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Histórias e Tradições da Província de Minas Gerais

 

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A cabeça do Tiradentes Tradição mineira

Quereis, minhas senhoras, que vos conte uma história para disfarçar o enfado destas longas e frigidíssimas noites de maio? Mas, por melhor que seja a minha vontade, não sei, como possa satisfazer ao vosso pedido... digo mal, – cumprir as vossas ordens.

Este frio enregela-me as asas da imaginação; este vento glacial, que uiva pelos telhados, como uma matilha de cães danados, estes guinchos de corujas, que parecem lamentos de precitos, fazem a inspiração recolher-se toda encolhida aos mais íntimos esconderijos do crânio, tiritando de frio e de medo.

A falar-vos verdade, minhas senhoras, tenho o espírito tão seco e estéril, como a caveira de um defunto enterrado há cem anos.

Ah! falei-vos em caveira!...

E não é, que esta idéia de caveira veio despertar-me a reminiscência entorpecida pelo frio?! Foi como a vara mágica de Moisés, que fez rebentar água em jorros da aridez do rochedo do deserto.

E pois vou contar-vos a história de uma caveira memorável.

Não se arrepiem, minhas senhoras; não é história de almas do outro mundo, de trasgos, nem de duendes.

É uma simples tradição nacional, ainda bem recente, e da nossa própria terra.

Essa história eu a poderia intitular:

História de uma Cabeça Histórica

Era pelos fins do século passado; em 178...

Nesse tempo, esta capital de Minas, que então com justa razão tinha o nome de Vila Rica, era opulenta e populosa, como bem poucas cidades se podiam contar no Brasil.

Os governadores e fidalgos dessa época rodavam em ricas carruagens tiradas por possantes mulas por essas ladeiras, onde hoje só rincham pesados carros puxados a bois.

Havia quase sempre curros ou touradas, e cavalhadas magníficas; procissões de esplendor e riqueza deslumbrantes; espetáculos teatrais, em que a arte suntuosamente protegida pelos governadores era cultivada com 1 esmero no gosto da época; uma literatura própria, se bem que um tanto abastardada pela imitação do classicismo lusitano, literatura de que foram dignos representantes nomes até hoje célebres.

Gonzaga, Alvarenga Peixoto e Cláudio Manuel da Costa são glórias, que nunca mais se eclipsarão.

Havia regozijos e festas de toda a espécie, muito luxo, comércio interior ativo, e o povo nadava na abundância.

E tudo isso por quê? Porque naquela época o ouro por essas montanhas como que brotava à flor da terra.

O ouro era tão abundante, que os próprios pretos cativos, com as migalhas que escapavam das lavras de seus senhores, edificaram mais de um templo magnífico, que até hoje aí estão, e as pretas, quando iam às suas festas costumeiras, polvilhavam a carapinha com areia de ouro.

Mas em contraposição a tudo isso, o povo gemia debaixo da mais vil, da mais infamante escravidão.

O bem-estar material era grande; mas a degradação moral era profunda.

Ali sobre aquele morro se erguia o vulto sinistro e ameaçador da forca, que nunca se desarmava, e em que a um simples aceno da tirania, apenas com uma aparente forma de processo, se imolava tanto o criminoso como o inocente.

Acolá, no meio daquela praça pública, em face de um templo cristão, – como um sarcasmo vivo, – até bem pouco tempo se achava alçado o pelourinho, ainda mais infamante, em que o cidadão era azorragado publicamente, como o mais vil escravo.

Os capitães-mores também de sua parte castigavam arbitrariamente com açoutes, com o tronco e até com a palmatória as mais leves faltas de seus governados.

O ouro extraído das minas pelo braço do povo era na sua maior parte destinado a alimentar o luxo e a cobiça de seus opressores.

Minas, bem como o Brasil inteiro, era bem como uma vasta fazenda explorada em proveito da metrópole.

O povo era uma turma de escravos, que trabalhavam debaixo do azorrague de seus feitores, – os governadores, capitães-mores, guardas-mores etc.

A fazenda prosperava; mas os escravos indóceis começavam a se enfadar de arroteá-la só para benefício de seus senhores.

II

E nessa época de riqueza e opulência, de servilismo e degradação social, no meio da praça principal desta cidade se via uma cabeça humana dessecada, cravada sobre um alto poste.

Este poste e esta cabeça eram noite e dia guardados por uma sentinela.

E à noite uma lanterna se acendia para alumiar o lúgubre espetáculo.

Havia dois ou três anos que este sinistro padrão da mais brutal e feroz tirania existia ali hasteado.

E por que razão esse cuidado em conservar ali tão guardado, tão vigiado, aquele triste e miserando resto de uma vítima há tanto tempo sacrificada?...

Para que aquela sentinela ali postada constantemente dia e noite?...

Temiam acaso que aquele crânio oco e ressequido onde há tanto tempo se extinguira a vida e o pensamento, de novo se reanimasse, e reunindo-se ao tronco esquartejado e esparso, desse outra vez o sinal da revolta ao povo oprimido?...

Ou receavam que esse crânio, hasteado na ponta do estandarte da emancipação, fosse o sinal certo da queda dos tiranos e do triunfo da liberdade, como esse célebre tambor que os soldados húngaros fizeram da pele de seu bravo chefe Ziska, morto no campo da batalha, tambor que quando rufava à frente deles, era seguro prenúncio da vitória? Pobre Tiradentes!... ainda que não fosse tão nobre e santa a causa por que te imolaste, a morte afrontosa que sofreste, e a crueldade, direi asquerosa, com que profanaram teus miserandos restos, eram motivos bastantes para abençoarmos tua memória e execrarmos a de teus algozes.

III

Era uma noite tenebrosa, horrenda, como essa que aí vai correndo.

Impetuosa ventania, zunindo pelos tetos da antiga e opulenta Vila Rica submersa no sono e no silêncio, impelia pelos ares camadas e camadas de espessa e frigidíssima neblina, e fazendo oscilar sobre seu poste a caveira do mártir da liberdade com sinistro estrépito, agitava-lhe os compridos cabelos castanhos ainda aderentes ao crânio.

Parecia que aquela cabeça heróica, bafejada pelo sopro da liberdade que rugia das montanhas, em seu fúnebre oscilar ameaçava ainda os tiranos, e lhes predizia a próxima ruína.

O pálido clarão da lanterna, que balouçava ao vento, ondulava lúgubre sobre a ossada branquicenta, desenhando ao vivo as cavidades negras dos olhos e a dentadura amarelada.

O pobre sentinela, talvez considerando que estava de guarda a um crânio ressequido que a ninguém podia fazer mal, e que longe de excitar a cobiça, só poderia inspirar horror, o sentinela sentado no hão, recostado sobre uma pedra, e com a arma sobre os joelhos, deixava-se furtar do sono.

Um vulto todo rebuçado surge por entre as trevas, e se aproxima cautelosamente do tremendo poste.

Com uma comprida vara que trazia, faz saltar do poste a caveira, apanha-a rapidamente, e de novo desaparece com o favor das trevas e do nevoeiro.

Tudo isto foi feito com tal presteza, que quando o guarda, despertado pelo som rouco da caveira ao cair, deu fé do ocorrido, já era tarde. Viu apenas uma sombra engolfar-se e desaparecer através do nevoeiro.

Um instante depois o relógio da cadeia badalava meia-noite.

O guarda contou que um fantasma de fogo, esvoaçando pelos ares, havia roubado o crânio, e desaparecera nas nuvens.

As sentinelas da cadeia atestaram o fato e o guarda do poste foi acreditado, e não sofreu castigo.

Não era mesmo para acreditar que o anjo do Brasil viesse reivindicar aquela relíquia veneranda do mártir da liberdade?...

IV

Conheceis essa comprida rua, que na extremidade ocidental desta cidade se estende isolada por uma encosta acima, como a cauda de um lagarto.

Chama-se a rua das Cabeças.

A origem desse nome sinistro vem de que aí se fincavam na ponta de estacas as cabeças dos míseros enforcados pelas esquinas dos becos.

– Para servir de exemplo e escarmento aos povos – diziam os tiranos.

Mas os fatos vieram depois comprovar-lhes, que erravam, procedendo assim.

No alto dessa rua, não há muitos anos, existia ainda um velho de vida misteriosa e retraída, a quem o povo olhava com respeito e curiosidade.

Vivendo sozinho em uma casa quase arruinada, comunicando-se raras vezes com seus semelhantes e só em caso de necessidade, parecia um anacoreta ou um homem possuído de singular monomania.

Entretanto os curiosos, que nunca faltam nas cidades, espiolhando um dia pelas fendas das arruinadas paredes da morada do velho, devassaram um singularíssimo segredo de sua vida íntima.

Viram-no abrir com ar de religioso respeito a portinhola de um nicho ou de um armário praticado na parede, tirar dele um crânio humano branco e mirrado, depô-lo silenciosamente sobre uma mesa colocada em frente a um oratório, e ajoelhando-se depois com os braços encostados sobre a mesa, assim ficar por largo tempo, em atitude de profunda meditação, ou no êxtase de uma oração.

Mas esta descoberta, como bem se pode ver, em nada veio dissipar o mistério que pairava sobre a vida do velho. Pelo contrário vinha ainda rodeá-la de mais um sinistro prestígio, e em vez de acalmar a curiosidade do povo, concorreu para mais excitá-la.

Que crânio seria esse, que o velho guardava, e parecia venerar com religioso acatamento? Seria relíquia de algum ente amado? Seria o velho algum assassino, que em expiação de seu crime queria ter sempre diante de si o crânio da sua vítima para lacerar continuamente a consciência com o cilício do remorso?...

Seria algum cenobita imitador de S. Jerônimo, que tinha sempre diante de seus olhos uma caveira humana a fim de conservar de contínuo presente ao espírito o nada da existência? A maior parte do povo porém ficou tendo o pobre velho por um grande feiticeiro, e por isso tinha-lhe medo e o respeitava.

Assim pois, descobrindo aquele segredo da vida do velho ainda a tornaram mais misteriosa e quase sinistra.

Pouco tempo depois morreu o velho, foi pobremente enterrado no adro relvado da capela do Senhor Bom Jesus, sita na mesma rua, e sua casa tombando em ruínas, ficou abandonada, pois se já em vida de seu dono era objeto de terror para o povo, muito mais o ficou sendo depois de seu falecimento.

Não foi senão alguns anos depois, que se veio no conhecimento, de que o velho misterioso não era outro senão o ousado roubador da cabeça do Tiradentes, e que a caveira, que com tão religioso cuidado guardava e venerava, era a daquele ilustre e desditoso mártir do primeiro movimento emancipador.

Contou depois isto alguém, que era o único depositário do segredo do velho, e que por ignorância ou indiferença ligava pouca importância a um fato tão curioso.

Que é feito porém desse crânio histórico, que tão generosos pensamentos abrigou outrora em seu seio? Quereria seu possuidor em sua fanática veneração pela liberdade e por aquela relíquia do seu principal mártir, que ela fosse com ele enterrada, e seria cumprida a sua última vontade? Ou ficaria essa relíquia, – digna de ser encerrada em uma urna de ouro, – calcada debaixo dos entulhos das paredes esboroadas da habitação do velho?...

Ninguém o sabe.

Os fatos, que acabo de narrar, posto que pouco conhecidos, são tradicionais.

Perguntem aos velhos, e mesmo a alguns moços mais curiosos, das coisas antigas da nossa terra, e se convencerão de que esta história não é de minha lavra.

Ouro Preto, maio de 1867.

A filha do fazendeiro

Introdução

A cinco ou seis léguas ao norte da cidade de Uberaba na província de Minas Gerais se via ainda há alguns anos uma capelinha isolada ou ermida no alto de um espigão, dominando por todos os lados um largo e risonho horizonte como atalaia imóvel olhando em derredor as solidões. Era uma pequenina e tosca construção de madeira com quatro paredes, coberta de telha e coroada por uma cruz, como se encontram muitas disseminadas por esses vastos sertões.

Essas capelinhas têm de ordinário junto a si um cercado de pedra ou de madeira, que serve de cemitério aos fazendeiros vizinhos. Quando se diz – vizinho – naquelas paragens, e principalmente em eras mais remotas, entende-se moradores de cinco, seis, sete e mais léguas em redor.

A capelinha, a que nos referimos, tinha também junto a si o seu terreno sagrado, cercado de muro de pedra, e com uma cruz no meio, e era ali, que os fazendeiros daqueles contornos mandavam enterrar os seus defuntos, para se forrarem ao trabalho de mandá-los viajar dezenas de léguas levando-os aos povoados onde houvesse cemitérios sagrados. Esta, porém, não foi erigida especialmente para esse fim, como se verá pelo decurso desta história.

Do alto da capelinha enxergava-se em distância de cerca de meia légua em um aprazível vargedo a fachada denegrida arruinada de uma grande fazenda, com seus vastos currais, senzalas, moinho e engenho de cana, mas tudo a desmoronar-se, tudo abafado entre o matagal, que começava a tomar conta do terreno com a vigorosa e luxuriante vegetação, que há naquelas regiões. A fazenda achava-se situada ao pé de um lançante entre duas vertentes orladas de filas de coqueiros chamados buritis, cujas linhas se perdiam na imensidade dos horizontes como fileira de guerreiros selvagens postados em ordem de batalha ao longo dos chapadões. As terras de cultura ou matos de plantio eram mais longe, nas escuras matas, que acompanham as margens de um ribeirão, que vai desaguar no Rio das Velhas.

A algumas centenas de passos além da capelinha havia à beira do caminho uma cruz de pau toscamente lavrado, e via-se claramente que ali havia uma sepultura. Existindo ali tão perto uma capela e um recinto sagrado para se enterrarem os mortos, por que razão fora ali sepultado aquele corpo, assim segregado dos outros hóspedes do túmulo? Aquele lugar tinha reputação de mal-assombrado, e agente daqueles contornos, que bem sabe disso, evita o mais que pode passar por ali depois de noite fechada. Um, que por desgraça teve de passar por lá a desoras, quase que lá ficou morto de medo fazendo companhia ao enterrado. Con-tou, que vira sobre a sepultura levantar-se um fantasma monstruoso, o qual depois de exalar um gemido prolongado e lamentoso como o uivo de um cão, arrebentou dando um estouro como de um tiro, e desmanchou-se em línguas de fogo vivo, que passearam por algum tempo por cima da sepultura, e sumiram-se um momento depois.

Se o leitor deseja saber que acontecimentos deram lugar ao abandono daquela linda fazenda, e qual o mistério que encerram aquela sepultura e aquela capelinha, leia a seguinte história, que há tempos me foi contada por um morador daquelas paragens, e que eu tratarei de reproduzir com toda a fidelidade e individuação, que a memória me permitir.

Capítulo 1 - A caçada de onça

Estava-se abrindo uma vasta roça no meio de uma mata virgem na fazenda de que acabamos de falar; isto há de haver mais de quarenta anos. Era ocasião da derribada; a foice já tinha ceifado e desbastado o mato miúdo, as taquaras e cipós, que emaranhavam a floresta. Os troncos robustos e colossais da peroba, da canjerana, da paineira, do cedro e do ipê ostentavam-se nus, e campeavam desafogados aqui e acolá, como colunas que ficaram em pé de um templo cujos tetos e paredes desabaram. Mas era mister também deitar por terra esses gigantes de vegetação, que com suas cúpulas imensas ensombravam o terreno da plantação, e roubavam a seiva ao solo. Contra cada um deles investiam dois ou três vigorosos e truculentos negros brandindo pesados e possantes machados. Nus da cintura para cima luziam-lhes as espáduas musculosas banhadas em suor aos ardentes raios do sol de agosto. Os golpes do machado restrugiam compassados pela encosta ao som da cantiga monótona do africano. De tempos a tempos ouvia-se um rangido horrendo; um rápido e passageiro tufão atravessava uivando a floresta, e a terra estremecia ao medonho estrugido de um tronco, que baqueava no meio da grita e alarido dos rudes trabalhadores.

Ao pé da encosta, onde se fazia a roçada, e à beira de um pequeno córrego havia um rancho ou coberta de capim de beira no chão, como os há em todas as roças, onde se preparava a comida para os escravos, e que lhes servia de guarida contra os temporais.

Enquanto no interior do rancho uma escrava preparava comida dos trabalhadores, assentada à porta se via uma alva e delicada figura, que contrastava singularmente com a bronca e selvática perspectiva de tudo que a rodeava. Era uma menina de dezesseis ou dezessete anos, alva, esbelta, e de compridos cabelos castanhos.

Tinha no regaço uma peneira, em que estava limpando o arroz, que tinha de servir ao jantar. Os pés encruzados pousavam sobre umas tamanquinhas de marroquim vermelho, e a saia do vestido cor de rosa meio apanhada deixava ver as extremidades das alvas e mimosas pernas. Por causa da intensa calma descera o corpinho do vestido, e assim sem xale e em mangas de camisa quase que se lhe viam nus os seios, que arfavam puros e castos como os de Raquel, quando ia dar de beber ao rebanho na cisterna, onde encontrou Jacó.

Seria impudicícia um tal desalinho em outro lugar, e em outra qualquer criatura; mas cobria-a o véu da inocência, e o recato da solidão. De quando em quando erguia a cabeça e sacudia para trás dos ombros as longas e bastas madeixas, que importunas lhe caíam pelas faces a tapar-lhe os olhos e estorvar-lhe o serviço em que se ocupava, e então deixava ver um lindíssimo oval ornado pela mais graciosa boca e os mais magníficos olhos que se podem imaginar. A todos esses encantos, dava esplêndido realce o vivo rubor, com que o mormaço de um sol ardente lhe afogueava as faces.

Cairia por acaso do céu naquele bronco sítio à entrada do pobre rancho essa estátua de marfim, tão alva, tão delicada, digna de pousar sobre pedestal de alabastro, e de ser emoldurada entre sanefas de ouro e brocado? Ou acaso um anjo baixara à terra como nos tempos bíblicos a conviver e abrigar-se à sombra da grosseira cabana do homem primitivo? Paulina era a filha do fazendeiro. Filha única e órfã de mãe, gostava de acompanhar seu pai em todos os rudes trabalhos da lavoura do sertão. Por isso enquanto seu pai com um comprido rebenque na mão, calçado de grossas botas de mateiro rompia espinhais e coivaras feitorizando o trabalho da derribada, ela tomava conta do rancho e ajudava a preta rancheira nos misteres da cozinha. Mimosa e delicada como era e não tendo sido criada no meio daquelas fragueiras lides, nem por isso Paulina tinha nada de melindrosa, e se entregava com o maior desembaraço aos mais humildes e grosseiros serviços. Além das perfeições que recebera da natureza, Paulina tinha tido uma educação acurada e a mais completa que naqueles tempos em nosso país se podia dar a uma menina. Ainda em tenros anos tinha sido enviada para um colégio em S. João del-rei, onde a gentil sertaneja recebeu com muito aproveitamento lições de leitura, música, dança, e aprendeu as maneiras de uma sociedade um pouco mais polida do que era a da Uberaba naqueles tempos.

Por morte de sua mãe, a que sucedeu imediatamente a de um irmão único que tinha, seu pai acabrunhado por tão dolorosos golpes, e vendo-se na mais triste soledade, apressou-se em chamá-la para junto de si, pois era ela o único bem que o céu lhe tinha deixado para mitigar a dor de tão sensíveis perdas. Ali na solidão daquela fazenda, todos os dotes que Paulina recebera da natureza e da educação, vieram a tornar-se-lhe inteiramente inúteis. As belas faculdades de que o céu a dotara, e que no colégio começavam a desabrochar com brilho, ali, sem achar expansão alguma, concentravam-se em si mesmas, e Paulina, que tinha muita sensibilidade e imaginação viva, foi-se tornando de um caráter disposto à melancolia e a essas paixões vagas, que ao despontar da puberdade costumam atormentar as organizações poéticas e delicadas. Poucas vezes deixava o retiro de sua fazenda para ir a Uberaba, que aliás naquele tempo era ainda uma insignificante aldeia. A família de um fazendeiro vizinho, seu parente, que morava daí a duas léguas, era a única que de quando em quando vinha interromper com suas visitas a monótona solidão do viver de Paulina. Seu pai bem a induzia a passear mais freqüentemente ao arraial, a ir passar alguns dias em companhia de suas primas. Mas ela parece que não achava muito encanto na companhia das primas nem nas festanças do arraial, e lhes preferia a solidão de sua casa e a companhia de seu velho pai, para quem era toda extremos, e poucas vezes se utilizava dessas permissões. Alguns passarinhos, o cuidado de um pequeno e lindo jardim, alguns livros e seus trabalhos de agulha, bastavam para encher-lhe agradavelmente o tempo.

Havia já alguns minutos que Paulina se achava à entrada do rancho entretida naquele serviço, quando subitamente ergueu a cabeça, sacudiu para trás os compridos cabelos, alongou o colo, e pôs-se a escutar... fazia lembrar o esbelto e arisco colhereiro, que estando a pescar tranqüilamente à borda do lago, ao sentir qualquer rumor alça o colo rosado prestes a bater as asas.

Paulina estava escutando um toque de cães de caça, que vinham descendo pela mata, córrego abaixo, com incrível assanhamento. Os latidos dos cães e a vozeria dos caçadores, que os açulavam, se aproximavam rapidamente atroando a floresta, e era evidente que o animal, fosse qual fosse, que era acossado, vinha acompanhando o córrego, e tinha de saltar no roçado exatamente em frente do rancho, em que se achava Paulina. Ela, posto que algum tanto afeita a essas cenas selváticas, não deixou de amedrontar-se, e correu para dentro do rancho.

– Suzana! Suzana!... gritou ela para a negra, – não ouves?... aquele toque de cachorros?... meu Deus! não vá ser algum bicho bravo!...

– He! ha! santa virgem! murmurou a negra depois de chegar à porta do rancho e escutar um momento. – Aquele toque, sinhazinha, se ele não é de anta, quer me parecer que é de onça. Cachorro não está latindo alegre como quando toca veado, não.

– Ouça, Suzana!... ah! meu Deus! que medo! o que será de nós aqui sozinhas!...

– Não tem susto, sinhazinha; onça não vem cá, não; não está aí tanta gente pra matar ela?...

– Quem sabe, Suzana; – chama meu pai, chama depressa...

– Sossega, sinhazinha; – olha, lá vem eles todos...

De feito o fazendeiro, que ouvira também a tocada dos cães, tinha largado imediatamente o serviço e descia pela encosta acompanhado de alguns escravos armados de foices e machados, e vinham fazer frente ao animal que saltasse da mata.

Um momento depois um enorme animal amarelo malhado de preto surgiu da mata e, rápido como um corisco, saltando pelas coivaras se encaminhava para o lado do rancho, onde nesse mesmo instante chegavam dois possantes e resolutos negros, que o velho mandara a toda a pressa para ficarem junto de Paulina. Os negros, que avistaram a onça, romperam numa horrível gritaria: – É onça! é onça! acode gente!... mata! mata!– Espavorida com aqueles berros a onça estacou um momento.

Ela estava apenas como a uns duzentos passos do rancho; perto se achava um tronco de peroba meio tombado, que ao cair ficara engastalhado na galhada de uma árvore vizinha. A onça pulou nele, e correu a empoleirar-se no ponto mais alto, a que pôde galgar. Os cães, que a perseguiam, desembocavam da mata e se reuniam embaixo do tronco, escalavrando-o com unhas e dentes, e dando saltos e ganidos furiosos. Assalto inútil! a onça passeava mui ancha e sobranceira ao longo do pau, e ora subia até a mais alta grimpa, ora descia até quase ao alcance deles, arreganhando-lhes os dentes como num sorriso feroz a mofar de seus vãos esforços, e apoiando a cabeça enorme sobre as patas dianteiras os contemplava bem de pertinho, e como que os contava um a um em ar de desdém.

Entretanto o fazendeiro acompanhado de seus escravos vinha atropeladamente rompendo através das coivaras, e se aproximava da fera.

Paulina que transida de pavor mal ousava deitar a cabeça fora da portinhola do rancho, em vão bradava com quantas forças tinha: Meu pai! meu pai! por quem é? não vá lá! O velho avizinhou-se intrépido do terrível animal, apontou-lhe direito ao sangrador a espingarda de fiança, que sempre trazia consigo, mas decerto a mão vacilou-lhe, porque tiro apenas pegou de leve na costela da onça. O animal irritado deu um urro medonho, desceu até ao meio do tronco curvou o dorso como cobra que quer dar o bote, pulou por cima de toda a alcatéia de cães, que esganiçando se apinhavam embaixo do pau, correu como uma seta para o lado do rancho, e embarafustou por ele adentro.

Os negros soltaram a um tempo um grito de pavor, e o velho fazendeiro sentiu gelar-se-lhe o coração de susto, as pernas bambearam-lhe, e quase que foi ao chão. Mas o amor paternal sobrepujou o terror, e o pobre velho tropeçando, abalroando e caindo pelos tocos e coivaras correu com a maior celeridade que pôde para o lado do rancho; o mesmo fizeram os escravos, que o acompanhavam. A onça, quando entrara no rancho atropelada e acossada de perto pelos cães, nem de leve tocou, e talvez nem viu as duas criaturas, que lá se achavam; cuidando que ali seria uma toca, onde acharia guarida segura, só tratava de defender-se contra os que a perseguiam.

O rancho tinha somente aquela estreita entrada, onde há pouco Paulina se achava sentada. As duas míseras mulheres não tinham nem para onde correr, pois a onça apoderando-se dessa entrada voltara a frente para fora mostrando a seus perseguidores as alvas e enormes presas, e as formidáveis patas capazes de estrangular um boi. Paulina para logo caiu desfalecida; a negra mais morta que viva recolheu-se toda ao ângulo, que a coberta formava com o chão, como querendo entranhar-se pela terra adentro, tiritando de medo e encomendando a alma a Deus.

Assim pois naquele mesmo lugar em que ainda há pouco se sentava a criatura mais primorosa da terra, um transunto dos anjos do céu, respirando inocência, paz e ventura, alapardava-se agora o mais feroz e hediondo dos seres da criação, com os olhos chamejantes de furor, e as goelas abrasadas em sede de sangue.

Enquanto o fazendeiro com mão trêmula carregava a espingarda, os negros, que não tinham por armas senão foices e machados, hesitavam na maior perplexidade sobre o que deveriam fazer. Atacar a fera sem ter certeza alguma de matá-la de um só golpe, era perigosíssimo; ela podia num momento estraçalhar mais de um, ou o que ainda seria pior, recuando para o interior do rancho voltar sua sanha contra as duas infelizes, que lá se achavam na mais crítica e assustadora situação.

Enquanto os pretos vacilavam, e o amo escorvava espingarda, um cavaleiro a todo o galope rompe da mata, e investe para o rancho, a cuja porta a onça dava combate sanguinolenta aos cães, que ousavam aproximar-se-lhe. Já estava na distância de um tiro de espingarda, quando seu cavalo embaraça-se nas coivaras, e cai. Mas lesto e pronto o cavaleiro salta fora dos arreios, e com uma pistola em cada mão avança resoluto para a onça e desfecha-lhe à queima-roupa um tiro na cabeça. Em dois arrancos o feroz animal arroja-se sobre ele, lança-o por terra, e cai também para um lado estrebuchando e morre.

Nesse momento chegavam já, porém tarde, os outros caçadores, que vieram achar três corpos exânimes, a onça, que expirara, o cavaleiro malferido e banhado em sangue, e Paulina desmaiada. Uma das enormes patas da onça tinha apanhado em cheio o peito do infeliz caçador, e lacerando-lhe cruelmente as carnes o havia derribado no chão sem sentidos.

Uma cuia de água fria lançada na cabeça de Paulina restituiu-lhe prontamente os sentidos, e o consternado pai levantou aos céus as mãos agradecidas chorando de alegria ao ver que felizmente sua filha estava ilesa. Mas o denodado caçador, o intrépido salvador de sua filha, esvaía-se em sangue que jorrava de três largos e fundos lanhos, que as garras do animal lhe haviam aberto no peito, e o velho e todos os mais estavam na mais cruel aflição e desassossego por se acharem naquele ermo tão longe de qualquer recurso. Lavatórios de água fria, fios e ataduras, que eram os meios de que ali se podia lançar mão, nada conseguia estancar o sangue, que corria copioso das feridas. A própria Paulina, a quem o pai em rápidas e animadas palavras contara o ocorrido, já esquecida do seu susto, pálida e consternada se debruçava sobre o corpo exânime do ferido, e rasgando o lenço e a saia do seu vestido fazia atilhos e chumaços, que com suas próprias mãos ia aplicando sobre as feridas.

Felizmente, mais sabido do que todos eles em matéria de curar feridas, um preto velho tinha corrido ao mato, e voltava com um punhado de folhas na mão. Apenas chegou, todos se arredaram para lhe dar lugar. O preto ajoelhou-se perto do ferido, tirou todos os fios e ataduras, e fazendo pantomimas e murmurando palavras cabalísticas, mascou três ou quatro bocados das folhas que trazia, e foi deitando-as sobre as feridas. Em poucos instantes o sangue estava estancado, e o caçador conduzido para o interior do rancho e cuidadosamente deposto sobre uma esteira, em menos de uma hora recobrou os sentidos. Dali forçoso era levá-lo para casa do fazendeiro para ser convenientemente tratado, pois havia perdido muito sangue e seu estado era melindroso.

A onça marrada a um pau pelas quatro patas e carregada aos ombros de dois possantes negros, que gemiam debaixo do peso do truculento animal, e aos lados e atrás dela a cáfila dos cães arquejando de cansaço com as línguas dependuradas, ganindo e uivando com um choro fúnebre; em se-guida o caçador cuidadosamente acomodado em um cobertor, de que armaram uma rede, conduzida por outros dois pretos; atrás dele imediatamente o velho fazendeiro e sua filha pálida e desgrenhada; depois o cavalo do caçador, que um escravo levava pela rédea, e logo em seguida os companheiros de caça do ferido conduzindo igualmente pela rédea suas cavalgaduras, e por fim os escravos do fazendeiro com seus machados ao ombro, rematando como uma guarda de honra toda aquela comitiva, tal era o singular e curioso préstito, que por uma formosa tarde de agosto desembocando de escura e espessa mata desfilava pelo lançante de um risonho espigão ao longo de um buritizal, dirigindo-se à casa do capitão Joaquim Ribeiro, que ficava como a meia légua do lugar do sinistro.

Capítulo 2 - A fazenda

Formosas e risonhas são as campinas no município da Uberaba, profundas e gigantescas as florestas, e os horizontes sempre afogueados pelos raios de um sol abrasador são esplêndidos e deslumbrantes. Vastíssimas colinas se estendem com suaves ondulações por distâncias sem-fim, orladas de verde-negros capões, que ensombram o leito de caudais e límpidos ribeirões. Extensas linhas de buritis se enfileiram pela macega ao longo dos brejais até se perderem nas profundidades do horizonte. Lisos e viçosos vargedos vão terminar ao pé de um cordão de boleados outeiros de pouca elevação, que se desenham fumacentos no fundo do painel à semelhança de uma nuvem cinzenta fixa na orla extrema do céu.

Nem são essas campinas como as desabridas e monótonas pampas das regiões do sul, onde a vista em vão se cansa procurando em derredor um ponto, em que repouse, um pequeno cômoro sequer e que interrompa a insípida uniformidade dos horizontes; nem como essas savanas e chapadões intermináveis, como os há nas províncias do norte e do centro, que o viajante palmilha de sol a sol sem que jamais lhe afaguem os ouvidos o ramalhar da folhagem, nem o consolador murmúrio das torrentes, sem ver mais que campo e céu, e ouvindo apenas o zunido dos ventos, e o enfadonho zumbido das cigarras. De espigão em espigão varia a perspectiva, e apresenta novos e sempre risonhos panoramas.

No meio desses plainos por entre as manadas de gado sem conto vagueiam os veados, e as emas passeiam em bandos erguendo o esbelto e altaneiro colo até a altura de um cavaleiro. O canto do campeiro, que anda pelos rincões arrebanhando o gado, os trinos agudos da siriema, o pio melancólico da perdiz, e o monótono chiar do carro de bois, que atravessa os chapadões carregado dos produtos de pingues colheitas, eis os únicos sons, que de ordinário quebram o silêncio daquelas afortunadas e risonhas solidões.

As vivendas dos fazendeiros são comumente construções toscas e singelas, ainda que cômodas e vastas. Mas em compensação a situação delas é quase sempre aprazível e pitoresca, ao pé de algum suave lançante, ouvindo o marulho da torrente, que corre à sombra dos buritizais, e olhando ao longe pelos descampados espigões.

Em frente à casa há sempre um vasto curral ou terreiro, em torno do qual estão o engenho, o moinho, o paiol e mais outros acessórios da fazenda. Por detrás se estende um vasto pomar, um verdadeiro bosque sombrio e perfumoso, onde a laranjeira, o limoeiro, a jabuticabeira, o jambeiro, o genipapeiro, o mamoeiro, o jaracatiá, as bananeiras e coqueiros de diversas espécies crescem promiscuamente e cruzam suas ramagens em uma espessa abóbada cheia de fresquidão, de murmúrios e perfumes. Os cercados são latados de maracujá com seus doces e aromáticos frutos, ou renques de piteiras, eriçando em torno as longas e agudas hastes como uma floresta de baionetas, do meio das quais se ergue como um estandarte o comprido pendão coroado de brancas flores, O jasmineiro, a cocleária, o bogari, a esponjeira também crescem em torno da casa, pelos cercados, junto às fontes, saturando o ambiente de suavíssimos aromas.

Aqueles céus sempre azuis e límpidos desconhecem os nevoeiros, os invernos, e essas brumas carregadas e úmidas, que costumam embuçar céu e terra em nossas montuosas e tristonhas regiões. Quando é chegada a estação das chuvas, as águas se precipitam do céu em violentas borrascas entre o estampido de horrorosas trovoadas; ao estouro de mil raios parece que a esfera abraseada rompe-se em estilhaços, e se despenha sobre a terra. A copiosa e grossa chuva em pouco tempo rega e lava os espigões, alaga as várzeas, e converte os menores ribeiros em torrentes caudalosas. Mas dura pouco aquela convulsão dos elementos; o mesmo tufão que trouxe a tempestade a varre em breve do firmamento, e o sol torna a dominar em toda a amplidão da esfera azul e resplendente.

Debaixo daqueles céus ardentes, em meio daqueles plainos infindos tão cheios de encantadoras perspectivas, cobertos de tão opulenta vegetação e banhados de tanta luz, parece que a imaginação se inflama ao reflexo daqueles horizontes de fogo, e o coração nutre-se de uma seiva de amor e voluptuosidade, que o faz pulsar com mais força, sentir com mais energia. A índole do homem ali é plácida e calma na aparência como o céu, que o cobre, mas no fundo é ardente de sentimento e de paixão. O sopro das paixões lhe ruge n’alma violento e tormentoso como os pavorosos temporais que atroam aquelas solidões.

Assim, se tomardes um lugar em roda do fogo, que aquece no rancho o caldeirão do tropeiro, ou vos sentardes na varanda do fazendeiro em horas de serão a conversar com o sertanejo, ouvireis sinistras lendas, horríveis histórias de sangue e vingança, e interessantes e românticos episódios de amor, acontecidos naquelas paragens, como este cuja história vos estou contando.

Eduardo, – assim se chamava o caçador ferido – era um moço natural da Vila Franca na província de S. Paulo, alto, bem feito, e de fisionomia agradável e simpática, onde transluziam os dotes de sua alma nobre e bem formada. Era muladeiro; ia todos os anos à feira de Sorocaba ou Curitiba, a comprar bestas, que vendia pelas províncias de S. Paulo, Minas e Goiás. Andava então no giro de seu negócio, e tinha invernado a sua mulada na fazenda vizinha, pertencente a um primo do pai de Paulina, a quem já aludimos no capítulo antecedente. Durante esse tempo divertiu-se em caçadas, a que era muitíssimo afeiçoado, o que deu ocasião ao lamentável incidente, que teve lugar na roça de Joaquim Ribeiro.

O fazendeiro vizinho e um filho seu por nome Roberto eram também da partida. Aquele depois de ter acompanhado o ferido a casa do seu parente, despediu-se e retirou-se para a sua fazenda com os outros caçadores, recomendando-lhe toda a paciência e cuidado com o ferido, por ser muito seu amigo, e digno de toda a estima e apreço. Roberto, porém, a pretexto de fazer companhia a Eduardo, deixou-se ficar; mas não fazia mais do que aproveitar-se com avidez da ocasião que se lhe oferecia de passar alguns dias junto de sua prima Paulina, por quem desde criança tinha uma paixão louca. Havia mesmo já como um ajuste tácito entre os pais para o casamento dos dois primos, e já desde a infância os entretinham em ar de brinco com essa idéia; – mau costume que há nas nossas famílias, e que às vezes produz funestos resultados. Disse – ajuste entre os pais, porque Paulina por sua parte ouvia sempre falar nisso com a maior indiferença, e entendia que aquilo não passava de um brinquedo entre crianças. Roberto, porém, moço que teria vinte anos de idade, sentia por sua prima uma verdadeira e ardente paixão, alimentada constantemente desde a infância com os mais lisonjeiros sonhos de esperança e de futuro. Além disso encantava-o a perspectiva de uma rica herança que teria de vir-lhe às mãos inteirinha sem outro trabalho mais que esperar que seu futuro sogro cerrasse para sempre os olhos no leito da morte.

Roberto era um sertanejo de grosseira educação, de gênio áspero, e asselvajado na superfície, posto que no fundo não tivesse má índole. Com tais predicados bem se vê, que era impossível ser agradável aos olhos da delicada e sensível Paulina.

Posto que bem apessoado e mesmo bonito, a crosta de rudeza que o revestia, tornava impossível qualquer simpatia entre dois caracteres talhados por moldes tão diferentes.

No dia seguinte ao do desastre pela manhã, Paulina, seu pai e o primo achavam-se no quarto de Eduardo, a quem a extrema fraqueza a que o reduzira a grande perda de sangue, não permitia levantar-se da cama. Paulina acabava de trazer um caldo ao doente, que lho agradeceu com um olhar cheio do mais terno reconhecimento.

– Coitadinha da prima! dizia Roberto, – que susto não rapou ontem! por Deus, que eu tinha bem vontade de ver a carinha, com que ficou, quando a bicha embarafustou pelo rancho adentro.

– Com efeito, primo! que fraco gosto! que graça podia achar em ver uma cara de defunta?... eu fiquei sem pinga de sangue, e caí logo sem acordo.

– Ah! maldita bicha! mil vidas que lhe tirassem, ainda era pouco para pagar o susto, que lhe pregou, prima.

– Ora!... o susto nada foi, já se passou; mas o golpe, que deu no senhor Eduardo?... para esse sim, é que toda a vingança seria ainda pouca. Admira que o primo, sendo tão valente, não acompanhasse de perto o sr. Eduardo para ajudá-lo a matar a onça; talvez tivesse evitado semelhante desastre.

– Isso é que é verdade; acudiu o velho; – se algum dos outros companheiros chegasse junto aqui com o senhor, e a bicha em vez de um recebesse dois tiros a um tempo, e que pegassem em bom lugar, talvez não tivesse tido tempo de fazer o que fez. Mas o que querem? a rapaziada pateteou...

– Ora essa é que é boa!... pateteou não, meu tio; como é que eu havia de chegar a tempo, se o meu cavalo caiu engastalhado no meio das malditas coivaras que me atravancavam a passagem, e eu levei uma embarroada nesta perna, que me fez chiar, e que até agora está-me doendo, e quase que eu não podia dar um passo. Não fosse isso, eu era o primeiro a chegar, e diabos me carreguem nesta hora, se eu só não tivesse dado cabo da bicha, sem levar um arranhão que fosse...

– Oh! pois não!... exclamou Eduardo sorrindo-se: não havia nada mais fácil... de dizer-se. Meu amigo, eu também levei encontroadas horríveis no meio daquelas diabólicas coivaras e tenho o corpo todo pisado e magoado; o meu cavalo também caiu; mas naquela ocasião eu nada sentia; já de longe eu tinha percebido que havia mulheres dentro do rancho, e ainda que se me tivesse quebrado uma perna havia de me arrastar, custasse o que custasse, até o lugar do perigo. Mas se não fosse essa circunstância, não seria eu bobo de me ir atirar assim, sem quê nem para quê, nas garras do terrível animal.

– Ah! dessa ainda nós não sabíamos, sr. Eduardo,– disse o fazendeiro; mais um motivo, que vem aumentar a meus olhos a imensa obrigação em que lhe estamos. Assim o senhor não praticou apenas um ato de estouvada valentia de caçador, e não foi sem o saber que salvou duas criaturas? – Não, decerto; tão louco não seria eu...

– E praticou um ato de nobre e generosa dedicação por pessoas que nunca conheceu. Ah, sr. Eduardo! em que dívida lhe estamos, e quando e como poderemos nunca pagá-la.

– Qual dívida, sr. Ribeiro! por favor não se inquiete com isso. Não fiz mais do que a minha obrigação, o que em meu lugar qualquer outro teria feito...

– Mas em seu lugar, – disse Paulina olhando de esguelha e maliciosamente para Roberto – estavam alguns outros e não o fizeram.

Roberto enfiou, mordeu os beiços e corou até às orelhas.

– Porque não puderam – respondeu Eduardo. – Mas se teimam em querer dar-me um sinal de gratidão, basta-me o couro da bicha. Hei de trazê-lo sempre comigo com orgulho como um troféu, a menos que a senhora, – acrescentou voltando-se para Paulina, – não o queira para si a fim de pousar triunfante os seus mimosos pés sobre os restos do medonho animal, que tão grande susto lhe causou.

– Com bem pouco se contenta, disse o fazendeiro.

– Com isso e com a sua amizade, sr. Ribeiro, eu me julgo muito bem pago, e com a íntima satisfação que me fica n’alma por ter sido útil em um dia de minha vida à sra. d. Paulina.

Estas lisonjeiras palavras ditas com toda a graça e afabilidade, mas em tom de cortesia, não agradaram muito a Paulina, a qual quisera que o moço exigisse em paga mais alguma coisa, pois estava pronta a dar-lhe ou antes já lhe tinha dado todo o seu amor. Decerto ela não queria que o moço lhe fizesse ali de chofre uma declaração de amor, mas notou com mágoa íntima, que o mancebo proferiu aquelas corteses palavras quase sem emoção alguma e sem ao menos olhar para ela, o que causou-lhe uma horrível impressão de despeito e desalento. Retirou-se para o canto mais escuro do aposento para esconder a sua perturbação e uma lágrima teimosa, que lhe queria vir aos olhos.

– Ora bolas! – exclamou estouvadamente o primo Roberto, já escandalizado com a prima, e cioso da importância e deferência de que Eduardo era objeto. Não vejo de que estão fazendo tamanho escarcéu, pois o que é lá matar uma onça?... eu cá tenho matado mais de uma, e nem por isso ando a me gabar.

– Não digas tal Roberto! – atalhou o velho, – matar uma onça não é lá grande coisa; também eu as tenho matado e muitas. Mas afrontar o perigo, que o sr. Eduardo arrostou para salvar duas criaturas, é uma ação valorosa e nobre, de que nem todos são capazes.

– Também se ele não a matasse, eu teria dado cabo dela, como tenho dado de muitas outras, tão certo como nós estarmos agora aqui. Que me custava?... a minha espingarda não nega fogo, e, minha mão, louvado seja Deus, não treme ainda, e quando atiro em um bicho destes, não atiro nas costelas, e em todo o caso a prima sempre aqui estaria tão viva e tão sadia como agora aqui se acha.

– Pois bem, senhores – retrucou Eduardo já agoniado com as toleimas do primo e com um sorriso sardônico – façamos de conta, que foi o sr. Roberto, quem matou a onça; isso pouco me importa, e não quero que diga outra vez que estou me gabando. O que me importa é poder restabelecer-me destas feridas para poder tratar dos meus negócios. Peço que se esqueçam do pequeno serviço, que tive a fortuna de fazer-lhes, e tratem somente do meu curativo.

– Esquecer! oh! isso nunca! nunca esqueceremos. Mas, silêncio, sr. Eduardo; não lhe convém falar muito e muito menos alterar-se. Tranqüilize-se, que não pouparemos cuidados e desvelos para o seu completo restabelecimento. Paulina, Roberto, vamo-nos daqui, deixemos o sr. Eduardo descansar; ele precisa mais de repouso de que de qualquer outra coisa.

Capítulo 3- O primo

Que pedaço de bruto não é o tal senhor primo Roberto! ficou pensando consigo Eduardo, apenas os três se retiraram. – Pelo que vejo tem paixão pela prima, e quer me parecer que o paspalhão começa a coçar a canela por minha causa. Forte bobo! e entrar nos cascos de um tal palerma ser o amante de uma menina tão meigazinha, tão delicada!... Entretanto, se eu não tivesse o coração tão cheio de amor, tão ocupado com a imagem da minha Lucinda, teria de amar por força esta menina. Tão meiga, tão formosa, disputada a uma fera quase à custa da minha vida!... ah! parece que o céu a tinha destinado para mim!... é estranho encontrar-se nestes sertões uma criaturinha tão mimosa, tão perfeita. Ah! senhor Roberto! senhor Roberto! dê parabéns à sua fortuna de eu já ter empenhado o meu coração e a minha palavra, quando não impreterivelmente o tirava do lance, e então é que lhe havia de amargar a boca! – Então prima, o que lhe parece o maluco daquele matador de onças? ia Roberto dizendo a sua prima, depois que saíram do quarto de Eduardo, e enquanto atravessavam um comprido corredor, que ia terminar numa varanda aberta dando para o vasto curral da fazenda. – Matar uma onça então é para qualquer?... o pateta cuidou que uma onça se mata assim como se mata um gambá; coitado! não foi má a esfrega que levou. Tão cedo não lhe voltará a vontade de andar pelos matos às escaramuças com as onças.

– Quem sabe, primo Roberto, ainda pode escaramuçar muitas, e matá-las como matou a de ontem, e talvez com mais felicidade. É um valente e destemido moço aquele!...

Este elogio foi uma seta, que partiu da boca de Paulina para o coração de Roberto.

– Valente! – exclamou ele com um sorriso forçado e amarelo; – ora não fale, prima. É paulista, e basta. Dizer paulista, é o mesmo que dizer bazófia e fanfarrice. Eu tenho matado mais onças, antas, queixadas, jacarés, sucuris, e quanto bicho bravo há pelo mato, do que a prima mata de pulgas na sua cama, e disso nem dou fé e nem ando me gabando. Agora porque aquele pelintra de um muladeiro matou por acaso uma onça estão fazendo um escarcéu, meu Deus! já pensam que estão em casa com um Roldão ou um Ferrabrás de Alexandria.

– Não é por ter matado a onça, primo... arre lá! quem ouvisse isto, havia de dizer que o primo ou tem a cabeça muito dura ou o coração muito mau; não é por ter matado ao nça, já se lhe disse, – mas por me ter salvado a vida, que damos e havemos de dar sempre a nossa amizade e gratidão a esse digno moço.

– Ora gratidão!... outro qualquer teria feito o mesmo. Eu também quando a prima era mais pequena, não se lembra? não a livrei de ser atravessada pelos chifres de um boi bravo?... se eu não agarro e carrego-a no ombro, e pulo de um salto a cerca do curral, adeus, prima Paulina! já estava comendo terra há muitos anos. E nem por isso eu vi ninguém vir derreter-se em agradecimentos...

– Ora, primo, nem fale nisso. Eu era uma criancinha, não podia dar o devido apreço a esse imenso serviço que me fez o primo. Mas hoje eu o reconheço, e beijo-lhe as mãos agradecida, meu bom e valente primo. Mas se também lhe devo a vida, primo, não é isso razão para que eu deixe de mostrar-me também agradecida a quem acaba de prestar-mo um serviço não menos importante.

Quanto mais Paulina procurava encarecer as qualidades de Eduardo, e a nobre e valerosa façanha de que fora herói, tanto mais se exacerbava o ciumento Roberto, e mais procurava deprimir e abocanhar aquele que em sua imaginação já era um rival perigoso.

– Enfim, prima, – disse ele com fingida indiferença – faça lá e pense lá o que quiser. O que sei dizer é que se aquela maldita onça o tivesse alinhavado ali, bem pouco se perdia.

– Não fale assim, primo. Que agravo lhe fez esse moço para lhe desejar tanto mal? – Quem sabe se a prima está pensando, que aquela figura é alguma coisa neste mundo. Se a prima o não conhece, conheço-o eu muito bem. Não passa de um tocador de bestas muito ordinário e muito gangolina, que tem passado a manta a meio mundo. A mim mesmo empurrou-me ele por duzentos mil-réis uma besta pêlo de rato, que não vale cem, e que vem a não servir nem para cangalha. Mesmo esse punhado de bestas, que vem tocando, a prima pensa que é dele? Qual! O biltre não é mais do que um capataz, que vem impingir o refugo da tropa do patrão aos bobos do sertão.

– E que nos importa isso, meu primo, o que sei é que ele me salvou galhardamente a vida das garras de uma onça e é motivo de sobra para que eu lhe seja eternamente agradecida, e creio que também para que o primo não abocanhe e não despreze assim um homem, que não lhe fez mal algum.

– Nenhum mal!... eu sei!.. e também que me importa a mim esse homem. Ou por sim, ou por não, amanhã ou depois, logo que ele possa montar a cavalo, hei de levá-lo para minha casa, porque é nosso hóspede, e meu tio nenhuma obrigação tem de agüentá-lo.

– Alto lá, primo! – atalhou Paulina com vivacidade;– menos essa!... temos muito mais obrigação do que o senhor, e havemos de agüentá-lo com muito prazer. Enquanto não sarar de todo, ele é nosso, e não arreda pé daqui.

– Isso era bem belo!.. e a mulada dele que lá fica à toa?... não hei de ser eu que hei de tomar conta dela. Aquele arranhão, que levou, ora bolas! aquilo sara num instante, e nestes dois ou três dias ele que trate de montar a cavalo, vá tomar conta da sua tropa, e depois... puxe para a sua terra, e passe por lá muito bem.

– Arre! primo! que ojeriza é essa que tomou com o pobre moço! pois ele não tem camaradas, que tomem conta da tropa!...

– Muito ordinários; uma súcia de preguiçosos.

– Nesse caso mandaremos uma pessoa capaz de tomar conta da mulada; mas ele não; tão cedo não se poderá mover daqui. Coitado! perdeu tanto sangue; está tão fraco.

– Coitadinho do nhonhô cheiroso! olhem não vá morrer de fraqueza – exclamou Roberto com uma expressão de ironia e um trejeito de cara indefinível – o tal maganão, prima, parece que caiu-lhe no gosto... não quererá também guardá-lo no seio?... Prima, olhe que não fica bonito a uma moça filha-família mostrar tamanho empenho assim por um... um... pé de poeira, que ninguém sabe donde veio, nem para onde vai...

Esta grosseira reprimenda fez enrubescer até os olhos a filha do fazendeiro. O rústico primo tinha tocado do modo o mais rude e brutal em uma ferida recente, de que a menina ainda nem dava fé, e a fazia sangrar cruelmente.

Mas aquela primeira perturbação do pudor virginal para logo passou e deu lugar ao despeito e à indignação. Vermelha como lacre, e mal retendo uma lágrima, que lhe pendia da pálpebra trêmula e cintilante, levantou a cabeça com altivez e respondeu: – Senhor meu primo, não sei quem lhe deu o direito de me repreender e regular as minhas ações!.. O senhor é muito tolo em pensar que eu lhe devo dar satisfação do que faço e do que digo. Felizmente ainda tenho pai, e é só dele e de mais ninguém que aceito repreensões, ouviu, meu primo?... Se vosmecê faz garbo de ser ingrato, eu não quero e nem posso fazer o mesmo; hei de ser sempre muito reconhecida e grata ao moço generoso e delicado que fez por mim, que lhe era inteiramente estranha e desconhecida, o que o senhor, sendo parente e amigo, não pôde ou não quis fazer.

Esta violenta apóstrofe fulminou o pobre do Roberto.

– Oh! prima da minha alma!... o que é isso?... por quem é... não se enfeze... espere... olhe, venha cá... não foi por lhe ofender que eu falei... oh! prima... pelo amor de Deus... não dê o cavaco...

Assim exclamava o desapontado primo com voz chorosa e balbuciante, enquanto a prima que voltara-lhe as costas com o mais soberano desdém, desaparecia no fundo do corredor sem lhe dar a mínima resposta.

Roberto, que com razão desconfiava de si mesmo, e tinha talvez alguma consciência do seu pouco merecimento individual, de sua imensa inferioridade em relação à sua inteligente e encantadora prima, não tinha motivo para contar muito com a afeição e o amor de Paulina. Por isso era ele ciumento como um tigre, e seu coração vivia sempre em contínuos sustos e sobressaltos.

Não podia aportar à fazenda de seu tio um mancebo, um homem qualquer de boa aparência e de algum tratamento, que não tremesse logo pelo seu tesouro, julgando que já lho queriam roubar, e que logo não voasse para lá sombrio e desconfiado a vigiá-lo com seus próprios olhos, como o jacaré de sentinela ao seu ninho.

Julgava, – e nisso tinha alguma razão, – que ninguém podia ver Paulina sem que logo morresse de amores por ela, e não desejasse a todo o custo possuí-la por esposa.

O casamento dele com a prima também não passava de uma coisa apenas conversada entre as duas famílias, uma hipótese plausível no futuro, e nada tinha de um compromisso sério, que rigorosamente os obrigasse. Roberto portanto, se bem que nenhum obstáculo até então se opunha à futura realização de seu mais ardente desejo, todavia nenhuma garantia segura tinha também que o pudesse tranqüilizar, e por isso razão de sobejo tinha ele para andar com alma entregue a contínuos cuidados e inquietações.

À vista disto faça-se idéia de como não ficaria o coração do pobre rapaz, quando viu instalar-se em casa de seu tio aquele belo e galhardo mancebo, debaixo de tão lisonjeiros auspícios, e rodeado do prestígio das extraordinárias e romanescas circunstâncias, que ali o trouxeram. O moço, além de seu nobre e belo porte, tinha maneiras as mais polidas e afáveis, e todas as qualidades próprias para inflamar o coração das moças, e atrair as simpatias dos homens, prescindindo mesmo desse ato de dedicação e coragem, que o tornara um ídolo aos olhos do dono da casa.

Considere-se tudo isso, e diga-se se o pobre Roberto tinha ou não carradas de razão para ficar rebentado de inveja, de despeito e de ciúme.

Naquelas ardentes regiões, tão cheias de largos e luminosos horizontes, de grandiosas perspectivas, naquelas veigas risonhas, onde tudo convida a amar, onde a viração quente e embalsamada só respira amor e voluptuosidade, naquele clima de luz e fogo, se o amor é uma chama voraz, o ciúme é uma peçonha que mata.

E tanto mais cruel e pungente devia ser o ciúme de Roberto quanto mais leal e extremosa era a sua afeição; pois o amor que o pobre moço consagrava a sua prima, era puro e santo, como primícias que eram de um coração virginal e novo, de uma alma infantil e cândida. Debaixo daquela crosta grosseira havia muita força de amor, muita paixão, muita energia de sentimento.

Roberto, pois, que tinha o coração quente, mas a cabeça fraca e a índole estouvada, não gostou nada de ver a terna e assídua solicitude com que Paulina e seu pai tratavam do caçador ferido, e dava aos diabos a maldita caçada, que deu ocasião a que viesse parar à casa da sua querida aquele importuno trambolho.

Para desvanecer a impressão que o jovem caçador tinha feito, ou porventura poderia fazer no espírito de Paulina, Roberto no seu bestunto de criança julgou que não havia melhor meio do que menoscabá-lo, deprimi-lo, procurando desmerecer aos olhos da prima o imenso serviço que acabava de fazer-lhe.

Tempo perdido!

Capítulo 4 - Paulina

Eduardo livrando a filha do fazendeiro das garras de um animal feroz, sem querer a tinha entregado indefesa nas mãos de um algoz talvez ainda pior, – a uma forte e irresistível paixão. A onça a teria estrangulado em poucos instantes; mas a paixão enleando-se astuta e sutilmente como uma serpente em torno de seu coração, nele distilava gota a gota toda a sua mortífera peçonha.

O caráter melancólico e apaixonado de Paulina, a solidão plácida, porém monótona e triste em que vivia, sua imaginação viva inflamada pelos raios daqueles vagos horizontes uberabenses, cujas linhas se perdem indecisas por longes fumacentos, tudo contribuía para que suas impressões fossem vivas e enérgicas, seus sentimentos profundos e cheios de paixão. O primeiro amor que lhe entrasse na alma, devia decidir por uma vez de sua sorte futura, e torná-la para sempre feliz, ou eternamente desventurada.

Enfim aquele vago de emoções, em que lhe ondeava o espírito perdido em cismas melancólicas, aquele anelo de uma felicidade ignota, que lhe fazia ofegar intumescido o seio num doce e indefinível anseio, achou um objeto em que fixar-se, deparou a encarnação do seu ideal; concentrou-se em Eduardo.

Se bem que até ali não tivesse descoberto nem nas palavras nem nos olhares de Eduardo o menor sintoma de amor, todavia nem lhe passava pelo espírito a idéia de que pudesse deixar de ser amada por ele mais tarde ou mais cedo, – credulidade e confiança muito natural naquela alma ingênua e inexperiente, que no enlevo e exaltação de seu afeto acreditava que aquele mancebo não podia ter aparecido a seus olhos tanto a propósito e em tão extraordinária situação, senão expressamente enviado pelo céu para ser seu companheiro e protetor, seu anjo tutelar durante toda a sua existência.

Paulina era bonita, muito bonita, e posto que nada tivesse de vaidosa, nem de faceira, tinha plena consciência de sua incomparável formosura. Não era só no espelho, que se fiava; a impressão de assombro, que produzia em qualquer parte, onde chegava, os cumprimentos e homenagens de que se via rodeada em qualquer reunião que se achasse, a inveja das outras moças, os rumores, que lhe chegavam aos ouvidos quando rompia alguma multidão – que linda moça! – que prodígio! – é um anjo!... é um sol! – tudo a confirmava na convicção de que era a mais bela dentre as belas.

Uma moça com tais predicados, rica e bem educada, não podia deixar de agradar por toda a parte, de render todos os corações, e se Eduardo por ora só lhe falava com fria polidez, e a olhava com indiferença, era provavelmente porque o seu estado de extrema debilidade ainda não lhe permitia observar nem sentir nada, principalmente na alcova escassamente alumiada em que se achava recolhido.

Estas idéias e sentimentos formulavam-se no espírito de Paulina, não assim limpa e distintamente como as vamos formulando à maneira de cálculo; eram idéias e sentimentos confusos, palpites e aspirações, que lhe ondeavam na alma, como os vapores transparentes da aurora ondeando na valada ao sopro das brisas matinais.

Assim se passaram alguns dias. Eduardo, graças à sua boa compleição, e aos extremosos cuidados e desvelado tratamento, que lhe dispensavam seus hóspedes, restabelecia-se com rapidez; o amor e as inquietações de Paulina, e os ciúmes de Roberto cresciam na mesma proporção.

Roberto andava inteiramente estomagado com sua formosa prima; mas não ousava queixar-se, nem dizer-lhe nada. Não deprimia mais o muladeiro, e nem se atrevia a tocar na desastrada caçada de onça, que era o seu eterno pesadelo; tinha medo de alguma estralada pior do que a que já houvera, e que a fizesse romper inteiramente com ele. Assim, pois, assentou de mudar de estratégia, e como tinha ouvido dizer que o desdém é o melhor meio de atrair a afeição das moças, esforçou-se por aparentar o maior pouco caso do mundo para com a linda prima; fingiu-se curado da paixão que por ela tinha; quando acontecia falar com Paulina ou olhar para ela era com um ar da maior indiferença e para afastar toda a idéia de arrufos e ciúmes, era ele mesmo, quem convidava a prima para irem conversar ao quarto de Eduardo. Ali tagarelava ele a torto e a direito soltando o dique de uma torrente de parvoíces sem conta; falava em namoradas que dizia ter, fingia saudades de uma, exaltava a beleza e as qualidades de outra, contava os riscos e vantajosos casamentos que tinha à sua disposição, esforçando-se por afetar o tom o mais descuidoso e despreocupado do mundo. Todas essas frioleiras introduzia na conversação, viessem ou não a propósito, porém com ar tão aparvalhado e com tal desazo, que bem se estava vendo que tudo aquilo não passava de um expediente muito cediço, de que lançava mão a ver se picava o amor-próprio de Paulina, e se com o seu desdém ela se mostrava ofendida. Foi tempo e trabalho perdido. Paulina bem pouca atenção lhe prestava, e Eduardo sorria-se interiormente de tantas parvoíces e impertinências.

Vendo com o maior desgosto que nenhum lucro tirava de semelhante estratégia, Roberto mudou as guardas, e tratou de ensaiar o sistema contrário. Começou a rodear Paulina de tantos cuidados e atenções, a dirigir-lhe tais lisonjas e galanteios, que além de ridículo o tornavam soberanamente importuno. Todas as vezes, que Paulina aparecia na sala, na varanda, no jardim, lá surgia pela frente o primo, endereçando-lhe finezas as mais cediças, cumprimentos os mais grotescos, que fariam rir Paulina, se não tivesse o espírito tão preocupado, o coração tão cheio de cuidados e inquietações.

– Ah! prima da minha alma! não faz idéia como está bonita!... esta prima é um peixão!... é mesmo um sol!...

Outras vezes tornava-se todo solícito pela sua saúde. – Bons dias, prima; – amanheceu hoje tão amarelinha!... coitada!... parece uma defuntinha! mas sempre bonita assim mesmo; bonita como ninguém!... é tal qual uma santinha de cera!... eu já vi uma Nossa Senhora de gesso, que era essa sua carinha sem tirar nem pôr... é preciso a prima dar um passeio lá em casa... suas primas estão com uma saudade da senhora! também há de ser bom para seu incômodo; a mana Mariquinha também costuma sofrer disso e dá-se bem com o passeio.

Outras vezes saía com uma espingarda pelo mato, e fazia as maiores diligências para trazer à prima uma caça delicada, um jaó, uma paca, uma perdiz.

A prima anda com tanto fastio! talvez esta caça lhe faça abrir a vontade de comer; mande a Susana prepará-la bem feita para o seu jantar.

Ai! todos aqueles obséquios, todas aquelas finezas eram perdidas. Paulina bem via que Roberto a amava extremosamente; tinha pena dele, e não desejava magoá-lo, ainda que suas contínuas atenções e galanteios não deixassem de importuná-la. E quanto mais crescia o amor que Eduardo lhe inspirara, mais fria, reservada e mesmo triste se mostrava, não de propósito, mas até mesmo a pesar seu, para com o pobre Roberto. Nem por isso deixava de dirigir-lhe algumas palavras de agradecimento, e um sorriso, mas tão frio, tão repassado de melancolia, que não podia fazer desabrochar muita esperança no coração do infeliz rapaz.

Roberto trincava de raiva e desesperava-se por não poder vencer a cruel apatia, em que para com ele se achava o coração de Paulina, e lançava mão de todos os recursos que seu fraco bestunto lhe sugeria. Por fim procurou vencê-la com dádivas e presentes. Uma rica e grossa cadeia de ouro, em que trazia preso o seu relógio, pediu-lhe que aceitasse em penhor de sua amizade, e firmeza. Ofertou-lhe mais uma linda e excelente besta de sela, além de muitos outros mimos delicados e de preço. Dádivas quebrantam penhas, e “a Deus rogando e com la mano dando”, tinha ele talvez ouvido dizer senão ao próprio Sancho Pança, ao menos a algum de seus confrades. Importunada para aceitar, Paulina via-se em torturas para recusar semelhantes donativos de um modo que o não desgostasse. Pobre amante! infeliz pretendente! disputava com admirável ardor e tenacidade a posse de um coração, e como não era repelido terminantemente em termos claros e rudes, em sua simplicidade não compreendia quanto era completa a sua derrota.

Mas Paulina também, coitada! era porventura mais feliz do que ele? É verdade que Eduardo mostrava com ela o mais terno interesse, e a tratava sempre com a mais lisonjeira deferência. Nem outra coisa se poderia esperar de um moço polido e de fina educação, e Paulina atraía as homenagens e a admiração de todos que a viam. Todavia era ela bastante inteligente e perspicaz para deixar de compreender que nem nas expressões nem nos olhares de Eduardo, nem em toda aquela afeição, aliás íntima e sincera, que o mancebo revelava por ela, não havia a mínima centelha de amor. Notava com extremo desgosto que Eduardo andava sempre distraído e pensativo, que seus olhos andavam sempre passeando ao longe, e como querendo transpor as distâncias com o pensamento. A conversação de Eduardo rolava freqüentemente sobre lembranças de sua terra, da qual se mostrava extremamente saudoso, e dando-se por feliz por ter sido como um instrumento da Providência para proteger a vida de Paulina, não deixava de lastimar o incômodo, que viera atrasar seus negócios, e retardar sua volta ao país natal. Um cruel desalento, uma tristeza mortal se apoderava então do coração da moça; mas como a esperança é a última companheira que nos abandona no infortúnio, ela procurava iludir suas tristes apreensões, e pensava consigo: – Talvez ele seja frio e reservado de seu natural. – O amor nem sempre brilha nos olhos, ou se derrama em palavras de fogo, e dizem que quando existe oculto assim e guardado no coração, é ele mais forte e violento... Tem saudades de sua terra?... que tem isso?... há nada mais natural?... tem lá sua mãe, seus parentes e amigos... Quem sabe!... talvez que um dia vamos juntos para lá.

Capítulo 5 - À sombra da gameleira

Assim se passaram uns quinze dias, durante os quais o espírito de Paulina se agitava na mais cruel ansiedade entre a esperança e o desalento.

Entretanto Eduardo, mais vigoroso e quase completamente restabelecido, tinha-se já levantado do leito, em que jazera por tantos dias, e ensaiava alguns passeios em derredor de casa, pelos currais, pelo pomar e pelos campos vizinhos.

Estava uma linda tarde, vaporenta e melancólica, como só as há naquelas descampadas e formosas regiões uberabenses. Como era tempo da queima dos campos, a fumaça das queimadas embaciando os horizontes dava-lhes formas e coloridos vagos e fantásticos. O ar estava morno, imóvel e embalsamado. Em frente da casa se desenrolava mágico e sublime o panorama das solidões sem-fim numa sucessão interminável de plainos, florestas, colinas e espigões, cujas formas iam morrer indecisas ao longe engolfadas nas ondas de um vapor dourado. O arpejo tão lânguido, tão cadenciado do sabiá harmonizava-se docemente com aquele místico e voluptuoso remanso, que envolvia toda a natureza. Também cantava ao longe o boiadeiro que vinha tocando as manadas para os currais, e o chiado monótono dos carros, que cortavam os chapadões carregados de fartas colheitas.

Em um ângulo do vasto curral que ficava na frente da casa, havia uma dessas gameleiras colossais, como as há em quase todos os currais das fazendas daquele sertão, e que podem abrigar debaixo de sua gigantesca cúpula uma numerosa manada de gado, de tronco nodoso e cheio de fendas e cavidades, em qualquer das quais um homem se abrigaria comodamente do mais violento temporal. Servem ao mesmo tempo de aprisco para o gado, e de coberta, onde se guardam carros, cangas e mais arreios de carreação.

Recostado sobre a mesa de um carro, que se achava à sombra da gameleira, achava-se Eduardo tomando o fresco, e espairecendo as vistas pela elevadora perspectiva que tinha diante dos olhos; sem dúvida cismava saudades de sua terra, de sua mãe, e da sua querida Lucinda. O velho fazendeiro achava-se também encostado ao peitoril da varanda, armado de um bom par de óculos, lendo um grosso e velho alfarrábio. Não havia muito tempo que Eduardo se achava ali entregue a seus pensamentos, quando Paulina descendo ligeiramente a pequena escada de pedra que vinha dar ao curral, trouxe-lhe uma cesta de laranjas, e lhas ofereceu com um encantador sorriso e expressões cheias de amabilidade. Como seu pai se achava ali à vista entendeu que nenhum mal ia à sua honestidade e recato em conversar a sós com Eduardo alguns momentos. Há muito que suspirava por uma ocasião de entreter-se com ele sem testemunhas, e procurar devassar-lhe, se possível fosse, os segredos do coração, e por isso aproveitou-se com sofreguidão daquela primeira oportunidade que se lhe oferecia, e vencendo a custo o natural pudor e acanhamento, encetou timidamente uma conversação cuja direção já tinha ideado.

O primo Roberto, porém, que sempre desconfiado e ardendo em zelos não perdia um só passo de Paulina e Eduardo, já de uma janela os estava observando, e não podia suportar com paciência aquele espetáculo, que o torturava. Interromper e perturbar a todo transe e de qualquer modo que fosse, aquilo que a seus olhos era uma entrevista despejada e escan-dalosa, foi logo o seu pensamento. Intrometer-se bruscamente de permeio na conversação seria uma grosseria, que iria magoar sua prima, a quem ao lado do muito amor tinha ele muito respeito ou antes muito medo.

– Com mil diabos! exclamava Roberto trincando os dentes e arrancando os cabelos. – Lá estão a conversar sozinhos! o que estarão cochichando aquelas duas almas! eu dera a vida por ouvir tudo!... aquela prima jurou de me estraçalhar o coração. Doidinha!... às barbas de seu pai, e à minha vista, estar a cochichar com um estranho!... e continuam!... não sei onde estou que... e como se estão derretendo um com outro! oh! não! isto é demais... não consinto.

Entretanto aquele silêncio e serenidade, que ainda há pouco reinava em torno daquela pacífica habitação, tinha-se convertido em tumulto e algazarra infernal. O gado que chegava do campo e entrava de tropel pela porteira do curral, atordoava o ar com seus mugidos; não menos atordoadora era a gritaria dos campeiros, que o tocavam. Os negros que vinham do trabalho e se recolhiam às senzalas ou conversando ou cantando em voz baixa ao toque da marimba faziam um zumbido semelhante ao das abelhas, quando se recolhem ao colmeal. Não menos gritava o patrão lá de sua varanda interrompendo a espaços sua leitura para ralhar e dar ordens a seus campeiros e escravos. Enfim o chiado dos carros, que se avizinhavam carregados de cana para o engenho, acabava de azoinar todos os ouvidos com aquele zunido agudo, incessante, desesperador, que nos martiriza e quase arromba os tímpanos, som de uma intensidade e aspereza tal, que não há no dicionário palavra assaz expressiva para significá-lo.

Enquanto se dava toda aquela barafunda e vozeria, Roberto desceu aos pinotes para o curral boleando em torno da cabeça um comprido laço. Aquela tropelada tinha-lhe sugerido um expediente, que de pronto tratou de pôr em execução para atrapalhar a conversa dos dois jovens.

– Olá, prima! – bradou ele de longe para Paulina com voz atordoadora e sempre boleando o seu laço. – Olhe cá; quer ver como se laça e se dá um tombo de rachar em qualquer destes boizinhos? – Matias! – gritou ele para um dos campeiros, toca para cá aquele boi laranjo, espanta-o bem, de modo que venha bem disparado.

O rapaz espantou o boi, que correndo à disparada passou a algumas braças de distância por diante de Roberto; este atirou-lhe o laço, que caiu-lhe direito sobre os chifres. O moço segurou a extremidade do laço sobre o quadril, estacou, fez finca-pé, e de um safanão fez tombar de costas o mísero animal.

Conhece, boizinho! – bradou Roberto, e correndo para o boi sem dar-lhe tempo de levantar-se agarrou-lhe nas pontas, cravou-as no chão, e sentou-se sobre o boi, que ficou subjugado e sem poder mexer-se do lugar.

– Está vendo, prima, como se escorna um boi!... Agora vou pealar aquele garrote pintado, que ali está me fazendo fosquinhas. Quer que peale pelas mãos ou pelos pés? hem, prima?... toca esse boizinho, Matias.

O escravo espantou o novilho, que saiu aos corcovos. Roberto boleou o laço e apanhou-o pelas patas dianteiras, dando ao pobre animal um horrível tombo, que o fez revirar pelos ares de cambotas, e estourar no meio do curral de um modo lastimoso. – Olá, senhor Roberto!... gritou da varanda o velho com voz áspera; – Que brincadeiras são essas! Vosmecê dessa maneira vai a me dar cabo de quanta rês tenho no curral.

– Não tenha susto, meu tio; queria somente desabusar este novilho; este diabo está muito arisco; precisa levar todos os dias uma boa esfrega; senão tão cedo não serve para o carro.

– Não duvido, meu sobrinho; mas não é quebrando-lhe as costelas nesse chão duro, que virá a servir. Por favor modere essas esfregas, que são mais de matar, que de amansar.

– Não tenha cuidado, meu tio; estou muito acostumado a lidar com este bicho... Viu, minha prima, como se joga um pealo bem jogado? O amalucado rapaz vingava-se assim nos pobres bois da raiva, com que estava contra Paulina e Eduardo, e enquanto assim desabafava procurando atrapalhá-los escutemos a curta conversação, que tiveram à sombra da gameleira, conversação a cada passo interrompida pelos gritos e algazarras do atabalhoado primo. Foi Paulina quem a encetou pelo seguinte modo: – Como lhe vi aqui tão sozinho e tão triste, sr. Eduardo, tomei a liberdade de vir trazer-lhe estas laranjas para se refrescar e também se distrair com elas. Bem vejo, que é fraca distração, mas ao menos enquanto as descasca....

Ora, d. Paulina!... um presente de suas mãos seria bastante para acabar com toda a minha tristeza, no caso que eu tivesse tristeza no coração. Acha então a senhora, que ando triste? – Muito, e cada vez vai-se tornando mais triste, e não é de hoje que reparo isso.

– Deveras, minha senhora?... pode ser, e nesse caso será já o efeito da saudade, que hei de levar deste belo sítio, e das pessoas, que nele moram.

Este princípio não estava mau, e Paulina a estas últimas palavras do mancebo sentiu ameigar-se-lhe o coração ao sopro de uma aura de esperança.

– Não parece, – replicou Paulina; o que pelo contrário me parece certo, é que as saudades que tem da sua terra, não lhe dão muito tempo para pensar em nós.

– Oh! perdão, d. Paulina; a senhora me faz grande injustiça: não sou ingrato a tal ponto, que as saudades dos meus e da minha terra me risquem da memória pessoas, a quem devo tantas finezas, e as quais sempre trarei gravadas no coração. Lembro-me na verdade sempre e com muita saudade de minha bela Franca; tenho lá minha mãe, parentes, amigos, e...

Eduardo interrompeu-se e suspirou.

– E mais alguma coisa, não é assim? atalhou Paulina esforçando-se por sorrir, porém com o coração num susto, numa ansiedade como quem espera a sentença, que vai decidir de todo o seu futuro.

– Sim, senhora; e mais alguém, – respondeu Eduardo com acento melancólico, – para que hei de eu negá-lo, e sempre que olho para a senhora, me lembro de uma moça que lá conheço.

– Então parece-se comigo? – Alguma coisa... ao menos na formosura. Linda como ela, só a senhora e mais ninguém.

– Que lisonja! murmurou Paulina, que cada vez se tornava mais pálida e estava branca como papel.

– Lisonja não, senhora. Eu pensava, que não seria possível encontrar no mundo criatura tão bela como Lucinda; depois que vi a senhora, desenganei-me, e falo sinceramente e com o coração nas mãos, se não quisesse tanto bem a Lucinda, teria impreterivelmente de amar a senhora...

– Quem sabe!... disse automaticamente Paulina, desconcertada, trêmula e sem já saber o que dizia. – Então o senhor quer muito bem a essa moça? – Muito! muito! – disse Eduardo com exaltação e sem reparar na crescente perturbação de Paulina. Amo-a sincera e ardentemente, e nunca, nunca hei de deixar de amá-la.

– Feliz mulher!... mas dizem que os moços todos são tão inconstantes...

– Pode ser... mas eu... eu nunca serei infiel... porém d.Paulina!... que tem?.. está tão pálida e trêmula! Meu Deus! está sofrendo alguma coisa?...

– Não é nada; replicou Paulina esforçando-se por mostrar-se tranqüila; – quando o sol entra, este sereno da tarde sempre me faz calafrios. É bom que me recolha. Boa-noite, sr. Eduardo.

Roberto, que com suas algazarras e proezas com os bois nada tinha conseguido no intuito de perturbar o colóquio de Eduardo e Paulina largara o laço, e saindo sem ser notado para fora do curral, e cozendo-se com a cerca do mesmo viera sutilmente postar-se junto deles, de modo que sem ser visto podia otimamente espreitá-los e escutá-los. Chegou justamente a tempo de ouvir clara e distintamente aquelas palavras de Eduardo – Amo-a muito; amo-a sincera e ardentemente, e nunca, nunca hei de deixar de amá-la. – Supõe para logo que eram dirigidas a sua prima, e não quis ouvir mais. Desta vez não pôde conter-se, rangeu os dentes enfurecido, e sem atender a consideração alguma puxou pela faca, que sempre trazia à cinta, e ágil como um gato saltou de um pulo para dentro do curral.

Exatamente no instante, em que Roberto de faca em punho saltava a cerca e avançava furibundo para os dois, um troço de gado, que os campeiros estouvadamente escaramuçavam pelo curral, entrava atropeladamente por baixo da gameleira e ameaçava envolver em seu turbilhão a pobre Paulina no momento em que tendo-se despedido de Eduardo se ia retirando. Roberto vendo o iminente perigo que corria sua prima, esqueceu-se de sua cólera, e em vez de avançar para Eduardo, correu a acudi-la. Assim por um estranho capricho do acaso, que também parecia zombar do infeliz rapaz, achou este mudado o seu papel no momento em que entrava em cena, e forçoso lhe foi aceitar a mudança. Em dois saltos colocou-se junto a Paulina, e protegendo-a com o corpo, e a pontapés esparrodava para um lado e para outro o gado, que corria de tropel para o lado dela. Eduardo também, apesar de sua fraqueza, lançando mão de um ferro, que arrancou do carro, saltara para junto de Paulina. Afugentado que foi o gado, e passado aquele incidente, Roberto achou-se em presença de sua prima e de Eduardo na mais estranha e esquerda situação, que imagi-nar-se pode. Estes de sua parte nem por sombra podiam desconfiar qual tinha sido a sua primeira e sinistra intenção, pois que na triste disposição de espírito em que se achavam, nem tinham visto donde ele surgira, e estavam na persuasão que ele ali se apresentara no único intuito de acudir a Paulina. Esta com voz trêmula e com um sorriso forçado, lhe rendia os devidos agradecimentos.

– Deus lhe pague, meu primo; o senhor é um valente; se não fosse o senhor, esses malditos bois me teriam esmagado... ah! meu Deus! – acrescentou lançando a Eduardo um rápido olhar – que dia aziago este de hoje! Roberto desconcertado, com os olhos baixos e como que corrido nada respondia a sua prima, e não sabia o que devia dizer, nem fazer. O infeliz até mesmo em seus furores sofria os mais estranhos e cruéis desencantamentos.

– Que é lá isso, senhores? – gritou da varanda o pai de Paulina, que observara aquele alvoroto. – Menina, o que andas fazendo no meio desse curral cheio de gado bravo e espantadiço? Sr. Eduardo, recolha-se também; olhe que este sereno não lhe pode fazer bem.

Roberto entendeu, que devia escoltar sua prima, e conduziu-a para casa. Eduardo acompanhou-os e deixou-se ficar na varanda, enquanto Paulina retirando-se para seu aposento foi devorar em segredo sua angústia e desesperação, e ensopou de lágrimas o travesseiro, por não ter um seio amigo em que pudesse derramá-las.

Tinha no coração amarguras a transbordar, e as lágrimas que chorava, lágrimas de fel e fogo, não podiam aliviá-lo. Era desgraçada e não tinha a quem lançar a culpa de sua desventura, senão ao destino ou ao céu que trazendo ali aquele mancebo em tão fatais circunstâncias viera como que de propósito e sem piedade arrojá-la no caminho do infortúnio. A morte era o único pensamento consolador, em que se abrigava aquela alma ulcerada. Tão vivo e ardente fora o afeto que concebera por Eduardo, tão doloroso o golpe, que este sem querer acabava de lhe vibrar no coração.

Capítulo 6 - O Juramento

Eduardo achando-se a sós na varanda debruçou-se sobre o parapeito e com a cabeça entre as mãos refletia sobre as ocorrências daquela tarde. A estranha perturbação em que caíra Paulina no fim da conversação que com ele tivera, lhe causava a mais dolorosa impressão. Já por vezes lhe despontara no espírito a suspeita de que Paulina havia concebido amor por ele, por maior que fosse o cuidado e o esforço desta em ocultar seus íntimos sentimentos, e esta idéia o afligia sumamente. Foi de alguma sorte de propósito para sondar o coração da menina e atalhar os progressos de uma paixão, a que não podia corresponder, que Eduardo não hesitou em fazer-lhe a relação do amor, que consagrava a outra. Compreendeu, então, claramente, quanto extremo de paixão abrasava aquela alma cândida e sensível, cuja paz viera perturbar com seu aparecimento a um tempo providencial e desastrado. Teve infinita pena dela, e arrependeu-se mil vezes das palavras que dissera e da cruel revelação que lhe fez sem calcular as conseqüências. Teria sido menos cruel deixá-la na incerteza, e encarregar ao tempo e à ausência a cura de um mal que ele com suas palavras não fez mais que exacerbar.

Além disso acrescia a consideração de que Roberto o reputava um rival e não podia encará-lo com bons olhos. Somente o velho chefe da casa não tinha para com ele prevenção alguma. Achava-se, pois, Eduardo em posição sumamente melindrosa naquela casa, e sua estada ali por mais tempo não poderia deixar de produzir cenas desagradáveis e funestos resultados. Era-lhe pois forçoso e indispensável deixar o mais breve possível aquela fazenda, e quanto mais pensava e refletia, mais se firmava nessa resolução.

Destas reflexões o veio despertar Roberto, que se aproximando bruscamente, disse-lhe em tom áspero e seco: – sr. Eduardo, é preciso que sem mais demora o senhor saia desta casa!...

Eduardo olhou para ele espantado.

– O que está dizendo, homem? respondeu-lhe.

– É preciso que o senhor saia quanto antes desta casa, repito, se não quer que eu ou o senhor nos ponhamos a perder.

Eduardo ia assomar-se; mas refletiu, que nenhum proveito tirava em brigar com aquele simples e estouvado rapaz; reportou-se e respondeu-lhe.

– Senhor Roberto, eu por ora acho-me muito bem aqui, e nem vejo motivo algum para pôr-mo-nos a perder. Os donos da casa creio que nem por sombra pensam em despedir-me; e como quem quer o senhor enxotar- 31 me? – Se o dono da casa soubesse que o senhor anda querendo lhe desencaminhar a filha...

– Alto lá, senhor caluniador! devagar com isso! onde e por que modo viu o senhor que eu faltasse ao respeito no mínimo ponto que fosse à sra. d. Paulina?... se aturo com paciência suas sandices, não estou de ânimo a agüentar tão infame calúnia.

– Sandeu e caluniador será ele! veja onde está e com quem fala... olhe que não sou nenhum caipira tocador de burros, arrieiro ou capataz de tropa. Cuida que não ouvi... ainda agora... ali debaixo da gameleira? Com esta arrieirada Eduardo ia perdendo a paciência, e posto que nenhuma arma tivesse consigo e se achasse ainda fraco e em convalescença para poder medir-se com um atleta armado de faca e cacete e em pleno gozo de saúde e robustez, já de punho fechado se dispunha a responder-lhe com meia dúzia de sopapos, quando uma idéia que atravessou-lhe o espírito deteve-lhe o braço.

– Ouviu o quê, senhor amansa-garrotes? perguntou ele. Fale; não esteja a me impacientar com suas meias palavras.

– Ouvi, sim; ouvi o senhor estar se derretendo todo, e dizendo melúrias a minha prima; até por sinal, que estava lhe falando assim: hei de amá-la sempre; nunca mais hei de deixar de amá-la.

A estas palavras Eduardo, apesar da triste e grave disposição em que se achava, apesar da impaciência e indignação, que lhe causavam as impertinências e impropérios do primo, não pôde conter uma gargalhada.

– E o senhor ainda ri-se! bradou Roberto enfurecido, e avançando com gesto ameaçador.

– Tenha mão lá, senhor Roberto; disse Eduardo segurando-lhe brandamente o braço. O caso não é para brigarmos...

– Como não? queria ainda mais? – Ora venha cá, escute um pouco, senhor Roberto dos meus pecados. Eis aí a que nos podem levar as aparências. Um engano da sua parte o ia levando a praticar desatinos contra uma pessoa que nunca o ofendeu, e nem lhe deseja mal algum. Mas o senhor está desculpado, pois decerto não ouviu toda a conversa, e era fácil enganar-se.

– Ouvir mais para quê?... foi de sobra o que eu ouvi.

– Não é assim, homem de Deus; tenha paciência, escute-me. Sua prima vendo-me ali sentado sozinho e pensativo, perguntava-me a razão por que ando triste, e se já estava aborrecido de estar aqui. Eu respondi-lhe que me achava muito bem nesta casa, porém que tinha muitas saudades de minha terra, e principalmente de uma pessoa de lá, de uma moça a quem quero muito bem, com a qual se Deus não mandar o contrário, tenho de me casar. Era dessa moça, que eu dizia a sua prima, que nunca hei de deixar de amá-la.

32 – Vá contar essa mais adiante, que por cá não pega. Com essa ainda não me embaça, sr. Eduardo.

– Oh! senhor!... que necessidade tenho eu de enganá-lo?... creia, que é a pura verdade; juro-o por minha alma, e se isto não basta, pode perguntar à própria d. Paulina.

Ao ouvir a explicação de Eduardo, Roberto sentiu no íntimo da alma uma alegria, um alívio como há muito tempo não experimentara. Parecia-lhe que lhe tinham tirado um enorme peso do coração, e tomando a mão de Eduardo, disse-lhe com efusão: – Perdoe-me, meu amigo; agora vejo que fui um grosseiro, um estonteado. Mas o senhor bem deve saber, que onde há amor há ciúme, e eu... não posso negar, quero um bem a minha prima... o ciúme é um inferno... faz a gente dar por paus e por pedras sem saber o que faz... arre! cruz!... eu mesmo estou envergonhado... mas esqueçamo-nos disso, sr. Eduardo; aperte esta mão, e fiquemos amigos como dantes.

– Pois não, senhor Roberto; amigos sempre como dantes. O senhor tem toda a desculpa; o caso não era para menos. Mas espero, que fique firmemente, acreditando que eu nem de leve sou capaz de faltar ao respeito nem desencaminhar a quem quer que seja, quanto mais a senhora sua prima a quem tributo o maior respeito, simpatia e até admiração, que de tudo isso ela é merecedora, mas sem a menor dose de amor, porque como já lhe disse, tenho o coração ocupado e minha palavra comprometida com outra.

– Isso é que eu queria saber. Agora sim! posso ficar com o coração sossegado, já que o senhor me afirma e jura, que não quer bem nem tem pretensão alguma sobre minha prima... e que nunca...

– Sim, senhor Roberto; atalhou Eduardo acudindo ao embaraço do pobre rapaz e adivinhando-lhe o pensamento. Juro-lhe pelas cinzas de meu pai, que sinto pela sra.d. Paulina muita afeição, mas que esta afeição em nada se parece com amor; e juro-lhe também, que nunca em dias de minha vida porei o menor embaraço, nem servirei de estorvo por qualquer modo que seja ao seu amor, e ao seu futuro casamento com ela. Bem sabe que sou paulista, e quando um paulista jura... nem é preciso jurar; basta dar sua palavra, nem que lhe cortem a cabeça, é capaz de faltar a ela.

– Muito bem!... viva isso, meu amigo!... assim é que eu gosto de homem. Toque aqui, havemos de ser sempre amigos... E adeus! não quero aborrecê-lo mais. Boas-noites.

Já era noite fechada. Eduardo recolheu-se a seu quarto cada vez mais firme na resolução de retirar-se o mais breve que lhe fosse possível daquela casa, onde o acaso o havia conduzido para ser sem o querer a chave do enlace de um drama, cujo desfecho poderia ser fatal.

Quanto a Roberto, esse respirava enfim desafogado, com o espírito livre do pesadelo que o perseguia, isto é ciente de que um homem como era o senhor Eduardo, de tanto mérito e galhardia, longe de ser seu rival morria 33 de amores por outra.

Portanto apenas dele se despediu andou por todos os cantos da casa em que podia penetrar, à cata da prima a fim de expandir um pouco com ela o contentamento de que se achava possuído. Debalde: a pobrezinha tinha-se encerrado em seu quarto e nessa noite ninguém mais lhe viu o rosto. E o simples do primo não compreendia, que aquilo mesmo que tanto prazer lhe causava, levara angústia mortal ao coração de sua prima.

Daí a dois dias Eduardo despedia-se da casa do sr. Joaquim Ribeiro, depois de se trocarem de parte a parte os mais vivos protestos de eterno reconhecimento e amizade, e depois de ter Eduardo renovado em particular a Roberto o juramento de nunca ter pretendido e nem pretender para o futuro ao amor, nem à mão da senhora d. Paulina.

Ao apertar na despedida a mão desta, sentiu que estava gelada, e que a agitava um tremor convulso, que ela procurou disfarçar retirando-a prontamente. Eduardo, como fica dito, sentia por ela a mais viva e terna simpatia; compungiu-se dentro da alma, e não pôde conter as lágrimas que lhe rolavam pelas faces. Paulina as viu e não pôde chorar, porque a angústia lhe havia secado a fonte das lágrimas.

Da janela de seu quarto ela viu Eduardo sumir-se além das últimas colinas. Nesse momento os ouvidos lhe zuniram, e seus olhos se escureceram.

Pareceu-lhe que o túmulo a devorava em vida, e que sua alma se afogava nas trevas da noite eterna.

Eduardo achando-se a sós na varanda debruçou-se sobre o parapeito e com a cabeça entre as mãos refletia sobre as ocorrências daquela tarde. A estranha perturbação em que caíra Paulina no fim da conversação que com ele tivera, lhe causava a mais dolorosa impressão. Já por vezes lhe despontara no espírito a suspeita de que Paulina havia concebido amor por ele, por maior que fosse o cuidado e o esforço desta em ocultar seus íntimos sentimentos, e esta idéia o afligia sumamente. Foi de alguma sorte de propósito para sondar o coração da menina e atalhar os progressos de uma paixão, a que não podia corresponder, que Eduardo não hesitou em fazer-lhe a relação do amor, que consagrava a outra. Compreendeu, então, claramente, quanto extremo de paixão abrasava aquela alma cândida e sensível, cuja paz viera perturbar com seu aparecimento a um tempo providencial e desastrado. Teve infinita pena dela, e arrependeu-se mil vezes das palavras que dissera e da cruel revelação que lhe fez sem calcular as conseqüências. Teria sido menos cruel deixá-la na incerteza, e encarregar ao tempo e à ausência a cura de um mal que ele com suas palavras não fez mais que exacerbar.

Além disso acrescia a consideração de que Roberto o reputava um rival e não podia encará-lo com bons olhos. Somente o velho chefe da casa não tinha para com ele prevenção alguma. Achava-se, pois, Eduardo em posição sumamente melindrosa naquela casa, e sua estada ali por mais tempo não poderia deixar de produzir cenas desagradáveis e funestos resultados. Era-lhe pois forçoso e indispensável deixar o mais breve possível aquela fazenda, e quanto mais pensava e refletia, mais se firmava nessa resolução.

Destas reflexões o veio despertar Roberto, que se aproximando bruscamente, disse-lhe em tom áspero e seco: – sr. Eduardo, é preciso que sem mais demora o senhor saia desta casa!...

Eduardo olhou para ele espantado.

– O que está dizendo, homem? respondeu-lhe.

– É preciso que o senhor saia quanto antes desta casa, repito, se não quer que eu ou o senhor nos ponhamos a perder.

Eduardo ia assomar-se; mas refletiu, que nenhum proveito tirava em brigar com aquele simples e estouvado rapaz; reportou-se e respondeu-lhe.

– Senhor Roberto, eu por ora acho-me muito bem aqui, e nem vejo motivo algum para pôr-mo-nos a perder. Os donos da casa creio que nem por sombra pensam em despedir-me; e como quem quer o senhor enxotar-me? – Se o dono da casa soubesse que o senhor anda querendo lhe desencaminhar a filha...

– Alto lá, senhor caluniador! devagar com isso! onde e por que modo viu o senhor que eu faltasse ao respeito no mínimo ponto que fosse à sra. d. Paulina?... se aturo com paciência suas sandices, não estou de ânimo a agüentar tão infame calúnia.

– Sandeu e caluniador será ele! veja onde está e com quem fala... olhe que não sou nenhum caipira tocador de burros, arrieiro ou capataz de tropa. Cuida que não ouvi... ainda agora... ali debaixo da gameleira? Com esta arrieirada Eduardo ia perdendo a paciência, e posto que nenhuma arma tivesse consigo e se achasse ainda fraco e em convalescença para poder medir-se com um atleta armado de faca e cacete e em pleno gozo de saúde e robustez, já de punho fechado se dispunha a responder-lhe com meia dúzia de sopapos, quando uma idéia que atravessou-lhe o espírito deteve-lhe o braço.

– Ouviu o quê, senhor amansa-garrotes? perguntou ele. Fale; não esteja a me impacientar com suas meias palavras.

– Ouvi, sim; ouvi o senhor estar se derretendo todo, e dizendo melúrias a minha prima; até por sinal, que estava lhe falando assim: hei de amá-la sempre; nunca mais hei de deixar de amá-la.

A estas palavras Eduardo, apesar da triste e grave disposição em que se achava, apesar da impaciência e indignação, que lhe causavam as impertinências e impropérios do primo, não pôde conter uma gargalhada.

– E o senhor ainda ri-se! bradou Roberto enfurecido, e avançando com gesto ameaçador.

– Tenha mão lá, senhor Roberto; disse Eduardo segurando-lhe brandamente o braço. O caso não é para brigarmos...

– Como não? queria ainda mais? – Ora venha cá, escute um pouco, senhor Roberto dos meus pecados. Eis aí a que nos podem levar as aparências. Um engano da sua parte o ia levando a praticar desatinos contra uma pessoa que nunca o ofendeu, e nem lhe deseja mal algum. Mas o senhor está desculpado, pois decerto não ouviu toda a conversa, e era fácil enganar-se.

– Ouvir mais para quê?... foi de sobra o que eu ouvi.

– Não é assim, homem de Deus; tenha paciência, escute-me. Sua prima vendo-me ali sentado sozinho e pensativo, perguntava-me a razão por que ando triste, e se já estava aborrecido de estar aqui. Eu respondi-lhe que me achava muito bem nesta casa, porém que tinha muitas saudades de minha terra, e principalmente de uma pessoa de lá, de uma moça a quem quero muito bem, com a qual se Deus não mandar o contrário, tenho de me casar. Era dessa moça, que eu dizia a sua prima, que nunca hei de deixar de amá-la.

– Vá contar essa mais adiante, que por cá não pega. Com essa ainda não me embaça, sr. Eduardo.

– Oh! senhor!... que necessidade tenho eu de enganá-lo?... creia, que é a pura verdade; juro-o por minha alma, e se isto não basta, pode perguntar à própria d. Paulina.

Ao ouvir a explicação de Eduardo, Roberto sentiu no íntimo da alma uma alegria, um alívio como há muito tempo não experimentara. Parecia-lhe que lhe tinham tirado um enorme peso do coração, e tomando a mão de Eduardo, disse-lhe com efusão: – Perdoe-me, meu amigo; agora vejo que fui um grosseiro, um estonteado. Mas o senhor bem deve saber, que onde há amor há ciúme, e eu... não posso negar, quero um bem a minha prima... o ciúme é um inferno... faz a gente dar por paus e por pedras sem saber o que faz... arre! cruz!... eu mesmo estou envergonhado... mas esqueçamo-nos disso, sr. Eduardo; aperte esta mão, e fiquemos amigos como dantes.

– Pois não, senhor Roberto; amigos sempre como dantes. O senhor tem toda a desculpa; o caso não era para menos. Mas espero, que fique firmemente, acreditando que eu nem de leve sou capaz de faltar ao respeito nem desencaminhar a quem quer que seja, quanto mais a senhora sua prima a quem tributo o maior respeito, simpatia e até admiração, que de tudo isso ela é merecedora, mas sem a menor dose de amor, porque como já lhe disse, tenho o coração ocupado e minha palavra comprometida com outra.

– Isso é que eu queria saber. Agora sim! posso ficar com o coração sossegado, já que o senhor me afirma e jura, que não quer bem nem tem pretensão alguma sobre minha prima... e que nunca...

– Sim, senhor Roberto; atalhou Eduardo acudindo ao embaraço do pobre rapaz e adivinhando-lhe o pensamento. Juro-lhe pelas cinzas de meu pai, que sinto pela sra.d. Paulina muita afeição, mas que esta afeição em nada se parece com amor; e juro-lhe também, que nunca em dias de minha vida porei o menor embaraço, nem servirei de estorvo por qualquer modo que seja ao seu amor, e ao seu futuro casamento com ela. Bem sabe que sou paulista, e quando um paulista jura... nem é preciso jurar; basta dar sua palavra, nem que lhe cortem a cabeça, é capaz de faltar a ela.

– Muito bem!... viva isso, meu amigo!... assim é que eu gosto de homem. Toque aqui, havemos de ser sempre amigos... E adeus! não quero aborrecê-lo mais. Boas-noites.

Já era noite fechada. Eduardo recolheu-se a seu quarto cada vez mais firme na resolução de retirar-se o mais breve que lhe fosse possível daquela casa, onde o acaso o havia conduzido para ser sem o querer a chave do enlace de um drama, cujo desfecho poderia ser fatal.

Quanto a Roberto, esse respirava enfim desafogado, com o espírito livre do pesadelo que o perseguia, isto é ciente de que um homem como era o senhor Eduardo, de tanto mérito e galhardia, longe de ser seu rival morriade amores por outra.

Portanto apenas dele se despediu andou por todos os cantos da casa em que podia penetrar, à cata da prima a fim de expandir um pouco com ela o contentamento de que se achava possuído. Debalde: a pobrezinha tinha-se encerrado em seu quarto e nessa noite ninguém mais lhe viu o rosto. E o simples do primo não compreendia, que aquilo mesmo que tanto prazer lhe causava, levara angústia mortal ao coração de sua prima.

Daí a dois dias Eduardo despedia-se da casa do sr. Joaquim Ribeiro, depois de se trocarem de parte a parte os mais vivos protestos de eterno reconhecimento e amizade, e depois de ter Eduardo renovado em particular a Roberto o juramento de nunca ter pretendido e nem pretender para o futuro ao amor, nem à mão da senhora d. Paulina.

Ao apertar na despedida a mão desta, sentiu que estava gelada, e que a agitava um tremor convulso, que ela procurou disfarçar retirando-a prontamente. Eduardo, como fica dito, sentia por ela a mais viva e terna simpatia; compungiu-se dentro da alma, e não pôde conter as lágrimas que lhe rolavam pelas faces. Paulina as viu e não pôde chorar, porque a angústia lhe havia secado a fonte das lágrimas.

Da janela de seu quarto ela viu Eduardo sumir-se além das últimas colinas. Nesse momento os ouvidos lhe zuniram, e seus olhos se escureceram.

Pareceu-lhe que o túmulo a devorava em vida, e que sua alma se afogava nas trevas da noite eterna.

Capítulo 7 - O casamento

Era uma bonita e radiante tarde de sábado.

A Vila Franca do Imperador, linda e risonha povoação da província de S. Paulo, – como que se espanejava alegre e faceira em cima de sua colina aos últimos raios do sol de dezembro.

Era véspera do dia de descanso para os que verdadeiramente trabalham, de prazer para os patuscos e folgazões, missa e rezas para os padres e devotos.

Na verdade descansa-se, reza-se e diverte-se muito em todos os domingos. Mas as tardes e noites de sábado sabem muito mais do que as de domingo. Naquelas espera-se pela festa, o que dizem ser o melhor dela; nesta acaba-se com ela, o que não deixa de ser triste.

Ninguém deita-se da cama mais aborrecido em uma noite de domingo do que o estudante, o lente, o empregado público, o jornaleiro, enfim do que todo mundo – católico, bem entendido, – à exceção do soldado, do escravo e outros miseráveis, para os quais não há domingo nem dia santo, e do imperador, do duque, do frade e outros, para os quais todo o dia é dia santo.

Eis a razão por que se escolhem de ordinário as tardes e as noites de sábado para os casamentos, batizados, bailes, concertos, espetáculos, enfim para tudo quanto é regozijo.

No largo da matriz da Franca havia mais um motivo para a efervescência da alegria e do prazer.

Celebrava-se nesse dia com muita pompa e arrojo o casamento de uma moça pertencente a uma das mais ricas e distintas famílias da Franca. Os sinos repicavam alegre e incessantemente entre as mãos de encarniçados rapazes; uma imensidade de foguetes e girândolas estouravam nos ares, e toldavam a atmosfera com uma abóbada de fogo e fumo. À porta da igreja restrugia uma numerosa banda de música. Na igreja, pelo adro, pelas ruas não se via senão gente alegre, alardeando asseados e garridos trajes domingueiros, pois em toda a vila não ficou uma pessoa, que pusesse gravata ao pescoço, que não fosse convidada. Parecia aquele noivado uma festa pública, e fazia recordar as bodas de Gamacho.

A moça era formosa por sua rara beleza, e fora o alvo cobiçado e disputado por muitos e guapos pretendentes de fora e do lugar. Era filha do major José Ferreira, um dos mais abastados fazendeiros de toda a comarca e chamava-se Lucinda.

Pelo nome e pelos predicados o leitor já terá atinado que a noiva não era mais nem menos senão a namorada, a senhora dos pensamentos do jovem muladeiro Eduardo, que vimos quase papado por uma onça na fazenda de Joaquim Ribeiro, querendo salvar-lhe a filha. Adivinhou e sem dúvida terá também adivinhado que o noivo era o próprio Eduardo, e nada mais natural; eram dois amantes firmes, que há muito tempo se queriam, e dignos um do outro; dois belos e interessantes jovens, para os quais de há multo o himeneu entretecia sorrindo os laços de seda e ouro, com que devia uni-los para sempre.

No momento, em que os dois guapos e jovens noivos com as mãos enlaçadas recebiam em face do altar-mor a bênção nupcial, um viandante cavalgando uma linda e possante mula coberta de poeira e suor, envolto em uma pala de linho branco, e calçando botas de mateiro guarnecidas de largas chilenas de prata, entrava pela vila e passando pelo largo da matriz, ao ver aquela influência de povo e alvoroto festival, picado de curiosidade apeou-se para ver que santo se festejava, e ao mesmo tempo rezar uma oração e dar graças ao céu por ter-lhe dado até ali próspera viagem. Deixando o animal entregue ao camarada que o acompanhava, entrou pela porta principal, atravessando a custo a multidão. A cerimônia. estava concluída, e os noivos entonados e radiantes vinham descendo da nave para a porta do frontispício, atravessando a multidão que se abria para dar-lhes passagem, como dois soberbos cisnes cortando as ondas encrespadas de um lago agitado pelos ventos. Vendo o grande préstito que vinha pelo meio da igreja, o viandante arredou-se para um lado para vê-lo passar. Os noivos, que vinham na frente, foi como era natural o primeiro objeto de sua atenção. Mal deu com os olhos neles – Lucinda! – bradou ele com voz que ressoou por toda a igreja.

Ao som daquela voz Lucinda empalideceu e cambaleou. Todos voltaram-se para o lado donde ele rompera, mas o viandante, agachando-se, encolhendo-se, rompeu sereno e rápido como uma seta por entre a turba, que se agitava, e enquanto todos atônitos indagavam com os olhos donde partira aquele grito, saiu rapidamente por uma porta travessa, montou de um salto a cavalo, e desapareceu no primeiro beco que encontrou. Foi direito apear-se em casa de sua mãe, em cuja companhia morava sempre que estava na Franca.

– Meu filho! enfim... sempre chegaste! exclamou a velha, apenas o viu, estendendo-lhe os braços.

– Ah! minha mãe! minha mãe! exclamou o mancebo, e lançou-se nos braços dela soluçando, mas com os olhos secos e chamejantes.

– Que tens, filho, que estás assim amarelo e a tremer...

– Que golpe, minha mãe! que golpe acabo de receber! – Golpe, meu filho?... agora?... dizia a mãe assustada reparando por todo o corpo.

– Neste instante.

– Mas... não vejo sangue... onde foi o golpe? fala, meu filho; não me assustes assim.

– Não é isso, minha mãe; Lucinda... quem o diria!...

– Ah! já sei; já sei. Já se casou... Graças a Deus, respiro sossegada; pensei que te havia sucedido alguma desgraça.

– Pois quer maior desgraça, minha mãe?...

– Qual desgraça, menino! não perdes nada com isso...

– Ah! minha mãe, só Deus sabe quanto perco. Perco o sossego e a alegria do coração e para sempre...

– Qual para sempre! estás ainda muito tolo, meu filho. Não há mágoa, que o tempo não console. Tu és ainda muito criança. Não faltam por esse mundo moças mais bonitas que a Lucinda, e – aqui entre nós – mais bem-educadas, que te queiram. És um rapaz bem parecido e de muito boas maneiras; o ponto é que sejas comportado e saibas trabalhar, como até aqui tens feito, que noivas ricas e formosas te sairão aos centos.

– Nem falar nisso, minha mãe! eu acreditar mais em moças!?... não quero sujeitar-me a levar outra vez uma desfeita destas.

– Sossega, meu filho; há males que vêm para bem. Bem sabes, que nunca aprovei muito essa tua inclinação para semelhante rapariga. Achava nela um não sei quê de leviana e de estouvada que nada me agradava, e nunca tive fé com esta gente de Ferreiras; são todos falsos, e sem palavra.

As provas estás vendo. Queres que te diga uma coisa?... se não te visse tão agoniado, era este um dos dias mais felizes de toda a minha vida.

– Mas, minha mãe, ela mostrava querer-me tanto, e os pais pareciam fazer tanto gosto em nosso casamento. Quem sabe se não houve por aí algum embuste, alguma patranha... aquele Hipólito é um infame capaz de tudo.

– Meu filho, se eu disser que aí não houve de todo sua tal ou qual velhacaria da parte do moço, minto. Mas histórias! aquilo é mesmo gente sem cruz nem cunho.

– Ah!... logo vi. Então sempre houve patranha.

– Um enredo que de nada valeria, se eles fossem pessoas de palavra.

– Mas enfim, minha mãe, qual foi esse enredo?... estou ardendo por sabê-lo.

– Tu pensas, que não se soube logo por aqui de uma célebre caçada de onça, em que andaste lá pela Uberaba?... Correu por aqui que com risco de vida tinhas livrado das goelas de uma onça uma mocinha, filha de um fazendeiro muito rico, e que dizem ser linda como um sol.

– Até aí tudo é pura verdade; mas que tem isso com...

– Vai escutando. Disseram mais que ficaste por tal forma embelezado pela tal mocinha, que te invernaste na dita fazenda a ponto de parecer que de lá nunca mais sairias, que eras lá todo de dentro, e já parecias um filho da casa; que já nem cuidavas de teus negócios, e mil outras coisas, que não me lembro.

Eduardo suspirou. Este suspiro era um pensamento vago, que queria dizer: – Pobre Paulina!... antes assim tivesse acontecido! – Daqui a Uberaba não é longe, – continuou a velha,– umas vinte léguas quando muito, e não faltaram portadores que cá trouxessem todas essas novidades. De todas essas coisas o espertalhão do Hipólito da Cana Verde, que bem sabes que era um dos maiores apaixonados da Lucinda, se aproveitou e foi metê-las todas nos ouvidos dela e dos pais, e decerto acrescentando pontos e pintando a coisa com cores ainda mais feias.

– Ah! miserável intrigante! bradou Eduardo batendo os queixos e espumando de cólera. – Não soube aquele infame dizer também que estando eu a caçar o acaso me fez chegar àquela fazenda perseguindo uma onça; que fiz por aquela moça o que faria todo o homem de bem e de coragem, – não ele, que não tem brios, e não passa de um miserável poltrão; – que a onça arrojando-se sobre mim feriu-me gravemente, e atirou-me no chão sem sentidos e esvaindo-me em sangue...

– Santo Nome de Jesus!... exclamou a velha benzendo-se. – Disso ninguém soube por cá. Que perigo! santo Deus!... nunca deixará dessa maldita mania de caçar!... e como vais? – não sofres mais nada?...

– Nada, minha mãe, graças a Deus. Não tive senão perda de sangue, estou perfeitamente bom. O tratante, continuou ele, esqueceu-se também de dizer, que fui levado em braços para a casa do fazendeiro, e que forçoso me foi ficar ali longos dias para curar minhas feridas e restabelecer minhas forças quase de todo esgotadas em razão da imensa perda de sangue; que se fui tratado com todo o carinho e desvelo pelo pai e pela filha, é porque nenhuma outra coisa se devia esperar de pessoas de coração bem formado e agradecido vendo-me em tal estado, ainda que nenhum serviço tivessem de mim recebido.

Esqueceu-se também o infame velhaco, que essa moça desde criança está prometida em casamento a um primo e vizinho seu, que a estima extremosamente; enfim que por esses motivos todos foi-me indispensável demorar pela Uberaba muito mais do que seria preciso para aviar meus negócios, sofrendo não pequenos prejuízos. Ah! maldito mexeriqueiro! – concluiu Eduardo espumando de raiva e dando sobre uma mesa um murro furioso. – Não sei onde estou, que não vou já arrancar-te essa língua danada e com ela essa alma de lama!.. mas todo o tempo é tempo. Amanhã... amanhã temos de ajustar contas, infame trapaceiro.

– Sossega, meu filho; não te ponhas a perder por tão pouco. A culpa não é tanto do Hipólito. Se a Lucinda e sua gente tivessem grande empenho no teu casamento, não teriam acreditado tão de leve nesses mexericos. Olha o que te digo; os Ferreiras não estão lá muito bem de fortuna, por mais que se diga. O Hipólito tem fama de possuir mundos e fundos, posto que seja um gangolina, um trapaceiro. Demais é ainda parente deles, e essa gente gosta muito de casar parente com parente e por isso é que vai saindo essa perrada mofina que estás vendo. E tu, meu filho, não passas de um principiante, e eis aí por quê...

– Seja lá como for, minha mãe, – interrompeu com impaciência o filho, – em todo o caso é uma tremenda desfeita, que me fizeram, um desaforo, que não posso por nada agüentar de cara alegre, e de que mais tarde ou mais cedo, desta ou daquela maneira juro que hei de me vingar.

– Cala-te, filho; o melhor modo de te vingar é não te dares por achado. Deus e o tempo é que te hão de vingar. O tal Hipólito além de ser um paspalhão muito sem graça, é um atroado, um libertino. A senhora Lucinda, oh! Essa nunca me enganou, e Deus me perdoe, – está me parecendo, que vem a dar em uma... refinada sirigaita...

– Que está dizendo, minha mãe?...

– Não te enfades, Eduardo; não queiras tomar as dores por quem te atraiçoa... quer me parecer, que esse casamento... não é praga, que estou rogando, não; Deus tal não permita; – quer me parecer, que não pode acabar bem.

– Dê no que der, juro que não hão de ter muito alegre a sua lua-de-mel. Pelo menos hei de quebrar a cara àquele tratante.

– Deixa-te disso, menino; é como te disse, não te dês por achado. O desprezo é a melhor vingança, e a única que eles merecem. Finge mesmo que vieste apaixonado pela linda uberabense, e que te julgas feliz por te terem aliviado de uma carga, que outra coisa não é a tua Lucinda, e deixa correr trinta dias por um mês. Enfim, meu filho, há muito tempo de conversar: sossega esse coração e vai descansar, enquanto eu vou preparar-te uma boa ceia.

– É escusado, minha mãe; não tenho fome nenhuma, a boca amarga-me como fel, e a minha cabeça é uma brasa.

– Quem sabe, tens algum ramo de febre.

– Qual febre! a minha febre é a raiva, é o desespero.

– Ora por quem és, esquece-te disso e vai descansar.

– Não estou cansado, minha mãe; vou passear para distrair-me um pouco.

– Passear! não caias em tal. Olha, não vás fazer por aí alguma loucura, Eduardo.

– Protesto que nada farei, minha mãe.

– Não quero que saias; mandarei avisar os teus amigos de tua chegada; com eles te distrairás.

– Ora, minha mãe, o passeio me convinha mais; para que incomodar os amigos?...

– Não, não, Eduardo; não sairás; se és meu filho, hás de me obedecer.

A velha retirou-se, e Eduardo, que nunca nem mesmo nas mais insignificantes coisas desobedecera a sua mãe, deixou-se ficar em casa.

Capítulo 8 - Lucinda e Paulina

O leitor por certo pensará, que vai ter lugar um terrível duelo; que Eduardo ardendo em cólera e ciúmes desatende às ordens de sua mãe, espera que esta esteja adormecida, salta pela janela, e com uma pistola na mão e um punhal no seio introduz-se misteriosamente na sala, onde se festejam as bodas da formosa Lucinda, como o cavalheiro negro da Noite do Castelo, e aí prega uma bala na cabeça do feliz rival, ou pelo menos o esbofeteia em pleno baile, arranca da cabeça da noiva a grinalda nupcial e a calca aos pés rugindo. Depois de ter feito tudo isto, sem que os assistentes, imóveis de assombro, ousassem opor-lhe o menor embaraço, desaparece, esvai-se como um fantasma. Isto seria por certo mais dramático, e talvez mesmo sublime. Mas eu conto uma história, e não invento um conto; quero portanto narrar os fatos com aquela fidelidade, que permite-me a minha memória, tais quais mos contaram há bastantes anos.

É verdade que o nosso herói era valente e coraçudo, tinha muito pundonor e era dotado de nobres e altivos sentimentos; mas o certo é que só nos primeiros dias pensou em vingança. As palavras de sua mãe tinham deixado profunda impressão em seu espírito, e talvez também que algum sentimento íntimo ainda muito em gérmen e adormecido nas dobras do coração, contribuísse para acalmar o seu justo ressentimento.

Doeu-lhe cruelmente a desfeita de que fora vítima, e não pôde por muitos dias disfarçar o despeito e rancor, de que se achava possuído. Mas uma imagem sedutora começava a aparecer a miúdo em seu espírito, e com seu aspecto angélico e sereno dissipava-lhe os negrumes e tormentos do coração. Era como uma fada branca e vaporosa, que vinha varrendo a bruma espessa dos horizontes, e fazia coar uma réstia de luz meiga no fundo daquela alma ulcerada. Era a imagem suave e melancólica de Paulina, que surgia por detrás da sombra de Lucinda, que se esvaecia; era o tipo nobre e delicado da filha do fazendeiro, que apagava na tela da imaginação as formas voluptuosas da rósea e faceira paulista.

Paulina, ainda que Eduardo disso não tivesse consciência, tinha-lhe ficado para sempre gravada no coração em profundos e indeléveis caracteres. Não havia nele ainda uma paixão, porque havia um obstáculo, outra paixão; o coração humano não pode conter a um tempo duas paixões; na tela, onde existe um retrato, não se pode estampar outro sem apagar o primeiro.

Não havia ainda paixão, mas existia o gérmen dela, gérmen que só esperava a ocasião e o terreno livre para desenvolver-se com todo o viço e energia. Assim acontece por vezes, que debaixo do chão ocupado por uma planta robusta existe oculta a semente de outra planta. Se o ardor do sol ou a geada cresta, e faz definhar a primeira, esta cresce e rebenta com tal viço e força, que sufoca e mata a primeira, e toma como conta do terreno.

Eduardo confrontara no espírito as graças tão naturais, o porte modesto, e o sorriso tão meigo de Paulina com os ademanes faceiros e pretensiosos e a garridice de Lucinda, a cândida inocência de uma com a maliciosa vivacidade de outra, e compreendia que, se tivesse tido a dita de tê-las visto ambas a um tempo com o coração livre e espírito desprevenido, nem um momento teria hesitado na escolha. Lucinda com seu gentil donaire um pouco desenvolto, seu rosto sempre corado e risonho, com o voluptuoso meneio das esbeltas e bem torneadas formas fascinava os olhos, abrasava a imaginação, e era capaz de fazer arder em febre de sensualismo o mais estóico e frio temperamento. Paulina com a suave e angélica figura inspirava respeito, amor e adoração, insinuava-se no coração como um meigo raio da lua no seio de um lago dormente, e aí ficava para sempre estampada.

As qualidades de Lucinda, Eduardo as pesava e exagerava no espírito a ponto de convertê-las em abomináveis defeitos, enquanto Paulina lhe aparecia rodeada de uma auréola cada vez mais prestigiosa de candura e beleza. Seu pensamento volvia-se de contínuo com a mais viva saudade para a fazenda de Joaquim Ribeiro, recordava traço por traço as feições de Paulina, seus gestos, suas palavras, e admirava-se de ver como tudo lhe ficara tão intimamente gravado na memória; eram como caracteres apagados, que um reativo faz subitamente reaparecer vivos e distintos.

Lucinda era duplamente culpada para com Eduardo. Com sua deslealdade lhe havia trancado por dois lados os caminhos da felicidade e do amor. Mas não era a perda de Lucinda, que ele agora lastimava; antes o amor, que lhe havia consagrado, se ia convertendo em desprezo e aversão; era sim a perda de um tesouro, que a seus olhos valia mil vezes mais do que ela, de uma formosa e adorável criatura, que o amava sincera e ardentemente, e a cujo amor por causa de Lucinda havia renunciado para sempre. Maldita a hora em que preferira o fatal juramento, que fizera ao primo de Paulina! maldito o estouvado e bronco pretendente, que veio estorvar-lhe o caminho da felicidade, que o céu como que de propósito tinha preparado diante de seus passos todo alastrado das rosas da esperança e do amor! mais maldita ainda a estulta constância e lealdade que guardara para com uma loureira caprichosa, que tão levianamente o esquecera! Um anjo como que lhe caíra dos céus, e se lhe entregava nos braços, e ele o repelira de seu seio por amor de uma mulher vulgar, de uma filha da terra sem fé e sem pudor! Estas reflexões noite e dia amarguravam a alma de Eduardo, e quanto mais crescia a admiração e o amor, que concebera por Paulina, mais pungente era a angústia, que lhe ralava o coração. O mal era sem remédio; Eduardo, além de ser naturalmente dotado de instintos de lealdade e honradez a toda a prova, era paulista, firme e tenaz em seu propósito, incapaz de faltar à sua palavra e levando até ao fanatismo a religião do juramento. Ora, Eduardo tinha dado a sua palavra de honra a Roberto, tinha-lhe mesmo jurado pelas cinzas de seu pai, que nunca serviria de estorvo ao seu enlace com Paulina.

Esta cruel situação o acabrunhava, e por mais esforços que fizesse, não podia dissimular sua tristeza e abatimento aos olhos dos que com ele tratavam, e como a ninguém comunicara ainda a causa de seus desgostos, mais o afligia ainda o pensar que todos haviam de atribuí-los ao pesar de se ver traído por Lucinda.

Sua estada na Franca tornara-se-lhe insuportável; seu coração o chamava para a Uberaba e para a fazenda de Joaquim Ribeiro; mas que iria ele lá fazer, senão avivar suas mágoas vendo de perto um paraíso, donde um ente insignificante, um estólido trambolho, ou antes sua tola confiança em uma mulher o tinha expelido para sempre. E quem sabe se o amor que havia inspirado a Paulina duraria ainda, e se ela já não estaria para sempre unida ao lorpa do primo? Mas também, pensava Eduardo, bem poderia acontecer que Paulina, a qual segundo tinha observado nenhuma inclinação sentia por seu primo,se recusasse obstinadamente a dar-lhe a mão de esposa, e que nesse caso Roberto desenganado e sem esperança, apesar da sua sandice não pusesse dúvida em desobrigá-lo de um juramento, que em nada lhe poderia aproveitar.

Assim passou Eduardo mais de um mês com o espírito agitado ao embate de encontrados pensamentos, pondo a imaginação em torturas em busca de um meio, que o arrancasse daquele estado de irresolução e tristeza que o acabrunhava. Sua mãe, que na maior inquietação assim o via cada vez mais preocupado e abatido, procurava em vão consolá-lo e distraí-lo: mas ela também como os demais ignorava ainda a verdadeira causa da contínua preocupação e tristeza de seu filho.

– Arre também com isso, Eduardo! – disse-lhe ela um dia em tom de branda repreensão; – não mostrarás um dia que és homem? já vou perdendo a fé contigo... Teus irmãos estão casados uns e outros espalhados por esse mundo; restavas perto de mim somente tu para consolo e amparo de minha velhice; mas infelizmente vejo que também não posso contar contigo...

– Ah! minha mãe, não fale assim; por que motivo?...

– Porque pensei que eras gente, que tinhas coragem e juízo. Agora vejo que não passas de um maluco e um moleirão; que não tens timbre, nem disposição para nada. A Lucinda anda por aí cada vez mais trêfega e garrida, rindo, pulando e saracoteando como nunca, e tu meu fracalhão, andas aí todo embezerrado e amuado como criança que apanhou bolos, sem ter ânimo de varrer da memória aquela sirigaita!... ah! meu filho, meu filho, assim tu me desesperas! – Ah! minha mãe, como vosmecê se engana! eu faço tanto caso hoje de Lucinda como da primeira besta que comprei em Sorocaba, que já nem sei de que cor era.

– Deveras!... então que motivo tens mais para andar assim triste e sorumbático? – Minha mãe não se lembra que no fatal dia em que aqui cheguei, procurando dar-me conselhos e consolações, entre outras coisas me disse: – não te dês por achado, finge mesmo que morres de amores pela linda uberabense? – Oh! se me lembro!... como se fosse hoje, e é isso o que deverias ter feito logo.

– Pois bem, minha mãe; não é preciso fingir; eu morro mesmo de amores por ela.

– Deveras!.. tão depressa! tão longe dela!... como pode ser isso, meu filho? – Também não sei lhe dizer, minha mãe. Quer-me parecer, que já a amava desde lá sem o saber. Apagou-se de meu coração o retrato de Lucinda, e por baixo dele achei gravado o de Paulina.

– É extraordinário; mas nem por isso posso compreender o motivo por que andas triste. Queres bem a essa moça e ela na obrigação em que está para contigo, é impossível que te desdenhe, e o pai muito menos.

– Não me desdenha não, minha mãe; disso estou certo, e até creio que me quer muito bem.

– Pois então?... ela é rica, bonita e de boa família; tu também não és nenhum pé-rapado; vai lá, pede-a em casamento, que estou certa que não ta negarão; casa-te com ela e está tudo acabado. Parece até que a misericórdia de Deus estava armando as coisas deste jeito, para que nunca fosses marido daquela boneca de fogo – Deus me perdoe, – e tivesses uma mulher como mereces.

– Prouvera a Deus, que assim fosse! mas, ai de mim! não pode, não pode ser assim.

– Por que não, meu filho? quem te estorva?...

– São contos largos, minha mãe! – Pois venham esses contos largos; tens porventura segredos para mim?...

– Nenhum por certo, e peço-lhe perdão por não lhe ter contado tudo há mais tempo.

Eduardo contou então a sua mãe fiel e minuciosamente, tudo quanto lhe acontecera na fazenda de Joaquim Ribeiro desde a caçada da onça até à sua retirada.

– Já vê portanto minha mãe; – concluiu ele, – que não me é possível por forma nenhuma pretender jamais a mão dessa moça.

– Ora valha-me Deus!... aí temos outra. Pois menino, não se está vendo pela pintura que me fizeste desse Roberto, que é impossível que a moça o queira para marido, e que te prefere um milhão de vezes? Que te importa esse paspalhão do primo? não sejas tolo; deixa-te de escrúpulos; vai lá, e pede-a em casamento, e dá uma figa a esse Roberto.

– Eu faltar à minha palavra, quebrar um juramento!...

– Qual juramento! isso foi um juramento louco, que Deus não ouviu, nem aceitou.

– Louco ou não, é um juramento, minha mãe; devo cumpri-lo.

– Será, mas... meu filho, uma promessa, um juramento o padre pode, quando seja preciso, comutá-lo em penitências, jejuns e romarias.

– Quando a violação dele a ninguém prejudica, pode ser, minha mãe; mas neste caso?...

– És um louco, Eduardo; – eu creio que desejo mais do que tu mesmo a tua felicidade – Em nome de teu pai, por cujas cinzas juraste, eu te desobrigo desse juramento.

– Pelo amor de Deus, minha mãe, não me obrigue a lhe desobedecer pela primeira vez em minha vida.

– Valha-te Deus, filho!... pois bem? já que assim te emperras no teu juramento, faze o que entenderes. Mas tudo isto é culpa tua, por não teres me dado ouvidos; não te enfades, se te falo assim. Se me ouvisses e não ficasses embasbacado diante daquela enfatuada Lucinda, não andarias agora enredado em tantos desgostos. O teu exemplo deve servir de lição mestra para os rapazolas, que entendem que a primeira mocetona bonita que lhes enche os olhos, deve ser por força sua mulher.

– Ora, minha mãe, quem não cai nessas?...

– Isso é verdade; são todos assim, e é malhar em ferro frio. Mas agora se queres um conselho, vai-te embora, meu filho. É tempo de feira; pega no dinheiro que tens, e se não tens eu te darei, e vai para Sorocaba. Vai negociar, vai girar, vai correr mundo para te distrair. Vai divertir-te, demora-te por lá o tempo que quiseres, e volta, não macambúzio e triste como agora, mas alegre, fresco e bem-disposto, como foi antigamente o meu Eduardo.

– Isso pretendo eu fazer, minha mãe, e desde já vou dispor os preparativos da viagem.

Capítulo 9 - O noivo

Uma paixão infeliz alimentada na solidão, na monótona serenidade de um lar doméstico quase vazio, quando após um passado de inocência, remanso e alegria nos embebemos em um futuro onde só vemos lágrimas e dores, quando a desesperança com sopro de fogo vem secar uma lágrima consoladora, que a saudade talvez quisesse fazer brotar nas pálpebras lívidas, essa paixão é um cancro que rói as fibras do coração, um sopro de morte, que desseca e estanca a seiva da existência.

Tal era o viver da mísera Paulina, depois que vira transpor as últimas colinas o vulto de Eduardo, e com ele todas as suas esperanças. Uma tristeza profunda, indizível, lhe envolvia a alma como um crepe negro. Todos os encantos da solidão que habitava, aqueles largos e luminosos horizontes e aquelas pitorescas campinas, que a rodeavam de risonhas perspectivas, aquelas tardes mornas e voluptuosas, tão prenhes de perfumes e canções, tudo isso tinha-se extinguido para aquela alma, que recolhida em si mesma só via o horizonte turvo e funéreo de suas agonias. Erra, quem pensa que o espetáculo da natureza na solidão, que a mudez e remanso dos ermos pode adormecer as dores fundas do coração, consolar os grandes infortúnios; a solidão tem para o desgraçado o olhar impassível de uma companheira, que nos sorri e nos afaga na adversidade com o mesmo sorriso, com que nos afagou em horas de ventura e de alegria.

Os sofrimentos da alma se faziam sentir de um modo assustador na organização física de Paulina. O verme peçonhento tinha pousado no âmago da tenra e mimosa flor do deserto e, devorando-lhe a seiva da vida,deixava nele o gérmen da morte. Já ninguém a via como outrora esbelta e ágil como a ema percorrer as campinas em busca de flores e frutas, nem ir sentar-se corada e risonha à sombra do laranjal, ou na relva da fonte a coser e a cantar entre as escravas. Quando saía do seu quarto, onde passava os dias a coser ou a ler maquinalmente, viam-na pálida e vacilante arrastar-se a passos lentos ao longo dos corredores, descer ao curral, procurar a sombra da gameleira, sentar-se sobre a mesa do mesmo carro onde ouvira da boca de Eduardo a fatal revelação, que a tornara infeliz para sempre, e ali com as mãos agarradas a um dos fueiros e a face encostada a elas, os olhos fixos ao longe pela estrada que se perdia serpeando pelas colinas, ficar horas e horas entregue a um torpor melancólico, que a tornava como estátua.

O pai notava com a mais viva inquietação e ansiedade o rápido definhar de sua filha, e desesperava-se vendo que todos os cuidados e desvelos, todos os meios de que lançava mão, não conseguiam atalhar os progressos do mal, que ameaçava roubar-lhe sua única e querida filha.

– Que tens, Paulina, que cada vez te vejo mais pálida e abatida, dizia-lhe o pai já talvez pela centésima vez. Tu sofres alguma coisa que não me queres dizer. É preciso que te distraias, que recobres as tuas cores, a tua antiga alegria, que voltes ao que dantes eras, se não queres que eu morra de desgosto.

– Ah! meu pai, eu mesmo não sei o que sofro; não tenho indisposição, nem dor alguma; entretanto acho-me mal. O que sei dizer é que desde o dia em que estive a ponto de cair nas garras daquela onça, já não sou a mesma, e creio que nunca mais o serei. De que serviu aquele moço ter-me livrado das garras do animal, o choque que senti, arruinou-me a saúde.

– Assim devia ser, minha filha; compreendo muito bem, que à vista daquele animal feroz, aqueles gritos e alaridos... aquele moço aparecendo de improviso como caído do céu para salvar-te, e depois lavado em sangue e quase morto... tudo isso não podia deixar de causar um grande abalo nos nervos e alterar a saúde de uma fraca criança, como tu és. Mas tudo isso já se passou há tanto tempo... já lá vai quase um ano; e em vez de melhorar, te vejo sempre a pior, a pior... oh!... minha filha!... quererás me deixar sozinho neste mundo?...

– Oh? meu pai! não pense nisso. Deus é grande; isto há de passar, creia-me; são ainda efeitos do abalo que senti.

– Há de passar, há de passar, sempre estás a falar assim e cada vez estás a pior. Olha, minha filha, talvez te seja útil mudar de ares, ver novas terras, distrair-te por esse mundo. Já te tenho dito muitas vezes, o mal que te consome não é mais que pura nervosia; o que te convém é distração e não é no deserto desta fazenda que te hás de distrair. Vamo-nos embora; venderei fazenda, escravos, gado, tudo e iremos para Vila Rica, para S. Paulo, para o Rio de Janeiro, para onde quiseres...

– Para quê, meu pai? o mal não está nesta terra, nem nestes ares, nem em nada do que me cerca; o mal está dentro de mim mesma, e me acompanhará por toda parte. Sossegue, meu pai; se Deus for servido, aqui mesmo melhorarei e ficarei boa.

– Deus assim o permita, minha filha! mas por quem és, não vás encerrar-te no quarto, nem lá ficar estatelada embaixo da gameleira, como costumas; não fazes idéia de quanto isso me aflige. Vai antes passear pelo quintal, tratar das tuas flores, dos teus passarinhos... senão fico pensando, que queres morrer mesmo, e me deixar sozinho neste mundo.

Joaquim Ribeiro já tinha suspeitado ou antes estava certo da causa dos sofrimentos de sua filha. Era para ele fora de dúvida que não era senão o moço que a tinha salvado da onça, que inspirando-lhe uma paixão cega e fatal, tendo-a livrado de uma morte desastrosa, a ia levando a outra morte mais lenta e talvez mais cruel. Sabia também que Eduardo estava ajustado para casar-se e talvez já estivesse casado com uma rica e formosa moça de seu país, e portanto por esse lado impossível lhe era tentar o mais poderoso senão o único remédio para o mal de sua filha. Todavia respeitando o melindre de Paulina, nunca ousou interrogá-la diretamente sobre tal assunto, porque entendia talvez com razão, que tocar em uma ferida, para a qual não podia dar remédio algum, só serviria para agravá-la. Propunha passeios e distrações a sua filha, mas ela quase sempre se recusava, e quando por condescender com seu pai os aceitava, voltava ainda mais triste e abatida que nunca.

Depois de envidar sem resultado algum todos os expedientes e recursos de que podia lançar mão, o velho depois de muito pensar e dar tratos à imaginação, capacitou-se de que o único meio que lhe restava a tentar para arrancar sua filha daquele estado de melancolia e prostração, que a ia arrastando ao túmulo, era o casamento.

A mudança de estado, a companhia e intimidade de um bom marido, o desempenho dos deveres domésticos, talvez produzissem no espírito da moça uma revolução salutar, e a restituisem à vida e à alegria. A dificuldade estava na execução desse pensamento. Se a causa de seus sofrimentos era, como pensava, a violenta paixão que havia concebido por Eduardo, bem difícil seria induzi-la a aceitar um marido, fosse ele quem fosse.

Todavia Joaquim Ribeiro não recuou diante de tal dificuldade, e deliberou envidar os últimos esforços para levar a efeito seu pensamento. Não tinha necessidade de procurar um noivo para sua filha; desde a infância de Paulina e Roberto havia como que um compromisso tácito entre ele e os pais de Roberto, seus parentes e vizinhos, um projeto de família para casá-los, caso não aparecesse algum ulterior obstáculo; não tinha mais, pois, do que abreviar um negócio, que já estava meio conchavado. Roberto, apesar de sua simplicidade e rudeza era bom moço, bem apessoado, e tinha um excelente coração; aquelas maneiras broncas e asselvajadas eram efeito da educação, e facilmente as iria perdendo com o traquejo do mundo. Este casamento ele o proporia também a Paulina como um ponto de honra, como um compromisso, a que nem ele nem ela poderiam faltar sem quebra de sua lealdade.

Logo no dia seguinte ao em que concebeu aquele projeto, Joaquim Ribeiro procurou sua filha para lhe comunicar sua resolução, disposto a empregar todos os meios, até mesmo a autoridade paterna para induzi-la a dar esse passo. Não foi preciso tanto; Paulina relutou muito, porém não tanto quanto ele receava.

– Pois bem, minha filha; – disse-lhe o pai depois de muita insistência de parte a parte; – propunha-te esse casamento porque acredito que é o único meio de salvar-te; mas já que queres morrer e arrastar-me contigo à sepultura, faça-se a tua vontade.

– Não, meu pai, – exclamou a moça tomando a mão de seu pai, beijando-a com ternura e banhando-a em lágrimas; – já que meu pai assim o quer, e assim acha conveniente, farei o que meu pai determina, visto que esse casamento,– murmurou ela em voz mais baixa e como a medo, se não pode me fazer feliz, também não me tornará mais desgraçada do que sou Paulina, que já tinha renunciado a toda a esperança de felicidade no mundo, não quis e nem pôde recusar-se ao sacrifício que dela exigia seu pai quase com as lágrimas nos olhos. Se não tinha amor a seu primo, também não lhe tinha aversão. Casada ou não, teria de sofrer sempre até morrer. Resignou-se portanto e curvou-se à vontade de seu pai, porque assim tinha ao menos o prazer, embora fosse por pouco tempo, de alentá-lo com a esperança de um futuro no qual ela mesma pouca ou nenhuma confiança tinha.

Nesse mesmo dia Joaquim Ribeiro despachou um próprio com um bilhete a Roberto, pedindo-lhe que o mais breve que fosse possível chegasse a sua casa. Escusado é dizer, que no outro dia à hora de almoço Roberto apeava-se ofegante e ansioso de curiosidade à porta da casa de seu tio, e largando à porta o animal batendo virilha e pingando suor, de dois pinotes galgou a escada da varanda; e se não chegou mais cedo, é porque não tinha asas.

Cumpre-nos aqui dizer que Roberto, depois da partida de Eduardo, não tinha perdido nem um ceitil da paixão que tinha por sua prima, e não deixava de fazer reiteradas visitas à fazenda de seu tio, e ora em caçadas, ora campeando uma rês perdida, ora por qualquer outro pretexto, que sabia inventar, lá ia quase sempre esbarrar e pernoitar. Vendo-a triste e indisposta perguntava-lhe o que tinha. Ela sempre meiga e afável respondia-lhe, ora que era uma indisposição de estômago, ora uma constipação, e o simples do rapaz acreditando piamente estava longe de suspeitar, que tudo aquilo não era menos do que o efeito de uma paixão profunda, da qual ele não era o objeto, e lá de si para si julgava, que a moléstia de Paulina não era senão vontade de se casar, pois tinha ouvido dizer a muita gente que algumas moças adoecem e morrem por não se casarem a tempo. Roberto, além de ser muito moço, – pois teria vinte anos quando muito, – não tivera educação alguma; demais, vivendo sempre na roça, não tinha a menor experiência de mundo, e muito menos desse pequeno mundo tão cheio de problemas e mistérios, que se chama coração humano. Era um simplório, mas tinha um excelente caráter, e muita sensibilidade. Há muito tempo desejava falar ao tio no seu casamento com Paulina; mas tinha vergonha e acanhamento como uma moça. Todas as vezes, que ia a casa do tio, ia na firme resolução de falar-lhe francamente no negócio, mas apenas chegava à sua presença, a coragem o abandonava, falava muito, contava mil histórias, e por fim nunca dizia ao que ia.

Portanto compreende-se como lhe caiu a sopa no mel, quando Joaquim Ribeiro, francamente e sem rodeios, lhe declarou, que o mandara chamar com o único fim de comunicar-lhe, que era seu desejo efetuar com a maior brevidade possível o casamento dele com sua filha. O rapaz não cabia na pele de contente, e não pôde disfarçar aos olhos do tio sua alegria infantil e grotesca; estava como embriagado; beijou a mão do tio, e derretendo-se em protestos de gratidão e amizade tais parvoíces soltou, representou tantas farsas, que faziam sorrir o bom do velho, se não tivesse a alma tão carregada de graves e sombrios pensamentos.

Paulina não apareceu a seu primo senão muito tarde, à hora do jantar; desculpou-se com suas costumadas enxaquecas e indisposições; a coitada estava efetivamente mais pálida e desfeita que nunca. O primo desta vez já mais ousado não cessou de atormentá-la com um chuveiro de obséquios e galanteios impertinentes, a que a moça respondia com uma frieza e mesmo com um ar de displicência, que em vão se esforçava por dissimular. Só a nímia simplicidade de Roberto poderia não perceber quanto ela se achava constrangida e contrariada. É que no coração da infeliz dava-se então uma terrível luta, e começava a sentir, quanto era pesado o sacrifício, a que por condescender com seu pai se havia sujeitado.

À tardinha Paulina, a despeito da advertência ou do pedido de seu pai, foi, como tinha de costume, sentar-se debaixo dos ramos da grande gameleira do curral, sobre a mesa do carro. Como para disfarçar o motivo, que ali sempre a conduzia, levava um livro, que às vezes abria, mas nunca lia; a infeliz tinha muito que ler no livro negro de seu coração. Aquele lugar tinha para a alma de Paulina um doloroso encanto; ela o visitava como a mãe, que volta de contínuo ao túmulo do filho querido que perdeu, ou como a rola, que pousa arrulando gemidos de saudade sobre os destroços do ninho, donde o gavião arrancou-lhes os tenros filhotes.

Estava-se no mês de agosto; o sabiá cantava tristemente; abafado entre vapores, o sol sem raios pendia vermelho e abraseado sobre os últimos espigões, cujas formas envoltas em um véu fumacento se iam apagando ao longe como as sombras de um painel desbotado pelo tempo. Nem uma brisa agitava o ambiente perfumado e morno, e melancólico silêncio pousava sobre as solidões.

Havia um ano, que naquele mesmo lugar, em uma serena e silenciosa tarde como aquela, Paulina tinha ouvido sua sentença de morte dos lábios daquele mesmo, que pouco antes lhe tinha salvado a vida.

Paulina olhava para o caminho da Uberaba... dava o último adeus às suas esperanças, e dentro da alma como que lhe sussurrava um hino confuso, mais dorido e fúnebre como o eco, da campa que tomba sobre um cadáver.

Quando mais absorvida se achava em seu angustioso cismar, eis que se lhe apresenta em frente o rosto rubicundo e folgazão do seu bom primo, do seu noivo. Aquela aparição inesperada, que vinha quebrar de modo tão abrupto e cruel o fio de seus dolorosos pensamentos, causou-lhe a mais desagradável impressão, o mais horrível choque que imaginar-se pode. Mas forçoso lhe era dissimular.

– Prima de meu coração, – disse-lhe Roberto com toda a meiguice de que era capaz, – o que está fazendo aqui tão sozinha?!... vamos passear, e não aqui assim triste como uma juriti de asa quebrada.

– Ora primo!... respondeu ela esforçando-se por sorrir. – Estou tomando o fresco... faz tanto calor: e eu estou com tantas dores de cabeça.

– É do estômago, prima? eu não lhe disse que tomasse chá de losna?... a mana Josefina também costuma ter disso, e diz que para isso chá de losna é um porrete...

– Hei de tomá-lo logo ao deitar...

– Pois tome e verá... mas, mudando de conversa... a prima já sabe de uma?... ora também a quem vou eu perguntar!... decerto já sabe.

– De quê, primo? – Ora! inda pergunta!.., pois não sabe para que seu pai mandou-me chamar?...

– Eu não...

– Ora deixe-se disso;... pois ele não lhe disse nada?...

– A respeito de quê, primo?...

– Ande lá! a senhora sabe bem; está se fazendo desentendida.

– Ah! pode ser... me parece que trata-se...

– De quê, prima? fale...

– Ora! também o primo sabe muito bem, e para que hei de ser eu a primeira a falar.

Então a prima quer... não quer? – Casar-me com o primo, não é isso?... para que havemos de estar com mistérios, disse Paulina impaciente por terminar aquele incidente, que a mortificava.

– Isso mesmo, prima... quer, não quer?

– Quero, primo, porque meu pai assim o quer, e é meu dever obedecer-lhe.

– São todas assim; – pensou Roberto lá com os seus botões – estão mortas por se casarem, e sempre de boca dura. E sabe, continuou ele em voz alta, que seu pai quer que isso seja quanto antes? – Sei tudo, meu primo.

– Então apronte-se, minha rica prima, arranje quanto antes o seu enxoval... seu pai quer que o noivado seja aqui na roça, muito à capucha; mas eu não estou por essa; quero que seja no arraial e com muito arrojo; ele que não tenha susto, que eu faço as despesas. Que bonito noivado não há de ser... e que par feliz não havemos de ser, hem, minha prima do meu coração, meu benzinho da minha alma? Assim falando, Roberto agarrava com amoroso frenesi em uma das frias e brancas mãos de Paulina, enlaçou-lhe com força o braço em torno da cintura, e pespegou-lhe na face um sequioso beijo, cujo estalo teria denunciado ao longe seu atrevimento, se o curral não estivesse completamente ermo, e retirou-se à pressa como que corrido de sua própria ousadia, e com medo de alguma reprimenda.

Capítulo 10 - Regresso extemporâneo

Ao sentir a impressão daquele beijo, ao qual seu rosto se teria incendiado de vivo rubor, se porventura o recebesse de Eduardo, as faces de Paulina já habitualmente pálidas se cobriram de lividez cadavérica. Esse beijo, que não era aceito nem santificado pelo amor, viera como sopro de ardentes e bravios páramos crestar-lhe para sempre o matiz virginal das faces, e estampar-lhe no rosto o selo do infortúnio eterno, O sangue todo refluiu-lhe ao coração, e largo tempo ela ficou na mesma posição, em que a deixara Roberto, imóvel e como que petrificada.

Saindo enfim daquela espécie de vertigem, levantou-se, e volvendo um último olhar para a estrada da Uberaba, divisou ao longe um cavaleiro, que vinha só dirigindo para a fazenda. Pelo que se podia julgar ao longe, era pessoa de distinção; cavalgava possante e garboso animal, e acompanhava-o um camarada tocando um cargueiro com canastras. Paulina, que já se havia levantado e ia-se recolher, deteve-se alguns minutos para reconhecer quem era o viandante. Como vinha marchando com muita rapidez, este não levou muito tempo a chegar à porteira do curral. Quando curvou-se sobre o animal para correr a tramela e abrir a porteira, gritando – dá licença,– pela voz e pela figura logo o reconheceu; já antes seu coração lho estava adivinhando. Era ele! era Eduardo! Só Deus sabe quanto esforço foi preciso à pobre moça para manter-se em pé, e saudar convenientemente o cavaleiro, que entrava.

Comprimentou-o, todavia, dominando do melhor modo que pôde a sua perturbação, convidou-o a apear-se e a subir para a varanda, e a muito custo com passos trêmulos e vacilantes o foi acompanhando.

As faces de Paulina, onde há longo tempo não assomava nem o mais leve rubor, se incenderam de repente, e converteram-se em duas rosas purpúreas; o lado principalmente, em que Roberto acabava de imprimir seus lábios, ardia-lhe como uma brasa viva. Considerava-se quase como uma amante infiel, e parecia-lhe que Eduardo estava vendo em sua face o vestígio do beijo que acabava de receber, e entretanto notava que Eduardo a olhava com um olhar bem diferente do de outrora, e lhe lançava vistas repassadas de emoção e de ternura. Pobre infeliz! acabava de se precipitar no abismo no momento em que a mão do destino baixava talvez sobre ela para erguê-la ao céu do amor e da felicidade.

Como porém aparecera Eduardo ali naquela ocasião?... o que vinha ele fazer? É o que o leitor vai imediatamente saber.

Eduardo poucos dias depois da última conversa que tivera com sua mãe, fez seus aprestos de viagem, e partiu para Sorocaba. Esperava conseguir com as fadigas, cuidados e distrações dessa longa jornada senão o completo esquecimento, ao menos uma grande diversão a seus pesares.

Sorocaba em tempos de feira, assim como é um foco de atividade e comércio, é também mansão de prazeres e divertimentos de toda a natureza.

A afluência de uma multidão de pessoas de todas as classes e procedências, a animação e movimento, que ali reina, as reuniões, jogos, bailes, espetáculos e folguedos de todo o gênero são suficientes para atordoar a cabeça de um moço, e fazê-lo esquecer, ao menos temporariamente, a fada de seus sonhos, por mais enamorado que esteja.

A vida do muladeiro, por outro lado, é rude e trabalhosa; exige uma contínua vigilância, uma atividade incessante. O muladeiro quase que não larga os arrieiros senão para deitar-se e repousar algumas horas. Tanger manadas de milhares de mulas bravias através de imensos e inóspitos sertões por matas, serradões e campinas abertas, rodeá-las, repontá-las e contá-las todos os dias de manhã e de tarde, além de outras muitas fadigas e cuidados inerentes a esse gênero de vida, é tarefa para acabrunhar as mais ativas e robustas organizações, e pouco ou nenhum tempo pode deixar para pensar em amores.

Não aconteceu assim a Eduardo, que, no meio da sedução de mil festins e prazeres, e a despeito de todas as fadigas e preocupações de seu afanoso negócio, nem um só dia se esqueceu de Paulina. Bem pelo contrário tudo lhe rememorava a imagem dela, e a cada passo encontrava objetos, que lhe avivavam a saudade que o consumia. Uma bonita perspectiva, um curral, uma gameleira, que via em seu caminho, levava-lhe a imaginação para a fazenda de Joaquim Ribeiro e para junto de Paulina.

Se bem que não se descuidasse dos penosos misteres do seu gênero de vida, trabalhava como por hábito e maquinalmente, como quem se desencarrega de uma tarefa, e não com aquele gosto, zelo e dedicação de quem procura promover seus interesses e adquirir bens da fortuna.

O giro costumado de Eduardo nas excursões de seu negócio era passar o Paraná, percorrer alguns municípios da província de Mato Grosso, atravessar a de Goiás e entrar em Minas pelos municípios de Paracatu, Patrocínio, Araxá e Uberaba, para daqui recolher-se à Franca.

Desta vez, porém, sem plano deliberado, quase sem o querer e sem o pensar, começou sua derrota em sentido inverso. Seu coração o chamava para a Uberaba, e para lá tangeu a sua tropa. Bem sabia, que não ia senão avivar suas mágoas no teatro de seu infortúnio; mas ia assim mesmo, como o passarinho fascinado pela serpente, e que soltando lamentosos pios vai descendo de ramo em ramo até meter-se nas goelas do voraz e hediondo réptil.

Chegando a Uberaba, Eduardo procurou informar-se do estado da família de Joaquim Ribeiro, e soube com prazer e consternação a um tempo, que Paulina se achava ainda solteira, mas gravemente enferma, o que era motivo para seu pai andar sumamente aflito e desgostoso. Eduardo logo presumiu qual era a causa do mal de Paulina, e ficou com o coração entregue à maior angústia e à mais cruel perplexidade. Aparecer a Paulina era avivar-lhe uma chaga profunda e dolorosa, a que ele não podia dar remédio algum; era agravar para ambos uma situação já tão cruel e desesperada; era, além de tudo isso, faltar de alguma sorte ao juramento que prestara a Roberto, pois tendo consciência de ser adorado pela moça, só a sua presença poderia servir de estorvo ao enlace dele com sua prima. Por outro lado considerava que no decurso de um ano as coisas poderiam ter mudado de face, e tomado uma direção inteiramente nova, e que ninguém sabia o que ia pelo interior daquela família; era bem possível que Paulina se recusasse constante e inexoravelmente a aceitar a mão de seu primo, e que este desenganado por fim tivesse desistido de sua pretensão. Nessa eventualidade tão natural deveria ele acaso deixar que se definhasse e morresse de pura mágoa aquela por quem daria mil vidas que tivesse? não era pelo contrário seu rigoroso dever voar a ela, e no caso que fosse possível, levar-lhe consolação e esperança, e salvar-lhe segunda vez a exis-tência? – Vou decididamente! – pensou consigo depois de um longo dia de ansiedade e hesitação. – Tenho negócios e cobranças a realizar por aquele lado, e não posso deixar de passar pela fazenda de Joaquim Ribeiro. Uma hora que lá me demore, poderei saber de tudo, e decidirei do futuro; meu e de Paulina. Jurei a Roberto de nunca servir de estorvo ao seu casamento, mas não de nunca pôr os pés em casa de seu tio.

Tomada esta deliberação, Eduardo montou a cavalo pela manhã, e na tarde desse mesmo dia chegou, como vimos, à fazenda de Joaquim Ribeiro.

Roberto estava com seu tio na sala de jantar conversando e discutindo planos para a celebração do consórcio. O tio queria que fosse na roça sem estrondo e com muita simplicidade; o sobrinho instava para que fosse no arraial e com muito arrojo e galhardia.

Graças ao crepúsculo, que descia escurecendo a sombria sala, não notaram a perturbação e o extraordinário transtorno das feições de Paulina, quando veio comunicar-lhes a chegada do sr. Eduardo. Esta inesperada nova causou o maior sobressalto no espírito de ambos, assim como para Paulina fora um raio que a esmagara.

– O sr. Eduardo! – exclamou Roberto levantando-se com a maior surpresa e agitação; – que diabo vem cá fazer agora esse homem!... sua visita nesta ocasião era bem dispensável.

– De fato, – disse consigo o velho, – veio em bem má ocasião. O que virá fazer?... queira Deus não venha desmanchar com sua presença todos os meus planos?...

Na realidade a presença de Eduardo naquela ocasião vinha alterar profundamente a situação dos indivíduos daquela pequena família; vinha arrancar com suas mãos o bálsamo, que o velho fazendeiro com paternal carinho aplicava sobre o coração da filha, e que talvez com o auxílio do tempo e da reflexão viesse a produzir saudáveis resultados.

– Vamos ter com ele, Roberto, – disse o fazendeiro; – muito lhe devemos eu e Paulina; é nosso dever recebê-lo com os braços abertos, e tratá-lo com toda a distinção e carinho.

Saíram imediatamente a receber o hóspede. Paulina os acompanhou. Tinha apenas introduzido o recém-chegado na sala de jantar e trocava com ele as primeiras palavras de cumprimento e civilidade, quando Paulina que se conservara em pé, trêmula e arquejante, a um canto desviado, deu um grito agudo, e sentou-se de chofre, ou antes caiu sobre uma cadeira.

– Que é isto! que tens, Paulina – bradou o pai atirando-se para ela. Eduardo e Roberto acudiram ao mesmo tempo.

– Paulina! Paulina! – gritava o pai sustendo-a no braço, e agitando-a; – era debalde; a infeliz não podia ouvi-lo. Pendurada no braço paterno a fronte branca pendia-lhe para trás como lírio esgalhado, o corpo alquebrava-se lânguido e inerte, e as pálpebras transparentes e cerradas eram como lâmpadas de alabastro, onde a luz acabara de extinguir-se. Estava profundamente desmaiada.

– A cavalo já, Roberto! a cavalo e depressa! – gritou o velho. Pegue no melhor animal que aí houver, corra já a Uberaba e traga-nos um médico.

Roberto, que em outra qualquer ocasião teria afrontado fadigas, coriscos e raios, e teria ido ao inferno para servir a Paulina, desta vez, apesar da gravidade do caso, hesitou e prestou-se de mau humor. Seus antigos ciúmes renasciam, e suspeitas cruéis lhe atravessavam o espírito, suspeitas que para outro qualquer mais perspicaz há muito teriam tomado o caráter de certeza. Não seria aquele maldito hóspede a causa dos sofrimentos de sua prima, e do vágado de que acabava de ser vítima?...

– Nesse caso ele que vá! – pensava ele. Quem as armou que as desarme. No estado de irritação, de que se achava possuído contra o recém-chegado, esteve a ponto de dizer estouvadamente: – Aqui o sr. Eduardo, que acaba de chegar e ainda está com o animal selado, bem nos pode fazer esse favor. Mas o amor, que consagrava a Paulina, e o respeito, que tinha a seu tio, prevaleceram em sua alma.

Daí a alguns instantes Roberto galopava à rédea solta através da escuridão da noite, vomitando pragas e amaldiçoando a hora em que aparecera em casa de seu tio aquele maldito sr. Eduardo.

Capítulo 11 - Delírio e amor

O delíquio de Paulina durou cerca de um quarto de hora.

Quando voltou a si e abriu os grandes e negros olhos, encontrou o rosto de Eduardo que, bem próximo ao seu, quase que a bafejava, observando-a com ansiosa inquietação enquanto o pai com os braços a sustinha sobre a cadeira.

– Ah! o senhor ainda está aqui! – exclamou ela, tapando os olhos com a mão. Sr. Eduardo... por piedade! fuja, fuja... não posso vê-lo!...

– Desastrado aparecimento o deste homem hoje! – refletia o amargurado velho. – Mas porventura posso me queixar dele?... tem ele a culpa de nada?... Infeliz Paulina!...pobre de minha filha! tão boazinha, tão linda, tão criança, e já sabendo o que é a desgraça... e mais desgraçado de mim ainda, que nada posso fazer por ela!... Só esse homem, que já uma vez salvou-a, poderia salvá-la ainda, pois não há a menor dúvida, a pobrezinha tem uma paixão louca por esse moço... ah!... se fosse possível... que me importa o Roberto?... tratei com ele, é verdade; mas será ele tão bruto e tão desalmado, que não tenha pena desta infeliz?... será tão estúpido, que não veja que não deve, nem pode casar-se com Paulina?... mas que loucura a minha!.., ele não pode – já está comprometido e quem sabe se já casado com outra... Pobre da minha Paulina!... é agora que sinto a falta, que te faz tua mãe... só ela poderia entrar no segredo desse coração tão maltratado, e dar-lhe algum conforto e consolação... mas, eu... pobre de mim! que posso eu fazer senão chorar contigo, filha de minha alma!...

E as lágrimas corriam em fio pelas faces do velho na solidão da noite, cujo silêncio só era interrompido pelos delírios de Paulina, que entregue a um sono letárgico, murmurava sons confusos entre os quais vinha freqüentemente o nome de Eduardo.

Este, por seu lado, também se recolhera ao aposento que lhe fora destinado, com o coração transido de angústias, e passou a noite nas mais cruéis tribulações de espírito. Ele passara como o sopro do gênio do mal junto daquela formosa e interessante menina, e lhe fizera entrever um paraíso de amor e de ventura para abismá-la imediatamente num pego de amarguras. Aquela mimosa flor do deserto, que havia encontrado em seu caminho, de tão belo e puro matiz, tão rica de seiva e de perfume, vinha encontrá-la agora raquítica e pálida como goivo despencado de uma grinalda mortuária. E essa flor, que risonha e louçã se havia espanejado a seus olhos ofertando-lhe todo o perfume de seu cálix, ele a havia desdenhado e passado além com os olhos embebidos em não sei que falsa miragem... e fora esse desdém, que lhe mirrara o seio entornando nele o gérmen da destruição. E agora que desiludido e arrependido voltava sobre seus passos em busca da flor, cujo perfume lhe ficara guardado no coração, ainda seria tempo? poderia ele ainda com o bafejo de seu amor restituir-lhe o alento e a vida?... Quem sabe? Eduardo, cujas pálpebras ardentes não se cerraram essa noite, esperava ansioso o alvorecer do dia. Paulina amanheceu mais tranqüila, posto que extremamente abatida e em tal estado de fraqueza, que não lhe permitia levantar-se da cama.

Eduardo quando saiu de seu quarto encontrou já na varanda o dono da casa debruçado ao parapeito e com os olhos na estrada de Uberaba, à espera de Roberto com o médico. Em sua impaciência não calculava que era ainda muito cedo para poderem chegar.

– Bom-dia, senhor Ribeiro; – disse-lhe cumprimentando-o... Como passou a senhora sua filha? – Ah! já está de pé, senhor Eduardo?... replicou o fazendeiro voltando-se para ele. – Paulina... eu sei... teve ainda muita febre e delírio; mas agora está mais sossegada. Todavia acho que não está nada boa.

– Não faz idéia quanto me dói no fundo da alma o incômodo dela, senhor Ribeiro.

– Muito agradecido, senhor Eduardo... mas enfim... é vontade do céu... que se há de fazer... Deus que tenha piedade de nós.

– Mas ah! senhor Ribeiro, quando penso, – e tenho motivos muito fortes para pensar assim, quando penso, que sem o querer e por desgraça minha sou a causa dos sofrimentos de sua filha e de todos os seus incômodos, minha aflição toca ao desespero.

– Bem o compreendo, senhor Eduardo; e eu também... para que negar-lhe? penso do mesmo modo...

– Portanto já vê o senhor que não devo me demorar mais um instante em sua casa, visto que não lhe posso dar remédio nem alívio algum. Minha presença lhe faz mal, e antes que ela me veja outra vez, é meu dever retirar-me.

– Pelo contrário; agora já que aqui veio, tenha paciência, há de ficar; o senhor é o único que poderá salvá-la nesta cruel conjuntura; perdoe esta franqueza de um pobre pai desatinado pela dor e em risco de perder sua única filha. Ela tem pelo senhor uma paixão louca, estou disso bem persuadido; aquele sucesso da onça a fez enlouquecer...

– Também assim o creio, senhor Ribeiro; porém... desgraçadamente em nada lhe posso valer.., tenho as mãos atadas...

– Que me diz?...ah!... já me lembro... desgraçado de mim!... onde anda esta cabeça!... essa senhora, com quem ia casar-se ou talvez já esteja casado...

– Nada disso, senhor Ribeiro; dessa loucura há muito estou desencantado, e por esse lado nada mais me estorva...

– Deveras!... pois então o que lhe impede?...

– Escute ainda, senhor Ribeiro; tenha paciência; devo dizer-lhe tudo; se naquele tempo eu tinha meu coração e minha palavra empenhada a uma mulher, hoje a tenho empenhada a um homem...

– Como assim?... não o entendo; tenha a bondade de explicar-se melhor.

– Pois não sabe o senhor Ribeiro, que num dia seu sobrinho tomado de ciúmes, sem que eu desse motivo algum, cuidando que eu fazia a corte à sra. d. Paulina, veio me tomar satisfações; e que eu para livrá-lo do engano e da aflição em que o via, em termos de fazer alguma loucura, protestei-lhe que não tinha o menor amor à senhora sua filha, – e não tinha, pelo menos eu então assim o acreditava, – e jurei-lhe pelas cinzas de meu pai que nunca serviria de estorvo ao seu casamento com a mesma senhora?...

– Não, senhor; nunca ouvi falar em tal coisa.

– Pois é a verdade desgraçadamente, e agora... tenho os braços atados.

– Mas que tem isso?... que importa esse juramento, se Paulina não quiser casar-se com ele?...

– Contanto que não seja eu que o estorve...

– E será ele tão mau, tão desalmado, que queira sacrificar sua prima?...

– Não sei, senhor. – A verdade é que dei-lhe o juramento; desse juramento só ele pode desobrigar-me.

– E que remédio terá ele, se nem eu, nem Paulina quisermos aceitá-lo?... Vamos, meu amigo, vamos ver a pobre menina; ela está sempre a falar no seu nome. Veja se a pode tranqüilizar. Engane-a mesmo, se tanto é preciso, dê-lhe uns toques de esperança. Viva ela enganada por algum tempo; que mal faz isso? depois quando estiver mais forte e bem disposta, com vagar e cautelosamente a irei desenganando.

– Ah! senhor Ribeiro, não sou capaz de enganar a ninguém, quanto mais a ela. Se me permite, irei dizer-lhe toda a verdade; irei dizer-lhe, que a amo muito... que a maior, a única felicidade minha neste mundo depende dela...

– Deveras, senhor Eduardo?... atalhou o velho com alegre sobressalto, – que estou eu ouvindo?... então a quer bem?...

– Muito, senhor Ribeiro, muito! mas... de que serve?...

– De que serve?!... não compreendo tal pergunta...

– E o juramento...

– Pelo amor de Deus, não me fale em tal juramento! Vamos, meu amigo, continuou Ribeiro com alegre sofreguidão, – vamos visitá-la.

Ribeiro tomou o moço pelo braço, conduziu-o até a porta do quarto de Paulina, que se achava sentada sobre a cama, impeliu-o de manso para dentro dizendo a sua filha: – Paulina; aqui está o sr. Eduardo, que vem fazer-te uma visita;– e retirou-se.

O bom do velho, ao saber que Eduardo adorava sua filha, e que nenhum impedimento havia mais para que se casasse com ele, exultava de contentamento, e tinha como já realizada a cura e a felicidade de sua filha. Quanto ao juramento, esse não lhe dava muito cuidado, porque não fazia idéia da importância que Eduardo ligava a ele, do fanático aferro e tenaci-dade de paulista com que guardava um juramento.

– Ah! é ele! é ele ainda!?.. exclamou a moça apenas avistou Eduardo, – que vem fazer aqui este homem?...

– Não lhe dizia eu? – disse Eduardo para o pai de Paulina, que se ia retirando, – a minha presença a incomoda.

– Não creia tal; – disse-lhe o velho em voz baixa;– deixe-se ficar por algum tempo, tenha paciência. Minha filha, continuou voltando-se para Paulina; – o sr. Eduardo não te quer fazer mal algum; ele te estima muito, e não procura senão meios de salvar-te. Ditas estas palavras o velho retirou-se.

– Salvar-me ele! exclamou Paulina com um ar de insânia e um sorriso indizível. Tomara eu que ele me salve de si mesmo! aqui não há nenhuma onça, e é só das onças que ele sabe me salvar.

– Quem sabe, d. Paulina? – disse Eduardo com um triste sorriso, sentando-se em um tamborete junto à cabeceira da enferma. – Deus ainda pode permitir que eu a salve de outros males. Por quem é, não me queira mal... diga-me, vai se sentindo melhor?...

– E que lhe importa?... eu não tenho nada... Como vai a sua querida lá da Franca? seguramente já se casaram, não é assim?...

O delírio de Paulina exaltava-se com a presença de Eduardo; suas palavras desassisadas, seus olhares desvairados dilaceravam o coração do mancebo que já se arrependia da visita, que por condescender com o velho lhe viera fazer.

– Por compaixão, – respondeu-lhe o moço, – não me fale nisso, d. Paulina, essa mulher morreu para mim...

– Morreu?... pois que tem isso? eu também não vou morrer?... não sabe? esta noite sonhei com ela... estava em uma sala de baile... vestida com um luxo e uma riqueza de espantar... começou a dançar uma valsa com o senhor... de repente foi-se virando em um dragão medonho, enroscou-se-lhe por todo o corpo, e começou a lhe morder a nuca... o senhor dava gritos desesperados, mas todo o mundo fugia espavorido; eu fiquei só e queria lhe acudir; mas meus pés estavam agarrados no chão, e meus braços não podiam mover-se; queria gritar, também não podia; teria morrido sufocada se meu pai, que estava perto de mim, não me acordasse...

– É singular!... ah! d. Paulina, esse sonho...

– Que tem esse sonho?...

– É uma imagem da realidade. Essa mulher era mesmo um dragão; atraiçoou-me;... achei-a casando-se com outro.

– Bem feito! exclamou Paulina com um acento indizível de malicioso prazer; – bem feito: foi castigo de Deus; porque fez tão pouco caso de mim.

– Diz bem, d. Paulina; foi mesmo castigo de Deus. Mas eu não queria parecer-me com ela. Que importa! nada perdi. Juro-lhe, d. Paulina, que depois que vi a senhora foi-me bem custoso não me esquecer dessa moça, e guardar-lhe a fidelidade que guardei.

– Deveras, sr. Eduardo!... pelo que vejo, quer-me bem...

– O meu amor para com a senhora, creio que não é de agora... creio que existia desde a primeira vez; mas ai de mim!... principiou infeliz, infeliz parece-me que vai acabar...a desgraça me persegue... hoje não me é permitido ofertar--lhe o meu amor...

– O seu amor!... exclamou Paulina sentando-se no leito, fitando no mancebo olhos ardentes, e sem atender que lhe apareciam quase nus os alvos seios arquejando-lhe afanosos; era bela assim, bela de amor e de delírio.

– Sim, o meu amor, d. Paulina! o meu amor tão grande, como eu não sei explicar, e que decerto já existia sem eu saber dentro de meu coração, e que hoje rebenta como urna labareda, que eu não posso conter nem disfarçar.

– Ah! veio tão tarde! – disse Paulina suspirando e abanando tristemente a cabeça. – Outro lhe tomou a dianteira... já não me pertenço. Olhe aqui esta face... não vê como está vermelha?... arde-me como uma brasa... foi um beijo, e não foi o senhor que mo deu.

– Um beijo!... quem lho deu? – Um beijo, sim... foi meu marido...

– A senhora está gracejando... quem é seu marido?...

– Pois não sabe?.., o primo Roberto é meu marido... meu pai mandou-o chamar; ontem ficou tudo ajustado.

– Ah! já entendo, – murmurou Roberto alcançando que as palavras de Paulina não eram puro delírio como a princípio pensara. – Se assim é, refletiu ele consigo, – não me resta mais esperança alguma.

– É verdade, – senhor Eduardo; – continuou Paulina como que adivinhando e respondendo ao pensamento de Eduardo; – o primo Roberto breve vai se casar comigo... Coitado! vai se casar com um cadáver; a cama do noivado há de ser um esquife... Paulina acompanhou estas palavras de um riso funéreo, que fez estremecer Eduardo; e deixou pender a cabeça.

– Mas esse seu primo será tão duro de entranhas, que queira assim sacrificá-la? – Mas ele me quer tanto... desde criança...

– Fatalidade! eu também, d. Paulina, eu também, da outra vez que aqui estive, jurei a esse moço que nunca da minha parte poria o menor estorvo ao seu casamento...

– Jurou isso?... meu Deus!... não há esperança mais!... eu já dei-lhe o meu sim; e o senhor jurou-lhe o seu... não, ah! ah! ah!... como isto é engraçado!...

– Mas, d. Paulina, para salvá-la, para possuí-la, tudo devo tentar. Vou entender-me francamente com seu primo, dir-lhe-ei tudo sem rebuço, e se ele tem dignidade e nobreza de alma, deve desistir de sua pretensão, e me desobrigará do juramento que lhe dei.

– Roberto?... duvido; tem por mim um amor furioso... é um estonteado, e tem cabeça dura. Roberto há de se casar comigo, ainda que seja à beira da sepultura.

Nesse momento ouviu-se rumor de falas na varanda. Era Roberto que chegava com o médico. Eduardo tomou a mão de Paulina, e beijou-a ternamente; esta respondeu-lhe apertando estreitamente a dele e cravando-lhe um olhar, que continha um treno de ternura, de amor e de sofrimento. Seu espírito começava a serenar-se; sentia inefável prazer em saber que era amada por aquele que seu coração escolhera, e nesse momento de gozo ficaram adormecidas todas as suas mágoas e inquietações, todos os seus sofrimentos físicos e morais.

– Ora pois! – dizia ela consigo, graças ao céu, um momento sequer já fui feliz em minha vida. Agora só me resta resignar-me para sofrer e morrer!

Capítulo 12 - Dois verdugos

O médico que viera com Roberto, era um padre. Era muito comum naqueles sertões, onde havia quase absoluta falta de médicos profissionais, os padres exercerem também a medicina, sendo a um tempo médicos da alma e do corpo, reunindo em si dois sacerdócios.

Bom ! – disse consigo Paulina, quando soube dessa particularidade; eu creio que hei de precisar mais do padre do que do médico.

O médico foi logo introduzido no quarto da doente, onde se demorou cerca de um quarto de hora.

– Não há de ser nada, senhor Ribeiro, – disse ele saindo; – a menina teve e tem ainda uma forte febre maligna complicada com alguma irregularidade nas funções uterinas. Com as aplicações e o regimen, que vou prescrever, não corre risco algum, e em breve estará sã. Mas olhe que é preciso muita dieta, e muita cautela... Tais achaques são muito comuns aqui pelo sertão porque os senhores fazendeiros,– perdoe-me o dizê-lo, sr. Ribeiro, – são muito desmazelados na criação de seus filhos; deixam os meninos, como esta por exemplo, em uma idade tão crítica, andarem por aí ao rigor deste sol ardente, molharem-se, apanharem sereno, comerem frutas verdes e fazerem mil outras estrepolias...

– Há de ser isso mesmo, – acudiu bruscamente Roberto; – a prima costuma andar aí à toa no quintal o dia inteiro com a cabeça quarando ao sol, comendo só frutas, e quando vem para a mesa não come nada; depois quando é de tardinha vai ali para debaixo da gameleira, e fica apanhando sereno até a noite.

– Eis aí!... não é outra a causa de sua moléstia...

– Mas, senhor padre, – atalhou o fazendeiro, – o mal não é de agora; já vai para um ano que ela sofre.

– Não duvido; ela tem incômodo crônico do estômago, e as funções do útero, como já disse, não são muito regulares. Mas tudo isso complica-se agora com uma febre aguda, que é preciso atalhar prontamente.

– Ah! senhor padre! senhor padre! – pensou consigo Eduardo, – se Vossa Reverendíssima lhe examinasse mais a alma do que o corpo, se a ouvisse de confissão em vez de tomar-lhe o pulso, acharia em outra parte a origem da moléstia.

Enquanto Joaquim Ribeiro e o padre conversavam, Eduardo, que assustado com a gravidade e os progressos do mal de Paulina não queria perder tempo, nem adiar para mais tarde a solução do problema de seu destino, chamou de parte Roberto e o convidou para uma conversa particular, decidido a dizer-lhe tudo com a mais rude franqueza. Desceram ambos a escada e dirigiram-se para um canto do curral.

– Senhor Roberto, – começou Eduardo com tom sério e comovido, – sei que o que tenho a dizer-lhe de maneira nenhuma lhe pode ser agradável; vou dar em seu coração um golpe bem cruel; mas tenha paciência; assim é preciso.

– Um golpe!... em meu coração! que quer dizer isto?!... o senhor está caçoando, senhor Eduardo.

– Nunca falei tão sério. Tenha paciência, já lhe pedi... aliás perco o meu tempo. Se fosse só por meu respeito, nunca daria este passo, e hoje mesmo me sumiria para sempre desta casa; mas é por amor daquela pobre moça, que ali jaz penando no fundo de uma cama...

– Pior ! – interrompeu Roberto com impaciência;– cada vez o entendo menos. Deixe-se de rodeios, senhor Eduardo; desembuche, que estou ardendo por saber que alhada é essa.

Roberto já se achava com uma terrível predisposição contra Eduardo, e por isso o recebia, como se costuma dizer, à ponta de baioneta.

– Se soubesse que estava de tão má disposição, e se não fosse tamanha a gravidade do caso, não o incomodaria...

– Não senhor; não há de me deixar assim com a pulga na orelha; já agora diga ao que veio...

– Prontamente; vou-lhe explicar tudo em palavras bem poucas e bem claras. Saiba, senhor Roberto, que não é por vontade dela, que sua prima vai casar-se com o senhor.

– Não é por vontade dela! – exclamou Roberto arregalando os olhos, cruzando os braços e dando dois passos para trás; – e quem lhe meteu essa nos cascos, senhor Eduardo?...

– Ela mesmo, senhor Roberto; neste instante acaba de mo dizer.

– Fora com essa!... vá pregá-la mais adiante, que aqui não pega. Ainda ontem ali ela me deu o sim sem constrangimento algum deste mundo. Isso se não é mexerico seu, é delírio dela.

– Nem delírio, nem mexerico, senhor Roberto; é a pura verdade. E saiba mais, – pois é necessário declarar-lhe com franqueza a verdade toda inteira, – saiba mais que não sei se por felicidade ou infelicidade minha, sua prima desde a primeira vez que me viu – naquela fatal caçada, lembra-se? criou por mim uma afeição, uma paixão irresistível, que ela em vão tem-se esforçado por combater. Essa paixão, que não é necessário ser muito ladino para perceber, é a causa de todos os seus sofrimentos, e é ela que sem dúvida alguma a levará à sepultura, se o senhor não tiver piedade dela...

– Eu ter piedade dela!... se o entendo diabos me carreguem. Visto ser assim como diz, o senhor por que não teve piedade dela a primeira vez que cá esteve? por que me cedeu o campo? – O senhor tem fraca memória; não lhe disse que minha palavra estava empenhada a outra moça? agora felizmente esses laços estão quebrados, e cumpre-lhe, senhor Roberto, por sua honra e dignidade, pelo sentimento de humanidade, ceder de sua pretensão deixando-nos livres a mim e a ela, se não quer sacrificar uma pobre menina.

Enquanto Eduardo falava, Roberto não podia ter-se de impaciência; puxava o nariz, sustinha-se ora num pé ora noutro, fungava, trincava os dentes, e fazia mil trejeitos.

– Oh! isto é demais! prorrompeu ele enfim depois de um curto silêncio; – pois quando ainda ontem meu tio acaba de me chamar para tratar de meu casamento e abreviar esse negócio, agora é que o senhor vem com toda a frescura do mundo querer arrancar-me a minha noiva? – Não é vontade minha só, senhor Roberto: é também a vontade dela e o desejo mais ardente de seu tio...

– E o senhor já se esqueceu que jurou que nunca em tempo algum serviria de estorvo ao meu casamento? é bom modo esse de cumprir um juramento.

– Jurei, é verdade; esse juramento hei de cumpri-lo, se o senhor tiver a alma tão empedernida, que não queira desobrigar-me dele.

– Está já lhe dando um bonito cumprimento!... quem o chamou cá? que motivo o trouxe aqui, senão o desejo de me estorvar?...

– Engana-se. Meus negócios aqui me chamaram, e eu não jurei de não pôr os pés nesta casa.

– Se Paulina lhe quer tanto bem, como diz, devia saber que sua presença já era um estorvo.

– Eu estou sempre presente no coração dela, senhor Roberto; a minha ausência em nada poderia favorecê-lo, já que quer que lhe diga toda a verdade; o senhor vai matá-la.

– Não me mete cucas, senhor Eduardo; eu sei o que é um coração de moça. Mande-se mudar e deixe-nos, que tudo se arranjará por cá sem o senhor, sem dúvida nem matinada. A moléstia de minha prima apareceu com o senhor; desapareça, que ela também desaparecerá.

– Talvez a sua presença lhe seja mais fatal... mas não foi para estarmos a brigar, que o chamei, senhor Roberto; já lhe disse o que há; agora diga-me de uma vez, quer ou não quer salvar sua prima...

– Salvá-la como?... de quê?... salvá-la do senhor?... estou pronto.

– Não se faça desentendido. Quer ou não quer desobrigar-nos a ela do sim que lhe deu, e a mim do juramento?...

– Do juramento?... pois o senhor já não o quebrou?.. pode ainda quebrá-lo quantas vezes quiser.

Eduardo perdia a paciência; todavia tentou ainda com termos brandos e persuasivos reduzir a índole crespa e revessa de Roberto. Foi tempo perdido; nenhuma razão podia calar naquela cabeça de ferro, nenhum sentimento acalmar aquele coração irritado.

– Pois bem! – exclamou por fim Eduardo, já não podendo sofrear sua impaciência e indignação; – já que o senhor é um desalmado, e tem a cabeça tão rija como uma bigorna, fique-se embora com sua teima infernal; mas esteja bem certo que o senhor não se casa senão com um cadáver, e esse cadáver é feito pelas suas mãos. Paulina, sua prima, morre de paixão, e é o senhor quem lhe cava a sepultura.

– Não me venha com pataratas, senhor Eduardo; o que lhe convém é tratar de cumprir o seu juramento, retirando-se desta casa.

– Sei mais do que o senhor cumprir a minha palavra. Olhe que num momento posso me ver livre do senhor e desse desastrado juramento...

porventura jurei de não matá-lo?...

Eduardo, ébrio de cólera, já apalpava o cabo da faca, que trazia presa à cava do colete, quando Joaquim Ribeiro que da varanda os observava, e vendo que os dois moços alteravam vozes, descera ao curral e se avizinhara sem que eles dessem fé, avançou e agarrando seu sobrinho pelo braço, bradou-lhe: – Mas eu não lhe jurei nada, senhor meu sobrinho!... nosso contrato está rasgado, porque vejo que o senhor é um homem desalmado e indigno da mão de minha filha. Nem viva nem morta ela nunca lhe pertencerá. Não é mais o senhor, quem estorva esse casamento, senhor Eduardo; sou eu que não o quero. O senhor está desobrigado de seu juramento.

Roberto ficou fulminado com aquela terrível apóstrofe de seu tio; pálido e trêmulo não atinava com o que devia responder, e ali ficaria assim por longo tempo, se Eduardo, tomando a palavra, não viesse em seu auxílio: – Não, senhor! disse Eduardo com voz firme; – não me considero desobrigado, enquanto ele mesmo não desistir; ela e o senhor deram-lhe um direito que sem quebra de lealdade não lhe podem mais negar...

– Que louca teima, senhor Eduardo!... e assim Paulina morrerá...

– Não posso, senhor, não posso ser falso às cinzas de meu pai...

– Roberto, – disse o velho com voz suplicante, voltando-se para seu sobrinho, – Roberto, meu sobrinho, olha o que fazes. Tua prima está em risco de vida. Ela não te quer, e só te aceitava por marido por comprazer comigo; só o senhor Eduardo pode fazer a sua felicidade, só ele pode salvar-lhe a vida, que está por um fio. Roberto, tem piedade dela...

– Ai! que isto já me enjoa, e até me cheira a desaforo! – bradou Roberto; – o senhor Eduardo pode quebrar o juramento, e o senhor meu tio pode faltar à sua palavra quantas vezes quiserem. E adeus! passem muito bem, e façam o que entenderem.

E sem querer ouvir mais nada, montou em seu animal que ali estava ainda arreado, e picou a galope caminho de sua casa.

Os dois ficaram imóveis, pasmos e silenciosos por largo tempo olhando o cavaleiro, até que este se encobriu pela avenida de um capão vizinho.

– Que desalmado e brutal sobrinho tem o senhor Ribeiro, – disse Eduardo; – e era a um tal homem que o senhor ia entregar sua filha?...

– E não menos desalmado e cruel, – retrucou-lhe Ribeiro, – é o senhor, que por um vão escrúpulo deixa sucumbir minha infeliz filha.

– Jurei, senhor Ribeiro, e não sou homem que falte ao meu juramento por motivo nenhum deste mundo.

– E diz que quer muito... que adora a minha Paulina... oh!... perdoe-me; não posso acreditá-lo.

– Senhor Ribeiro, por compaixão, não agrave com suas queixas a dor de meu coração, que, – esteja certo, – sofre tanto ou mais do que o seu. Adoro a sua filha, e sei que sem ela serei o mais desgraçado dos homens. Mas, meu amigo, que hei de eu fazer?... acima de tudo está Deus, a religião, a honra, a consciência.

– Não me diga tal; nem Deus nem a religião querem o suplicio inútil e a morte de uma inocente criatura.

– Deus abomina o perjúrio, senhor Ribeiro...

– Deus não aceita um juramento louco... Entretanto são os senhores dois os algozes de minha filha! Pobre Paulina!... o destino fez-te escapar das garras de uma onça para te colocar entre duas feras ainda piores...

Dizendo isto o infeliz velho lastimava-se e chorava como uma criança, arrancando as cãs e praguejando da sua sorte.

– Ânimo, meu amigo!... disse-lhe Eduardo, chegando-se mansamente para ele. Não se entregue assim ao seu pesar. O estado de sua filha não é ainda para desesperar. Com a minha ausência seu espírito acalmará; não há sofrimento algum, a que o tempo não traga algum alívio. Quanto a mim não devo parar mais nem um instante nesta casa, onde a minha presença parece que é e será sempre um desastre. Adeus, senhor Ribeiro!... perdoe-me, se sou a causa involuntária de tantos sofrimentos... por piedade, não se queixe de mim... sou digno de lástima, mais do que ninguém... eu também sofro... sofro tanto como ela... e vou ser para sempre infeliz.

Falando assim o moço abaixava o rosto e tapava os olhos com a mão para ocultar suas lágrimas.

– Acredito e lastimo-o de todo o coração, senhor Eduardo,– respondeu-lhe o fazendeiro; – mas espero que me fará o favor de não ir ainda hoje; espere ainda até amanhã ou depois, tenha paciência. Quem sabe se aquele estouvado cairá ainda em si?... ele estava atordoado com o golpe que recebeu; não sabia o que dizia, nem o que fazia... o caso não era para menos. Mas talvez que refletindo pense melhor... Esperemos; sou eu que lhe peço em nome de Paulina.

Não havia resistir. Eduardo deixou-se ficar e com o coração atravessado das mais raladoras angústias encaminhou-se para a gameleira, a cuja sombra foi se sentar. Era ali o horto, em que há tempos fizera tragar à mísera Paulina o cálix da amargura; era ali também, que agora ia sorver as fezes do fel das desventuras, que ele por uma cruel fatalidade tinha preparado com suas próprias mãos para si e para ela.

Que de amargas reflexões, que de pungentes recordações não o assaltaram ali naqueles curtos momentos, que resumiam uma vida inteira de decepções, de mágoas e de angústias!

Capítulo 13 - Desengano tardio

Joaquim Ribeiro, deixando Eduardo no curral, entrou para casa e foi procurar o padre, que estava na sala de jantar acabando de consumir pausadamente uma excelente refeição. Ali comunicou ele confidencialmente ao padre, que era conhecido e velho amigo seu, a verdadeira causa dos padecimentos de sua filha, e as cruéis dificuldades, em que se via, expondo-lhe minuciosamente tudo o que havia ocorrido em sua casa, desde a primeira vez que Eduardo nela aparecera, até o último incidente, que entre ele e Roberto acabava de ter lugar.

– Então já vejo, – disse o padre, que bem pouco pode valer neste caso a medicina, e que no meu caráter de padre e de amigo poderei talvez prestar-lhe melhores serviços aconselhando a esses malucos para entrarem no caminho da boa razão, do qual me parece que ambos eles andam bem desviados, ou consolando a pobre menina, e prestando-lhe, – caso precise, o que Deus não há de permitir, – os socorros do meu ministério. Se o senhor me permite mesmo não sairei de sua casa, enquanto não vir todo esse negócio acomodado e arranjado do melhor modo que for possível.

– Oh! senhor padre, quanto lhe fico agradecido!... faz-me com isso o maior favor do mundo; eu mesmo já lhe ia pedir. Ajude-me, por quem é, a salvar aquela pobrezinha.

– Esse é o meu dever como médico, como padre, e muito particularmente como amigo. Por agora vamos ao quarto da menina a ver como vai passando.

A febre de Paulina tinha declinado consideravelmente, e tinha-lhe voltado a calma e lucidez do espírito; mas achava-se em estado de debilidade e prostração tal, que parecia estar em delíquio. O médico e o pai fizeram-lhe algumas perguntas, a que respondeu com voz lenta e fraca, porém com muito acordo e conveniência.

– Está extremamente fraca, – disse o padre, – mas antes isso... é a reação da febre; se não sobrevier algum outro acesso, não há mais perigo... É preciso ir-lhe dando desde já os cordiais, que indiquei, nada de alimentos, e sobretudo muito sossego. Vamo-nos, sr. Ribeiro; deixemos a menina descansar...

– Não, senhor padre; podem ficar e conversar... não sinto por ora necessidade de repouso. Por que não aparece também o sr. Eduardo?... e o primo... que é dele, meu pai?...

– Roberto, – respondeu-lhe o pai, – teve precisão de ir a casa, – e volta logo à noite. Queres que chame o sr. Eduardo? Paulina fez um aceno afirmativo.

Ribeiro fez um sinal ao padre chamando-o para fora do quarto.

– Que diz, senhor padre, – perguntou-lhe, apenas saíram, – acha que não haverá inconveniente em deixar que Paulina se entretenha alguns instantes com esse moço?...

– Eu sei, meu amigo?... a presença dele vai-lhe avivar uma lembrança que convinha trazer-lhe sempre arredada do espírito o mais que fosse possível.

– Mas, senhor padre, de que serve não se achar ele ali, se ela o traz sempre presente na imaginação? assim melhor será, que de fato esteja presente; ela quer-lhe tanto... talvez a presença dele lhe sirva de algum alívio e consolação.

– Pode ser; mas recomende ao moço toda a cautela e moderação... uma conversação só para distraí-la e nada de tocar em assuntos melindrosos, nada de excitar-lhe emoções...

O bom padre não considerava, que bastava verem-se para alvoroçar-se um pego de emoções no fundo daquelas duas almas tão amantes, e tão desafortunadas.

Eduardo ainda se achava à sombra da gameleira, absorvido em suas amargas reflexões, quando delas foi distraído pelo chamado de Joaquim Ribeiro.

Introduzido no quarto de Paulina, Eduardo foi sentar-se triste e silencioso junto à sua cabeceira.

– Bem aparecido, sr. Eduardo! – disse-lhe ela; – estava mesmo com vontade de o ver. Acho-me tão tranqüila!... parece que a paz dos anjos desceu sobre a minha alma...

– Não faz idéia, d. Paulina, do quanto me alegram suas melhoras...

– Mas acho-me tão fraca... tão fraca, que quase não posso mover-me... o que vale é que o senhor me quer bem, e o seu amor me há de dar alento e vida, não é assim? – Sim, d. Paulina, – exclamou o mancebo tomando-lhe a mão que pendia à beira da cama, como um jasmim debruçado à borda de um vaso de alabastro; – o amor que lhe tenho é muito grande, e se este amor pode restituir-lhe a saúde perdida, a vida e a felicidade, eu me julgarei o homem mais afortunado do mundo... mas, d. Paulina, é preciso que a senhora se tranqüilize, e evite essas lembranças. Tratemos primeiramente da sua saúde, da sua vida, que também é a minha, ouviu, d. Paulina? depois, quando se achar melhor trataremos do nosso amor.

– Não, não, sr. Eduardo; tratemos dele já; tratemos dele sempre; é só ele que me dá algum alívio aos meus padecimentos... diga-me, esteve com o primo? falou com ele?...

– Ah! meu Deus! meu Deus! que hei de eu dizer-lhe?... pensou Eduardo no maior embaraço, e respondeu tropeçando nas palavras: – Com o sr. Roberto? ah!... sim... falei-lhe... porém ele...

– Acabe... mas para quê? já sei; não quis ceder por nada, não é assim? – Não é isso, d. Paulina; é que ele nada quis decidir; estava de muito mau humor.

– Que disfarce, sr. Eduardo! para que quer enganar-me?... bem se está vendo por esse seu ar triste, por suas meias palavras, que não há para nós esperança de felicidade. Que lhe dizia eu, sr. Eduardo? Paulina, que meio sentada tinha a cabeça encostada à cabeceira do catre, deixou-a cair tristemente sobre o peito.

– Não quero enganá-la, não d. Paulina; por quem é, não desanime assim. Seu primo ficou muito agastado, é verdade; era isso muito natural naquele primeiro choque, que tanto o devia magoar... decerto mais tarde, refletindo friamente...

– Qual!... nunca! nunca!... é impossível!... interrompeu a moça abanando tristemente a cabeça. Eu conheço-o muito... desde criança; é mais fácil morrer do que consentir que eu me case com outro. Que loucura a daquele pobre primo! não vê que não encontrará mais do que um cadáver? Fuja, senhor Eduardo; suma-se da minha presença! eu sou dele. Cumpra o seu juramento. Eu também jurei... não vê este beijo na face... ainda me está ardendo como brasa... isto é mais que um juramento...

Um vivo rubor despontava nas faces de Paulina; seus olhos desvairados se incendiavam de um fulgor estranho, e o sorriso pálido da insânia lhe vagueava pelos lábios. Era um novo acesso da febre e do delírio, que se anunciava. Eduardo consternado e pálido de susto, em vão procurou palavras para acalmá-la; chamou Ribeiro e o padre, que estavam num compartimento vizinho, e saiu com o coração esmagado de dor e desalento.

Seriam três horas da tarde, quando se manifestou em Paulina esse novo acesso de delírio, que durou até a noite. Com a noite porém acalmou-se, e Paulina conversou placidamente com seu pai, com o padre e com Eduardo. Parecia reanimada; mostrou-se tão tranqüila e arrazoada; sua conversação foi tão cheia de senso e lucidez, que a todos encheu de esperanças. Assim esteve até perto da meia-noite conversando sossegada e distraída sem o mais leve indício de outro sofrimento que não fosse a nímia fraqueza. O resto da noite, ao que pareceu, passou-a tranqüilamente adormecida.

Quando Paulina acordou era já dia. Mandou chamar seu pai, o padre e Eduardo. Logo que chegaram, perguntou se podia abrir a janela do seu quarto, pois estava com saudade do ar e da luz.

– Sem dúvida nenhuma, – respondeu o padre, – visto que não há vento, e o ar não está úmido nem frio; é mesmo conveniente renovar-se o ar deste quarto.

Estava uma manhã esplêndida. A janela do quarto de Paulina dava para o seu jardim, desse jardim, que outrora, em tempos mais felizes, ela cultivava com suas próprias mãos e que era o enlevo da sua solidão.

A bafagem de ar que entrou pela janela, inundou o quarto de um delicioso perfume de jasmins e flores de laranjeira. Uma chusma de passarinhos esvoaçava e trinava pelos ramos florescidos do pomar; os colibris verdes cruzavam-se zumbindo pelos ares, lindas borboletas entravam e saíam volteando pelo quarto, e por baixo mesmo da janela, pousada sobre uma romeira ressonava uma suavíssima e festiva orquestra de pintassilgos. O ar estava tépido e sereno, e o céu de um esplendor e limpidez maravilhosa.

Paulina estava plácida e calma, mas em tal palidez e imobilidade, que mais parecia uma estátua de alabastro. Pouco a pouco porém ao contato daquele ar puro e embalsamado, daquela luz suave, suas feições foram-se reanimando, um leve matiz de rosa assomou-lhe às faces, seus olhos encheram-se de um meigo fulgor, e denunciavam que uma alma vivificava ainda aquele formoso e delicado corpo. Apesar da sua prostração, no rosto de Paulina transluzia um bem-estar, uma serenidade angélica; seus seios arfavam brandamente, um meio sorriso da mais suave expressão estava fixo em seus lábios, e sobre a fronte parecia que lhe pairava um reflexo da bem-aventurança.

Parecia reinar naquele aposento um não sei quê de místico e beatífico, um eflúvio celestial que todos aspiravam em santo e silencioso recolhimento. Eduardo, sobretudo, cheio de emoção, de amor e de esperança, contemplava em adoração o rosto de Paulina, e julgava-se transportado ao paraíso.

O silêncio, que há alguns instantes reinava naquele aposento, como em um santuário, teria durado ainda mais longo tempo, se não viesse quebrá-lo bruscamente um pajem, que entrou aceleradamente no quarto, e entregou uma carta a Joaquim Ribeiro. Este no mesmo instante abriu-a sem refletir, que ia excitar a curiosidade de Paulina, e que a carta que vinha da fazenda do pai de Roberto, podia conter uma má nova. Dentro dela vinha outra carta dirigida a Eduardo, que Ribeiro imediatamente lhe entregou.

Ribeiro passou rápida e silenciosamente os olhos pela carta que lhe era dirigida; o seu conteúdo era o seguinte: – “Dou-lhe a triste notícia que meu filho Roberto amanheceu hoje morto em seu quarto com a cabeça atravessada por uma bala. O infeliz, quando aqui chegou ontem, encerrou-se em seu quarto sem aparecer a ninguém. Ao romper do dia ouviu-se um tiro no seu quarto; acudiu-se prontamente, arrombou-se a porta, e fomos achá-lo estendido no chão e lavado em sangue. Que desgraça, meu amigo!... não posso atinar com o motivo que o levou a tal loucura... Achou-se sobre sua mesa essa carta ao senhor Eduardo, com a recomendação de ser entregue imediatamente, como verá no sobrescrito.” Por mais esforço, que fizesse Ribeiro para ocultar a sua perturbação durante a leitura, a mágoa e a consternação pintavam-se em seu rosto.

Paulina, que tudo estava observando, perguntou-lhe com a ansiedade: – É carta do primo Roberto, não é, meu pai?

– Não, minha filha ;– respondeu o velho esforçando-se por mostrar-se tranqüilo; – é um simples recado de teu tio; não tem importância alguma; pede-me apenas que entregue imediatamente aquela carta ao senhor Eduardo, e pede-me notícias de tua saúde.

– Ah! meu pai!... meu pai!... quem sabe?... Vosmecê quer me enganar... e essa outra carta?... de quem é, senhor Eduardo?... leia, leia em voz alta... por favor, se não é algum segredo...

Eduardo, que acabava de decifrar não sem dificuldade os terríveis garranchos, que o infeliz Roberto com mão convulsa tinha traçado naquele papel, vendo que nenhum inconveniente havia na leitura daquela carta, que à exceção da última frase, – a qual envolvia um sentido sinistro, – continha uma lisonjeira notícia, que ele estava ansioso por comunicar a Paulina, leu em voz alta o seguinte: “Senhor Eduardo. Confesso e reconheço, que ontem fui estouvado e grosseiro com o senhor. Hoje, pensando melhor, vejo que o senhor tem razão, e que eu sou um desgraçado que nada tem mais que fazer neste mundo. Desisto de tudo; faça de conta que eu nunca existi; e que nunca o senhor me deu juramento nenhum. Adeus! sejam felizes, e rezem por minha alma. Roberto.” Estas últimas palavras Eduardo suprimiu-as na leitura.

– Pobre de meu primo! – exclamou Paulina, apenas Eduardo acabou de ler; – e eu que supunha que ele não seria capaz de dar esse passo!... que injustiça!... hei de lhe pedir perdão de joelhos... que coração! que alma de anjo!... meu pai!... senhor Eduardo!...

A moça quase não podia mais falar de emoção; soluçava e arquejava comprimindo o peito com as mãos, como temendo que lhe rebentasse.

– Basta, – exclamou o pai já cheio de inquietação; basta, minha filha; não convém que fales mais. Acalma-te; o céu acaba de fazer tudo para a tua felicidade; agora o que precisas é saúde... vamos; deita-te e descansa... nada de conversas por ora;... retiremo-nos, meus senhores.

– Para quê, meu pai?... eu acho-me tão contente... e tranqüila... senhor Eduardo, por favor demore-se um momento... meu pai há de permitir, que lhe diga duas palavras.

– Paulina!... mais tarde, minha filha, conversarás com ele quanto quiseres.

– Não tenha susto, meu pai; duas palavras só, e ele sairá logo, – disse Paulina cravando-lhe um olhar suplicante.

O pai não teve ânimo de contrariá-la mais.

– Pois bem, minha filha; porém cautela; por quem és, não fales muito, nem te comovas.

Capítulo 14 - Conclusão

– Ah! senhor Ribeiro, – disse o padre com tom severo, apenas se acharam fora do aposento de Paulina, – foi uma grave imprudência a entrada daquele rapaz com as cartas no quarto da menina!... queira Deus daí não venha algum mau resultado.

– Tem razão, senhor padre; eu também logo vi o inconveniente... mas que havia eu de fazer?... o maldito moleque, e quem aqui o introduziu sem licença minha, tem a culpa de tudo. Mas como ela não soube da notícia senão na parte que tem de boa...

– Muito embora, senhor Ribeiro; toda e qualquer emoção violenta, ainda mesmo de alegria, no estado em que ela está lhe pode ser fatal.

– Tudo pode ser, senhor padre; mas eu nunca ouvi dizer que ninguém morresse de alegria.

– Como não, meu amigo?... em estado de plena saúde, ainda bem; mas no estado melindroso e crítico, em que se acha sua filha, qualquer impressão forte seja de dor ou de prazer, pode determinar uma crise, e nessa crise ela sucumbir.

A vida dela está presa por um fio tão delicado, que o abalo o mais insignificante pode quebrá-lo.

– Deus tal não permita, – disse o velho consternado; – e Deus queira que a presença desse moço também não lhe faça mal... seria bom fazê-lo sair...

– Para quê?... já agora o choque está recebido, e se tiver de produzir algum mau resultado, quer ele esteja, quer não, ele sempre há de aparecer.

Ribeiro e o padre continuaram conversando sem se afastarem muito do quarto de Paulina para poderem acudir prontamente no caso de algum acidente.

– Paulina!... minha Paulina! exclamou o mancebo, logo que se acharam a sós, sentando-se à beira da cama, e tomando entre as suas as mãos da moça. – Graças ao céu hoje posso chamar-te minha!... Deus teve compaixão de nós... somos felizes, Paulina.

– É verdade, Eduardo!... somos felizes; muito felizes... eu bem estava sonhando esta noite que uns anjos do céu estavam voando em roda de mim, cantando e dizendo que eu era a mais feliz de todas as mulheres. Eu estava muito contente; mas o que me causou mágoa... foi ver lá somente o meu primo, que estava a um canto sombrio e pesaroso, e não te ver em parte alguma...

– Mas estás vendo-me agora, minha querida, feliz e contente junto a ti, e isto agora não é um sonho.

– Não é... mas parece... custa-me a crer em tamanha felicidade... que eu nunca esperei. Eu ia morrer de mágoa e pesar... mas agora creio que morro de felicidade... Eduardo!...

Paulina arquejava; suas faces começavam a enrubescer, e seus olhos enchiam-se daquele reflexo brilhante e vago, que costumava acompanhar o delírio.

– Ah! meu Deus! meu Deus! – murmurou consigo Eduardo aterrado e com o coração transido de angústia;– é a febre!... é o delírio que volta!...

– D. Paulina, – disse em voz alta, – deixemos esta conversa para logo... temos tempo de sobejo para isso... temos uma vida inteira de amor e felicidade... por enquanto a senhora precisa de descanso; deite-se e sossegue.. . adeus!... eu vou mandar vir-lhe um cordial, e volto breve.

– Não, não! – disse a moça cada vez com mais exaltação. Não consinto; fica aí, Eduardo. Não quero perder um momento... de tua companhia neste dia tão feliz... o melhor cordial é o nosso amor, não é assim, Eduardo?...

– É, d. Paulina, mas a sua saúde...

– Não me fales em saúde... eu não sofro nada... sou tão feliz.. Olha, Eduardo, olha esta face... este beijo funesto... está me ardendo ainda... apaga-o, Eduardo, apaga esse beijo com tua boca...

Falando assim Paulina estendia a cabeça, e apresentava a face a Eduardo de um modo tão meigo e suplicante, que ele quase contaminado do mesmo delírio chegou-lhe os lábios e beijou-a com ardor.

A face de Paulina estava fria. Eduardo aterrado desviou o rosto, e encarou-a com atenção. Os olhos baços mal refletiam uma luz frouxa como de quem vai adormecer; o carmim das faces tomava um tom lívido, as pálpebras tremiam-lhe; mas um fraco sorriso estava sempre fixo em seus lábios, e pairava-lhe sobre a fronte angélica serenidade.

Paulina enlaçou-se ao pescoço de Eduardo, e deitou a cabeça sobre o ombro dele como criança, que quer adormecer. – Eduardo! – murmurou com voz sumida, exalou um fraco soluço, e ficou imóvel.

– Paulina! Paulina! – exclamou o moço assustado, agitando a brandamente. – Estava de feito adormecida.

Eduardo pousou-a de mansinho sobre o travesseiro; examinou a com mais atenção. Estava morta ! Tão tênue era o fio, que prendia à vida aquela débil e mimosa criatura, que não pôde resistir àquela última emoção.

Morreu nos braços da felicidade, com o sorriso nos lábios e o prazer no coração.

Dir-se-ia, que não foi a morte com o seu sopro sinistro que extinguiu aquela existência; mas que um anjo de Deus, baixando sobre o frágil e formoso corpo de Paulina, veio sorrindo cerrar-lhe as pálpebras, e sorvendo-lhe a alma num beijo, a conduziu para o céu.

Algumas horas depois dois pretos conduzindo um cadáver ensangüentado em uma rede chegavam à casa de Joaquim Ribeiro.

Era o cadáver do infeliz Roberto, que levavam a sepultar no cemitério de Uberaba.

O padre, porém, não consentiu que dessem aquela caminhada inútil, fazendo-lhes ver que o pároco da Uberaba por modo nenhum podia consentir, que se enterrase em lugar sagrado o cadáver do suicida.

Foi sepultado a meia légua de distância da fazenda, junto a um capão à beira da estrada.

O padre não quis benzer o lugar da cova, nem rezar sobre o cadáver as orações dos finados.

Mas o povo, que compreende melhor a infinita misericórdia divina, e tem mais fé nelas do que os próprios ministros da religião, cravou sobre a sepultura uma cruz de pau toscamente lavrada; – à sombra desse símbolo santo toda a terra é sagrada.

Joaquim Ribeiro também não consentiu que a filha fosse enterrada no cemitério comum; não queria afastar-se, nem mesmo na morte, daquela que tanto idolatrara na vida. Não podendo guardar aqueles restos queridos em um magnífico túmulo de mármore, porque naqueles sertões faltava-lhe tudo – o artífice e a matéria – mandou benzer e cercar um pequeno terreno no alto de uma risonha colina que ficava à vista da casa, não muito além do sítio em que dormia o eterno sono o desafortunado Roberto, e ali guardou no seio da terra aquele depósito sagrado. Mandou depois erigir ali uma capelinha singela, mas alva e asseada, que se divisava a grandes distâncias servindo de farol ao viandante por aquelas vastas e descampadas solidões.

Ali o velho e infeliz pai ia rezar todos os dias, até que pouco tempo depois ali foi também repousar ao lado de sua filha.

Contava o povo, que um triste noitibó, que todas as noites fazia seu pouso nos braços da cruz da sepultura de Roberto, saía de lá alta noite soltando guinchos lamentosos, e vinha pousar nos muros do cemitério; e que uma pomba alva como neve saía batendo as asas da sepultura de Paulina, e desaparecia nos ares.

Era, dizia o povo supersticioso, a alma de Roberto, que andava penando em busca de Paulina, que fugindo sempre dele ia se esconder no céu.

Assim o sempre infeliz Roberto, bem como durante a vida, viera também depois de morto repousar e suspirar ainda junto daquela, por quem seu coração havia suspirado em vão durante a vida inteira.

Eduardo desapareceu, e ninguém sabe ao certo o que fora feito desse mal-aventurado moço.

Correu fama de que se retirara para a Bahia e que aí tomando o burel de frade morrera pouco tempo depois em um convento.

Jupira

Capítulo I

Jupira estava sentada à sombra de uma canjerana ainda nova, de folhagem mui viçosa e cerrada, que dava fresquíssima sombra. Estava tecendo um cabaz de palhas de buriti, enquanto sua mãe, índia algum tanto idosa, a alguns passos de distância moqueava um gordo e grande tiú.

Era isto à margem do Rio Grande de Minas, algumas léguas acima das paragens onde ele, reunindo-se ao Parnaíba toma o nome de Paraná.

Como a pequena árvore, que lhe prestava sombra, Jupira era também uma flor nova das selvas, que apenas abria o cálix às virações do deserto; uma linda caboclinha de treze a catorze anos, mas de tez um pouco mais clara do que a das suas companheiras da floresta. Era no veranico de janeiro; o rio estava baixo, e na larga zona de areia, que mediava entre ele e a floresta que o bordeja, viam-se dispersos alguns bugres de ambos os sexos, uns pescando ou banhando-se, outros dormindo ou comendo. O sol ardentíssimo do meio-dia reverberava no seio do rio e nas areias da praia, a ponto de ofuscar as vistas; estava um calor insuportável.

Pouco abaixo daquele grupo via-se um indígena de formas truculentas e vigorosas cortando as águas em todas as direções, ora nadando com rapidez, ora boiando à flor do rio, ora sumindo-se de mergulho na profundez dos rebojos, e era preciso olhar com muita atenção para ver que tinha em uma das mãos uma delgada linha. Ninguém diria que ele estava pescando. O índio pesca à linha os grandes peixes, quase como quem persegue um veado ou uma anta através de campos e florestas. Com um pequeno anzol ou fisga, e uma linha de tucum da grossura de um fio de barbante, pescam não só os pequenos bagres e pirapitingas, como os corpulentos dourados e curumatãs, e o jaú, que atinge às vezes o tamanho de um homem de alta estatura, e tem a força de um touro. Apenas o peixe ferra a isca, e que o índio o percebe fisgado, em vez de procurar puxá-lo à terra, salta na água e dá-lhe corda, acompanhando-o em todas as voltas que lhe apraz dar pelo rio, tenteando a corda de modo que não se quebre, como quem tempera as rédeas a um poldro bravio e fogoso. A própria força do peixe arrasta o índio e o ajuda a romper as águas sem fatigar-se muito, e assim ora pairando à flor do rio, ora cortando-o veloz como uma seta, ora sumindo-se nos escuros abismos, o índio acompanha todos os seus movimentos, até que o peixe extenuado de cansaço se deixa facilmente arrastar para a praia.

Depois de ter gasto cerca de meia hora naquelas evoluções, o índio surgiu à praia agarrando pelas guelras com ambas as mãos e arrastando a custo um enorme peixe que media a altura de seu corpo, e ainda a cauda vinha abrindo um sulco pela areia, e dirigiu-se à sombra onde se achava a linda caboclinha.

– Uff!... Jupira!... – exclamou largando o peixe e deixando-o estourar no chão; – sei que não gostas do tiú, que é o que tua mãe tem para te dar, e fui ao fundo do rio buscar esse peixe para ti; custou-me bem a arrancá-lo da água. Fala, menina, qual desses teus fracos companheiros é capaz de lutar no fundo da água com um peixe destes?...

Jupira contemplou o peixe por alguns instantes com admiração, depois olhou para o índio, fez-lhe um ligeiro gesto de agradecimento, e continuou no seu serviço. O índio deitou-se de ventre sobre a areia a alguns passos de distância e fitava os olhos ardentes sobre a gentil menina. Parecia truculenta jibóia procurando fascinar com os olhos a tímida pomba, que pretende devorar.

– Então ingrata columi, – disse o índio abanando a cabeça, – de todo não queres saber do infeliz Baguari?...

Por única resposta Jupira levantou-se, e levando o seu trabalho foi sentar-se por detrás de sua mãe, como para esconder-se do índio e furtar-se a seus olhares devoradores.

Baguari pôs-se em pé de um salto, arrancou do íntimo peito um gemido rouco, antes um rugido e disse: – Jupira, olha que o canguçu quando vê a veadinha tenra pelos bosques, nunca mais lhe perde o rasto, e não descansa enquanto não lhe lança as garras. E eu sou o canguçu e tenho fome de ti! – Baguari! – exclamou a mãe assustada por sua filha, que cada vez mais se chegava a ela; – a menina ainda é muito nova... olha agora é que os peitos lhe vêm apontando. Para que apanhar a flor que ainda não abriu, colher os favos do jataí que ainda não tem mel?.. Deixa passar mais algumas luas; quando o ipê der flores outra vez, Jupira te abraçará.

– Não fale assim, minha mãe! – murmurou a menina ao ouvido de sua mãe. – Assim pudesse o ipê nunca mais dar flores! Baguari afastou-se silencioso, e chegando ao meio do areal da praia, bateu palmas e soltou um assovio estridente como o da anta. A horda que se achava dispersa pela margem, reunia-se em torno dele. Baguari mostrou-lhes o peixe, e os selvagens soltando alaridos de alegria, em um instante o fizeram em postas levando cada um o seu pedaço para se banquetearem aquela tarde.

Jupira disse a sua mãe: – Não viu aquele peixe tão grande, que Baguari matou? – Pois não vi, minha filha?.. foi para ti que ele o pescou.

– Não quero do seu peixe, nem de nada que passar por suas mãos. Tenho mais medo dele do que daquele jaú, se o encontrasse no fundo da água.

Daí a pouco a tarde trazia sombra e fresquidão por aquelas magníficas solidões e os índios, tripudiando e banqueteando-se, com seus alegres alaridos faziam saltarem espantadas as feras de seus covis, e os passarinhos deixarem em sobressalto os seus abrigos de verdura.

Somente Baguari, – que cuidara nessa tarde abrevar-se de cauim e de prazer nos braços da gentil Jupira, – retirado no mais recôndito antro da floresta, arrancava rugidos de amargura de despeito.

Capítulo II

Em seu lado sudoeste a província de Minas termina em um ângulo agudo, em uma vasta nesga de terra encravada entre as províncias de Goiás e de S. Paulo, das quais a separam os dois grandes rios Parnaíba e Rio Grande, que se vão reunir na ponta do ângulo. Nessas regiões, sobre as quais a natureza parece ter entornado a flux todo o cofre de seus favores, trinta léguas pouco mais ou menos acima da confluência dos dois rios, está situado o Seminário de Nossa Senhora Mãe dos Homens, fundado há cerca de cinqüenta anos pelos padres da Congregação da Missão de S. Vicente de Paula em uma vasta e rica fazenda, que lhes deixou em legado um opulento fazendeiro daquelas paragens.

Possui a fazenda matas na prodigiosa uberdade, pingues e magníficas pastagens, por entre as quais um caudaloso ribeirão vai sereno rolando suas águas cor de esmeralda sombreadas por duas orlas de frondoso e verde-negro arvoredo, pelo que decerto lhe deram o nome de Rio Verde. Atravessa as mais formosas e risonhas campinas entrecortadas de viçosos capões e palmares pitorescos, e vai perder-se no Rio Grande, que passa a cinco ou seis léguas do seminário ocultando seu curso entre gigantescas e profundas matas.

Pelas imediações do seminário para logo se foram agregando alguns moradores, e em torno dele construindo-se algumas casinhas dispersas pela campina, de sorte que o lugar chamado Campo Belo, nome que perfeitamente lhe quadra, tornou-se como uma pequena aldeia.

Por aqueles sertões vagavam por esse tempo alguns restos de tribos selvagens vindas de Goiás e Mato Grosso, já algum tanto familiarizadas com a sociedade dos brancos, mas conservando ainda os hábitos selváticos e a independência da vida errante. Os padres fizeram reiterados esforços para chamá-los ao grêmio do cristianismo e da vida social, doutriná-los, e utilizar seus serviços.

Os missionários de S.Vicente, porém, parecem que não são dotados daquele tino e habilidade, de que dispunham os discípulos de Inácio de Loiola para catequizar os indígenas. Por vezes conseguiram reunir na fazenda alguns bandos; mas nunca alcançaram que se sujeitassem por muito tempo a um trabalho contínuo e regular.

Atraídos pelo desejo de obterem algumas roupas, ferramentas, armas e enfeites, acudiam de quando em quando ao seminário; mas no fim de um a dois meses quando muito aborreciam-se do trabalho, entregavam-se à sua natural indolência e, se apertavam com eles, desapareciam, e internavam-se de novo pelas matas do Rio Grande, continuando sua vida nômade e selvática.

Em um desses bandos, que se acolhiam às vezes à fazenda de Campo Belo havia uma caboclinha nova por nome Jurema, não de todo linda, mas um pouco menos feia e mais bem-feita do que as suas companheiras. José Luís, moço branco e bem-disposto, empregado no seminário, agradou-se sumamente dela, e por tal arte soube catequizá-la, que no fim de algum tempo Jurema lhe deu uma linda e viçosa filhinha.

Sabedores do fato os padres induziram José Luís a casar-se com a índia. Batizaram-se ao mesmo tempo a mãe e a filha, e no dia seguinte o pai e a mãe receberam-se em legítimo matrimônio. Jurema trocou o seu nome selvático pelo de Ana, e a filha, que a mãe chamava Jupira, pelo de Maria.

Os índios não punham dificuldade alguma em se deixarem batizar, casar e receber todos os mais sacramentos da igreja; mas isso para eles era um ato sem conseqüência. No dia seguinte esqueciam seus novos nomes, e os esposos se separavam com a mesma facilidade com que largavam seus vestidos, para tomarem de novo a araçóia, e tornavam aos matos para serem tão bons adoradores de Tupã como dantes.

Aconteceu pois que um belo dia a esposa de José Luís anoiteceu e não amanheceu, desaparecendo com seus irmãos em Tupã, e levando consigo sua filhinha ainda de mama. José Luís ficou sumamente aflito e magoado com este acontecimento; fez imensas diligências para apanhar ao menos a filha pois com a mãe já não contava mais à vista de um tal pro-cedimento.

Mas todos os seus passos foram perdidos, e depois de um ano de pesquisas e excursões pelas matas, desanimou...

As florestas são imensas, e aquela gente não tem pouso certo nem por uma semana.

Eram já passados mais de dois anos, quando Jurema sem mais cerimônia entrou-lhe pela porta dentro, e se lhe apresentou conduzindo pela mão a pequena Jupira, e já com outro caboclinho às costas acocorado em uma pequena maca de buriti, que trazia presa à testa, como é costume entre as índias. Apareceu a seu marido sorrindo-se tranqüila e fresca, como se nada houvesse acontecido, como se se tivessem separado na véspera. José Luís ficou atônito com aquela inesperada visita; maior porém foi a sua alegria do que o seu espanto, e deu graças ao céu, que lhe restituiu a filha, a qual ele tratou logo de pôr em bom recato e segurança, despedindo cortesmente a mãe, que com isso não se mostrou nem de leve magoada, pois segundo as aparências já tinha novo esposo no bando dos seus.

Receoso José Luís, de que sua filha não fosse de novo levada para o mato por sua mãe, guardou-a com toda a cautela, confiando-a aos cuidados de uma velha parenta que era a sua caseira, e não respirou tranqüilo enquanto Jurema com todo o seu bando não desapareceram das imediações de Campo Belo.

A menina crescia linda, engraçada, e travessa como uma ariranha. Tinha muita vivacidade e penetração, mas os instintos selváticos prevaleciam nela, e foi com muita dificuldade, que seu pai no fim de sete anos conseguiu que ela adquirisse alguns costumes de civilização, andasse vestida, cosesse, lesse e escrevesse alguma coisa. Muitas vezes a iam agarrar pelos matos quase nua, trepada como macaco nas mais altas árvores, ou nadando nos profundos remansos do Rio Verde em risco de ser devorada por algum jaú ou sucuri.

Todavia Jupira era uma interessante menina, e pela singularidade de suas qualidades físicas e morais era o enlevo de toda aquela pequena povoação.

Andava de casa em casa, e em todas elas era mui querida e festejada. Às vezes também penetrava no seminário, aí fazia o regalo e as delícias dos padres e dos estudantes.

Quando, porém, ali se achava algum bando dos seus parentes da selva, não queria mais sair do meio deles; já lhes conhecia bem a língua, da qual já balbuciava algumas palavras quando voltara do mato. Por isso muitas vezes servia de intérprete entre os índios e os padres com sumo gosto e contentamento de todos. Somente José Luís – e com razão – se afligia muito com isso, e não gostava nada de ver sua filha tão afeiçoada aos seus parentes do mato. Zangava-se, ralhava, castigava, mas era debalde; o pendor que a menina tinha para os seus era irresistível.

Jupira já tinha nove para dez anos, quando sua mãe, depois de vaguear largos anos pelos sertões de Goiás, Pará e Mato Grosso, tornou a aparecer em Campo Belo com a horda, a que pertencia. Jupira!... exclamou a índia, apenas pôs os olhos em sua filha. Esta também imediatamente reconheceu sua mãe, saltou-lhe ao colo, e nunca mais quis deixá-la.

José Luís ficou cheio de gosto e inquietação com o reaparecimento da mãe de sua filha. Desta vez redobrou de cuidados e precauções. Jupira sem que ela o soubesse, não andava sem uma sentinela à vista. Era um primo seu, um sobrinho de José Luís, por nome Carlos, e a quem todos chamavam Carlito, pouco mais velho do que ela, rapazinho vivo e esperto como um diabrete. Não tendo podido parar no seminário em razão de seu gênio trêfego, indócil e insubordinado, freqüentava como externo a escola de primeiras letras, onde se havia muito mal. Entretanto era excelente para servir de companheiro de brinquedos e ao mesmo tempo de sentinela a sua prima durante o dia, porque de noite dormia ela fechada debaixo de chave em companhia da velha caseira de José Luís.

Todavia apesar de todas essas precauções, uma bela manhã Jupira não amanheceu em casa. Tinha arranjado modo de trepar pela parede, e como a casa era de telha-vã, isto é, sem forro no teto, descobriu um pedaço de telhado, saltou fora, e voou para as selvas em companhia de sua mãe.

Capítulo III

Esta segunda fuga foi muito mais dolorosa ao coração de José Luís do que a primeira. Já amava extremosamente sua filha, e tinha a mais terna solicitude por aquela interessante menina, cuja criação lhe tinha custado tantos cuidados e desvelos, cujo fruto em um só momento vira esvaecer-se. Era à semelhança de uma flor peregrina e rara, em cuja cultura o jardineiro se esmera com o mais desvelado amor. Um dia porém, quando pela manhã vai visitar o tenro botão, que de dia a dia anseia por ver desabrochar em flor, acha-a cortada pela raiz por verme daninho, murcha e perdida para sempre.

José Luís fez altas diligências para reaver sua filha, mas sempre sem resultados. Bem quisera ele para reivindicá-la armar uma bandeira e levar a guerra a todas as tribos selvagens, como outrora Menelau levou toda a Grécia armada aos muros de Tróia para reconquistar a esposa, que um peralta lhe havia seduzido e roubado. Mas não lhe era isso possível, e contentava-se em dirigir súplicas ao céu, e fazer promessas a Nossa Senhora Mãe dos Homens para que lhe restituísse a filha.

Nas selvas Jupira cresceu linda e garbosa como a palmeira das campinas, mas esquiva e soberba como a ema, rainha dos chapadões. Suas graças fascinaram as vistas de todos os jovens bugres, que a seguiam, admirando-a e adorando-a como a um manitô caído do céu; mas a nenhum deles foi dado colher aquela peregrina flor das selvas. Baguari era chefe de uma forte e numerosa horda estranha. Encontrando-se com o bando de Jupira, encantado de sua beleza, abandonou os seus para segui-la.

Mas Jupira fugia dele como a tímida lontra foge do jacaré, ou como a pomba se esconde do gavião. Era à sombra de sua mãe que vinha arquejante e espantada como a caça acossada pelo jaguar, abrigar-se das perseguições do cacique. Temerosa de cair-lhe nas garras a menina mal ousava arredar-se alguns passos da companhia dos seus.

Os outros bugres pretendentes aos favores de Jupira, que sabiam das intenções de Baguari, furiosos de raiva e de ciúme, e não ousando opor-se de viva força ao possante cacique, ainda que desejassem devorar-se uns aos outros, uniam-se para fazer face ao inimigo comum e mais forte, e seguiam e vigiavam por toda a parte a formosa menina a fim de obstar a que o cacique lograsse seus intentos. Assim Jupira sem querer e sem o pensar tinha sempre ao pé de si uma escolta ativa e vigilante para a defender contra qualquer tentativa violenta de seu sanhudo amante, como sói acontecer entre as brutas alimárias, pouco acima das quais se achavam aqueles selvagens na categoria dos entes. Baguari era valente e terrível;

membrudo e robusto como a anta, ágil e veloz como a onça, já tinha sufocado nos braços um dos seus rivais, e traspassado o coração a outro com uma flecha, por terem ousado disputar-lhe abertamente a posse da formosa Jupira. Mas era só e detestado por todos, e eram muitos contra ele. Por isso também da parte dele havia constrangimento e receio.

O tronco do ipê já se tinha de novo toucado de seus tufados cachos de flores amarelas. Baguari que conforme a promessa de Jurema, estava esperando com impaciência aquela quadra, foi ter com ela, e disse-lhe: – Olha, Jurema, o ipê já está florescendo. É tempo de cumprires a promessa que me fizeste, e entregar-me tua filha.

– Ah! minha mãe! minha mãe! dá-me antes a um sucuri, – exclamou Jupira, atracando-se com a mãe.

– Jupira, – disse Jurema para sua filha, – olha que Baguari é forte e te quer muito bem. Vai com ele, minha filha.

– Se minha mãe teima, eu irei lançar-me na lagoa dos sucuris retorquiu a menina com firmeza.

A lagoa dos sucuris era um banhado, que por ali havia e onde existia enorme quantidade desses formidáveis répteis. Quem nela caía era irremissivelmente devorado pelos monstros. Jurema sabia, que sua filha era bem capaz de pôr em prática a sua ameaça, e disse ao cacique: – Estás ouvindo, Baguari? – ela não te quer ainda. É que ainda não é tempo. Espera ainda, Baguari;... mais tarde...

– Cala-te, filha de Anhangá! – bradou o índio rugindo e batendo o pé com força – não quero mais te escutar, boicininga enganadora... ou hoje ou nunca!...

Ouvindo os gritos e vendo a atitude ameaçadora do cacique, os outros bugres, que estavam de alcatéia, aproximaram-se de arco e flecha em punho, murmurando palavras de ameaça. Baguari lançou-me de revés um furibundo olhar, soltou um rugido de raiva e de despeito, e retirou-se vagarosamente rosnando como um tigre enfurecido.

Vendo que nem por bem, nem por violência lhe era possível obter a posse da virgem indiana, Baguari que não desistia de seus intentos sobre ela, recorreu às ciladas.

Jupira gostava de caçar pássaros. Com um pequeno arco e flechas proporcionadas às suas forças, ela varava os jaós, inhambus, macucos, capoeiras e outras aves que abundavam naquelas florestas, e abastecia de copiosa caça o rancho de seu pequeno bando. Um dia à hora do pôr-do-sol ela estava sozinha com sua mãe à beira de um capão embalando-se indolentemente em sua maca de palhas de buriti e abanando o rosto e enxotando as mutucas com o cocar de penas, que havia tirado da cabeça. Seus companheiros vagueavam pelo campo a pouca distância. Um jaó começou a piar dentro da mata. Jupira saltou lestamente da rede, tomou o arco e flechas, e embrenhou-se no capão, sem que sua mãe, que estava ocupada em esfolar um tamanduá, desse fé daquele movimento.

O jaó é uma ave grande e excelente de se comer, mas muito arisca e dificílima de se caçar.

Os índios e os sertanejos, que com eles aprenderam, empregam uma engenhosa astúcia para os atrair e apanhar. É de ordinário ao pôr-do-sol que os jaós costumam piar, vagueando pelas sombras da mata. O caçador esconde-se cuidadosamente em alguma moita junto ao lugar, em que os ouve piando, e começa também a piar, imitando-os com toda a perfeição. O jaó acudindo àquele chamado, que cuida ser de algum de seus companheiros, vem se aproximando, descobre-se, e então o caçador atira-lhe ou flecha-o muito à vontade.

Jupira, que era habilíssima neste manejo foi se esconder e começou a responder ao jaó. Mas este em vez de aproximar-se, ia-se afastando aos poucos, e piando cada vez mais ao longe. Jupira piando sempre e mudando de esconderijo em esconderijo o foi acompanhando, sem nunca conseguir avistá-lo, entranhou-se a uma grande distância pelo capão adentro. O sol já era entrado, e as sombras do crepúsculo começavam a escurecer a floresta; Jupira desanimada ia já voltando, quando sentiu pelas costas mão de ferro agarrar-lhe o ombro, e uma voz medonha bradou-lhe – Jupira, agora és minha!– Era Baguari que usara daquela negaça para atrair Jupira e arredá-la dos seus. Assim a pobre menina cuidando ser a caçadora era a caça, que vinha descuidada cair nas mãos de seu feroz perseguidor.

Jupira deu um grito de terror; mas o cacique levou-lhe imediatamente a mão à boca, e nem os companheiros dela poderiam ouvi-la, na distância em que se achavam. Viu que nenhum partido poderia tirar da resistência, e procurou aplacar o seu feroz agressor.

– Espera, Baguari! – dizia ela arquejando de susto: – Não me faças mal; eu me entrego... mas larga-me.

– Não; tu queres enganar-me; mas é escusado; desta vez não me escaparás.

– Não quero te enganar, não, Baguari. Vamos onde está minha mãe... ela me entregará a ti, e eu te juro que não hei de pôr dúvida nenhuma em ser tua.

– Por Tupã!... nesse laço não caio eu, minha formosa garça do Paraná. Já agora não sairás mais dos meus braços, quer tu e tua mãe queiram, quer não queiram.

– Pois bem, Baguari; sou tua; não te fugirei mais;... mas larga-me... tu assim me sufocas... ai...

Falando assim e debatendo-se Jupira procurava ganhar tempo a ver se seus companheiros dando por falta dela vinham em seu socorro, ou a excogitar algum ardil para arrancar-se dos braços do seu brutal amante. Melhor porém do que ela esperava, veio o destino ou o céu em seu auxílio. Pisada pelo índio uma enorme jararaca que dormia em uma moita de capim quase debaixo de seus pés, salta enfurecida, e enrosca-se-lhe nas pernas. O índio dá um grito de horror, sacode vigorosamente a perna, e atira longe o medonho réptil, que felizmente não o havia picado, recua em dois pulos com Jupira nos braços, larga-a no chão, e investe de tacape alçado sobre a cobra, que ia se esgueirando pelo matagal adentro. Jupira não perdeu um só instante; mal se viu solta dos braços do truculento cacique, enquanto este a rijos botes de tacape perseguia a cobra, mais veloz e sutil do que uma irara desapareceu pela mata, e chegou suando e arquejante ao pé de sua mãe.

–Está morta!... – bradou triunfante o cacique. – Jupira!... Jupira!... Jupira!... Onde estás? Mas Jupira já estava longe.

Capítulo IV

Quando Baguari, perseguindo Jupira, chegou ao lugar em que Jurema se achava, já era noite e os outros bugres já ali reunidos estavam acendendo seus fogos.

– Que fizeste a Jupira, que ela me apareceu correndo e chorando, toda assustada? perguntou Jurema a Baguari.

– Não lhe fiz mal algum, Jurema; ela é arisca e medrosa como a saracura do brejo.

– Tem medo de ti, porque não sabes amimá-la. A pomba foge do carcará, que lhe fisga as unhas, mas gosta do trocaz, que a beija e acaricia.

– Mas porventura sou eu algum jacaré do rio para ela fugir-me assim, e obrigar-me a negaceá-la como o jaguar que anda à espia da veada nova?...

– Por essa forma, Baguari, nunca Jupira te quererá.

– Não queira embora; há de ser minha. Para que me deu Tupã estes olhos, que enxergam mais do que os do gavião, e estes pulsos mais fortes do que os do canguçu?...

A estas palavras ressoou por entre os outros bugres um murmúrio surdo, e alguns rosnaram palavras de indignação e de ameaça. Baguari vibrou sobre eles um olhar de fogo e sangue, e voltando-se para Jurema e sua filha: – Está bem, – disse; – não quero mais teimar contigo, Jurema. Vou-me embora para os meus. E tu Jupira fica-te em paz; não te perseguirei mais. Dou-te seis luas para me esperar e ai daquele, que ousar tocar-te, e ai de ti, se te entregares a algum! De feito eram já passados dois meses, e ninguém mais via por aquelas paragens o sanhudo Baguari. Tinha realmente ido reunir-se a seus companheiros, cuja residência favorita era para as bandas de Sant’Ana do Parnaíba próximo à junção dos dois grandes rios.

Jupira pois podia já passear sozinha e desassombrada, e adormecer tranqüila à sombra da figueira silvestre pelas margens do seu pátrio Paraná, ela que tinha mais medo do amor de um homem do que das sanhas do canguçu, das ciladas do sucuri.

Em uma sesta ardente ela estava sozinha sentada à sombra bem junto à margem do rio. Pendurada a um galho se via perto dela uma pequena maca, onde dormia um irmãozinho seu, que ela embalava cantando, e enxotando com um ramo os maribondos e mutucas, que lhe esvoaçavam em torno. Espalhados pela praia, pendurados ou encostados pelos troncos viam-se armas, redes, esteiras e mais utensílios indianos, sinal de que a sua horda não devia andar por longe. De feito, Jurema e seus companheiros tinham-se entranhado pela floresta à cata de jabuticabas, araticuns, bacuparis e outras frutas silvestres de que abundam aquelas matas, e deixaram ali Jupira tomando conta do rancho e vigiando a criança.

Entretida com aquele cuidado Jupira não viu um vulto, que na margem oposta surgiu da mata, e atirando-se ao rio o veio atravessando sereno e sem ruído, como um jacaré, mal tendo a cabeça fora da água.

Ao aproximar-se da barranca mergulhou, e Jupira só o viu quando surgindo fora da água, saltou na praia perto dela. Soltou um grito de susto cuidando ser algum monstro aquático, que a vinha devorar; porém, seu terror ainda subiu de ponto, quando naquele vulto reconheceu Baguari, que se erguia ao pé dela gotejante, gigantesco e hediondo, com os olhos vermelhos e chamejantes como duas brasas.

– Jupira, hoje é o dia! – bradou o índio lançando-lhe as mãos. – Hás de ir comigo ou hei de dar-te a comer aos peixes deste rio.

Jupira tremendo e transida de horror, deixou-se ficar muda e queda, como a corça que sentiu no cangote a garra aguçada da suçuarana.

– Vamos, Jupira!... desta vez eu te juro não me escaparás mais.

– Sim, vamos, Baguari; – disse Jupira voltando-se do susto e recobrando sua natural coragem e resolução. – Devo ser tua; bem vejo que Tupã me destinou para ti, e que não me é possível por mais que faça escapar ao teu poder.

– Ah!... enfim!... ainda bem que o conheces. Acompanha-me.

Falando assim Baguari a ia arrastando para a mata.

Presa à barranca estava uma canoa que aqueles indígenas, que já tinham alguma indústria e possuíam alguma ferramenta, haviam fabricado.

– Não! para aí não! exclamou Jupira. – Minha gente não pode tardar a voltar, e ai de nós se nos encontrarem! matar-nos-ão a mim e a ti!... Entremos naquela canoa, vamos para a outra banda, e fujamos para bem longe.

Não pareceu má a Baguari aquela proposta.

– Seja como quiseres... mas esse columim?... disse o índio apontando para a criança.

– Tupã tomará conta dele – respondeu a menina apontando para o céu.

Entraram na canoa, e Jupira para mostrar que de bom grado acompanhava o seu roubador, levou para dentro dela seu arco e flechas, e mais utensílios que lhe pertenciam. Sua intenção porém era precipitar-se no meio do rio, e deixar-se afogar, no caso que não pudesse matar Baguari. Chegados que foram ao meio do rio, Jupira debruçou-se sobre o bordo da canoa como para mirar a profundidade das águas. Um forte pé de vento, que então se levantou, arrancou-lhe da cabeça e atirou no rio o bonito canitar de penas de arara guarnecido de ouro e pedrarias, que trouxera da casa de seu pai.

Uma súbita inspiração atravessou o espírito de Jupira.

– Ah! o meu canitar!... o meu canitar!... exclamou a menina ajuntando as mãos com mostras de grande lástima.

– O meu canitar, que eu quero tanto... lá se vai pela água abaixo!... ah! meu Deus, espera, Baguari!... vou ver se o posso apanhar.

Dizendo isto fazia gesto de quem ia lançar-se a nado.

– Espera tu aí, que eu já te trago o teu canitar.

Disse e de um salto atirou-se ao rio. Apenas se havia afastado umas quatro ou cinco braças da canoa, Jupira toma o arco, e acocha-lhe uma flecha, que foi cravar-se-lhe na espádua. O índio arrancou um rugido de dor, e afundou-se por um momento; apenas surgiu de novo à tona da água, nova flecha voou do arco de Jupira e foi cravar-se na outra espádua do índio. Nenhuma das flechas porém havia penetrado muito fundo, e nem lhe tolhiam o movimento dos braços; o índio enfurecido lançou-se sobre a canoa, a qual também não sendo governada vinha rapidamente sobre ele levada pela torrente. Quem o visse então com aquelas duas hastes emplu-madas sobre o dorso, cuidaria ver um dragão alado arrojando-se sobre a canoa para devorar a infeliz menina. Jupira, que o esperava em pé com um feroz sorriso de triunfo, deixou-o chegar, e quando o índio enfurecido ia deitar a mão ao bordo da pequena igara, descarregou-lhe com toda a força o remo sobre a cabeça e rebentou-lhe o crânio. O índio desapareceu, e foi surgir um pouco abaixo à flor da água entre uma multidão de peixes, que saltitando devoravam o sangue e os miolos que escorriam do crânio do desventurado cacique.

Capítulo V

O cadáver de Baguari foi rolando longos dias à mercê da torrente do Paraná, servindo de pasto aos peixes, e de banquete e batel a um tempo aos urubus, que sobre ele iam boiando rio abaixo, até que enfim foi encalhar em uma praia arenosa justamente em um lugar, onde então achavam-se arranchados os seus companheiros. Dir-se-ia, que a mão do destino para ali o tangera de propósito como para clamar vingança. Posto que já meio devorado pelos peixes, foi logo reconhecido pelos seus. Baguari ao partir lhes havia prometido que em menos de três luas havia de voltar com Jupira; que se até então não aparecesse é porque o teriam morto, e nesse caso deixava a cargo deles a sua vingança. De feito voltou, mas sem vida e sem Jupira, e apenas trazendo ainda no dorso as flechas que ela lhe havia cravado, como em vida havia trazido cravadas no peito as setas, com que os lindos olhos de Jupira lhe haviam atravessado o coração.

Apenas os índios o reconheceram, soltaram grandes alaridos de dó, recolheram o cadáver em uma grande maca, teceram em torno dele danças fúnebres, e deram-lhe sepultura à sombra de uma velha sucupira.

Feitas as honras fúnebres ao seu valente chefe, aqueles indígenas trataram logo de marchar pela margem do Rio Grande acima a fim de lhe vingarem a morte. A horda de Baguari era muito mais numerosa e forte do que o bando desorganizado em que vivia Jupira, o qual constava de relí-quias de hordas devastadas e dispersadas pelos brancos. De longo tempo em contato com os brancos tinham perdido os hábitos belicosos, e grande parte de sua coragem e fereza selvática. Em breve chegou-lhes aos ouvidos a notícia de que a gente de Baguari marchava contra eles a fim de vingar a morte de seu chefe. Fracos e pusilânimes, aqueles restos da família caiapó não podiam resistir aos robustos e aguerridos Guaianás, que sobre eles vinham cheios de cólera e sede de vingança, e seriam infalivelmente exterminados.

Jupira não havia ocultado aos seus a morte do sanhudo Baguari; pelo contrário, risonha e triunfante lhes narrou com toda a franqueza e ingenuidade a astúcia de que se valera para livrar para sempre daquele feroz pretendente. Contando como certa a sua ruína e possuídos de terror, seus covardes companheiros resolveram mandar um emissário ao encontro dos inimigos para dar-lhes satisfações e dizer-lhes que nenhuma parte tinham tido na morte de seu chefe, que fora Jupira a única autora daquele atentado, e que para aplacar sua justa cólera estavam prontos a entregar-lhes viva ou morta a criminosa. Este teria sido o destino da linda caboclinha se um de seus pretendentes, esperando assim fazer jus à gratidão e ao amor da rapariga, não a tivesse avisado da bárbara e aleivosa intenção dos seus.

Jupira e sua mãe fugiram para Campo Belo e acolheram-se à fazenda dos padres, resolvidas a nunca mais voltarem para a companhia de seus pérfidos companheiros.

Era já a quarta vez que Jupira desde que nascera trocava a selva pela casa paterna, e a casa pela selva alternativamente. Seu pai a recebeu com os braços abertos, e sentiu grande alegria em tornar a achar a filha, na qual já há muito havia perdido as esperanças de tornar a pôr os olhos em dias de sua vida. Recolheu-a para casa, e extasiado de sua formosura e do viçoso desenvolvimento de suas esbeltas formas deu-lhe lindos vestidos e enfeites, que ela de bom grado trocou pelo curto saiote e pelo canitar de que usava nas selvas, e empregou todos os meios, todas as carícias e seduções possíveis para fixá-la de uma vez para sempre no seio da sociedade civilizada.

Se com os trajos selváticos Jupira por seu garbo e gentileza fazia lembrar uma Moema ou uma Lindóia, vestida à maneira da gente civilizada era uma rapariga sedutora, capaz de alvoroçar o coração e inflamar o sangue de um anacoreta. Era alta e muito bem-feita. Os cabelos negros, corredios e luzentes como asa do anu, eram tão bastos e compridos que a linda cabocla ainda pouco adestrada na arte de se toucar, via-se em apuros para acomodá-los sobre sua pequena cabeça e muitas vezes rebelando-se contra as fitas e prisões, as quebravam e tombando-lhe pelo colo se derramavam em liberdade pelos nédios e morenos ombros. Os olhos um pouco levantados nos cantos exteriores, eram bem rasgados, e dardejavam das pupilas negras lampejos, que denunciavam o ardor de seu temperamento e uma alma enérgica e resoluta. Os lábios rubros, carnosos, e úmidos eram como dois favos túrgidos de mel da mais inefável voluptuosidade, e quando se fendiam em um sorriso mostravam duas linhas de alvíssimos dentes um pouco aguçados como os dos carnívoros, e seu sorriso tinha singular e indefinível expressão de ingenuidade e de selvática fereza. A todos esses encantos, a todas essas linhas e voluptuosas formas, servia como de brilhante invólucro a tez de uma cor original, um róseo acaboclado, como que dourado pelos raios do sol, que dava peregrino relevo à sua linda figura.

Quando ia à missa aos domingos, na pequena capela do seminário todos os olhos voltavam-se para a interessante cabocla, todos a contemplavam sorrindo com o mais curioso interesse e complacência. Até mesmo os seus gestos e ademanes um pouco estouvados, o ar desajeitado e constrangido, com que vergava as suas vestiduras, tudo nela parecia galante, e encantador.

Se bem que na pia batismal tivesse recebido o nome de Maria, os moradores de Campo Belo conservavam-lhe sempre o seu nome indígena de Jupira, por acharem-no mais galante e entenderem que lhe assentava melhor.

É escusado dizer, que não faltaram apaixonados àquela tão sedutora quão peregrina formosura. Mas como já corria pela aldeia a história da morte do cacique que às mãos da frágil menina pagara com a vida a sua audácia, os amantes de Jupira tinham-lhe certo respeito, e não a requestavam senão com certa timidez e reserva, se bem que nenhum deles tivesse intenção de lançar-lhe mãos violentas. Mas aquele episódio de sua vida rodeando-a de um terrível prestígio servia-lhe de salvaguarda, e de broquel contra qualquer desacato ao seu pudor.

Entre os amantes de Jupira o mais assíduo, ardente e apaixonado, e talvez também o mais guapo, o mais rico e considerado de todos, era um mancebo por nome Quirino, filho de um abastado fazendeiro daqueles arredores. Era um rapagão alto e bem disposto, de barba cerrada e negra, e pupila ardente e viva, em que transluzia todo o fogo de sua alma capaz de todos os extremos.

Quirino amava, não como se ama na cidade, onde se namora muito e ama-se quase nada, mas como se ama no sertão, em meio da solidão, debaixo daqueles céus ardentes, no seio daquela natureza esplêndida: amava com paixão, com fogo. Quirino freqüentava assiduamente a casa de José Luís, onde cercava a rapariga de mil atenções, obséquios e adorações, sem que ela nem de leve se mostrasse sensível a tantas demonstrações de afeto, por mais que ele empregasse todos os meios ao seu alcance para ganhar-lhe o coração. A princípio nem lhe passava pelo pensamento casar-se com uma pobre cabocla filha de uma gentia e criada nos matos.

Porém quanto maior era a insensibilidade e esquivança de Jupira, mais ardente se tomava a paixão do rapaz, e mais se lhe atiçava o desejo de possuí-la; estava disposto a empregar todos os meios, a fazer todos os sacrifícios para esse fim.

Como Jupira tratava todos os outros amantes com a mesma indiferença e talvez pior do que a ele, Quirino entendeu que toda aquela insensível esquivança não era senão resultado dos poucos anos e da selvática timidez e acanhamento da rapariga, e esperava que de modo nenhum ela recusasse uma proposta de casamento com um moço como ele era, bem apessoado, rico e de boa família. Depois de ter lutado em vão por vencer a obstinada indiferença da menina, era aquele o seu último recurso. Uma vez casado mais fácil lhe seria catequizá-la e ganhar-lhe a vontade e o coração.

Demais, já esse casamento não lhe parecia tão ridículo e desigual, pois Jupira era filha legítima de José Luís, e José Luís empregado do seminário, tinha adquirido alguns bens de fortuna, e era homem que gozava de respeito e consideração no lugar. Quirino pois, não hesitou mais um instante, e foi pedir-lhe a mão de sua filha.

José Luís acolheu com infinita satisfação a proposta do mancebo; não podia desejar melhor partido nem maior ventura para sua filha, e foi logo comunicar-lhe a pretensão do moço.

Ela porém com grande pasmo e desgosto de José Luís recusou-se obstinadamente a semelhante casamento. Foi debalde que José Luís por muitos dias lutou com ela empregando exortações, conselhos, súplicas e até por fim repreensões e ameaças para induzi-la a aceitar a mão de Quirino.

– Meu pai, – disse-lhe ela afinal com um sorriso, que fez arrepiarem-se as carnes de José Luís, – ninguém será capaz de dar-me um marido contra a minha vontade; eu já sei como a gente se livra deles, quando nos querem levar à força!

José Luís assombrado com aquela resposta recolheu-se ao silêncio, e desistiu do seu propósito.

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