Sob um rosto inteligente, uma aparência física normal, uma capacidade mnemônica muitas vezes notável, esconde-se uma criança que não se constituiu como sujeito: "sem um olhar", com um grave comprometimento na linguagem, que se isola, que não encontra o outro, enfim, uma criança que simboliza para todos aqueles que a "encontram" um verdadeiro enigma o enigma da criança autista.
Caracterizado como um distúrbio profundo do desenvolvimento, o autismo foi pela primeira vez descrito cientificamente, em 1943, no artigo "Distúrbios autísticos de contato afetivo", do psiquiatra austríaco Leo Kanner.
Neste artigo, Kanner não definiu especificamente o termo autismo, mas descreveu o quadro clínico de 11 crianças, de onde foi possível extrair características comuns consideradas essenciais, cada uma das quais nos sugere, neste momento, algumas indagações:
Incapacidade de estabelecer relações normais com pessoas e situações
"uma criança que se basta a si mesma?"
Atraso na capacidade de falar e não utilização da linguagem como instrumento de comunicação com os outros
"uma linguagem que exaure a memória em busca de que?"
Obsessão ansiosa em manter imutável o seu ambiente físico
"aceitar uma mudança no mundo físico significa ter que entrar nesse mundo?"
Destaca-se nesse quadro, o papel atribuído ao "isolamento autístico", descrito por Kanner (op. cit.), como presente desde o início da vida da criança, sugerindo assim, um caráter inato. Mais tarde, observa que o distúrbio pode aparecer, após um desenvolvimento aparentemente normal, até aproximadamente os 30 meses de vida.
A grande contribuição de Kanner, ao caracterizar o autismo como uma síndrome independente, com um quadro clínico que a diferencia de outras síndromes psiquiátricas (como debilidade, esquizofrenia, etc.), não foi suficiente para possibilitar uma definição precisa do autismo. Não há consenso sobre os instrumentos avaliativos, seus sintomas (primários ou secundários), bem como sobre os mecanismos desencadeadores de tal quadro.
No que diz respeito às causas para as diferentes formas de autismo, muitas são as explicações, contudo, não encontramos referência a um fator específico.
Pesquisas recentes (citadas em Johnson e Dorman, doc. on line) apontam para fatores biológicos ou diferenças neurofisiológicas no cérebro. Por exemplo, anomalias na estrutura do cérebro, em especial no cerebelo, inclusive no tamanho e número das células de Purkinje.
Durante muito tempo, os fatores psicogênicos foram apontados como os grandes desencadeadores da síndrome.
O próprio Kanner (1943), já destacava aspectos comuns aos pais autistas:
Classe sócio econômica elevada;
Inteligência superior à média;
Preocupação com o abstrato;
Ausência de calor humano;
Introversão;
Baixa emotividade;
Características obsessivas.
A partir de então, o funcionamento familiar foi elemento central na busca de explicações sobre os fatores psicogênicos como desencadeadores do autismo.
Como consequência de tal ênfase, Leboyer (1995) descreve três hipóteses formuladas em cima de tal questão:
" A primeira hipótese sugere que o autismo se desenvolve unicamente sobre bases psicogênicas: são os pais que em razão de seu funcionamento patológico próprio, provocam a aparição da síndrome do autismo em seus filhos.
A segunda hipótese sugere a existência de dois grupos autistas: um primeiro grupo, onde o autismo é associado a uma patologia neurológica (Goldfard, 1961), é o "autismo orgânico". Um segundo grupo dito "autismo inorgânico", é devido a fatores psicogênicos.
A terceira hipótese é aquela que Kanner adota em 1955: "A estrutura psicológica própria da criança resulta de fatores inerentes e da dinâmica relacional pais-filhos". Em outros termos, o autismo se situa à conjunção de um acidente orgânico inato e do stress psicogênico".
Por outro lado, os estudos com gêmeos, as investigações familiares e os dados epidemiológicos sugerem um determinismo genético paro o autismo.
Neste sentido, a literatura recente associa alguns casos de autismo a doenças geneticamente transmissíveis, como é o caso da síndrome do cromossoma X frágil, encontrado em autistas que apresentam deficiência mental. (Brown e outros, 1982, citado em Leboyer, 1995).
Contudo, dificuldades relacionadas ao número escasso de casos diagnosticados como autistas, às dificuldades de interpretação dos resultados nas avaliações realizadas , bem como ao próprio significado do termo genético patrimônio transmitido de pais para filhos ou genótipo modificado patologicamente dentre outras, impedem uma postura conclusiva com relação ao modelo genético.
Ao longo dos anos, o autismo também tem sido associado a doenças orgânicas, dentre as quais podemos citar: rubéola congênita (Chess, 1971, 1977) ; hemorragias no primeiro trimestre de gravidez (Torrey e outros, 1975); fenilcetonúria (Wing, 1996; Sorosky e outros, 1968).
Entretanto, não se pode falar numa relação direta entre autismo e tais doenças, a não ser o fato de que estas por si sós podem afetar o Sistema Nervoso Central, provocando alterações no seu desenvolvimento.
Pelo exposto, é possível constatar a existência de várias hipóteses com relação aos fatores desencadeantes do autismo, contudo, até o momento, não se reuniu evidências suficientes para comprovar nenhuma delas. É possível apenas depreender das mesmas que uma multiplicidade de fatores podem conduzir a uma síndrome autista, mas qual (ou quais) deles, e em que etapa do desenvolvimento isto acontece, continua sendo uma pergunta sem resposta.
Tentamos, nesta breve exposição, e sem a pretensão de aprofundar o assunto, traçar um quadro geral do que é o autismo, localizando o leitor no que diz respeito às principais hipóteses relacionadas à sua etiologia. Em seguida, contemplando o objetivo principal deste artigo, passaremos a abordar um dos principais sintomas que caracteriza o quadro autista a linguagem - cujas alterações , tal como descreveu Kanner (1949, citado em Assumpção Jr., 1997) se estendem "do mutismo a uma linguagem sem função comunicacional, refletindo as dificuldades no contato e na comunicação interpessoal" .
Os autores, de um modo geral, referem-se a vários tipos de dificuldades com relação à linguagem. Tais dificuldades significam tanto uma não aquisição da linguagem, como uma perda progressiva das vocalizações já adquiridas, ou ainda a persistência de manifestações verbais com características bem peculiares.
Vale destacar que é bastante antigo o registro de produções verbais consideradas peculiares que, a partir de Kanner (1943), passaram a fazer parte da sintomatologia autista. Por exemplo, já em 1799, na Psiquiatria, apontava-se para a dificuldade de reversão do pronome pessoal, ou seja o fato de que "alguns sujeitos referem-se sempre a si mesmos na terceira pessoa." (Martos, 1989). Kanner (op. cit.) aborda este fato no contexto mais amplo do sintoma que ele denomina "fala ecolálica".
Segundo esse autor, algumas crianças por ele acompanhadas repetiam "como um papagaio" tudo o que lhe havia sido dito, naquele momento (ecolalia imediata), ou em momentos anteriores (ecolalia diferida). A esse respeito, chega a afirmar que "a conversa dessas crianças é um eco de tudo o que já se lhe pôde ser dito", registrando a limitação, ou mesmo a ausência da produção de frases espontâneas.
Nesse "eco", as palavras são repetidas exatamente na forma como são ouvidas, destacando-se o fato de que os pronomes pessoais usados pelas outras pessoas são retidos sem alterações, sendo também, algumas vezes, reproduzidos a entonação e o tom de voz dessas pessoas.
Por sua vez, tem-se apontado, nessas repetições, o caráter de estereotipia, inflexibilidade ou permanência (Kanner, 1943, Lasnik-Pennot, 1991 e 1997, Rocha, 1997, dentre outros), com base no qual Kanner (op. cit.) admite que a linguagem do autista não possui a função de comunicar uma mensagem a outra pessoa.
Para Lasnik-Penot (1997), "esse tipo de verbalizações nem mereceria o nome de repetição", justamente por tenderem, rapidamente, a se tornar estereotipias" as quais consistem num esvaziamento do ato de tudo o que é de um valor simbólico, "restando um vestígio de um trabalho humano que, apenas, começou a acontecer." (op. cit., pag. 16)
A marca de estereotipia das manifestações verbais da criança autista causa, no interlocutor, um efeito de estranhamento, como pode ser exemplificado nos fragmentos de diálogo abaixo, que fazem parte do conjunto de dados, obtidos através de filmagens semanais de sessões de terapia em grupo, no CPPL (Centro de estudos de Psicanálise e Linguagem da cidade do Recife):
C= Terapeuta
L= Terapeuta
P= Paulo* (criança autista)
* Nome fictício
(1) (P - 13;4)C - O que está acontecendo aqui, vocês estão preocupado com o que hein?
P - (ininteligível) (Fala com a voz bem fina).
C Estão preocupados com alguma coisa?
P Vamos ver se (ininteligível) Hoje, vamos ver (ininteligível) aberto hoje, agora! (Fala num tom mais alto e firme)
Quem mandou você jogar. (Fala fino)
Deixe de palhaçada! Levanta menino! Deixe de palhaçada (Fala fino)
Deixe de palhaçada!(Fala grosso) Deixe de palhaçada! (Fala fino)
C - Quem está fazendo palhaçada?
P Acenda Hélio, por favooor (Voz um pouco mais grossa)
Acenda aí por favor, acenda aí por favor. Acenda por favor agora. (ininteligível) (Fala fino)A lata tá cheia de (ininteligível) (Voz estranha
Ô Paulo (ininteligível) coelho (ininteligível) coelho.(Fala mais fino)C Eu não sabia que (ininteligível)
P Oh Paulo!Acenda Paulo, acenda logo!
Paulo acenda essa luz meu filho, logo! (Fala apenas um pouco mais fino que sua voz)
Acenda Paulo logo. (fala grosso) Acenda Paulo, logo (Fala bem fino)
Ui, tia apagou. Acenda aí, por favor!
Acenda Paulo! (ininteligível) (Fala mais fino)
Tia, apague a luz do quarto por favor, tia.
Oh Paulo, ligue agorinha, ligue! (Fala mais grosso e ordenanado) (ininteligível) (Fala bem fino)
(2) (P - 13;5)P - Carlinhos rasgou a roupa todinha! (Fala fino)
L Foi verdade.
C - (ininteligível)
L - Carlinhos ficou com muita raiva, sabe? Porque Carlinhos fazia umas máscaras, sabe?Enrolava no papel, colava, desenhava. Num era Paulo?
Ele fazia umas máscaras e nesse dia não tinha o papel prá ele fazer essas máscaras e aí Carlinhos ficou com raiva rasgou as roupas, deu grito. Precisou Carlos e Liliane pegar ele para não deixar ele rasgar todinho, não foi Paulo?
P - Carlinhos rasgou. (Fala fino)
E num rasgue não! (Fala grooso, ordennado)
Carlinhos rasgou a roupa, Carlinhos rasgou a roupa (Fala grosso no início da frase).
C Eu lembro de Carlinhos pequenininho.
P - Tá bom aí? (P fala grosso, vai para perto da filmadora)A luz. (P coloca seu rosto no visor da filmadora).
C - Tá procurando o que aí?
P - Vamu depressa. Vamu depressa. (ininteligível) (Fala fino)
De jeito e maneira. De jeito e maneira. (Fala fino)
C - Estamos arrumados, hein?
P Arrumados, arrumados. (Fala fino)
C - Temos um imitador aqui perfeito.Notam-se, nos fragmentos acima, fortes marcas da presença de uma reprodução rígida da fala do outro na fala da criança, como por exemplo, a não reversão do pronome pessoal ou a manutenção das características prosódicas originais (tom e entonação).
Por sua vez, chama atenção, em alguns momentos, a persistência no que concerne a determinada reprodução, ressaltando, ainda mais, sua condição de "eco" tão destacada pelos estudiosos do tema, como "Acenda Paulo". Tal enunciado pertence ao discurso da terapeuta em sessão passada, diante do menino que, insistentemente, apagava a luz da sala.
As produções verbais de P. indicam, portanto, um caráter de "fixação", "permanência" ou "imobilidade" que parece ter dificultado um movimento de "circulação" ou de "deslizamento", conforme concebido por Lier-De Vitto (1994).
Tal movimento tem lugar "quando o segmento destacado da produção do bebê, ressurge na da mãe para, em seguida deslizar, novamente, para a criança." (op. cit., pag. 138), o que aparece no seguinte fragmento de diálogo entre o adulto(mãe) e a criança com desenvolvimento linguístico considerado "normal" extraído do Banco de Dados do Instituto de Estudos da Linguagem/UNICAMP:
M = mãe
C = criança
(3) (C 1;2.15)
M- Num tem. Só tem um nenê.
C - é/bô M- Acabô C - néé M - Só tem um nenê C - nenêM- Você vai dá papá pro nenê?
C - pápa
M- Vai?
C - a/u/ua aiá
No tocante a essa questão, pode-se dizer que várias reproduções de P., em situação de terapia, obedecem a um critério de justaposição. Tais reproduções fazem parte de situações discursivas anteriores, como por exemplo, "Deixe de Palhaçada", retornando na fala de P., em sessões de terapia, sinalizando, entretanto, para uma ausência de articulações sucessivas com outros fragmentos da fala do adulto o que indica, portanto, uma ausência de deslizamento.
Lasnik-Penot (1997) acrescenta ainda às características mencionadas acima, a ausência de segmentações (ou cortes) na substância fônica, ou melhor, frequentemente não se observam, em algumas crianças, uma separação entre as palavras, como se algo permanecesse, irremediavelmente colado entre elas, o que constitui um dos grandes obstáculos à aquisição da linguagem. Tem-se também feito referência a uma histórica suspeita de surdez, relativamente frequente entre os autistas, diante da falta de respostas de orientação a certos sons. (ver Rivière, 1995). Trata-se de surdez aparente, ou melhor de surdez seletiva, desde que a criança somente não escuta a voz humana, respondendo, entretanto a outros ruídos, como por exemplo ao "barulho de máquinas". (Exemplo citado por Lasnik-Penot, op.cit.).
No tocante a essa caracterização sumária da sintomatologia de natureza verbal do quadro autista, convém mencionar dois aspectos: o primeiro diz respeito à singularidade da criança, no sentido de que "esses sintomas não se manifestam por igual, nem têm o mesmo significado em diferentes fases da vida das pessoas autistas". (Rivière, op. cit., pag. 276).
O segundo diz respeito ao fato de que, embora haja consenso no tocante às dificuldades linguísticas gerais do autista, tal consenso parece não subsistir quando se trata de descrever as dificuldades relativas a aspectos específicos da linguagem. Com base em Belinchón y outros (1996), pode-se apontar para um desacordo no que se refere a tais aspectos específicos, desde que várias investigações sobre o tema chegaram a resultados discordantes entre si.
Por exemplo, Hermelin y OConnor e Fyffe y Prior (1979) obtiveram resultados que indicam a existência de déficit, no autismo, no âmbito semântico-conceitual, enquanto que Tager-Flusberg (1985, 1986) encontrou que a organização e representação das categorias semânticas básicas do significado das palavras dos sujeitos autistas era similar às do grupo de crianças normais estudadas. Por sua vez, de acordo com os estudos de Prior y Hall (1979) e de Tager-Flusberg, 1981), a compreensão de orações, por pessoas com autismo, é pior do que a dos sujeitos que serviram de controle, por não usarem estratégias de compreensão usadas por estes últimos.
Entretanto alguns dados mais recentes (Paul, Fisher y Cohen, 1988) têm sugerido que os autistas são capazes de usar estratégias de compreensão que se baseiam em pistas tanto semânticas quanto sintáticas. (ver Belinchón, Gortázar, Martinez-Palmer, Flores y García-Alonso, 1996, para um aprofundamento de cada uma dessas posições).
Vale reforçar ainda que o consenso, no estudo da linguagem no autismo, restringe-se à descrição de características linguísticas gerais, existindo, porém, diferenças (desacordos) no tocante às tentativas de explicação, quer seja desse tipo de características, quer seja daquelas de natureza específica. Nesse sentido, algumas linhas de investigação sobre o objeto em foco vão ser referidas, atendo-se, contudo, ao propósito restrito de ilustrar a polêmica mencionada.
Dentre as explicações neuro-psicológicas, algumas sustentam que o déficit linguístico desses sujeitos dependeria de déficits de natureza cognitiva, os quais, por sua vez, estariam ligados a alterações neurológicas, de vários tipos. Uma dessas alterações seria, por exemplo, o déficit nos neurotransmissores, o qual teria participação na dificuldade da criança de enviar sinais para a mãe, comprometendo, assim, desde cedo, seu desenvolvimento.
Entretanto, com base em alguns autores, (dentre eles, Lasnik-Penot, op. cit.), pode-se dizer que ocorre, nesse ponto, uma confusão entre fatores neurológicos e fatores interacionais, uma vez que foi também observado na mãe do autista uma dificuldade de dar respostas verbais ao comportamento do bebê, ou seja de atribuir significado a esse comportamento. Nesse sentido, mais do que uma confusão se instala um círculo vicioso, pois não se poderia determinar qual das duas dificuldades (da mãe e do bebê) seria a causa ou a consequência da outra.
Assumindo um marco teórico psicolinguístico, Belinchón y outros (1996) localizam a explicação de algumas dificuldades linguísticas do autista num conjunto de processos cognitivos baseados num conhecimento da língua, processos estes que constituem, de um lado, uma competência linguística ou gramatical e, de outro lado, uma competência pragmática ou conceitual.
Por sua vez, autores como Nadel y Fontaine (1989) destacam, como fator decisivo para a aquisição da linguagem, a chamada Competência Comunicativa cujo desenvolvimento dependeria, fundamentalmente, da ocorrência da imitação compartilhada ou sincrônica entre a criança e seu parceiro.
Essa autora entende a imitação sincrônica como um modo de convidar o outro a interagir, através da mensagem "eu estou interessado em você"; a imitação subsequente usada pelo modelo inicial para responder à mensagem original significa: "eu também estou interessado em você". Desse modo, levanta-se a hipótese de que alguma dificuldade nesse tipo de sincronia imitativa estaria relacionada com o comprometimento da competência comunicativa do sujeito autista.
Stone, Ousley y Littleford (1997) também consideram a imitação como elemento que se relaciona com comprometimentos na linguagem autista. Destacam, entretanto, a imitação motora, realizada pela criança, de movimentos corporais do modelo, situando-se num quadro explicativo diferente do mencionado acima. Os resultados desse estudo indicam que uma deficiência nesse tipo de habilidade imitativa mantém forte correlação com os baixos resultados do sujeito autista no que concerne à linguagem expressiva.
A noção de interesse compartilhado e de comprometimento nesse interesse aparece num outro grupo de investigação, como fator explicativo da dificuldade linguística do autista (Baron-Cohen 1991 e1994, citado em Roazzi y Dias, 1998), embora constitua também uma perspectiva diferente da proposta por Nadel y Fontaine (op. cit.), fazendo parte do modelo da chamada Teoria da Mente. Nesse modelo, destaca-se a atenção compartilhada, como por exemplo, a conjugação do olhar da criança e da outra pessoa sobre um mesmo objeto. "O fato de compartilhar o foco de interesse com uma outra pessoa envolve uma representação do outro como dotado de interesse em relação a um objeto/evento" (...) "significando que a criança representa alguém como capaz de ter experiências internas e nesse caso específico ser interessado em algo. " (Roazzi y Dias, 1998)
Por fim, numa perspectiva bem diferente das referidas até agora, situa-se Lasnik-Penot (1991 e 1997) que se baseia na leitura que Lacan realizou da Psicanálise freudiana. Lacan concebe o chamado "estádio do espelho" como uma vivência decisiva para a constituição do psiquismo infantil. Utilizando a metáfora do espelho esse autor propõe que, nesse momento, estabelece-se um tipo de relação entre mãe e criança, de modo que esta se apreende através de sua imagem refletida por aquela e se reconhece nesse espelho (mãe ou outro adulto).
Ocorre então a constituição/delimitação da imagem do próprio corpo da criança, o que é crucial para o desenvolvimento das várias dimensões psíquicas, sendo fundamental, nesse processo, o funcionamento da língua (na concepção estruturalista lacaneana) através da fala da mãe. Os autores (dentre eles, Lasnik-Penot, op. cit.) propõem que alguns aspectos na relação mãe/filho podem interferir, nesse momento, colocando um obstáculo para a formação da imagem na criança e comprometendo, desse modo, a constituição de sua linguagem, ou melhor de seu psiquismo como um todo, como no caso do autismo.
Como se pode ver, a polêmica esboçada nestas reflexões iniciais aponta para o desafio de se confrontar com o "enigma da criança autista".
Confronto que já demandou um investimento grande por parte daqueles que se sentiram desafiados.
Entretanto, está apenas no seu começo a tentativa de trilhar o caminho de decifração do enigma:
Um enigma que envolve a singularidade dessa criança de rosto inteligente, aparência física normal e capacidade mnemônica, muitas vezes, notável !
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Fonte: www.proext.ufpe.br