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Humorísticos e Irônicos de Bernardo Guimarães

 

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À SAIA BALÃO

Balão, balão, balão! cúpula errante,
Atrevido cometa de ampla roda,
Que invades triunfante
Os horizontes frívolos da moda;
Tenho afinado já para cantar-te
Meu rude rabecão;
Vou teu nome espalhar por toda parte,
Balão, balão, balão!
E para que não vá tua memória
Do esquecimento ao pélago sinistro,
Teu nome hoje registro
Da poesia nos galantes fastos,
E para receber teu nome e glória,
Do porvir te franqueio os campos vastos.

Em torno ao cinto de gentil beldade
Desdobrando o teu âmbito estupendo,
As ruas da cidade
Co’a longa cauda ao longe vais varrendo;
E nessas vastas roçagantes pregas
De teu túmido bojo,
Nesse ardor de conquistas em que ofegas,
O que encontras, levando vais de rojo,
Qual máquina de guerra,
Que inda os mais fortes corações aterra.

Quantas vezes rendido e fulminado
Um pobre coração,
Não vai por essas ruas arrastado
Na cauda de um balão.
Mal despontas, a turba numerosa
À direita e à esquerda,
De tempo sem mais perda
Amplo caminho te abre respeitosa;
E com esses requebros sedutores
Com que saracoteias,
A chama dos amores
Em mais de um coração a furto ateias.
Sexo lindo e gentil, — foco de enigmas! —

Quanto és ambicioso,
Que o círculo espaçoso
De teus domínios inda em pouco estimas;
Queres mostrar a força onipotente
De teu mimoso braço;
De render corações já não contente,
Inda pretendes conquistar o espaço!...

Outrora já c’os atrevidos pentes
E as toucas alterosas,
As regiões buscavas eminentes,
Onde giram as nuvens tormentosas;
Como para vingar-te da natura,
Que assim te fez pequena de estatura.
Mudaste enfim de norte,
E aumentando o diâmetro pretendes
Avantajar-te agora de outra sorte
Na cauda do balão, que tanto estendes.
Queres em torno espaço,
Té onde possas desdobrar teu braço.

Assim com tuas artes engenhosas
Sem medo de estourar tu vais inchando,
E os reinos teus co’as vestes volumosas
Ao longe sem limites dilatando,
Conquistas na largura
O que não podes conseguir na altura.

Mas ah! por que o meneio gracioso
De teu airoso porte
Sepultas por tal sorte
Nesse mundo de saias portentoso?
Por que razão cuidados mil não poupas
Pra ver tua beleza tão prezada
Sumir-se-te afogada
Nesse pesado pélago de roupas?

Sim, de que serve ver as crespas ondas
De túrgido balão
A rugirem bojudas e redondas
Movendo-se em contínua oscilação;
— Vasto sepulcro, onde a beleza cega
Seus encantos sepulta sem piedade,
— Empavezada nau, em que navega
A todo pano a feminil vaidade? —

De que serve enfeitar da vasta roda
Os estufados flancos ilusórios
Com esses infinitos acessórios,
Que vai criando a inesgotável moda,
De babados, de gregas, fitas, rendas,
De franjas, de vidrilhos,
E outros mil badulaques e fazendas,
Que os olhos enchem de importunos brilhos.
Se no seio de tão tofuda mouta
Mal se pode saber que ente se acouta?!

De uma palmeira à graciosa imagem,
Que flácida se arqueia
Ao sopro d’aura, quando lhe meneia
A trêmula ramagem,
Comparam os poetas
As virgens de seus sonhos mais diletas.
Mas hoje onde achar pode a poesia
Imagem, que as bem pinte e as enobreça,
Depois que deu-lhes singular mania
De atufarem-se em roupa tão espessa;
Se eram antes esbeltas qual palmeiras,
Hoje podem chamar-se — gameleiras.

Também o cisne, que garboso fende
De manso lago as ondas azuladas,
E o níveo colo estende
Por sobre as águas dele enamoradas,
Dos poetas na vívida linguagem

De uma bela retrata a pura imagem.
Mas hoje a moça, que se traja à moda,
Só se pode chamar peru de roda.

Quais entre densas nuvens conglobadas
Em hórrido bulcão
Vão perder-se as estrelas afogadas
Em funda escuridão,
Tal da beleza a sedutora imagem
Some-se envolta em túmida roupagem.

Balão, balão, balão! — fatal presente,
Com que brindou das belas a inconstância
A caprichosa moda impertinente,
Sepulcro da elegância,
Tirano do bom gosto, horror das graças,
Render-te os cultos meus não posso, não;

Roam-te sem cessar ratos e traças,
Balão, balão, balão.

***
Ó tu, que eu amaria, se na vida
De amor feliz restasse-me esperança,
E cuja linda imagem tão querida
Eu trago de contínuo na lembrança,
Tu, que no rosto e no ademã singelo
Das filhas de Helen és vivo modelo;

Nunca escondas teu gesto peregrino,
E da estreita cintura o airoso talhe,
E as graças desse teu porte divino,
Nesse amplo detalhe
De roupas, que destroem-te a beleza
Dos dons de que adornou-te a natureza.

De que serve entre véus, toucas e fitas,
Ao peso dos vestidos varredores,
De marabouts, de rendas e de flores
Tuas formas trazer gemendo aflitas,
A ti, que no teu rosto tão viçosas
De tua primavera tens as rosas?...

Pudesse eu ver-te das belezas gregas,
Quais as figuram mármores divinos,
Na túnica gentil, não farta em pregas,
Envolver teus contornos peregrinos;
E ver dessa figura, que me encanta,
O altivo porte desdobrando a aragem
De Diana, de Hero, ou de Atalanta
A clássica roupagem!...

Em simples trança no alto da cabeça,
As fúlgidas madeixas apanhadas;
E a veste pouco espessa
Desenhando-te as formas delicadas,
Ao sopro das aragens ondulando,
Teus puros membros mórbida beijando.

E as nobres linhas do perfil correto
De importunos ornatos destoucadas,
Em toda a luz de seu formoso aspecto
Fulgindo iluminadas
Por sob a curva dessa fronte bela,

Em que tanto esmerou-se a natureza;
E o braço nu, e a túnica singela
Com broche de ouro aos alvos ombros presa

Mas não o quer o mundo, onde hoje impera
A moda soberana; —
Esquivar-se p’ra sempre, oh! quem pudera
À sua lei tirana!...

Balão, balão, balão! — fatal presente,
Com que brindou das belas a inconstância
A caprichosa moda impertinente,
Sepulcro da elegância,
Tirano do bom gosto, horror das graças!...
Render-te os cultos meus não posso, não;
Roam-te sem cessar ratos e traças,
Balão, balão, balão.

Rio de Janeiro, 18 de julho de 1859

À MODA - 1878

Balão, balão, balão, perdão te imploro,
Se outrora te maldisse,
Se contra ti em verso mal sonoro
Soltei muita sandice.
Tu sucumbiste, mas de tua tumba
Ouço uma gargalhada, que retumba.

“Atrás de mim virá inda algum dia,
Que bom me há de fazer!”
Tal foi o grito, que da campa fria
Soltaste com satânico prazer.
Ouviu o inferno tua praga horrenda,
E pior que o soneto veio a emenda.

Astro sinistro no momento extremo
De teu ocaso triste,
Do desespero no estertor supremo
O bojo sacudiste,
E surgiram de tua vasta roda
Os burlescos vestidos hoje na moda.

Moda piramidal, moda enfezada,
Que donairoso porte
Da moça a mais esbelta e bem talhada
Enfeia por tal sorte,
Que a torna semelhante a uma chouriça,
Que em pé desajeitada se inteiriça.

***

Se vires pelas ruas aos saltinhos
Mover-se um obelisco,
Como quem vai pisando sobre espinhos,
Com a cauda varrendo imenso cisco,
Do espectro esguio a forma não te espante
Não fujas, não, que ali vai uma elegante.

Mas se de face a moça assim se ostenta
Esguia e empertigada,
Sendo por um dos lados contemplada
Diversa perspectiva se apresenta,
E causa assombro ver sua garupa
Que área imensa pelo espaço ocupa.

Formidável triângulo desenha-se
Com base igual à altura,
De cujo ângulo vértice despenha-se
Catadupa, que atrás se dependura,
De fofos e babados
Com trezentos mil nós empantufados.

A linha vertical pura e correta
Eleva-se na frente;
Atrás a curva, alinha do poeta
Em fofos ondulando molemente
Nos apresenta na suave escarpa
A figura perfeita de uma harpa

Pela esguia fachada nua e lisa,
Qual maciço pilar,
Se brincar co’a roupagem tenta a brisa,
Não acha em que pegar;
E só o sopro de um tufão valente
Pode abalar da cauda o peso ingente.

***

Onde vais, virgem cândida e formosa,
Assim cambaleando?!...
Que zombeteira mão despiedosa
O teu donoso porte torturando,
Te amarrou a essa cauda, que carregas,
Tão atufada de medonhas pregas?!...

Trazes-me à idéia a ovelha timorada,
Que trêmula e ofegante
Do tosqueador se esquiva à mão ingrata,
E em marcha vacilante
Vai arrastando a lã despedaçada
Atrás em rotos velos pendurada.

Assim também a corça malfadada,
Que às garras do jaguar
À custo escapa toda lacerada,
Co’as vísceras ao ar,
De rojo pela senda das montanhas
Pendentes leva as tépidas entranhas.

***

Onde estão os meneios graciosos
De teu porte gentil?
O nobre andar, e os gestos majestosos
De garbo senhoril?...
Abafados morreram nessa trouxa,
Que assim te faz andar cambeta e couxa.i

E a fronte, a bela fronte, espelho d’alma,
Trono do pensamento,
Que com viva expressão, turvada e calma,
Traduz o sentimento,
A fronte, em que realça-se a beleza
De que pródiga ornou-te a natureza,

Tua fronte onde está?... Teus lindos olhos
Brilhar eu vejo apenas
Na sombra por debaixo de uns abrolhos
De aparadas melenas...
Ah! modista cruel, que por chacota
Te pôs assim com cara de idiota.

Ouro Preto, agosto de 1877

AO CHARUTO

Ode

Vem, ó meu bom charuto, amigo velho,
Que tanto me regalas;
Que em cheirosa fumaça me envolvendo
Entre ilusões me embalas.

Oh! que nem todos sabem quanto vale
Uma fumaça tua!
Nela vai passear do bardo a mente
Às regiões da lua.

E por lá embalado em rósea nuvem
Vagueia pelo espaço,
Onde amorosa fada entre sorrisos
O toma em seu regaço;

E com beijos de requintado afeto
A fronte lhe desruga,
Ou com as tranças d’ouro mansamente
As lágrimas lhe enxuga.

Ó bom charuto, que ilusões não geras!
Que tão suaves sonhos!
Como ao te ver atropelados correm
Cuidados enfadonhos!

Quantas penas não vão por esses ares
Com uma só fumaça!...
Quanto negro pesar, quantos ciúmes,
E quanta dor não passa!

Tu és, charuto, o pai dos bons conselhos,
O símbolo da paz;
Para em santa pachorra adormecer-nos
Nada há mais eficaz.

Quando Anarda com seus caprichos loucos
Me causa dissabores,
Em duas baforadas mando embora
O anjo e seus rigores.

***

Quanto lastimo os nossos bons maiores,
Os Gregos e os Romanos,
Por não te conhecerem, nem gozarem
Teus dotes soberanos!

Quantos males talvez não pouparias
À triste humanidade,
Ó bom charuto, se te possuísse
A velha antigüidade!

Um charuto na boca de Tarquínio
Talvez lhe dissipara
Esse ardor, que matou Lucrécia linda,
Dos mimos seus avara.

Se o peralta do Páris já soubesse
Puxar duas fumaças,
Talvez com elas entregara aos ventos
Helena e suas graças,

E a régia esposa em paz com seu marido
Dormindo ficaria;
E a Tróia antiga com seus altos muros
Inda hoje existiria.

***

Quem dera ao velho Mário um bom cachimbo
Que lhe abrandasse as sanhas,
Para Roma salvar, das que sofrera,
Catástrofes tamanhas!

Mesmo Catão, herói trombudo e fero,
Talvez se não matasse,
Se a raiva que aos tiranos consagrava,
Fumando evaporasse.

***

Fumemos pois! — Ambrósio, traze fogo...
Puff!... oh! que fumaça!
Como me envolve todo entre perfumes,
Qual véu de nívea cassa!
Vai-te, alma minha, embarca-te nas ondas
Desse cheiroso fumo,
Vai-te a peregrinar por essas nuvens,

Sem bússola, nem rumo.

Vai despir no país dos devaneios
Esse ar pesado e triste;
Depois, virás mais lépida e contente,
Contar-me o que lá viste.

Ouro Preto, 1857

AO CIGARRO

Canção

Cigarro, minhas delícias,
Quem de ti não gostará?
Depois do café, ou chá,
Há nada mais saboroso
Que um cigarro de Campinas
De fino fumo cheiroso?

Já reinas em todo mundo,
E esse teu vapor jucundo
Por toda parte esvoaça.
Até as moças bonitas
Já te fumam por chalaça!...

Sim; — já por dedos de neve
Posto entre lábios de rosa,
Em gentil boca mimosa
Tu te ostentas com vaidade.
Que sorte digna de inveja!
Que pura felicidade!

Anália, se de teus lábios
Desprendes subtil fumaça,
Ah! tu redobras de graça,
Nem sabes que encantos tens.
À invenção do cigarro
Tu deves dar parabéns.

Qual caçoula de rubim
Exalando âmbar celeste,
Tua boca se reveste
Do mais primoroso chiste.

A tão sedutoras graças
Nenhum coração resiste.

Embora tenha o charuto
Dos fidalgos a afeição,
E do conde ou do barão
Seja embora o favorito;
Mas o querido do povo
Ës tu só, meu cigarrito.

Quem pode ver sem desgosto,
Esse charuto tão grosso,
Esse feio e negro troço
Nos lábios da formosura?...
É uma profanação,
Que o bom gosto não atura.

Mas um cigarrinho chique,
Alvo, mimoso e faceiro,
A um rostinho fagueiro
Dá realce encantador.
É incenso que vapora
Sobre os altares de amor.

O cachimbo oriental
Também nos dá seus regalos;
Porém nos beiços faz calos,
E nos faz a boca torta.
De tais canudos o peso
Não sei como se suporta!...

Deixemos lá o grão-turco
No tapete acocorado
Com seu cachimbo danado
Encher as barbas de sarro.
Quanto a nós, ó meus amigos,
Fumemos nosso cigarro.

Cigarro, minhas delícias,
Quem de ti não gostará?
Certo no mundo não há
Quem negue tuas vantagens.
Todos às tuas virtudes
Rendem cultos e homenagens.

És do bronco sertanejo
Infalível companheiro;
E ao cansado caminheiro
Tu és no pouso o regalo;
Em sua rede deitado
Tu sabes adormentá-lo.

Tu não fazes distinção,
És do plebeu e do nobre,
És do rico e és do pobre,
És da roça e da cidade.
Em toda a extensão professas
O direito de igualdade.

Vem pois, ó meu bom amigo,
Cigarro, minhas delícias;
Nestas horas tão propícias
Vem dar-me tuas fumaças.
Dá-mas em troco deste hino,
Que fiz-te em ação de graças.

Rio de Janeiro, 1864

LEMBRANÇAS DO NOSSO AMOR

Qual berra a vaca do mar
Dentro da casa do Fraga,
Assim do defluxo a praga
Em meu peito vem chiar.
É minha vida rufar,
Ingrata, neste tambor!
Vê que contraste do horror:
Tu comendo marmelada,
E eu cantando, aqui, na escada,
Lembranças do nosso amor!

Se o sol desponta, eu me assento;
Se o sol se esconde, eu me deito;
Se a brisa passa, eu me ajeito,
Porque não gosto de vento.
E, quando chega o momento
De te pedir um favor,
Alta noite, com fervor,
Canto, nas cordas de embira
De minha saudosa lira,
Lembranças do nosso amor!

Mulher, a lei do meu fado
É o desejo em que vivo
De comer um peixe esquivo,
Inda que seja ensopado.
Sinto meu corpo esfregado
E coberto de bolor...
Meu Deus! Como faz calor!
Ai! que me matam, querida,
Saudades da Margarida,
Lembranças da Leonor!

O anjo da morte já pousa
Lá na estalagem do Meira,
E lá passa a noite inteira
Sobre o leito em que repousa.
Com um pedaço de lousa,
Ele abafa toda a dor,
E, por um grande favor,
Manda ao diabo a saudade,
E afoga, por amizade,
Lembranças do nosso amor!

DEDICATÓRIAS

I

Já que por terras estranhas
Acompanhar-vos não posso,
Deste fraco amigo vosso
Levai o fiel retrato.
Tem o nariz muito chato
E a boca um pouco torta...
Mas isto bem pouco importa.
Para que ninguém o veja,
Ponde-o a tomar cerveja
Por detrás de alguma porta...

II

Amigo, não faças caso
Deste retrato tão feio.
Ele é meu, e não alheio:
Eu sou um soldado raso;
Porém, se feio é o vaso,
O conteúdo é bonito.
Eu sou um pobre proscrito,
Que só, no meio da calma,
Solto o brado de minha alma:
— Independência! — eis meu grito.

O NARIZ PERANTE OS POETAS

Cantem outros os olhos, os cabelos
E mil cousas gentis
Das belas suas: eu de minha amada
Cantar quero o nariz.

Não sei que fado mísero e mesquinho
É este do nariz,
Que poeta nenhum em prosa ou verso
Cantá-lo jamais quis.

Os dentes são pérolas,
Os lábios rubis,
As tranças lustrosas
São laços sutis
Que prendem, que enleiam
Amante feliz;
É colo de garça
A nívea cerviz;
Porém ninguém diz
O que é o nariz.

(As faces são tintas
De rosa e de liz,
Ou já têm de jambo
Mimoso matiz;
São cor de safira
Os olhos gentis
E a cor do nariz
Ninguém vo-la diz.)ii

Beija-se os cabelos,
E os olhos belos,
E a boca mimosa,
E a face de rosa
De fresco matiz;
E nem um só beijo
Fica de sobejo
P’ro pobre nariz;
Ai! pobre nariz,
És bem infeliz!

Entretanto, — notai a sem-razão
Do mundo, injusto e vão: —
Entretanto o nariz é do semblante
O ponto culminante;
No meio das demais feições do rosto
Erguido é o seu posto,
Bem como um trono, e acima dessa gente
Eleva-se eminente.

Trabalham sempre os olhos; mais ainda
A boca, o queixo, os dentes;
E — míseros plebeus — vão exercendo
Ofícios diferentes.

Mas o nariz, fidalgo de bom gosto,
Desliza brandamente
Vida voluptuosa entre as delícias
De um doce far-niente.

Sultão feliz, em seu divã sentado
A respirar perfumes,
De bem-aventurado ócio gozando,
Não tem inveja aos numes.

Para ele produz o rico Oriente
O cedro, a mirra, o incenso;
Para ele meiga Flora de seus cofres
Verte o tesouro imenso.

Amante fiel sua, a mansa aragem
As asas meneando
Anda p’ra ele nos vergéis vizinhos
Aromas apanhando.

E tu, pobre nariz, sofres o injusto
Silêncio dos poetas?
Sofres calado? não tocaste ainda
Da paciência as metas?

Nariz, nariz, já é tempo
De ecoar o teu queixume;
Pois, se não há poesia
Que não tenha o seu perfume,
Em que o poeta às mãos cheias
Os aromas não arrume,
Por que razão os poetas,
Por que do nariz não falam,
Do nariz, p’ra quem somente
Esses perfumes se exalam?

Onde, pois, ingratos vates,
Acharíeis as fragrâncias,
Os balsâmicos odores,
De que encheis vossas estâncias,
Os eflúvios, os aromas
Que nos versos espargis;
Onde acharíeis perfume,
Se não houvesse nariz?
Ó vós, que ao nariz negais
Os foros de fidalguia,
Sabei, que se por um erro
Não há nariz na poesia,
É por seu fado infeliz,
Mas não é porque não haja
Poesia no nariz.

Atenção pois aos sons de minha lira,
Vós todos, que me ouvis,
De minha bem-amada em versos d’ouro
Cantar quero o nariz.

O nariz de meu bem é como... oh! céus!...
É como o quê? por mais que lide e sue,
Nem uma só asneira!...
Que esta musa está hoje uma toupeira.

Nem uma idéia
Me sai do casco!...
Ó miserando,
Triste fiasco!!

Se bem me lembra, a Bíblia em qualquer parte
Certo nariz ao Líbano compara;iii
Se tal era o nariz,
De que tamanho não seria a cara?!...

E ai de mim! desgraçado,
Se o meu doce bem-amado
Vê seu nariz comparado
A uma erguida montanha:
Com razão e sem tardança,
Com rigores e esquivança,
Tomará cruel vingança
Por essa injúria tamanha.

Pois bem!... Vou arrojar-me pelo vago
Dessas comparações que a trouxe-mouxe
Do romantismo o gênio cá nos trouxe,
Que p’ra todas as cousas vão servindo;
E à fantasia as rédeas sacudindo,
Irei, bem como um cego,
Nas ondas me atirar do vasto pego,
Que as românticas musas desenvoltas
Costumam navegar a velas soltas.

E assim como o coração,
Sem ter corda, nem cravelha,
Na linguagem dos poetas
A uma harpa se assemelha;
Como as mãos de alva donzela
Parecem cestos de rosas,
E as roupas as mais espessas
São em verso vaporosas;

E o corpo de esbelta virgem
Tem feitio de coqueiro,
E só com um beijo se quebra
De tão franzino e ligeiro;

E como os olhos são flechas,
Que os corações vão varando;
E outras vezes são flautas
Que de noite vão cantando;

P’ra rematar tanta peta
O nariz será trombeta...

Trombeta o meu nariz?!! (ouço-a bradando)
Pois meu nariz é trombeta?...
Oh! não mais, Sr. poeta,
Com meu nariz s’intrometa.

Perdão por esta vez, perdão, senhora!
Eis nova inspiração me assalta agora,
E em honra ao teu nariz
Dos lábios me arrebenta em chafariz:

O teu nariz, doce amada,
É um castelo de amor,
Pelas mãos das próprias graças
Fabricado com primor.

As suas ventas estreitas
São como duas seteiras,
Donde ele oculto dispara
Agudas flechas certeiras.

Em que sítios te pus, amor, coitado!
Meu Deus, em que perigo?
Se a ninfa espirra, pelos ares saltas,
E em terra dás contigo.

Estou já cansado, desisto da empresa,
Em versos mimosos cantar-te bem quis;
Mas não o consente destino perverso,
Que fez-te infeliz;
Está decidido, — não cabes em verso,
Rebelde nariz.

E hoje tu deves
Te dar por feliz
Se estes versinhos
Brincando te fiz.

Rio de Janeiro, 1858

MOTE ESTRAMBÓTICO

Mote

Das costelas de Sansão
Fez Ferrabrás um ponteiro,
Só para coser um cueiro
Do filho de Salomão.

Glosa

Gema embora a humanidade,
Caiam coriscos e raios,
Chovam chouriços e paios
Das asas da tempestade,
— Triunfa sempre a verdade,
Com quatro tochas na mão.
O mesmo Napoleão,
Empunhando um raio aceso,
Suportar não pode o peso
Das costelas de Sansão.

Nos tempos da Moura-Torta,
Viu-se um sapo de espadim,
Que perguntava em latim
A casa da Môsca-Morta.
Andava, de porta em porta,
Dizendo, muito lampeiro,
Que, p’ra matar um carneiro,
Em vez de pegar no mastro,
Do nariz do Zoroastro
Fez Ferrabrás um ponteiro.

Diz a folha de Marselha
Que a imperatriz da Mourama,
Ao levantar-se da cama,
Tinha quebrado uma orelha,
Ficando manca a parelha.
É isto mui corriqueiro
Numa terra, onde o guerreiro,
Se tem medo de patrulhas,
Gasta trinta-mil agulhas,
Só para coser um cueiro.

Quando Horácio foi à China
Vender sardinhas de Nantes,
Viu trezentos estudantes
Reunidos numa tina.
Mas sua pior mofina,
Que mais causou-lhe aflição,
Foi ver de rojo no chão
Noé virando cambotas
E Moisés calçando as botas
Do filho de Salomão.

HINO À PREGUIÇA

... Viridi projectus in antro...
Virgilio

Meiga Preguiça, velha amiga minha,
Recebe-me em teus braços,
E para o quente, conchegado leito
Vem dirigir meus passos.

Ou, se te apraz, na rede sonolenta,
À sombra do arvoredo,
Vamos dormir ao som d’água, que jorra
Do próximo rochedo.

Mas vamos perto; à orla solitária
De algum bosque vizinho,
Onde haja relva mole, e onde se chegue
Sempre por bom caminho.

Aí, vendo cair uma por uma
As folhas pelo chão,
Pensaremos conosco: — são as horas,
Que aos poucos lá se vão. —

Feita esta reflexão sublime e grave
De sã filosofia,
Em desleixada cisma deixaremos
Vogar a fantasia,

Até que ao doce e tépido mormaço
Do brando sol do outono
Em santa paz possamos quietamente
Conciliar o sono.

Para dormir à sesta às garras fujo
Do ímprobo trabalho,
E venho em teu regaço deleitoso
Buscar doce agasalho.

Caluniam-te muito, amiga minha,
Donzela inofensiva,
Dos pecados mortais te colocando
Na horrenda comitiva.

O que tens de comum com a soberba?...
E nem com a cobiça?...
Tu, que às honras e ao ouro dás as costas,
Lhana e santa Preguiça?

Com a pálida inveja macilenta
Em que é que te assemelhas,
Tu, que, sempre tranqüila, tens as faces
Tão nédias e vermelhas?

Jamais a feroz ira sanguinária
Terás por tua igual,
E é por isso, que aos festins da gula
Não tens ódio mortal.

Com a luxúria sempre dás uns visos,
Porém muito de longe,
Porque também não é do teu programa
Fazer vida de monge.

Quando volves os mal abertos olhos
Em frouxa sonolência,
Que feitiço não tens!... que eflúvios vertes
De mórbida indolência!...

És discreta e calada como a noute;
És carinhosa e meiga,
Como a luz do poente, que à tardinha
Se esbate pela veiga.

Quando apareces, coroada a fronte
De roxas dormideiras,
Longe espancas cuidados importunos,
E agitações fragueiras;

Emudece do ríspido trabalho
A atroadora lida;
Repousa o corpo, o espírito se acalma,
E corre em paz a vida.

Até dos claustros pelas celas reinas
Em ar de santidade,
E no gordo toutiço te entronizas
De rechonchudo abade.

Quem, senão tu, os sonhos alimenta
Da cândida donzela,
Quando sozinha vago amor delira
Cismando na janela?...

Não é também, ao descair da tarde,
Que o vate nos teus braços
Deixa à vontade a fantasia ardente
Vagar pelos espaços?...

Maldigam-te outros; eu, na minha lira
Mil hinos cantarei
Em honra tua, e ao pé de teus altares
Sempre cochilarei.

Nasceste outrora em plaga americana
À luz de ardente sesta,
Junto de um manso arroio, que corria
À sombra da floresta.

Gentil cabocla de fagueiro rosto,
De índole indolente,
Sem dor te concebeu entre as delícias
De um sonho inconsciente.

E nessa hora as auras nem buliam
Nas ramas do arvoredo,
E o rio a deslizar de vagaroso
Quase que estava quedo.

Calou-se o sabiá, deixando em meio
O canto harmonioso,
E para o ninho junto da consorte
Voou silencioso.

A águia, que, adejando sobre as nuvens,
Dos ares é princesa,
Sentiu frouxas as asas, e do bico
Deixou cair a presa.

De murmurar, manando entre pedrinhas
A fonte se esqueceu,
E nos imóveis cálices das flores
A brisa adormeceu.

Por todo o mundo o manto do repouso
Então se desdobrou,
E até dizem, que o sol naquele dia
Seu giro retardou.

E eu também já vou sentindo agora
A mágica influência
De teu condão; os membros se entorpecem
Em branda sonolência.

Tudo a dormir convida; a mente e o corpo
Nesta hora tão serena
Lânguidos vergam; dos inertes dedos
Sinto cair-me a pena.

Mas ai!... dos braços teus hoje me arranca
Fatal necessidade!...
Preguiça, é tempo de dizer-te adeus,
Ó céus!... com que saudade!

DILÚVIO DE PAPEL

Sonho de um jornalista poeta

I
Que sonho horrível! — gélidos suores
Da fronte inda me escorrem;
Eu tremo todo! — crebros calafrios
Os membros me percorrem.

Eu vi sumir-se a natureza inteira
Em pélago profundo;
Eu vi, eu vi... acreditai, vindouros,
Eu vi o fim do mundo!...

E que fim miserando!... que catástrofe
Tremenda e singular,
Como nunca os geólogos da terra
Ousaram nem sonhar.

Não foram, não, do céu as cataratas,
Nem as fontes do abismo,
Que alagando este mundo produziram
Tão feio cataclismo.

Nem foi longo cometa amplo-crinito,
Perdido nos espaços,
Que sanhudo investiu nosso planeta,
E o fez em mil pedaços.

E nem tão pouco, em roxas labaredas,
Ardeu como Gomorra,
Ficando reduzido a lago imundo
De flutuante borra.

Nada disso: — porém cousa mais triste
Senão mais temerosa,
Foi da visão, que a mente atormentou-me,
A cena pavorosa.

II

Já o sol se envolvia em seus lençóis
De fofas nuvens, resplendentes d’ouro,
Como o cabelo de um menino louro,
Que se enrosca em dourados caracóis.
Dos róseos arrebóis
A luz suave resvalava apenas
Nos topes dos outeiros
E dos bosques nas cúpulas amenas.
E eu, que os dias sempre passo inteiros,
Rodeado de folhas de papel,
Que de todos os cantos aos milheiros
Noite e dia me assaltam de tropel,
Qual o gafanhotal bando maldito
Com que Deus flagelou o velho Egito:
Eu que vivo de um pálido aposento
Na lôbrega espelunca,
Não vendo quase nunca
Senão por uma fresta o firmamento,
E as campinas, e os montes e a verdura,
Flóreos bosques, encanto da natura;
Das vestes sacudindo
A importuna poeira, que me encarde,
Longe das turbas, num recesso lindo
Fui respirar os bálsamos da tarde.

Ao pé de uma colina,
Ao sussurro da fonte, que golfeja
Sonora e cristalina,
Fui-me sentar, enquanto o sol dardeja
Frouxos raios por sobre os arvoredos,
E da serra nos últimos fraguedos,
Meu pensamento longe se embrenhava
Em páramos fantásticos,
E do mundo e dos homens me olvidava,
Sem ter medo de seus risos sarcásticos.

Mas, ó surpresa!... ao tronco recostada
De um velho cajueiro vi sentada,
De mim não mui distante,
Uma virgem de aspecto vislumbrante;
Sobre os nevados ombros lhe tombava
A basta chuva do cabelo louro,
E a mão, como a descuido, repousava
Por sobre uma harpa de ouro
Engrinaldada de virente louro.
Cuidei que era uma estátua ali deixada
Que em noite de tremendo temporal
Pela fúria dos ventos abalada
Tombou do pedestal.
Mas o engano durou só um momento;
Eu a vi desdobrar o ebúrneo braço,
E percorrendo as cordas do instrumento
De melífluas canções encher o espaço.
E ouvi, cheio de espanto,
Que era a musa, que a mim se endereçava
Com mavioso canto,
E com severo acento, que inda abala
Té agora o meu peito, assim cantava,
— Que a musa canta sempre, e nunca fala.

III - Canto da musa, recitativo

Que vejo? junto a meu lado
Um desertor do Parnaso,
Que da lira, que doei-lhe
Faz hoje tão pouco caso,
Que a deixa pendurada numa brenha,
Como se fora rude pau de lenha?!
Pobre infeliz; em vão lhe acendi n’alma,
De santa inspiração o facho ardente;
Em vão da glória lhe acenei co’a palma,
A nada se moveu esse indolente,
E de tudo sorriu-se indiferente.

Ingrato! ao ver-te, sinto tal desgosto,
Que fico possuída de ruim sestro,
Me sobe o sangue ao rosto;
E em estado, que até me falta o estro,
Em vão estafo os bofes,
Sem poder regular minhas estrofes.

Por que deixaste, desditoso bardo,
As aras, em que outrora
De tua alma queimaste o puro incenso?
Como podes levar da vida o fardo
Nesse torpor, que agora
Te afrouxa a mente, e te anuvia o senso,
E as flores desprezar de tua aurora,
Ricas promessas de um porvir imenso?
Nossos vergéis floridos
Trocas por esse lúgubre recinto,
Onde os dias te vão desenxabidos
Em lânguido marasmo;
Onde se esvai quase de todo extinto,
O fogo do sagrado entusiasmo;
Onde estás a criar cabelos brancos
Na lide ingloriosa
De alinhavar a trancos e a barrancos
Insulsa e fria prosa!

Ária

Pobre bardo sem ventura,
Que renegas tua estrela;
— Oh! que estrela tão brilhante!
Nem tu merecias vê-la!

Pobre bardo, que da glória
Os louros calcas aos pés,
Deslembrado do que foste,
Serás sempre, o que tu és?

Já não ouves esta voz,
Que te chama com amor?
Destas cordas não escutas
O magnético rumor?

Nenhum mistério decifras
No rugir deste arvoredo?
Esta fonte, que murmura
Não te conta algum segredo?

Não entendes mais as vozes
Destes bosques, que te falam.
No rumorejo das folhas.
E nos perfumes que exalam?

Nesta brisa que te envio
Não sentes a inspiração
Roçar-te pelos cabelos,
E acordar-te o coração?

Não vês lá nos horizontes
Uma estrela refulgir?
É a glória, que rutila
Pelos campos do porvir!

É ela, que te sorri
Com luz vívida e serena;
E com sua nobre auréola
Lá do horizonte te acena.

IV

Estes acentos modulava a musa
Com voz tão maviosa,
Qual borbotando geme de Aretusa
A fonte suspirosa,
Da Grécia os belos tempos recordando,
Que já no esquecimento vão tombando.
Encantada de ouvi-la, a mesma brisa
O vôo suspendeu;
E o travesso regato de seu curso
Quase que se esqueceu.
Os bosques aos seus cantos aplaudiram
Com brando rumorejo;
E o gênio das canções, na asa das auras,
Mandou-lhe um casto beijo.
Enquanto a mim, senti correr-me os membros
Estranho calafrio;
Mas procurei chamar em meu socorro
Todo o meu sangue-frio.
Qual ministro de estado interpelado,
Não quis ficar confuso;
E da parlamentar nobre linguagem
Busquei fazer bom uso.
Como homem que entende dos estilos,
Impávido me ergui,
Passei a mão na fronte, e sobranceiro
Assim lhe respondi:

V

Musa da Grécia, amável companheira
De Hesíodo, de Homero e de Virgílio,
E que de Ovídio as mágoas consolaste
Em seu mísero exílio;

Tu, que inspiraste a Píndaro os arrojos
De altiloqüentes, imortais canções,
E nos jogos olímpicos lhe deste
Brilhantes ovações;

Tu, que a Tibulo os hinos ensinaste
De inefável volúpia repassados,
E do patusco Horácio bafejaste
Os dias regalados;

Que com Anacreonte conviveste
Em galhofeiro, amável desalinho,
Entre mirtos e rosas celebrando
Amor, poesia e vinho;

Que tens a voz mais doce que a da fonte
Que entre cascalhos trépida borbulha,
Mais meiga que a da pomba que amorosa
Junto do par arrulha;

E também, se te apraz, tens da tormenta
A voz troante, o brado das torrentes,
O zunir dos tufões, do raio o estouro,
O silvo das serpentes;

Tu bem sabes, que desde minha infância
Rendi-te sempre o culto de minh’alma;
Ouvi-te as vozes e aspirei constante
A tua nobre palma.

Mas, ah!.. devo eu dizer-te?... o desalento
N’alma apagou-me a inspiração celeste,
E fez cair das mãos esmorecidas
A lira que me deste!...

Peregrina gentil, de que te serve
Andar vagando aqui nestes retiros,
Na solidão dos bosques exalando
Melódicos suspiros?...

Não vês que o tempo assim perdes embalde,
Que tuas imortais nobres canções
Entre os rugidos, abafadas morrem,
Dos rápidos vagões?

Neste país de ouro e pedrarias
O arvoredo de Dáfnis não medra;
E só vale o café, a cana, o fumo
E o carvão de pedra.

Volta aos teus montes; vai volver teus dias
Lá nos teus bosques, ao rumor perene,
De que povoa as sombras encantadas
A límpida Hipocrene.

Mas se desejas hoje alcançar palmas,
Deixa o deserto; exibe-te na cena;
Ao teatro!... lá tens os teus triunfos;
Lá tens a tua arena.

Tu és formosa, e cantas como um anjo!
Que furor não farias, que de enchentes,
Quanto ouro, que jóias não terias,
E que reais presentes!...

Serias excelente prima-dona
Em cavatinas, solos e duetos:
E ajustarias de cantar em cena
Somente os meus libretos.

Se soubesses dançar, oh! que fortuna!
Com essas bem moldadas, lindas pernas,
Teríamos enchentes caudalosas
Entre ovações eternas.

Em vez de ser poeta, quem me dera,
Que me tivesse feito o meu destino
Pelotiqueiro, acrobata, ou funâmbulo,
Harpista ou dançarino.

Pelos paços reais eu entraria
De distinções e honras carregado,
E pelo mundo inteiro o meu retrato
Veria propagado.

E sobre minha fronte pousariam
C’roas aos centos, não de estéril louro,
Como essas que possuis, mas de maciças,
Brilhantes folhas de ouro.

Esse ofício, que ensinas, já não presta;
Vai tocar tua lira em outras partes;
Que aqui nestas paragens só têm voga
Comércio, indústria e artes.

Não tem aras a musa; — a lira e o louro
Já andam por aí de pó cobertos,
Quais vãos troféus de um túmulo esquecido
Em meio dos desertos.

Ó minha casta, e desditosa musa,
Da civilização não estás ao nível;
Com pesar eu to digo, — nada vales,
Tu hoje és impossível.

VI

De santa indignação da musa ao rosto
Rubor celeste assoma;
De novo a lira, que repousa ao lado,
Entre seus braços toma.

E essa lira, inda agora tão suave,
Desfere voz rouquenha,
Desprendendo canções arrrpiadas
De vibração ferrenha.

Eu julguei que escutava entre coriscos
Troar a voz do raio;
Em pávido desmaio
Tremem os arvoredos;

De medrosos mais rápidos correram
Os trépidos regatos, e os rochedos
Parece que de horror estremeceram.

“Maldição, maldição ao poeta,
Que renega das musas o culto,
E que cospe o veneno do insulto
Sobre os louros da glória sagrados!

Ao poeta, que em frio desânimo
Já descrê dos poderes da lira,
E que à voz que o alenta e inspira,
Se conserva de ouvidos cerrados!

Maldição ao poeta, que cede
À torrente do século corrupto,
E nas aras imundas de Pluto
Sem pudor os joelhos inclina!

Que com cínico riso escarnece
Dos celestes acentos da musa,
E com tosco desdém se recusa
A beber da Castália divina.

E agora, ó descrido poeta,
Que o alaúde sagrado quebraste,
E da fronte os lauréis arrancaste
Qual insígnia de ignóbil baldão,

Já que a minha vingança provocas,
Neste instante tremendo verás
Os terríveis estragos que faz
A que vibro, fatal maldição!”

VII

Calou-se a musa, e envolvida
Em tênue vapor de rosa,
Qual sombra misteriosa
Nos ares se esvaeceu;
E de aromas divinais
Todo o éter recendeu.

Qual zunido do látego vibrado
Por mãos de algoz cruento,
Nos ouvidos troou-me aquele acento,
E me deixou de horror petrificado.
Já ia arrependido aos pés prostrar-me
Da irritada, frenética deidade,
Cantar-lhe a palinódia, e em triste carme
Pedir-lhe piedade!...

Em vão eu lhe bradava: “Musa, ó musa!
Não me castigues, não; atende, escusa
A minha estranha audácia;
Um momento isso foi de irreflexão,
Em que não teve parte o coração,
E não serei mais réu por contumácia.”

Mal dou um passo, eis no mesmo instante
Encontro por diante
Jornal imenso de formato largo,
Aos meus primeiros passos pondo embargo.
Vou desviá-lo, e em sua retaguarda
Encontro um Suplemento;
Porém, pondo-me em guarda
Para a direita opero um movimento,
E encontro frente a frente o Mercantil.
Para evitá-lo esgueiro-me sutil,
Buscando flanqueá-lo, e vejo ao lado
O Diário do Rio de Janeiro
Que todo desdobrado
Ante mim se apresenta sobranceiro;
Com brusco movimento impaciente
Me volto de repente
E quase que me achei todo embrulhado
No Diário do Rio Oficial.
Então compreendi toda a extensão
E força do meu mal,
E o sentido satânico e fatal
Que encerrava da musa a maldição.
Eis-me pelos jornais de todo o lado
Em assédio formal engaiolado!
Assédio, que depois foi um Vesúvio,
Que arrojou das entranhas um dilúvio.

Porém o sangue-frio inda não perco,
Co’a ponta da bengala
Romper procuro o cerco
Que obstinado em torno se me instala.
Sobre o inimigo intrépido me atiro;
Brandindo uma estocada
Varo o Jornal, e mortalmente o firo;
E de uma cutilada
Denodado rasguei de meio a meio
O Mercantil e o Oficial Correio;
Co’as botas ao Diário faço guerra,
E debaixo dos pés o calco em terra.
Mas ai de mim! em batalhões espessos,
Ao longe como ao perto,
Resistindo a meus rudes arremessos
O inimigo rebenta em campo aberto.
Debalde lhes desfecho denodado
Mil golpes repetidos;
Debalde vou deixando o chão coalhado
De mortos e feridos.
E quanto mais o meu furor se assanha,
Mais a coorte cresce e se arrebanha!

Bem como nuvem densa,
Eu vejo chusma imensa
De folhas de papel, que o espaço coalham,
Que lépidas farfalham,
Que trêmulas chocalham,
Nos ares se tresmalham,
E sobre a fronte passam-me, e repassam,
E em contínuo vórtice esvoaçam.
Aturdido procuro abrir caminho,
Demandando o pacífico aposento,
Onde refúgio encontre a tão mesquinho
E mísero tormento.
E espreitando a custo pelos claros,
Que entre as nuvens da espessa papelada,
Já me luziam raros,
Procuro orientar-me pela estrada,
Que me conduza à casa suspirada.

E através das ondas, que recrescem
A cada instante, e os ares escurecem,
De Mercantis, Correios e Jornais,
De Ecos do Sul, do Norte, de Revistas,
De Diários, de Constitucionais,
De Coalições, de Ligas Progressistas,
De Opiniões, Imprensas, Nacionais,
De Novelistas, Crenças, Monarquistas,
De mil Estrelas, Íris, Liberdades,
De mil Situações, e Atualidades;
Através de Gazetas de mil cores,
De Correios de todos os países,
De Crônicas de todos os valores,
De Opiniões de todos os matizes,
De Ordens, Épocas, Nautas, Liberais,
Do Espectador da América do Sul,
De Estrelas do Norte, e outros que tais,
Que me encobrem de todo o céu azul,
A custo rompo, e chego esbaforido
Ao sossegado albergue, e precavido
A porta logo tranco,
E de um só arranco
Com as escadas íngremes invisto.
Mas! oh! desgraça! oh! caso não previsto!
As folhas entre as pernas se embaralham,
E todo me atrapalham,
E quase de uma queda me escangalham.
Mas salvei-me sem risco, e subo ao quarto
Do meu repouso, e onde me descarto
De tudo que me zanga e me atrapalha.
Cansado já do excesso
De golpe me arremesso
Sobre o colchão de fresca e fofa palha;
Mas apenas encosto na almofada
A fronte afadigada,
Eis começa de novo o atroz vexame;
Como importunas vespas,
De folhas me acomete novo enxame,
Zumbindo pelo ar co’as asas crespas,
Agravando à porfia o meu martírio
A ponto de me pôr quase em delírio.

Já das gavetas
E dos armários
Surgem gazetas,
Surgem diários;

Uns do tablado
Lá vêm subindo,
Ou do telhado
Descem rugindo;

Dentro da rede
Sobre o dossel,
Pela parede
Tudo é papel.

Folhas aos centos
Pare a canastra,
E o pavimento
Delas se alastra.

Té as cadeiras
E os castiçais,
E escarradeiras
Parem jornais.

Saem do centro
Dos meus lençóis,
E até de dentro
Dos ouri...

Já me sentia quase sufocado
Do turbilhão no meio,
E já tendo receio
De ficar ali mesmo sepultado,
Para sair de trance tão amargo
Resolvi-me a de novo pôr-me ao largo,
Salto da cama, rodo pela escada
E procuro safar-me da rascada,
Já não andando,
Porém nadando
Ou mergulhando
Co’esse quinto elemento em guerra crua.
Cheguei enfim à rua
Que de papel achei toda inundada!
E bracejando
Espernegando
Entrei em luta acerba
Contra a enchente fatal, que me assoberba,
Até que a muito custo surjo à tona
Do horrendo turbilhão
Que túrbido se entona
E no mundo se arroja de rondão.
Às vagas meto o ombro,
Até achar dos céus a claridade.
Oh! céus! que cena horrível! oh! que assombro!
Em todo o seu horror e majestade
A mais triste catástrofe contemplo,
De que jamais no mundo houvera exemplo.
Fiquei transido de terror mortal,
Pois vi que era um dilúvio universal.

Das bandas do Oriente
Avistei densas nuvens conglobadas,
Que sobre o americano continente
Arrojavam camadas e camadas
De fofas papeladas.

E lá vinha de Times nuvem densa
Com um sussuro horrendo
No ar as pandas asas estendendo,
Derramando nos mares sombra imensa.

E após vinha em vastíssima coorte
O Pais, a Imprensa, o Globo, o Mundo,
O Este, e o Oeste, o Sul, e o Norte,
Esvoaçando sobre o mar profundo,
Jornais de toda a língua, e toda sorte,
Que no hemisfério nosso vêm dar fundo,
Gazetas alemãs com tipos góticos,
E mil outras com títulos exóticos.

Outras nuvens, também do sul, do norte,
Mas não tão carregadas, se encaminham,
E lentas se avizinham
Com horroroso frêmito de morte.
Da tormenta fatal recresce o horror!
Até do interior
Como um bando de leves borboletas
Lá vêm surgindo lépidas gazetas,
À desastrosa enchente
Fornecer seu pequeno contingente.
Julguei que sem remédio este era o dia
Da ira do Senhor; — pois parecia,
Que se abriam do céu as cataratas
E os abismos da terra, vomitando
Em borbotões, em túrbidas cascatas,
De hedionda praga o inextinguível bando.

Enquanto esbaforido luto, e ofego
Contra as ondas, que sempre recresciam,
Já sobre o farfalhante, imenso pego
As casas abafadas se sumiam.
Em torno a vista estendo,
E vejo então, que esse dilúvio horrendo
Já tendo submergido as baixas terras
Ameaçava os píncaros das serras.
E nem diviso barca de Noé
Que me conduza aos cimos de Arará!
O mal é sem remédio!... já perdida
Toda esperança está!...

Mas não!... eis voga além batel ligeiro,
Os fofos escarcéus assoberbando;
Impávida e com rosto sobranceiro
Uma ninfa gentil o vai guiando,
De angélica beleza;
E vi então... que pasmo! que surpresa!
Que a dona, dêsse nunca visto lago
Sem mais nem menos era
A ninfa linda e fera
Que ainda há pouco em um momento aziago
Aos sons de uma canção
Fulminou-me tremenda maldição.
Era-lhe barco a concha mosqueada
De tartaruga enorme,
Com engenhoso esmero trabalhada
De lavor preciosa e multiforme.
Com remo de marfim, mimoso pulso
Ao leve barco dá fácil impulso.
E enquanto fende as chocalheiras ondas
Desse pego, que em torno se lhe empola,
Vai cantando em estrofes mui redondas
Esta estranha e tremenda barcarola:

VIII

Já tudo se vai sumindo!...
Já desparecem as terras;
Pelos outeiros e serras
Sobem ondas a garnel...
E neste geral desastre
Somente a minha piroga
Ligeira sem risco voga
Sobre as ondas de papel!
Sobre estes estranhos mares,
Voga, voga, meu batel!...

Não resta mais esperança;
O dilúvio cresce, e avança,
Leva tudo de tropel!...
Já imensa papelada
As terras e os mares coalha;
Já o globo se amortalha
Em camadas de papel.
Mas sobre elas resvalando
Vai vogando o meu batel.

Pobre idade, testemunha
Desta pavorosa cheia
Que dos tempos na cadeia
Vê quebrar-se o extremo anel!...
Oh! século dezenove,
Ó tu, que tanto reluzes,
És o século das luzes,
Ou século de papel?!...
Sobre estas estranhas ondas,
Voga, voga, meu batel!...

Debaixo de teu sudário
Dorme, ó triste humanidade!
Que eu chorarei de piedade
Sobre teu fado cruel!
E ao futuro irei dizendo
Sentada na tua lousa:
— Todo o mundo aqui repousa
Sob um montão de papel! —
Meu batel, eia! ligeiro,
Voga, voga, meu batel!

IX

Calou-se, e a um golpe do ebúrneo remo
Impele a concha, que veloz desliza;
Eu nesse trance extremo,
Como quem outra esperança não divisa,
Meu afrontoso fim tão perto vendo,
A musa os braços súplices estendo.

“Perdão! perdão! bradei —; musa divina,
Recebe-me a teu bordo; — é o teu vate,
A quem sempre tu foste o único norte,
Que entre estas fofas ondas se debate
Entre as vascas da morte.”

Mas de minha fervente rogativa
Não fez caso nenhum a ninfa esquiva;
Sem ao menos a mim volver o rosto
As secas ondas corta;
Continuando a remar muito a seu gosto
Comigo nem se importa.
E ei-la que continua a cantarola
De sua endiabrada barcarola:

“Meus altares abjuraste,
Agora sofre o castigo,
Que eu não posso dar abrigo
A quem me foi infiel.
Morre em paz, infeliz bardo,
E sem maldizer teu fado
Fica p’ra sempre embrulhado
Nesse montão de papel!...”
Eia, rompe as secas ondas,
Voga, voga, meu batel!...

X

Fiquei aniquilado!...
Horror! horror! há nada mais cruel,
Do que morrer a gente sufocado
Debaixo de uma nuvem de papel?!
Mas eis que de repente
A mais atroz lembrança
O desespero me sugere à mente,
Que exulta em seus desejos de vingança.
Veio-me à idéia de Sansão o exemplo,
Com seus robustos braços abalando
As colunas do templo,
E sob suas ruínas esmagando
A si e aos inimigos
Para evitar seus pérfidos castigos.
“Pois bem!... já que esperança alguma temos,
O mundo, e eu com ele, acabaremos,
Mas não por esta sorte;
Morrerei; mas também tu morrerás,
Ó ninfa desalmada,
Porém um outro gênero de morte
Comigo sofrerás:
A mim e a ti verás,
E a toda tua infanda papelada
Reduzidos a pó, a cinza, a nada!”

Enquanto isto eu dizia, da algibeira
Uma caixa de fósforos tirava,
Que por felicidade então trazia;
E já chama ligeira
Aqui e além lançava
Com o pequeno archote que acendia;
Eis já o voraz fogo se propaga,
Como em madura, tórrida macega,
E co’as rúbidas línguas lambe e traga
A seca papelada que fumega.
Como Hércules em cima da fogueira
Por suas próprias mãos alevantada,
Eu com serena face prazenteira
Vejo lavrar a chama abençoada.
Espesso fumo em túrbidos novelos

Os ares escurece.
E a rubra labareda, que recresce,
Já me devora as vestes e os cabelos.
Em tão cruel tortura
Horrenda me aparece
Da morte a catadura,
E a coragem de todo me falece.
“Perdão! perdão! ó musa! ai!... a teu bordo...
O fumo me sufoca... eu morro...” acordo!...

XI

Ainda bem, que esse quadro tão medonho
Não foi mais do que um sonho.

PARECER DA COMISSÃO DE ESTATÍSTICA A
RESPEITO DA FREGUESIA DA MADRE-DE-DEUS-DO ANGU

Diga-me cá, meu compadre,
Se na sagrada escritura
Já encontrou, porventura,
Um Deus que tivesse madre?
Não pode ser o Deus-Padre,
Nem tão pouco o Filho-Deus;
Só se é o Espírito-Santo,
De quem falam tais judeus.
Mas esse mesmo, entretanto,
De que agora assim se zomba,
Deve ser pombo, e não pomba,
Segundo os cálculos meus.

Para haver um Deus com madre,
Era preciso um Deus fêmea;
Mas isto é forte blasfêmia,
Que horroriza mesmo a um padre.
Por mais que a heresia ladre,
Esse dogma tão cru,
— De um Deus de madre de angu, —
Não é obra de cristão,
E não passa de invenção
Dos filhos de Belzebu.

E, se há um Deus do Angu,
Pergunto: — Por que razão
Não há um Deus do Feijão,
Seja ele cozido ou cru?
De feijão se faz tutu,
Que não é mau bocadinho;
Mas não se seja mesquinho:
Como o feijão sem gordura
É coisa que não se atura,
Deve haver Deus do Toicinho.

Desta tríplice aliança
Nascerá uma trindade,
Com que toda a humanidade
Há de sempre encher a pança;
Porém, para segurança,
Como o angu é dura massa,
E o feijão nunca tem graça
Regado com água fria.
Venha para a companhia
Também um Deus da Cachaça.

Mas, segundo a opinião
De uma minha comadre,
Nunca houve Deus de madre,
Nem de angu, nem de feijão.
Tem ela toda a razão.
Pelos raciocínios seus,
Que são conformes aos meus,
Isto é questão de panela,
E Deus não deve entrar nela,
E nem ela entrar em Deus.

E, portanto, aqui vai uma emenda,
Que tudo remenda:

Vai aqui oferecida
Uma emenda supressiva:
Suprime a madre, que é viva,
Fica o angu, que é comida.
A comissão, convencida
Pelos conselhos de um padre,
Que conversou com a comadre,
Propõe que, desde este dia,
Chame-se a tal freguesia
A do Angu de Deus, sem Madre.

Sala das Comissões, aos tantos de setembro.
(Estão assinados os membros)

i O poeta , valendo-se da grafia antiga, pode rimar trouxa e couxa. Entretanto, esta variação não é aceita pelos dicionários atuais.

ii Variante registrada em COELHO, José M. Vaz Pinto. Poesias e romances do Dr. Bernardo Guimarães. Rio de Janeiro: Typographia Universal Leammert, 1885.

iii “Ao monte Líbano um nariz compara,” é uma variante para esta estrofe encontrada em Vaz Pinto Coelho, op. cit.

iv Note-se o uso que o autor faz de uma pseudo-censura para acentuar e chamar a atenção para o termo que está sendo oculto.

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