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UMA VÉSPERA DE REIS

artur azevedo

Coro

O que diabo de nome!
O que nome do diabo!
A paciência consome
E da pachorra dá cabo!

Cena X

OS MESMOS E EMÍLIA

EMÍLIA - O que querem?

OS TRÊS - Como é o nome da escola em que está o Antonico?

EMÍLIA - Como? Não entendi!

OS TRÊS - Como é o nome... (Calam-se e entreolham-se).

EMÍLIA - Fale só um. (Tornam a falar todos a um tempo).

BERMUDES - Fale você, compadre.

REIS - Fale você, D. Fran... Chiquinha.

FRANCISCA - Fale você, compadre.

BERMUDES - Como é o nome da escola em que está o Antonico?

EMÍLIA - Escola po-li-té-cni-ca.

OS TRÊS - Amm...

Repetição do coro

O que diabo de nome! etc.

EM!ÚA - Com licença. O tacho ainda está no fogo. (Sai, olhando furtivamente para o esconderijo de Alberto).

BERMUDES (Vendo-a sair) - Que boa dona de casa está ali se formando, hein, comadre?

FRANCISCA - Veremos, compadre, veremos...

REIS - Temos trabalhado para fazer dela não só uma boa dona de casa, como diz você; mas também uma senhora que saiba entrar numa sala...

FRANCISCA - Lá isso é verdade!

BERMUDES - Nunca lhe doam as mãos, compadre!

REIS - Já aprendeu francês, inglês, um bocadinho de italiano...

BERMUDES - Deveras?...

FRANCISCA - Sim senhor; e está agora arrecordando o português...

REIS - Olhe! (Aponta para o piano).

BERMUDES - Piano, hein?

REIS- É como vê!

BERMUDES - Muito bem! (Outro tom. A Francisca) Ora, comadre! Vim encontrar esta heróica cidade de S. Salvador muito mudada!

FRANCISCA - É verdade! Ainda não me falou a esse respeito! O que me diz do parafuso?... Seu Reis já me fez trepar naquela geringonça! Mas não é mais a filha de meu pai... O compadre subiu pelo parafuso?...

BERMUDES - Subi, comadre, subi; mas também não é mais o filho de minha mãe... Eu estava só vendo desgrudar-se aquela futrica, e zás catrapus, era uma vez um Bermudes! (Benze-se) Nada!

FRANCISCA - E o chupão que se recebe (Imita) Fuuu... Agora, os bondes sim...

BERMUDES - Sim, senhora! Para aí vou eu! Falem-me dos bondes! Mas que mudanças, compadre! Que invenção, comadre!

Tango

Tanta mudança me faz confuso!
Pois se o progresso anda tão fino,
que temos bondes e parafuso,
temos o cabo submarino!
E até é uso
lindas modinhas tocar o sino!
Se o que se passa cá na Bahia,
dizer-se quer mandar á França,
vem a resposta no mesmo dia,
e na viagem ninguém se cansa!...
Virgem Maria!
Me faz confuso tanta mudança.

OS TRÊS - Virgem Maria, etc.

BERMUDES

Não há mais o que se invente!
Que invenções encontrar vim!
Por três tostões vai a gente
até o fim do Bonfim!
A libra chama-se quilo,
segundo os novos padrões!
O que nos falta é aquilo
com que se compram melões...

OS TRÊS -0 que nos falta, etc.

REIS - D. Francisca, vá...

FRANCISCA - Chame-me D. Chiquinha, seu Reis! Jesus! Que teima de homem!

REIS (Com resignação) - D. Chiquinha, vá aprontar o sótão... Já sabe que o compadre vem morar conosco?

FRANCISCA - Nem a gente consentia que morasse em outra parte!

REIS - As bagagens já lá estão.

FRANCISCA - Então, com licença, seu compadre. Quando quiser, nada de cerimônias, que a casa é sua. (Vai saindo e retrocede) Ah! Deixe-me acender estas velas. (A cena tem escurecido gradualmente. Francisca acende duas velas dos castiçais).

REIS (Enquanto Francisca prepara a luz) Você não quer mudar de roupa, compadre?

BERMUDES - Daqui a bocadinho... Se você tem um cachimbo, traga-me... Eu ainda fico por cá. Está agradável esta viração.

REIS - É já. (Sai com Francisca).

Cena XI

ALBERTO e BERMUDES

(Bermudes senta-se junto à mesa; pega num álbum, deita os óculos, e começa a folheá-lo. Alberto sai do esconderijo).

BERMUDES - (Examina as fotografias) Este é sua majestade... É um imperador bem bonito! Está acabado... Pois olhem que é mais moço do que eu... (Folheia) Aqui estão o compadre, a comadre, a Milu e o meu afilhado... Está muito bom este grupo... A comadre é que não está muito parecida, não. O Antonico está um homem! Deus queira que faça alguma coisa lá pela tal escola lipoténica...

ALBERTO (Aproxima-se pé ante pé de Bermudes, tapa-lhe os olhos e disfarça a voz) - Quem sou eu?

BERMUDES - Oh! Oh! Não aperte tanto! Sei lá quem é! Veja que o senhor está enganado; eu não sou o compadre; isto é: sou o compadre, sim, mas o compadre do compadre! Largue-me, senhor! E esta! Será algum maluco?

ALBERTO (Com voz natural) - Então já adivinha?

BERMUDES - Que ouço!... Que vejo!... (Ergue-se admirado e contente) Pois tu... mas tu... oh! tu...

Duetino

BERMUDES
Corre a meus braços!
ALBERTO
(Abraça-o) Aqui me tem!
BERMUDES
Oh! Meu Deus, isto faz tanto bem! (Abre de novo os braços. Novos abraços).
ALBERTO
Aqui me tem!
BERMUDES
Como estou satisfeito!
ALBERTO
E eu também!
BERMUDES
(Mesmo jogo de cena.) Mais um abracinho!
ALBERTO
Aqui estou eu!
BERMUDES
Oh! Meu Deus, que de bens isto faz
Oh! Meu sobrinho!
ALBERTO
Oh! Tio meu!
BERMUDES
Quanto'stou satisfeito!
ALBERTO
Eu estou mais!

BERMUDES - Mas como diabo achaste aqui?

ALBERTO - Vim seguindo-o; vocemecê vinha adiante; eu vinha atrás; até que afinal vi-o entrar para cá; esperei-o a ver se saía; mas como vi entrarem as bagagens, disse: Bem, ao que parece, vai o homem hospedar-se ali...

BERMUDES - Bem mostras que tens cabeça; sais a teu pai que, para ir a qualquer parte, bastava que lhe ensinassem o caminho. Eu ia para o hotel para de lá procurar-te e morar contigo... Onde moras tu agora?

ALBERTO - No beco do Tira-chapéu... numa república.

BERMUDES - República?!

ALBERTO - É uma espécie de Boêmia...

BERMUDES - Boêmia....

ALBERTO - É uma espécie de república...

BERMUDES - Amm... (À parte) A explicação foi bem dada, mas eu fiquei na mesma...

ALBERTO - Mas, afinal de contas, por que não foi morar comigo?

BERMUDES - Encontrei o compadre, que obrigou-me a vir para cá. Mesmo porque, em casa do compadre estou melhor que numa... como chama?

ALBERTO - República.

BERMUDES - Mas que diabo quer dizer uma república?

ALBERTO - É uma espécie de...

BERMUDES - ... de Boêmia. Estou ciente. Cá recebi, não havia pressa! (À parte) Isto é por força nome de mezinha...

Cena XII

OS MESMOS E REIS

REIS - (Traz um cachimbo aceso e um cálice de aguardente que oferece a Bermudes). Aqui tem, compadre, o cachimbo e um golinho de aguardente para refrescar. (Cumprimenta Alberto).

BERMUDES (Fumando) - Meu sobrinho, de quem tantas vezes falamos.

REIS - Ah! Sim.... Como está, senhor doutor? Sinto que nunca nos viesse ver...

BERMUDES - Quem teve a culpa foi este seu criado. Não lho apresentei, porque disse lá comigo: Quanto menos conhecimentos tiver, mais depressa andará em seus estudos...

REIS (Amável) - E como soube que estava aqui o Sr. seu tio, doutor?

BERMUDES - Seguiu-nos...

REIS - Oh! E por que não falou logo?...

ALBERTO - É que a princípio duvidei que fosse meu tio; mas depois que vi entrarem as malas...

REIS - Então foi pelas malas que o conheceu?

BERMUDES - É que elas trazem meu nome...

REIS - Amm...

ALBERTO (À parte) - Feliz caso...

BERMUDES - Compadre, vamos para o tal sótão... Quero conversar com este rapaz sobre seus estudos, sua vida na cidade. (A Alberto) Quero dizer-te também o que me fez sair do meu sossego...

ALBERTO (À parte) - Bis.

BERMUDES - ...e mostrar-te uma ferida que tenho... mas não te mostro, não. Tu já tens tempo de sobra para saber...

ALBERTO (Com importância) - Ora!

BERMUDES - Talvez seja alguma... Boêmia, hein!

ALBERTO - Que disparate, meu tio!

REIS - Vamos, compadre. Passemos pelo corredor. (Saem pelo fundo).

Cena XIII

EMÍLIA depois FRANCISCA

EMÍLIA (Entra pressurosa e, depois de certificar-se de que está só, ergue o pano da mesa sob que estava escondido Alberto: tristemente) Foi-se!

FRANCISCA - (Entra) Quem?...

EMÍLIA - Senhora?

FRANCISCA - Quem é que... foi-se?

EMÍLIA (Perturbada) - Donde?

FRANCISCA - O Milu! Pois não arribaste o pano da mesa e não disseste - "Foi-se?" Foi-se quem?...

EMÍLIA - Ah! Era um camondongo...

FRANCISCA - Pois aqui em casa não havia ratos...

EMÍLIA - Não era rato, não; era camondongo...

FRANCISCA - Vem a dar certo: eles hão de crescer por força... Vou mandar pôr pelos cantos da casa bananas espetadas com fosques.

EMÍLIA - Isso não é bom; vocemecê já o fez, e em vez dos ratos foi o gato que comeu as bananas e morreu.

FRANCISCA - Pobre Rocambole!

EMÍLIA - Para onde foi seu compadre, mamãe?

FRANCISCA - É provável que para o sótão, que é o quarto que está marcado para ele. E por falar no compadre, menina: se te casasses com o sobrinho...

EMÍLIA - Havia de ser muito infeliz...

FRANCISCA - Pelo contrário: havias de ser muito feliz. O compadre é homem dinheirado e o tal sobrinho vem a ficar com aquilo tudo...

REIS - (Fora, do sótão) D. Francisca... o D. Francisca!

FRANCISCA - Lá está teu pai a chamar-me de D. Francisca. Olhem que é forte teima! Pois não respondo, não.

REIS - (Fora) D. Francisca...

FRANCISCA - Grita para aí.

REIS (No mesmo) - D. Francisca...

FRANCISCA (A Emília) - Vê se ajudas a Maximina a passar aquele doce de araçá para as compoteiras.

REIS (No mesmo) - D. Francisca...

FRANCISCA - Grita!

REIS (No mesmo) - D. Chiquinha! Ó D. Chiquinha!

FRANCISCA - Ah! Isso é outro cantar... (Muito terna) O que é, seu Reis, o que é? Aí vou eu... (Sai pelo corredor).

Cena XIV

EMÍLIA

"Havias de ser muito feliz", disse mamãe. Moço... rico... Ora quem dirá que o Alberto há de ser sempre constante?... Este é certo e sempre ouvi dizer que não deixes o certo pelo duvidoso... Mas não! Não! Isso seria muito feio! Um moço que nunca vi, nunca conheci... (Caí numa cadeira) E não tenho uma amiga, uma confidente... uma conselheira... que me ouça... que me atenda.. que me aconselhe'... (Olha para a rua) Ah! Alí vem a nossa vizinha D. Emília... uma viúva traquejada nestas cousas de namoro... Foi Deus que ma mandou!... (Vai á janela e fala para fora) Ó vizinha, antes de entrar em casa, podia dar-me uma palavrinha?...

VIZINHA (Fora) - Duas ou três se quiser...

Cena XV

EMÍLIA à janela e UMA VIZINHA na rua

VIZINHA (Modos hipócritas; vestida a passeio) - Como está, meu nome?

EMÍLIA - Assim-assim. E a senhora?

VIZINHA - Muito constipada; mas agora vou melhorzinha. Vim agora da Lapinha: fui levar uma velinha ao Menino Jesus...

EMÍLIA - Para ficar boa?...

VIZINHA - Então? Ah! Meu nome! A senhora não faz idéia! Desde que fiquei viúva, nunca mais tive um dia de saúde! Parece história! De mais a mais hoje acabei de engomar e pisei n'água fria!

EMÍLIA - Que loucura, meu nome! Não faça mais semelhante cousa...

VIZINHA - Não foi por querer. Meu sobrinho Vítor (aquele que é tipógrafo) não pode lavar as mãos sem deixar o lugar do lavatório todo molhado. Ai! Ai! Enquanto não me casar não tenho sossego!

EMÍLIA - Ora! Meu nome! O que tem seu sobrinho e o lavatório com o seu casamento?...

VIZINHA - Não é só isso, meu nome: os ataques histéricos não me largam...

EMÍLIA - Então a senhora acha que é muito bom o casamento?...

VIZINHA - Ó gentes! O que pode haver melhor do que a gente ter seu maridinho? Meu nome, por que não casa?...

EMÍLIA - Isso é bom de dizer... A senhora bem sabe que o Alberto...

VIZINHA - Quem?... O Dr. Alberto?... Se a senhora vai atrás dele, está bem aviada, meu nome... Aquilo é um empata...

EMÍLIA - Como é que sabe disso?...

VIZINHA - Gosta de todo o mundo... feminino. Ainda outro dia... Era um dia santo (Como lembrando-se) Que dia santo era, Emília? (Recordando-se) Creio que foi no dia de Natal... vinha ele no bonde piscando o olho... Adivinhe a quem, meu nome?...

EMÍLIA - A quem, meu nome?...

VIZINHA - A uma irmã de caridade...

EMÍLIA - O que é que diz?

VIZINHA - Ele passa aqui todos os dias por minha causa...

EMÍLIA - Por sua casa?...

VIZINHA - Por minha causa... E lança-me sorrisos ternos e diz-me amabilidades...

EMÍLIA - O que está dizendo, minha rica senhora?...

VIZINHA - Menina, eu tenho muita prática de homens... Sei o que são essas cousas...

EMÍLIA - Pois olhe, vizinha há um moço rico com quem me desejam casar...

VIZINHA - Deveras....

EMÍLIA - Deveras: é o sobrinho do padrinho de meu irmão...

VIZINHA - E o que vem a ser da senhora?...

EMÍLIA - Uma vez que o papai é compadre do tio dele e ele é sobrinho do compadre de papai, é por conseguinte de mamãe também... e como eu sou filha do compadre e da comadre do tio dele, creio que vem a ser meu primo...

VIZINHA - Um primo, e ainda em cima rico, não é moleque de tio Chico... Agarre-o com unhas e dentes, meu nome. Acredite que isto de maridos, qualquer serve, contanto que seja homem...

EMÍLIA - Mas supus que o Alberto fosse de outra marca...

VIZINHA - Não é capaz! Agora eu!... Eu talvez me case com ele...

EMÍLIA (Vivamente) - Como?...

VIZINHA - Tenho muito jeito para endireitar homens... A senhora verá como ele há de andar direitinho como um fuso! Adeus, meu nome: Nossa Senhora a faça feliz...

EMÍLIA - A senhora quer vir ver dançar os Reis aqui?...

VIZINHA - O moleque já me deu essa novidade... Quando eles vierem, eu passarei pela cerca e cá virei também... Até logo... (Some-se).

EMÍLIA - Até logo, meu nome... (Sai da janela).

Cena XV

FRANCISCA E EMÍLIA

FRANCISCA (Entra muito contente) - Menina... iaiá... aposto que hás de casar-te com o sobrinho do compadre...

EMÍLIA (À parte) - Ouviu tudo... (Alto). Sim, senhora: estou deliberada a isso...

FRANCISCA (À parte) - Já sabe quem é (Alto). E nada me dizias, hein, minha disfarçada? Hoje mesmo fica combinado o casamento. Agora, vai ajudar a Maximiniana, que são horas de acabar com aquele doce de araçá...

EMÍLIA - Não conheço o meu noivo: mas estou certa de que havemos de ser ambos muito felizes... (Saindo, à parte). O que não dirá o Alberto?... (Sai).

FRANCISCA (Vai-lhes ao encontro) Venham... venham...

Cena XVII

ALBERTO, REIS, BERMUDES E FRANCISCA

BERMUDES - Então, onde está a Milu, comadre?...

FRANCISCA - Está ocupada com o doce de araçá.

ALBERTO - A senhora disse lhe quem era eu?...

FRANCISCA - Não; mas ela o sabe...

ALBERTO - Como assim?... É impossível!...

FRANCISCA - Pois quando vim do sótão e lhe disse: aposto que hás de casar com o sobrinho do compadre, ela disse-me logo que estava resolvida a isso...

ALBERTO (Admirado) - Oh! Então ela?...

REIS - Então? Que cara é essa, Sr. doutor?...

BERMUDES - Não gosta de Milu?

ALBERTO - Muito; mas muito!

REIS - Pois se ela quer...

FRANCISCA - ... Casar com vossa senhoria.

ALBERTO - Justamente por querer quer casar comigo... Ela quer casar com o sobrinho do compadre!

REIS (À parte) - Enlouqueceu...

BERMUDES (À parte) - Está doido...

FRANCISCA (À parte) - Enlouqueceu...

REIS - Mas então quem é sobrinho do compadre?

BERMUDES - Quem é o meu sobrinho?...

ALBERTO - Eu sei que o sou... A Sra. D. Francisca...

FRANCISCA - Um favor, Sr. doutor; trate-me por D. Chiquinha...

ALBERTO - ... sabe que o sou... (Aponta para Reis.) O senhor (para o tio) vocemecê sabem; Ela, porém, não o sabe...

REIS (À parte) - Enlouqueceu...

BERMUDES (À parte) - Está doido...

FRANCISCA (À parte) - Endoideceu...

REIS - Endoideceu...

BERMUDES - Está doido...

REIS - O melhor é chamarmos a Milu; ela nos há de pôr isto em pratos limpos...

BERMUDES - Apoiado!

FRANCISCA (chama) - Milu... ó Milu!... (Milu responde de dentro com um grito).

REIS E FRANCISCA - Vem cá...

Trio

BERMUDES

Se percebo... se percebo,
sebo!
(A Reis e Francisca).
Perceberam a trapalhada?
REIS E FRANCISCA
Nada!
BERMUDES
Não entendo!
FRANCISCA
Não compr'endo!
REIS
Percebendo
quase estou...
BERMUDES
(A Reis) Pois dê graças
às cabaças:
o compadre adivinhou!
BERMUDES, REIS E FRANCISCA
Que embrulhada!
que maçada!
É preciso adivinhar!
A charada complicada
ninguém pode decifrar!

Cena XVIII

FRANCISCA. ALBERTO, REIS E EMÍLIA

EMÍLIA (De olhos baixos) - Senhora?

FRANCISCA - Vem cá, Milu: tu conheces aquele moço?...(Toma-lhe o braço e aponta para Alberto).

EMÍLIA (Sem levantar a vista) - Não, senhora...

REIS - Mas tu ainda não lhe vistes o frontespício! (Toma-lhe também outro braço).

FRANCISCA - Sim; não levantaste os olhos...

BERMUDES (Benze-se) - Cada vez isto se complica mais!

REIS - E não te queres casar com ele?...

EMÍLIA (À parte) e ainda com os olhos baixos) - Resolvi o contrário... Não posso esquecer-me do Alberto...

FRANCISCA - Então não respondes?

EMÍLIA - Não senhora.

REIS - Não respondes ou não queres casar?...

EMÍLIA - Não quero...

FRANCISCA - Responder ou casar?

BERMUDES (Benze-se) - Jesus!

EMÍLIA - Casar...

TODOS (Menos Alberto e Emília) - Ora esta!

ALBERTO - Que satisfação!

TODOS (Espantados) - Satisfação!

EMÍLIA (Reconhece a voz de Alberto, levanta os olhos) -Ah!... (Corre para ele) Quero! Quero!...

TODOS (Espantados) - Quer!

EMÍLIA - Pois este é que é o sobrinho do compadre.

TODOS - Este é que é o sobrinho do compadre?

EMÍLIA - Quero! Quero! Por que não hei de querer? (Conversa baixo com Alberto).

REIS (A Bermudes) - Estão doidos, compadres!

BERMUDES (A Francisca) - Estão doidos, comadre!

Cena XIX

Repetição

BERMUDES, FRANCISCA E REIS

Qu'embruihada!
que maçada! etc.

(A orquestra une com essa música o canto popular dos Reis, tocado em surdina)

REIS - Doidos ou não, casem-se!

FRANCISCA - Apoiado! E lã vêm os Reis.

Cena XX

FRANCISCA, ALBERTO, REIS BERMUDES E A VIZINHA

VIZINHA (Entra da esquerda) - Aqui estou eu, vizinha... Os Reis já estão perto, meu nome...

ALBERTO - Senhora viúvinha da parte d'além, se quer casar e não acha com quem.. ponha-se ao fresco, se não... A senhora quando andou a intrigar-me, não se lembrou daquela célebre cartinha que me escreveu, bastante para perder a sua reputação se a tivesse...

VIZINHA - Ó que vergonha, meu nome!... (Vai saindo pelo fundo e esbarra com José, que entra em costume de burrinho) Ui! (Desaparece)

Cena XXI

FRANCISCA, ALBERTO, REIS, BERMUDES, EMÍLIA E JOSÉ, logo depois o rancho dos Reis, povo, etc.

JOSÉ - Licença pro rancho, Sinhô velho.

RÉIS - Entre o rancho... (Todos sentam-se, formando grupos. A música rompe forte; o rancho dos Reis entra e começa a executar suas danças e cantigas; povo agrupa-se na janela e invade a casa; cai o pano)
Fonte: www.biblio.com.br

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