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O TRiBOFE

artur azevedo

CENA VI

Tribofe, Frivolina, João Caetano, Companhia Lambiasi, Companhia Gargano, Companhia Maresca.

As três companhias, entrando alegremente. - Evviva! Evviva! Salute, signori miei!

Canto

In questa bella città,
Ove venute noi siamo,
Si trova ospitalità
E de nato guadagniamo!

Frivolina. - Viva! Como vêm alegres!

Tribofe. - Ah! Isto sim!...

João Caetano. - Com quem tenho a honra de falar?

As três companhias, falando no mesmo tempo. -Siamo tre compagnie italiane di opere-comiche e di operette... La compagnia Lambiasi, la compagnia Gargano e la compagnia Maresca.

Tribofe. - Fale cada qual por sua vez.

Companhia Gargano. - Siamo tre compagnie italiane di opere-comiche e di operette: Io sono la compagnia Gargano!

Companhia Maresca. - Io sono la compagnia Maresca!

Companhia Lambiasi. - Io sono la compagnia Lambiasi, ma me ne vado via, perche non c'è posto per tante compagnie! (Sai.)

Frivolina. - Sim, não há lugar para tantas.

Tribofe, a Companhia Gargano. - Parlate voi.

Companhia Gargano. - lo sono la migliore compagnia italiana di opere-comiche e di operette che si sia presentata in questa città! Ho portato Una notie in Venezia.

Companhia Maresca. - Il mio repertorio è molto migliore. Ho portato I Granatieri!

Companhia Gargano. - Ho portato Una notte in Venezia!

Companhia Maresca. - Ho portato Lo zingaro barone!

Companhia Garg ano. - Ho portato Una notte in Venezia!

Companhia Maresca. - Ho portato Gasparone!

Companhia Garga no. - Ho portato... Una notte in Venezia!

Companhia Maresca. - Ho portato La guardia notturna!

Companhia Gargano. - Ho portato...

Tribofe, interrompendo-a. - Una notte in Venezia?... Boa noite! (A Companhia Gargano foge.)

Companhia Maresca. - Voglio farvi sentire un pezzo dei Granatiere.

COPLA

Generale, questo cor,
Ahimè!
Sará spento daí dolor,
Perchè
Schiavo egli é d'amor! -
Un simpatico uffizial
D'amar
Mi s'impon; ma, general,
Sposar
Vorrei un caporal!
- Ma al cor non si può commandar!
Basta a me un caporal
Gagliardo, pien di grazia e di valor;
Che me fa inebriar la mente e il cor!

(A Companhia Maresca sai dançando.)

CENA VII

Tribofe, Frivolina, João Caetano, Desiré.

Desiré, que entra, vestido de cozinheiro. - Pobrezinha! vou matá-la com a minha companhia de opereta francesa!

Tribofe. - Encontrei hoje um dos artistas na Rua do Espírito Santo. Dei-lhe um nickel. Tomei-o por um mendigo.

João Caetano. - Então também o senhor tem uma companhia de opereta?

Desiré. - Sim, senhor.

Frivolina. - E para onde vai ela?

Desiré. - Para o Lucinda.

Tribofe. - Desaloja Sardou e Dumas Filho!...

Desiré. - Ia para a Maison Moderne... mas o teatro não ficou pronto.

Frivolina. - Que teatro?

Desiré. - Parbleu! o teatro da Maison Moderne!

Tribofe. - Daqui a nada o Stadt Koblenz tem um circo!

Desiré. - Cá está o menu.

João Caetano. - O menu?

Desiré. - Quero dizer, o repertório. E splendide! La Soupe a l'Oignon, pochade em um ato. Beefteck aux pommes, opereta em dous atos. Porção sortida, vaudeville em três atos. Uma pá do gelo, grande pièce à spectacle em quatro atos... Le...

Frivolina, interrompendo-o. - Silêncio! Vem aí um grande artista!

João Caetano. - Quem?

Frivolina. - O Visconti! E o grande acontecimento teatral de 1891! (Ouvem-se vozes.) Ouçam como o povinho o aclama! ...

CENA VIII

Os mesmos, Visconti e muitos admiradores, que o trazem em triunfo.

Coro de admiradores
Eis o Visconti, famoso
Talento descomunal,
Que no gênero jocoso
Não tem no mundo rival!
Demos palmas ao gênio imortal!

(Ruidosa salva de palmas.)

Visconti

Do gosto fluminense
O ideal sou eu!
Esta terra me pertence!
Este povo é todo meu!
Cheguei, cheguei, cheguei!
Venci, venci, venci!
Que bom povo aqui topei!
Outro povo assim não vi!...
Que bom povo aqui topou!
Este povo é todo seu!

Coro

Chegou, chegou, chegou!
Venceu, venceu, venceu!
Que bom povo aqui topou!
Este povo é todo seu!

João Caetano. - Mas, por fim de contas, quem é esta senhora?

Visconti. - Senhora, não senhor; senhor. Só me visto de mulher para trabalhar. Sou um excêntrico.

João Caetano. - Mas em que consistem as suas excentricidades?

Visconti. - Canto cançonetas em falsete, imito o zumbido da mosca e toco piano de costas.

João Caetano. E é o primeiro acontecimento teatral do ano! Saia, saia de minha presença!...

Visconti. - Está doido!

João Caetano. - Ah! não quer sair?... Pois vou atravessá-lo com a espada de Oscar, filho de Ossian! (Corre para ele. Visconti sai, correndo. João Caetano sai perseguindo-o.)

Coro

Salvemos o famoso
Artista sem rival,
Pois que o outro furioso
Bem lhe pode fazer mal!

CENA IX

Tribofe, Frivolina, João Caetano, Desiré, depois o Câmbio.

Tribofe. - E a estátua? Vão dar por falta dela!

Frivolina. - Não te incomodes! Olha! (Agita a varinha. Forte na orquestra. A estátua reaparece.) Vês? Lá está João Caetano restituído ao seu glorioso pedestal!

(Música.)

Tribofe. É ele...

O Câmbio, entrando da esquerda.

Mim ser o Câmbia,
Bem alta estar,
Mas desconfia
Que vai baixar...

(Sai pela direita.)

Frivolina. - Aonde irá ele a estas horas?

Tribofe. - Não sei... Vai na direção do Tesouro. E nós? Vamos ceiar?

Frivolina. Está dito!

Tribofe. Ó Desiré, venha dai servir-nos uma ceia em dous atos... quero dizer - dous pratos.

Frivolina. Com música do maestro Chateau La-Pipe.

Desiré. - Pronto! (Saem. Mutação.)

QUADRO DECIMO

A mesma cena do quadro III, mas sem o mesmo movimento. De vez em quando passa alguém.

CENA PRIMEIRA

Castelvecchio, 1.º Zangão, 2.º Zangão. (Castelvecchio tem nas mãos uma balança e uma grande ruma de papéis.)

CANTO

Castelvecchio e os Zangões.
Infeliz Encilhamento,
Quem te vê e quem te viu!
Ouro, brilho e movimento,
Tudo agora se sumiu!
O fado te foi contrário,
A sorte não te quis bem!
És um campo solitário
Onde a desgraça nos tem?
Quando a fortuna sorria,
Tu foste um ninho de heróis...
Encilhamento, hoje em dia
Não vales dous caracóis!

Castelvecchio, declamando. - Vejam os senhores... Cantamos um terceto, porque

no Encilhamento não há gente para um coro...

Castelvecchio. - Vamos, vamos tratar da vida, se é que a isto se pode chamar vida! Há um mês que não faço para o bonde!

1.º Zangão. - Ninguém compra!

2.º Zangão. - Ninguém vende!

1.º Zangão - Vou almoçar; vens?

2.º Zangão. - Vou. Ao menos valha-nos isso. (Saem)

Castelvecchio, só. - Que vou eu fazer de toda esta papelada?

CENA II

Castelvecchio, Dona Fortunata, Quinota, Juca.

Castelvecchio, dirigindo-se a Dona Fortunata. Minha senhora, quer talvez algumas das famosas debentures...

Dona Fortunata. - Não, sinhô. Castelvecchio, mostrando a papelada e a balança. - Na minha mão as encontra mais barato que noutra qualquer parte. Vendo-as a quinze mil-réis o kilo... e bem pesado.

Dona Fortunata. - Não, sinhô.

Castelvecchio. - Em porção faço abatimento.

Dona Fortunata. - Já le disse que não quero, oh!...

Castelvecchio. - Isto é um grande papel, minha senhora!

Quinota. - Não insista: perde o seu tempo. (Castelvecchio afasta-se.)

Castelvecchio, apregoando. - Olha as debentures da Geral! Faz-se abatimento em porção!

Quinota. - São os tais papéis em que Seu Gouveia tinha tanta fé... Veja que já são vendidos a peso!

Dona Fortunata. - Não me fala de Seu Gouveia... Há oito dia não nos aparece; é verdade!... Fez como teu pai, aquele maluco, que perdeu a cabeça e ninguém sabe onde se meteu! Felizmente tinha me deixado dinheiro para as despesa!

Juca. - Eu quero andá!

Dona Fortunata. - Vamo, diabo de menino, vamo!... Que pena o colégio tê se fechado!... A gente não vai hoje pra casa sem tê encontrado um dos dous, ou Seu Eusébio ou Seu Gouveia.

Quinota. - Seu Gouveia, esse talvez esteja na Rua da Alfândega. Vamos por aqui. (Saem.)

CENA III

Ernestina, de braço dado a Cazuza.

Cazuza. - Este lugar é muito perigoso! Tenho medo de encontrar titio, que anda sempre aqui pela Rua Direita.

Ernestina. - Mas eu é que já te não largo! Hás de ir comigo para casa!

Cazuza. - Nada! E se lá estiver o tal Eusébio? O diabo do matuto esta manhã quase me vai ao pêlo!

Ernestina. - Descansa... Ele lá não está, nem nunca mais lá irá.

Cazuza, contente. - Deveras?

Ernestina. - Está despedido.

Cazuza. - Ah!

Ernestina. - De hoje em diante aquela casa é tua.

Cazuza. - Oh!

Ernestina. -Oui... porque és tu que eu amo... é a ti que eu prefiro, a ti, que és moço e bonito!

Cazuza. - Tenho apenas vinte anos.

Ernestina. - Vinte anos! Quem me dera a tua idade! Já fiz vinte e três. (À parte.) II y a longtemps!

COPLA

Vinte anos, quadra risonha,
Da vida tímida flor,
Idade em que mais se sonha,
Formosa estação de amor!
Por ti eu padeço e choro...
Tem compaixão de meus ais!
Querido, como te adoro!...

(À parte.)

E ao teu dinheiro inda mais...

Cazuza. - Vamos para casa.

Ernestina. - Sim, mas pela Rua do Ouvidor. Quero passar pela casa do Farani. Estou namorando um par de bichas!

Cazuza. - Hás de mostrar-mas. (À parte.) Vou fazer-lhe uma surpresa!

Ernestina. - Vai adiante; olha que podemos encontrar teu titio.

Cazuza. - Tens razão.

Ernestina, a parte. - Ce serait dommage!

Cazuza. - Espero-te parado defronte da vitrine... assim... como quem não quer a coisa... (À parte.) Como esta mulher me ama!... (Sai. Entra Gouveia sem ver Ernestina, que vai saindo. Traz o fato velho, as botas rotas, a barba por fazer, um aspecto geral de miséria e de desânimo.)

Ernestina, saindo, à parte. - Oh! pauvre Gouveia! Il n'a plus le sou! (Sai.)

CENA IV

Gouveia, depois Pinheiro.

Gouveia, vindo ao proscênio. - Ninguém acreditará que eu, ainda há seis meses, tivesse jóias e carruagens, e hoje não tenha dinheiro nem crédito para comprar um par de botinas! Há oito dias não vou à casa de minha noiva, porque tenho vergonha de lhe aparecer neste estado! Malditas debentures!

Pinheiro, aparecendo. - Oh, Gouveia, como vai isso?

Gouveia. - Mal, meu amigo, muito mal.

Pinheiro. - Mas que quer isto dizer? Não pareces o mesmo! Tens a barba crescida, a roupa no fio... Desapareceu do teu dedo aquele esplêndido e escandaloso farol, e tens umas botas que parecem rir da tua esbodegação!

Gouveia. - Fala à vontade! Eu mereço os teus remoques.

Pinheiro. - E dizer que no começo deste ano quiseste pagar com juros de trezentos por cento cinco mil-réis que eu te havia emprestado!...

Gouveia. - Por sinal que me disseste, creio, que esses cinco mil-réis ficavam às minhas ordens...

Pinheiro. - E ficaram. (Tirando dinheiro do bolso.) Cá estão eles. Mas como um par de botinas não se compra com cinco mil-réis, aqui tens vinte... sem juros. Pagarás quando puderes. (Dá-lhe dinheiro.)

Gouveia. - Obrigado, Pinheiro! bem se vê que tens uma grande alma, e que não compraste debentures!

Pinheiro. - Achei que era muita mecha por dez réis. Adeus, Gouveia, aparece... Agora, que estás pobre, isso não te será difícil... (Sai.)

CENA V

Gouveia, depois Eusébio.

Gouveia, só. - Como este tipo faz pagar caro os seus vinte mil-réis! Pode lá haver juro mais pesado! Ah! ele apanhou-me descalço... Enfim, vamos lá comprar as botinas! (Vai saindo, e encontra-se com Eusébio, que entra cabisbaixo.) Oh! o Senhor Eusébio!...

Eusébio. - Andava le precurando.

Gouveia, atrapalhado . - Sim... eu... (À parte.) Como está sentido! Vai falar-me de Quinota.

Eusébio. - O sinhô vai ficá admirado. Hoje de menhã encontrei ela beijando um mocinho!

Gouveia. - Hein?

Eusébio. - É levada do diabo! Eu não sei como o sinhô poude gostá dela! ...

Gouveia. - Ora essa! a ponto de querer casar-me!

Eusébio. - Home, dessa não sabia eu!... Mas olhe que era uma burrice!

Gouveia. - Custa-me crer que ela...

Eusébio. - Pois creia! Beijando um mocinho, um pelintreca, Seu Gouveia! Beijo que se ouvia na rua! Veja o sinhô de que serviu gastá tanto dinheiro co'ela!...

Gouveia. - Sim, o senhor educou-a tão bem... ensinou-lhe tanta coisa...

Eusébio, vivamente. - Não, sinhô! Não ensinei nada! Ela já sabia tudo! O sinhô, sim! Se alguém ensinou foi o sinhô e não eu! (Passando.) Beijando um mocinho, Seu Gouveia!...

Gouveia. - Dona Fortunata não viu nada?

Eusébio. - Como é que havera de vê! Pobre Dona Fortunata! E a outra que se fique co'tá pilintreca! Eu lá não vorto!

Gouveia. - Não volta! Ora esta!

Eusébio. - Não quero mais sabê dela!

Gouveia. - O senhor deve lembrar-se que é pai.

Eusébio. - E uma rezão para não querê mais sabê daquele diabo! Ah! Seu Gouveia, se arrependimento sarvasse... Bom, eu andava le precurando pra me apadrinhá... Não me astrevo a entrá em casa sozinho despois de tantos dia de osença!

Gouveia. - Em casa?! Mas o senhor não me acaba de dizer que lá não volta porque Dona Quinota...?

Eusébio. - Quem le falou de Quinota?

Gouveia. - Quem foi então que o senhor encontrou aos beijos?

Eusébio. - A madama!

Gouveia. - Dona Fortunata?

Eusébio, furioso. - Minha muié!... O sinhô está doido!...

Gouveia. - Desculpe... é que, geralmente, o homem casado que se refere à sua esposa, diz "a madama". (Com uma idéia.) Ah! Agora percebo! Foi a francesa!

Eusébio. - Pois quem havera de sê!

Gouveia. - Nem me lembrava da existência dela! E eu que supus... Perdoa, Quinota, perdoa!... Vamos, vamos, Senhor Eusébio... Eu o apadrinharei, mas com uma condição: o senhor por seu turno me há de apadrinhar a mim, porque eu também não apareço à minha noiva há muitos dias.

Eusébio. - Por quê?

Gouveia - Em caminho tudo lhe direi. (À parte.) Aceito o conselho de Quinota: abro-me! (Alto.) Tenho ainda que comprar um par de botinas e fazer a barba.

Eusébio. - Vamos, seu Gouveia! (Saem.)

CENA VI

Tribofe, Frivolina, depois o Câmbio, depois o Delegado.

Frivolina, entrando. - Dissolvido o Congresso!

Tribofe, entrando. - Suspensas as garantias!

Frivolina. - A Capital em estado de sitio!

Tribofe. - A Praia Grande idem! Sim, senhor: isto é que é tribofe, e o mais são histórias! Menina, vamos comprar ações do Banco da República. É o conselho que me deu um dos membros da Junta Fiscalizadora.

Frivolina. - Nada! é melhor ver em que param as modas. (Música.)

Tribofe. - É ele! Já cá tardava!...

O Câmbio, entrando.

Mim ser o Câmbia,
Bem alta estar,
Mas desconfia
Que vai baixar...

(Sai.)

Frivolina. - Pois ele terá ainda a pretensão de baixar?

Tribofe. - Tudo baixa... à exceção do obituário... e...

Frivolina. - Cala-te!

Tribofe. - Por quê?

Frivolina. - É ele!

Tribofe. - Ele quem?

Frivolina. - O terrível delegado da ditadura!

O delegado, entrando, com um saco vazio na mão. - Vêem este saco? Está vazio...

Tribofe, à parte. - Temos mágica!

O delegado. - Está vazio, mas já esteve cheio!

Frivolina. - De quê?

O delegado. - De rolhas! Arrolhei tudo!...

COPLAS

I

O delegado iracundo
Da ditadura aqui está,
Pronto a prender todo o mundo
Da Gávea até Paquetá!
Treme o moço e treme o velho,
Vendo ao longe flamejar
Meu apêndice vermelho,
Minha prenda capilar!

II

Nesta lida intemerata
Alto valor mostrarei:
Quando o barão disser: - Mata!
- Eu - Esfola! - bradarei!
Por isso, folha por folha
Eu há pouco percorri,
E prontamente uma rolha
Em cada boca meti!

(Sai.)

CENA VII

Tribofe, Frivolina, o Banqueiro.

Tribofe. - Olhem quem ele é! Venha cá, não tenha tanta pressa! Fale com os pobres!

Frivolina. - Julguei que estivesse em viagem para as Európicas.

O banqueiro. - Devia estar, mas não me deixaram partir..

Tribofe. - Por quê?

O banqueiro. - Cá por coisas...

Frivolina. - Que me diz de tudo isto?

O banqueiro. - Não digo nada... As garantias estão suspensas... Não posso falar...

Frivolina. - Que diabo! há coisas de que o povinho há de sempre falar, haja quantas ditaduras houver... Por exemplo: os direitos em ouro... o contrato das carnes...

Tribofe. - ... o pão em pílulas...

Frivolina. - ... os barulhos da Estrada de Ferro...

O banqueiro. - Nada! falemos da penhora do Consulado Português... do eclipse... do balão de onze metros que pegou fogo... (Arrependendo-se.) Não! o balão já é um assunto político... (Consultando o relógio e dando um pulo.) Oh! diabo! estou entre dez e as onze! Vou à Rua do Lavradio! (Sai correndo.)

CENA VIII

Tribofe, Frivolina, 1.º filantropo, 2.º filantropo.

CANTO

1.º filantropo

Tenho uma alma bem formada!
Vou gastar alguns bons cobres,
Pra que tenham feijoada
Sete mil famílias pobres!

2.º filantropo

Vosmecê, meu amiguinho
Esqueceu-se do toucinho;
Mas à minha feijoada,
Há de ver, não falta nada!

Frivolina

A feijoada dos fluminenses
Deve ter todos os seus pertences.

Tribofe

A carne-seca deve estar boa,
E o belo paio ser de Lisboa!

Frivolina

Cabeça de porco
Dá graça ao feijão...
Banana cozida,
Pimenta e limão!

Tribofe e Frivolina

Outra farinha não haja
Senão a de Suruí,
E no final não se esqueçam
Do parati

Os quatro

Outra farinha não haja etc.

1.º filantropo. - Venha, colega. Quero levá-lo a admirar a minha apoteose. que está na Sapataria Moncada.

Frivolina. - Bravo! Vossa Excelência tem uma apoteose em vida!

1? filantropo. - Entendamo-nos. A minha apoteose é a apoteose de Hahnemann.

Tribofe. - Ann...

1.º filantropo. - A apoteose da Homeopatia! Uma tela que comprei por vinte contos de réis fortes.

2.º filantropo. - Vinte contos fortes! Por quê?

1.º filantropo. - Por ser obra do Porto. Se mais pedissem, mais eu daria.

Tribofe. - O quadro é assim tão bom?

1.º filantropo. - Não sei se é bom; só sei que é grande, muito grande. Como já comprei por três contos um quadro deste tamanho (Indica um quadro de dous palmos), não acho muito dar vinte, embora fortes, por um daquelas dimensões! Estou com vontade de pedir ao mesmo artista que me pinte agora a apoteose da Alopatia.

Frivolina. - Mas veja se ele lhe arranja isso pela metade.

2.º filantropo. - Ou se lhe paga em debentures...

1.º filantropo. - Eu tenho por divisa não olhar a despesas!

Tribofe, apertando-lhe a mão. - Toque! assim é que se responde!

Frivolina. - Mas por que quer duas apoteoses tão contrárias?

1.º filantropo. - É porque tenho amigos que se tratam pela Homeopatia e amigos que se tratam pela Alopatia. Não quero que fique nenhum descontente. Ande dai, colega!

2.º filantropo. - Vamos lá. (Saem os dous filantropos.)

Frivolina. - Já via tal apoteose. E um horror! Eu não a queria de graça!

Tribofe. - Nesse caso, e uma vez que é tão grande, por que não manda ele distribui-la pela pobreza?

CENA IX

Tribofe, Frivolina, O Tempo.

Frivolina. - Olha O Tempo!

Tribofe. - Bravo! o Tempo novo e sem barbas!

O Tempo. - Pois não se diz que os tempos estão mudados?

Frivolina. - Mas como foi isto? Você escapou à rolha?

O Tempo. - Aconteceu-me peior: fui suspenso!

Tribofe e Frivolina. - Suspenso?!

O Tempo. - Sim, meus amigos, e o meu eclipse coincidiu com o da lua. Entrámos na penumbra quase ao mesmo tempo.

LUNDU

I

Meu Deus!
Amigos meus,
Suspenso fui,
Ui!
Olá!
Que gente má!
Peior não há,
Nem haverá!
Em prosa macia,
De estilo pacato,
Escrevi um artigo
Patriota e sensato,
Que não merecia
Tanto espalhafato,
Tão severo castigo
Nem tão grande aparato!
A liberdade da imprensa
Morreu às mãos de um barão,
Pois uma folha é suspensa,
E não se sabe a razão!

II

Verão Que a suspensão
Ser boa vai,
Ai!
Olé!
Pois tenho fé
Que tomo pé
Co'este banzé!
Sofri um vexame,
Passei por suspeito,
Mas de tudo isto espero
Me utilizar com jeito...
Tão bela reclame
De certo aproveito,
E já me considero
Agora um jornal feito!
A liberdade da imprensa etc.

Bom! Adeus! Quando quiserem, apareçam para jantar... Continuo a ter invariavelmente à minha mesa leitão e carneiro.

Tribofe. - São duas petisqueiras. Adeus! estimo que quanto antes saia da penumbra! (O Tempo sai.)

Frivolina. - São horas de fazermos também eclipse, Seu Tribofe. - Está concluída a revista fluminense dos acontecimentos de 1891.

Tribofe. - Eu volto à minha personalidade de naturalista russo.

Frivolina. - E eu aos intermúndios da fantasia!

Ambos. - Minhas senhoras... meus senhores... Não faltem amanhã, às mesmas horas. (Cumprimentam e saem.)

CENA X

A Varíola, depois a Febre Amarela.

Varíola, entrando da esquerda, com preparos de viagem. - Já está muito calor... É tempo de me pôr ao fresco. (Vai saindo, e encontra-se com a Febre Amarela, que entra da direita, também com preparos de viagem.) Oh, Febre Amarela! Chegas agora?

Febre Amarela. - É verdade.

Varíola. - E eu parto.

Febre Amarela. - Venho substituir-te. (Apertando-lhe a mão.) Foste feliz?

Varíola. - Felicíssima!

Febre Amarela. - Que tal a Inspetoria de Higiene.

Varíola. - Boa.

Febre Amarela. - E a Intendência Municipal?

Varíola. - Ótima.

Febre Amarela. - Ainda bem! Até a vista!

Varíola. - Sê feliz! (Apertam-se as mãos e saem, a Febre Amarela pela esquerda e a Varíola pela direita.)

CENA XI

A Imprensa, depois a Legalidade.

(Entra a Imprensa com uma enorme rolha na boca. Cena muda. A Imprensa exprime por gestos que não pode falar. Desespera. Afinal vê a Legalidade, que entra, e lança-se-lhe nos braços.)

A Legalidade. - Pobre Imprensa!... - Arrolhada!... Eu sou a Legalidade, e posso servir-te de saca-rolhas. (Arranca-lhe a rolha da boca.)

A Imprensa, furiosa. - Tiranos! patifes! déspotas! velhacos! insolentes! Deixem estar que eu lhes vou mostrar para que presto!...

A Legalidade. - Isso!... berra à vontade!

A Imprensa. - Vou soltar a língua aos quatro ventos! Tiranos! déspotas! criminosos! doidos! súcia de tratantes! (Sai, vociferando sempre.)

A Legalidade. - Ai vem a minha milícia! O Batalhão Tiradentes!...

(Entrada do Batalhão Tiradentes.)

CORO

Empunhando estas espadas,
Demos toda a nossa vida
Pela pátria estremecida,
Ó camaradas!
Arrojados e valentes,
Neste instante de ventura
Invoquemos a figura
De Tiradentes!

(Evoluções. Mutação.)

QUADRO UNDECIMO

Sala baixa e estreita na casa ocupada por Eusébio e sua família. Uma porta de cada lado da cena.

CENA PRIMEIRA

Dona Fortunata, depois o Senhorio.

(Ao levantar o pano ouve-se bater palmas.)

Dona Fortunata, entrando da direita. - Entre quem é.

O Senhorio, entrando da esquerda. - Sou eu, minha senhora. Cá está o recibo do mês passado. (Dá-lhe o recibo.)

Dona Fortunata. - Já le esperava. O sinhô é infalive no dia premeiro. (Tira do bolso dinheiro e dá-lho.)

O senhorio, depois de contar. - Cem mil-réis. Está exato. (Guardando o dinheiro.) Previno-a, minha senhora, que de hoje em diante à casa pagará mais dez mil-réis por mês.

Dona Fortunata. - O quê! Ainda um omento?! O sinhô tem omentado todos os mês!...

O senhorio. - Não a obrigo a ser minha inquilina. Há muito quem queira. Eu acho por esta casa cento e vinte cinco mil-réis a olhos fechados!

Dona Fortunata. - E até onde pode chegá! Uma casa destas cento e dez mi-réis!

O senhorio. - E dê-se por muito feliz. Passar bem, minha senhora! (Sai.)

Dona Fortunata. - Adeus, Seu. O que vale é que é por pouco tempo.

CENA II

Dona Fortunata, Juca, depois Quinota.

Juca, entrando a correr. - Mamãe! mamãe! Papai tá aí!

Dona Fortunata. - Tá ai?

Juca. - Eu encontrei ele ali no canto, e ele me disse que viesse vê se vosmecê tava zangada, que se tivesse ele não entrava.

Dona Fortunata. - Aquele home é os meus pecado! Vai dizê a ele que não tou zangada.

Juca. - Seu Gouveia tá junto co'ele.

Dona Fortunata. - Bem! venhum todos dous.

Uucasaz correndo.) Quinota! Quinota! A voz de Quinota. - Senhora?

Dona Fortunata. - Vem cá, minha filha. - Eu não ganho nada me encanzinando. Já tou velha; não quero me amofiná. (Entra Quinota.) Quinota, teu pai vem aí, e para que ele não torne outra vez a se osentá de casa, amenhã de menhã vamos embora.

Quinota. - E Seu Gouveia?

Dona Fortunata. - Seu Gouveia também vem aí.

Quinota, contente. - Ah!...

Dona Fortunata. - Não quero mais ficá numa terra onde os marido passa noites e noite fora de casa e os senhorio omenta os alugué todo os mês!

CENA III

Dona Fortunata, Quinota, Juca, Eusébio, depois Gouveia.

Juca. -Tá aí papai!

Eusébio, da porta. - Posso entrá? Não temo briga?

Quinota. - Estando eu aqui, não pode haver brigas.

Dona Fortunata. - Sim, minha filha, tu é o anjo da paz.

Quinota, tomando o pai pela mão. - Venha cá. (Tomando Dona Fortunata pela mão.) Vamos! abracem-se!

Dona Fortunata, abraçando-o. - Diabo de home véio sem juízo!

Eusébio. - Rae, rae, Dona Fortunata! Rae, mas não se azangue'

Dona Fortunata. - Pai de filha casadeira!

Eusébio. - Tá bom! tá bom! Pormeto me emendá! Mas deixe le dizê...

Dona Fortunata. - Não! não diga nada, não se defenda! E mió que as coisa fique como está!

Juca. - Seu Gouveia tá no corredô!

Quinota. - Ah! (Vai buscar Gouveia pela mão. Gouveia entra manquetando.)

Eusébio. - Assim é que o sinhô me apadrinhou?

Gouveia. - Deixe-me! estas botinas novas fazem-me ver estrelas!

Dona Fortunata. - Seu Gouveia, le. participo que amenhã de menhã estamo de viage.

Eusébio. - Já conversei co'Seu Gouveia.

Gouveia, a Quinota. - Eu abri-me...

Eusébio. - Ele vai c 'a gente; não tem que fazê aqui. Tá na pindaíba, mas é o memo. Casa com Quinota e fica sendo administradô da fazenda. Arranjo outra coisa para Seu Borge.

Quinota. - Ah! papai! quanto lhe agradeço!

(Beija-o.)

Juca. - A Benvinda tá aí.

Todos. - A Benvinda!

Dona Fortunata. - A Benvinda! Não quero vê ela!... (Quinota vai buscar Benvinda, que entra, a chorar, vestida como no primeiro quadro.)

CENA IV

Os mesmos, Benvinda.

Benvinda, de olhos baixos. - Tou muito arrependida! Não valeu a pena!

Dona Fortunata. - Rua, sua desavergonhada!

Eusébio. - Tenha pena da mulata!

Dona Fortunata. - Rua!

Quinota. - Mamãe, lembre-se de que eu mamei o mesmo leite que ela.

Dona Fortunata. - Este diabo não tem descurpa! Rua!...

Gouveia. - Não seja má, Dona Fortunata... Ela também apanhou o micróbio da pândega...

Dona Fortunata. - Pois bem... mas se não se comportá direito... Vai lá pra dentro! (Benvinda sai.)

Eusébio, baixo a Dona Fortunata. - Há de casá co Seu Borge, que morre por ela... (À parte.) E o boiadeiro suspendeu c'os meus duzento mi-réis e não tomou nada!...

Dona Fortunata. - Vamo jantá!

Todos. - Vamos! (Saem Juca, Eusébio e Dona Fortunata. Quinota vai saindo e Gouveia puxa-a pelo braço.)

CENA V

Gouveia, Quinota.

Gouveia. - E o couplet final?

Quinota. - As revistas de ano nunca terminam com um couplet, mas com uma apoteose. (Vindo ao proscênio.) Minhas senhoras e meus senhores, o autor quis manifestar o seu respeito por dous brasileiros ilustres falecidos em 1891... (Apontando para o fundo) Benjamin Constant e Dom Pedro de Alcântara! (Mutação)

QUADRO DUODÉCIMO

Apoteose.

Fonte: www.biblio.com.br

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