O Doutor, O Tenente-Coronel, depois O Mestre-Escola, depois Dona Maria
O Tenente-Coronel - O Florentino é um vira-casaca! Quando cairmos,
há de ver que passa para os liberais. A sua única virtude é
ser danado nas eleições, mas também não me fio
muito nisso, porque a arrogância nos robustos é maior que a valentia,
como diz o Padre Vieira. (Outro tom.) Senhor Doutor Pinheiro. (Sentando-se.)
Onde estávamos? Ah! (Outro tom.) Eu reconhecendo em Vossa Senhoria
todas as qualidades desejáveis em um marido, anuí ao pedido,
depois de consultar minha pupila e afilhada. Ora, vendo que Vossa Senhoria,
no mesmo dia em que foi tratado o seu casamento com ela, como que a evita
e nem sequer a olha...
O Mestre-Escola (Entrando a correr e agarrando O Doutor.) - Seu Doutô!
Seu Doutô!
O Tenente-Coronel (Erguendo-se.) - O que é isto?...
O Mestre-Escola - Como eu tinha pagado prenda no jogo do senhô abade
me saiu e sentença vi buscá seu Doutô Pinheirinho e levá
ele pra varanda.
O Doutor (À parte.) - Felizmente. (Ao Tenente-Coronel.) Já vê
que não há remédio...
O Tenente-Coronel - Fica para outra vez!
O Mestre-Escola - Vamo, que eles lá dentro já está cansado
de esperá.
O Doutor - Vamos! Vá adiante... Não é preciso agarrar-me!
(Sai o Mestre-Escola, dando um encontrão em Dona Maria. A Dona Maria:)
Já sei, minha senhora: anda à procura de meu braço. Aqui
o tem! (Dá-lhe o braço e sai com ela.)
O Tenente-Coronel
O Tenente-Coronel - E nada de explicações! Quando vamos chegando a fala, somos interrompidos! No entanto, preciso... quero saber que explicação tem tudo isto! ah! uma pupila!
Coplas
I
Resgata os nossos muitos pecados
Uma pupila do nosso amor;
Se um pai zeloso tem mil cuidados,
Os tem maiores um bom tutor.
Constantemente metido em danças,
Este, coitado, tem que se achar;
Ditos, motejos, desconfianças
Tem costas largas para agüentar.
II
Não tem vontades, não tem direitos,
Um desgraçado, pobre tutor;
Os seus afetos estão sujeitos
Ao juiz d’órfãos e ao curador.
E, todavia, queira ou não queira
Pai como aqueles que mais o são;
‘Stou convencido que o Padre Vieira
Tinha, oh! se tinha! muita razão.
(Entram todas as senhoras, menos Francelina e Leonor, perseguidas pelos homens,
que trazem à sua frente Raimundo. A música das coplas prende-se
à do Coro.)
O Tenente-Coronel, O Doutor, Frederico, Passos Pereira, Raimundo, O Vigário, O Mestre-Escola, Dona Maria, convidados de ambos os sexos.
Homens (Empurrando Raimundo e perseguindo as senhoras.)
Há de beijá-las!
Há de abraçá-las!
Peça licença:
Cumpra a sentença!
As Senhoras (Fugindo.) Não me beijará!
O quê! O quê!
Não vê! Não vê!
Os Homens - Há de abraças!
As Senhoras - Não me abraçará!
Oo Homens - Há de beijar!
As Senhoras - Não há de beijar!
O Tenente-Coronel - Que bulha, ó Cristo!
Pra que gritar?
Expliquem-me isto,
Sem mais tardar!
Raimundo - Vou lhe explicar...
O Tenente-Coronel - Tenha a bondade.
Raimundo - No jogo do “senhor abade”
Mui... mui... mui... muitas prendas pago,
Porque sou gago;
Tive esta sentença,
Que procuro cumprir sem detença...
Passos Pereira - Abraçar
E beijar
As moças uma por uma,
Seja por bem ou por mal.
Raimundo - Em cumprir sentença tal,
Não sinto re...
Não sinto re...
Não sinto repugnância alguma.
Olé!
Coro - Não sente re...
Não sente re...
Não sente repugnância alguma
Olé!
Dona Maria - Os beijos abraços
Por todas terei!
Eu abro-lhe os braços:
Zangar-me não sei!
Os Homens - Não serve! Não serve!
Há de abraça-las!
Peça licença:
Cumpra a sentença!
As Senhoras - Não me abraçaras!, etc.
(Saem os homens perseguindo as senhoras. O Doutor, ao sair, é agarrado
pelo fato pelo Tenente-Coronel.)
O Tenente-Coronel, O Doutor, depois Leonor, Todos os personagens do ato, e alguns negros.
O Tenente-Coronel - Nada, senhor Doutor! Desta vez havemos de chegar à
fala!
O Doutor (À parte, resolutamente.) - Acabemos com isto. (Alto.) Pois
bem! sentemo-nos! (Sentam-se.) Quero ser franco com o Tenente-Coronel.
Leonor (Vindo do fundo à parte.) - Uma conferência? O que será?...
O Doutor - Senhor Tenente-Coronel, eu prometi casamento à filha do
Passos Pereira...
Leonor - Ah! (Cai numa cadeira com um ataque de nervos.)
O Tenente-Coronel (Erguendo-se sobressaltado, bem como O Doutor.) - Meu Deus!
... O que é isto! Minha filha! acudam!
(Entrada ruidosa de Todos os personagens.)
Final
Coro geral
- Oh! céus! oh6 céus!
Que sucedeu!?
Valha-nos Deus!...
Que aconteceu?
O que terá
Dona Leonor?
Alguma dor
Será?!
O que lhe dói?
Que foi? Que foi?
Que aconteceu?!
Que sucedeu?!
O Tenente-Coronel (Desesperado ao pé da filha, que esperneia.) - Tragam
vinagre! O caso é grave!
(A um negro, dando-lhe uma chave.) Trá-lo do armário: aí
tens a chave!
(Durante o Coro, o escravo volta com um galheteiro. O Tenente-Coronel dá
a cheirar o vinagre a Leonor, que volta a si aos poucos. Enquanto Todos estão
ocupados com Leonor, Passos Pereira traz Frederico à boca da Cena;
Francelina acompanha este movimento.)
Passos Pereira - A sua explicação deve ser dada já!
Frederico - Eu tudo explicarei!
Francelina (À parte.)- O que é que explicará?
Frederico - Prometi casamento a Leonor...
Francelina - Ah!
(Cai numa cadeira com um ataque de nervos. Desespero de Passos Pereira. Todas
as atenções voltam-se para Francelina.)
Coro - Bonito! Bonito!
Agora é por cá!..
Mais um faniquito!
Contágio será?
Passos Pereira - Tragam vinagre. O caso é grave!
(O Negro tem já levado o galheteiro e restituído a chave ao
Tenente-Coronel que lha entrega de novo.)
O Tenente-Coronel - Trá-lo do armário: aí tens a chave.
(Durante o Coro, Francelina volta a si, aspirando o vinagre que o negro traz.)
Doutor , Francelina (Vindo ao proscênio.)
- Perjuro, pérfido.
Que amei tanto,
Desprezo indômito
Mereces bem!
Meu Deus! num ápice
Quebrou-se o encanto
Ingrato, voto-te
Fero desdém!
O Tenente-Coronel - Que trapalhada!
Que confusão!
Pede a charada
Decifração!
Juntos
Frederico, O Doutor Dona Maria
‘Stá despeitada Realizada
Pudera não! Pudera não!
De estar zangada Verei, casada,
Tem bem razão Minha ambição!
Os outros E Coro - Que trapalhada!
Que confusão!
Pede a charada
Decifração!
O Vigário (Agarrando o violão com energia.) - Atenção
Prá que finde este zun-zum,
Vou cantar ao violão
Um buliçoso lundum
De minha composição!
Todos - Venha a lundum!
( O Vigário senta-se e afina o instrumento. Prestam-lhe Todos muita
atenção.)
Lundum
I
O Vigário - Toda gente
Logo sente
Nos malditos
Faniquitos,
Diabruras,
Travessuras
De Cupido
Destemido!
Dorme em paz, meu coração
Ai!
Dorme em paz meu coração,
Que as Marocas
E Xandocas
E Bicotas
E Nicotas
Tiranas são,
ai, sim, tiranas são!
Coro - Que as Marocas
E Xandocas
E Bicotas
E Nicotas
Tiranas são,
ai, sim, tiranas são!
O Vigário - Namorados
Irritados
São amantes
São contantes,
Só desejo,
Quando os vejo
Copiá-los,
Imitá-los!
Dorme em paz, meu coração,
Ai!
Dorme em paz meu coração
Que as Marocas
E Xandocas
E Bicotas
E Nicotas
Tiranas são,
ai, sim, tiranas são!
(O Coro repete o estribilho e aplaude o cantor com ruidosa salva de palmas.)
Terreiro da fazenda; À esquerda, a casa com alpendre. Cerca e tranqueira aberta. Em perspectiva, a senzala e morros, com plantações de café. À direita uma grande árvore, à sombra da qual está um banco de jardim. Instrumentos aratórios, etc. Ao levantar o pano a Cena está vazia. Ouve-se ao longe o Coro que termina o primeiro ato, que se supõe entoada pelos escravos no eito. Raimundo sai de casa.
Raimundo, depois o Tenente-Coronel
Raimundo - Dor... dor... minhocos! Não sabem go... gozar a fres...
fresca da manhã! (Sai pela tranqueira. Aparece o Tenente-Coronel da
esquerda e grita para dentro.)
O Tenente-Coronel - Olá! ó moleque! não vês que
a porta do chiqueiro está aberta, e que daqui a nada os porcos estão
fossando na horta, excomungado! Vai fechar a cancela, moleque! E de caminho,
muda aquela água da gamela, diabo! (O Vigário tem entrado da
direita.)
O Tenente-Coronel, o Vigário
O Vigário - Não fale do diabo, que é pecado!
O Tenente-Coronel - Olá, Reverendo... desculpe... Aquilo é uma
gente danada! E então depois da lei de 28 de setembro! (Apertando a
mão do Vigário.) Como vai essa católica? Eu estava à
espera de Vossa Reverendíssima.
O Vigário - Estou às suas ordens. Não me fiz esperar.
(Senta-se no banco.)
O Tenente-Coronel - Desculpa o sacrifício que o obriguei a fazer.
O Vigário - Qual sacrifício! Eu gosto de levantar-me cedo e
ver despontar a aurora.
O Tenente-Coronel - A aurora é o riso do céu, a alegria dos
campos, a respiração das flores, a harmonia dos ares, a vida
e o alento do mundo, como diz o Padre Vieira. - Mas vamos ao que serve.
O Vigário - Negócio político?
O Tenente-Coronel - Qual negócio político! Trata-se mesmo disso!
O Vigário - Recebeu jornais da corte?
O Tenente-Coronel - Recebi o Jornal do Commércio e o Mequetrefe, que
traz o meu retrato.
O Vigário - Viu aquele artigo contra o Benício?
O Tenente-Coronel - Ah! sim... uma mofina...
O Vigário - Que tal achou?
O Tenente-Coronel - Passei os olhos... não li.
O Vigário - Não leu? (Tirando da algibeira um número
do Jornal do Commércio.) Pois ouça... (Lendo.) “O infeliz
município de...
O Tenente-Coronel (Interrompendo.) - Não! Agora não, Reverendíssimo.
Não se trata de Benício. Tomei a liberdade de mandar chamá-lo
para tratarmos de um assunto mais sério...
O Vigário - Mas...
O Tenente-Coronel - Demais, eu sou franco: não gosto de descomposturas
anônimas... O homem deve dizer o que pensa sob sua imediata e absoluta
responsabilidade... e de frente; isto de andar a insultar Os outros de máscara
no rosto e a seis vinténs por linha, não me parece decente.
O Vigário - Pois você queria que eu, um Vigário, assinasse
isto?
O Tenente-Coronel - Ah! Perdão! eu não sabia que o artigo era
de Vossa Reverendíssima.
O Vigário - É que não está ao fato da maroteira
que o Benício praticou comigo! Pediu-me que protegesse a sua eleição,
que me empenhasse com os nossos correligionários... fiz-lhe o que não
se faz a um filho...
Cheguei a ponto de pedir uma vez aos meus paroquianos, em uma prática
depois da missa, que votassem nela! Bem! pilhas-me na corte... Escrevo-lhe
uma carta pedindo um emprego para meu sobrinho Ezequiel, filho de meu irmão
Custódio... um emprego no Correio para um primo de minha cunhada...
um lugar na Estrada de Ferro para um parente, que é alferes honorário
do Exército e tem serviços de campanha... que arranjasse na
Instrução Pública...
O Tenente-Coronel - Vossa Reverendíssima pediu tanta coisa um só
tempo!
O Vigário - Não o defenda, Tenente-Coronel, não o defenda.
Aquilo é um cão! (Levantando-se e querendo ler o artigo.) “O
infeliz município de ...”
O Tenente-Coronel (Tomando-lhe o jornal.) - Depois... depois... Deixemos por
um momento a política e ouça!
O Vigário (Contrariado.) - Vamos lá... o que deseja você?
O Tenente-Coronel - Vossa Reverendíssima assistiu a todo aquele escândalo
de ontem, não? Chamei-o para fazer o favor de dizer-me de tudo aquilo
e ajudar-me com os seus conselhos;
O Vigário - Assisti, é verdade... mas não compreendi...
Vi que sua afilhada teve um faniquito... que a filha do tal Passos Pereira
teve outro... Entre parêntesis: Não simpatizo muito com o tal
Pereira... Um sujeito sem opiniões políticas, homem! Não
é cidadão brasileiro!
O Tenente-Coronel - E Vossa Reverendíssima a dar-lhe com a política!
O Vigário - Vi que entre seu filho, sua afilhada, a filha do Pereira
e O Doutor Pinheirinho havia qualquer coisa... o que, aliás, foi notado
por Todos... mas, com franqueza, não pude perceber o que era!
O Tenente-Coronel - Nem eu. Era uma salsada que ninguém entendia...
Mas o que me aconselha, padre-mestre? Vossa Reverendíssima compreende
que é preciso tirar esse negócio a limpo.
O Vigário - Onde estão eles?
O Tenente-Coronel - Todos recolhidos ainda.
O Vigário - Reuna-os, e que se expliquem! É facílimo!-
Aí vem o homem sem opiniões políticas! (Passos Pereira
tem saído de casa.)
O Tenente-Coronel, o Vigário, Passos Pereira
Passos Pereira - Ora muito bom dia! O Senhor Tenente-Coronel madrugou! Já
por cá, Reverendíssimo?
O Vigário (Apertando-lhe a mão.) - Como vê.
O Tenente-Coronel (Apertando a mão de Passos Pereira.) - Passou bem
a noite?
Passos Pereira - Foi um sono só. (À parte.) Não preguei
olho... (Alto.) E o senhor?
O Tenente-Coronel - Perfeitamente. (À parte.) Passei a noite em claro.)
Passos Pereira - O que me diz dos acontecimentos de ontem?
O Tenente-Coronel - Precisamos conversar a esse respeito.
O Vigário - Nesse caso, com sua licença... Ainda não
se toma café cá por casa?
O Tenente-Coronel - Há que tempo! Entre. A Tomásia lá
está para servi-lo. (Gritando para casa.) Ó Tomásia,
serve aí o Senhor Vigário!
O Vigário (Encaminhando-se para casa.) De café, Tomásia,
de café. - Até já. (Sai)
O Tenente-Coronel, Passos Pereira, depois Dona Maria
Passos Pereira - Senhor Tenente-Coronel, minha filha teve a honra de ser
pedida em casamento por seu filho.
O Tenente-Coronel - Deveras? E o maroto não me dizia nada!
Passos Pereira - Esta circunstância explica minha presença aqui...
Vim tomar informações com o Doutor Pinheiro... O senhor também
é pai, e compreende perfeitamente...(Com ares de orador.) que a responsabilidade
moral pelo futuro dos filhos pesa imediatamente sobre as costas desses novos
Anteus, que se chamam pais.
O Tenente-Coronel - Apoiado! - Mas isso não justifica os faniquitos...
Passos Pereira - Definamos as situações, Senhor Tenente-Coronel,
definamos as situações! Seu filho não dirige uma palavra
à noiva... não se senta ao seu lado... não olha para
ela... O que quer isto dizer?
O Tenente-Coronel - Não sei... mas é fácil sabê-lo...
Há de ser tudo posto em trocos miúdos... Se meu filho prometeu
casamento a sua filha, há de cumprir por força a sua palavra!
por força! Vou mandar chamá-lo. (Para o fundo.) Ó Simplício!
vai lá dentro dizer a senhor moço que o espero aqui no terreiro.
(Um negro atravessa a Cena e entra na casa, donde sai algum tempo depois.)
Passos Pereira - Tenho andado apoquentadíssimo... Quero muito bem a
esta menina... O senhor compreende... A pobrezinha não tem mãe...
O Tenente-Coronel - Ah! o senhor é viúvo?
Passos Pereira - Sou, mas tornei a casar, para dar-lhe segunda mãe.
(Aparece Dona Maria à porta da casa.) Francelina tinha cinco anos quando
enviuvei...
Dona Maria (À parte, descendo.) - Quando enviuvou! Ah! ele é
viúvo, meu Deus, ele é viúvo!...
O Tenente-Coronel (À parte, vendo Dona Maria.) - Bom! começa
a amolação!
Dona Maria (Aproximando-se.) - Senhor Tenente-Coronel, muito bom dia... Bom
dia, Senhor Passos Pereira...
O Tenente-Coronel - Dona Maria...
Passos Pereira - Minha senhora... Passou bem a noite?
Dona Maria - Não... não... Muito agitada... muito nervosa...
Sonhei toda a noite...
Passos Pereira - Com sua irmã das Laranjeiras?
Dona Maria - Não! Coitada da minha irmã! (O Tenente-Coronel
vai sentar-se de mau humor no banco... À meia voz.) Sonhei com um homem...
Passos Pereira - Um homem?
Dona Maria - Fale baixo. - Um viúvo.
Passos Pereira - Ah!
Dona Maria (À parte)- Não percebeu... Oh! os homens são
cegos! (Alto) Dê-me o seu braço, Senhor Passos Pereira; vamos
até a horta...
Passos Pereira (Contrariado, dando-lhe o braço e saindo com ela.) -
Pois não, minha senhora. - Tenente-Coronel, eu volto já...
O Tenente-Coronel (Depois que saem, erguendo-se furioso.) - Esta mulher é
como a lavoura: está sempre a pedir braços! (Entra Frederico,
vindo de casa.)
O Tenente-Coronel, Frederico
Frederico - A benção, meu pai?
O Tenente-Coronel (Dando-lhe a mão a beijar, sombrio.) - Santinho.
Frederico - Mandou chamar-me?
O Tenente-Coronel - Mandei, sim, senhor... Venha cá... (Levando-o para
o banco e sentando-se ao lado dele.) Sente-se aqui... Estou muito zangado
com você...
Frederico (À parte.) - Agüenta-te no balanço, Frederico!
O Tenente-Coronel - Então acha você que isto de casamento é
brincadeira de criança, hein?
Frederico (À parte.) - Leonor queixou-se... (Alto.) Foi uma leviandade,
meu pai... uma criançada de que tenho me arrependido e deveras...
O Tenente-Coronel - Vem tarde o arrependimento... Demais, ela é digna
de você...
Frederico - Digníssima! Oh! mas depois que vi a outra! (Erguem-se ambos.)
O Tenente-Coronel - A outra? Temos outra!
Duetino
Frederico - A outra é muito mais graciosa,
Tem mais encantos para mim;
Nunca vi moça mais garbosa,
Não, nunca vi mulher assim!
A outra é bela entre as mais belas,
É gentil entre as mais gentis!
Convicto estou que de ambas elas
A outra só far-me-á feliz.
O Tenente-Coronel - Este mundo velho
De catrâmbias vai:
Fala assim’um fedelho
Nas barbas do pai!
Que bonita história:
Que bonito angu!
De uma palmatória
Precisavas tu!
Frederico - Por ela suspiro de noite e de dia!
O Tenente-Coronel - Do que precisavas, velhaco, bem sei!
Frederico - Amor dos amores
Minha alma inebria!
O Tenente-Coronel - O tempora! o mores!
Nada mais direi.
Frederico -Por ela suspiro de noite e de dia!
Que exista outro afeto mais puro não sei!
Amor dos amores
Minha alma inebria!
Por ela de flores
A vida terei
O Tenente-Coronel - Por ela suspira de noite e de dia
Do que precisavas, velhaco, bem sei!
Amor dos amores,
Sua alma inebria!
O tempora, o mores!
Nada mais direi.
O Tenente-Coronel - A outra? Qual outra? Valha-me Deus, pois lembra-te de
outra, quando sabes que o pai...
Frederico - Qual pai? Ela não tem pai! Só se é vossemecê.
O Tenente-Coronel - Eu? Então eu sou pai da filha do Passos Pereira,
rapaz?
Frederico - A outra é filha dele.
O Tenente-Coronel - Que trapalhada, santo Deus! A outra é; e a outra
quem é?
Frederico - Expliquemo-nos: eu prometi casamento a duas.
O Tenente-Coronel - Mas quem é a outra?
Frederico - A filha de Passos Pereira.
O Tenente-Coronel - Essa é uma; e a outra?
Frederico (Naturalmente.) - Leonor!
O Tenente-Coronel (Admirado.) - Leonor!...
O Tenente-Coronel, Frederico, O Vigário, depois Passos Pereira, Dona Maria
O Vigário (Acariciando o abdômen.) - Agora sim! Entrei num
bolo de milho, que não lhe achei espinhas nem ossos!
O Tenente-Coronel (A Frederico.) - Então não cumprimentas o
Senhor Vigário?
Frederico - Já nos falamos lá dentro.
O Tenente-Coronel - Urge desembrulhar esta meada. Aquela maldita Dona Maria
carregou com o Passos Pereira para a horta.
O Vigário - Esta Dona Maria não me parece ter lá muito
juízo! Está sempre a pedir-me o braço... sempre a dizer
que toco bem violão!
Frederico - Eles aí vem. (Entram Passos Pereira e Dona Maria de braços
dado.)
O Tenente-Coronel - O Doutor Pinheirinho está fazendo falta...
Dona Maria - Então! tomou o seu café, Senhor Vigário?
O Vigário - É verdade, minha senhora... e com um bolo de milho...
Dona Maria (Deixando o braço de Passos Pereira e indo apertar a mão
de Frederico.) - Como passou a noite?
Frederico - Um sono só. (À parte.) Não preguei o olho.
(Alto.) E a senhora?
Dona Maria - Muito agitada... muito nervosa... Sonhei toda a noite... (Baixinho.)
com um moço...
Frederico - Um moço?
Dona Maria - Fale baixo. - Um moço solteiro... estudante...
Frederico - Ah! (À parte.) Dir-se-ia uma declaração!
O Tenente-Coronel (De mau humor, apontando para Dona Maria.) - Decididamente
aqui não arranjamos nada! Senhor Vigário, Frederico, Senhor
Passos Pereira, vamos para a sala de visitas...
Frederico - Vamos (À parte.) Devo estar com uma cara...
Os Quatro - Com licença, Senhora Dona Maria. (Entram em casa.)
Dona Maria, depois Raimundo
Dona Maria (Só.) - Anda uma balbúrdia nesta casa, que só
Deus sabe... O que eu desejo, no meio de tudo isto, é não ficar
sem casamento... Arre, que não é sem tempo! (Tirando um livro
do bolso.) Vou ler este romance, que me mandou da corte minha irmã
das Laranjeiras... As mulheres de bronze... Ah! de bronze é que eu
queria ser! (Senta-se no banco e abre o romance. Aparece ao fundo Raimundo,
montado num burro.)
Raimundo - Eh! eh! Olá! (Apeia-se e entrega o animal a um negro que
aparece.) Vai guardar... o... outro/! (O negro sai, levando o animal pela
rédea. Raimundo desce à Cena.)
Dona Maria - Já de volta de seu passeio, Senhor Mundico. (À
parte.) Este, à falta de outro...
Raimundo (À parte.) Gos... gostei do... Mundico. (Alto.) É ver...
verdade, mi... minha senhora. Esta gen... te a... aqui não sabe go...
gozar... e fica na ca... na cama até que... que horas! (Indo apertar-lhe
a mão.) Como pa... passou a... a noite?
Dona Maria - Mal... muito agitada... muito nervosa... Sonhei toda a noite
com um ... moço...
Raimundo - Um mo... moço?
Dona Maria - Fale baixo. - Um moço gago...
Raimundo (À parte.) - A velha es... está me fa... fazendo uma
de... decla... declaração!...
Dona Maria - Vamos dar um passeio até a horta?
Raimundo - Pois não! (À parte.) Eu pre... preferia uma xí...
xícara de café... (Dá-lhe o braço.)
Dona Maria (Saindo com ele.) - Ai, ai, Senhor Mundico. (À parte.) Deixem
lá... ele não é tão feio...
Raimundo - Pa... pa... pa... (Saem. Não se ouve o resto.)
Leonor, só
Leonor (Que sai de casa.) - Não me posso esquecer de sua perfídia! Mas não sou eu igualmente culpada? O que ele praticou não pratiquei também? Tenho acaso o direito de queixar-me? Que horrível situação, meu Deus, que horrível situação!
Rondó-valsa
Que situação
O direito não ter de acusá-lo!
Duplo perdão
Deve ser de nós ambos regalo!
Tremendo estou,
Pois não sei se faremos as pazes!
Quem me mandou
Terno amor jurar a dois rapazes?
Eu tremo... tremo,
Soluço e choro,
Soluço e gemo,
Pois que o adoro
Com tanto extremo
De amor... de amor,
Que, se perdesse
Fortuna tanta,
Ó Virgem Santa,
Talvez morresse...
De dor... de dor!
Esta triste aventura,
Que aliás, faz rir,
De lição, porventura
Poderá servir!
Que situação
O direito não ter de acusá-lo!
Duplo perdão
Deve ser de nós ambos regalo!
Tremendo estou,
Pois não sei se faremos as pazes!
Quem me mandou
Terno amor jurar a dois rapazes?
Leonor, O Doutor Pinheiro
O Doutor (Depois de alguma pausa.) - Leonor... é preciso haver entre
nós uma explicação clara e positiva...
Leonor - Não quero outra coisa. (Indo sentar-se no banco. Pausa.) O
senhor ama-me?
O Doutor - E mo pergunta?
Leonor (Com simplicidade.) - Eu amo-o também. Casemo-nos... Não
sei para que mais explicações...
O Doutor - São ociosas... são.
Leonor - Eu já me esqueci o que o senhor me fez...
O Doutor - Esqueceste? Ah! estou perdoado!
Leonor (Um tanto admirada.) - Está.
O Doutor (Caindo-lhe aos pés.) - Obrigado, Leonor... Obrigado! (Beijando-lhe
ardentemente as mãos.) Tiraste-me do coração um peso
de seis arrobas!
Leonor (Timidamente.) - Agora espero que me perdoará também...
O Doutor (Sempre de joelhos.) - Que te perdoarei? O quê?... (Perplexo.
Levanta-se lentamente.)
Leonor (À parte.) - Ai! ele de nada sabe! Ainda bem! (Alto.) Perdoar-me...
não o ter perdoado há mais tempo...
O Doutor - Não falemos mais nisso. O que deves é ajudar teu
noivo a ver-se livre do Passos Pereira.
Leonor - O que tem o Passos Pereira?
O Doutor - Vem buscar o cumprimento da promessa de casamento que eu fiz à
filha...
Leonor - Ela aí vem... Deixa-nos sós... Hei de desenganá-la.
O Doutor - Desengana... desengana... (À parte.) Que papel estou eu
representando, meu Deus do céu!
Leonor, Francelina
Francelina (Friamente.) - Bom dia, Dona Leonor.
Leonor (No mesmo.) - Bom dia, Dona Francelina.
Francelina - Passou bem a noite?
Leonor - Perfeitamente, obrigada. (À parte.) Em claro. (Alto.) E a
senhora?
Francelina - Bem obrigada... (À parte.) Não dormi cinco minutos.
(Vai sentar-se no banco.)
Leonor (Depois de um momento de silêncio.) - Estava morta por vê-la.
Francelina - Sim? Por quê?
Leonor - É preciso que... que nos expliquemos.
Francelina - A respeito de...
Leonor - Sim, senhora: a respeito de...
Francelina - Com mil vontades.
Leonor (Indo sentar-se ao lado dela e ameigando a voz.) - Dona Francelina...
a senhora não se zangue conosco... mas... ele não a ama!
Francelina (Erguendo-se vivamente, à parte.) - Ele! Frederico! (Alto.)
Como não me ama, se me pediu em casamento?
Leonor (Erguendo-se.) - Foi uma leviandade... Também me pediu a mim...
E ontem...
Francelina - A mim já me havia pedido há muito mais tempo! Tenho
o direito de antigüidade.
Leonor - Os últimos são os primeiros. Demais, eu não
quero saber se a senhora é mais antiga do que eu...
Francelina - Mais antiga, não! Olhe lá, hein?!
Leonor - O que sei é que ainda agora mesmo, nesse lugar em que a senhora
está, acabou ele de confessar que me ama.
Francelina (À parte.) Oh! pérfido! (Alto.) Vou dizer tudo a
papai... porque, minha senhora, estes negócios devem liquidar-se entre
os homens!
Leonor - Mas que teima de moça! Ele não gosta da senhora!...
Francelina - Mas eu gosto dele, está! Não cedo! (À parte.)
Era o que falatava1 O meu Frederico!
Leonor - Nem eu tampouco, ouviu?... ouviu??... (À parte.) Tínhamos
que ver! o meu Pinheirinho!
Duetino
Francelina - Não cedo! não cedo! não cedo!
Não me faltava mais nada!
Não vê! não vê!
Leonor - Não tenho medo,
Nem de você,
Nem doutra mais pintada!
Francelina - Não seja malcriada!
Leonor - Não seja arrebitada!
E escute lá;
Talvez não saiba o que aqui está!
I
Como uma princesa
Tive educação,
Língua portuguesa
Sei com perfeição;
Toco bem piano,
Danço muito bem,
E a cortar um pano
Não me ganha alguém!
Sei ler,
Escrever,
Somar e diminuir
Multiplicar e repartir.
II
Que até sou pacata
Ninguém negará;
Moça mais cordata
Cuido que não há;
Mas, quando a mostarda
Chega-me ao nariz,
Faço uma bernarda,
Mato por um triz!
Sei dar,
Esmurrar,
Aplicar cem pescoções
E quatrocentos bofetões!
Leonor, Francelina, O Doutor
(Francelina e Leonor vão engalfinhar-se, quando se mete de permeio
O Doutor, que apanha de ambas)
O Doutor - O que é isto? o que é isto?
Leonor - Chegou à propósito. (A Francelina.) Ele aqui está;
explique-mo-nos!
O Doutor (Timidamente a Leonor.) - Então é assim que a desenganaste?
Francelina - Mas não é este...
Leonor - Não é este?...
Francelina - Não! É o Frederico!...
Leonor, O Doutor - Ah! é o Frederico que!...
Leonor, Francelina, O Doutor, O Tenente-Coronel
O Tenente-Coronel (Aparecendo à porta da casa.) - Ó Leonor!
Dona Francelina! Doutor! (Sacudindo-lhe a mão.) Como passou a noite?
O Doutor - Bem, obrigado. (À parte.) Passei-a em claro.
O Tenente-Coronel - Venham Todos explicar-se à sala de visitas... Lá
temos estado - o Vigário, o Senhor Passos Pereira e eu... Mas quanto
mais nos explicamos, mais embrulhamos a meada. A presença de vocês
três é indispensável. Venham!
Todos - Vamos!
O Doutor (À parte.) - O Frederico... como diabo?... Estou fazendo uma
bonita figura! Venham! (Entram Todos na casa. A Cena fica um instante vazia.)
O Mestre-Escola, depois meninos da escola, Clorindo, Salustiano
O Mestre-Escola (Entrando cautelosamente.) - Ninguém! Nós entremo
pelo terreiro, para a sorpresa sê mais maió. Foi uma boa lembrança.
Venho com Todos os menino da escola comprimentá o Tenente-Coroné
pela chegada de seu filho Ferderico. (Para fora) Psiu! Venhum tudo!
(Música. Entrada de um Coro de rapazes de seis até quinze anos,
fazendo uma escada. Entre eles, Salustiano e Fabrício. Depois do mais
pequenino, está Clorindo, adulto e barbado. Cada um traz um ramalhete
na mão.)
Coro de Rapazes -Menino da escola semos
E mais que o mestre sabemos,
Pois Todos este menino
Sabe a cartilha de có,
Tanto os pequenino
Como os mais maió!
O Mestre-Escola (Ao público.) - É um gostinho! Querem vê?
(Aos rapazes.) - Digam lá o a b c!
Os Rapazes - A, B
C, D
E, F, G, H
I, J, K,
L, M, N, O, P,
Q, R, S, T,
U, V,
X, Y, Z.
Coplas
I
O Mestre-Escola - Este belo município
É-me muito devedô:
Dos progresso das ciência
Sempre na vanguarda tou
Por isso da Rosa o Hábito
Em breve recebê vou!
Coro - Ai! ai!
II
O Mestre-Escola - Quando eu tivé a tetéia.
Hei de dá um bom jantá;
Os juiz e seu Vigário
Convidadinho será
E, durante um mês da pândiga
Tudo aqui ondem falá!
Coro - Ah! ah!
E, durante um mês da pândiga
Tudo aqui ondem falá
O Mestre-Escola - Vamo! vamo fazê mais um ensaio do descurso! Salustriano,
diga lá.
Salustiano (Aproximando-se e declamando.)- Senhô Tenente-croné,
se bem que sejamos...
O Mestre-Escola (Emendando.) - Que séjamo, Salustriano, que séjamo!
Prencipia outra vez do prencípio.
Salustiano - Senhô Tenente-croné, se bem que sejamos...
O Mestre-Escola - Ah! É assim? (Tira uma férula da algibeira
e dá duas palmatoadas em Salustiano.) Dá cá o descurso!
Leia você, Fabrício...
Fabrício - Eu não sei, não senhô! (Desata a chorar.
O Mestre-Escola procura outro com os olhos.)
Os Meninos (Chorando.) - Nem eu, não senhô!
O Mestre-Escola - Clorindo, tu é que vai sarvá a situação,
meu véio!...(Dá-lhe o discurso.)
Clorindo (Lendo como nas escolas, soletrando e cantando.) - “Senhor
Tenente... c o co, r o ro... Senhor Tenente-cronel...
O Mestre-Escola - Croné... croné...
Clorindo (Continuando.) - “Senhor Tenente-croné, se bem que s
e se...”
O Mestre-Escola - Séjamos! Essa palavrinha tá difice, tá!
Dá cá, deixa emendá. (Tira um lápis e emenda.)
Se bem que semos... Prencipia de novo do prencipio.
Clorindo (no mesmo.) - Senhor Tenente-croné, se bem que semos cri...
a n an... crianças... (Chorando.) Mas, seu professô, eu não
sou criança... Eu sou menino de escola, mas não sou criança...
O Mestre-Escola (Tomando-lhe o discurso.) - Vacês o que é sei
eu... Dê cá isto, que eu memo leio!
O Mestre-Escola, Clorindo, rapazes da escola, Raimundo, Dona Maria
Raimundo (Entrando.) - Oh! que ba... que ba... ba... ba... talhão!
Dona Maria (Ao Mestre-Escola.)- Bons dias, senhor professor. (À parte.)
Este não serve. É tão estúpido... (Vai sentar-se
no banco.)
O Mestre-Escola - Bons dia!
Raimundo - Então o que anda fazendo com a ra... pa... pa... paziada?
O Mestre-Escola - Nós viemo felicitá o Tenente-croné
pela chegada do filho dele.
Dona Maria - Ah! são os seus discípulos?
O Mestre-Escola - Sim, senhora; mas veio só os mais inteligente; os
mais burro ficou.
Dona Maria - Aquele barbado também é?
O Mestre-Escola - Também, sim, senhora.
Dona Maria - Credo! que já tem idade para casar! Deve estar bem adiantado!
O Mestre-Escola - Clorindo, chegue-se ali à Senhora Dona Maria e dê
umas amostrinha de sua habilidade.
Clorindo (Aproxima-se de Dona Maria e vai a sentar-lhe no colo.) - Sim, senhor.
Dona Maria - O que é isto?
Raimundo - Que... que... que tal?
O Mestre-Escola - Desculpe ele... é costume...
Dona Maria - Pensando bem... que mal havia?
O Mestre-Escola (A Clorindo.) - Vá!
Clorindo Declamando como na escola.)
- “As arma e os barões assinalado,
Por mares nunca dantes navegado
Passaram inda além da Taporbona,
Em perigos e guerra esforçado,
Mais do que permitia as forças humanas,
Entre gente arremota edificárum
Novo reino que tanto assublimárum!”
Dona Maria - Muito bonito! Esse versos foram escritos pelo menino?
Raimundo - Oh!
Clorindo - Não, senhora! Quem me ensinou eles foi seu professô.
O Mestre-Escola - São de Camãos, siá dona.
O Mestre-Escola. Clorindo, rapazes da escola, Raimundo, Dona Maria, O Vigário
O Vigário (Entrando.) - Uf! Deixei-os lá a raspei-me! Nada,
que o negócio cada vez mais se complica! Falam Todos a um tempo! Ora
que o Vigário tinha que ser ouvido e cheirado em quanta questão
de família apareça na freguesia! Dona Francelina já teve
um faniquito... Dona Leonor dois... (Vendo os circunstantes.) Olé!
por cá? O que é isto? A que vem o regimento?
Raimundo - Uma fe... fe... fe... feli...
O Vigário - Felicitação...
Raimundo - Ao Te... te... te... nente co... co...
O Vigário - Ao Tenente-Coronel...
O Mestre-Escola - Pela arribação de seu Ferderico.
O Vigário - Ah!
Dona Maria (Que tem levado a fazer festas a Clorindo.) - Sim, senhor; disse
muito bem os seus versinhos.
Raimundo (À parte.) - Versinhos, os Lu... Lu... Lusia... a... das.
O Vigário - Quem, este machacaz? (Clorindo beija-lhe a mão.)
Isto é um idiota! já diz versinhos, e a apostar em como não
sabe a Ave-Maria de cor!
Clorindo (Muito lampeiro) - Sei, sim, senhô..
O Vigário - Pois dize lá!
Clorindo - “Ave-Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco,
bendita... bendita...
O Mestre-Escola - Anda, burro!
Clorindo (Continuando.) -... sois vós, bendito é o fruto de
vosso ventre, amém, Jesus.”
Raimundo (Batendo palmas.) - Bra...vo! bravo! (Clorindo vai para o seu lugar.-
A Dona Maria.) Não lhe... lhe pergunta se... se... aquilo é
fei... feito por ... por ele? (Dona Maria sorri. Entra o Tenente-Coronel.)
O Mestre-Escola, Raimundo, Dona Maria, O Vigário, Clorindo, rapazes da escola, O Tenente-Coronel, depois Passos Pereira
O Tenente-Coronel - Ora graças que está tudo líquido!
Arre! Custou!
O Vigário - Ainda bem! Chegaram-se Todos às boas, hein?
O Mestre-Escola (Que tem se aproximado, lê com ênfase o seu discurso;)
- “Se bem que séjamos crianças...”
O Tenente-Coronel (Sem reparar.) - Houve um quiproquó... O Pinheirinho
supunha que o Passos Pereira...
O Mestre-Escola (Que tem mudado de posição, aos ouvidos do Tenente-Coronel.)
- “... sabemo compreendê perfeitamente os sentimento parterná!”
O Tenente-Coronel (Que tem se assustado.) - O que é isto?
O Mestre-Escola (Continuando.) - “Todo aquele cujo este não soubé
compreendê estas coisa não é home; por isso não
podemo nos furtá ao prazê de vi cumprimentá Vossa Senhoria,
Senhô Tenente-croné, que neste dia vê restituído
nos seus braço o filho que outrora concebeu; por isso aceite Vossa
Senhoria, Senhô Tenente-croné...”
Passos Pereira (Saindo de casa a gritar.) - Ora até que afinal nós..
Todos (Impondo-lhe silêncio para não interromper o discurso.)
- Psiu! (Dona Maria chama para junto de si Passos Pereira, que obedece.)
O Mestre-Escola (Sem perturbar-se.) -“... um ramo de fulô de cada
um de nós por este dia. (Música na orquestra. Pequena desfilada
dos rapazes, que, a um gesto do Mestre-Escola, vão entregar, um a um,
o seu ramalhete ao Tenente-Coronel, que fica atrapalhado com tantas flores.)
O Tenente-Coronel (Depois da desfilada.) - Agradeço comovido esta manifestação,
e convido-os para almoçarem Todos comigo. (Gritando para a casa.) Prepara
o almoço pa-mais... uma... duas... três... etc; (Conta quantos
são os meninos e diz: ”para tantas pessoas.” - depois retoma
a atitude de orador.) Ficará gravado eternamente em meu coração
este discurso, onde, imerecidamente, sou mais honrado que a língua
nacional.
Raimundo - A... po... poiado!
O Mestre-Escola (À parte.) - Não entendi este final. (O Tenente-Coronel
dá um ramalhete a Dona Maria, e entrega Os outros a um negro que os
leva para casa.)
Dona Maria (Continuando uma conversa com Passos Pereira, a quem dá
uma flor do ramalhete.) - Mas por que não se quer casar?
Passos Pereira (Pregando a flor numa casa do casaco.) - Eu minha senhora?
Por uma razão muito simples...
Dona Maria - Qual?
Passos Pereira - Porque sou casado!
Dona Maria (Erguendo-se e deixando cair o ramalhete.) -Pois é casado?
Passos Pereira - Duas vezes, minha senhora.
Dona Maria (Passando à esquerda.) - Ah! Aqui o Senhor Tenente-Coronel
enviuvou e... (Passos Pereira dá o ramalhete ao Mestre-Escola. O ramalhete
anda de mão em mão até voltar, a seu tempo, às
de Dona Maria.)
O Tenente-Coronel - E não me quis casar... Para cuidados bastam os
que já tenho! A senhora sim, é que deve casar... não
está muito velha...
Dona Maria - E tenho vontade, Senhor Tenente-Coronel; confesso: tenho muita
vontade!
O Tenente-Coronel - E depois... tem um dote!
Raimundo - Hein?
Dona Maria (Desdenhosamente.) - Quarenta apólices da vida pública.
O Tenente-Coronel (Frisando.) - Uma casa assobradada na vila...
Raimundo - Hein?
Dona Maria - Afora o que ainda pode vir da minha irmã das Laranjeiras!
O Vigário (Notando a alegria de Raimundo.) - Olhe... aqui o Senhor
Raimundo é que... Não toca violão... Toca?
Raimundo - Não Se... Senhor.
O Vigário - Não toca violão, mas é um excelente
moço. Casem-se.
Dona Maria - O quê? Pois?...
Raimundo (Dando a Dona Maria o ramalhete que lhe tem chegado às mãos,
já escangalhado.) - Con... con.., consente?
Dona Maria - Mundico! (Desmaia nos braços do Vigário, que a
quer passar ao Tenente-Coronel.)
O Tenente-Coronel (Esquivando-se.) - Está muito bem nos braços
da Igreja!
O Vigário (Passando Dona Maria ao Mestre-Escola, e baixo a Raimundo.)
- Case-se e meta-se na política; mas não vá com os conservadores.
O Mestre-Escola (Passando Dona Maria a Passos Pereira.) - Pesa como um pecado.
(Passos Pereira atira-a nos braços do Tenente-Coronel.)
O Tenente-Coronel (Passando-a a Raimundo.) - Tome, que isto é seu.
(À parte.) Está livre de uma penhora!
Dona Maria (Tornando a si.) - Onde estou?
Raimundo - Nos... nos... nos meus braços.
Dona Maria (Limpando a cara com o ramalhete, pensando que é um lenço.)
- Não é um sonho, Mundico?
Raimundo (Limpando-a com seu lenço.) - Não... não....
O Mestre-Escola, Raimundo, Dona Maria, O Vigário, os rapazes da escola, O Tenente-Coronel, Passos Pereira, Frederico de braço dado a Leonor, O Doutor Pinheiro de braço dado a Francelina, depois os negros.
O Vigário - Ah! aqui estão os namorados! mas... expliquem-me!
Frederico - Muito facilmente: eu tinha prometido casamento a Leonor...
O Doutor - E eu a Dona Francelina.
Francelina - E eu aO Doutor Pinheiro.
Frederico - Mas vi Francelina...
Leonor - Mas vi O Doutor Pinheirinho...
O Doutor - Mas vi Leonor...
Francelina - Mas vi Seu Frederico...
Os Quatro (Ao mesmo tempo, dando uma volta.) - E virei!
(O Tenente-Coronel dá ordens a um negro, que se retira.)
Passos Pereira - Acharam-se juntos...
O Tenente-Coronel (Voltando.) - Envergonharam-se.
Frederico - Eu julguei que Leonor estivesse ressentida...
Leonor - Eu, que Frederico me recriminasse...
O Doutor - Eu, que o Senhor Passos Pereira vinha buscar o cumprimento da minha
promessa.
Francelina - Eu que O Doutor Pinheiro me tivesse atravessada na garganta...
Os Quatro - E embatuquei!
O Tenente-Coronel - Mas perceberam agora que os desvio de suas promessas...
era um deslumbramento; que o amor verdadeiro tem obrigação de
ser eterno, como diz o Padre Vieira, e casam-se: Leonor com Frederico e Dona
Francelina com O Doutor Pinheirinho...Reviraram. (Dão Todos uma volta.)
Os Noivos (Abraçando-se.) - Com muito prazer
O Mestre-Escola - Não entendo...
O Vigário - Também não é preciso... Os três
casamentos far-se-ão no mesmo dia...
Frederico - Três! Qual é o outro?
Raimundo (Apresentando Dona Maria.) - O nos... nosso.
Dona Maria - Eu e Mundico. (Abraços, apertos de mão, parabéns,
etc.)
O Vigário - Três casamentos, noventa mil réis.
Dona Maria - Vou escrever à minha irmã das Laranjeiras. (Volta
o negro trazendo um violão, que entrega ao Vigário, e uma rabeca,
que entrega ao Mestre-Escola.)
O Tenente-Coronel - Vamos a um cateretê?
(Os rapazes da escola fazem uma roda. Entram os negros e fazem outra roda.
O Mestre-Escola trepa no banco para tocar rabeca. O Vigário ao lado,
com uma perna sobre o banco, toca o violão. Os outros personagens formam
uma nova roda no proscênio.)
Coro Final - Quem tem coqueiros tem cocos,
Quem tem cocos tem coquinhos,.
Quem tem amores tem zelos,
Quem tem zelos tem carinhos;
Ai, amor,
Tens mais perfumes que uma flor!
Leonor (Vindo ao proscênio, ao público.)
Vou lhes dizer um segredo
Que não devem divulgar.
Se não gostaram da peça,
Um conselho hão de aceitar:
Saltem ligeiros,
Saltem para cá;
Entrem na dança!
Então! Vá lá!
Pois que não deixa
De ter seu quê
Um requebrado
Cateretê!
(Dançado característico, executado por quantos estão
em Cena.)
Fonte: www.4shared.com
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