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PROSOPOPÉIA

Bento Texeira

XLV

Porque Lémnio cruel, de quem descende

A Bárbara progênie e insolência,

Vendo que o Albuquerque tanto ofende

Gente que dele tem a descendência,

Com mil meios ilícitos pretende

Fazer irreparável resistência

Ao claro Jorge, baroil e forte,

Em quem não dominava a vária sorte.

XLVI

Na parte mais secreta da memória,

Terá mui escrita. impressa e estampada

Aquela triste e maranhada História,

Com Marte, sobre Vênus celebrada.

Verá que seu primor e clara glória

Há de ficar em Lete sepultada,

Se o braço Português vitória alcança

Da nação que tem nele confiança.

XLVII

E com rosto cruel e furibundo,

Dos encovados olhos cintilando,

Férvido, impaciente, pelo mundo

Andará estas palavras derramando":

- Pôde Nictélio só no Mar profundo

Sorver as Naus Meónias navegando,

Não sendo mor Senhor, nem mais possante

Nem filho mais mimoso do Tonante?

XLVIII

E pôde Juno andar tantos enganos,

Sem razão, contra Tróia maquinando,

E fazer que o Rei justo dos Troianos

Andasse tanto tempo o Mar sulcando?

E que vindo no cabo de dez anos,

De Cila e de Caríbdis escapando,

Chegasse à desejada e nova terra,

E c`o Latino Rei tivesse guerra?

XLIX

E pôde Palas subverter no Ponto

O filho de Oileu por causa leve?

Tentar outros casos que não conto

Por me não dar lugar o tempo breve?

E que eu por mil razões, que não aponto,

A quem do fado a lei render se deve,

Do que tenho tentado já desista,

E a gente Lusitana me resista?

L

Eu por ventura sou Deus indigete,

Nascido da progênie dos humanos,

Ou não entro no número dos sete,

Celestes, imortais e soberanos?

A quarta Esfera a mim não se comete?

Não tenho em meu poder os Centimanos?

Jove não tem o Céu? O Mar, Tridente?

Plutão, o Reino da danada gente?

LI

Em preço, ser, valor, ou em nobreza,

Qual dos supremos é mais qu’eu altivo?

Se Netuno do Mar tem a braveza,

Eu tenho a região do fogo ativo.

Se Dite aflige as almas com crueza,

E vós, Ciclopes três, com fogo vivo,

Se os raios vibra Jove, irado e fero,

Eu na forja do monte lhos tempero.

LII

E com ser de tão alta Majestade,

Não me sabem guardar nenhum respeito?

E um povo tão pequeno em quantidade

Tantas batalhas vence a meu despeito?

E que seja agressor de tal maldade

O adúltero lascivo do meu leito?

Não sabe que meu ser ao seu precede,

E que prendê-lo posso noutra rede?

LIII

Mas seu intento não porá no fito,

Por mais que contra mim o Céu conjure,

Que tudo tem em fim termo finito,

E o tempo não há cousa que não cure.

Moverei de Netuno o grão distrito

Para que meu partido mais segure,

E quero ver no fim desta jornada

Se val a Marte escudo, lança, espada.

LIV

"Estas palavras tais, do cruel peito,

Soltará dos Ciclopes o tirano,

As quais procurará pôr em efeito,

Às cavernas descendo do Oceano.

E com mostras d’amor brando e aceito,

De ti, Netuno claro e soberano,

Alcançará seu fim: o novo jogo,

Entrar no Reino d’Água o Rei do fogo.

LV

Logo da Pátria Eólia virão ventos,

Todos como esquadrão mui bem formado,

Euro, Noto os Marítimos assentos

Terão com seu furor demasiado.

Fará natura vários movimentos,

O seu Caos repetindo já passado,

De sorte que os varões fortes e válidos

De medo mostrarão os rostos pálidos.

LVI

Se Jorge d’Albuquerque soberano,

Com peito juvenil, nunca domado,

Vencerá da Fortuna e Mar insano

A braveza e rigor inopinado,

Mil vezes o Argonauta desumano,

Da sede e cruel fome estimulado,

Urdirá aos consortes morte dura,

Para dar-lhes no ventre sepultura.

LVII

E vendo o Capitão qualificado

Empresa tão cruel e tão inica,

Per meio mui secreto, acomodado,

Dela como convém se certifica.

E, duma graça natural ornado,

Os peitos alterados edifica,

Vencendo, com Tuliana eloqüência,

Do modo que direi, tanta demência."

LVIII

- Companheiros leais, a quem no Coro

Das Musas tem a fama entronizado,

Não deveis ignorar, que não ignoro,

Os trabalhos que haveis no Mar passado.

Respondestes ‘te ‘gora com o foro,

Devido a nosso Luso celebrado,

Mostrando-vos mais firmes contra a sorte

Do que ela contra nós se mostra forte.

LIX

Vós de Cila e Caríbdis escapando,

De mil baixos e sirtes arenosas,

Vindes num lenho côncavo cortando

As inquietas ondas espumosas.

Da fome e da sede o rigor passando,

E outras faltas em fim dificultosas,

Convém-vos aquirir uma força nova,

Que o fim as cousas examina e prova.

LX

Olhai o grande gozo e doce glória

Que tereis quando, postos em descanso,

Contardes esta larga e triste história,

Junto do pátrio lar, seguro e manso.

Que vai da batalha a ter vitória,

O que do Mar inchado a um remanso,

Isso então haverá de vosso estado

Aos males que tiverdes já passado.

LXI

Por perigos cruéis, por casos vários,

Hemos d’entrar no porto Lusitano,

E suposto que temos mil contrários

Que se parcialidam com Vulcano,

De nossa parte os meios ordinários

Não faltem, que não falta o Soberano,

Poupai-vos para a próspera fortuna,

E, adversa, não temais por importuna.

LXII

Os heróicos feitos dos antigos

Tende vivos e impressos na memória:

Ali vereis esforço nos perigos,

Ali ordem na paz, digna de glória.

Ali, com dura morte de inimigos,

Feita imortal a vida transitória,

Ali, no mor quilate de fineza,

Vereis aposentada a Fortaleza.

LXIII

Agora escurecer quereis o raio

Destes Barões tão claros e eminentes,

Tentando dar princípio e dar ensaio

A cousas temerárias e indecentes.

Imprimem neste peito tal desmaio

Tão graves e terríveis acidentes

Que a dor crescida as forças me quebranta,

E se pega a voz débil à garganta.

LXIV

De que servem proezas e façanhas,

E tentar o rigor da sorte dura?

Que aproveita correr terras estranhas,

Pois faz um torpe fim a fama escura?

Que mais torpe que ver umas entranhas

Humanas dar a humanos sepultura,

Coisa que a natureza e lei impede,

E escassamente às Feras só concede.

LXV

Mas primeiro crerei que houve Gigantes

De cem mãos, e da Mãe Terra gerados,

E Quimeras ardentes e flamantes,

Com outros feros monstros encantados;

Primeiro que de peitos tão constantes

Veja sair efeitos reprovados,

Que não podem (falando simplesmente)

Nascer trevas da luz resplandecente.

LXVI

E se determinais a cega fúria

Executar de tão feroz intento,

A mim fazei o mal, a mim a injúria,

Fiquem livres os mais de tal tormento.

Mas o Senhor que assiste na alta Cúria

Um mal atalhará tão violento,

Dando-nos brando Mar, vento galerno,

Com que vamos no Minho entrar paterno.

LXVII

"Tais palavras do peito seu magnânimo

Lançará o Albuquerque famosíssimo,

Do soldado remisso e pusilânimo,

Fazendo com tal prática fortíssimo.

E assim todos concordes, e num ânimo,

Vencerão o furor do Mar bravíssimo,

Até que já a Fortuna, d’enfadada,

Chegar os deixe a Pátria desejada.

LXVIII

À Cidade de Ulisses destroçados

Chegarão da Fortuna e Reino salso,

Os Templos visitando Consagrados,

Em procissão, e cada qual descalço.

Desta maneira ficarão frustrados

Os pensamentos vãos de Lémnio falso,

Que o mau tirar não pode o benefício

Que ao bom tem prometido o Céu propício.

LXIX

Neste tempo Sebasto Lusitano,

Rei que domina as águas do grão Douro,

Ao Reino passará do Mauritano,

E a lança tingirá em sangue Mouro;

O famoso Albuquerque, mais ufano

Que Iason na conquista do veo d’ouro,

E seu Irmão, Duarte valeroso,

Irão c`o Rei altivo, Imperioso.

LXX

Numa Nau, mais que Pístris, e Centauro,

E que Argos venturosa celebrada,

Partirão a ganhar o verde Lauro

À região da secta reprovada.

E depois de chegar ao Reino Mauro,

Os dois irmãos, com lança e com espada,

Farão nos Agarenos mais estrago

Do que em Romanos fez o de Cartago.

LXXI

Mas, ah! ínvida sorte, quão incertos

São teus bens e quão certas as mudanças;

Quão brevemente cortas os enxertos

A umas mal nascidas esperanças.

Nos mais riscosos trances, nos apertos,

Entre mortais pelouros, Entre lanças,

Prometes triunfal palma e vitória,

Para tirar no fim a fama, a glória.

LXXII

Assim sucederá nesta batalha

Ao mal afortunado Rei ufano,

A quem não valerá provada malha,

Nem escudo d’obreiros de Vulcano.

Porque no tempo que ele mais trabalha

Vitória conseguir do Mauritano,

Num momento se vê cego e confuso,

E com seu esquadrão roto e difuso".

LXXIII

Anteparou aqui Proteu, mudando

As cores e figura monstruosa,

No gesto e movimento seu mostrando

Ser o que há de dizer coisa espantosa.

E com nova eficácia começando

A soltar a voz alta e vigorosa,

Estas palavras tais tira do peito,

Que é cofre de profético conceito:

LXXIV

"Entre armas desiguais, entre tambores

De som confuso, rouco e redobrado,

Entre cavalos bravos corredores,

Entre a fúria do pó, que é salitrado;

Entre sanha, furor, entre clamores,

Entre tumulto cego e desmandado,

Entre nuvens de setas Mauritanas,

Andará o Rei das gentes Lusitanas.

LXXV

No animal de Netuno, já cansado

Do prolixo combate, e mal ferido,

Será visto por Jorge sublimado,

Andando quase fora de sentido.

O que vendo o grande Albuquerque ousado,

De tão trágico passo condoído,

Ao peito fogo dando, aos olhos água,

Tais palavras dirá, tintas em magoa":

LXXVI

- Tão infelice Rei, como esforçado,

Com lágrimas de tantos tão pedido,

Com lágrimas de tantos alcançado,

Com lágrimas do Reino, em fim perdido.

Vejo-vos c`o cavalo já cansado,

A vós, nunca cansado, mas ferido,

Salvai em este meu a vossa vida,

Que a minha pouco vai em ser perdida.

LXXVII

Em vós do Luso Reino a confiança

Estriba, como em base só, fortíssimo;

Com vós ficardes vivo, segurança

Lhe resta de ser sempre florentíssimo.

Entre duros farpões e Maura lança,

Deixai este vassalo fidelíssimo,

Que ele fará por vós mais que Zopiro

Por Dario, até dar final suspiro.

LXXVIII

"Assim dirá o Herói, e com destreza

Deixará o genete velocíssimo,

E a seu Rei o dará: Ó Portuguesa

Lealdade do tempo florentíssimo!

O Rei Promete, se de tal empresa

Sai vivo, o fará senhor grandíssimo,

Mas ‘te nisto lhe será avara a sorte,

Pois tudo cubrirá com sombra a morte.

LXXIX

Com lágrimas d’amor e de brandura,

De seu Senhor querido ali se espede,

E que a vida importante e mal segura

Assegurasse bem, muito lhe pede,

Torna à batalha sanguinosa e dura,

O esquadrão rompe dos de Mafamede,

Lastima, fere, corta, fende, mata,

Decepa, apouca, assola, desbarata.

LXXX

Com força não domada e alto brio,

Em sangue Mouro todo já banhado,

Do seu vendo correr um caudal Rio,

De giolhos se pôs, debilitado.

Ali dando a mortais golpes desvio,

De feridas medonhas trespassado,

Será cativo, e da proterva gente

Maniatado em fim mui cruelmente.

LXXXI

Mas adonde me leva o pensamento?

Bem parece que sou caduco e velho,

Pois sepulto no Mar do esquecimento

A Duarte sem par, dito Coelho.

Aqui mister havia um novo alento

Do Poder Divinal e alto Conselho,

Porque não hai quem feitos tais presuma

A termo reduzir e breve suma.

LXXXII

Mas se o Céu transparente e alta Cúria

Me for tão favorável, como espero,

Com voz sonora, com crescida fúria,

Hei de cantar Duarte e Jorge fero.

Quero livrar do tempo e sua injúria

Estes claros Irmãos, que tanto quero,

Mas, tornando outra vez a triste História,

Um caso direi digno de memória.

LXXXIII

Andava o novo Marte destruindo

Os esquadrões soberbos Mauritanos,

Quando sem tino algum viu ir fugindo

Os tímedos e lassos Lusitanos.

O que de Pura mágoa não sufrindo

Lhe diz"; - Donde vos is, homens insanos?

Que digo: homens, estátuas sem sentido,

Pois não sentis o bem que haveis perdido?

LXXXIV

Olhai aquele esforço antigo e puro

Dos ínclitos e fortes Lusitanos,

Da Pátria e liberdade um firme muro

Verdugo de arrogantes Mauritanos;

Exemplo singular para o futuro

Ditado, e resplandor de nossos anos,

Subjeito mui capaz, matéria digna

Da Mantuana e Homérica Buzina.

LXXXV

Ponde isto por espelho, por treslado,

Nesta tão temerária e nova empresa.

Nele vereis que tendes já manchado

De vossa descendência a fortaleza.

À batalha tornai com peito ousado,

Militai sem receio, nem fraqueza,

Olhai que o torpe medo é Crocodilo

Que costuma, a quem foge, persegui-lo.

LXXXVI

E se o dito a tornar vos não compele,

Vede donde deixais o Rei sublime?

Que conta haveis de dar ao Reino dele?

Que desculpa terá, tão grave crime?

Quem haverá que por traição não sele

Um mal que tanto mal no mundo imprime?

Tornai, tornai, invictos Portugueses,

Cerceai malhas e fendei arneses.

LXXXVII

"Assim dirá: mas eles sem respeito

À honra e ser de seus antepassados

Com pálido temor no frio peito,

Irão por várias partes derramados.

Duarte, vendo neles tal defeito,

Lhe dirá": - Corações efeminados,

Lá contareis aos vivos o que vistes,

Porque eu direi aos mortos que fugistes.

LXXXVIII

"Neste passo carrega a Maura força

Sobre o Barão insigne e velicoso;

Ele, onde vê mais força, ali se esforça,

Mostrando-se no fim mais animoso.

Mas o fado, que quer que a razão torça.

O caminho mais reto e proveitoso,

Fará que num momento abreviado

Seja cativo, preso e mal tratado.

LXXXIX

Eis ambos os irmãos em cativeiro.

De peitos tão protervos e obstinados,

Por cópia inumerável de dinheiro

Serão (segundo vejo) resgatados.

Mas o resgate e preço verdadeiro,

Por quem os homens foram libertados,

Chamará neste tempo o grão Duarte,

Para no claro Olimpo lhe dar parte.

XC

Ó Alma tão ditosa como pura,

Parte a gozar dos dotes dessa glória,

Donde terás a vida tão segura,

Quanto tem de mudança a transitória!

Goza lá dessa luz que sempre dura;

No mundo gozarás da larga história,

Ficando no lustroso e rico Templo

Da Ninfa Gigantea por exemplo.

XCI

Mas, enquanto te dão a sepultura,

Contemplo a tua Olinda celebrada,

Coberta de fúnebre vestidura,

Inculta, sem feição, descabelada.

Quero-a deixar chorar morte tão dura

‘Té que seja de Jorge consolada,

Que por ti na Ulissea fica em pranto,

Em quanto me disponho a novo Canto.

XCII

Não mais, esprito meu, que estou cansado,

Deste difuso, largo e triste Canto,

Que o mais será de mim depois cantado

Por tal modo, que cause ao mundo espanto.

Já no balcão do Céu o seu toucado

Solta Vênus, mostrando o rosto Sancto;

Eu tenho respondido c`o mandado

Que mandaste Netuno sublimado".

XCIII

Assim diz; e com alta Majestade

O Rei do Salso Reino, ali falando,

Diz: - Em satisfação da tempestade

Que mandei a Albuquerque venerando,

Pretendo que a mortal posteridade

Com Hinos o ande sempre sublimando,

Quando vir que por ti o foi primeiro,

Com fatídico esprito verdadeiro.

Epílogo

XCIV

Aqui deu [fim] a tudo, e brevemente

Entra no Carro [de] Cristal lustroso;

Após dele a demais Cerúlea gente

Cortando a veia vai do Reino acoso.

Eu que a tal espetáculo presente

Estive, quis em Verso numeroso

Escrevê-lo por ver que assim convinha

Para mais perfeição da Musa minha.

FIM

Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br

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