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Bento Gonçalves da Silva

Na segunda metade do século XVIII (l752) recebiam um lote de terras mais ou menos na metade do caminho entre o arroio da Ponte e o rio Taquari, no local que ficou batizado por Piedade, "em o distrito da Freguesia do Triunfo" o poveiro Manoel Gonçalves Meirelles e sua mulher dona Antônia da Costa Barbosa, filha do povoador Jerônimo de Ornellas Menezes e Vasconcellos, nascida, ainda, em Guaratinguetá, São Paulo, enquanto êle era português, natural de Mondin de Bastos.

Havia já, na época, um pequeno povoado mais abaixo, no lugar reservado para "rocio" na margem do rio Taquari e sua foz com o Jacuí. Para êle se mudara Jerônimo de Ornellas ao ter desapropriadas as terras de sua "estança" do Pôrto de Viamão, também conhecido por Pôrto do Dornelles, contribuindo com muito de suas posses para a construção da Igreja do Senhor Bom Jesus.

O casal Manoel Gonçalves Meirelles-Antônia da Costa Barbosa teve diversos filhos e entre êstes dona Perpétua da Costa Meirelles, nascida no Triunfo, e que casaria com o Alferes Joaquim Gonçalves da Silva, português de Santa Marinha de Real, bispado de Lamego.

Foi dêsse casal que nasceu dona Perpétua da Costa Meirelles, que foi a mãe de Bento Gonçalves da Silva, conforme a certidão a seguir:

- "Aos dezenove dias do mês de outubro de mil setecentos e oitenta e oito, nesta Matriz do Senhor Bom Jesus do Triunfo, batizei e pus os Santos Óleos a - BENTO - filho legítimo do Alferes Joaquim Gonçalves da Silva, natural da freguesia de Santa Marinha de Real, bispado de Lamego, e de sua mulher Perpétua da Costa Meirelles, natural desta freguesia do Triunfo; neto, pela parte paterna, de Manoel Goncalves da Silva e de sua mulher Josefa Maria de Jjesus, ambos naturais da freguesia de Santa Marinha de Real, do mesmo bispado acima dito; e pela materna, de Manoel Gonçalves Meirelles, natural de Mondin de Bastos, arcebispado de Braga, e de sua mulher Antônia da Costa Barbosa, natural da vila de Guaratinguetá bispado de São Paulo; foram padrinhos o Tenente Manoel Carvalho de Souza, e Ana da Costa Meirelles, solteira. De que para constar, fiz êste assento que assinei. O Vigário Eusébio de Magalhães Rangel e Sã".

Bento Gonçalves da Silva, entretanto, nascera dias antes, o que o registro de batismo não menciona: 23 de setembro de 1788.

Segundo algumas tradições, seu destino era ser sacerdote. Contudo, foi ser militar, tendo sido sacerdote seu irmão Roberto que tomou parte ativa na Revolução Farroupilha.

Aos treze anos de idade já era Bento autêntico espadachim. Dizem que, agredido por um negro, ferrabrás temido na região, Bento Gonçalves com êle se bateu, matando-o num verdadeiro duelo a espada.

Iniciou sua carreira militar em 1811, na denominada Campanha de D. Diogo. Embora sem grande destaque, o furriel Bento Gonçalves, que sofreu diversas acusações, a pouco e pouco foi avante.

Terminada a campanha de 1811/1812, seguiu para Jaguarão, e no Departamento de Cêrro Largo, Estado Oriental, casou em 1814 com dona Caetana Garcia, filha de Narciso Garcia, natural de Espanha e de dona Maria Gonzales, natural de Povo Novo, adjaeências da cidade do Rio Grande.

Soldado por vocação, o Furriel de Dom Diogo, apesar dos boatos que espalharam de que desertara após o casamento, sempre estêve ativo e vigilante e tantos serviços prestou na fronteira de Jaguarão para onde se mudara, que em 1817 o Capitão General Marquês de Alegrete nomeou-o "Capitão de Guerrilhas", isto é: capitão de milícias.

Tomou parte efetiva e sempre eficiente nas campanhas platinas, destroçando o inimigo em Curales e Las Canas (l8l8), Cordovez e Carumbé (l8l9), Arroio Olimar (l820). Em 1824 era promovido a tenente coronel e nomeado Comandante do 39 Regimento de Milícias, que organizou. Com êste Regimento, a 12 de outubro de 1825, tomava parte no combate de Sarandi. Nesse mesmo dia fôra promovido a coronel.

Salientou-se sobremodo no combate do Passo do Rosário, a 20 de fevereiro de 1827. A "Musa Popular" consagrou-o nessa luta, dizendo: -'O herói Bento Gonçalves foi a nossa salvação"...

Em 1829 era promovido a coronel do Estado Maior e nomeado comandante do 4.1 Regimento de Cavalaria de l.a Linha, aquartelado em Jaguarão. A seguir foi comandante da Fronteira de Jaguarão, e da Guarda Nacional.

Liberal, prestigioso e prestigiado, - como todo homem de valor - era invejado e odiado pelos profissionais da calúnia. Entretanto, jamais procurou outra defesa que seus direitos e a verdade de sua vida pública, leal e sem segredos. Acusado de andar em conluios contra a unidade nacional, defendeu-o, sem que êle o pedisse, o velho amigo e companheiro Major João Manoel de Lima e Silva, irmão do Regente Francisco de Limae Silva, e tio do futuro Duque de Caxias.

Mas a mágoa imensa dos acontecimentos que o envolveram injustamente e, sobretudo, a pressão política que a administração exercia sôbre o Rio Grande do Sul e seus habitantes liberais, levaram-no ao extremo.

Eleito deputado à primeira legislatura da Assembléia Provincial criada pelo Ato Adicional de agôsto de 1834, aí desfeiteado pelo próprio presidente da Província que o acusou de querer separar o Rio Grande do Brasil e formar, mancomunado com Rivera e Lavalleja, um nôvo Estado, Bento Gonçalves, que já sabia da disposição dos próceres de seu Partido Liberal de se libertarem e libertarem o Rio Grande do Sul das garras da opressão que o dirigia, afastou-se e combinou a "arrancada" que a 20 de setembro de 1835 destruiria por completo as artimanhas políticas de Fernandes Braga e sua gente.

Nasceu, assim, a Revolução Reivindicadora de 20 de setembro que expulsou no Rio Grande do Sul o mandonismo e o autoritarismo que o infelicitavam.

O levante que se verificou ao mesmo tempo em todo o território gaúcho, liquidado o iníquo regime, resolveu solicitar ao Govêrno um novo presidente, capaz e digno. Parecia que a paz voltara. O govêrno nomeara um sul-rio-grandense e sábio que já se exercitara na diplomacia - Dr. José de Araújo Ribeiro. Entretanto, as coisas de tal forma se prepararam que o novo presidente nomeado não chegou a tomar posse como pretendia. Por isso, abespinhado, resolveu abandonar a Capital e, na cidade do Rio Grande, contrariando a lei, tomou posse clandestinamente perante a Câmara Municipal daquela cidade, sem dar maior importância à Assembléia Provincial. Entretanto, apesar disso, tanto a Assembléia, como Bento Gonçalves em pessoa, dirigiram-se ao Presidente Araújo Ribeiro, convidando-o a legalizar sua posse em Pôrto Alegre. Negou-se e, em resposta, mandou fôrças, que organizara, atacar Pôrto Alegre. Com êsse gesto, a luta se reiniciou, obrigando os liberais, (farroupilhas como os cognominavam), que haviam dispersado as tropas, a refazerem suas hostes e enfrentar a luta que o presidente nomeado lhes propunha. E a Revolução Farroupilha começou verdadeiramente.

Os liberais do Rio Grande do Sul, em grande parte, tinham tendências republicanas. Entretanto, não eram republicanos seus chefes ostensivos, mas apenas "liberais-extremados". A luta assim iniciada, e em virtude da necessidade absoluta de defesa, levou-os ao gesto extremo: proclamar a República.

Bento Gonçalves, não consultado - e que seria aprisionado logo após no famoso combate da ilha do Fanfa, a 4 de outubro, concordou, porém, plenamente, com a proclamação feita pelo General Antônio de Souza Neto nos Campos de Seival a 11 de setembro daquele ano de 1836: a República Federativa.

Proclamada a República, empossado o govêrno que escolhera para Capital a vila de Piratini, foi Bento Gonçalves eleito presidente da República Rio-Grandense. Mas, prêso, enviado logo depois para o Rio de Janeiro, nada podia fazer. Por isso, para substituí-lo fôra eleito José Gomes de Vasconcellos Jardim.

Do Rio de Janeiro foi Bento Gonçalves enviado para o presídio da ilha de Fernando de Noronha. Felizmente, um desarranjo no barco que o conduzia obrigou o comandante a ficar por alguns dias na cidade do Salvador, Bahia.

E, enquanto o navio estava no estaleiro, Bento Gonçalves fôra trancafiado no forte de São Marcelo e Nossa Senhora do Pópulo, em plena baía de Todos os Santos. Com incrível rapidez espalhou-se a notícia e a Maçonaria e amigos de Bento Gonçalves resolveram agir e acertar a fuga. E Bento Gonçalves fugiu, regressando, afinal, ao Rio Grande do Sul, assumindo, em 1837, o cargo para que fôra eleito.

Mas a campanha de desprestígio contra o grande chefe e condutor Bento Gonçalves, também se fêz sentir no seio dos próprios farroupilhas. Disso resultou seu pedido de demissão do cargo de presidente e de comandante em chefe das fôrças da República Rio-Grandense em luta contra o Império e, por fim, o famoso duelo com Onofre Pires da Silveira Canto, seu velho amigo e companheiro de lutas liberais.

Com a morte de Onofre, em conseqüência do ferimento sofrido no duelo, o general farroupilha apresentou-se à prisão ao seu substituto no comando em chefe das fôrças - o General David Canabarro, - também seu velho amigo. Êste, ao ouvir de Bento o relato do acontecido (que, aliás, já sabia), apenas disse: - O caso é grave. - E quando o general lhe quis entregar a espada, Canabarro recusou-se a recebê-la, declarando:

- Conserve-a, general. Para manter a espada de Bento Gonçalves somente conheço um homem: Bento Gonçalves da Silva.

Mas a revolução estava no fim. As densas nuvens que vinham do Prata com as provocações do ditador D. Juan Manoel de Rosas, obrigaram David Canabarro a sérias medidas. Dela., logo depois se aproveitou o nôvo comandante em chefe das fôrças imperiais e presidente da Província, General Conde de Caxias, e, graças à sua dinâmica e diplomática maneira de agir, farroupilhas e imperiais entraram em entendimento, fazendo-se a pacificação da Província com o Tratado de Poncho Verde, de 25 de fevereiro de 1845. A 28 .daquele mês e ano David Canabarro proclamava a pacificação, naqueles mesmos campos, enquanto Caxias, já marques, proclamava, pouco mais adiante, nas margens do rio Santa Maria, a volta do Rio Grande do Sul ao mundo brasileiro.

Bento Gonçalves, entretanto, estava doente. Não estêve presente aos solenes atos, onde seus inimigos figuravam continuando a caluniá-lo. Pobre, sem dinheiro algum, apenas com as terras que conservara em Camaquã, para lá voltou, contemplando a casa abandonada e os campos despovoados. Com empréstimos de amigos recomeçou a vida. Mas pouco duraria. Gravemente enfermo foi a Pedras Brancas (hoje município de Guaíba) em busca de seu velho amigo e companheiro José Gomes de Vasconcellos Jardim, que ali, além de médico-prático de grande fama e renome, possuía um hospital. Mas, nem sequer chegou a ser tratado devidamente, pois a pleurisia que se manifestara violenta, levou-o em seguida. Era o dia 18 de julho de 1847.

Seu corpo foi trasladado para Camaquã, em cujo cemitério ficou até o ano de 1909, quando o então Intendente do Rio Grande, Dr. Juvenal Miller, mandando erguer um monumento de granito e bronze, solicitou aos herdeiros autorização para transladar para o alicerce daquele monumento notável os restos mortais do glorioso gaúcho General Bento Gonçalves da Silva. E ali repousam, desde então, as cinzas do imortal farroupilha.

Fonte: www.paginadogaucho.com.br

Bento Gonçalves da Silva

1788 - 1847

Comandante da revolução farroupilha nascido em Triunfo, Rio Grande do Sul, maçom e defensor de idéias liberais, pelas quais lutou durante os quase dez anos da Revolução Farroupilha, que sempre defendeu a integridade do império opondo-se aos que simpatizavam com a idéia do separatismo do estado sulista. Filho de um alferes, cedo saiu de sua terra e iniciou-se na vida militar e participou da primeira campanha cisplatina (1811-1812), ao lado do exército pacificador de D. Diego de Souza. Estabeleceu-se (1812) com uma casa de negócios em Serro Largo, na Banda Oriental do Uruguai, e dois anos depois casou-se com Caetana Joana Francisca Garcia. Sua atuação militar começou realmente quando participou da segunda campanha cisplatina (1816-1821) que culminaria com a anexação formal daquele país ao Brasil como Província Cisplatina (1821).

Na guerra das Províncias Unidas do Rio da Prata, em que consolidou seu prestígio como comandante de cavalaria nas batalhas de Sarandi (1825) e Ituizangó ou Passo do Rosário (1827), alcançou o posto de coronel (1828) pelos serviços prestados. Por ordem de D. Pedro I, foi nomeado comandante do Quarto Regimento de Cavalaria de 1a. linha, estabelecido em Jaguarão e ele confiado o comando da fronteira sul do Brasil e da Guarda Nacional naquela região. Adquiriu grande influência, pois o posto de comandante da Guarda Nacional era um cargo eminentemente político e foi indicado para o posto de comandante da Guarda Nacional do Rio Grande do Sul (1832).

Com seu cargo na Guarda Nacional deu apoio aos seus amigos uruguaios e, por isto, foi denunciado (1833) como desobediente e protetor do caudilho uruguaio Lavalleja, pelo marechal Sebastião Barreto Pereira Pinto, comandante de Armas da Província. Convocado à corte no Rio de Janeiro, defendeu-se convincentemente e convenceu o regente Padre Feijó nomear como novo presidente da Província, Antonio Rodrigues Fernandes Braga, o mesmo homem que iria derrubar (1835) dando início à Revolução Farroupilha. Na volta à província teve recepção triunfal, depois foi eleito para a primeira Assembléia Legislativa da província, que se instalou em abril (1835). Depois de acusado como um dos deputados que planejava um golpe separatista, que pretendia desligar o Rio Grande do Brasil, a situação política na província se deteriorou. Com sua destituição, pelos conservadores, do cargo de comandante, rebelou-se contra as autoridades constituídas e principiou a revolução contra a autoridade provincial (1835). Preso junto com outros líderes farrapos na batalha da ilha do Fanfa, em Triunfo (1836).

Foi enviado para a prisão de Santa Cruz, depois para a fortaleza de Lage, no Rio de Janeiro e, em seguida, para o forte do Mar, em Salvador, Bahia, de onde fugiu a nado no ano seguinte. Regressou ao Rio Grande do Sul e assumiu a presidência da República de Piratini (1836), proclamada em sua ausência por Antônio Sousa Neto. A guerra dos farrapos terminou quando os rebeldes foram finalmente derrotados pelo Duque de Caxias na batalha de Poncho Verde (1845), cuja rendição foi negociada em troca da anistia. Desligou-se, então, definitivamente da vida pública. Passou os dois anos seguintes em sua estância, no Cristal e morreu de pleurisia, em Pedras Brancas, Rio Grande do Sul.

Fonte: www.dec.ufcg.edu.br

Bento Gonçalves da Silva

Bento Gonçalves da Silva
Bento Gonçalves da Silva

Guerreiro durante a maior parte de sua vida, Bento Gonçalves da Silva morreu na cama. Maçom e defensor de idéias liberais, pelas quais lutou durante os quase dez anos da Revolução Farroupilha, viu, ao final de seu esforço, a vitória do poder central. Presidente da uma república, viveu a maior parte de sua vida em um Império. Bento Gonçalves da Silva nasceu em Triunfo, em 1788, filho de alferes. Cedo, porém, saiu de sua terra. Em 1812 foi para Serro Largo, na Banda Oriental (Uruguai), onde se estabeleceu com uma casa de negócios. Dois anos depois estava casado, com Caetana Joana Francisca Garcia. Algumas versões afirmam que, em 1811, antes de se fixar na Banda Oriental, participou do exército pacificador de D. Diego de Souza, que atuou naquela região. Essa informação, entretanto, é discutida. Mas, se não foi em 1811, em 1818 com certeza começou a sua atuação militar, quando participou da campanha do Uruguai (que culminaria com a anexação formal daquele país ao Brasil, em 1821, como Província Cisplatina). Aos poucos, devido à sua habilidade militar, ascendeu de posto, chegando a coronel em 1828, quando foi nomeado comandante do Quarto Regimento de Cavalaria de 1a. linha, estabelecido em Jaguarão. Passou a exercer também os postos de comandante da fronteira e da Guarda Nacional naquela região. Provavelmente já era maçom nessa época, pois consta que organizou várias lojas maçônicas em cidades da fronteira. É certo, contudo, que sua influência política já era grande, pois o posto de comandante da Guarda Nacional era um cargo eminentemente político. Em 1832 Bento foi indicado para um dos postos de maior influência que havia na província, o de comandante da Guarda Nacional do Rio Grande do Sul. Isto lhe dava uma posição estratégica, que soube utilizar quando da Revolução Farroupilha: sob seu comando estavam todos os corpos da Guarda Nacional, força especial que havia sido criada em 1832 e cujo oficialato era sempre composto por membros das elites de cada região. Esse cargo de confiança, entretanto, não impediu que Bento continuasse dando apoio aos seus amigos uruguaios.

Foi por isto que, em 1833, foi denunciado como desobediente e protetor do caudilho uruguaio Lavalleja, pelo mesmo homem que o havia indicado para o posto de comandante da Guarda Nacional, o marechal Sebastião Barreto Pereira Pinto, comandante de Armas da Província. Chamado ao Rio de Janeiro para se explicar, Bento saiu vitorioso do episódio: não voltou para a província como comandante de fronteira, mas conseguiu do regente padre Feijó - que também defendia idéias liberais - a nomeação do novo presidente da Província, Antonio Rodrigues Fernandes Braga, o mesmo homem que iria derrubar, em 1835, quando deu início à Revolução. De volta ao Rio Grande, continuou a defender suas idéias liberais, à medida que se afastava de Braga, denunciado pelos farrapos como prepotente e arbitrário. Eleito para a primeira Assembléia Legislativa da província, que se instalou em abril de 1835, foi apontado, logo na fala de abertura, como um dos deputados que planejava um golpe separatista, que pretendia desligar o Rio Grande do Brasil. A partir desse momento, a situação política na província se deteriorou. As acusações mútuas entre liberais e conservadores eram feitas pelos jornais, as sessões da Assembléia eram tumultuadas. Enquanto isto, Bento Gonçalves articulava o golpe que teve lugar no dia 19 de setembro. No dia 21, Bento Gonçalves entrou em Porto Alegre. Permaneceu na cidade por pouco tempo, deixando-a para comandar as tropas revolucionárias em operação na província.

Exerceu esse comando até dois de outubro de 1836, quando foi preso no combate da ilha do Fanfa (em Triunfo), junto com outros líderes farrapos. Foi então enviado para a prisão de Santa Cruz e mais tarde para a fortaleza de Lage, no Rio de Janeiro, onde chegou a tentar uma fuga, da qual desistiu porque seu companheiro de cela, o também farrapo Pedro Boticário, era muito gordo, e não conseguiu passar pela janela. Transferiram-no então para o forte do Mar, em Salvador. Mesmo preso, sua influência no movimento farroupilha continuou, pois foi eleito presidente da República Rio-Grandense em 6 de novembro de 1836. Mas, além do apoio farroupilha, Bento contava com o da Maçonaria, de que fazia parte. Essa organização iria lhe facilitar a fuga da prisão, em setembro de 1837. Fingindo que ia tomar um banho de mar, Bento começou a nadar em frente ao forte até que, aproveitando um descuido de seus guardas, fugiu - a nado - em direção a um barco que estava à sua espera.

Em novembro ele regressou ao Rio Grande, tendo chegado a Piratini, a então capital farroupilha, em dezembro, quando tomou posse do cargo para o qual havia sido eleito. Imediatamente, passou a presidência ao seu vice, José Mariano de Mattos, para poder comandar o exército farroupilha. A partir de então, sua vida seriam os combates e campanhas, embora se mantivesse como presidente. Em 1843, entretanto, resolveu renunciar ao cargo, desgostoso com as divergências que começavam a surgir entre os farrapos. Passou a presidência a José Gomes de Vasconcelos Jardim, e o comando do exército a David Canabarro, assumindo apenas um comando de tropas. As divisões entre os revolucionários terminaram por resultar em um desagradável episódio. Informado que Onofre Pires, um outro líder farrapo, fazia-lhe acusações, dizendo inclusive que era ladrão, Bento o desafiou para um duelo, no início de 1844. Onofre Pires foi ferido, e morreu dias depois devido a uma gangrena.

Embora tenha iniciado as negociações de paz com Caxias, em agosto de 1844, Bento não iria concluí-las. O clima de divisão entre os farrapos continuava, e ele foi afastado das negociações pelo grupo que se lhe opunha. Desligou-se, então, definitivamente da vida pública. Passou os dois anos seguintes em sua estância, no Cristal e, já doente, foi em 1847 para a casa de José Gomes de Vasconcelos Jardim, onde morreu, de pleurisia, em julho daquele ano.

Fonte: www.jornallivre.com.br

Bento Gonçalves da Silva

"O Coronel Bento Gonçalves da Silva nasceu em 1787 na província de Rio Grande do Sul, filho legítimo do fazendeiro Capitão Joaquim Gonçalves da Silva e de D. Perpétua Gonçalves Meireles. Aprendeu apenas as primeiras letras, e sendo criado no exercício de campo se fez insigne cavaleiro.

Era de estatura ordinária e proporcionada, mas dotado de força, e destro no exercício de várias armas. Fisionomia regular e simpática, e muito popular.

Cultivou com assiduidade seu grande talento no estudo da História, principalmente sobre a vida dos grandes homens, dos quais trazia sempre alguns casos em suas conversações familiares.

Saiu da casa paterna para fazer as campanhas de 1811 e 12 na qualidade de Furriel de Auxiliares, no fim das quais se estabeleceu na província Oriental do Uruguai, casando com uma jovem deste país.

Em fins de 1816 marchou contra Artigas uma divisão do Rio Grande a ocupar o Departamento de Cerro Largo, no qual tinha Bento Gonçalves suas fazendas de gado e casa de negócio na vila do mesmo Departamento.

Apenas entrou aquela divisão, que Bento Gonçalves se lhe foi unir, prestando-lhe toda a coadjuvação.

Operando a mesma para Montevidéu em princípios de 1817, deixou uma força de guarnição, a qual foi logo batida por forças de Artigas, sofrendo aquela vila um saque geral.

Bento Gonçalves, que se achava na fazenda do Parado, transpôs imediatamente a linha do Jaguarão e tratou de reunir gente para obstar que força inimiga hostilizasse o território da fronteira do Rio Grande. Porém não tardou a entrarem 74 homens na povoação do Erval, roubarem esta e fazer alguns prisioneiros, entre os quais o Padre José Rodrigues e o Alferes Antônio José de Oliveira, batendo em regresso mais de 40 homens ao mando do Major Hipólito.

Aproximando-se nessa ocasião com 22 homens, bento Gonçalves carregou sobre o inimigo com tanta audácia que o derrotou completamente, tirando-lhe tudo quanto havia roubado e retomando os prisioneiros.

Este primeiro ato de bravura de Bento Gonçalves deu-lhe tanta importância que de vários pontos corriam homens a se lhe reunir.

O Governador Marquês de Alegrete o promoveu logo a Capitão de 2ª Linha e Comandante de uma Companhia de Guerrilhas que Bento Gonçalves deveria criar com dois subalternos, um dos quais foi o bravo Coronel Albano de Oliveira, então paisano, sócio e amigo de Bento Gonçalves.

Tendo ordem para conservar-se sobre a fronteira de Jaguarão e operar convenientemente, principiou Bento Gonçalves a desenvolver seu gênio empreendedor, entranhando-se 30 e 40 léguas no país inimigo, batendo diferentes forças que ousavam se aproximar, bem como a do Comandante Francisco Antônio; do Coronel Otorgués, que o fez prisioneiro e muitos de seus oficiais e soldados; ao Coronel Aguiar; e outras pequenas forças de menor importância além de numerosas cavalhadas que tirou para remonta de sua força.

Foi condecorado com o Hábito de Cristo e promovido a Major com Vencimentos.

Terminada a luta tirou-se Bento Gonçalves à sua fazenda na Província Oriental, tendo então gasto e perdido uma parte de sua fortuna. POrém apenas se fez ouvir o brado da independência do Brasil e da desobediência a D. Pedro I da Divisão de Voluntários Reais que se achava na praça de Montevidéu, Bento Gonçalves, à testa de uma força que reuniu, marchou imediatamente em apoio de benemérito Brigadeiro Marques, com quem se achava o Visconde da Laguna, evadido da praça de Montevidéu, para prestar seus serviços à independência.

Durante essa guerra heróica, talvez a mais penosa campanha ao Sul do Império, Bento Gonçalves prestou relevantíssimos serviços ocupando os pontos mais importantes e perigosos, com a sua habitual intrepidez e tino não vulgar.

Concluída esta importante guerra foi promovido a Tenente-Coronel e condecorado Cavaleiro do Cruzeiro.

Regressou novamente à sua casa encarregado de criar e comandar o Regimento de 2ª linha nº 39; e pouco tempo depois teve ocasião de se pôr à sua frente, quando se declarou a Guerra à Confederação Argentina e se rebelou a Província Oriental contra o Império do Brasil.

O VIsconde da Laguna, forçado a concentrar suas forças sobre a praça de Montevidéu, ficariam interceptadas as comunicações com a Província do Rio Grande pela fronteira de Jaguarão se Bento Gonçalves não ocupasse logo o Departamento de Cerro Largo, expulsando dele ao Coronel Inácio Oribe. Mas tendo ordem de marchar sobre Montevidéu a fazer junção com Bento Manuel que saía daquela praça, Bento Gonçalves marchou dia e noite realizando a junção; seguiu-se à ela a desastrosa batalha no Sarandi a 12 de Outubro de 1825, dada contra a opinião de Bento Gonçalves pela desigualdade de forças, porém resignou-se às ordens de Bento Manuel, Comandante então da força.

Nesse infeliz combate Bento Gonçalves mostrou a grande energia de seu caráter; mas não há esforços contra o destino. Todavia conseguiu reunir, a pouca distância do campo, mais de 500 homens dispersos e pôr-se com eles em retirada, apesar de por mais de dois dias até o Passo do Gi, sofrer vigorosa perseguição de Fructuoso Rivera com forças muito superiores.

Desta forma pode Bento Gonçalves salvar as relíquias da mais brilhante cavalaria que havia cedido o campo de batalha à má organização desta e à superioridade numérica do inimigo.

Neste dia de dolorosa recordação foi Bento Gonçalves promovido à Coronel e condecorado com a medalha de Oficial do Cruzeiro.

Regressando à fronteira organizou novamente o Regimento nº 39, unindo-se-lhe o Regimento nº 21 da mesma arma e linha, e criou o Corpo de Guerrilhas, cuja força tomou a numeração de 6ª Brigada, e mais tarde de 2ª Brigada Ligeira.

Conservando-se sempre na frente do inimigo fez-lhe muitos prisioneiros e hostilidades tirando-lhe muitos recursos para a sua brigada.

Assistiu à batalha de Ituzaingó (Rosário) a 20 de Fevereiro de 1827, e muito cooperou para não ser ela ainda mais funesta ao Exército Imperial. Colocada a sua brigada na ala direita do Exército, na princípio da ação, teve ordem do General-em-Chefe, Marquês de Barbacena, para fazer a reserva da pessoa de s.Exª.; mas vendo a superioridade numérica da cavalaria inimiga e a necessidade de sustentar a posição em que se achava, tratou de iludir aquela ordem, indo asseverar ao General que quando o perigo fosse iminente de qualquer ponto velaria sobre a pessoa de s.Exª.

Sustentou a mesma posição por mais de 6 horas com aquele sangue frio que lhe era habitual, e quando o Exército se pôs em retirada Bento Gonçalves fez a retaguarda, e só no dia seguinte de manhã a ele se uniu salvando da flama do campo a muitos estropiados e feridos, que sucumbiram ao fogo e cansaço.

Marchou o Exército Imperial por São Sepé ao passo de São Lourenço, no Jacui, onde se estacionara para descansar e refazer-se, e Bento Gonçalves para a fronteira de Bagé e Jaguarão, abandonada e talada pelo inimigo em toda a sua comprida extensão. Apenas aí chegou fez bater por Bonifácio Calderón, da brigada de seu comando, ao Coronel Inácio Oribe, em Cerro Largo, ficando este, como diversos oficiais e muitos soldados de sua força, prisioneiros, sendo por direção sua igualmente batidas todas as pequenas partidas, que ousaram passar em alguns pontos da fronteira para roubarem gados e casas abandonadas, como a que comandava o General Lavalle, que regressara depois de (perseguido) pelas guerrilhas do valente Juca Teodoro..

Em 1834 havia na Província dois partidos muito exaltados, que dividiam sua população, e se denominavam “Caramuru”e “Farroupilha”. O primeiro, mais tarde se metamorfoseou em Saquarema e o segundo em Luzia, este porém mais forte da seu antagonista.

O Presidente da Província, achando-se na cidade de Rio Grande, mandou convidar a Bento Gonçalves, que se achava comandando a fronteira de Jaguarão, e com quem nutria íntimas relações de amizade, para assistir a um ato particular de S.Exª. Apenas chegara Bento Gonçalves, o Presidente teve participação de um grave conflito entre os dois partidos na Capital da Província; em conseqüência fez seguir logo Bento Gonçalves para a mesma capital a fim de a sossegar por meio de seu prestígio, prudência e tino, dando-lhe todas as precisas autorizações, até carta branca, segundo constou.

Bento Gonçalves harmonizou aquela praça sem lançar mão de meio algum violento, e com tanta imparcialidade que cada um dos dois partidos o julgava de seu lado, mas com tal moderação que seus próprios amigos o ignoravam.

Havia decorrido mais de um mês quando S.Exª regressou achando as coisas em seu estado normal e os ódios mais acalmados.

Poucos dias depois do regresso do Presidente à capital, separou-se dele Bento Gonçalves, já indispostos por terem discordado sobre a marcha que se deveria dar aos partidos para se não reproduzirem cenas tais, resultando dessa discordância a demissão de Bento Gonçalves do Comando da fronteira, e ser desde logo agredido desairosamente pelo jornal órgão do Governo Provincial e único que apoiava a administração de S.Exª.

Fora na mesma ocasião também demitido Bento Manuel do Comando da fronteira do Quarai, que provavelmente decaiu da graça ou confiança do Presidente.

Essas demissões imprudentes, sem causa justa, atearam o fogo dos partidos e Bento Gonçalves foi qualificado já como chefe do partido Farroupilha, mantendo relações com Bento Manuel, muito ferido em seu orgulho.

Achavam-se as coisas neste estado quando se abriu a Assembléia Provincial composta de membros de ambos os lados, que foi o verdadeiro pomo da discórdia e o agente principal da revolução.

Bento Gonçalves, então instado por muitos de seus amigos para colocar-se à testa da revolução, como o único meio de obstar tantas perseguições e arbitrariedades do Presidente, resistiu por algum tempo a essas seduções; porém, finalmente, fora arrastado a pôr-se à frente do movimento revolucionário de 20 de Setembro de 1835, mas que felizmente para toda a Província aplaudiu e acompanhou, ficando antes de dois meses em seu estado normal, administrada por um de seus vice-presidentes e submetida ao Governo Central. Nomeou este um novo Presidente, que chegando em um barco de guerra, com todas as aparências hostis, alarmou a população; e principalmente a recepção de um ofício do Ministério, supondo já empossado o novo Presidente, no qual ordenava fosse processado o Cônsul ou Vice-Cônsul hamburguês por se ter negado prestar-se com os súditos dessa nação às exigências do ex-Presidente contra os revolucionários.

Ora, este passo irrefletido do Governo impressionou profundamente os ânimos, que se viu Bento Gonçalves contrariado a dar a posse ao novo Presidente, por lhe objetarem que necessariamente deviam primeiro compreender quais as intenções do Governo Geral a respeito dos homens da revolução.

À vista desses graves embaraços pediu com instância ao Presidente para demorar a posse, a fim de acalmar os ânimos já tão alterados, empenhando para isso toda a sua influência e esforços para desvanecer esses receios de processos, prisões, etc., etc.

Na referência de semelhantes fatos está evidentemente demonstrado que Bento Gonçalves nunca teve a pretensão de separar a província da comunhão brasileira.

Ou fosse de plano ou simplesmente pusilanimidade, o Presidente negar-se a tomar posse na capital, sendo para isso rogado por Bento Gonçalves e pela Assembléia Provincial, por duas vezes, enviando-lhe pessoas influentes para o acopanhar, S.Exª. iludiu a todos e tomou posse na cidade do Rio Grande, seguindo-se a este ato incompetente uma proclamação de Bento Manuel concitando os povos à reação, tendo S.Exª. de antemão chamado a Silva Tavares e outros chefes que se puseram em campo, reagindo.

Nessa extrema situação, Bento Gonçalves recorreu às armas confiado na sua fortuna, que lhe proporcionaria um meio qualquer de obter segura anistia para si e seus amigos comprometidos.

Em Fevereiro de 1836 declarou-se a reação, e Bento Gonçalves se pôs em campo muito impressionado pelos males que necessariamente iam aparecer em seu país natal.

Fez levantar o pavilhão imperial em todas as forças de seu mando, nas quais se dava repetidas vidas à Constituição, a D. Pedro II e à integridade do Brasil.

Bento Manuel, à testa de uma força, marchou procurando a Bento Gonçalves, este foi em seu encontro, e por rara fatalidade entre estes dois chefes tão práticos, sem saber um do outro, se encontraram às nove horas da noite nas pontas do arroio dos Cachorros. Houve um choque inesperado; debandando-se os primeiros esquadrões de Bento Manuel, foi forçado a retirar-se com o apoio da noite, tendo alguns mortos e feridos.

Ao raiar o dia seguinte prosseguia essa força em retirada, muito desmoralizada pelo revés e deserções que havia sofrido à noite precedente; e nessa ocasião foi instado Bento Gonçalves para persegui-la e acabar com ela, o que seria muito fácil; mas não quis anuir a fim de poupar o sangue de irmãos.

Bento Gonçalves era um homem incapaz de dirigir uma revolução porque seu coração de mulher estava sempre em luta com seu espírito forte e superior a todas as vicissitudes. Aquele, às mais das vezes, predominava à este, mas suas resolução eram sempre rápidas e enérgicas, ou fosse arrastado pelo primeiro ou guiado pelo último.

A 13 de Junho do mesmo ano reagiu a capital, ajudada de uma fração do Batalhão 8º que ali se achava de guarnição, prendendo o vice-presidente e outras pessoas muito importantes da revolução, que foram logo remetidas à capital do Império.

Apenas soube Bento Gonçalves desta catástrofe marchou sobre a capital, pô-la em sítio, e atacou-a por mais de uma vez com movimentos simultâneos, na esperança de fazê-la render mais por temor que à força de armas, que traria grande derramamento de sangue.

No entanto se preparava novamente Bento Manuel e marchando com 700 homens de cavalaria conseguiu entrar na capital pela margem direita do Guaíba sem ser batido por forças da campanha.

Desde então se tornou Bento Gonçalves sitiado, rodeado de muitos rios, e o principal deles ocupado por canhoneiras e lanchões de guerra, no meio da estação invernosa, com forças superiores na capital ao mando de Bento Manuel, e sem poder obter recurso algum da campanha.

Nestas graves circunstâncias foi introduzido o terror pânico na maior parte da força, seguindo-se uma deserção espantosa para dentro da capital, que foram engrossar as fileiras inimigas, ficando Bento Gonçalves reduzido a 500 homens, postos que firmes e resolutos, todavia foi forçado a levantar o sítio e acampar junto à povoação de Viamão, 14 milhas distante da capital aonde reuniu todos os seus contingentes, montando sua força à 900 homens e 14 bocas de fogo.

Foi nesta ocasião que Bento Gonçalves, instado por seus amigos para abandonar o comando da força, visto que todas as probabilidades lhe eram contrárias, atravessar o Guaíba, aparecendo na campanha restabelecia os negócios e salvava sua pessoa. POr esse absoluto isolamento não quis desamparar a seus amigos, resignando-se a todas as vicissitudes.

Finalmente no dia 5 de Setembro (1836) se aproximou Bento Manuel com força tríplice; porém desejando Bento Gonçalves chegar a um acordo para poupar o sangue de irmãos, lhe oficiou pedindo-lhe uma entrevista no sentido de terminar a luta por meios sinceros que garantissem as pessoas comprometidas na revolução. A resposta fora em poucas palavras, que a sua gente estava desesperada por bater-se e não podia portanto entrar em nenhuma convenção.

Entre esses dois homens, principalmente da parte de Bento Manuel, havia certa relutância e emulação que não podia ser dissimulada, posto que unidos algumas vezes por motivos especiais.

Ao amanhecer o dia 6 de Setembro Bento Gonçalves escolheu a posição, colocou sua pouca força com aquele desenvolvimento que lhe era natural em semelhantes casos, prevenindo cuidadosamente qualquer estratagema de seu adversário, que dispunha de forças superiores. O campo era todo cortado de valos, e Bento Gonçalves apoiava sua esquerda sobre o pequeno arroio do Barcelos, bordado de matos, à sombra do qual ocultou a pouca infantaria. Bento Manuel tencionou surpreendê-lo por este mesmo flanco, sem poder conhecer que esta manobra estava prevenida por seu inimigo. Fez marchar as suas infantarias com muita sagacidade por dentro do mato do mesmo arroio que deviam sair junto da artilharia inimiga e apossar-se dela, enquanto ameaçava sobre o centro e direita de Bento Gonçalves para encobrir aquele movimento e dar tempo que fosse executado.

Apenas aparecera a infantaria à beira do mato, foi surpreendida e carregada de flanco sem fazer qualquer resistência, debandada e levada à baioneta, perdendo muitos mortos e feridos, que deu lugar a retirar-se Bento Manuel.

Apesar desta vantagem não melhorou a posição do Bento Gonçalves por não obter completa vitória, e o adversário, daí em diante, evitar um novo combate resoluto a vencê-lo por falta de recursos, quando suas forças progressivamente se aumentavam todos os dias. Em conseqüência do que colocou-se Bento Manuel sobre a única estrada que havia para a campanha além de ter os obstáculos dos rios Gravataí, dos Sinos, Caí e o grande Jacuí na força das cheias que ficavam à retaguarda de Bento Manuel.

Parecia evidente que Bento Gonçalves sucumbisse nos subúrbios da capital rodeado por tão espantosas circunstâncias. Mas conhecendo o plano de seu adversário tentou jogar a última carta, movendo a retirada através desses grandes obstáculos, e o fez com tanta habilidade que apenas fora sentido por Bento Manuel quando passava junto a seu campo. Este o perseguiu, mas sem êxito algum até o Gravataí, prosseguindo sempre em sua retirada até a margem do Jacuí, aonde encontrou novamente Bento Manuel em sua frente, que auxiliado das canhoneiras havia transportado suas forças para aquele ponto.

Bento Gonçalves se lhe aproximou a pouco mais de uma milha e acampou sobre uma colina, conservando-se nela quatro dias na esperança de chamar o seu adversário ao combate, por ter este ocupado um lugar estreito na estrada, cortado por muitas restingas de matos, aonde o não podia procurar com vantagem, dispondo de uma força muito inferior em número.

De passagem por São Leopoldo Bento Gonçalves tinha feito preparar dois pequenos pontões de canoas para transpor os rios, e fiado neste recurso, desenganado de que o inimigo não o procurava em seu campo, tentou varar o Jacuí pela ilha do Fanfa, que se achava no flanco entre os dois campos beligerantes.

No dia 2 de Outubro, iludindo a vigilância de seu adversário, retirou-se ao anoitecer para dentro da ilha, que dividia por estreito braço do rio, deixando nessa margem a sua pouca infantaria com algumas bocas de fogo. Circundavam a ilha uma porção de canhoneiras e lanchões no largo rio entre a ilha e a margem oposta. Bento Gonçalves fez assestar a sua artilharia contra as mesmas canhoneiras pretendendo efetuar a passagem debaixo de vivo fogo em conseqüência de ter na margem oposta o apoio de mil e tantos homens que ali se achavam, e com quem não podia fazer junção.

Vendo a impossibilidade dessa tentativa por falta de munições, teve necessariamente de mudar de plano, tencionando repassar à ilha no dia seguinte e expor-se à sorte de uma batalha, procurando o inimigo em eu campo como único recurso que há, lhe restava.

Apenas rompia o dia 4 de Outubro que se deixou surpreender a sua infantaria, sendo completamente derrotada e assenhoreando-se também Bento Manuel das bocas de fogo as fez voltar contra Bento Gonçalves, isolado na ilha com a cavalaria e algumas bocas de fogo.

A ilha era coberta de matos tendo apenas alguns pequenos campestres, em um dos quais se achava Bento Gonçalves à beira-rio da parte de seu adversário, por donde ela dividia com a terra firme.

Bento Manuel fez transportar toda a infantaria para dentro da ilha ao mando do Brigadeiro Cunha, que se aproximando por dentro do mato a pouco mais de tiro de pistola rompeu fogo mortífero. Mas Bento Gonçalves tendo observado todos estes movimentos e prevenido o ataque arreglando sua cavalaria a pé, correspondeu o fogo com grande energia, que durou, vertendo o sangue de irmãos, por algumas horas.

Nesse terrível conflito, alguns amigos de Bento Gonçalves lhe pediram, vendo a desigualdade de luta, que fizesse levantar a bandeira de parlamento, porque do contrário seriam todos vítimas. Não! Lhes respondeu ele com espantosa serenidade. Não! Porque ela não será atendida no calor de uma peleja tão encarniçada, e nesse caso sucumbiremos cobardemente e a sangue frio: preferimos antes morrer pelejando; porém se porventura obrigarmos o inimigo a cessar o fogo mandarei levantar a bandeira branca. Fez colocar duas bocas de fogo nos flancos carregadas à metralha, que vomitavam o extermínio e a morte pelo centro do mato, e forçou o Brigadeiro Cunha a cessar fogo.

Foi nessa ocasião que Bento Gonçalves mandou levantar a bandeira de parlamento, a qual foi logo correspondida e aceita, fazendo entre os dois chefes a convenção seguinte, toda escrita e assinada por Bento Manuel. (Esta convenção funda-se em dois pontos cardeais: 1º, que nem o chefe da revolução e nem outro indivíduo dela, seria preso ou perseguido; 2º , que Bento Gonçalves marcharia logo a fazer dissolver todas as forças de seu mando).

Infelizmente foi ela desfeita pelo Presidente da Província no dia seguinte que chegou àquela ilha a bordo do vapor, quando já com abraço fraternal se haviam esquecido os lamentáveis sucessos da véspera.

Esse passo inqualificável exasperou os revolucionários, fazendo seus chefes convergir suas forças para Piratini, protestando esgotar os últimos recursos contra um governo desleal.

O Presidente da República do Uruguai, Manuel Oribe, prevalecendo-se maliciosamente das circunstâncias em favor de seu país, fez um enviado a Piratini, mandando assegurar aos revolucionários que tinha os melhores desejos de os coadjuvar, e que prometia fazê-lo, contanto que apresentassem um fim político bem definido, isto é, a República.

Ora, qualquer meio de segurança que fosse oferecido seria aceito da parte daqueles que já não esperavam do Governo Central senão o extermínio. Portanto foi declarada solenemente a República."

Fonte: www.riograndelivre.net

Bento Gonçalves da Silva

Profissão de Fé Republicana , realizada dia 29 de agosto de 1881, pelos estudantes gaúchos da Faculdade de Direito de São Paulo, desta forma,reeditando o manifesto de Bento Gonçalves de 29 de agosto de 1838:

"A geração atual deve conhecer melhor este manifesto que faz honra ao tão adulterado passado da terra rio-grandense.Publicando, divulgando este antigo documento, sentimos, além da satisfação de um ato espontâneo de justiça a do cumprimento de um dever honroso: em primeiro lugar, porque contribuiremos para fazer desvanecerem- se indignas imputações com que s e tem pretendido nodoar a nossa brilhante história: depois porque sendo a revolução operada pela quase unanimidade da Província, tendo saído espontaneamente da sua índole e aspirações, da sua natureza íntima, - nós- filhos seus - nos cobriríamos do mesmo boldão ,com que a quiséssemos manchar; finalmente, porque dada as necessárias diferenças entre aquela e a nossa época, justificamos, aceitamos, glorificamos o pensamento político dos revolucionários de 1835.

Trabalhamos também, pelas condições indispensáveis ao bem da Pátria, e essas condições só nos parecem legítimas, no seio da ordem democrática, - Somos republicanos. Não pelas nossas individualidades, mas pelo próprio patriotismo, temos necessidade defazer francamente,

perante os nossos patrícios, esta declaração.

Como republicanos convictos, sem exaltações imprudentes, tolerantes para com os indivíduos, intolerantes no terreno das idéias, reivindicamos o glorioso passado, que muitos caluniam e que outros, mais ingratos ainda,repudiam envergonhados.

Havemos de alevantá-lo, havemos de reabilitá-lo."

Fonte: www.resenet.com.br

Bento Gonçalves da Silva

Guerreiro durante a maior parte de sua vida, Bento Gonçalves da Silva morreu na cama. Maçom e defensor de idéias liberais, pelas quais lutou durante os quase dez anos da Revolução Farroupilha, viu, ao final de seu esforço, a vitória do poder central. Presidente da uma república, viveu a maior parte de sua vida em um Império.

Bento Gonçalves da Silva nasceu em Triunfo, em 1788, filho de alferes. Cedo, porém, saiu de sua terra. Em 1812 foi para Serro Largo, na Banda Oriental (Uruguai), onde se estabeleceu com uma casa de negócios. Dois anos depois estava casado, com Caetana Joana Francisca Garcia. Algumas versões afirmam que, em 1811, antes de se fixar na Banda Oriental, participou do exército pacificador de D. Diego de Souza, que atuou naquela região. Essa informação, entretanto, é discutida.

Mas, se não foi em 1811, em 1818 com certeza começou a sua atuação militar, quando participou da campanha do Uruguai (que culminaria com a anexação formal daquele país ao Brasil, em 1821, como Província Cisplatina). Aos poucos, devido à sua habilidade militar, ascendeu de posto, chegando a coronel em 1828, quando foi nomeado comandante do Quarto Regimento de Cavalaria de 1a. linha, estabelecido em Jaguarão. Passou a exercer também os postos de comandante da fronteira e da Guarda Nacional naquela região.

Provavelmente já era maçom nessa época, pois consta que organizou várias lojas maçônicas em cidades da fronteira. É certo, contudo, que sua influência política já era grande, pois o posto de comandante da Guarda Nacional era um cargo eminentemente político.

Em 1832 Bento foi indicado para um dos postos de maior influência que havia na província, o de comandante da Guarda Nacional do Rio Grande do Sul. Isto lhe dava uma posição estratégica, que soube utilizar quando da Revolução Farroupilha: sob seu comando estavam todos os corpos da Guarda Nacional, força especial que havia sido criada em 1832 e cujo oficialato era sempre composto por membros das elites de cada região.

Esse cargo de confiança, entretanto, não impediu que Bento continuasse dando apoio aos seus amigos uruguaios. Foi por isto que, em 1833, foi denunciado como desobediente e protetor do caudilho uruguaio Lavalleja, pelo mesmo homem que o havia indicado para o posto de comandante da Guarda Nacional, o marechal Sebastião Barreto Pereira Pinto, comandante de Armas da Província.

Chamado ao Rio de Janeiro para se explicar, Bento saiu vitorioso do episódio: não voltou para a província como comandante de fronteira, mas conseguiu do regente padre Feijó - que também defendia idéias liberais - a nomeação do novo presidente da Província, Antonio Rodrigues Fernandes Braga, o mesmo homem que iria derrubar, em 1835, quando deu início à Revolução.

De volta ao Rio Grande, continuou a defender suas idéias liberais, à medida que se afastava de Braga, denunciado pelos farrapos como prepotente e arbitrário. Eleito para a primeira Assembléia Legislativa da província, que se instalou em abril de 1835, foi apontado, logo na fala de abertura, como um dos deputados que planejava um golpe separatista, que pretendia desligar o Rio Grande do Brasil.

A partir desse momento, a situação política na província se deteriorou. As acusações mútuas entre liberais e conservadores eram feitas pelos jornais, as sessões da Assembléia eram tumultuadas. Enquanto isto, Bento Gonçalves articulava o golpe que teve lugar no dia 19 de setembro.

No dia 21, Bento Gonçalves entrou em Porto Alegre. Permaneceu na cidade por pouco tempo, deixando-a para comandar as tropas revolucionárias em operação na província. Exerceu esse comando até dois de outubro de 1836, quando foi preso no combate da ilha do Fanfa (em Triunfo), junto com outros líderes farrapos. Foi então enviado para a prisão de Santa Cruz e mais tarde para a fortaleza de Lage, no Rio de Janeiro, onde chegou a tentar uma fuga, da qual desistiu porque seu companheiro de cela, o também farrapo Pedro Boticário, era muito gordo, e não conseguiu passar pela janela. Transferiram-no então para o forte do Mar, em Salvador. Mesmo preso, sua influência no movimento farroupilha continuou, pois foi eleito presidente da República Rio-Grandense em 6 de novembro de 1836.

Mas, além do apoio farroupilha, Bento contava com o da Maçonaria, de que fazia parte. Essa organização iria lhe facilitar a fuga da prisão, em setembro de 1837. Fingindo que ia tomar um banho de mar, Bento começou a nadar em frente ao forte até que, aproveitando um descuido de seus guardas, fugiu - a nado - em direção a um barco que estava à sua espera.

Em novembro ele regressou ao Rio Grande, tendo chegado a Piratini, a então capital farroupilha, em dezembro, quando tomou posse do cargo para o qual havia sido eleito. Imediatamente, passou a presidência ao seu vice, José Mariano de Mattos, para poder comandar o exército farroupilha.

A partir de então, sua vida seriam os combates e campanhas, embora se mantivesse como presidente. Em 1843, entretanto, resolveu renunciar ao cargo, desgostoso com as divergências que começavam a surgir entre os farrapos. Passou a presidência a José Gomes de Vasconcelos Jardim, e o comando do exército a David Canabarro, assumindo apenas um comando de tropas.

As divisões entre os revolucionários terminaram por resultar em um desagradável episódio. Informado que Onofre Pires, um outro líder farrapo, fazia-lhe acusações, dizendo inclusive que era ladrão, Bento o desafiou para um duelo, no início de 1844. Onofre Pires foi ferido, e morreu dias depois devido a uma gangrena.

Embora tenha iniciado as negociações de paz com Caxias, em agosto de 1844, Bento não iria concluí-las. O clima de divisão entre os farrapos continuava, e ele foi afastado das negociações pelo grupo que se lhe opunha. Desligou-se, então, definitivamente da vida pública. Passou os dois anos seguintes em sua estância, no Cristal e, já doente, foi em 1847 para a casa de José Gomes de Vasconcelos Jardim, onde morreu, de pleurisia, em julho daquele ano.

Fonte: www.riogrande.com.br

Bento Gonçalves da Silva

(1788 - 1847)

Bento Gonçalves da Silva (Triunfo, RS, 23 de Setembro de 1788 — Pedras Brancas, RS, 18 de Julho de 1847) foi um militar e político brasileiro.

Filho de portugueses, seus pais desejavam encaminhar o filho para a carreira eclesiástica. Muito cedo, contudo, demonstrou que sua vocação era outra ao engajar-se na guerrilhas da primeira campanha cisplatina (1811-1812). Na segunda campanha cisplatina (1816-1821), seu prestígio como militar se confirmou.

Na guerra das Províncias Unidas do Rio da Prata, foi comandante de cavalaria na batalha de Sarandi (12 de Outubro de 1825) e na batalha de Ituizangó, também chamada de batalha de Passo do Rosário (20 de Fevereiro de 1827), cobrindo a retirada das tropas brasileiras. Nestas campanhas, conquistou o posto de coronel de guerrilhas.

Em 1829, pelos serviços prestados na campanha de 1825-1828 e que terminou com a independência do Uruguai, D. Pedro I nomeou Bento Gonçalves coronel de estado-maior, confiando-lhe o comando do 4° Regimento de Cavalaria de Linha e, em seguida, da fronteira meridional.

Em 1834, denunciado como rebelde e acusado de manter entendimentos secretos com Juan Antonio Lavalleja para a separação do Rio Grande do Sul, foi chamado à Corte. Defendeu-se perante o ministro da Guerra, foi absolvido e teve recepção triunfal no regresso à província. Os conservadores, no entanto, conseguiram a destituição de Bento Gonçalves do comando militar da Província do Rio Grande. Foi o estopim para a Revolução Farroupilha, que iria se iniciar em 20 de Setembro de 1835. No dia 25 daquele mês, o chefe militar declarou respeitar o juramento que havia prestado ao código sagrado, ao trono constitucional e à conservação da integridade do império. Em princípio, portanto, o levante não era de caráter separatista mas se dirigia contra o presidente da Província e Comandante das Armas. Mesmo assim, o Império não poderia aceitar a destituição de seus delegados - fosse por golpe ou não.

Iniciava-se a luta que se estenderia por dez anos. Bento Gonçalves foi preso no combate da ilha do Fanfa (3 e 4 de outubro de 1836). Foi mandado para a Corte e depois foi encarcerado no Rio de Janeiro no Forte da Laje e depois transferido para a Bahia onde ficou preso no Forte do Mar. Conseguiu, porém, evadir-se de modo espetacular da prisão baiana em 10 de Setembro de 1837. No período de sua prisão, a independência do Rio Grande do Sul foi proclamada pelo general Antônio de Sousa Netto e Bento Gonçalves aclamado presidente (6 de Novembro de 1836). De volta ao Rio Grande, aceitou o cargo e continuou a luta.

A república sul-rio-grandense teve seu fim no combate do Poncho Verde, em 28 de Fevereiro de 1845. Luís Alves de Lima e Silva - o Duque de Caxias -, general vitorioso, assumiu a presidência da Província e estabeleceu com os farrapos anistiados um acordo honroso para a pacificação. D. Pedro II, por sua vez, em sua primeira viagem como imperador pelas províncias do Império, foi ao Rio Grande em dezembro de 1845. Ao jovem monarca de vinte anos de idade, apresentou-se Bento Gonçalves, com seu uniforme de coronel e revestido de todas as medalhas com que havia sido condecorado por D. Pedro I, pela atuação nas campanhas militares do Primeiro Reinado.

Após o fim da revolta, Bento Gonçalves retornou para as atividades do campo sem interessar-se mais por política, Morreu dois anos depois, acometido de pleurisia.

Fonte: pt.wikipedia.org

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