATA - Confesso que não sou forte...

O DIRETOR - Quem és, mancebo?

O POETA - Um boêmio.

CONSELHEIRO - Onde tu moras?

O POETA - Não moro.

BATATA - Que fazes?

O POETA - Soluço e choro.

MAGDÁ - Por quem choras?

O POETA -

- Pelo Grêmio.
Grêmio de Letras e Artes,
Ouve, atende às minhas queixas!
Ó Grêmio, por que te partes?
Ó Grêmio, por que me deixas? (Sai.)

CONSELHEIRO -

- Conheço a história do Grêmio;
Era bem intencionado,
Porém só teve, coitado!
O ridículo por prêmio.

O DIRETOR - Quem o ridiculizou?

CONSELHEIRO - A imprensa.

MAGDÁ -

- Por que razão?
Ele injuriou-a?

CONSELHEIRO - Não.

BATATA - Mas, meu Deus! por que o matou?

CONSELHEIRO -

- Ora adeus! a imprensa é fresca:
Do Grêmio teria dó,
Se ele fosse alguma so-
ciedade carnavalesca.

ACADEMIA DE BELAS-ARTES (Entrando arrebatadamente.)

- Ah! malcriados! tratantes!
Súcia vil de gazeteiros!
Cambadas de sapateiros!
Beidroegas! ignorantes!

CONSELHEIRO -

- Reduzir o mundo a pó
Quer com certeza esta harpia!

BATATA - Livra!

A ACADEMIA -

- Eu sou a Academia
De Belas-artes.

O DIRETOR - Oh! Oh!

A ACADEMIA -

- Eu há dias em concurso
Pus um prêmio de pintura,
E os rapazes má figura
Fizeram.

CONSELHEIRO - Figura d'urso.

A ACADEMIA -

- Mas, tratando-se de expor
Ao povo péssimas telas,
Escolhi de todas elas
Naturalmente a pior.
Tão lógica solução
Aos gazeteiros espanta!
Toda a imprensa se levanta!

CONSELHEIRO - A imprensa não tem razão!

A ACADEMIA -

Que de insultar-me se farte!
Bem me importa o seu latido!

O DIRETOR - Qual foi o ponto escolhido?

A ACADEMIA - A flagelação da arte.

CONSELHEIRO -

Da razão queira escutar
A fria e dura linguagem:
Pois que o prêmio é de viagem,
Mande-os a todos passear.

BATATA -

- Se é, na verdade, um artista
O candidato premiado,
De prêmio tão cobiçado
É natural que desista;
Se a imprensa tanto o acachapa,
Que não persista em partir.

O DIRETOR -

- É ir
A Roma, e não ver o Papa.

A ACADEMIA -

- Isso resolva o rapaz!
O que eu fiz, fiz: sou quem sou.
O braço a torcer não dou!
Não volto! não volto atrás!

(Sai arrebatadamente como entrou.)

O CAPADÓCIO (Entrando com um violão debaixo do braço.) - Seu Furtado, andava a sua procura.

O DIRETOR - Quem é?

CONSELHEIRO - Mas não me engano: já o vi...

O CAPADÓCIO - Pode sê, seu doutô.

CONSELHEIRO - Já o vi e já o ouvi. Então? ficou bom daqueles ferimentos?

O CAPADÓCIO - Os tais das Folia da Guarda-velha, quando entrei naquele sarnambi grosso e desci rente na poeira? Já, sim, senhô.

CONSELHEIRO - Meus senhores, este homem é um grande cantador de modinhas.

O CAPADÓCIO - Antes sesse... Ah! mas as modinha já ninguém faz caso... Agora só canto lundus... lundus da minha terra... e venho oferecê meus serviços a seu Furtado... Se vossia qué, aqui mesmo capino no duro.

TODOS - Queremos! queremos!

O CAPADÓCIO - Então, lá vai obra! (Canta um lundu.) Então, que diz, seu Furtado?

O DIRETOR - Venha amanhã de dia, para conversarmos.

CENA V

OS MESMOS, a COMPANHIA FORÇA E LUZ

CONSELHEIRO - Olá, quem é esta guapa mocetona?

A COMPANHIA - A Companhia Força e Luz.

BATATA - A tal que tem dois mil contos subscritos?

A COMPANHIA - Essa mesma; mas o meu maior capital é a eletricidade!

Canto

A COMPANHIA -

Força e Luz é o meu nome, senhores,
Forte e luminosa
Por ser,
Eu mereço rasgados louvores;
Vida gloriosa
Vou ter!

CORO - Tão bela empresa famosa será!

A COMPANHIA -

- Verdade aqui falais,
Porque mais
Bela empresa
Decerto que não há!
Muito cobre, com certeza,
Para os cofres meus virá!
Vão eletricidade
Por toda a parte ver!
Em breve esta cidade
Elétrica vai ser!

CORO -

- Não há que ver: empresa tal
Fará furor na capital!
Sim, furor muito
Piramidal!

(A Companhia Força e Luz converte-se numa estrela de luz elétrica. Mutação.)

Quadro 9

CENA I

CONSELHEIRO, MAGDÁ, que entram de braço dado, vindo da rua

CONSELHEIRO - Muito bem, minha filha; agora vai descansar um pouco: deves estar fatigada.

MAGDÁ - Nem por isso, papai.

CONSELHEIRO - O passeio fez-te bem; vais muito melhor; mas, por isso mesmo, não deves abusar. E ainda não encontramos o homem... Imagina lá se o tivéssemos encontrado.

MAGDÁ - Qual o quê, papai! Todos os homens me aborrecem, nenhum me agrada.

CONSELHEIRO - Entretanto, estou mais que convencido de que o Doutor Lobão acertou com a tua moléstia. Ainda hoje deu-me por escrito o seu décimo quinto parecer. Só esta roda-viva em que temos andado, à procura do remédio que precisas, já produziu em ti sensíveis melhores. Olha que se as coisas continuassem, eu estava disposto a procurar até o tal cavoqueiro... o Luís...

MAGDÁ (Envergonhada.) - Ora, papai, não me fale em semelhante bruto!

CONSELHEIRO - Mas tu parecias doida por ele!

MAGDÁ - Eu só amei a um homem... ao Fernandinho. Não pude ser dele, não serei de mais ninguém. (Chorando.) Sou muito desgraçada! muito! muito!

CONSELHEIRO - Mau! já começam os nervos... Vai descansar, anda! Toma uma colher do teu xarope, e vê se dormes um pouco. (Levando-a até a porta.) Vai, anda. (Magdá sai.)

CENA II

O CONSELHEIRO, depois DONA LIBÂNIA, depois o DOUTOR LOBÃO

CONSELHEIRO - Cumpri o meu dever, se mais não fiz, foi porque não pude. Cumpri o meu dever é modo de falar... Mirem-se neste espelho todos aqueles que andam a fazer diabruras na mocidade. Eis o resultado que produzem os casamentos de mão esquerda. Se o Fernandinho não fosse meu filho, teria casado com ela, e não teria ido para a Europa, ou iriam ambos, e seriam ambos felizes. Mancebos! mirai-vos neste espelho! Não vos metais em frota sem bandeira! É bom, mas sai muito caro.

DONA LIBÂNIA (Da porta, e com o rosto coberto por um véu.) - Dá licença?

CONSELHEIRO - Entre, quem é?

DONA LIBÂNIA (Entrando.) - É aqui que mora o Conselheiro Pinto Marques? (Vendo o Conselheiro, que se volta, e levando a mão ao coração. À parte.) É ele! Cala-te, coração!

CONSELHEIRO - (À parte.) - Eu sei o que aquilo é. (Alto, dando-lhe dinheiro.) Aqui tem, minha senhora, não repare a insignificância...

DONA LIBÂNIA - Que é isto?

CONSELHEIRO - Já estou prevenido. Tome. Desculpe: não tenho um envelope à mão...

DONA LIBÂNIA - Mas...

CONSELHEIRO - Pois a senhora não anda agenciando donativos para o jubileu do Papa?

DONA LIBÂNIA (Tirando o véu.) - Que Papa nem meio Papa! Olha para mim... Vê que sou a tua Libânia!

CONSELHEIRO (Estupefato.) - A Libânia!...

DONA LIBÂNIA - A Libânia, sim, que vem de Lisboa expressamente para salvar seu filho!

CONSELHEIRO - O Fernandinho? Como assim?

DONA LIBÂNIA - Recordas-te que ele obrigou-te a dizer quem era sua mãe?

CONSELHEIRO - Sim, e depois?

DONA LIBÂNIA - Depois é que O rapaz foi ter comigo a Lisboa e disse-me tudo.

CONSELHEIRO - Tudo quê?

DONA LIBÂNIA - Que se apaixonou pela menina sem saber que era sua irmã. O rapaz estava magro que metia dó. Consultou-se um médico... e o médico receitou-lhe... uma mulher. Levamos muito tempo à procura de uma mulher.

CONSELHEIRO - Como eu à procura de um homem!

DONA LIBÂNIA - Mas qual! não havia mulher que lhe agradasse...

CONSELHEIRO - Tal qual a irmã!

DONA LIBÂNIA - Resolvi então contar-lhe tudo.

CONSELHEIRO - Tudo quê?

DONA LIBÂNIA - Era preciso muitos rodeios... tu sabes como o Fernandinho é um rapaz de brios.

CONSELHEIRO - Sai ao pai.

DONA LIBÂNIA - Isso sai.

CONSELHEIRO - Eu sou um homem brioso.

DONA LIBÂNIA - Mas não és pai dele. E foi isso o que lhe disse, que, se o não fizesse, o pobre rapaz estava ali, estava no cemitério dos Prazeres.

CONSELHEIRO (Atônito.) - Como? Pois o Fernandinho não é meu...

DONA LIBÂNIA - Filho? Não é, não, senhor. Pois não foste!

CONSELHEIRO (Crescendo para ela.) - Miserável!

DONA LIBÂNIA - Olha, Pinto Marques, bem sei que mereço a tua cólera... mas se eu te dissesse a verdade, tu retiravas-me a mesada, e então... impingi-te aquele filho... E assim o rapaz criou-se, educou-se, e hoje está um homem às direitas. Não procuravas um homem? Ali o tens!

CONSELHEIRO - E ainda se diz isto com semelhante frescura! E onde está ele, o Fernandinho?

DONA LIBÂNIA - Veio comigo... exigiu que eu viesse de Lisboa para dizer-te tudo isto de viva voz...

CONSELHEIRO - Mas onde está ele neste momento, é o que eu pergunto!

DONA LIBÂNIA - Perto daqui, à minha espera. Não se apresentará sem saber que me perdoas, e que a menina é sua.

CONSELHEIRO - Pois mande-o ter comigo imediatamente.

DONA LIBÂNIA - E eu?

CONSELHEIRO - A senhora suma-se e não me apareça mais! Se acha que é brincadeira impingir-me um filho durante vinte e tantos anos, e fazer-me andar da sala para a cozinha por não poder casá-lo com a pequena!

DONA LIBÂNIA (Com um suspiro.) - Ah! Pinto Marques! se quisesses... Juro-te que nunca mais!

CONSELHEIRO - Pudera! na sua idade! É o caso do soldado que não faz fogo porque não tem pólvora! Nada, minha senhora, contente-se com ver feliz seu filho, o que já não é pouco. Mas diga-me: quem é o verdadeiro pai?

DONA LIBÂNIA - O verdadeiro pai... (Vendo entrar o Doutor Lobão.) O verdadeiro pai, ei-lo!

DOUTOR e CONSELHEIRO - Hem?

DONA LIBÂNIA - Não me conheces, Lobão? Olha bem para mim, sou a Libânia.

O DOUTOR - A minha rapaziada!

DONA LIBÂNIA - A mãe de teu filho!

O DOUTOR - De meu filho? Já aqui não estou bem! (Sai correndo.)

DONA LIBÂNIA - Não me escaparás! (Corre atrás do Doutor.)

CONSELHEIRO (Indo á porta e gritando.) - Senhora, mande-me o rapaz! mande-me o rapaz!

CENA III

CONSELHEIRO, depois MAGDÁ, depois FERNANDO

CONSELHEIRO - Creio que é esta a primeira vez que um homem dá graças a Deus por não ser pai de seu filho. Mas o Lobão... quem diria? Ora adeus! não importa! Minha filha achou o homem... que felicidade! (Chamando.) Magdá. Magdá! Daqui a quinze dias, o mais tardar, quero vê-los casados. Magdá!

MAGDÁ (Entrando.) - Que é, papai?

CONSELHEIRO - Ah, minha filha, se soubesse!

MAGDÁ - O quê? papai está me assustando!

CONSELHEIRO - Que ventura, meu amor! Prepara-te para a mais agradável das surpresas. O Fernandinho...

MAGDÁ - Diga, diga, papai!

CONSELHEIRO - Estás preparada?

MAGDÁ - Estou! Diga!

CONSELHEIRO - O Fernandinho... Espera! (Batendo palmadas.) Um... dois... e...

MAGDÁ - Três.

CONSELHEIRO - O Fernandinho não é teu irmão!

MAGDÁ - Não é meu irmão? Como assim?

CONSELHEIRO - É filho do Doutor Lobão.

MAGDÁ - Hein?

CONSELHEIRO - Depois tudo te contarei. É teu noivo. Não tarde aí. (Fernando aparece.) Ei-lo. (Magdá solta um grito e corre a abraçar Fernando.)

Terceto

MAGDÁ - Fernandinho!

FERNANDO -

Magdá!
Eis-me de novo ao teu lado!

MAGDÁ - És o meu noivo adorado!

CONSELHEIRO -

- E teu marido será,
Olá!

FERNANDO - Eu hei de ser eternamente teu!

MAGDÁ - E eu hei de ser eternamente tua!

CONSELHEIRO -

- Em casa homem tinha eu
E a procurá-lo andei na rua.

JUNTOS -

- Eis-me aqui!
Eis-te aqui!
Ei-lo aqui!
Que alegria!
Esqueço neste dia
As mágoas que sofri.

MAGDÁ (Ao público.)

- A peça está terminada;
Falta a apoteose final,
Que deve ser explicada
De um modo muito cabal...
Ali figurar devia
Uma entidade qualquer;
Um autor o homem queria,
E o outro autor, a mulher.
Pra que a questão se acabasse,
Foi chamado um mediador,
E achou que se consagrasse
A apoteose do amor.
O alvitre foi logo aceito;
O amor agrada a qualquer;
- Fica o homem satisfeito,
E satisfeita a mulher.

JUNTOS -

- Fica o homem satisfeito,
E satisfeita a mulher.

(Mutação)

Quadro 10

Apoteose do Amor.

[(Cai o pano.)]

Fonte: www.biblio.com.br

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