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Bacuri

ASPECTOS BOTÂNICOS, ORIGEM E DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA DO BACURIZEIRO

1. NOMES VERNACULARES

O bacurizeiro, nas áreas de ocorrência natural, recebe diferentes denominações comuns. Loureiro et al. (1979) compilou 28 sinonímias populares.

Essa multiplicidade de nomes comuns indica que não se trata de uma espécie muito abundante ou de importância econômica reconhecida em todos os locais onde ocorre de forma espontânea (Marchiori, 1995).

A propósito, nas áreas de ocorrência natural da espécie, o extrativismo dos frutos e secundariamente da madeira só tem alguma importância econômica no Pará,Maranhão e Piauí. Nesses estados,o nome de uso mais corrente é bacuri, palavra de origem tupi que significa “o que cai logo que amadurece” (Fonseca, 1954), em alusão ao fato de que o fruto é normalmente coletado, não colhido, em decorrência do porte elevado das plantas e, de certa forma, por ser difícil a identificação do ponto de maturação adequado para a colheita.

Três outras espécies da mesma família do bacurizeiro (Symphonia globulifera L., Moronobea pulchra Ducke e Moronobea coccinea Aubl.), uma Sapotaceae (Ecclinusa bacuri Aubrév. & Pellegr.) e, ainda, uma Arecaceae (Attalea phalerata Mart. ex. Spreng), são também conhecidas na Amazônia como bacuri (Maineri & Loureiro, 1964; Lorenzi et al., 1996). Ressalta-se, porém, que todas elas recebem outras denominações comuns de uso mais generalizado na região, sendo a denominação de bacuri usada, nas quatro primeiras espécies, em decorrência da semelhança de suas madeiras com a do bacurizeiro. Em relação à Arecaceae, a denominação é uma variação do nome comum acuri, pelo qual é mais conhecida tanto na Amazônia como no Pantanal Mato-Grossense.

Outras denominações, de uso mais restrito na Amazônia Brasileira, tais como bacuri-grande e bacuri-açu, enfatizam o tamanho do fruto (o maior dentro das diferentes espécies amazônicas da família Clusiaceae, conhecidas como bacuri). Para ilustrar, o sufixo “açu”, na linguagem indígena, significa grande.

No Suriname, é de uso mais generalizado a denominação pakoeli. Na Guiana Francesa é denominado de parcouri, parcori e manil; na Guiana é conhecido como pakuri, pakoori, pakoeli, geelhart, ger’ati, makasoe, mongomataaki e wild mammee apple.No Equador, recebe a denominação única de matazama. Na língua inglesa é mais comumente grafado como bakuri (Record & Mell, 1924; Loureiro et al., 1979;Roosmalen,1985;Cavalcante,1996).

2.TAXONOMIA

O bacurizeiro pertence à família Clusiaceae, subfamília Clusioideae e ao gênero Platonia, que é monotipo. A família botânica Clusiaceae engloba aproximadamente 1000 espécies subordinadas a 47 gêneros, dispersos em regiões tropicais e subtropicais do mundo (Barroso et al., 2002, 1978; Brummit, 1992; Cronquist, 1981), e um gênero que alcança as regiões temperadas (Joly, 1993). Em nove desses gêneros, cerca de 90 espécies são de plantas cujos frutos são comestíveis (Yaacob & Tindall, 1995).

No Brasil, essa família está representada por cerca de 20 gêneros e 183 espécies, distribuídas nas diferentes regiões do País (Barroso, 2002). Na Amazônia, a família é representada por aproximados 17 gêneros e número de espécies superior a 50.

Entre as espécies frutíferas nativas da Amazônia Brasileira, são encontrados cinco representantes dessa família, sendo a mais importante, do ponto de vista econômico, o bacurizeiro (Platonia insignis Mart.).As outras pertencem ao gênero Rheedia e são conhecidas como bacuri-mirim (R. gardneriana Miers. ex. Pl. et.Tr.), bacuripari liso (R.brasiliensis (Mart.) Pl.et.Tr.), bacurizinho (R. acuminata (R. et. P.) Pl. et. Tr.) e bacuripari (R. macrophylla (Mart.) Pl. et. Tr.), todas de porte e frutos bem menores, e de qualidade inferior, que o bacurizeiro (Platonia insignis Mart.). Além disso, essas espécies levam, na terminologia vulgar, alusão à espécie mais conhecida.

O bacurizeiro foi primeiramente descrito pelo botânico brasileiro Manuel Arruda da Câmara, em 1816, que o enquadrou no táxon genérico Moronobea e o denominou de Moronobea esculenta Arruda da Câmara.Em 1832, o botânico alemão Karl Friedrich Phillip von Martius, reconhecendo a impropriedade da inclusão do bacurizeiro no gênero Moronobea, criou o gênero Platonia e o denominou de Platonia insignis Mart. Essa designação, de uso generalizado no Brasil, pois é como a espécie está grafada na Flora Brasiliensis (Engler, 1888), foi considerada como ilegítima, em meados do Século XX, pelos botânicos H.W. Rickett e F. A. Stafleu, pelo não-reconhecimento do epíteto específico básico, que deve ser respeitado por direito de propriedade quando uma espécie é transferida para outro táxon genérico, conforme assinala Fernandes (1996).

Diante desse fato, Rickett & Stafleu (1959) propuseram uma nova combinação – Platonia esculenta (Arruda da Câmara) Rickett et Stafleu –, reconhecendo, nesse caso, o basônimo. No entanto, essa nova combinação, desde a sua proposição, foi de uso bastante limitado,pois persistia a dúvida se o tipo descrito por Manuel Arruda da Câmara correspondia, efetivamente, a Platonia insignis Mart. A dúvida era decorrente do fato de que algumas características descritas para Platonia esculenta (Arruda da Câmara) divergiam completamente de Platonia insignis Mart.

Recentemente, Rijckevorsel (2002), após análise criteriosa e detalhada das monografias publicadas sobre o bacurizeiro no Século XIX, concluiu pela validade do nome Platonia insignis Mart. Essa conclusão foi baseada no fato de que o nome Moronobea esculenta está associado a uma publicação duvidosa, com descrição precária, sem diagnose e com somente uma ilustração servindo como tipo, enquanto que o nome Platonia insignis está suportado por descrição e diagnose precisas, com ilustrações e bom material de herbário.

O nome genérico Platonia é uma homenagem ao filósofo grego Platão (Barroso, 2002). O epíteto específico insignis significa notável, insigne, importante, grande, aquele que chama a atenção (Rizzini & Rizzini, 1983; Ferreira, 1998), isso em alusão ao porte e à utilidade da planta, e também ao tamanho, sabor e aroma do fruto.

3. CENTRO DE ORIGEM

Na concepção de Huber (1904), não existem dúvidas sobre a origem amazônica do bacurizeiro, assinalando, ainda, que no início do Século XX era encontrado tanto na margem esquerda quanto na margem direita do Rio Pará, e abundante na costa sudeste da Ilha de Marajó, onde se constituiu em árvore característica das matas marginais e dos tesos e campos altos.

Cavalcante (1996) postula origem paraense pelo fato de que, em toda a Amazônia, a área de maior concentração da espécie localiza-se no estuário do Rio Amazonas, com ocorrência mais acentuada na microrregião Salgado e na Ilha de Marajó, principalmente na microrregião Arari.

Na mesorregião Nordeste Paraense, que engloba as microrregiões Salgado, Bragantina, Cametá, Tomé-Açu e Guamá, consideráveis fragmentos de floresta secundária são do tipo oligárquico, tendo como espécie dominante o bacurizeiro. Nessas microrregiões, em particular nas três primeiras, o bacurizeiro prolifera em multiplicidade de tipos que se distinguem entre si pela coloração das flores, tamanho, cor e formato do fruto; espessura da casca, tamanho das sementes, número de sementes por fruto e rendimentos porcentuais de casca, polpa e sementes, entre outras características.

Na microrregião Arari, na Ilha de Marajó, a espécie ocorre predominantemente em áreas abertas e mais raramente em floresta primária.

O caráter oligárquico desses fragmentos de floresta é determinado pela notável capacidade de regeneração natural do bacurizeiro, que se processa tanto por sementes e, principalmente, por brotações oriundas de raízes de plantas adultas, mesmo após a derrubada da planta-mãe. Essa característica da espécie permite a transformação de fragmentos de floresta secundária em pomares homogêneos de bacurizeiro (Figura abaixo). Essa prática vem sendo efetuada, empiricamente, ao longo dos tempos, por agricultores extrativistas, e consiste na remoção da vegetação concorrente e na redução do número de bacurizeiros por hectare.

Em ecossistemas de vegetação primária, o bacurizeiro ocorre em agrupamentos de cinco a sete plantas. Porém, quando se considera toda a área de ocorrência, a densidade de bacurizeiros por hectare é muito baixa (bastante inferior a um indivíduo por hectare), a exemplo do que ocorre com a maioria das espécies arbóreas da floresta amazônica.

Considerando-se os dez centros de diversidade genética, propostos por Giacometti (1993) para as espécies frutíferas nativas do Brasil, o bacurizeiro é originário do Centro 2, que corresponde à Costa Atlântica e ao Baixo Amazonas. Essa área envolve o delta do Rio Orinoco, na Venezuela, e se estende do Oiapoque, no Amapá, aos limites leste da Amazônia no Maranhão, incluindo a Ilha de Marajó, e oeste do Rio Tapajós (latitude entre 5° N e 4° S e longitude entre 45° W e 55° W).

Bacuri

Área de vegetação secundária no município de Maracanã, transformada em pomar de bacurizeiro.

4. DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA

Do Estado do Pará, o bacurizeiro se dispersou em direção ao Nordeste do Brasil, alcançando os cerrados e os chapadões dos estados do Maranhão e do Piauí, onde forma povoamentos densos em áreas de vegetação secundária. Na direção sul, a dispersão atingiu os estados do Tocantins e do Mato Grosso, chegando a romper as fronteiras do Brasil ao atingir o Paraguai (Cavalcante, 1996).

Na distribuição geográfica do bacurizeiro, proposta por Cavalcante (1996), alguns pontos merecem consideração especial, como a presença da espécie no Paraguai e a não-consideração de áreas em locais em que não é encontrado em estado nativo.

Estudos efetuados por Müller et al. (2000), conforme consta das cartas elaboradas pelo Projeto RADAMBRASIL, em herbários, em levantamentos florísticos e em inventários florestais, indicaram dispersão bem mais ampla na Amazônia Brasileira, chegando a atingir os estados de Roraima e Acre, e não tão expressiva no Estado do Amazonas. Nesses locais, o bacurizeiro é encontrado em ecossistemas de floresta primária, com densidade muito inferior a um indivíduo por hectare, o que é comum quando a espécie ocorre nessa situação.

Segundo Müller et al. (2000), o bacurizeiro, no Estado do Pará, predomina na mesorregião Nordeste Paraense com grande freqüência e abundância nas microrregiões Salgado,Bragantina e Cametá; e com menor freqüência e abundância nas microrregiões Tomé-açu e Guamá. Na mesorregião Marajó, só é encontrado na microrregião Arari. Na primeira mesorregião citada, é encontrado formando populações densas em alguns sítios com número de indivíduos adultos por hectare superior a 400. Na segunda, embora ocorrendo em abundância, as plantas encontram-se mais dispersas, com densidade de 50 a 70 indivíduos adultos por hectare.

A dispersão natural, na Amazônia brasileira, atingiu os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Roraima e Tocantins. Nos quatro primeiros estados, a ocorrência é sempre em áreas de floresta primária e com reduzido número de indivíduos por hectare, enquanto no Estado do Tocantins é encontrado tanto em áreas de floresta primária como de floresta secundária.

Nesse último caso, ocorre em aglomerados, particularmente nos municípios de Araguatins, Cachoeirinha, Darcinópolis, Luzinópolis, Maurilândia, Palmeiras do Tocantins e Tocantinópolis, todos no norte do Estado.

Conquanto não haja registros de ocorrência da espécie em Rondônia, é provável que a dispersão também tenha atingido esse Estado, pois não existem barreiras físicas, climáticas e edáficas que impossibilitem a presença da espécie na localidade. Além disso, Rondônia limita-se ao norte com o Estado do Amazonas, ao leste com o Mato Grosso e ao oeste e ao sul com a Bolívia, locais em que a espécie já foi assinalada em estado espontâneo.

Na direção da Região Nordeste do Brasil, a dispersão alcançou os estados do Maranhão e do Piauí. No primeiro estado, ocorre em áreas limítrofes com o Tocantins e o Pará, acompanhando, respectivamente, os cursos dos rios Tocantins e Gurupi. É abundante no município de Carutapera, onde, em algumas áreas, é possível encontrar número superior a 200 indivíduos adultos por hectare. Também é encontrado em São Luís do Maranhão e na região mais ao leste desse estado, sobretudo nos municípios Mirador, Matões, Timon, Caxias, Aldeias Altas e Coelho Neto, entre outros. No Piauí, a distribuição da espécie está limitada s microrregiões do Baixo Parnaíba Piauiense,Campo Maior,Teresina, Médio Parnaíba Piauiense, Valença do Piauí e Floriano, concentrando-se, segundo Souza et al. (2000), em área delimitada ao norte pelo município de Buriti dos Portelas (3°19' de latitude Sul); ao sul, pelo município de Amarante (6°15' de latitude Sul); e a leste e a oeste pelos municípios de Barras (42°18' de longitude Oeste) e Palmeirais (43°4' de longitude Oeste), respectivamente.

Em muitos locais de ocorrência espontânea do bacurizeiro, no Piauí e, em especial, no Maranhão, são encontradas outras espécies da Hiléia Amazônica (Cecropia, Cedrela, Copaifera, Dipteryx, Genipa, Lecythis, Parkia e Schizolobium).

No Estado do Ceará, na serra da Ibiapaba, são encontrados alguns exemplares isolados em chácaras e quintais. A presença da espécie nesse local, não obstante situar-se próximo de alguns municípios piauienses, onde o surgimento do bacurizeiro é espontâneo, não se trata de produto de dispersão natural, mas de introduções efetuadas por cearenses que durante o ciclo da borracha dirigiram-se para a Amazônia e, ao retornarem, trouxeram consigo sementes e mudas de algumas espécies da Amazônia.

O relato tem fundamento no fato de que os bacurizeiros presentes nessa área são bastante raros e encontrados em áreas com forte ação antrópica, convivendo com outras espécies nativas da Amazônia brasileira como o açaizeiro (Euterpe oleracea Mart.), o cacaueiro (Theobroma cacao L.), a pupunheira (Bactris gasipaes Kunth) e a seringueira (Hevea brasiliensises Muell. Arg.), além de espécies de outros continentes cultivadas na Amazônia (Piper nigrum L., conhecida como pimenteira-do-reino).

Os exemplares presentes em Pernambuco também são produtos de introduções efetuadas por nordestinos durante o ciclo da borracha, tese diferente ao que afirmam Guimarães et al. (1993), que incluem esse estado na área de ocorrência natural da espécie.

A ocorrência espontânea fora do território brasileiro é registrada no Suriname (Roosmalem, 1985), Guiana (Steege & Persaud, 1993), Guiana Francesa (Fouque, 1989) e, de forma mais rara, na Amazônia Peruana, Equatoriana, Colombiana (Brako & Zaruchi, 1993; Villachica et al.,1996) e Venezuelana (Kearns et al., 1998). Em todos esses países, a espécie ocorre de forma rara e sempre em áreas de floresta primária, não tendo expressão econômica frutífera ou madeireira.

Com relação à ocorrência no Paraguai, não há registros que comprovem sua presença nesse país, seja em estado nativo, seja cultivado, podendo-se admitir que, na direção sul, a dispersão atingiu somente o Estado do Mato Grosso, com a localização de diminuto número de indivíduos nas margens do rio Guaporé, conforme constatou Macedo (1995). Há também o registro em herbário de coleta de material botânico no município de Poconé.

José Edmar Urano de Carvalho

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Fonte: www.iica.int

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