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Fitoterapia

Fitoterapia (PLANTAS MEDICINAIS - ERVAS).

A tradição do uso de plantas medicinais vem de milhares de anos e só nas últimas décadas começou a ser substituída pela Medicina Alopática moderna. Uma grande parte da população mundial, ainda hoje, utiliza as ervas como principal forma de medicação.

A maior parte do conhecimento sobre os fitoterápicos é decorrente da utilização médica. A Ciência tem tentado mostrar a eficácia destes produtos, mas o fato de não poderem ser patenteados, por serem substâncias naturais, os torna desinteressantes para estudos científicos, economicamente inviáveis e de utilização restrita. Entretanto, estas dificuldades não diminuem os méritos destas substâncias. Muitos medicamentos modernos são derivados de plantas. A Aspirina, por exemplo, é baseada no ácido salicílico, que é encontrado na casca do salgueiro. A cáscara sagrada, que é a casca de uma árvore, é muito utilizada por suas propriedades laxativas.

O uso das ervas medicinais nos problemas de Infertilidade é muito antigo. Um caso clássico, encontrado na Bíblia, é a história de Rachel e Leah. Rachel tentava engravidar por muitos anos e estava cada dia mais desesperada por não conseguir. Ela se lamentava com o marido – “Dê-me um filho, do contrário eu morrerei!”. Até que comeu mandrakes e acabou engravidando. As pessoas podem ou não acreditar neste evento, mas ele certamente ilustra a histórica reputação do poder das ervas na promoção da Fertilidade.

Recomenda-se que casais, que pretendem fazer um tratamento natural para a fertilização, iniciem, antes de tomar a medicação recomendada, uma dieta alimentar saudável e depurativa para a eliminação das toxinas do organismo.

A característica de muitas plantas conterem componentes químicos farmacológicos, capazes de agir no organismo humano, é incontestável. Por isso, alguns países, através de sua legislação, vêm limitando o uso somente para a prescrição médica.

A Fitoterapia é uma ótima opção de tratamento complementar, mas deve ser receitada por profissionais que tenham experiência na sua utilização. O fato de serem produtos naturais não os isenta de causarem efeitos colaterais indesejados.

A seguir, são colocados exemplos de fitoterápicos que podem auxiliar nos tratamentos da Infertilidade.

1. Dong Quai

Esta erva, comumente chamada de “rainha” das ervas femininas, tem sido usada há milhares de anos por mulheres chinesas, a fim de nutrir e equilibrar o Sistema Reprodutor. Vem da raiz da planta “angelica sinensis” e cresce em algumas províncias chinesas. Seu nome significa “obrigada a voltar”, o que quer dizer a volta das funções normais do organismo feminino. Mulheres chinesas utilizam esta erva para regular o ciclo menstrual, pois se considera que atua na corrente sangüínea, dissolvendo coágulos, o que aliviaria as cólicas menstruais. Também alivia os sintomas da menopausa.

Ciência moderna verificou que a Dong Quai é rica em vitamina A, vitamina B12, Ácido Folínico, Biotina, Cobalto e Ferro. Por esta e outras razões, acredita-se em seu poder de nutrir as glândulas femininas. Os chineses dizem ser necessário o uso regular da erva por, no mínimo, três meses, para que seus efeitos ocorram. É excelente para o equilíbrio geral do organismo, mais especificamente para o Aparelho Reprodutor da mulher. Porém, não deve ser administrada no estágio inicial da gravidez.

2. Framboesa Vermelha (Red Raspberry)

As folhas da framboesa vermelha também são muito utilizadas pelas mulheres. É uma erva rica em ferro, por isso é muito recomendada para gestantes. Também tem sido usada para desordens menstruais, com bastante sucesso. Embora a framboesa vermelha não tenha ação direta na Fertilidade, as mulheres a utilizam principalmente para nutrir e fortalecer o Sistema Reprodutor. Suas folhas contêm grande quantidade de vitamina C, vitamina A, vitamina D, vitamina E, complexo B, Ferro,
Fósforo, Manganês e Cálcio.

3. Black Cohosh (Cimicifuga Racemosa)

É tradicionalmente usada para equilíbrio hormonal e problemas femininos, como cólica e irregularidade menstrual. Esta erva deve ser usada em pequenas quantidades. Seus ativos farmacológicos estão na raiz e apresentam efeitos estrogênicos, sendo indicados para regular a atividade hormonal no climatério, diminuindo os sintomas característicos desse período, como calor e transpiração excessivos. Deve ser consumida em pequenas quantidades e é contra-indicada na gravidez.

4. Alfafa

A alfafa cresce abundantemente na selva e é cultivada para servir de comida aos animais. É conhecida como uma erva para a nutrição em geral, rica em minerais necessários ao Sistema Glandular. A raiz da alfafa cresce profundamente, absorvendo minerais que não são disponíveis na superfície do solo. Contém grande quantidade de beta-caroteno – o precursor da vitamina A. Ajuda a purificar o sangue, em parte devido à sua alta concentração de clorofila. Comer alfafa pode suprir a carência de alguns nutrientes que podem estar faltando em uma dieta.

5. Kelp

Como a alfafa, o Kelp é rico em minerais. As duas ervas são normalmente usadas juntas em fórmulas para nutrição das glândulas. Esta erva é nativa da costa do Pacífico. Alguns fitoterapeutas a usam para purificar o sangue. Contém quantidade significativa de iodo, cálcio e potássio. Pela presença do iodo, é utilizada para pacientes com Hipotireoidismo Subclínico, uma causa importante de abortamento e
Infertilidade.

6. False Unicorn

Fitoterapeutas utilizam esta erva para tonificar o útero, como diurético e para cólicas menstruais. Historicamente, era recomendada para dores nos ovários e disfunções ovarianas. A raiz da planta é a parte utilizada. De todas as ervas, a False Unicorn tem uma das mais fortes reputações em promover a fertilidade. Embora não tenha sido cientificamente comprovado, existem vários indícios de aumento na taxa de gestação com a sua utilização. Dr. Christofer, um famoso fitoterapeuta, prescreve a False Unicorn para casais que estão tentando engravidar e relata alta taxa de sucesso.

7. Damiana

A Damiana é um arbusto bastante aromático. Mulheres mexicanas usam-na para problemas “femininos”. Fitoterapeutas recomendam esta erva para aumentar a fertilidade de homens e mulheres e também para aumentar o desejo sexual. Seu nome latino é Turnera Aphrodisiaca.

8. Yam (Dioscera Villosa)

Há muito tempo acredita-se no poder do Yam para aumentar a fertilidade, mas só recentemente a Ciência está encontrando evidências deste fato. Esta erva contém fitoestrogênios, que são semelhantes ao estrogênio natural da mulher. Algumas vezes, o Yam é utilizado como matéria-prima para fazer contraceptivos. Seus componentes ativam a liberação de FSH, que estimula o crescimento dos óvulos. Nestes casos, pessoas que ingerem muito Yam parecem ter maior chance de formar mais de um óvulo no mês, aumentando a incidência de gêmeos. Para casais inférteis, a erva parece aumentar a chance de gravidez. Também é usada na menopausa, para a TPM e distúrbios testiculares.
Não é recomendada a ingestão da planta fresca, por causar náuseas e vômitos.

9. Blessed Thistle

Esta erva é nativa da Ásia e Mediterrâneo. Seu nome vem de anos atrás, quando acreditava - se que esta planta curava tudo. Blessed Thistle é usada em várias combinações de fórmulas para o equilíbrio hormonal e problemas menstruais. Embora não tenha indicação específica para Infertilidade, pode ajudar em outros problemas da saúde feminina.

10. Liquid Chlorophill

A Clorofila é o pigmento verde encontrado nas plantas. Tem a reputação de regular ciclos menstruais, ajudar na limpeza do fígado, produzir células sangüíneas, entre outros benefícios. É um excelente suplemento para programas de dietas saudáveis, recomendadas para “limpar” o organismo. O líquido de clorofila pode ser encontrado nas lojas de produtos naturais e vem da alfafa.

11. Siberian Ginseng

Várias formas de Ginseng crescem ao redor do mundo – Ginseng Americano, Ginseng Coreano e Ginseng Siberiano. A maioria das propriedades pró-saúde do Ginseg Siberiano foi verificada cientificamente. É mundialmente utilizado como tonificante. Alguns acreditam ser afrodisíaco, aumentando e melhorando o desempenho sexual do homem. Também pode ser usado por mulheres, para ajudar a equilibrar o Sistema Glandular. Estudos em animais mostraram que o Ginseng tem efeito no Aparelho Reprodutor. De acordo com artigos do Nutrition News, estudos chineses revelaram que, na mulher, o Ginseng afeta a produção de LH, influenciando no ciclo menstrual e, nos homens, pode estimular a produção de Testosterona.

12. Salsaparilla

Salsaparilla é uma planta tropical. Sua raiz amarga é usada na Fitoterapia. É bastante utilizada como agente espumante para dar sabor, por exemplo, à cerveja. É considerada tonificante, tanto para homens quanto para mulheres. Dr. Aval Rohrmon e Professor Russel E. Marker afirmam que esta planta contem Testosterona e Progesterona. Entretanto, estes dados não foram comprovados. Um pesquisador holandês conseguiu sintetizar Testosterona a partir da Salsaparilla. Foi cientificamente provado que a planta contém duas substâncias (Salsapogenina e Smilageneno), que são utilizadas na produção de hormônios esteróides. Assim, sua reputação como tonificante masculino e feminino parece ter fundamento.

13. Saw Palmetto (Serenoa Repens)

Nativo das regiões costeiras da Flórida e do Texas, o Saw Palmetto tem uma longa história de uso, como alimento, pelos índios nativos da região. A parte da planta mais usada, em Fitoterapia, são as bagas. Estudo com Saw Palmetto mostrou que é capaz de diminuir os sintomas de homens com Hiperplasia Benigna da Próstata (condição onde a próstata cresce e causa dificuldade para urinar). Porém, consumidores não devem se auto-medicar. Parece que esta planta tem efeitos positivos sobre a função prostática, além de conter componentes estrogênicos. Tradicionalmente, esta erva é utilizada como tonificante masculino, afrodisíaco e para o melhor funcionamento das glândulas.

14. Bee Polen

O Bee Pólen não é uma erva e é produzido pela parte masculina das flores. As abelhas carregam o pólen de flor para flor e também para a colméia, onde utilizam-no como comida. Os Hunzas, que vivem nas montanhas do Himalaia, e os caucaseanos da Rússia (ambos conhecidos por sua saúde e longevidade) comem quantidades acima da média de Bee Pólen e mel natural. Vários atletas consomem o Bee Pólen como produto energético. Até mesmo Ronald Reagan, ex-presidente dos EUA, revelou usar o Bee Pólen para aumentar sua disposição. É considerado um alimento completo, por conter todas as vitaminas e minerais necessários à sobrevivência. Também contém dez aminoácidos essenciais, necessários à formação das proteínas, bem como enzimas e coenzimas. Dentre os vários benefícios, o Bee Pólen age no equilíbrio glandular, aumentando a fertilidade em alguns casos. De acordo com um estudo de Betty Karmen, 40 homens, com diminuição da contagem de espermatozóides e Infertilidade, usaram este produto e relataram melhora do estado de saúde em geral, bem como aumento na contagem de espermatozóides e melhor desempenho sexual. Em outro estudo, conduzido por Bogdan Tekavcic, M. D., chefe de um centro de Ginecologia da Iugoslávia, o Bee Pólen corrigiu problemas menstruais. Este produto não deve ser utilizado por pessoas que tenham alergia a plantas ou ao pólen. Por outro lado, sabe-se que seu uso pode melhorar a alergia a outras substâncias.

15. Pinus (Picnogenol)

É um complemento antioxidante de origem natural, com propriedades bioativas, encontrado na casca da árvore Pinus Pinaster. Tem efeitos positivos na qualidade dos espermatozóides e é um suplemento antioxidante potente, mais eficaz do que a vitamina C e a vitamina E. Sua ação decorre da inativação dos Radicais Livres, sendo benéfico tanto à fertilidade masculina quanto à feminina. 16. Maca (Lepidium Peruvianun) Esta erva funciona de maneira diferente para homens e mulheres. Para elas aumenta a fertilidade e atenua os sintomas da menopausa. Nos homens, essa planta combate a dificuldade que eles podem experimentar em manter o mesmo desempenho sexual com o avançar da idade, pois ela aumenta a espermogênese e a potência sexual. A Maca também é considerada energética e restauradora física. É contra-indicada para pessoas com histórico de câncer relacionado a hormônios.

17. Tribullus Terrestris

É uma planta indiana de uso comum nas disfunções sexuais. Pode ser utilizada no tratamento da Infertilidade em mulheres, impotência nos homens e da libido diminuída em ambos os sexos. Pesquisas confirmaram que essa erva aumenta os níveis de testosterona, porque aumenta os níveis sangüíneos de LH, um hormônio importante na regulação da testosterona. Nas mulheres exerce um efeito de estimulação da ovulação e atenua manifestações da menopausa; nos homens, prolonga a duração da ereção e pode estimular a espermogênese.

Fonte: www.fertilidadenatural.com.br

Fitoterapia

AS MULHERES AGRICULTORAS FAMILIARES E AS PLANTAS MEDICINAIS

APRESENTAÇÃO

Essa breve reflexão tem por finalidade resgatar a história das relações entre as mulheres e as plantas medicinais e salientar a importância da fitoterapia enquanto política pública de saúde. Com isso, queremos contribuir na luta das mulheres agricultoras familiares, reforçando a importância da mulher na história.

As mulheres que foram sábias conhecedoras das plantas medicinais, defensoras da vida, enfrentaram a força masculina, a fogueira, a condenação e o medo. Mas, hoje, de cabeças erguidas e sonhos na alma, vão trilhando a história como mães deste novo raiar. Com o resgate do saber tradicional e popular, com a organização dos Coletivos de Gênero, com políticas mais justas, a exemplo da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, será possível garantir mais qualidade de vida, renda e soberania nacional.

1. A HISTÓRIA

A Mãe-Natureza nos deu um presente: as plantas medicinais.

A relação entre a humanidade e as plantas medicinais é tão antiga quanto nossa própria existência. As plantas medicinais são um presente da natureza ao ser humano. Mulheres e homens, ao surgirem na Terra, já encontraram as plantas medicinais à disposição para alimentar, proteger e curar as enfermidades.

O conhecimento sobre as plantas acompanhou a evolução do ser humano. O registro desta história é de aproximadamente 10 mil anos antes de Cristo.1 As primitivas civilizações perceberam, desde cedo, a existência de plantas comestíveis e de outras, não-comestíveis, dotadas de poderes que, ao serem consumidas, produziam sensações agradáveis e aliviavam as dores.

Os segredos sobre as plantas foi sendo transmitido oralmente de geração em geração. Os primeiros escritos sobre o uso das plantas data de 3000 a.C 2. Nesta época, foram registrados em papiros, no Egito antigo, o uso de cerca de quinhentas plantas medicinais, entre elas, menta, alecrim, camomila, absinto, babosa, tomilho e plantas da família Solanacea3, usadas até nossos dias. Vale lembrar que, mesmo com todos os registros e publicações, muitos conhecimentos, ainda hoje, são transmitidos oralmente de culturas para culturas, de mães para filhas.

Mil anos a.C, no vale do Tigre e Eufrates (onde hoje estão o Irã e o Iraque), o “Estado” organiza o primeiro estudo oficial de medicina. Percebe-se que já neste período, há uma disputa sobre o domínio do saber. O conhecimento das plantas passa para o controle dos sacerdotes e dos reis. As descobertas sobre as plantas e as doenças são organizadas em forma de um Tratado. Com isso, muitas mulheres e homens do povo perdem a autoridade no exercício do uso das plantas. Aqui, podemos dizer, inicia a burocratização e a hierarquização do conhecimento.

O conhecimento, no entanto, não se aprisiona por muito tempo. Na Grécia e Roma Antiga, há uma volta do conhecimento para as mãos do povo. A medicina torna-se de domínio dos cidadãos em geral, não mais dos sacerdotes. Em 600 a.C., o governo de Atenas decreta que "todo cidadão tem direito a cuidados médicos gratuitos, pagos pelo Estado", um tipo de INSS. Essa política era custeada por um imposto real chamado "Iatricon".

Mais tarde o poder curativo das plantas medicinais é reconhecido por Hipócrates, considerado o pai da medicina. As descobertas das plantas transformam-se em estudos medicinais científicos. Foram sendo aprimorados métodos mais eficientes de coletas, armazenamentos e a extração dos sulcos das plantas. Os estudos avançaram muito neste período. Agora, as plantas deixam de ser apenas um presente da natureza a passam a ter valor de troca e mercado. Deixam de ser apenas para o combate de doenças e passam a atender outras necessidades. Como exemplo, os extratos alcoólicos que resultaram no vinho ou nos destilados (como a vodka e gim), bebidas conhecidas como dos deuses e que, por muitos séculos, somente os sacerdotes, os reis e as grandes cortes podiam se deliciar.

2. AS PLANTAS E AS MULHERES

2.1. As descobertas

As mulheres estão intimamente ligadas às plantas. Ambas, mulheres e plantas, guardam a seiva da existência, o germe da continuidade, o segredo da vida. As mulheres descobriram que as plantas serviam não só para o alimento. Perceberam que as plantas eram suas grandes aliadas na sobrevivência, na constituição do poder, na organização de seu grupo, na defesa dos mais fracos, na atração, encanto e domínio de seu parceiro.

Na Idade de Pedra, o ser humano já vivia em cavernas comunitárias e caçava para se alimentar. Enquanto os homens saíam em bando para caçar, as mulheres não ficavam sentadas ao redor do fogo aguardando o retorno dos machos, como muitos estudiosos acreditavam. Elas eram responsáveis pela alimentação básica da tribo que havia ficado na caverna. Os homens saíam à caça e não raro muitos deles não voltavam, pois eram devorados pelos animais ferozes e, muitas vezes, voltavam de mãos vazias. Então, cabia às mulheres a coleta de raízes, tubérculos e vegetais, formando a base da alimentação. Elas cuidavam dos velhos, dos doentes, das crianças, precisavam estar atentas aos predadores e outras ameaças, aprenderam a domesticar animais, pariam e ainda ajudam outras a parir.

As mulheres começaram a perceber que as sementes caídas dos frutos consumidos podiam brotar. Elas mesmas começaram a enterrar as sementes e cuidar das plantas como se fossem sua própria cria. Perceberam que podiam tirar da terra uma planta já adulta e enterrar em outro lugar sem que a mesma morresse. As mulheres foram organizando em torno de suas cavernas uma espécie de horta comunitária. Já não precisavam mais ir tão longe em busca daquelas plantas. Aos poucos foram descobrindo essa “coisa” moderna conhecida como agricultura.

2.2.As Bruxas

"Não acredito em bruxas, mas que elas existem, disso não tenho dúvida"

As mulheres, por constituírem e organizarem um espaço, uma rotina de observação e descobertas, aprenderam os segredos da natureza. Descobriram que as ervas são diferentes: ora amargas, azedas, doces ou ainda uma mistura delas. Aprenderam que cada planta reage diferente diante da luz, da chuva, do frio, do calor, assim como elas próprias quando estão em diferentes situações. As mulheres aprenderam a respeitar e conhecer os poderes da Mãe-Natureza, olhando, cheirando, tocando, experimentando as variações das plantas, seus frutos e suas cores.

Ligadas, assim, pela divina curiosidade de fêmea, as mulheres vão tornando-se possuidoras de uma sabedoria própria, um saber curativo, que as permite identificar as ervas, misturá-las e, na quantidade certa, beber e dar de beber a quem precisa. Desta forma, nascem as bruxas6! Mulheres sábias, que conheciam as ervas medicinais para a cura das enfermidades, também eram aptas para realizar partos e preparar as poções curativas. Estas mulheres eram dotadas de um poder espiritual, transmitidos de mãe para filha, e isso passou a incomodar o poder religioso.

Com o surgimento do cristianismo, as mulheres, sobretudo as bruxas, foram colocadas à margem. A elas coube o silêncio e a obediência às leis que lhes eram impostas. A elas coube o acato às ordens dos sacerdotes, dos reis, dos maridos e de um deus do sexo masculino.

“No final do século XV, o papa Inocêncio VIII declarou a bruxaria um pecado mortal. Em 1486, dois frades dominicanos editaram o Malleus Maleficarum, ou Caça às Bruxas, manual utilizado nos dois séculos e meio que se seguiram. Cerca de 9 milhões de pessoas, em sua maioria mulheres, foram torturadas e condenadas à morte - em fogueiras ou enforcamento. Estava aberta a temporada de caça às parteiras, as mulheres herboristas (conhecedoras de plantas medicinais), das velhas, viúvas e solteironas. Na diocese de Trier, na Alemanha, após os julgamentos de 1585, duas aldeias foram deixadas com uma única mulher em cada (...)”7.

As mulheres não curvaram suas cabeças diante da forca, do fogo ou do medo. Apenas recuaram um pouco, para seguirem mais fortes. As mulheres, cada vez mais, compreendem sua ligação com a Natureza, já que elas próprias são como a natureza. As mulheres seguem acreditando na força divina que carregam dentro de si, mais sábias, mais fortes, mais bruxas.

Hoje a mulher está mais madura, mais poderosa, possui mais coragem, está mais bonita e mais preparada para acolher os ensinamentos da Mãe-Natureza, a fim de partilhar com quem for preciso, pois quando se pensa nos carentes da humanidade, são os valores femininos de proteção, compaixão que são evocados.

3. FITOTERAPIA E AS POLÍTICAS PÚBLICAS DE SAÚDE

3. Plantas medicinas: a nossa maior riqueza

As plantas medicinais são um patrimônio cultural incalculável. Elas representam um recurso muito importante para nossa saúde e a continuidade de nossa espécie no Planeta. O Brasil é o país que detém a maior parcela de biodiversidade, em torno de 15 a 20% do total mundial de toda a flora planetária. Embora o nosso País possua a maior diversidade vegetal do mundo, com cerca de 60.000 espécies de vegetais superiores catalogadas, apenas 8% foram estudadas para pesquisas de compostos bioativos e 1.100 espécies foram avaliadas em suas propriedades 8.

Nosso país possui vantagens no desenvolvimento da fitoterapia. Aqui temos biodiversidade, abundância, conhecimento popular e tradicional do uso das plantas, tecnologia para validar cientificamente este conhecimento, empresas competentes e recursos financeiros. Temos praticamente tudo para “que nossas façanhas sirvam de modelo a toda Terra”. Falta certamente uma política voltada a esse interesse nacional.

Outra política urgente é a proteção da nossa riqueza natural: o cuidado com a manutenção da biodiversidade. Segundo especialistas da Organização Mundial da Saúde, a cada hora uma espécie de planta desaparece do planeta. É muito importante que se implementem ações concretas antes que a humanidade perca esse manancial terapêutico que a natureza nos presenteou.

O Brasil vem sendo alvo de um processo de usurpação não só do conhecimento tradicional que grupos étnicos e comunidades tradicionais possuem, mas principalmente de plantas medicinais. A apropriação de nosso patrimônio, na forma de produtos patenteados, é um desrespeito à nação, um pecado grave contra nossa soberania. Multinacionais comprometidas apenas com o lucro e o mercado da doença e, mesmo muitas empresas brasileiras, estão fazendo um verdadeiro extermínio de espécies vegetais, antes de serem investigadas química e farmacologicamente. Sabemos, por exemplo, que a Monsanto9 está construindo o maior centro de pesquisas de plantas do mundo, baseada no conhecimento tradicional brasileiro e em nosso patrimônio ambiental.

Diante dessa situação, para fazer frente à grande pressão extrativista sobre as plantas medicinais, o IBAMA criou em 2001 o Núcleo de Plantas Medicinais e Aromáticas - Nuplam10. O Núcleo propõe conciliar pesquisa científica e conhecimento tradicional, valorizando o conhecimento e a partilha dos benefícios. Acreditamos que essa ação seja um caminho para a geração de renda, melhoria da qualidade de vida das populações extrativistas e a conservação de ecossistemas naturais. E preciso mais: vigilância, investimentos de recursos financeiros e humanos, educação, pesquisa científica voltada para o desenvolvimento de técnicas de cultivo e manejo. Essas iniciativas podem garantir a sustentabilidade econômica e ecológica do uso de plantas medicinais e aromáticas e a valorização dos conhecimentos e saberes populares.

3.2. O que é fitoterapia?

A palavra fitoterapia significa tratamento (terapia) através das plantas (phitos). É o tratamento à base de plantas medicinais. A fitoterapia é o cuidado do organismo através das plantas e ervas medicinais in natura, sem separar os princípios ativos. Podemos dizer também que a fitoterapia é a ciência que estuda a utilização dos produtos de origem vegetal com finalidade terapêutica, ou seja, para prevenir, atenuar ou curar doenças.

De acordo com a caracterização do Ministério da Saúde, “fitoterapia é uma terapêutica caracterizada pela utilização de plantas medicinais em suas diferentes formas farmacêuticas, sem a utilização de substâncias ativas isoladas, ainda que de origem vegetal, cuja abordagem incentiva o desenvolvimento comunitário, a solidariedade e a participação social”11.

Erroneamente, muitas pessoas chamam a fitoterapia de “terapia alternativa” ou de “medicina de pobre”. Como já referimos, essa terapia é um dos métodos mais antigos já utilizados pela medicina natural. A fitoterapia é muito mais do que o aferventar de uma erva, significa cultura milenar, sabedoria, conhecimento acumulado e partilhado de geração em geração; significa solidariedade com quem está precisando refazer as energias. É a união entre a fé, o saber popular e a pesquisa científica.

3.3. A fitoterapia e suas diferentes formas de uso popular

A fitoterapia é um método que nos permite utilizar as propriedades das plantas medicinais de diferentes formas. O importante é conhecer a planta e seus princípios ativos, isto é, saber para que serve. Reconhecer a planta medicinal como um organismo vivo, possuidora de substâncias bio-ativas, de propriedades terapêuticas e até mesmo tóxica, é fundamental antes de escolher a forma como a planta será preparada. O aproveitamento adequado das propriedades medicinais de uma planta depende, em grande parte, de seu preparo correto.

Veja as formas mais usadas no meio popular:

Chás12
Infusão: consiste simplesmente em despejar a água quente (não fervida) sobre a planta, deixando a mistura tampada por cerca de 10 minutos. Ideal para flores e folhas.
Decocção: a planta é fervida por algum tempo em recipiente tampado (não em alumínio). Depois, deixa-se descansar por mais alguns minutos. Esta forma é mais apropriada para raízes, cascas e sementes, que devem ser cortadas em pequenos pedaços ou esmagadas antes de serem utilizadas.

Compressas: molha-se panos em uma decocção forte, concentrada e aplica-se na região afetada.

Maceração: a planta é colocada de molho à temperatura ambiente, na água, vinagre ou álcool, num período de algumas horas até vários dias, de acordo com a qualidade da planta.

Tinturas: é a maceração das plantas a frio, colocadas no álcool de cereais por um período de aproximadamente 10 dias. Após a mistura é filtrada, obtendo-se a tintura.

Vinhos medicinais: são obtidos pela maceração das plantas em vinho tinto ou branco, por cerca de 10 dias, depois filtrado e conservado em lugar fresco.

Tisanas: termo genérico que designa soluções, macerações, infusões e decocções.

Cataplasmas: é empregado externamente. As ervas frescas podem ser aplicadas soltas diretamente sobre a pele ou sustentadas por uma gaze. Podem também ser esmagadas até ficarem em forma de pasta, colocada entre dois panos finos e aplicada sobre o local afetado, quente, morna ou fria.

Contusão: os sumos das plantas são obtidos espremendo-se as folhas das ervas através de um tecido fino de algodão, batendo-as no liquidificador ou amassando-as num pilão. São então coadas e diluídas em água e, caso necessário, adoçadas com mel.

Saladas: as ervas também podem ser comidas cruas em forma de saladas ou preparadas junto com os alimentos, como temperos. Porém muito cuidado deve ser tomado quanto a qualidade e limpeza das ervas. Lave-as bem com água corrente e depois deixe-as de molho por algum tempo em água, sal marinho e vinagre.

Banhos: algumas plantas podem ser acrescidas à água morna da banheira e o banho deve durar cerca de 20 minutos.

Lavagens: os chás podem também ser usados para lavagens intestinais, no caso de distúrbios digestivos e vaginais, por exemplo no caso de corrimentos.

Gargarejos e Inalações: Gargarejar algumas vezes ao dia com chá preparado por decocção. Este tratamento atua sobre a cavidade bucal e garganta. Para fazer inalações, prepare um chá forte de ervas, retire-o do fogo, coloque um funil de papelão invertido sobre o recipiente, cubra a cabeça com um pano e respire o ar evaporado.

3.4. Fitoterapia: o resgate do saber popular e a promoção da saúde

O resgate do saber popular é um processo dinâmico que parte do “saber do povo” para se chegar ao “saber técnico-ciêntífico”. O conhecimento tradicional de grupos sociais que fazem uso das plantas é a fonte essencial para a descoberta dos princípios ativos - substâncias capazes de exercer uma ação de cura-responsáveis no combate de doenças.

Na medida em que as mulheres verbalizam seus conhecimentos, exercitam o seu poder. É no exercício deste poder que a auto-estima é resgatada. Neste sentido, fortalecer e empoderar pessoas é promover saúde. Assim, o uso das plantas medicinais não deve ser encarado unicamente sob o olhar terapêutico, mas tão importantes quanto este são os aspectos comunitário, pedagógico e ambiental.

As plantas medicinais são o núcleo pedagógico de educação popular para a saúde e cidadania. Com ações desenvolvidas a partir das plantas é possível estabelecer o resgate da cultura, da auto-estima e do saber popular na promoção da vida. No último período vem surgindo um movimento de “volta às raízes” - um retorno à valorização da cultura popular, com redução do endeusamento dos produtos industrializados.

Quando o Brasil foi descoberto, a fitoterapia reinava praticamente sozinha, não havia vacinas nem medicamentos sintéticos. Somente no final do século XIX, com o surgimento da aspirina, os medicamentos alopáticos13 conquistaram o lugar dos tratamentos com a medicina natural.

Os laboratórios desenvolveram centenas de medicações, criaram a cultura do “tomar remédio” e um mercado da doença. Com isso, a medicina alopática estabeleceu a cultura do “cientificismo”, isto é, só valia o que era científico. A sabedoria popular foi sufocada, abrindo espaços para uma medicina fragmentada, individualizada, de alto valor monetário e descomprometida com o eco-sistema.

O retorno ao uso de produtos de origem vegetal na terapêutica foi favorecido pelos graves efeitos secundários dos remédios sintéticos e também pelo maior conhecimento químico, farmacológico e clínico das drogas vegetais e dos seus produtos derivados. As novas formas de preparo e administração dos medicamentos naturais têm garantido um melhor controle de qualidade, contribuindo para o desenvolvimento da fitoterapia. O interesse popular e institucional vem crescendo no sentido de fortalecer essa terapia no SUS, assim como o incentivo a pesquisas científicas de validação do uso medicinal destas espécies.

Felizmente, aos poucos, os movimentos sociais populares, a igreja (através da Pastoral da Saúde), as benzedeiras, o movimento de mulheres, as agentes de saúde, a Federação dos Trabalhadores da Agricultura Familiar (através dos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais) e os governos democráticos e populares, estão rompendo essa hegemonia. A prática libertadora e a luta em torno dos fitotarápicos vêm possibilitando a retomada do uso das plantas medicinais por mãos de quem defende a vida e não o mercado da doença.

3.5. Políticas públicas

De todos os métodos da medicina, natural a fitoterapia é, sem dúvida, o mais antigo, o mais estudado e o que apresenta o melhor resultado. Com a evolução da ciência e o aprimoramento das pesquisas, os estudiosos buscaram a resposta para a seguinte pergunta: por que as plantas curam? A partir deste questionamento, as plantas passaram a ser estudadas do ponto de vista da composição química e não mais mística. Descobriu-se que cada planta possui princípios ativos que produzem efeitos (benéficos ou colaterais) quando introduzidos em outros seres vivos.

A fitoterapia é hoje altamente difundida no mundo todo como método natural preventivo, conservador, regenerador e curativo. O reconhecimento de seu valor como recurso clínico, farmacêutico e econômico já levou muitos países a adotar a prática como política pública de saúde14. De acordo Organização Mundial de Saúde, 80% da população dos países em desenvolvimento utiliza práticas tradicionais nas unidades básicas de saúde, demonstrando sua eficácia para o tratamento de muitas doenças. No Brasil, esses índices chegam a 82%. Essas constatações são um ponto chave no desenvolvimento de hortos comunitários, de plantas medicinais e, também, um alerta para as autoridades governamentais, para que possam criar subsídios para as populações de baixa renda, garantindo-lhes medicamentos naturais e de qualidade.

No Brasil ainda estamos “engatinhando” neste método como política pública de saúde. Felizmente, já demos alguns passos. Em dezembro de 2005, o Conselho Nacional de Saúde aprovou a Política Nacional de Medicina Natural e Práticas Complementares no Sistema Único de Saúde (SUS). O objetivo é ampliar as opções terapêuticas aos usuários do SUS, com garantia de acesso às plantas medicinais, fitoterápicos e serviços relacionados à fitoterapia, com segurança, eficácia e qualidade, na perspectiva da integralidade da atenção à saúde. Em junho de 2006, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva publicou o Decreto nº 5.813, instituindo a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos no Sistema Único de Saúde.

Este Decreto é apenas um exemplo de como é possível elaborar política pública a partir das plantas medicinais. Mas, o Estado (governos federal, estadual e municipal) poderia implementar outras propostas até mais simples, mas que potencializasse as iniciativas populares. Como exemplo temos as experiências dos Coletivos de Mulheres da Federação dos Trabalhadores da Agricultura Familiar – Fetraf/Sul/CUT, de Constantina/RS e os trabalhos desenvolvidos pela Pastoral da Saúde. Poderia ainda promover seminários, encontros, cursos de formação e capacitação sobre o uso correto da plantas medicinais, desde seu cultivo. Outra atividade que poderia ser desenvolvida como política pública de saúde é a criação de hortos medicinais comunitários. Essa proposta fomenta a convivência social, a partilha de saberes, a integração com outras áreas como a educação, a agricultura. A implementação de uma política pública de plantas medicinais significa a prevenção de muitas doenças, a recuperação da saúde de milhares de pessoas, a diminuição das filas de hospitais e, sobretudo, a valorização da sabedoria popular e o reconhecimento de que a vida está acima do lucro.

4. AGRICULTURA FAMILIAR E AS PLANTAS MEDICINAIS

Se produzimos alimentos para nação, podemos produzir plantas medicinais para o uso fitoterápico

A agricultura familiar é reconhecida pelo poder público como um modelo de produção há menos de uma década. Este modelo é mais do que um método de produção de alimentos: é uma forma de organização da propriedade, em que predomina a interação entre gestão e trabalho em família. É um modelo onde os agricultores familiares são sujeitos de sua história, dirigem o processo produtivo, dando ênfase à diversificação. É uma opção de vida, solidária, recheada de lutas sociais, muito trabalho e festas.

A agricultura familiar ocupa 30,5% da área total dos estabelecimentos rurais, produz 38% do Valor Bruto da Produção nacional e ocupa 77% do total de pessoas que trabalham na agricultura. Esse setor tem capacidade de absorver mão-de-obra e gerar renda. Além disso, é responsável por 67% da produção nacional de feijão, 97% do fumo, 84% da mandioca, 31% do arroz, 49% do milho, 52% do leite, 59% de suínos, 40% de aves e ovos, 25% do café, e 32% da soja15.

Com esse potencial comprovado, a agricultora familiar também pode ser a responsável pela produção da matéria-prima para a elaboração de fitoterápicos no Sistema Único de Saúde. O Ministério do Desenvolvimento Agrário, por meio de suas secretarias de Agricultura Familiar e de Desenvolvimento Territorial, já vem realizando ações na área de fitoterapia e plantas medicinais por meio de parcerias com redes e organizações governamentais e não-governamentais. Os apoios vão desde a capacitação para boas práticas de manejo e cultivo de plantas medicinais até a produção do fitoterápico.

O governo Lula também tem buscado parcerias internacionais, como é o caso do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida), para impulsionar o Programa Regional de Apoio à Rede de Desenvolvimento de Plantas Medicinais no Mercosul. Esse programa visa promover a redução da pobreza dos agricultores familiares, por meio da diversificação da produção e do incremento da renda, com a expansão de plantas medicinais e a transformação em medicamentos fitoterápicos.

No Paraná, também há experiências no cultivo de plantas medicinais. A Cooperativa Cercopa, que reúne 80 famílias, é um exemplo de organização de agricultores familiares que já atuam na produção de plantas medicinais. Eles produzem 25 tipos de chás naturais, como alcachofra, alecrim, arnica, guaco. E grande parte da produção tem à frente as mulheres.

Poderíamos referendar outros exemplos, no entanto, o objetivo é mostrar que a Agricultura Familiar pode ser a parceira número um dos Governos na implementação da Política Nacional de Plantas Medicinais. Neste sentido, as mulheres agricultoras familiares - com suas mãos, suas paixões e toda sua sabedoria - podem desenvolver projetos de plantio, colheita e armazenagem de plantas medicinais. A produção da matéria-prima poderá ser uma excelente alternativa de renda para a agricultura familiar, assim como hoje temos a produção do leite e do feijão, por exemplo.

4.2. As mulheres agricultoras familiares e as plantas medicinais

Apesar de constituírem metade da população, trabalhar na roça em pé de igualdade ao homem, participar da produção, dar conta da jornada de trabalho em casa, as mulheres agricultoras, ainda hoje, lutam para alcançar igualdade de gênero. A maioria das agricultoras é considerada membro não remunerado da família.

Destina-se às mulheres o trabalho dito reprodutivo, cuidar da casa e dos filhos, pequenos animais, horta. Em outras palavras, o trabalho "improdutivo", segundo a ótica capitalista, que é tudo aquilo que é feito para uso e consumo da família. Para exemplificar, poderíamos dizer que, o roçado é responsabilidade do homem, e a casa da mulher. Os produtos como feijão, milho e mandioca tornam-se mercadoria. Mas limpar a casa, cuidar da horta, dos filhos não tem o mesmo valor.

É preciso lançar olhares sobre a realidade a fim de dar mais um passo em direção a igualdade de gênero e da justiça social. Neste sentido, as formações coletivas buscam quebrar as representações tradicionais da imagem da mulher no campo. Os Coletivos de Gênero da Fetraf, a organização sindical, as lutas, os trabalhos pastorais, a fé, o conhecimento e relação harmoniosa com a natureza – tudo é fundamental na luta pelo rompimento do “lugar secundário” que a história reservou às mulheres.

O crescimento do cultivo e da utilização das plantas medicinais, uma tendência mundial, pode ser uma importante fonte de renda e contribuir no desenvolvimento sustentável. Nesta caminhada, as mulheres agricultoras podem elaborar um grande projeto coletivo: a produção de plantas medicinais para a implementação da fitoterapia no SUS. Vamos retomar o velho saber, os segredos que a Mãe-Natureza nos passou e dar um salto de qualidade em nossa história.

O papel da mulher na agricultura familiar esta mudando a concepção de política pública nos Governos. Assim, é possível buscar recursos para está iniciativa, bem como exigir que o poder público garanta que o conhecimento tradicional/popular sobre plantas medicinais, sua manipulação e uso, possam ser resgatados, protegidos e respeitados como prática de saúde.

CONCLUSÃO

As plantas medicinais sempre estiveram intimamante ligadas às mulheres, a gricultura de subsístência e a disputa de poder/saber. Agora, é necessário dar continuidade às medidas voltadas à melhoria da atenção à saúde, ao fortalecimento da agricultura familiar, à geração de emprego e renda, à inclusão social e igualdade de gênero. Neste sentido, a implementação da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicas pode ser um caminho para a geração de emprego e renda, fortalecimento e empoderamento das mulheres agricultoras, bem como para o resgate do saber popular.

A agricultura familiar (que representa um modo de vida e assegura a preservação e desenvolvimento das culturas locais, que mantém uma relação harmonizada com o meio-ambiente, que aposta no desenvolvimento sustentável e na biodiversidade, que produz a maior parte dos alimentos consumidos pela população brasileira) pode ser a grande aliada do Estado na produção e armazenagem de plantas medicinais para o uso fitoterápico. Para tando, as mulheres que possuem uma histórica ligação com as plantas medicinais serão as principais protagonistas desta empreitada.

Com a força das mulheres agricultoras familiares, a organização dos Coletivos de Gênero, a fé, a sensibilidade e sabedoria, teremos a possibilidade histórica de conquistar um Brasil sustentável, um modelo de saúde baseada em métodos naturais, melhores condições de viva para os filhos e uma geração mais saudável e feliz.

Celica Vebber

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABURDENE, Patrícia & John Naisbitt. Megatendência para as mulheres. Rio de janeiro. 2º edição – Rosa dos Tempos, 1994.

BRÜNING, Jaime. A saúde brota da natureza. Curitiba. Editora Universitária, Champagnat,1994.

COSTA Lúcia Cortes. Gênero: Uma questão Feminina? http://www.uepg.br/nupes/Genero.htm

DI STASI, L.C.(Org) Plantas Medicinais: Arte e Ciência, um guia para uma pesquisa interdisciplinar. Fundação Editora Unesp, São Paulo, SP, 1996.

PAVAN, Ivar. Políticas Públicas de Saúde. Um jeito Cidadão. Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2000.

SPETHMANN, Carlos Nacimento. Medicina Alternativa de A a Z. Editora Natureza, 7ª edição, MG, 2004

Fonte: www.ivarpavan.com.br

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