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VIAGEM AO PARNASO

artur azevedo

CENA V

APOLO, CUPIDO, GILBERTO, depois Operários

CUPIDO - Bem; creio que desta vez podemos ir ao Panorama.

APOLO - Qual! Decididamente não podemos arredar pé daqui! Aí vem um mundo de gente! (Entram muitos operários com suas mulheres e seus filhos. Vêm muito alegres. Entrada animada.)

O OPERÁRIOS - Viva o Ministro da Fazenda! Viva!

CUPIDO - Bravo! que alegria!

PRIMEIRO OPERÁRIO - Hoje é dia de festa!... Vamos tomar parte na grande manifestação das classes operárias, feitas ao Senhor Ministro da Fazenda.

APOLO - Manifestação bem merecida. O Ministro é um brasileiro digno de todos os louvores...

GILBERTO - Levam discurso engatilhado?

SEGUNDO OPERÁRIO - Não, senhor; o discurso é chapa... Levamos uma cantiga...

OS TRÊS - Uma cantiga?

TERCEIRO OPERÁRIO - Sim, senhor, e podemos cantá-la aqui, para dar-lhes uma mostrinha da fazenda.

OS TRÊS - Valeu! Ouçamos.

Coro

Nós vimos em coro,
Contentes saudar
Quem sabe o Tesouro
Com jeito levar!
Ministro excelente,
De tanto valor,
Merece da gente
Sincero louvor! (Os operários saem.)

CENA VI

APOLO, CUPIDO, GILBERTO

APOLO - Estou entusiasmado! Que belo, que opulento, que futuroso país, e como são felizes esses operários, que às vezes se queixam sem outro motivo senão essa nevrose da queixa, que acomete a todas as classes! No Brasil o trabalho e a fortuna estendem os braços a todos os indivíduos!

CUPIDO - Como estás verboso!

APOLO - Palavra que, se eu não fosse Febo, filho de Júpiter e de Latona, irmão de Diana, pai das Musas, deus da Poesia, vencedor da serpente Píton, e se não me desse tão bem no Parnaso, no Piário e no Pindo, e nas margens do Hipocrene e do Permesso, ficava nesta terra, fazia-me brasileiro, mudava de nome, chamava-me, por exemplo, Joaquim José da Silva, e mandava à tábua a minha divindade, o Pégaso, as Musas, os poetas e os deuses!

CUPIDO - Apolo, essa linguagem...

APOLO - É a linguagem da franqueza e da sinceridade. Gosto do Brasil.. Adoro o Rio de Janeiro, apesar dos bondes, dos quiosques, dos cortiços e dos cem sonetos do Diário do Commercio.

CUPIDO - Lembra-te que tens uma grande responsabilidade...

APOLO - Ora não me aborreças! Estou farto de ser deus!

GILBERTO - Bom, não briguem... vamos ver esse encantado Panorama!

APOLO - Qual Panorama nem meio Panorama! Querem ver o que ali está dentro? Subam ao tal Morro de Santo Antônio! Escusam de ver pintado o que têm diante dos olhos, palpável, movimentado, eterno, perfumoso, belo! O que eu queria, o que esses dois ilustres artistas deviam ter pintado, era o Rio de Janeiro como há de ser no futuro, quando desaparecerem os estafermos dos morros, e as ruas se alargarem, e novas praças se abrirem, e os casebres desaparecerem para dar lugar a verdadeiros primores de arquitetura! E porque eu, Apolo, o deus das Belas-Artes, não lhes hei de mostrar esse panorama do futuro? Tudo pode a minha fantasia! Tudo obedece à minha onipotência!

CUPIDO - Vais dar-nos um panorama?

APOLO - Vou.

GILBERTO - Mesmo porque é um bom final de ato!

APOLO - Vejam! O Rio de Janeiro daqui a vinte e nove anos. (Aponta para o fundo. Mutação.)

Quadro 7

O Rio de Janeiro do futuro

[(Cai o pano.)]

ATO TERCEIRO

Quadro 8

No Largo da Carioca

CENA I

O SEIXAS, PRIMEIRO ARGENTINO, SEGUNDO ARGENTINO, uma SENHORA ARGENTINA, ARGENTINOS, POVO

(Ao levantar o pano, a cena está cheia de povo. Os Argentinos entram como quem vem de viagem. Entre eles, algumas senhoras, uma das quais traz alguns quadros debaixo do braço.)

Bolero dos Argentinos

Coro

Viva la bella Guanabara,
Cándida ninfa del Brasil,
Patria feliz, hermosa y rara,
Fúlgida perla tan gentil.
Amo el calor de tus montanas,
Amo tu cielo abrasador!
Tierra de luz, de luz me bañas
Y me haces palpitar de amor.
Que cosa rara
Es Guanabara
Trá lá lá lá!

A SENHORA ARGENTINA

- Viva la bella Guanabara! etc.

Ai que montanas
Ai que calor!
De luz me banas,
Tierra de amor!
- Trá lá lá lá!
Viva la bella Guanabara) etc.

SEIXAS - Ora vivam, monsiús. Então que lhe parece a cidade?

PRIMEIRO ARGENTINO - Muy mona, muy mona.

SEIXAS - Mona!

UM SUJEITO - Mona em espanhol quer dizer bonita.

SEIXAS - Pois mona aqui é mulher de macaco ou bebedeira.

SEGUNDO ARGENTINO - Buenos Aires es también muy monita, pero después de la revolución no se puede vivir allá. No hay plata.

PRIMEIRO ARGENTINO - Principalmente en La Plata.

A SENHORA - Yo trago unos cuadros a ver se los puedo vender.

SEIXAS - Talvez venda, talvez...

A SENHORA - Me dicen que en Rio de Janeiro el gusto por las bellas- artes se va desarrolíando... que son mui concurridas las exposiciones de pintura.

SEIXAS - Não, madama; gosto não há muito... mas, enfim, como dizem que agora o que não falta é dinheiro...

PRIMEIRO ARGENTINO - En Buenos Aires también no faltaba el dinero... pero un dia se cayó la casa!

A SENHORA - Y si no fuera haber faltado la pólvora, como faltá la plata, no sé que seria de nosotros. Adiós, caballero!

Os ARGENTINOS - Vamos?

SEIXAS - Adeus, Senhores Argentinos... Argentinos... sempre às ordens. Eu chamo-me Seixas... o célebre cobrador.

Os ARGENTINOS - Gracias... Adiós... (Saem repetindo um motivo do bolero.)

CENA II

POVO, o SEIXAS, um MONARQUISTA, depois um JOGADOR

SEIXAS (Indo ao encontro de um Monarquista, que atravessa a cena com um embrulho debaixo do braço.) - Ó seu Faria, que leva você aí?

MONARQUISTA - Uma relíquia. Vim do leilão do paço de São Cristóvão.

SEIXAS - Ah!

O MONARQUISTA - Queria comprar um objeto de uso particular do meu amado ex-monarca... mas um objeto que não fosse muito caro. O que pude arranjar, e assim mesmo por duzentos mil réis, foi isto... Tem se vendido tudo por um dinheirão.

SEIXAS - E isto que é? (Apalpando.) Ah! Já sei, já sei! É um objeto de uso muito íntimo.

O MONARQUISTA - Imaginem o valor histórico que isto há de ter mais tarde! (Beijando o embrulho.) Meu pobre ex-monarca! Adeus, seu Seixas!

SEIXAS - Cuidado com a terrina. (O Monarquista sai, entra o Jogador.) Oh! diabo! que cara traz você!

O JOGADOR - Deixe-me! Fui apanhado pela Polícia numa roleta!

SEIXAS - Estão agora a perseguir outra vez o jogo?

O JOGADOR - O jogo, não: as casas de jogo. As loterias continuam, na Rua da Alfândega joga-se desesperadamente, e já este ano se inauguraram mais dois prados de corrida! E não imagina você com que caiporismo eu estava hoje. Eu só jogo no 23, no 26 e no 29. Pois nem uma vez saiu nenhum desses números! Desapareceram!

Lundu

Ai! todos três foram-se embora de uma vez!
O Vinte e Seis, o Vinte e Nove e o Vinte e Três!
Dizei-me, olá, se há por aí quem desencove
O Vinte e Três, o Vinte e Seis e o Vinte e Nove.

SEIXAS

- O vinte e Seis foi suprimido,
O Vinte e Três foi revogado,
E o Vinte e Nove foi corrido
Porque era muito desbocado.

JUNTOS - Ai! todos três foram-se embora de uma vez! etc.

O JOGADOR - Adeus.

SEIXAS - Vamos juntos. Aonde vai você?

O JOGADOR - A Intendência Municipal pagar mil e quinhentos réis por um sermão que não encomendei.

SEIXAS - Como assim?

O JOGADOR - Uma chapa de numeração que me pregaram à porta.

SEIXAS - Amigo, pague e não bufe. A Intendência, quando cobra, é pior que eu. (Saem.)

CENA III

CUPIDO, APOLO, GILBERTO, depois o HOMEM DOS ÓCULOS

APOLO - Ora que idéia! pôr a estátua de Colombo no cume do Pão de Açúcar! Esta não lembrava ao diabo!

CUPIDO - O autor da idéia devia ir para o Bico do Papagaio.

GILBERTO (Consigo.) - E eu nada de ir ter com a minha Laura! Que deuses impertinentes!

APOLO - Oh! a manifestação é uma velha mania dos brasileiros.

GILBERTO - Parece que, depois de proclamado o regime da liberdade e da independência, as manifestações deveriam cessar ou, pelo menos, diminuir de intensidade. Deu-se exatamente o contrário; nunca o Farani e o Luís de Resende cravejaram de brilhantes tantas condecorações de ouro, nunca no Globo foram encomendados tantos banquetes, nem ao Petit tantos retratos a óleo! (Nisto, os três personagens, ouvindo ao fundo prolongados psius, voltam-se muito intrigados. É o Homem dos Óculos que vende uma seringuinha que, apertada entre os dedos, dá esse som.)

APOLO, CUPIDO e GILBERTO (Dando pelo engano.) - Ah!

O HOMEM DOS ÓCULOS - Compre! Compra um pra eu!

(Aproximando-se dos três.) Meus senhores, vejam isto!

Coplas

Uma bela novidade
Tenho aqui para vender!
É provável que isto agrade,
Porque tem graça a valer!
Meus ilustríssimos senhores,
Façam favor de examinar...
Reparem bem pra estes primores
E queiram todos três comprar,
Tão curiosa descoberta
Descanso dar à língua vem...
Isto com os dedos aperta
Quem quiser chamar alguém!
Vejam lá!
Psiu!
Meu bem, vem cá!
Meu bem, vem cá!
Teu amor cá está
Quando eu te vejo, faço assim:
Psiu!
Não fujas de mim! Meu bem, vem cá! etc.

OS TRÊS

II

Este pândego assobio
Se é verdade o que se diz,
Invenção foi de um vadio,
Que os há muitos em Paris,
Como no Rio de Janeiro
Também os há e em profusão,
Eu vou ganhar muito dinheiro,
Eu vou ganhar um dinheirão!
Tão curiosa descoberta, etc.

APOLO - Bem... vá vender mais longe a sua gaita.

(O Homem dos Óculos afasta-se apregoando sempre, e desaparece.)

CUPIDO - Que misteriosas mulheres aí vêm!

CENA IV

APOLO, CUPIDO, GILBERTO, PRIMEIRA MULHER, SEGUNDA MULHER, MULHERES

(Entra um grupo de mulheres embuçadas de modo que ninguém as possa reconhecer.)

CORO DE MULHERES

- Que lei tirânica!
Que coisa exótica,
Vândala, bárbara
E despótica!
Não há mais para onde ir!
Um lugar não achamos
Onde possamos
Nos distrair!

UMA DAS MULHERES - E agora, minhas amigas, que havemos nós de fazer?

CORO

- Ai! meu Deus!
Não pode haver maior maldade!
Oh! que calamidade!
Oh! que homens tão judeus!

A MULHER - É tratar de arranjar outra coisa...

CORO - Que lei tirânica! etc.

GILBERTO - Quem são Vossas Excelências?

PRIMEIRA MULHER - Somos senhoras da melhor sociedade, casadas, mães de família... não queremos que nos reconheçam.

APOLO - E por que se lamentam desse modo?

CUPIDO - Naturalmente por causa da carestia da carne.

SEGUNDA MULHER - Não senhor; lamentamo-nos porque havia aí umas casas onde costumávamos a passar algumas horas divertidas, e a Polícia acabou com elas. Perdemos o único refúgio que tínhamos contra a sensaboria do lar doméstico.

GILBERTO - Mas que faziam as senhoras nessas casas?

CUPIDO - Ora que pergunta!

PRIMEIRA MULHER - Nada de mais...

APOLO - Jogavam a bisca...

SEGUNDA MULHER - Cantávamos duetos...

PRIMEIRA MULHER - Brincávamos.

CUPIDO - E privam-nas desses eldorados! Que gente má!

SEGUNDA MULHER - E acabaram também com as cartomantes! Só nos falta agora que acabem com as modistas!

(Saem repetindo um motivo do coro.)

GILBERTO - Pobres senhoras! Também já não existe o Cassino. Tiram-lhes tudo!

CENA V

APOLO, CUPIDO, GILBERTO, um CARROCEIRO, depois a IMPRENSA FLUMINENSE

(O Carroceiro entra e fala para dentro. Tem a cabeça amarrada com um pano manchado de sangue.)

O CARROCEIRO - Nã senhor, nã trabalho (Apontando para a cabeça.) à vista deste argumento. (Descendo.) Arre! desta vez é que se vai ver o que é uma greve!

GILBERTO - Quê! há greve?

O CARROCEIRO - Sim, senhor, uma greve de cocheiros e carroceiros... e como eu sou carroceiro para servir a Vossa Senhoria, já deixei a carroça e mal o burro.

APOLO - Mas qual é o motivo desta greve?

O CARROCEIRO - O motivo não mo disseram, e como eu o perguntasse, arrumaram-me com uma pedra que me abriu esta brecha no casco... Motivo creio que nã há... só sei que há greve e que não devo trabalhar.

CUPIDO - Que diabo! Se não há razão para a greve, os animais serão os únicos a lucrar com ela.

O CARROCEIRO - Eu cá não sei disso... Os meus colegas fizeram parede, e nanja eu que a fure! (Sai)

APOLO - Ora aí está um sujeito que não fura paredes.

GILBERTO - Uma greve de veículos! Que bom! Enquanto isso durar, o Rio de Janeiro será uma cidade ideal! Aí vem a Imprensa Fluminense!

A IMPRENSA (Entrando.) - Estou desesperada!

APOLO - Por quê, minha senhora?

A IMPRENSA - Por causa do ataque à Tribuna... A solidariedade!...

CUPIDO - Pois sim, mas não se incomode; a senhora este ano tem tido uma felicidade brutal!

A IMPRENSA - Sim, graças ao anúncio... mas a solidariedade! ...

CUPIDO - E há outros motivos para estar contente... A senhora tem grande cotação na praça... foi vendido o Jornal... foi vendido o País... e o Novidades... e o Correio do Povo... e vai ser vendida a Gazeta...

APOLO - Tudo se tem vendido este ano... o Palácio de Nova Friburgo, o Teatro São Pedro, o Variedades, a fábrica de flores da Rua do Passeio...

A IMPRENSA - Sim, estou satisfeita... mas vou também fazer greve, porque a solidariedade!... Oh! a solidariedade!...

Os TRÊS - Sim, a solidariedade!... (Passa pelo fundo um grupo de homens disputando-se um enorme par de sapatos.)

OS TRÊS - Que é aquilo?

A IMPRENSA - Aqueles sujeitos brigam por causa de uns sapatos de defunto. Foi o que deixou o Ferreira boticário. Vou apreciá-los. (Sai.)

CENA VI

CUPIDO, APOLO, GILBERTO, os NOVOS

Coro dos Novos

I

Eis os tais chamados Novos
Estupenda legião,
Que é o assombro destes povos,
Que é o orgulho da Nação!
Acabou-se a noite escura
Que ensombrava este País!
Vamos ter literatura
Muito mais que em Paris.
Abaixo a velhada
Que está rococó
Viva a meninada
E viva ela só!

II

Atiremos para um canto
Nossos trêmulos avos...
Nenhum deles teve tanto
Talentinho como nós!
Vai o mundo ver em guerra,
Os filhotes contra os pais!
Quem dá regras nesta terra
Somos nós, e ninguém mais!
Abaixo a velhada, etc.

APOLO - Então os meninos são os Novos?

PRIMEIRO NOVO - Sim, senhor. Na literatura brasileira só nós valemos alguma coisa. Tudo o mais é imprestável!

SEGUNDO NOVO - Os velhos são inúteis!

APOLO - Oh! que bonitinho! (Pega o segundo Novo ao colo.)

TERCEIRO NOVO - Dos vinte e cinco anos para cima os literatos brasileiros não prestam para mais nada!

PRIMEIRO NOVO - Da geração passada não há um literato que se salve.

CUPIDO - E Gonçalves Dias?

PRIMEIRO Novo - É um fóssil!

GILBERTO - Otaviano?

TERCEIRO NOVO - Um tolo.

APOLO - Alencar!

SEGUNDO Novo (Sempre ao colo de Apolo.) Uma besta!

PRIMEIRO Novo - Só nós, os Novos, fazemos alguma coisa com jeito... Vamos deitando abaixo tudo quanto é velho!

APOLO - Bonito! (Deita vivamente o menino no chão.)

TODOS - Que foi?

APOLO - Uma arte deste Novo! Bem diz o ditado: Quem se mete com crianças... Ora esta!

PRIMEIRO NOVO - Aí vem o batalhão patriótico!

CENA VII

OS MESMOS, o COMENDADOR, PRIMEIRO, SEGUNDO, TERCEIRO, QUARTO, QUINTO SOLDADOS, SOLDADOS

(O batalhão entra marchando com o Comendador na frente, a servir de baliza.)

CORO DOS SOLDADOS

- Rataplã! Rataplã! Rataplã!

Plá!
O batalhão patriótico
Ei-lo, cá está! cá está!
Que lá nas terras de África
A manta pintará!
A valorosa espada
Que ao nosso lado cai,
Batendo na calçada
Sonoramente vai
Assim:
Tlin! Tlin!

O COMENDADOR

- Eu tenho uma comenda,
Mas longe estou de ser um homem rico,
Porém me sacrifico
Por este batalhão!
Acompanhá-lo agora
Eu vou até Lisboa,
E há de a Inglaterra, a proa
Logo abaixar, verão!

PRIMEIRO SOLDADO

Pra minha terra
Quero ir me embora...
Não tenho agora
Nem um tostão...
Ai! se não fosse
Pr' economia,
Eu não iria
Co batalhão!

CORO

- Ah! Ah! Ah! Ah!
Viaja de graça!
Que espertalhão!

SEGUNDO SOLDADO - Eu fui caixeiro.

TERCEIRO SOLDADO - Fui carroceiro.

QUARTO SOLDADO - Fui chacareiro.

QUINTO SOLDADO

- Pois eu cá fui vagabundo
Desprezou-me todo o mundo...
E é por Isto
Que me alisto...

CORO

- Nosso belo batalhão
Vai fazer um figurão,
Pois nós afirmamos
Que, dentro em dois meses,
Matamos
Duzentas,
Trezentas,
Quinhentas,
Seiscentas,
Centenes
Apenas
De Ingleses!
Plã! Rataplã! Plã!
Plã! (Saem todos.)

CENA VIII

CUPIDO, GILBERTO, APOLO

APOLO - Bem! É tempo de voltar para o Parnaso.

CUPIDO (A Gilberto.) - É sim! Vais ver a tua namorada.

APOLO - Quando chegares ao corredor da casa em que ela mora, bebe um gole valente dessa garrafa. Adeus! Sê feliz! (Abraça-o.)

CUPIDO - Adeus! (Abraça-o.)

GILBERTO - Não sei como agradecer tantos obséquios...

APOLO - Não agradeças. Adeus. (A Cupido.) Vamos tomar o carro!

CUPIDO - Vamos!

GILBERTO - Adeus! (Apolo e Cupido saem.)

GILBERTO (Só.) - Só! Ainda me parece um sonho! Corramos à casa de minha querida Laura! (Sai. Mutação.)

Quadro 9

A mesma cena do primeiro quadro

CENA IX

MELO, ALBINO, depois LAURA

(Melo entra, trazendo na mão uma lista do recenseamento. Albino acompanha-o.)

MELO - Ela só pelo diabo! Não entendo esta maldita lista do recenseamento! Nunca vi coisa tão complicada! (Senta-se.) Vem cá! (Albino aproxima-se.) Ajuda-me a encher isto. É em prosa, mas é muito difícil! (Lendo.) "Nome... Já está. "Estado..." "Município..." Já está. "Idade..." Já está. "Sexo..." Ora, dize-me cá: uma vez que eu já declarei que me chamo Bernardo Vítor de Melo, que necessidade tenho de dizer que sou do sexo masculino?

ALBINO

- Sempre é bom, senhor meu amo...
Fica claro como o dia...
Eu conheci um sujeito
Que se chamava Maria.

MELO - Pois sim, mas o que ninguém conheceu foi uma sujeita que se chamasse Bernardo Vítor de Melo. Enfim... (Escrevendo.) "Masculino"... (Continuando a ler.) "Cor"... Branca. "Defeitos físicos"... "Cego"... Não sou. "Surdo-mudo"... Deus me livre! "Surdo"... Credo! "Idiota"... (Encara Albino.) Por que é que olhas para mim? Então eu sou idiota?

ALBINO

- Nessa casa, meu bom amo,
Cabem dizeres diversos...
Não diga "sou idiota",
Mas escreva "faço versos".

MELO - Ora vai para o diabo! Fazer versos não é defeito físico! (Continuando a leitura.) "Filiação..." Legítima... Duvido que nestas listas apareça um filho natural. "Estado civil"... Viúvo. Tudo o mais já está. (Passando uma página.) Esta página é para os casados. (Indo á página seguinte.) Tenho agora que repetir a mesma cantiga. Isto me põe doido! "Nome"... "Nacionalidade"... "Relação com o chefe da casa"... O chefe da casa sou eu. "Sabe ler e escrever"... "Culto..." Tudo isto já está "Profissão" Achas que eu escrevo "poeta"? Ah! Não! (Escrevendo.) "Proprietário"... "Poeta" fica para esta outra casa: "Título científico, literário ou artístico"... "Renda"... Olha, sabes que mais? Vai encher isto. Eu perco a cabeça! (Dá a lista a Albino. Laura entra muito triste.) Então, ó pequena, ainda estás triste? Ainda não te desenganaste? Duvido que o tal Gilberto apareça, assim como sempre duvidei que desaparecesse, estando as portas tão bem fechadas como estavam!

LAURA - Papai está enganado; se houvesse fechado as portas, ele não sairia...

MELO - Pode ser: eu estava naquele dia com a musa, e quando estou com a musa, não respondo por mim. A propósito: ouve esta quadra que fiz ontem à noite. (Tirando um papel da algibeira.) É o princípio de uma ode. (Lê.)

"Honra à poesia, a deusa augusta e altiva, Honra à poesia, a deusa divinal!

O povo elegeu muitos poetas, Mandou-os ao Congresso Nacional."

LAURA (Friamente.) - Muito bem.

MELO - Estes foram feitos sem o adjutório do Albino.

ALBINO (À parte.) - Vê-se.

MELO - Menina, isto de fazer versos fica muito fino. O dom da poesia não é coisa que se arranje do pé para a mão. Enfim, se o rapaz prometeu voltar, lá tinha as suas razões.

LAURA - Ah! papai! se soubesse como sofro! (Albino tem um estalar de língua.)

MELO (A Albino.) - Ainda aí estás?

ALBINO

- Eu acho bem razoável
De sua filha a quizília.
Não é preciso ser poeta
Para ser pai de família.

MELO - Também tu?

ALBINO

- Sonetos, décimas, quadras
- Concorde, ó flor dos patrões! -
Nunca deram para aquilo
Com que se compram melões.

MELO - Pois tu de que vives, animal? Com que profissão vais figurar nessa lista de recenseamento?

ALBINO

- Vivo de versos, é certo...
Que descoberta!... ora bolas...
Mas, se não fosse o patrão,
Eu estava a pedir esmolas!

MELO - Péssima quadra, Senhor Albino. Esse "ora bolas" e uma muleta. Uma muleta e uma insolência!

LAURA - É escusado, Albino! por mais muletas que ponhas nos teus versos, papai não nos atende! Ninguém o demove! Quer um genro poeta! (Chora.)

ALBINO (A Melo.)

- Daquele pranto sincero
Piedade o patrão não tem!
A menina chora tanto,
Que me faz chorar também!

MELO (Sempre sentado, impassível, a reler os versos.)- Honra à poesia, a deusa augusta e altiva, etc.

LAURA (Chamando Albino com um gesto.) - Vê se te lembras de um estratagema qualquer...

ALBINO

- Não há menina, decerto,
Estratagema nenhum...

LAURA - Podes falar em prosa.

ALBINO - Que quer? O costume...

LAURA - Mas dizias?

ALBINO

- Estratagema não vejo,
Estratagema não há...

LAURA - Fala em prosa, Albino!

ALBINO - Desculpe... Aqui não há estratagemas possíveis: seu papai quando embirra, é o mesmo que um sendeiro velho.

LAURA - Isso agora é prosa demais. Mas experimenta. Tens tanta influência sobre ele...

ALBINO - Distingamos. Tenho muita influência sobre o poeta, mas não sobre o pai. Ah! quem me dera a mim que seu marido não fosse poeta!

LAURA - E a mim também! Um marido maluco!

ALBINO - Em havendo poeta na família, seu pai dispensa os meus serviços.

LAURA - Qual! Tu fazes-lhe muita falta.

ALBINO - Ninguém faz falta neste mundo. A menina não viu o que fez o imperador da Alemanha?

LAURA - Que foi?

ALBINO - Dispensou os serviços de Bismarck. Ora, se Bismarck foi dispensado, que direi eu?

LAURA - Meu pobre Gilberto! (Vai sentar-se.)

MELO (Que tem estado a reler os seus versos.) - Vem cá, Albino. (Albino aproxima-se.) Senta-te, e dize-me cá, em vez de:

Honra à poesia, a deusa augusta e altiva,

Não seria melhor:

Honra à poesia, a deusa altiva e augusta?

(Albino franze a testa, toma o papel e vai responder, quando todos os instrumentos da orquestra soltam um nota uníssona e estridente. Ao mesmo tempo, Gilberto entra com impetuosidade. Melo e Albino assustam-se e caem por terra, Laura levanta-se contentíssima.)

CENA II

MELO, ALBINO, LAURA e GILBERTO

MELO e ALBINO - Ai!...

LAURA - Ele!

GILBERTO (Com muito fogo.)

- Qual saudoso passarinho
Que o abandonado ninho
Vai procurar com carinho,
Cidadão Melo, aqui estou!
Um genro poeta queria?
Pois bem, senhor, hoje em dia
Já tenho o dom da poesia
Com que Apolo me dotou!

(Melo e Albino erguem-se boquiabertos.)

Eu trago um estro luzente!
Eu trago um estro potente!
Eu trago um estro esplendente!
Eu trago um estro titão!

ALBINO (A Melo.)

- Traz quatro estros na mente...
E uma garrafa na mão!

MELO (Muito interessado.) - Espera, homem!

GILBERTO

- Quando os meus versos vomito,
Quando despeço o meu grito,
Abalo todo o infinito,
Comovo toda a amplidão!

ALBINO (A Melo.)

- Ele é poeta, tenho dito;
E é gongórico, patrão!

MELO (Repreensivo.) - Oh!

GILBERTO (Sempre com muito fogo.)

- Cupido levou-me ao colo
Aos pés do divino Apolo,
E eu pedi-lhe a inspiração!
Por um mágico processo
Fiquei poeta! Outra vez peço
Esta alva e mimosa mão.

(Corre para Laura, beija-lhe a mão e fala-lhe baixo.)

ALBINO (A Melo.)

- Senhor meu amo, uma idéia
De repente me ocorreu...

MELO - Dize qual foi... em prosa.

ALBINO

- Em prosa, senhor meu amo!
A prosa é terrena e vil.

MELO - Em prosa, sim! Pois hei de estar sempre a ouvir versos! Tomei agora uma barrigada, que me empanturrou!

ALBINO (A parte.) - Hum... Cá está o Bismarck, e (Apontando para Gilberto.) ali está o Caprivi... (Alto.) É que pode bem ser que aquilo viesse estudadinho de casa.

MELO - Sim senhor! bem lembrado!... Foi pena ser em prosa! (A Gilberto.)

- Psiu, ó amiguinho, mais devagar...
Faça favor de fazer um improviso já.

GILBERTO (Com muita volubilidade.)

- Oh! pois não! é só pedir!
Rimo com facilidade,
Metrifico sem vontade,
Versejo sem sentir!

LAURA - Mas não te podes exprimir senão em verso?

GILBERTO

Não posso. Nem me recorda
Como é que em prosa falei!
Meu doce amor, tenho corda,
Por quanto tempo não sei!

MELO (A Albino, com muita convicção.) - Parece-me que o rapaz é poeta, e poeta às direitas! Façamos uma experiência definitiva e suprema. Ó seu Gilberto, faça favor de glosar um mote... (Pensando.) Que há de ser? Dá-lhe um mote, Albino! Quero ver como se sai!

ALBINO

- Esse mesmo:
Quero ver como se sai.

GILBERTO (Repetindo.) - Quero ver como se sai.

(Depois de pequena pausa.)

Amor é uma cidadela
Onde eu entrei facilmente,
E fiquei, preso e contente,
Nos braços de Laura bela;
Mas como, se me quer ela,
Não me deseja seu pai,
Em fugir do que me atrai
Meu desejo se concentra;
Eu já sei como se entra,
- Quero ver como se sai.

MELO - Lança-te nos meus braços, meu genro! (Entusiasmadíssimo.) Bocage! Bocage puro!... Vou ter em casa um novo Elmano!... Minha filha, dá-me a tua mão. (Pega, por engano, na de Albino.) Então! temos brincadeira, seu poetastro? (Toma a mão de Laura.) Gilberto, dá-me a tua mão! (Pega outra vez, por engano, na mão de Albino, que tem passado para o lado oposto.) Adeus, viola!... (Toma a mão de Gilberto e une-o à filha.) Casem-se e sejam muito felizes! Tenho pena de não lhes poder dizer isso em bonitos versos...

ALBINO (Insinuando.) - Se o patrão quiser...

MELO (Vivamente.) - Não. (Continuando.) Tenho pena de não poder empregar aqui essa linguagem maviosa com os sons de longínqua flauta que suspira uma endeixa repassada de melancolia e de amor, branda como o sopro da brisa que às ave-marias cicia por entre os arbustos orvalhados pelo crepúsculo. - Vai em prosa, meus filhos, vai em prosa... poética! (Gilberto e Laura ajoelham-se.) Tableau!

ALBINO (Ao público.) - A vista disto e dos autos, Bismarck vai tratar de arrumar a trouxa! (Sai. Gilberto e Laura erguem-se.)

CENA III

MELO, LAURA, GILBERTO, depois ALBINO

GILBERTO - Adivinhe se é capaz O que esta garrafa traz?

LAURA - MELO (Tomando a garrafa.) - É o quê? Sabes lá o que é! (Cheira.) Parece água pura! (Depois de cheirar.) É; cheira a água.

LAURA (Tomando a garrafa.) - Deixe ver.

GILBERTO (Tomando a garrafa da mão de Laura, a Melo.)

- Muito bem. Um gole beba,
E o dom das Musas receba!

MELO - Olhe, não vá fazer mal!

GILBERTO

- Beba um gole bem taludo,
E me dirá se o iludo!

MELO (Toma a garrafa, hesita) bebe afinal, e fica como Gilberto no Parnaso.)

- Em meu cérebro se opera
Singular transformação!
O meu miolo é cratera
E a minha bola, vulcão!

LAURA - Meu Deus! papai ficou maluco! (Gilberto tranqüiliza-a com um gesto.)

- Será isto uma quimera?
Será isto uma ilusão?
Faço versos de improviso!
Do Albino já não preciso!
Este líquido me afoga!
Tenho cá dentro uma brasa!

(Noutro tom.)

Onde se vende essa droga?
Eu quero ter dela em casa!
Minha filha bebe um gole...

(Laura hesita.)

Vai! Não tenhas medo.
Engole!

(Laura bebe.)

LAURA (Com os mesmos sintomas do pai.)

- Ai meu Deus! que coisa estranha!
Sonora fonte desliza
E tenros arbustos banha
Ao som do sopro da brisa
Hei de repetir a dose,
Que a droga é mais papa-fina
Do que a célebre cocoquina
Que cura a tuberculose!
Filhos, por este sistema,
Poderão dar-me vocês
De vez em quando um poema...

GILBERTO (Atalhando.)

- E um poeta de quando em vez.
Esta garrafa guardada
Com mil cuidados vai ser:
Toda a nossa filharada
Versinhos há de fazer.

LAURA (A Albino, que entra com uma trouxa debaixo do braço.)

- Não sabes? Eu sou poetisa...
Sei a linguagem da brisa,
Conheço o idioma da flor...
Meu Gilberto, de hoje em diante,
Serei muito mais amante,
Amar-te-ei com mais fervor.

ALBINO - Que é isso, Mãe Santíssima!

MELO (A Albino.)

- Sou poeta! Foi benefício
De uma droga que bebi,
Vai procurar outro ofício,
Já não preciso de ti.

ALBINO (À parte.) - Nem eu ficava nesta casa de orates.

(A Melo.) Adeus! Bem vê: já tenho as malas prontas.

MELO - Queres dizer: a trouxa.

ALBINO

- Sim, senhor.
Mais tarde voltarei pra ajustar contas,
Pois deve ter um saldo a meu favor. (Sai.)

GILBERTO (Tomando Laura pela mão e conduzindo-a ao proscênio.)

- Agora o couplet final,
Pois com uma apoteose
Esta peça se descose
E termina muito mal.

(A orquestra executa a introdução da copla, e Laura começa a cantar, mas é interrompida por vozes que se levantam de todos os ângulos da sala, protestando.)

ESPECTADORES - Fora o couplet: venha a apoteose!

MELO

- A apoteose o povo exige!
A apoteose é de rigor!

LAURA - Tem razão: noblesse oblige...

(Apontando para o fundo.)

Aquele é o reino do Amor!

(Mutação. Apoteose)

Quadro 10

[(Cai o pano)]

Fonte: www.biblio.com.br

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