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O Ermitão do Muquém

 

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POUSO SEGUNDO OS CHAVANTES
( CONTINUAÇÃO ):

CAPÍTULO V - O TRANSVIO

CAPÍTULO VI - NA LAPA

CAPÍTULO VII - A VOLTA

Bernardo Guimarães

AO LEITOR

Cumpre-me dizer duas palavras ao leitor a respeito da composição do presente romance, o qual (seja dito de passagem) repousa sobre uma tradição real mui conhecida na província de Goiás.

Consta este romance de três partes muito distintas, em cada uma das quais forçoso me foi empregar um estilo diferente, visto como o meu herói em cada uma delas se vê colocado em uma situação inteiramente nova, inteiramente diversa das anteriores.

A primeira parte está incluída no Pouso primeiro, e é escrita no tom de um romance realista e de costumes; representa cenas da vida dos homens do sertão, seus folguedos ruidosos e um pouco bárbaros, seus costumes licenciosos, seu espírito de valentia e suas rixas sanguinolentas. É verdade que o meu romance pinta o sertanejo de há um século; mas deve-se refletir que é só nas cortes e nas grandes cidades que os costumes e usanças se modificam e transformam de tempos em tempos pela continuada comunicação com o estrangeiro e pelo espírito de moda. Nos sertões, porém, costumes e usanças se conservam inalteráveis durante séculos, e pode-se afirmar sem receio que o sertanejo de Goiás ou de Mato Grosso de hoje é com mui pouca diferença o mesmo que o do começo do século passado.

Do meio dessa sociedade tosca e grosseira do sertanejo o nosso herói passa a viver vida selvática no seio das florestas, no meio dos indígenas. Aqui força é que o meu romance tome assim certos ares de poema. Os usos e costumes dos povos indígenas do Brasil estão envoltos em trevas, sua história é quase nenhuma, de suas crenças apenas restam noções isoladas, incompletas e sem nexo. O realismo de seu viver nos escapa, e só nos resta o idealismo, e esse mesmo mui vago, e talvez em grande parte fictício. Tanto melhor para o poeta e o romancista; há largas enchanças para desenvolver os recursos de sua imaginação. O lirismo, pois, que reina nesta segunda parte, a qual abrange os Pousos segundo e terceiro, é muito desculpável; esse estilo um pouco mais elevado e ideal era o único que quadrava aos assuntos que eu tinha de tratar, e às circunstâncias de meu herói.

O misticismo cristão caracteriza essencialmente a terceira parte, que compreende o quarto e último Pouso.

Aqui há a realidade das crenças e costumes do cristianismo, unida à ideal sublimidade do assunto. Reclama, pois esta parte um outro estilo, um tom mais grave e solene, uma linguagem como essa que Chateaubriand e Lamartine sabem falar quando tratam de tão elevado assunto.

Bem sei que a empresa é superior às minhas forças; bom ou mau, porém, aí entrego ao público o meu romance; ele que o julgue.

Ouro Preto, 10 de novembro de 1858

O AUTOR - INTRODUÇÃO

As peregrinações devotas ou romarias são de uso imemorial em todos os países católicos. Ora penduradas no cume de um rochedo escarpado e quase inacessível, ora fundadas no seio de uma gruta natural, ou em algum vale escuro e triste em meio de florestas ou montanhas alterosas, em toda a parte do mundo cristão encontram-se disseminadas aqui e acolá essas pequenas capelas ou ermidas, que de ordinário devem a sua fundação a alguma lenda miraculosa, e que em épocas determinadas atraem a si milhares de romeiros e peregrinos.

Há sem dúvida grande dose de superstição nessas romarias, e o povo as tem feito perder muito da sua importância e prestígio, multiplicando-as infinitamente, instituindo romarias a granel por toda parte; todavia nem por isso deixam de ser uma das usanças mais poéticas e tocantes do cristianismo.

O Rio de Janeiro possui em seus aprazíveis e magníficos arrabaldes mais de uma ermida, que todos os anos em dias certos atrai imenso concurso de romeiros. A nobre e altiva Paulicéa também todos os anos vê saírem de seu seio milhares de habitantes, que em devota romaria vão levar oferendas e votos à milagrosa Nossa Senhora da Penha, que se adora em sua linda capela erigida a duas léguas da cidade em um risonho outeiro, que domina as aprazíveis lezírias por onde remanseia o Tietê.

Em Minas quem não tem ouvido falar no irmão Lourenço, nesse novo Paulo Eremita, que nos fraguedos da Serra do Caraça passou a vida na prática do mais rigoroso ascetismo e da mais austera penitência, e lá num recinto circundado de crespas e alterosas serranias erigiu um templo com a invocação de Nossa Senhora Mãe dos Homens, e lançou os fundamentos da grande instituição do seminário Caraça, que devia servir de núcleo aos filhos de Vicente de Paula para espalharem a luz da instrução e da fé por toda a província? A capelinha de Nossa Senhora da Lapa, perto do arraial de Antônio Pereira, a duas léguas de distância do Ouro Preto, cavada pela natureza no flanco de uma montanha, é objeto também do fervoroso culto dos fiéis, e da admiração dos curiosos.

Nas altas e escabrosas cumeadas de uma grande cordilheira campea o arraial de S. Tomé das Letras com suas alvas casinhas, semelhando um bando de brancas pombas pousadas sobre o teto do antigo templo derrocado e denegrido pelo tempo. É crença do povo que o apóstolo S. Tomé viajou e pregou na América, e a alguns sinais parecidos com letras, que se notam em uma pedra, e que se acredita terem sido ali gravadas pelo apóstolo, deve a povoação o seu nome.

Congonhas do Campo, com sua rica e formosa capela tendo por orago o Sr, Bom Jesus do Matosinho, com seu vistoso adro de escadarias, povoado de profetas de pedra (escultura curiosa de um homem mutilado da mão direita, e que atava ao punho o instrumento com que trabalhava), atrai de imensas distâncias os fiéis, que vêm pedir ao milagroso Jesus a cura de suas enfermidades, ou cumprir piedosas promessas.

Há ainda inúmeras outras romarias disseminadas por toda a extensão do império. A origem da fundação de todas essas capelas é quase sempre a aparição miraculosa da imagem de algum santo no interior de uma caverna, no seio de uma floresta, no leito de um córrego, ou mesmo no côncavo de um tronco. Os filósofos do século, os apóstolos da descrença riem-se com desdém dessas ingênuas e tocantes crenças do povo. Todavia seus engenhosos raciocínios, seus sistemas transcendentes, não podem substituir essa fé viva e singela, que alenta e consola o homem do povo nos trabalhosos caminhos da vida. Embora envolvida no cortejo de mil superstições grosseiras, de mil tradições absurdas, deixemos-lhe essa fé, que o acompanha desde o berço que bebeu com o leite materno, e que o consola em sua hora extrema. Seja embora um erro, é um erro consolador, que em nada prejudica ao indivíduo nem à sociedade; a esses filósofos poderíamos responder parodiando aqueles versos que Camões põe na boca do Adamastor: E que vos custa tê-los nesse engano, Ou seja sombra, ou nuvem, sonho ou nada?...

Lá bem longe, no coração dos desertos, em uma das mais remotas e despovoadas províncias do Império, existe uma das mais notáveis e concorridas dessas romarias, notável, sobretudo, se atendermos ao sítio longínquo e às enormes distâncias que os romeiros têm de percorrer para chegarem ao solitário e triste vale em que se acha erigida a capelinha de Nossa Senhora da Abadia do Muquém na província de Goiás, cerca de oitenta léguas ao norte da capital e a sete léguas da povoação de S. José de Tocantins, à margem de um pequeno córrego que tem o significativo nome de Córrego das Lágrimas. Das mais remotas paragens acodem romeiros a essa isolada capelinha para implorar à santa o alívio de seus padecimentos e trazer-lhe preciosas oferendas. Durante alguns dias do ano aquele lôbrego e escuro sítio transforma-se em uma ruidosa e festiva povoação; o Muquém é sem contestação a romaria mais concorrida e a mais em voga do interior.

Eis aqui por que ocasião e como nos foi contada a história da fundação dessa importante romaria.

Viajávamos eu e mais dois companheiros vindos de Goiás, e atravessávamos a província de Minas com direção à corte; acabávamos de arranchar em um belo sítio nas campinas graciosamente acidentadas do município do Patrocínio, junto à margem de um ribeirão, chamado Rio de S. João. A paisagem era enlevadora, o tempo magnífico.

O rio corre escoltado em uma e outra margem por uma orla de árvores alterosas e da mais formosa ramagem; o rancho está situado em um delicioso vargedo cerca de duzentos passos de distância do leito do rio, cujo brando murmúrio... não se ouvia, pois corre manso e silencioso como a jibóia escorregando subtilmente pela vereda úmida dos brejos. O tope escuro dos arvoredos destacava-se vivamente no horizonte inflamado pelos clarões do sol poente.

Enquanto os camaradas tratavam de pensar os animais, e preparava-se a comida frugal e grosseira, mas suculenta, do viajante nessas paragens, eu e meus companheiros pendurávamos dos esteios do rancho a nossa rede, essa companheira inseparável do viandante do sertão, em cujo seio tanto lhe apraz embalar-se descansando das fadigas da jornada, e cismando saudades do seu país. Já reclinados a fumar nosso cigarro nos embalávamos indolentemente passeando olhares saudosos por aqueles horizontes, dos quais meus companheiros se afastavam por pouco tempo, e a que eu no íntimo da alma murmurava um adeus talvez eterno, quando ouvimos na estrada a batida de um animal, e alguns segundos depois um cavaleiro aparece e pára à porta do rancho.

— Senhores, nos diz ele depois de saudar-nos, se ainda há cômodo para alguém no rancho, espero que me permitirão fazer-lhes companhia de pouso por esta noite.

— Com muito gosto; o rancho é de todos os viandantes, e se a sua comitiva não é muito grande, cremos que não ficará mal acomodada.

Em poucos instantes descarregou-se a pequena bagagem do nosso novo companheiro de pouso, o qual, como a sua comitiva constava de duas pessoas, ele e seu camarada, aceitou o convite, que lhe fizemos, de jantar do nosso caldeirão.

Entre pessoas desconhecidas e que nada têm a se dizerem, de ordinário a conversação se trava por perguntas. Começamos pois por perguntar-lhe donde vinha.

— De bem longe, nos respondeu ele; venho da famosa romaria de Nossa Senhora da Abadia do Muquém na província de Goiás, de que os senhores decerto hão de ter notícia.

— Por certo, respondi-lhe eu; muito tenho ouvido falar nessa afamada romaria, e, segundo tenho ouvido dizer, é uma das mais bonitas e concorridas que temos.

— Sem dúvida alguma. É uma maravilha que é preciso ver-se para dela formar uma perfeita idéia. Ainda que não seja por devoção, mesmo por espírito de curiosidade vale a pena fazer-se essa viagem para ver como aquele lugar completamente desabitado no fundo dos sertões, onde apenas existe uma capelinha e um casebre sem habitantes, converte-se de repente em uma cidade cheia de vida, de rumor e movimento, composta de barracas, toldas, carros-de-bois, e ranchos cobertos de capim. Reúne-se ali todos os anos, na época da festa, uma população de cerca de dez mil pessoas, que vêm de distâncias enormes, até do Pará e Rio Grande do Sul, umas por devoção e para cumprirem promessas, outras para fazerem comércio, pois que nesses dias aquele lugar torna-se uma feira imensa, onde se compra, vende-se e permuta-se toda a qualidade de mercadorias. Aí os sertanejos do norte de Goiás, e das extremas das províncias da Bahia, Pernambuco, Piauí e Maranhão, vão-se prover de fazendas, quinquilharias, ferragens e vinhos que compram aos negociantes de Meia Ponte e Goiás que conduzem daquele ponto essas mercadorias. Os romeiros também vendem aos negociantes destas duas cidades, e aos de Minas e S. Paulo, grande quantidade de couros, solas, animais cavalares, redes fabricadas pelos índios, escravos, ouro em pó e diamantes.

A importância do produto da venda dos donativos feitos pelos romeiros anda anualmente por 8 a 10 contos, não incluindo-se nessa quantia as dádivas em dinheiro, que também muito avultam.

Mas todo esse movimento e animação dura apenas de seis a oito dias, findos os quais desarmam-se as tendas dos peregrinos, e o Muquém, como um acampamento abandonado, volta ao silêncio e à solidão, ficando de novo a capelinha isolada em meio daqueles tristes e silenciosos ermos.

— E o senhor, disse-lhe eu, desculpe-me a curiosidade, o senhor foi lá simplesmente por devoção e romaria, ou também a negócio.

— O meu fim principal, respondeu, foi o cumprimento de uma promessa feita por minha mulher, que se achando atacada de uma enfermidade cruel, que zombava de todos os remédios e da ciência dos mais abalizados médicos, lembrou-se de implorar a Nossa Senhora da Abadia remédio a um mal de cuja cura os homens tinham desesperado. Pouca ou nenhuma fé eu tinha então nessas promessas e romarias, que considerava como superstições próprias somente do vulgo ignorante. Todavia minha mulher mostrava tanta confiança e fé tão viva que eu nem de leve ousei contrariá-la para não agravar-lhe os sofrimentos.

Prometermos vir ambos em romaria à capela de Nossa Senhora da Abadia do Muquém trazer alguns donativos e adorar a santa em seu próprio altar. Desde então começou minha mulher a melhorar sensivelmente, e acha-se hoje quase completamente boa. Por prudência porém assentamos que ela não viesse ainda este ano; vim eu somente cumprir parte das promessas; mas para o ano, se Nossa Senhora da Abadia continuar a proteger-nos, voltarei com ela, e enquanto eu for vivo, todas as vezes que as circunstâncias o permitirem, hei de fazer uma peregrinação ao Muquém, ainda que não seja senão para depor um simples ramo de flores e rezar uma Salve-Rainha aos pés daquela milagrosa Senhora.

— Muito se fala por toda a parte, repliquei eu, nos milagres de Nossa Senhora da Abadia do Muquém; mas o que acho aí de mais notável e singular é que fossem edificar essa capela e fundar essa romaria lá no fundo de um sertão remoto, podendo ser erigida em qualquer localidade mais vizinha de povoados.

— Essa localidade não foi escolhida por ninguém, e segundo conta a lenda, foi indicada pelo céu para nela se edificar a capelinha que aí existe. O senhor, pelo que vejo, não sabe a história de sua fundação.

— Não, senhor; apenas tenho ouvido alguma coisa de uns e outros a esse respeito muito por alto e vagamente.

— Pois não deixa de ser curiosa e interessante essa história; e se não se enfadam de escutar-me, eu a contarei com muito gosto, posto que seja algum tanto longa.

— Ainda que a narração tenha de durar a noite inteira, não nos enfadará, e o escutaremos com muito prazer.

Da minha parte perderia de bom grado duas noites de sono só para ouvir essa história.

A proposição do viajante foi aceita pois por mim e por meus companheiros com o mais vivo prazer. De feito, quem não gostará, ao descair de uma noite pura e silenciosa, em um aprazível e tranqüilo pouso em meio das solidões, recostado preguiçosamente em uma rede a fumar um bom cigarro depois de ter saboreado uma xícara de café, quem não gostará de escutar a narração de uma lenda popular? O sol já tinha desaparecido inteiramente do horizonte; sombra, fresquidão e melancolia desciam sobre a terra no manto cinzento do crepúsculo.

O nosso jantar estava pronto; improvisou-se a mesa sobre algumas canastras reunidas, em torno das quais cada um acomodou-se do melhor modo que pôde, e serviu-se o jantar, que consistia no infalível e patriarcal feijão com toucinho, lingüiças assadas, arroz e outras coisas de que já me não lembro, regando-se tudo com um cálix de aguardente de cana, que a natureza parece ter criado de propósito nesses lugares para cortar os maus efeitos desses alimentos pesados e gordurosos. Por fim tomou-se o café, não essa tintura negra e detestável que se serve por aí nesses hotéis e hospedarias com o nome de café, mas o verdadeiro café aromático e balsâmico, tal como se sabe preparar em Minas, e cujos deliciosos vapores aquecem o cérebro e expandem tão suavemente o coração.

Enfim, estando já tudo arranjado no rancho, assentamo-nos em nossas redes aguardando a narração que o romeiro do Muquém nos prometera. Tudo foi silêncio imediatamente; cessaram as vozerias e toques de violas dos camaradas, e até os cães, deitados ao pé do fogo estendendo o focinho por sobre as patas encruzadas, pareciam escutar com religiosa atenção as palavras do narrador.

O nosso romeiro era natural dessa risonha e pitoresca região onde tem o seu berço o majestoso e opulento Jequitinhonha, que rola suas águas por sobre rubis e diamantes, dessas donosas campinas caprichosamente acidentadas, e cortadas de cristalinos ribeirões, a cujos habitantes o céu entornou no espírito as centelhas do engenho e da inspiração, como alastrou-lhes o solo de brilhantes e preciosas pedrarias. Poderia ter trinta e tantos anos; era de imaginação viva, inteligência clara, e sua linguagem e maneiras revelavam um espírito cultivado e fina educação.

Nos olhos e na boca tinha notável expressão de bondade e franqueza; sua voz era de um timbre claro e sonoro. Nada pois faltava ao nosso narrador para prender todas as atenções.

Como o romeiro de Muquém tinha de seguir sua viagem por alguns dias na mesma direção que nós levávamos, durante quatro noites entreteve-nos ele os serões do pouso com a narração da história que vamos reproduzir, e que por essa razão dividiremos em quatro pousos.

POUSO PRIMEIRO O CRIME

CAPÍTULO I - O VALENTÃO

Na cidade de Goiás, antigamente Vila Boa, existia, há de haver mais de um século, um moço que por suas turbulências e espírito de valentia tinha adquirido a mais estrondosa nomeada por todas aquelas paragens.

Era filho de pais abastados e de boa família; porém educado à larga, abandonado desde a infância a si mesmo, sempre em meio de más companhias, dotado além de tudo de índole inquieta e fogosa, este rapaz, que poderia ser um homem de bem e útil à sociedade, se uma educação regular tivesse dado salutar direção aos instintos de sua natureza, foi-se tornando um valentão famoso, talhado a molde para as galés ou para o patíbulo.

Gonçalo, que assim se chamava, aplicou-se com ardor desde criança ao manejo de armas de toda a qualidade, a domar animais bravos, a caçar, a nadar, enfim a toda sorte de exercícios do corpo os mais rudes e perigosos.

E de feito neste ponto sua educação foi completa; aos vinte anos de idade, não havia em toda capitania quem com mais destreza esgrimisse uma chavasca, quem tivesse olho mais certeiro para uma pontaria, quem melhor se segurasse nos arreios, argüentando os corcovos do burro o mais xucro, e quanto ao nadar, só poderia competir com ele a lontra, ou a capivara.

Era também agilíssimo no jogo da faca; com os pés atados bem juntos e com uma faca em punho desafiava a qualquer, e com tal destreza se defendia que nem assim o podiam tocar.

Era também hábil em manejar as armas dos índios, e sabia atirar a flecha como o mais destro dos Caiapós ou dos Chavantes. Traçava no chão um círculo de dois pés de diâmetro quando muito, entesava o arco, e mandava às nuvens uma flecha; se o ar estava tranqüilo vinha ela cravar-se infalivelmente dentro daquele círculo. Causar-lhe-ia riso a façanha desse camponês da Suíça, do qual se conta que por ordem de um tirano teve de atravessar com uma flecha uma maçã colocada sobre a cabeça de seu filho; Gonçalo teria atravessado um anel.

Mas em vez de pôr ao serviço da pátria e da liberdade sua grande força e valentia, como aquele herói, Gonçalo, áspero e turbulento por natureza e por mania, atirou-se em corpo e alma na carreira da devassidão e tornouse um completo vadio, um famoso desordeiro.

Em todos os maus lugares, onde quer que houvesse uma orgia, um batuque, uma algazarra qualquer, podiase jurar que lá se achava Gonçalo puxando barulho, provocando desordens, só para ter ocasião de ostentar sua bravura e fazer sentir a algum desgraçado o peso de seu braço-de-ferro. Nisto consistia todo o seu orgulho, toda a sua glória. Quando em Goiás aparecia algum desses valentões afamados, com um desses apelidos extravagantes que por si sós fazem tremer, como Veneno, Jacaré, Tiracouro, Canguçu, etc., bem barbudo, vestido de couro, armado até os dentes, lá ia Gonçalo procurá-lo e não sossegava enquanto não achasse ocasião de quebrar-lhe a proa.

Entretanto esse moço não era mau por natureza; tinha no fundo excelentes qualidades e generosos instintos de coração, que teriam feito dele um homem precioso, se não fosse a sua má educação e a diabólica mania de querer passar pelo maior valentão do mundo.

Ainda para maior desgraça Gonçalo, antes de chegar aos vinte anos de idade, tinha perdido pai e mãe.

Desde então senhor absoluto de suas ações e de uma tal ou qual fortuna, não encontrou mais paradeiro a seus desvarios e paixões desordenadas.

Um preto velho, famoso feiticeiro, respeitado e temido pelo vulgo, lhe tinha dado certa mandinga ou caborje, amuleto temível e milagroso, que o preto inculcava como um preservativo infalível contra balas, contra raios, contra cobras e contra toda e qualquer espécie de perigos.

Gonçalo, supersticioso como todo o homem ignorante, acreditava piamente em todas essas virtudes da mandinga, e a trazia cuidadosamente cosida em seu cinturão de couro de lontra.

Gonçalo trazia também ao pescoço outro objeto de natureza inteiramente diversa; era um rico relicário de ouro com uma imagem de N. Sr.ª da Abadia, que sua mãe lhe dera em seu leito de morte recomendando e aconselhando que tivesse por aquela imagem particular devoção, e que invocasse sempre o seu patrocínio em todos os trabalhos e perigos da vida. Com efeito Gonçalo tinha a mais viva fé naquela santa imagem, e nunca em dias de sua vida deixou de beijá-la com fervorosa devoção ao deitar-se e ao levantar-se da cama depois de ter rezado uma ave-maria. Assim todas as vezes que se achava em apertos, com uma das mãos apalpava o cinturão, em que trazia o talismã da superstição africana, e com a outra levava aos lábios o relicário, confundindo desta maneira em sua tosca imaginação o culto da mãe de Deus com uma grosseira feitiçaria.

Apesar disso não se passava um só dia em que Gonçalo não fizesse provar a algum pobre cristão a força de seu braço rude e vigoroso. Cabeças e braços quebrados, narizes esmurrados, caras esbofeteadas, costas derreadas, eram façanhas que todos os dias aumentavam a fama e terror de seu nome.

Zombava da justiça, que naquele tempo e naquelas paragens parece que nenhuma força tinha.

Gonçalo muitas vezes dispersou e espancou as milícias encarregadas de prendê-lo por ocasião de alguma das suas falcatruas.

Ele as espalhava a pontapés, como quem arreda com a ponta do pé um tropeço que encontra em seu caminho.

Demais, Gonçalo tinha por si grande número de parceiros, vadios e bandidos como ele, que o temiam e respeitavam, e com os quais contava em ocasião de aperto. Era uma malta de rapazes ociosos e devassos, da qual ele por sua superioridade em forças e destreza e por sua riqueza e generosidade era o chefe natural.

Posto que temido como uma onça e respeitado entre seus camaradas pela sua valentia, Gonçalo não deixava de ser estimado, e em qualquer folguedo a sua presença era indispensável, pois era o companheiro mais alegre e folgazão que se conhecia. Ninguém com mais primor sabia pontear uma viola, cantar modinhas e lundus ou sapatear com mais desgarro e desenvoltura em uma sala de batuque. Gostava de moças, e com tais prendas e uma bonita figura, bem se vê quanto devia ser querido delas.

Era ele pois parceiro infalível em todas as festas, batuques e partidas de prazer, quaisquer que fossem.

À força de ser temido e respeitado, pois ninguém mais ousava experimentar as forças de sua mão-de-ferro, a vida de Gonçalo ia-se por fim monótona e sem acidentes, com o que andava ele mui desconsolado e aborrecido.

Essa vida tranqüila, que ia passando, sem achar ocasião ao menos de dar uns murros ou uns pontapés, o enjoava por tal sorte, que estava resolvido a ir viajar pelos sertões em busca de quanto valentão e facínora afamado por aí houvesse, medir suas forças com eles, matá-los todos e trazer suas orelhas de mimo ao capitão-mor. O destino porém ajeitou as coisas por tal modo, que não foi preciso a Gonçalo sair de Goiás para que fossem completamente satisfeitos os seus desejos.

Entre os comparsas de Gonçalo havia um que, além de ser seu particular amigo, era o único que ousava rivalizar com ele em força e destreza. Era um rapaz por nome Reinaldo, robusto e bem-feito, e geralmente estimado por sua franqueza e lealdade, e que ainda não se tinha deixado inteiramente eivar do espírito de desordem e devassidão dos seus companheiros. Nos exercícios de luta, esgrima e outros era o que dava mais trabalho a Gonçalo, e por vezes acontecia ficar indecisa a vitória. Como era ainda muito moço tinha esperança de uma dia igualar, senão exceder a seu amigo em vigor e agilidade. Os companheiros o aplaudiam e animavam de propósito para humilhar a Gonçalo, cujo orgulho interiormente desejavam ver abatido. Isto fazia espumar de raiva a Gonçalo. Nesses momentos todo o sentimento de amizade desaparecia de seu coração, e não poucas vezes suas lutas e exercícios se teriam transformado em cenas de sangue e morte, se não interviessem os amigos de ambos. Gonçalo tinha bom coração e era excelente amigo, mas prezava acima de tudo a sua reputação de valentia. Esta singular mania encheulhe de trabalhos e infortúnios o caminho da vida.

CAPÍTULO II O BATUQUE

Era um domingo. Por uma bela noite de luar, um desses batuques animados e estrondosos, que são tão comuns nas povoações do sertão, fazia retroar um dos mais retirados e silenciosos bairros de Vila Boa. O chão tremia aos frenéticos sapateados dos dançadores; o rumor das violas, dos pandeiros, dos adufos, as palmas compassadas, as cantigas esgueladas retumbavam ao longe das margens do Rio Vermelho, e iam perder-se em sons confusos pelas quebradas das montanhas vizinhas.

Todo esse rumor e vozerias partiam de uma casa térrea, porém espaçosa, propriedade de mestre Mateus, velho caboclo, ferreiro de nomeada, o qual nessa noite reunia em sua casa a mais luzida rapaziada da vila e da roça, e as mais bonitas raparigas do lugar, a fim de festejar com batuque e folgança os anos de uma de suas filhas, para o que tinha obtido licença expressa do juiz ordinário. Mestre Mateus era um bom velho, de costumes pacíficos, benquisto, alegre e amigo de folgar. Nada havia pois de recear de um tal folguedo, sendo feito em sua casa, que nunca foi teatro de desordens.

Em uma grande sala alumiada por algumas candeias de ferro espetadas nas paredes, e cuja mobília consistia em bancos, tamboretes, caixas, catres e cepos semeados em desordens em roda da sala, estava a grande roda dos dançadores.

Eram guapos rapagões em trajos domingueiros, porém muito à fresca em razão do imenso calor que faz naquela terra, uns em mangas de camisa, outros descalços, porém todos de chapéu na cabeça, cigarros na boca ou na orelha, e uma comprida faca na cintura.

Quanto às raparigas, como sempre se nota nesses folguedos, havia grande variedade de cores e de figuras.

Ao par de uma branca de longos cabelos castanhos ou louros sapateava a crioula de trunfa encarapinhada; junto de uma Megera desgrenhada e titubiante linda mulata de olhos úmidos e lascivos se bambaleava airosamente enfunando as amplas saias de seu vestido branco ou cor-de-rosa. Entre muitas papudas, feias e desenxabidas viam-se algumas bonitas e roliças caboclas, cor de rola, de cabelo negro e corrido, e de olhos brilhantes como carbúnculos. Brilhavalhes com profusão no pescoço o fino ouro extraído das ricas minas de Goiás, em rosários, cordões, caixilhos, medalhas que lhes ocultavam quase completamente o seio.

A aguardente de cana e outros licores circulavam com abundância à discrição dos convivas.

Uns a tomavam simples, ou da lisa, conforme a expressão do país; outros preferiam a assada, isto é, aguardente queimada com açúcar. As cabeças se atordoavam de mais a mais, o batuque fervia cada vez mais animado, e os heróis da festa nessa dança doida e vertiginosa ensopavam as camisas exalando pelos poros toda a cachaça que bebiam.

Entre as raparigas, que lá se achavam, havia uma que pelo seu garbo e formosura era o desassossego de todos os corações, e o alvo de todos os desejos. Era uma moreninha de dezessete a dezoito anos, travessa e viva como uma lontra, bonita como seria difícil encontrar outra igual, mas louca e leviana como uma criança. Tinha por nome Maria, que a gente da família e depois também o povo trocou pelo apelido de Maroca, pelo qual era geralmente conhecida.

Todos ardiam por obter um sorriso, um olhar, um pequeno sinal de preferência daquela encantadora menina; porém nenhum ousava declarar-lhe seus sentimentos, nem requestá-la mui abertamente, porque todos sabiam que Reinaldo, o amigo de Gonçalo, que a tinha em casa em sua companhia, a amava extremosamente. Ora Reinaldo, que era respeitado e estimado de todos, era além disso ciumento como um tigre, e tinha a dupla vantagem de ser o amigo e o único rival de Gonçalo. Eram motivos de sobejo para que ninguém nem de leve ousasse tocar-lhe na corda a mais sensível do coração. Portanto os convivas a tratavam com certo constrangimento e reserva, o que fazia que ela tomasse parte pouco ativa na dança.

Maroca, naturalmente travessa e desenvolta, como um diabrete, não gostava nada dessa reserva, que não lhe permitia sair sempre ao meio da sala sapateando doidamente como as outras. Triste e amuada em um canto da sala com os braços cruzados, via-se-lhe o peito moreno arfar de impaciência e agitar-lhe a alva camisa, que inundada em suor se lhe colava aos seios, deixando ver-lhe quase a nu as puras e voluptuosas formas, pois, como se sabe, por essas terras de Goiás, talvez por causa do excessivo calor, os corpos dos vestidos das senhoras não têm serventia alguma, e as mangas são verdadeiras mangas perdidas. Corpo e mangas elas os deixam cair sobre a saia em forma de aventais, ficando os seios a ondearem livres e desafogados, encobertos apenas por alva e transparente camisa, a qual ainda quase sempre é entremeada de crivos e rendas.

A Maroca, como já disse, pouco dançava; mas quando lhe cabia a vez de sair ao meio da sala, com sua graça sedutora, com seu gentil balanceado enfeitiçava a todo o mundo e arrancava estrondosos bravos a toda a rapaziada.

Reinaldo, que todo se embebia na contemplação dos encantos da Maroca, e que a rodeava de seus ardentes olhares, como um jacaré vigiando o ninho, não era dos mais alegres da festa.

Todavia o batuque continua, o frenesi recresce, as palmas fervem, e as umbigadas estouram cada vez com mais furor. Um cavaleiro apeia-se à porta da sala e bate.

Sem tomar a precaução de perguntar quem é, mestre Mateus vai imediatamente abri-la. Um belo rapagão de botas com grandes esporas de prata, chapéu à banda, chicote na mão e cigarro na boca se apresenta no limiar da porta.

— Oh! viva! bradou mestre Mateus; seja muito bem-vindo, compadre Gonçalino; já me tardava; por onde andou até agora? já não gosta da casa deste seu velho compadre? — Entra, Gonçalo; ainda vieste a tempo; já estavas nos fazendo falta.

— O Sr. Gonçalo anda-se vendendo muito caro; já não há quem o veja; alguém o ofendeu nesta casa? — Gonçalo, deixa de ouvir secas e cumprimentos; anda para cá; vamos a beber, folgar e dançar.

Todos estes cumprimentos e outros ainda eram dirigidos quase a um tempo a Gonçalo, que não podendo responder a todos assentou de si para si que era mais cômodo não responder a nenhum. Mestre Mateus chegou-se para Gonçalo.

— Estás hoje de má cara, meu compadre! o que te aconteceu?... Não queres tomar alguma coisa? da lisa ou da assada?... hem? — Venha seja o que for, e deixem-me que estou cansado.

Dizendo estas palavras, o moço atira-se atabalhodamente no primeiro assento que encontra fazendo um barulho dos diabos com as esporas, faca, garruchas, e todo o trem bélico que trazia em si, joga o chapéu para um canto, encosta-se à parede, estende as pernas para o meio da sala com toda sem-cerimônia, boceja e fecha os olhos como quem quer dormir. Mestre Mateus volta daí a um instante com um copo na mão.

— Toma lá da queimada, compadre. Oh! com os diabos!... queres dormir, homem? — Ora vai-te com os diabos, compadre, que me não deixas descansar. O que me queres? — É da queimada; não tomas? e então fica-se aqui a dormir ou vai-se dançar? Gonçalo sacudiu os ombros, e não respondeu, tomou alguns goles da assada, passeou um olhar indiferente pela sala, e de novo inteiriçou-se em seu assento a todo o comprimento do corpo com ares de quem estava soberanamente aborrecido. E de feito desde manhã até aquela hora tinha ele rondado a vila inteira, tinha penetrado em todos os recantos, botequins e casas de jogo, tomado parte em todos os ajuntamentos onde houvesse algazarra e bebedeira, dito graças pesadas a mais de uma moça bonita mesmo às barbas de seus amantes, e nem assim tinha achado ensejo nem sequer de apalpar o cabo de sua faca, e isto em pleno domingo, em uma vila de tanto povo, que se tem por valente e pouco sofredor! Daquele dia em diante Goiás não era a seus olhos mais do que um covil de aduladores, cobardes e poltrões, um curral de carneiros indigno de ser pisado pelos pés de um homem de brio.

Decididamente não podia demorar-se por mais tempo em tão miserável país, e estava disposto a abandoná-lo para sempre.

O compadre Mateus veio arrancá-lo a essas reflexões.

— Que diabo tens tu hoje, compadre?... dança-se, ou não dança-se?... As moças estão ardendo por te verem na roda. Olha a Calu como está te chamando com aquele olhar derretido!... A Zezinha diz que não dança mais e vaise embora, se continuares dessa maneira; a Maroca por te ver assim embezerrado está com medo que queiras fazer algumas das tuas, e já foi ver o capote para escapulir-se. Ah! compadre, isto não está bem; você, que é sempre o melhor companheiro de folgança, há de ser hoje o nosso desmancha-prazeres! Oh! bravo!... é a Maroca que sai a campo! é a rainha da festa. Olha, compadre, como está linda aquela feiticeirinha! Bravo disso! bravo, Maroca! E a Maroca, depois de ter feito os mais galantes e graciosos requebros sapateando pela sala, girou como um corrupio sobre os talões, abaixou-se rapidamente rente ao chão, deixando ver somente entre os tufos de suas alvas saias enfunadas os braços e o rostinho cor de jambo, como uma rolinha deitada em ninho de algodão batido.

— Bravo! bravíssimo! bradou Gonçalo levantando-se de um salto, que retiniu com estrondo por toda a sala.

Depois continuou baixo voltando-se para mestre Mateus: — Agora sim, compadre, sou da festa; a Maroca está aí, vai tudo bem. E o Reinaldo, onde está ele? não veio?...

— Não enxergas!... Olha, lá está ele naquele canto, e por sinal que está hoje triste e de viseira fechada, não sei por quê.

— Bem! lá o vejo, disse Gonçalo, em cujos olhos reluzia um prazer satânico, e continuou resmungando entre si: — Bem! muito bem! aqui sim! tenho uma linda menina a quem posso fazer a corte, e ao lado dela um valentão de primeira ordem a quem farei abaixar o topete. Ah! Reinaldinho, meu amigo, eis aqui uma bela ocasião de mostrar, sem ser por brincadeira, qual dos dois é mais valente, o tigre ou a onça, e isto sem quebra de nossa amizade; para teu ensino quebrar-te-ei bem as costelas diante de toda esta gente, e nem por isso deixaremos de continuar a ser bons amigos como dantes. Não serás o primeiro amigo a quem dou uma destas proveitosas lições.

Não se pense que estas palavras, que Gonçalo murmurava consigo, eram um escárnio feroz, um sarcasmo filho do ódio; não, elas eram a expressão sincera de seus sentimentos. Ele queria bem a Reinaldo, e seria capaz de lançar-se por entre o ferro e o fogo para defendê-lo; mas o que não podia levar a bem é que este tivesse a louca pretensão de rivalizar com ele em valentia; por isso suspirava sinceramente por uma ocasião de dar-lhe uma sova tal, que lhe desvanecesse de uma vez para sempre suas quiméricas aspirações, e que enfim conhecendo Reinaldo o seu lugar, não houvesse mais motivo de desavença entre eles. Quão mal conhecia ele a esse amigo, medindo-o pela mesma bitola dos outros seus camaradas.

A rapariga, que nesse momento dançava, vendo Gonçalo já em pé, dirigiu-se para ele e o tirou para o meio da sala.

— Sou daí! bradou ele com voz de atordoar.

Ganhou de um salto o meio da sala, e fazendo retinir suas grandes esporas depois de ter feito em roda de toda a sala um frenético sapateado, passando revista a todos aqueles rostos, estacou em frente da Maroca, e deitando braços e cabeça para trás exclamou: — Ah! Maroca, meu amorzinho, como estás encantadora! agora é contigo, minha rola; sai do ninho, feiticeira! A Maroca não se enfadou com o gracejo, sorriu-se e deixando-se arrebatar no rodopio da dança vertiginosa brilhou com a faceirice e graça do costume.

Desde então Gonçalo e Maroca estavam sempre no meio da roda; eram o rei e a rainha da festa. As moças à porfia tiravam Gonçalo para o meio da roda; mas o endiabrado rapaz com o maior escândalo e do mundo o mais inconveniente – se é que pode haver escândalo e inconveniência em um batuque –, teimava em não se dirigir senão à mimosa e gentil Maroca, como se só ela dançasse naquela sala. Esta por sua parte não se mostrava enfadada, antes parecia vaidosa com aquela preferência, e cada vez mais requintava em meneios e requebros sedutores.

Reinaldo, porém, que se encostava a um canto para ocultar o furioso ciúme que por dentro lhe lavrava o coração, rangia os dentes e mordia os lábios observando com olhos turvos e chamejantes todos os movimentos de sua amante e de Gonçalo. Este, se bem dançava, melhor falava gritando uma algaravia infernal, chasqueando e dirigindo à Maroca os mais atrevidos gracejos, que eram como setas envenenadas que iam varar o coração do ciumento Reinaldo.

Se antes da chegada de Gonçalo o batuque corria animado e caloroso, agora fervia como as caldeiras de Satanás.

Gonçalo por fim de contas, à força de dirigir à faceira menina graças e galanteios, que não eram mal acolhidos, foi-se deixando tomar de um verdadeiro amor por ela, ou pelo menos de um vivo desejo de a possuir.

Ele, que a princípio só a procurava para provocar um ensejo de travar-se de razões com Reinaldo e mostrar em público e raso sua superioridade moendo-lhe os ossos ou quebrando-lhe a cara, agora fascinado pelos encantos daquela beleza perigosa, seria capaz de sangrá-lo ali sem compaixão, se se atrevesse a disputar-lha.

E também aquela bandoleira, seduzida a seu turno pelos requebros do guapo mocetão, que era o alvo dos desejos de todas aquelas filhas do bordel, nem olhava para Reinaldo, que com o inferno no coração deixara a dança, e em pé junto a uma candeia fincada na parede apertava com tremor convulsivo o cabo da larga faca, com que vagarosamente picava fumo para o cigarro, relampeando de quando em quando olhares de fogo ora sobre um, ora sobre outra, e ardendo por ver o fim daquela para ele odiosa orgia.

CAPÍTULO III - DITO E FEITO

Enfim os dançantes, já esbaforidos e estafados dos pulos e sapateados daquela dança doidejante, assentaram de tomar algum descanso. Calaram-se as violas e os adufos, e os convivas se dispersaram pelas diversas acomodações da casa a tomar licores e refrescos a fim de se habilitarem para nova refrega.

Reinaldo respirou. Enrolou o seu cigarro, acendeu-o, e dirigindo-se para a Maroca, que pela força do costume viera se assentar ao pé dele, disse-lhe com ar sombrio: — Maroca, vamo-nos embora; este folguedo não está com jeito de acabar bem; já é tarde, e antes que aconteça alguma desgraça, vamos para casa.

— Pois já? tão cedo!... seria melhor então que não tivéssemos vindo cá, respondeu a menina mostrando-se contrariada e sem procurar disfarçar o seu descontentamento. Mestre Mateus há de se enfadar se sairmos já; ainda é muito cedo; logo mais iremos.

— Hum!... rugiu Reinaldo do fundo do peito. Estou hoje te desconhecendo, minha amiga; quem virou-te assim essa cabecinha?... seria esse...

— Ora deixe-se de tolices, volve ela interrompendo-o com azedume; isso não tem propósito nenhum. Se você não gosta destes divertimentos, devia deixar-se ficar em casa, que eu por mim bem podia vir sozinha.

Levanta-se dando um muxoxo, volta-lhe as costas e vai-se retirando com certo ar de desdém. Estas palavras e este gesto doeram no coração do pobre rapaz, como se um ferro agudo o tivesse atravessado. Brandiu convulsivamente a faca, que ainda tinha na mão, e ia cravá-la... na pérfida ou em si mesmo! vacilou, conteve-se, escondeu sua amargura no fundo da alma, e tomando brandamente a Maroca pelo braço, chamou-a a si com carinho.

— Minha querida, lhe diz com voz meiga e suplicante, não sei que mal te fiz eu para assim me tratares tão desabridamente, e me despedaçares o coração com tanta crueldade. Acaso não me queres mais?... se assim é, se és tão leviana e bandoleira, que foi bastante uma só noite, um só momento para riscar do teu coração o meu nome e o meu amor, eu te peço por piedade, fala, não me encubras nada. Antes assim, do que viver iludido. Quero ouvir da tua própria boca a sentença de minha condenação. Será este o último favor que te peço, e te deixarei livre para ir bem longe de teus olhos morrer de mágoa e desesperação.

No olhar e na voz do mancebo pintava-se uma dor tão sincera e tão profunda, que Maroca, apesar de ter um coração leviano e pouco sensível, não deixou de enternecer-se.

— Não te enfades comigo, meu Reinaldo, replicou com meiguice; perdoa-me, se te agravei: eu sou uma estouvada, e já nem sei o que te disse. Realmente eu estava com vontade de ficar por mais algum tempo; mas se isso te incomoda, não ficarei mais nem um momento, e estou pronta desde já para acompanhar-te.

— Não, meu amor, não quero estorvar-te em teus divertimentos, diz Reinaldo já mais tranqüilizado; dança e folga, quanto for do teu agrado. Mas por piedade, Maroca, mais reserva para com esse rapaz , que se diz meu amigo, e que tanto te persegue com suas estouvadas galantarias: ele parece que nos quer perder a todos três.

— Não te dê isso cuidado, disse ela; e dando um saltinho deu um beijo e uma bofetadinha na face de Reinaldo, e leve como uma pena desapareceu pelo interior da casa cantarolando e tocando castanhola nos dedos.

Esta cena não escapou ao matreiro Gonçalo, que estava na outra extremidade da sala rodeado de comparsas, estendido em um banco a todo o comprimento, tomando da assada, e vomitando chalaças e palavradas de arrepiar os cabelos. Os ouvintes o aplaudiam vivamente e com as mais gostosas e retumbantes gargalhadas.

— Bravo! o bicho está ferido, disse lá consigo Gonçalo vendo o ar sombrio e misterioso de Reinaldo, que se sentara pensativo no tamborete abandonado por Maroca, e levantando-se foi acender o cigarro na candeia que estava junto ao seu amigo.

— Que diabo tens tu hoje, meu Reinaldinho, disse ele depois de ter acendido o cigarro, que estás de cara tão fechada e trombudo como uma anta? Quem te ofendeu, amigo? Fala, que quero já desagravar-te.

— Gonçalo, nem sempre a gente está para brincadeiras. Se és deveras meu amigo, não estejas a provocarme com esses gracejos de mau gosto; olha que há certas coisas, certos sentimentos, com que não se pode brincar sem perigo.

— Perigo! algum dia me viste recuar diante de perigo algum, meu criançola? diz antes que já te pesa a cabeça antes de tempo, e por isso andas assim focinhudo e cabisbaixo.

— Gonçalo, tu estás de propósito a querer queimar-me o sangue!... se continuas, estão rotos os laços de nossa amizade desde este momento, e...

— E o quê?... cala-te, meu tolo; não te amofines por tão pouca coisa. Aquela menina, por quem morres, se eu o quiser, posso levá-la hoje mesmo na minha garupa para onde me aprouver.

— Disso não és tu capaz, Gonçalo; eu juro por minha alma; antes que lhe ponhas a mão, cairás morto a meus pés, ou deverás passar por cima de meu cadáver.

— Santo Deus! como está exaltado o homem! Para que fui eu pisar no rabo do cascavel, que dormia! Perdão, meu Reinaldinho, continua Gonçalo com ironia e em tom de conselho; perdão, eu não te quero ofender; mas aqui entre nós, e como amigo, devo declarar-te que não tens o direito de ser o único senhor e possuidor daquela bonita jóia, senão no caso que ela muito de sua livre vontade queira continuar a ser tua.

— Gonçalo, és um vil, um infame traidor! bradou Reinaldo espumante e lívido de cólera. Nasceste para as galés e para a forca, e não para viver entre homens, que se prezam e se respeitam. Desprezo as tuas palavras como vindas de um ébrio; de um sandeu.

— Pelo que vejo, replica Gonçalo com um riso amarelo forcejando por dissimular seu despeito, pelo que vejo não estás disposto a ceder-me por modo nenhum a tua amada. Pois bem, eu a tomarei por força.

— Não a tomarás, Gonçalo; eu te juro.

— E quem me impedirá?...

— Eu! — Sai-te daí, criança; com um pontapé te arredarei do meio do caminho.

Gonçalo pronunciou estas palavras com ar de desprezo e compaixão e voltou as costas a Reinaldo. Este dá um pulo de tigre e agarrando a Gonçalo pelo braço empuxa-o violentamente e brada:

— Aqui, Gonçalo, aqui! se não és um fanfarrão, um cobarde, hás de pôr em execução as tuas ameaças, e já! Gonçalo arranca o braço das mãos de Reinaldo, de um salto tomando distância a três passos, já de faca alçada, grita: — Arreda-te daí, atrevido, antes que te ponha o bucho à mostra! — A mim, fanfarrão! vem, que eu não arredarei um dedo; não temo as tuas bazófias.

Os dois contendores estavam em distância de quatro a cinco passos um do outro; as facas brandidas convulsivamente relampeavam ameaçadoras por cima de suas cabeças, rangiam-lhes os dentes, e nos olhos lhes fuzilava um lume torvo como as chamas do inferno. Eram como dois canguçus enciumados, que ao se encontrarem arreganham os dentes e rosnam furiosos antes de se arrojarem um sobre o outro.

O negócio já cheirava a sangue, e aquela festa, começada na paz e na alegria, estava prestes a ter o mais sanguinolento desfecho.

— Misericórdia! misericórdia! — que será isto! — Virgem Santa! — bradava-se de todos os cantos.

Uma turba de homens e mulheres em gritos lançam-se afoitamente em meio dos dois.

— Deixe, deixe esse maluco vir rasgar-me as tripas! vociferava Reinaldo como querendo voar por cima deles e a muito custo o podiam conter.

— Chega-te, rapaz, rugia Gonçalo, chega-te para cá, que quero aqui mesmo coser-te a facadas, e aliviar-te para sempre desse ciúme danado que te ferve no coração.

Por alguns momentos durou esta cena sinistra, que teria tido o mais trágico resultado, se a turba em uma gritaria imensa não se entrepusesse intrepidamente entre as duas facas, que se agitavam fuzilando por cima daquela multidão de cabeças, e já retiniam chocando-se uma na outra; até que a muito custo conseguiu-se que se não travasse a luta.

O sossego restabeleceu-se finalmente; mas que sossego triste e desanimado! que contraste entre o festival e alegre bulício e algazarra que ainda há pouco reinavam naquela reunião e esse surdo e sinistro murmúrio que agora rumorejava pelos ângulos da sala. Os convivas tinham perdido toda a vontade de rir e divertir-se, e andavam em grupos pelos cantos conversando em voz baixa debaixo da impressão de um invencível terror, fazendo as mais temerosas reflexões sobre aquele triste incidente.

Em vão mestre Mateus com seu ar bonachão e jovial se esforçava por desvanecer a terrível impressão que deixara nos ânimos de todos aquela temerosa pendência; era tudo baldado. Os mais prudentes ou medrosos foram-se pondo ao fresco, e a sala em poucos instantes ficou reduzida a menos de metade dos comparsas.

— Vamos, minha gente! gritava mestre Mateus, que pasmaceira é esta! aquilo foi uma ninharia, e uma travessura de rapazes; daqui a pouco terão esquecido tudo, e estarão mais amigos do que dantes. Vamos, rapaziada! ânimo! tomem da assada, e vamos com o folguedo acima.

Gonçalo, posto que não deixasse de sentir profundo abalo com aquele conflito com o seu amigo, entendeu que faria um triste papel se continuasse a ficar mudo e amuado; portanto, sopeando o mais que pôde sua emoção, saltou logo na sala com o maior desembaraço exclamando: — Êh! com mil diabos! tens razão, compadre; viva o prazer, leve o diabo a tristeza, e vamos com a folia por diante. O que sucedeu foi uma bagatela sem importância. Não é a primeira vez, nem será a última, que se vê dois homens puxarem faca um contra outro; nós não somos crianças; e se Reinaldo entende que eu o agravei, não faltará ocasião nem lugar mais oportuno em que possa desagravar-se: não é assim, Reinaldo? — Sem dúvida, rosnou Reinaldo com voz carregada.

— Viva a paz! viva a alegria! exclamou mestre Mateus batendo palmas. Falou quem pode: não há mais motivo de desgosto; toca a folgar. Mas agora, camaradas, caluda sobre este negócio! Não quero por modo nenhum que se saiba aí por essas ruas, que em minha casa, onde nunca houve desordens, e sempre gozou de muito boa fama, puxaram-se facas, e esteve-se em termos de ver correr sangue. O passado, passado; faça-se de conta que nada houve e toca a folgar. Olá das violas, vamos com isto!... um vai-de-roda bem esquentado! As violas ressoaram, e a dança recomeçou, se bem que ainda um tanto fria e constrangida. Gonçalo porém dançava, palrava e gritava por todos com a maior frescura e desembaraço, como se nada tivesse acontecido.

Com o seu exemplo os outros também foram pouco a pouco se animando. Quanto à Maroca, ia também gradualmente recuperando toda sua desenvoltura natural, e alardeava de novo toda a sua graça e faceirice.

Só Reinaldo, triste e taciturno a um canto, não podia dissimular a tremenda tempestade que lhe agitava o espírito, e devorava em silêncio lágrimas de raiva e desesperação.

Gonçalo pela sua parte ia-se sentindo cada vez mais subjugado pelos encantos da sedutora menina. Aquela triste pendência com um amigo, a quem gratuitamente ofendera, longe de contê-lo em seus desmandos, não foi mais que um novo incentivo que lhe fez mais vivamente cobiçar aquela beleza tão ciosamente vigiada por seu amante.

Pela primeira vez em sua vida estava disposto a desenvolver toda sua força de touro, toda sua bravura de leão, toda a sua destreza de onça, não por um mero capricho ou ostentação de valentia, mas para satisfazer uma paixão cega, que lhe rebentava na alma com a violência de um vulcão.

Este amor fatal – se é que se pode chamar amor um desejo caprichoso e brutal – junto à louca mania de querer provar a todos a força e agilidade de seu braço, extinguiram ao menos naquela noite no coração de Gonçalo todo o instinto de lealdade, todo o sentimento de amizade que ainda votava a Reinaldo.

— A Maroca hoje há de ser minha, projetou consigo o diabólico rapaz. A princípio dissera isto somente para lançar uma luva de desafio a Reinaldo, com quem ardia por travar-se séria e publicamente; mas agora era esse o mais ardente desejo de seu coração, para cuja satisfação estava disposto a sacrificar tudo. Que viessem estorvá-lo Reinaldo ou quem quer que fosse, ou toda aquela turba reunida, que ele os dispersaria como quem sacode a poeira de suas botas.

A Maroca, ou porque era ainda muito criança, ou por ser de seu natural leviana e bandoleira e não amar a ninguém, foi-se deixando facilmente seduzir pela galhardia, bravura e talvez mais pela riqueza e liberalidade de Gonçalo, que durante a dança lhe introduzira no dedo um rico anel de brilhantes prometendo-lhe ainda em segredo maiores e mais magníficos presentes.

O coração da Maroca era vário e leve, e portanto facilmente esvoaçou de Reinaldo para Gonçalo. Este, seguro das boas disposições da menina, forjou logo o mais atroz e sinistro projeto.

A noite já ia muito avançada; os galos, amiudando cada vez mais seu canto, anunciavam que estava próximo o romper do dia.

Gonçalo, consultando o relógio, que trazia preso a uma grossa cadeia de ouro, diz em voz alta: — Três horas em ponto, meus caros; para quem mora a mais de légua de distância, já é tempo de pôr-se a caminho.

E imediatamente sem mais cumprimentos, enquanto os outros se entretinham em dançar, jogar ou conversar, abriu de manso a porta da rua, e desapareceu.

Reinaldo, que não dançava, nem bebia, nem jogava, mas acabrunhado por uma multidão de pungentes e sombrios pensamentos se assentara a um canto, viu com prazer a saída de Gonçalo. Seu peito respirou mais desafogado com o desaparecimento daquele homem fatal, que se tornava para ele um pesadelo, um espectro odioso.

Levanta-se e procura com os olhos pela sala a Maroca, a fim de também convidá-la a retirar-se; por duas ou três vezes corre com a vista toda a extensão da sala, e não a vê nem na roda dos que dançavam, nem assentada em parte alguma: estremeceu, e bateu-lhe o coração de modo estranho.

Depois pensou: — Decerto está lá pelo interior da casa, e não tardará a aparecer. — Esperou alguns minutos aplicando o ouvido e embebendo os olhos pelos corredores, pelas alcovas, por todos os cantos, procurando vê-la ou ao menos ouvir-lhe a voz; mas debalde.

Esperou ainda na maior ansiedade; já não só ele, mas muitas outras pessoas reparavam e estranhavam a demora da ausência de Maroca.

— Maroca! Maroca! onde estás? gritavam todos uns para aqui, outros para acolá; mas ninguém acudia de parte alguma.

— Querem ver que aquela sonsa foi sozinha para casa sem dar parte a ninguém; dizia um.

— Quem sabe se a coitada teve algum ataque, e está caída aí por algum canto? opinava outro.

— Ou está nalgum canto a dormir; pensava um terceiro.

— Ou eclipsou-se com alguém, acrescentava maliciosamente um quarto.

Enfim todos se puseram em movimento dispostos a revistar e esquadrinhar todos os recantos e dependências da casa, gritando sempre pelo nome de Maroca.

— Maroca está aqui comigo! bradou uma voz retumbante, que partiu do lado da rua. Jurei que havia de levá-la comigo e assim o cumpro. Quem quiser, que venha tomá-la.

E ouviu-se o tropel de um animal, que partia a galope.

Todos ficaram como que petrificados.

Reinaldo, como se um raio o ferisse, caiu pálido e frio sobre um banco, e ficou por alguns instantes como que aniquilado. Depois levantando-se bruscamente e arrancando os cabelos com ambas as mãos, bate furioso com o pé no chão.

— Oh! traição! traição infame! exclama; meu cavalo! quero já e já meu cavalo! E com brusco movimento abalroando a todos investe para a porta. Em vão os companheiros quiseram detêlo e apaziguá-lo.

— Deixem-me, bradou com voz de trovão, e partiu a correr como uma flecha para a casa.

CAPÍTULO IV A LOUCA

No outro dia já o sol andava alto, quando mestre Mateus e seus tresnoitados companheiros da orgia da véspera abriram os olhos à luz do dia. A primeira idéia que se lhes apresentou ao espírito ainda anuviado pelo sono e pelos vapores das libações da noite, foi a função da véspera, a briga terrível entre Gonçalo e Reinaldo, a tremenda e desaforada traição de que este fora vítima. A princípio pensaram que despertavam de um pesadelo, mas bem depressa caíram em si, lembrando-se que desgraçadamente era tudo pura realidade.

Mestre Mateus saltou da cama resmungando: — Um!... estes rapazes! que doidos! meu Deus! o que terão feito! Atirou ao ombro a jaqueta, pôs na cabeça o seu chapéu de couro, deitou na boca uma masca de fumo, e sem mais perda de tempo, dirigiu-se o mais depressa que pôde à casa de Reinaldo. Aí não encontrou senão uma mulher velha, que morava com Reinaldo e lhe tratava da casa. Esta, que também se mostrava aflitíssima, contou-lhe que pela madrugada Reinaldo sozinho e arquejando de cansaço batera à porta, arreara o cavalo a toda a pressa sem dizer palavra, por mais que ela lhe perguntasse o que tinha acontecido, o que era feito de Maroca e onde ia àquelas horas; que resmungando e praguejando sem a nada responder partira a toda a brida, sem que ela soubesse que rumo levara.

Esta informação foi mais que suficiente para que mestre Mateus compreendesse quantas desgraças não poderiam resultar, ou não teriam já resultado daquela desastrada pendência, que vinha desacreditar para todo o sempre a sua casa. Amaldiçoava a hora em que se lembrou de fazer semelhante função, e dava aos diabos a Maroca, Gonçalo e Reinaldo, que vieram deitar azar em sua casa, onde nunca houvera nem a mais insignificante rusga.

Arrependeu-se mil vezes de não ter mandado amarrar aqueles dois malucos, logo que começaram a brigar, e entregálos à justiça; teria impedido uma desgraça, que já quase tinha como certa e irremediável.

Contudo o bom do velho sem mais perda de tempo corre à casa de alguns dos parceiros da véspera, amigos dos dois rapazes, dá-lhes conta do que acaba de saber e das inquietações que tinha no espírito.

Estes também tinham acordado com a mesma preocupação, e apenas viram mestre Mateus, perguntaram-lhe com sofreguidão se tinha notícias de Reinaldo, de Gonçalo e da Maroca.

— Oh! se as tenho! e bem tristes. O Reinaldo é tão doido como o outro. Ontem quando saiu da súcia, foi direto à casa, montou a cavalo, e voou como uma flecha atrás de Gonçalo e de Maroca. Agora vocês, que são seus amigos, o que devem fazer, é irem já e já cada um arrear o seu animal e correrem à fazenda de Gonçalo; não podiam ter tomado outro rumo. Vão ver o que é feito daqueles doidos. Depressa! depressa! ah! e queira Deus que já não seja tarde.

Mestre Mateus era respeitado e estimado dos rapazes, e seus conselhos eram executados à risca, como se fossem ordens.

Foi dito e feito. Em menos de meia hora alguns moços, amigos dos dois, galopavam à rédea solta caminho da casa de Gonçalo, que morava em uma pequena fazenda de sua propriedade a légua e meia da vila.

Teriam andado cerca de uma légua, quando divisaram a umas quinze braças ao lado do caminho à beira de um pequeno capão uma mulher assentada no chão e encostada ao tronco de uma árvore. Correram a reconhecê-la.

Estava ela com a cabeça como que pregada ao tronco da árvore, com ar de idiota, com os olhos muito abertos, parados e obstinadamente fitos em um cadáver todo mutilado e ensangüentado, que estava estendido diante dela. O capim em roda estava todo amassado e ensopado em sangue; o sol abrasador ardia a pino; uma nuvem de insetos, moscas e maribondos esvoaçavam sobre aquele lugar, e mais longe já pairavam alguns urubus atraídos pelo cheiro da sangueira, que dali se exalava como se fosse um matadouro.

Os rapazes deram um grito de horror, e sentiram os cabelos se entesarem como espetos na cabeça, quando na mulher reconheceram a Maroca e no cadáver o desditoso Reinaldo.

A Maroca nem deu fé da chegada dos cavaleiros, e conservou-se imóvel como uma estátua, sempre com os olhos desvairados fincados sobre aquele corpo ensangüentado.

Chamaram-na pelo nome, sacudiram-na com força para ver se a arrancavam daquele torpor, e se dizia alguma coisa da cena horrorosa que ali se passara. Mas ela apenas olhava para eles como que pasmada, resmungava uns sons ininteligíveis, e tornava a cravar olhos estatelados sobre o cadáver.

E aquela feiticeira menina, ainda nessa madrugada tão linda, tão viva e travessa, agora descabelada, salpicada de sangue, com as feições horrivelmente transtornadas, parecia um fantasma, e causava horror àqueles fulminado a alma da infeliz rapariga, que caiu em um estado de idiotismo, do qual nada pôde depois arrancá-la.

A pobrezinha tinha também os vestidos e as mãos salpicadas de sangue, e parecia ferida, posto que ligeiramente, em uma ou outra parte do corpo. Sem dúvida naquele trance horrível se lançara entre os combatentes para os separar e se achara envolvida naquela temerosa luta.

Os cavaleiros, à vista do que observaram, concluíram que o combate tinha sido renhido, furioso e desesperado. O corpo de Reinaldo estava todo contuso, cutilado e esfaqueado; na boca e nos dentes, onde espumava um sangue negro, viam-se farrapos de pano, o que indicava que no último trance o infeliz combatera até com os dentes. Tudo enfim revelava que ali se passara uma cena pavorosa, da qual os vestígios mudos, que existiam, falavam mais alto do que toda e qualquer narração.

Notaram depois os cavaleiros que pelo campo seguia uma batida, a qual ia salpicada de um rastilho de sangue e que ia perder-se na estrada; daí depreenderam que Gonçalo, gravemente ferido na luta, por aí se retirara, naturalmente para sua casa. Dois dos companheiros seguiram aquele trilho ensangüentado, a ver se encontravam Gonçalo vivo ou morto; seguiram pela estrada até a fazenda do mesmo, mas não o encontraram lá. A gente da casa não soube dizer o que era feito dele, posto que percorressem toda aquela vizinhança em inúteis pesquisas e indagações. Os outros se encarregaram de procurar meios de transportar para a vila o cadáver de Reinaldo, e o corpo também quase sem alma da infeliz Maroca.

Quanto a Gonçalo, nunca mais se pôde saber o destino que tomara, nem se era vivo ou morto. A justiça e mesmo os particulares fizeram por muito tempo grandes esforços para descobrir-lhe a pista. Mas tudo foi baldado.

Seus amigos também fizeram por largo tempo ativas e perseverantes pesquisas por toda a capitania sem poder obter dele nem a mais leve notícia. Desanimados enfim de encontrá-lo descansaram na suposição, aliás muito plausível, de que Gonçalo, gravemente ferido na luta em que sacrificara o seu amigo, tinha morrido em alguma gruta oculta e profunda, ou pelos matos em algum recanto, onde era impossível descobri-lo, e que suas carnes tinham sido devoradas pelos corvos, e seus ossos arrebatados pelas enxurradas.

Esse deplorável acontecimento, que causou geral assombro e consternação, foi por largo tempo em Goiás objeto de conversação em todos os círculos.

— Eis aí o que faz uma mulher má! dizia a tia Josefa, velha companheira de mestre Mateus, anos depois daquele acontecimento, em um dia em que mestre Mateus acabava de contar com todas as particularidades aquele trágico sucesso a algumas pessoas que se achavam em sua casa. Dois rapazes tão novos, tão bons, tão bemapessoados, dois guapos mocetões, que mereciam cada um uma noiva de truz, foram para o mato fora de horas esfaquearam-se como furiosos e matarem-se por amor de uma perdida, que...

— Arre lá com isso, minha velha! atalhou mestre Mateus; não te faz pena ao menos o triste estado em que até hoje se acha a coitadinha. Maroca era uma simples criança, que não sabia o que fazia. Os tais senhores mocetões é que eram dois loucos furiosos. Deus os perdoe e se amerceie de suas almas. Ela era uma pobre menina, que ainda não podia saber o que os homens são capazes de fazer por amor de uma mulher bonita. Olha, Josefa, a coitadinha ainda está muda e pateta assim mesmo como no dia em que aconteceu a desgraça.

— Foi castigo de Deus! resmungou a velha.

POUSO SEGUNDO OS CHAVANTES

CAPÍTULO I - O COMBATE

Nas margens do grande rio Tocantins, que banha o norte da província de Goiás, e reunido ao Araguaia vai como que dar a mão ao rei dos rios para entrar de par com ele no Atlântico, habita uma nação indígena das mais ferozes e indomáveis que se conhecem, ainda que também uma das mais valentes e industriosas. É a nação dos Chavantes, que dominava uma larga zona em ambas as margens daquele rio, cuja navegação tornava extremamente difícil e perigosa para os Europeus. Sobretudo na época a que nos reportamos, o seu nome era o terror dos habitantes de Goiás, ninguém ousava penetrar naqueles sertões desconhecidos, infestados por essa e outras tribos selvagens, que muitas vezes saíam do fundo de suas brenhas a exercerem horríveis matanças, estragos e depredações nos estabelecimentos e fazendas dos brancos. Algumas dessas expedições, que se organizavam com o nome de bandeiras para rechaçá-los ou exterminá-los, voltavam desanimadas e destroçadas sem nada ter conseguido. Menos dóceis que os Caiapós e os Coroados, que já se iam submetendo ao aldeamento e catequese, os Chavantes mal conheciam os brancos, com quem não queriam relação alguma, e odiavam do fundo da alma.

Quatro ou cinco anos depois dos tristes acontecimentos que deixei narrados a noite passada, uma numerosa tribo daquela nação achava-se estabelecida no barranco esquerdo do rio algumas dezenas de léguas abaixo de S. José do Tocantins, pouco mais ou menos nas regiões onde é hoje o município da Palma.

Seu arranchamento era uma longa fila de tabas ou cabanas cobertas de palmas de coqueiro, disseminadas em pitoresca desordem ao longo da margem do rio em uma extensão de cerca de meia légua, como um bando de aves aquáticas pousadas à beira da torrente.

Era uma bela e calmosa sesta de Setembro. O índio naturalmente preguiçoso, porque para prover as necessidades da vida simples que leva em meio dos desertos não precisa de regar a terra com seu suor desde o nascer até o pôr-do-sol, nessas horas de calma íntima sobretudo entrega-se à sua natural indolência, e dorme ou se diverte.

Uma turba de meninos de ambos os sexos entre alegres algazarras patinhavam na água à beira do rio adestrando-se na arte de nadar, tão necessária ao selvagem. As mulheres assentadas em diversos grupos à sombra da canjerana ou da copaíba secular, umas amamentavam suas crianças, outras teciam por passatempo esteiras, redes ou cabazes de cipós ou de palha de coqueiro; outras, deitadas em suas redes delicadamente tecidas de fios de tucum e enfeitadas de penas, embalavam-se indolentemente olhando as nuvens a passearem pelo céu, ou as águas do rio a correrem silenciosas. Os poucos homens que nessa ocasião ali se achavam, pois estavam pela maior parte dispersos pelas matas ao longo da margem do rio ocupados em caçadas e pescarias, uns assavam peixe, ou muqueavam um lagarto, um tatu ou uma paca em fogueiras acendidas fora das tabas; outros consertavam suas armas, ou talhavam arcos e flechas, e os aparelhavam de vistosas penas; um outro, deitado de costas no chão, e esticando o arco com os pés, se divertia em mandar às nuvens uma flecha e vê-la voltar e cravar-se no mesmo lugar donde partira; outros enfim, nada absolutamente querendo fazer, dormiam a sesta, ou deixavam passar o tempo.

De repente ouviu-se de uma das extremidades do arraial dos índios uma gritaria imensa, que se foi propagando e ecoando por toda a aldeia. Os meninos saltaram ligeiramente fora da água e correram a se amoutar nas tabas, as mulheres largaram suas ocupações, e olhavam espantadas para todos os lados; os homens levantaram-se rapidamente com as armas na mão e acudiram ao ponto onde começara o alarma. A causa daquele grande alarido e celeuma era um homem de aspecto estranho que sozinho em uma canoa vinha vogando rio abaixo.

A figura e os traços já esfarrapados desse homem causaram grande estranheza e espanto aos selvagens.

Trajava um grande gibão de lã grossa apertado com um cinturão de couro de lontra, ao qual se prendia uma comprida faca com cabo e bainha guarnecida de prata, calças de algodão, e perneiras de couro de mateiro; trazia a barba mui comprida e sobre os cabelos pretos e anelados um pequeno chapéu de sola. Posto que sua tez naturalmente morena estivesse tisnada ainda pelo sol, e viesse armado de arco e flechas, os selvagens apenas o avistaram, exclamaram: — Imboaba! Imboaba! — e esta palavra odiosa, passando de boca em boca em uma imensa vozeria, repercutiu como um eco pelas ribanceiras do Tocantins.

O atrevido canoeiro ouviu toda aquela algazarra e logo compreendeu o iminente perigo que o ameaçava; porém já lhe não era possível recuar e continuou a vogar procurando avizinhar-se o mais possível do barranco oposto às habitações dos índios, esperando assim poder escapar à sua sanha e passar incólume. Mas a largura do rio não era suficiente para pô-lo a salvo de suas flechadas, e apenas achou-se em frente da aldeia, uma nuvem de flechas voou assobiando sobre ele; mas o destro aventureiro, deitando-se imediatamente no fundo da canoa e amparando-se com o seu largo remo, nem de leve foi tocado, antes achou-se provido de grande munição de flechas, de que tinha precisão, e que lhe iam ser de grande utilidade. Reenviou logo uma, e varou um cão, que ladrava na praia; uma segunda cravou-se no braço de um indígena; uma terceira levou a orelha de outro. E o afoito estrangeiro, entrincheirado no fundo da canoa e fazendo escudo da larga pá de remo, ia deslizando são e salvo pela torrente abaixo e fazendo estragos na linha dos inimigos com as armas que estes mesmos lhe forneciam. Felizmente para ele não tinham os selvagens ali à mão naquele momento uma canoa sequer. Mais algumas flechadas felizes do arco do intrépido canoeiro caíram sobre os índios e acabaram de os pôr em furor. Vendo que com as flechas não era possível ofender o imboaba, lançaram-se alguns ao rio armados de tacapes e dispostos a irem a nado atracar a canoa. Fácil seria ao canoeiro escapar à força de remo, se a multidão de flechas, que continuava a chover sobre a canoa, não o impedisse de remar, dando-lhe apenas tempo de resguardar-se de seus tiros e descochar de quando em quando uma ou outra flecha.

Já dois robustos nadadores com o tacape nos dentes estavam a poucas braças da canoa; um deles enfim a alcança e lança mão à borda. O canoeiro porém a corta imediatamente de um só golpe com sua grande faca de mato.

O índio dando um grito horrível de dor desaparece deixando um sulco ensangüentado à flor da água, e surge instantes depois mais abaixo, rolando à mercê da corrente, enquanto os peixes saltitando disputavam entre si a mão que se tinham lançado ao rio, também não ousaram aproximar-se, temendo o mortífero gume daquela formidável faca. O forasteiro por um momento julgou-se salvo e fora de perigo. Mas eis que de súbito dá com os olhos em duas canoas entulhadas de índios, que surgiam da volta do rio singrando águas acima a todo remar.

Era uma turma de indígenas, que estando a pescar pelas proximidades tinham ouvido o alarido que havia nas tabas, e julgando ser algum perigo, acudiam em seu socorro. O canoeiro viu que a sua situação era desesperada e sua morte inevitável, e que seu único recurso era morrer como homem combatendo até o último alento.

À força de audácia e de esforços desesperados conseguiu encostar a canoa ao barranco oposto; tomou à pressa todas as suas armas, saltou em terra e embrenhou-se pelo mato, não para escapar aos selvagens, pois bem via que seria uma tentativa inútil, mas para escolher um lugar onde pudesse defender-se por mais tempo e vender mais cara a sua vida. Os índios em número sempre crescente saltavam na água e atravessavam o rio; os das canoas também se aproximavam rapidamente. O forasteiro bem compreendeu que qualquer resistência seria inútil, mas não era homem a deixar-se degolar como uma ovelha, e preparou-se para combater até o último trance. Depois de ter-se entranhado cerca de uns duzentos passos por um mato espesso e emaranhado, abrindo caminho com a faca por entre taquaras e cipós, escolheu posição para fazer frente aos inimigos junto a um corpulento tronco de peroba, que lhe oferecia formidável baluarte. Por detrás desse tronco estendia-se um espesso e impenetrável tabocal, que lhe protegia a retaguarda.

Ali encostou todo o seu arsenal de armas, que consistiam em um arco com algumas flechas, uma grande faca, uma foice pequena, uma pistola de dois canos e uma espingarda carregada com os últimos cartuchos que lhe restavam, e que de propósito reservava para ocasiões difíceis. Ali resolveu-se a resistir até às últimas aos seus selvagens agressores.

Estes, seguindo a batida que o estrangeiro ia fazendo com sua pequena foice, em breve chegaram a descobri-lo, e logo travou-se entre eles o combate o mais temeroso e desigual que se pode conceber. As flechas dos índios iam-se cravar no tronco, por trás do qual o imboaba se abrigava, ou entranhavam-se pelo tabocal, onde se perdiam silvando. Avançando um a um pela estreita picada praticada em um mato cerrado e atravancado de taquaras e cipós, os selvagens iam caindo também um a um aos tiros certeiros do aventureiro, que não perdia uma só flecha, nem um só tiro; aquele em quem fazia a mira caía infalivelmente, ou morto ou gravemente ferido. Os selvagens, cujo número de instante a instante se aumentava, atiravam-se furiosos para o tronco por trás do qual se defendia aquele homem terrível com a coragem do desespero; porém na confusão com que se precipitavam, caíam uns sobre os outros embaraçados na multidão de cipós e matos emaranhados que obstruíam aquele lugar.

Mais de um caiu aos pés do intrépido imboaba a um bem atirado golpe de foice ou recuou rugindo de dor com a mão decepada ou com o crânio escorchado. Parecia que o estrangeiro ia morrer oprimido debaixo de tantos cadáveres, que ele mesmo amontoava em torno de si.

Nada mais terrível do que a onça, quando, sendo mal atirada, se precipita abaixo do tronco em que é acuada pelos cães; assenta-se sobre os quadris rosnando e apresentando as agudas e monstruosas presas, e a cada bote que dá com as formidáveis patas atabafa e esmaga um cão, e em poucos instantes se vê rodeada de um lastro de cadáveres.

Pois assim estava aquele sanhudo aventureiro ceifando e derribando a granel os imprudentes selvagens que ousavam avizinhar-se-lhe. Estes, já transidos de terror supersticioso, pensando que não combatiam contra um homem, mas contra algum espírito ou ente sobrenatural, sentiam falecer-lhes a coragem e começaram a recuar espavoridos diante de tão descomunal denodo e valentia.

Um deles porém, que parecia comandar aos outros, com um grito fez recuar todos aqueles combatentes estouvados e imprudentes, e seguido somente de um companheiro avançou resolutamente para o tronco.

O estrangeiro já tinha descarregado todas as suas armas de fogo e despedido todas as suas flechas. Este último combate portanto foi dado corpo a corpo sobre cadáveres e em um lamaçal de sangue. Ainda que extremamente fatigado e todo crivado de golpes, o forasteiro ainda deu que fazer a seus adversários. Um golpe de tacape descarregado sobre a nuca o fez titubear; outro imediatamente foi desfechado, e Gonçalo, pois era ele, caiu sobre um lago de sangue por ele mesmo derramado.

CAPÍTULO II - A TABA DO CACIQUE

Uma prolongada e imensa grita aplaudiu aquela vitória a tanto custo alcançada por uma multidão sobre um só homem. Os selvagens em seu furor de vingança já iam arrojar-se sobre o cadáver, esquartejá-lo e devorá-lo ali mesmo. Mas o jovem guerreiro que descarregara o último golpe sobre Gonçalo, e que parecia ser o chefe ou cacique daquela horda, opôs-se-lhes energicamente bradando em voz irada: — Ai daquele que ousar tocar naquele corpo!... O cadáver de um tão feroz e valente inimigo é um troféu, que deve ser apresentado ao nosso velho e venerando chefe. Este espetáculo por certo lhe aquecerá e regozijará o coração murchado pelos anos. E quem vos diz que esse estrangeiro não está vivo ainda?... Se assim é, se ainda temos de vê-lo tornar à vida, acrescenta o jovem guerreiro em tom menos severo e quase risonho, mais escolhida vítima, sacrifício mais excelente não poderá ser oferecido a Tupá no dia de minha feliz união com a formosa Guaraciaba, esse raio de luz descido do céu para iluminar-me o coração.

O chefe, que assim falava, e que tinha prostrado a golpes de tacape o sanhudo imboaba, chamava-se Inimá.

A ele estava prometida a gentil e mimosa Guaraciaba, filha do velho e poderoso cacique Oriçanga, e a mais encantadora dentre as filhas da floresta.

O fato de ter vibrado o golpe de morte sobre o formidável estrangeiro era para Inimá uma proeza que ia ainda exaltar o seu merecimento e enchê-lo de glória aos olhos do velho cacique, da donosa Guaraciaba e da tribo inteira. Pelo menos ele assim o esperava, e já de antemão se regozijava interiormente de seu triunfo.

— Foi Tupá, exclamava ele em transportes de alegria, foi Tupá que aqui nos enviou este estrangeiro; e foi sua voz que me chamou para nos libertar de um monstro, enviado por Anhangá para maquinar a nossa perdição.

Guerreiros, vamos dar graças aos céus e oferecer sacrifícios aos manitós de nossas tabas por este sucesso de tão feliz agouro.

Inimá ajuntou as armas do aventureiro, contemplou-as com admiração e curiosidade, e mandando conduzilas com o corpo de Gonçalo em uma canoa, apressou-se em ir depor cheio de orgulho aqueles troféus, tão facilmente conquistados, aos pés do poderoso Oriçanga e da formosa Guaraciaba.

A taba do velho cacique Oriçanga, mais vasta e mais sólida que todas as outras, com sua porta guarnecida de flechas e lanças enfeitadas de vistosos penachos, com seu teto de palmas de baguçu tingidas de oca e de urucu, mirava-se galhardamente na torrente do Tocantins, e elevava-se entre as outras cabanas como a garça, rainha dos lagos, entre um bando de pequenas aves. A noite se aproximava. Sentado à porta da taba sobre a pele enorme de uma onça negra, Oriçanga esperava com impaciência que lhe trouxessem vivo ou morto o audacioso estrangeiro que assim ousava resistir a seus guerreiros, indignado de que tantos combatentes gastassem tanto tempo e achassem tamanha dificuldade em matar ou prender um só homem. Em pé junto dele, como tímida corça junto ao leão deitado, a gentil Guaraciaba tinha também os olhos fitos com ansiosa curiosidade nas canoas, que da outra margem vinham ligeiramente singrando.

Dentro em poucos minutos o corpo de Gonçalo inanimado e banhado em sangue, conduzido em uma rede com todas as suas armas, foi posto aos pés do velho cacique. Inimá e seus companheiros precediam o cadáver, soltando clamores de feroz alegria. O cacique porém os recebeu com semblante torvado, e ouviu com impaciência a narração que lhe fez Inimá do combate e da desesperada resistência do estrangeiro, e dos estragos que fez em sua gente. Depois abanando a cabeça com ar descontente e gesto merencório exclamou: — Ah! Inimá! Inimá! já não pareces o filho do valente e invencível Iaboré! Quem diria que não ousaste ir sozinho arrostar a sanha do estrangeiro, e que deixaste morrer teus companheiros como uma vara de caitetus às garras da onça esfaimada!... Mancebos fracos e degenerados de hoje, sois incapazes de encurvar o arco de vossos antepassados. Em outros tempos, quando a idade não tinha ainda branqueado estes cabelos nem quebrado estes pulsos, eu só ou qualquer dos meus valentes teria esmagado esse mancebo com a mesma facilidade com que espedaço este cachimbo. — E esmagou entre os dedos o canudo pelo qual aspirava a fumaça da pituma.

A este gesto, a estas duras palavras bagas de suor frio escorregaram pela testa do jovem guerreiro, que batendo os dentes como um queixada enfurecido, com voz convulsa e abafada respondeu: — Oriçanga! Oriçanga! não profiras tais palavras!... a cólera te cega, velho cacique, e torna-te injusto. Não penses que esse estrangeiro que acabamos de garrotear era um inimigo vulgar. Não; era um enviado de Anhangá, e estou certo que com ele combatiam contra nós os manitós das trevas ocultos entre os ramos da floresta. Se lá te acharas, se presenciasses esse estranho combate e visses por que modo sobrenatural o maldito imboaba se furtava a nossos golpes, por certo nos não julgarias com tão injusto rigor. Mas seja como queres: ao que me parece esse temerário estrangeiro não está morto ainda e é bem possível que ainda volte à vida; de propósito sopeei a força de meu pulso ao vibrar-lhe o último golpe. Procurem chamá-lo à vida, curem-se suas feridas, e quando de todo tiver recobrado suas forças, que venha medir suas armas comigo. Se aos primeiros botes eu não calcar-lhe o peito debaixo de meu joelho, e não escachar-lhe o crânio com um golpe deste tacape, possam os meus olhos nunca mais se encontrar com os da formosa e incomparável Guaraciaba.

— Sejas como dizes, replicou Oriçanga; seja o estrangeiro recolhido em um dos aposentos de minha taba; os pajés pensem suas feridas, e ministrem-lhe todos os cuidados que reclama seu estado, e vejam se lhe restituem a vida. Se ele recuperar os sentidos e viver, Inimá, será um sacrifício de excelentes auspícios para o dia em que receberes por esposa em tua taba a gentil Guaraciaba.

Ditas estas palavras, como descia a noite, o velho cacique levantou-se e a passos lentos recolheu-se para o interior da cabana.

O espetáculo do corpo de Gonçalo todo ensangüentado e crivado de golpes não fez mais impressão sobre o espírito daqueles ferozes selvagens, do que o de uma fera que em uma partida de caça acabassem de matar e arrastar para as tabas.

Mas não assim para Guaraciaba, que ao ver aquele belo e garboso mancebo, em cujo rosto inanimado ressumbrava a altivez e galhardia, todo pisado e banhado em sangue, sentiu agitar-lhe o seio um sentimento insólito de interesse e compaixão.

Gonçalo, recolhido em um dos compartimentos da taba do cacique, foi ali deitado sobre um leito de macias peles e confiado aos cuidados de Andiara, o mais venerável e mais sábio dos pajés, e que primava na arte de curar golpes e toda a qualidade de enfermidades. Guaraciaba prestou-se graciosamente a auxiliá-lo, e quis ser ela mesma com encantadora solicitude a enfermeira do prisioneiro ferido. Andiara examinou com atenção o corpo de Gonçalo, e reconhecendo que a vida ainda não o tinha de todo abandonado, administrou-lhe os primeiros cuidados e concebeu esperanças de salvá-lo.

Inimá, sombrio e cabisbaixo, retirou-se no fundo de sua taba, ruminando na mente as cruéis palavras de Oriçanga e entregue aos mais sinistros pressentimentos.

Enquanto Gonçalo sem sentidos jaz entre a vida e a morte, entregue aos cuidados do pajé e da mimosa Guaraciaba, vejamos o que fizera ele depois da horrível e encarniçada luta em que matara seu amigo, e por que série de acontecimentos viera ele cair nas mãos dos ferozes Chavantes.

Gonçalo, crivado de graves e profundos golpes e perdendo muito sangue depois daquele furioso e desesperado combate, desatinado e torturado pelas dores do corpo e pelas tormentas da alma, dirigiu-se o mais depressa que pôde para sua casa. Aí tratou de estancar o sangue das feridas e pensá-las à pressa e do melhor modo que pôde; e como ali mais do que em outra qualquer parte estaria em perigo a sua segurança, arrecadou todo o dinheiro e objetos de valor que pudesse levar consigo, e sem nada dizer a seus domésticos, abandonando a casa, escravos e haveres de toda espécie, montou de novo a cavalo, e tomando por trilhos escusos e desconhecidos com grande dificuldade pôde chegar exausto de força e quase desfalecendo à casa de um velho caboclo, que lhe era muito afeiçoado e que habitava um miserável ranchinho escondido entre matos em um sítio retraído e ignorado. Aí esteve por muitos dias oculto curando-se de suas feridas e recuperando suas forças. Por felicidade o caboclo era grande curandeiro, e graças aos remédios que aplicou, e que consistiam em ervas e raízes silvestres, cujas virtudes conhecia, ao zelo e dedicação com que tratava o seu jovem hóspede, e à admirável robustez da organização de Gonçalo, este viu suas feridas irem-se prontamente cicatrizando, e seu vigor e saúde de dia a dia restabelecer-se.

Entretanto em seu obscuro esconderijo Gonçalo não podia estar muito tranqüilo. A justiça de Goiás ativava diligências sobre diligências para descobri-lo. As milícias e esbirros passaram algumas vezes por perto do pobre rancho do caboclo sem a mais leve suspeita de que ali se achava aquele que com tanto afã procuravam por toda a parte, e muitas vezes Gonçalo em seu leito de dores tinha de escutar as ameaças, pragas e maldições com que aqueles homens o acabrunhavam. O matreiro caboclo os acompanhava na ladainha das imprecações, dando a todos os diabos o nome de Gonçalo, a quem mimoseava com os mais horripilantes epítetos, chamando-o de Satanás, tigre, canguçu, etc.

Outras vezes dando falsas informações e indícios por ele mesmo excogitados iludia e desorientava completamente as diligências.

Por sua parte também as inumeráveis vítimas das valentias de Gonçalo, que lhe guardavam secreto rancor, e os amigos de Reinaldo, que os tinha muitos e dedicados, desejosos de vingá-lo, procuravam Gonçalo por toda a parte e faziam altas diligências para descobri-lo, dispostos a fazer pronta justiça por suas próprias mãos.

A vida de Gonçalo andava pois pendente de um fio.

Ele portanto, que avisado pelas próprias patrulhas que o procuravam, não ignorava estas circunstâncias, logo que se sentiu com algumas forças e em estado de poder montar a cavalo, depois de ter agradecido e remunerado generosamente os serviços do bom caboclo, desapareceu, e dirigindo-se para os sertões do norte, embrenhou-se pelas matas que demoram entre a Serra Geral e o rio Tocantins.

Sozinho naqueles ermos sem recurso, vivendo de frutos silvestres, de mel e de caça mal assada e sem adubo algum, pedindo raras vezes furtivamente agasalho em alguma pobre choupana, sofrendo trabalhos e privações, a que só sua robusta compleição podia resistir, foi-se entranhando de mais em mais pelos sertões, procurando fugir para bem longe de uma terra que se lhe tornara odiosa, e cuja lembrança lhe oprimia o coração como um pesadelo. Com as mãos manchadas no sangue de um amigo, a quem perfidamente assassinara, com a alma atassalhada de remorsos e em um sombrio desespero, vagava a esmo pelos desertos esperando morrer às garras de alguma fera ou entre as mãos dos gentios, se não sucumbisse à mortal tristeza que por dentro o corroía.

Assim vagou por muito tempo até que chegou às margens do Tocantins, onde sendo bem acolhido entre uma tribo de índios Coroados, foram-se com o tempo acalmando as angústias que o flagelavam, viveu largo tempo entre eles, adotou os seus costumes, aprendeu a sua língua, e já por sua inteligência, já por sua grande força e destreza no manejo de armas de qualquer espécie, gozou de grande respeito e prestígio entre eles.

Decidido a romper completamente com a sociedade dos homens civilizados, Gonçalo pôs-se ao serviço daquela nação. Por mais de uma vez foi-lhe dado o comando de expedições destinadas a debelar tribos inimigas, ou a fazer frente às bandeiras encarregadas de submeter ou exterminar os índios, e sempre voltava vitorioso e carregado de despojos.

Mas a inveja e a rivalidade de alguns dos principais da tribo, que viam com maus olhos o ascendente que esse estrangeiro ia tomando sobre o chefe e sobre a nação inteira, foram tornando por fim difícil e espinhosa a situação de Gonçalo. De caráter assomado e altivo, ele teve mais de uma vez de dar a alguns dos índios as terríveis lições que costumava dar outrora em Goiás a seus compatriotas. Demais, os Coroados começavam a entreter relações de amizade e de comércio com os goianos. Algumas hordas destes selvagens já começavam a ir a Goiás vender esteiras, peles, guaraná e outros objetos e comprar armas, ferramentas, fazenda e quinquilharias. Estas comunicações com seus patrícios não convinham por maneira nenhuma a Gonçalo, que com razão receava que por um acaso ou por uma traição de seus rivais da tribo fosse conhecida em Goiás a sua existência entre aqueles indígenas. Portanto resolveu-se a abandonar para sempre os Coroados, e ir procurar refúgio em mais desertos e longínquos países. Ele bem sabia que ia arrostar perigos e azares ainda maiores, e que daí em diante só encontraria feras e gentios indomáveis; mas antes quereria morrer entre as garras de um tigre ou trespassado pelas flechas dos selvagens, do que voltar a Goiás ainda mesmo de seu moto próprio, quanto mais preso e entregue à justiça.

Em uma noite pois, metido em uma canoa, em que embarcou suas armas e as provisões que pôde, deixou furtivamente o arraial dos Coroados, e abandonou seu destino à mercê da torrente do Tocantins. Assim foi descendo através de mil dificuldades e perigos, que superava à força de audácia, destreza e astúcia, em luta já com as cachoeiras do rio, já com as hordas selvagens de ambas as margens, já com a fome e privações de toda a sorte, até que chegou ao lugar onde, depois de obstinada resistência, o vimos cair como morto em poder dos Chavantes.

CAPÍTULO III - A ENFERMEIRA

Era alta noite ; o silêncio e o sono reinavam na taba do velho cacique, o qual, depois de ter narrado aos amigos reunidos em torno do fogo algumas das proezas de sua mocidade, adormecera suavemente entre a fumaça de seu cachimbo e os vapores de um vaso de cauim sobre a sua enorme pele de onça. Os fogos da taba se extinguiram; no meio daquele profundo silêncio ouvia-se apenas só o resfolgar das pessoas adormecidas nos diversos aposentos da vasta cabana.

Somente no quarto em que fora recolhido o infeliz Gonçalo alguém velava. Era Guaraciaba, que à luz de um fogo que continuamente alimentava, observava com ansiosa curiosidade e interesse o rosto do mancebo moribundo.

De vez em quando brandindo um tição se aproximava subtilmente do leito do ferido a ver se em seu rosto se manifestavam já alguns sinais de vida, avizinhava cautelosamente o ouvido como que procurando escutar-lhe a respiração e o palpitar do coração. Curiosa e inquieta não podia arredar sua atenção daquele leito, em que jazia o mísero prisioneiro, e o sono se recusava a cerrar-lhe as pálpebras mimosas. A pouca distância de Gonçalo, Andiara, o pajé encarregado de sua cura, deitado em uma esteira de juncos, ressonava profundamente.

Enfim lá pela madrugada Gonçalo fez um ligeiro movimento, e um fraco gemido quase imperceptível escapou-lhe do peito. Guaraciaba estremeceu e o coração pulsou-lhe com violência.

— Está vivo! murmurou com alegre sobressalto a filha da floresta, e escutou ainda; mas não ouviu mais som, nem notou movimento algum. Aproximou-se de novo ao leito, e cuidou notar um leve arquejar do peito do prisioneiro; mas este, pálido e imóvel, não apresenta ainda no semblante sinal algum de vida. Guaraciaba enfim afoita-se a pôr-lhe de manso a mão sobre o coração. Gonçalo com o frescor da madrugada e graças aos bálsamos eficazes que o experiente pajé lhe vertera nas feridas, ia pouco e pouco recuperando os sentidos, e acordava lentamente de seu longo desfalecimento. As idéias se despertavam em sua alma como em um sonho nebuloso e vago, e duvidava se era ainda em corpo e alma um habitante deste mundo, ou se já era um espírito errante pelos limbos da eternidade. No meio porém daquele penível delírio de suas confusas idéias ele sentiu a mão mimosa de Guaraciaba pousar-lhe docemente sobre o coração; mas em vão tentou abrir os olhos; suas pálpebras amortecidas e inertes não obedeceram à sua vontade; quis falar, mas não lhe saiu do peito mais que um ralido imperceptível. Este aflitivo pesadelo já há alguns minutos o atormentava, quando Gonçalo ouviu confusamente uma voz doce e infantil murmurando em língua indígena estas palavras a espaços interrompidas: — Pobre mancebo! meus irmãos foram bem cruéis em maltratá-lo assim! É bem triste ver um guerreiro assim na flor da vida, tão belo e tão valente, prostrado e morto a golpes de tacape, como se fora um jaguar! E por que havia ele de ser tão louco e temerário! Se não resistisse, acharia talvez entre nós agasalho amigo e franco. Como é gentil, e diferente dos meus companheiros da floresta! seus cabelos negros e luzentes como as penas do anu enroscam-se como serpentes em redor do pescoço, seu porte é como o dos heróis; em sua larga frente ressumbra como que alguma coisa de superior e de celeste. Entretanto, ai de mim! esse belo estrangeiro é a vítima destinada a ser sacrificada a Tupá no dia em que eu for entregue como esposa entre as mãos de Inimá para tornar os manitós propícios à nossa união! Se assim é, ó meu pai, ó Inimá, possa nunca mais raiar esse dia de tão nefasto e abominável sacrifício! Ao som deste suave monólogo o espírito de Gonçalo começava a desnevoar-se pouco a pouco como aos acordes de uma música celestial. Recorda-se então confusamente do medonho combate da véspera, e pasma de se achar ainda no número dos vivos. Entretanto essa voz suave, que com tanta ternura o lastima, anuncia-lhe também que ele é prisioneiro, e que sua vida não é poupada senão para que seja solenemente sacrificada em um dia de festins nupciais. Mas as palavras desse ser desconhecido repassadas de piedosa doçura lhe ressoavam aos ouvidos como um hino de esperança, e posto que nada pudesse ver, seu coração como que adivinhava a presença de um anjo salvador, que velava junto ao seu leito. Gonçalo faz um esforço e consegue fazer um movimento e exala um fraco gemido.

Guaraciaba cala-se e suspende a respiração, como a rola assustada, que interrompe o arrulho ao ouvir passos na floresta; retira-se um pouco, espera um momento e de novo chega-se ao leito e interroga com os olhos o rosto do ferido. Este sente-lhe os passos, enfim pode abrir os olhos e com voz débil e sumida pronuncia em língua indígena estas palavras: — Virgem da floresta, ou anjo do céu, como me pareces, que tanta compaixão mostras pelo infeliz prisioneiro, dize-me, quem és tu, onde me acho eu, e o que se pretende fazer de mim? — A filha de Oriçanga, maravilhada de ouvir nos lábios do estrangeiro a língua de seus pais, lhe responde comovida: — Tu te achas na taba de Oriçanga, meu pai e cacique dos Chavantes, em cujo poder caíste prisioneiro.

Aqui ficarás até que sarem tuas feridas e recobres a saúde e as forças.

— Para depois ser conduzido ao sacrifício, não é assim, filha de Oriçanga? — Oh! quem to disse! atalhou ela vivamente, e pensou consigo aterrada: acaso me teria ele ouvido? — Oh! sim! bem o sei; continua Gonçalo animando-se; sei que me conservam a vida para depois festejarem com a minha morte e consagrarem com meu sangue cobardemente derramado tuas bodas com... mas não o conseguirão... com estes dentes ainda posso arrancar as ataduras destas feridas e fazer correr por elas todo o meu sangue, para que o não derrameis em vossas festas abomináveis.

— Ah! não! não faças tal; exclama aflita. Acalma-te; nenhum perigo te ameaça... mas é lástima que sejas, como pareces, um filho dos imboabas, desses cruéis inimigos e perseguidores da raça dos adoradores de Tupá.

— Não o creias, filha de Oriçanga: eu sou como vós outros filho das selvas livres; sei encurvar o arco e despedir a flecha de meus antepassados, falo, como vês, a tua língua, e só conheço o imboaba para odiar-lhe e beberlhe o sangue.

Gonçalo por uma prudente astúcia entendeu que devia nesta conjuntura ocultar a verdade, e nem ele mentia totalmente, pois que voluntariamente se havia seqüestrado da sociedade para viver entre os selvagens. Ao ouvir estas palavras Guaraciaba não pôde conter um grito de surpresa e satisfação.

— É verdade o que acabas de dizer, estrangeiro? quê! tu não és imboaba!... tu és dos nossos! nesse caso tranqüiliza-te; nada tens a temer aqui, é a filha de Oriçanga quem responde pela tua vida.

— Anjo, exclama Gonçalo com voz sumida e angustiada, para que queres poupar-me a vida?... Ah! tu não sabes quanto ela me é odiosa e pesada... Mas tu não és por certo uma mulher... tu és um manitó celeste enviado por Tupá para proteger-me e consolar-me... ah! deixa-me beijar essa mão generosa...

— Cala-te, interrompeu ela levando-lhe os dedos à boca; o pajé não quer que fales, pois isso te fará muito mal. Ah! imprudente que eu fui em te fazer assim falar por tanto tempo.

A primeira claridade do dia já vinha frouxamente penetrando pelas frestas da cabana. As selvas começavam a despertar aos mil rumores que faziam uma multidão de aves esvoaçando, piando, grasnando ou gorjeando entre os ramos orvalhados. Nuvens de papagaios, araras e periquitos atravessavam o espaço enchendo os ares de sua incessante algazarra; e enquanto o tucano, vaidoso de sua vistosa plumagem, fazia ouvir seu rouco e ingrato grasnar, o sabiá do alto da peroba secular desprendia seus cadenciados gorjeios. Guaraciaba desperta o pajé adormecido, e anuncia-lhe, sem disfarçar sua alegria, que o estrangeiro recobrara os sentidos, e com a maior instância lhe pede e recomenda que se desvele em tratá-lo com todo o zelo que exige o seu estado melindroso.

Andiara votava paternal afeição à filha do cacique, sobre cuja infância velara desde o berço com a mais terna solicitude. Tendo ela ainda em tenra idade perdido sua mãe, a linda e donosa Naumá, Andiara, parente e amigo fiel e extremoso de Oriçanga, a cuja família julgava estar ligada a glória da nação dos Chavantes, tomou a si o cuidado de educar e desenvolver os dotes do corpo e do espírito da gentil menina, última progênie de uma raça de heróicos caciques, e em quem repousava toda a esperança da tribo. Ele a tinha sempre junto a si, e a conduzia pela mão em seus giros pelas florestas; ele entretecia com suas próprias mãos vistosos canitares de plumas ondulantes para sombrear-lhe a fronte, e lhe engastava o cinto da araçóia de palhetas de ouro nativo e de brilhantes pedrarias.

Também a exercitava na arte de encurvar o arco, de brandir o tacape, de fender com os ombros as águas das torrentes, ou impelir rapidamente com o remo uma piroga a resvalar pelas ondas azuladas de seu rio natal; ensinavalhe as danças e cantigas sagradas, e os hinos de guerra, dando-lhe uma educação toda varonil na esperança de tornála um dia uma heroína capaz de elevar a nação ao mais subido auge de glória e de grandeza. Guaraciaba por seu lado respeitava e queria ao velho pajé como a um outro pai; com docilidade e submissão filial obedecia às suas ordens, escutava os seus conselhos, e retribuía-lhe com afetuosa gratidão os afagos e cuidados que dele recebia.

Andiara pelo muito afeto que tinha à gentil menina, ou por uma natural simpatia, deixou-se também penetrar do interesse que a ela inspirara o malferido estrangeiro, e esforçou-se com desvelo e ardor em restituir-lhe a vida e a saúde.

Tendo pois bem recomendado o enfermo aos cuidados do pajé, Guaraciaba deixa a taba, corre à beira do rio, banha as faces e os olhos ardentes de insônia na sua onda límpida e fresca, e com um pente de madeira preciosa e aromática encrustado de lâminas de ouro desembaraça e alisa os negros e luzidos cabelos, que se espalham como um véu sobre os ombros e o seio. Vai depois pressurosa despertar seu pai, e com prazenteiro e ingênuo sorriso diz-lhe: — Meu pai, ele vive! — Quem, filha?... o imboaba? — Sim, o estrangeiro, meu pai; esta madrugada abriu os olhos e falou...

— Bem, minha filha! dá graças a Tupá, que nos envia um herói dos imboabas para ser imolado no dia em que eu te entregar nos braços de Inimá como companheira de sua taba. Excelente agouro, que promete a perpetuação dos heróicos caciques do sangue de meus avós! O sacrifício desse sanhudo e valente imboaba será mais grato a Tupá do que se imolássemos um cento de vítimas ordinárias, e os céus serão propícios à tua união.

— Mas, meu pai, tu te enganas, esse prisioneiro não é um imboaba; ele é, como nós, filho e Tupá, fala a língua das florestas, e odeia como nós a raça de nossos perseguidores.

— E que manitó celeste, ou que pajé inspirado revelou-te esse mistério?...

— Ele; ele mesmo mo disse.

— E acreditaste!... não sabes que a mentira, o embuste, a traição andam sempre nos lábios dessa gente pérfida e cruel? — Oh! não... sua voz, suas falas, sua figura não são do imboaba; nelas respira o espírito de verdade, e em seu rosto transluz a altivez do filho das florestas.

— De feito, murmurou o velho chefe abanando a cabeça, quem com tanta destreza encurva o arco e vibra tão mortíferas flechadas, quem combate com tamanho denodo e valentia, não pode ser do sangue vil do imboaba traiçoeiro. Mas seja como for, é sempre um inimigo e um herói; e tu, minha encantadora e querida Guaraciaba, tu és bem digna de que tua união seja consagrada com o sangue de um herói soterrado pelas mãos de teu esposo.

— Ah! meu pai! se para que minha união seja feliz e agradável aos céus, é mister que corra o sangue de um desgraçado prisioneiro, perdoa-me, meu pai, eu não serei nunca a esposa de Inimá!

— Que dizes, filha! como queres menosprezar a velha e sagrada usança de nossos antepassados? É sempre grato a Tupá o sangue do inimigo vertido em honra sua, e cometeríamos um crime se poupássemos a vítima que ele mesmo nos envia.

— Mas a vítima não é um inimigo, é um infeliz foragido, que porventura procurava entre nós gasalhado e asilo, e a quem recebemos com as armas na mão, como se fora um jaguar.

— Seja pois como dizes, prezada filha; quero ainda condescender com teus caprichos de criança. Sare esse estrangeiro de suas feridas, e quando o seu estado o permitir, seja conduzido à minha presença para nos dizer quem é, e contar-nos a sua história; depois veremos o que dele se fará. E ai dele se procurar enganar-me com seus embustes e mentiras!

CAPÍTULO IV - O RESTABELECIMENTO

Gonçalo, graças ao acertado curativo do sábio e experiente Andiara, e à desvelada solicitude com que o tratava a filha de Oriçanga, foi mais depressa do que se podia esperar sarando de suas feridas e contusões, e readquirindo seu antigo vigor. Para seu pronto restabelecimento sem dúvida mais que tudo contribuiu a amável e interessante enfermeira que o assistia. Guaraciaba, que em língua chavante significa – raio de luz – era com efeito a mais gentil e graciosa dentre as filhas da floresta.

E não se pense que entre esses selvagens não se encontram senão rostos grosseiros e estúpidos, instintos selváticos e ferozes; não é muito raro ver-se entre eles, principalmente entre certas tribos privilegiadas, feições bem modeladas, regulares e expressivas, e nobres e generosos impulsos do coração; encontram-se por vezes entre eles criaturas em que a obra de Deus faz lembrar ainda a perfeição de sua celeste origem. Guaraciaba era o tipo da beleza indígena no mais alto apuro de sua perfeição. Filha mimosa de um poderoso cacique, criada com carinho à sombra da taba paterna, sua tez não se crestara aos ardores do sol tropical, nem se lacerara nos espinhos das selvas enredadas, e tinha em todo o seu frescor e pureza a delicada cor de jambo. Seus cabelos negros, compridos e corridos ocultavamlhe quase completamente os ombros, e algumas madeixas desgarradas desciam ondulando a beijar os puros contornos dos seios virginais. Seus olhos pretos e oblongos ora eram meigos e serenos como a superfície de um lago dormente em noite de luar, ora cheios de vivacidade cintilavam como o carbúnculo. Seu porte, seus ademanes tinham a flexibilidade e a graça da cecém, que ao sopro das brisas matinais embala-se à beira da torrente. Ela se comprazia muitas vezes com a turba de suas companheiras em banhar os mimosos membros nas águas do seu pátrio rio, que ela fendia com a destreza e rapidez da lontra. Também empunhava com graça e garbo senhoril um arco trabalhado de primorosas esculturas, e um carcás trançado de palhas de coqueiro imitando a pele escamosa e matizada de uma serpente e bem provido de setas, com que fazia crua guerra às avezinhas, cujas penas cobiçava para seus enfeites.

Guaraciaba e Andiara não poupavam desvelos e cuidados para que Gonçalo recuperasse forças e saúde. Ela mesma trazia em vasos de concha de tartaruga, ou de madeira esculpida, os selváticos manjares preparados por suas próprias mãos. Ora o regalava com os mais saborosos peixes e a caça a mais delicada, ora com os tenros palmitos ou a alva mandioca embebida no delicioso mel de jataí, com ovos de tartaruga, com frutos silvestres, e o suave licor extraído do tronco do buriti; e Gonçalo como que ressurgia do túmulo vivificado pela mão de um anjo.

Entretanto os Chavantes em diversos grupos se dispersavam pelas imensas florestas que bordam as margens do Tocantins, em excursões mais ou menos longínquas de caçadas e pescarias, ou em busca dos ingredientes de que fabricam o precioso guaraná, de cuja composição até hoje se ignora o segredo, ou em correrias pelas fazendas dos brancos, onde iam exercer violências e rapinas.

Quanto a Inimá, profundamente ofendido com as cruéis palavras com que Oriçanga o havia humilhado em presença de Guaraciaba e de grande número de guerreiros, se embrenhava à testa de alguns dos seus pelas florestas vizinhas para ocultar seu amargo despeito, e disposto a não aparecer senão para lavar sua afronta no sangue do atrevido forasteiro que dela fora a causa. Nas tabas pois com Oriçanga e sua filha ficara apenas uma pequena parte da tribo, pela maior parte velhos, mulheres e crianças, e uma escolta de guerreiros escolhidos eram como uma guarda do velho cacique.

Logo que Gonçalo se achou fora de perigo e algum tanto restabelecido de suas forças, foi conduzido pela gentil Guaraciaba à presença do velho chefe, para narrar-lhe suas aventuras. Junto à margem do rio, à sombra de uma colossal figueira silvestre, achava-se sentado o velho cacique rodeado de alguns guerreiros veteranos, com os quais se comprazia em rememorar as façanhas das eras de outrora, e com essas lembranças do passado sua alma se expandia como o velho e carcomido tronco da floresta já sem seiva nem folhagem, cujo calvo tope se enrama de viçosas parasitas e floridas trepadeiras. Gonçalo se assentou no meio deles; servia-lhe de assento a saliência de uma das enormes raízes do tronco. A mimosa filha de Oriçanga apresentou a cada um dos circunstantes um vaso de cauim, e um cachimbo aceso, que circulou de boca em boca, em sinal de paz e boa amizade. Assentada sobre a relva a alguns passos em frente de Gonçalo, com os pés encruzados, o braço pousado sobre os joelhos e a face sobre a mão, Guaraciaba, que nesse momento oferecia à estatuária o mais original e gracioso modelo, estava pronta a escutar com a maior atenção e infantil curiosidade.

— Estrangeiro, diz Oriçanga, quem quer que tu sejas, ou descendas do sangue maldito do imboaba, ou tenhas nascido neste país que Tupá abençoou, já que o céu te fez cair em nosso poder, és nosso escravo, e faremos de ti o que nos aprouver. Mas diz alguém que não pertences à raça detestada de nossos perseguidores, e que as tuas tristes aventuras obrigam-te a vaguear pelas selvas foragido sem taba e sem manitós. Conta-nos pois com espírito de verdade a história de teus infortúnios, e à vista dela veremos qual a sorte que mereces.

Gonçalo, prevenido por Guaraciaba de que teria de contar ao pai dela a história dos acontecimentos de sua vida , já tinha fantasiado em seu espírito a narração que devia fazer ao velho cacique. Não lhe era preciso inventar muitas fábulas, mas somente disfarçar certas circunstâncias de sua vida mudando o nome de algumas pessoas e lugares e ocultando a sua verdadeira nacionalidade, para tornar interessante a sua narração. Assim pois misturando às vezes a história real de sua vida, cheia de incidentes e trabalhos, com algumas fábulas por ele mesmo ideadas, disse que pertencia à bela e formidável tribo dos Guaicurus, que habitavam as remotas regiões banhadas pelos rios Paraná e Paraguai. Seu pai era um cacique afamado naquelas paragens por seu grande valor e poderio. Esse cacique à testa de seus valentes guerreiros montados em grandes e velozes cavalos, percorriam as campinas de seu país natal com a rapidez do tufão, e causavam estragos e devastações imensas nos estabelecimentos dos brancos de quem se tinham tornado implacáveis inimigos. Enfim, depois de uma guerra desastrosa, ele, seu pai e toda a sua família tinham caído prisioneiros em poder dos brancos; depois tinham sido conduzidos por seus senhores a Goiás, onde foram vendidos e longo tempo gemeram vítimas de bárbaro e violento cativeiro, e onde vira seu pai sucumbir ao peso de maus tratamentos e excessivos trabalhos. Enfim crescendo em forças e idade, e não podendo por modo algum resignar-se a suportar o jugo infame da escravidão, conseguira evadir-se, e se refugiara nas matas do Alto Tocantins. Acolhido entre os Coroados, que habitavam essas regiões, em breve adquiriu a estima e apreço dos principais da tribo, que o escolheram para comandar uma expedição que tinha de marchar a exercer vinganças e depredações nas povoações dos imboabas. Aproveitou-se com sofreguidão dessa ocasião para vingar a morte de seu pai, matando com a própria mão o seu algoz e reduzindo a cinzas suas fazendas. Em muitas outras ocasiões teve de prestar os mais importantes serviços aos Coroados, quer expondo intrepidamente a sua vida na guerra, quer ensinando-lhes diversos ofícios e artes, que aprendera durante o seu cativeiro entre os brancos, quer enriquecendo-os com instrumentos, armas e mil outros despojos de imenso valor, que saqueava das fazendas que destruía. Mas enfim seus próprios feitos e serviços suscitaram-lhe uma multidão de inimigos, excitando a inveja e descontentamento de muitos, que tinham ciúme do brilho e lustre que seu nome ia adquirindo entre eles. Seus rivais não ousavam guerreá-lo abertamente, mas urdiamlhe ciladas de todo o gênero, e moviam-lhe uma perseguição traiçoeira, à qual teria inevitavelmente sucumbido, se não tivesse fugido ocultamente a favor da noite em uma canoa confiando sua vida à mercê da corrente do rio sagrado, que o tinha conduzido até ali, afrontando novos trabalhos e perigos em busca de um asilo em qualquer canto do mundo. Chegando àquelas paragens eles Chavantes tomando-o por um inimigo, ou imboaba, o tinham atacado tão bruscamente e com tal sanha, que o colocaram na necessidade de defender-se com encarniçamento até o último trance.

Enfim nenhuma inimizade ou indisposição tinha com os Chavantes, de cujo poderio tinha muitas vezes ouvido falar, e cuja bravura ecoava até as mais remotas regiões. Esperava que dali em diante não o considerassem mais como um inimigo, nem como um estrangeiro, porém sim como um companheiro de mais, um aliado fiel, que não aspira a outra coisa mais do que a ter ocasião de expor sua vida e derramar seu sangue pela causa dos valentes Chavantes, e de seu bravo e poderoso chefe.

Gonçalo entremeara nesta narração os inúmeros e variados episódios de sua vida agitada e aventureira, envolvendo-os em circunstâncias estranhas e fantásticas; pintava com modéstia, porém com animação e calor, os renhidos combates em que tinha suplantado seus inimigos e rivais, os rudes trabalhos e arriscadas aventuras por que tinha passado, as proezas que praticou comandando os Coroados em suas correrias pelas fazendas dos brancos, e assim teve por largo tempo presa a atenção do cacique e mais ouvintes, que absortos e enlevados não se fartavam de escutá-lo.

— Bem! Disse o velho caudilho apenas Gonçalo deu por terminada a sua narração; os teus infortúnios me tocam, e tuas palavras parecem-me ser inspiradas pelo espírito da verdade. Itajiba, tu és um bravo, e as façanhas que tens praticado são dignas dos mais valentes caciques. Mas antes de seres adotado em nossa tribo, como pareces desejar, é mister que proves com os teus feitos e com serviços reais, que não com meras palavras, a força de teu braço, a valentia de teu ânimo, e a lealdade de teu coração. Por agora porém cumpre que continues o teu curativo, e que recuperes completamente com o sangue vazado por tantas e tão graves feridas a saúde e as forças de que haverás mister para te sujeitares a essas provações, e mostrares o que podes e sabes fazer. Não serás mais tratado como prisioneiro; és livre; as florestas e as campinas te são francas; podes por elas vagar e caçar a teu sabor, como se estivesses em teu país natal, pois que essa formosa criatura, a quem por felicidade tua soubeste inspirar interesse e piedade, garante a sinceridade de tuas palavras, e a minha Guaraciaba, que conversa com os manitós celestes, e escuta as falas dos sagrados pajés, não costuma iludir-se.

Gonçalo ou Itajiba, como se chamou durante o tempo que esteve entre os Chavantes, restituído à liberdade, e tratado com o mais carinhoso desvelo na taba do velho Oriçanga, sentia de dia em dia renascerem-lhe as forças e vigorar-se-lhe a saúde. Viu com prazer que todas as suas armas lhe tinham sido fielmente conservadas. Mas suas armas de fogo se lhe tornavam daí em diante completamente inúteis, pois estavam vazias, e nenhuma munição lhe restava para de novo carregá-las; isto causava-lhe bastante pesar, pois essas armas com suas temerosas detonações e seu maravilhoso mecanismo seriam um objeto de assombro para aqueles selvagens e mais um meio para atrair seu respeito e admiração, e dar a Gonçalo ainda mais prestígio entre eles.

Notou ainda mais, com íntima satisfação, que lhe tinham deixado intacto o sagrado talismã objeto de seu fervoroso culto, a imagem de sua celestial protetora em todos os trabalhos e perigos da vida. A curiosa Guaraciaba não pôde deixar de perguntar-lhe o que significava aquele objeto com aquela linda imagenzinha de ouro, que sempre trazia pendente ao pescoço.

— É um precioso e sagrado manitó, que me legaram meus pais, respondeu-lhe Gonçalo, é ele quem me proteje, e noite e dia vela sobre meus passos, e quem leva minhas rogativas até o trono do Grande Tupá. Sem ele há muito teria sucumbido aos imensos trabalhos e perigos que me têm atribulado a existência.

Dizendo isto Gonçalo levou aos lábios respeitosamente a santa imagem, e a apresentou à filha de Oriçanga, para que fizesse o mesmo. Guaraciaba imitou-o com gesto tímido, e disse: — Eu também quisera ter um lindo manitó como este; mas dar-se-á caso que ele também me proteja, como protege a ti? — E por que não, uma vez que o veneres com sincero amor e respeito, e invoques com fé viva a sua proteção? Se ele atende à rogativa do infeliz foragido, a quem as paixões e os desatinos da mocidade arrojaram num pego de desgraças, muito mais piedoso ouvido prestará sem dúvida à tímida súplica da casta e formosa virgem do deserto. Tu o terás um dia, eu to prometo, e sentirás os salutares efeitos de sua miraculosa proteção.

Guaraciaba, que desde a primeira vista sentira pelo jovem estrangeiro uma súbita e viva afeição, ingênua e singela como todas as filhas da floresta, abandonava-se sem escrúpulo a esse sentimento, de que apenas tinha consciência e nem procurava dissimulá-lo. Sua união com Inimá, a quem ela não votava nem ódio nem afeição, era apenas um projeto de família, de que ouvia falar desde o berço, e do qual na infantil singeleza de sua alma não compreendia ainda nem a importância nem o alcance, e assim a inocente dando folgas a essa paixão, que começava a germinar com intensidade em seu coração, mal pensava que criava um insuperável obstáculo à sua união com o jovem cacique. Não assim Gonçalo, que não podendo ser insensível a tão casto e tão sincero amor da virgem indiana, bem previa que esse amor devia tornar-se um dia a origem de tristes complicações e fatais conflitos, e olhava com inquietação para o futuro, que antevia eriçado de dificuldades e perigos; por isso quase sempre uma nuvem de tristeza pairava em sua fronte grave e pensativa.

CAPÍTULO V O TRANSVIO

Logo que Itajiba mais vigoroso se achou em estado de encurvar um arco e ensaiar seus passos pelas sendas da floresta, Guaraciaba, para distraí-lo de sua inação e dos cuidados que pareciam atormentá-lo, convidou-o a um passeio e caçada de aves pelas selvas circunvizinhas. Itajiba teve logo ensejo de mostrar sua maravilhosa destreza em atirar a flecha, com grande prazer de Guaraciaba, que saltava de contente conduzindo para a sua taba uma chusma de avezinhas de variadas cores, derribadas pelas certeiras flechadas de Itajiba.

As roupas velhas e dilaceradas, que Gonçalo trouxera consigo, já não podiam servir a Itajiba; tendo de ser adotado na tribo dos Chavantes forçoso lhe era que se trajasse à maneira dos selvagens. Guaraciaba, auxiliada por suas companheiras, incumbiu-se de vesti-lo e armá-lo com todo o esplendor do luxo selvático. Uma túnica, que lhe descia até os joelhos, enfeitada de penas de brilhantes cores, lhe rodeava a cintura; um carcás formado de pele de uma monstruosa jibóia lhe pendia dos ombros recheado de mortíferas setas.

Em vez do chapéu de couro sombreava-lhe a fronte um diadema de plumas ondulantes de vistosas e brilhantes cores. Um rico tacape e um bem trabalhado arco, que Guaraciaba despendurou da sala de armas de seu pai, foram por ele empunhados. Em forma de manto a pele mosqueada de um enorme jaguar lhe caía pelas espáduas. A estes trajos selváticos Itajiba, pouco afeito a trazer os membros expostos aos rigores do tempo, ajuntou uns borzeguins ou polainas de pele de sucuri, impenetrável à umidade, agasalhou os ombros e o peito com uma espécie de gibão estreito feito de macias e finas peles, apertou o seu cinturão de couro de lontra, ao qual prendeu a sua larga faca, e com estes trajos pareceu aos olhos de todos garboso e belo como um verdadeiro príncipe das florestas.

Os passatempos e caçadas de Itajiba e Guaraciaba repetiam-se todos os dias, e o tempo assim lhes corria suave, como as ondas serenas do pátrio rio à sombra dos arvoredos seculares, e sua mútua afeição, alimentada por aqueles solitários entretenimentos, de dia em dia se aumentava, sem que eles se apercebessem, e se expandia como a flor ignorada e sem nome, que exala seus perfumes na solidão. À medida que cresciam as forças de Itajiba, esses passeios foram-se alargando a maiores distâncias, já deslizando vagarosamente em uma leve piroga ao longo das umbrosas ribanceiras, já pelas veredas escondidas da floresta; e pelo caminho Itajiba fazia cair aos certeiros tiros de seu arco a arara azul ou encarnada, a alva garça, rainha dos lagos, o róseo colhereiro, cujas penas são tão estimadas, o tucano de enorme bico, cujo peito rubro é procurado para enfeite da túnica das virgens, o jaó, o inhambu, a capoeira, cujas carnes são tão tenras e saborosas, e mil outras aves, de cujas lindas penas Guaraciaba com suas hábeis mãos compunha vistosos ornatos para as armas de seus guerreiros.

Guaraciaba tanto tinha de meiga e singela, como de alegre e trêfega; ela se aprazia por vezes em perturbar com encantadoras travessuras as graves e profundas cismas de seu amigo. Ora lesta e subtil como uma lebre sumia-se entre as moitas da floresta, sem que Itajiba o pressentisse; este dando por sua falta, olha inquieto para todos os lados , chama-a gritando seu nome uma e muitas vezes, aplica o ouvido aos ecos; mas Guaraciaba não responde, nem aparece em parte alguma. No auge da inquietação Itajiba perplexo não sabe nem o que pensar nem o que fazer, quando sente por detrás uma ligeiras mãozinhas a lhe tapar os olhos.

— Guaraciaba! lhe diz ele sorrindo, que susto me causaste! oh! não brinques mais por essa forma, que me fazes mal.

— Perdoa-me, Itajiba; quis distrair-te de teus cuidados. Estavas tão triste e pensativo! parece que tens muita saudade dos teus e do teu pai! — Não; pura e formosa filha de Oriçanga, quando estou junto a teu lado, que me importa o resto do mundo?...

Outras vezes com pena das pobres avezinhas, em que Itajiba fazia a mira, ou lhe espantava a caça, ou lhe fazia perder o tiro tocando-lhe o braço no momento de despedir a seta.

Uma vez ambos atravessavam o rio em uma canoa, que Itajiba remava; estavam ainda longe da barranca oposta, quando Guaraciaba súbito dá um grito, salta na água e desaparece. Itajiba pálido de susto pensa que algum monstro do rio, algum jacaré ou sucuri, a arrebatou; sem perder um momento salta na água com a faca em punho, mergulha e surge de novo à tona da água, torna a mergulhar e a surgir, e nada vê senão a canoa rodando rio abaixo sem governo.

Em desesperada ansiedade estava resolvido a morrer naquelas águas antes do que sair delas sem Guaraciaba, quando uma gargalhada vibrante e harmoniosa como o canto da siriema retroa no barranco vizinho. Era Guaraciaba, que de propósito se lançara ao rio, e de um mergulho ganhara a margem. Itajiba ganha de novo a canoa, e dirige-se para o barranco.

— Ó querida e formosa Guaraciaba, diz ele ao chegar entre risonho e grave, por piedade, não brinques mais assim. Olha que um dia, assim como hoje tomei um gracejo teu pela realidade, poderei tomar a realidade por gracejo e faltar-te no perigo.

Um dia a alegria e contentamento, que sempre reinavam nas partidas de caça dos dois selváticos amantes, foram perturbados por um triste, posto que bem simples incidente. Itajiba avistara pousadas sobre um galho de uma alta canjerana duas lindas e grandes juritis de luzidia plumagem, que se beijavam e se afagavam com os encarnados biquinhos, arrulhando de prazer; imediatamente embebe a seta e curva o arco.

— Pobrezinhas! exclama Guaraciaba correndo a estorvá-lo, não as mate, não; deixa-as.

Mas o tiro tinha partido sibilando, e as duas amantes pombas caíram varadas no coração pela mesma seta.

Uma nuvem de tristeza cobriu o coração de Guaraciaba, que nesse dia não brincou nem sorriu mais, um funesto pressentimento a afligia, e aquele acontecimento parecia-lhe um presságio sinistro, mas não sabia de quê, Itajiba em vão procurava dissipar a triste preocupação de sua amiga, já zombando daquela pueril apreensão, já procurando desvanecê-la com razões sérias. Guaraciaba resolveu-se a consultar os pajés sobre a significação daquele nefasto acontecimento. O primeiro a quem se dirigiu respondeu-lhe abanando a cabeça:

— Ah! filha de Oriçanga, semelhante sucesso não pode ser de bom agouro. Resguarda bem teu coração das chamas do amor: teu coração e o daquele a quem amares não poderão ser unidos senão pela morte.

— Em que te pode afligir um fato tão simples, ó bela e mimosa filha do mais poderoso dos caciques? disselhe o venerando Andiara, a quem consultou depois. Essa seta traspassando ao mesmo tempo duas inocentes pombas é o amor unindo para sempre duas almas puras.

Esta engenhosa e consoladora explicação calou no espírito de Guaraciaba, e nesse mesmo dia se desvaneceram todos os seus sombrios pressentimentos.

Gonçalo, que no meio da sociedade civilizada só se tinha afeiçoado por capricho e passageiramente a uma ou outra mulher, agora no meio das selvas sentia brotar com energia em seu coração o gérmen de uma paixão ardente e profunda pela mimosa e encantadora virgem dos Chavantes. Posto que visse que esse sentimento era correspondido de um modo inequívoco pela filha de Oriçanga, nem por isso o futuro se lhe antolhava muito sereno e limpo de tormentas. Sabia que o velho cacique, cioso do lustre de sua descendência, a destinava desde a infância ao jovem e garboso guerreiro Inimá, que também de seu lado a adorava extremosamente, e somente morto renunciaria ao seu amor. E Oriçanga, os pajés, os veteranos da tribo, a nação inteira enfim poderiam ver impassíveis a quebra de tão solenes promessas, e consentiriam de bom grado que a ilustre e formosa noiva de Inimá passasse aos braços de um obscuro estrangeiro, foragido e sem nome? Em outros tempos Gonçalo sem deter-se um momento em nenhuma dessas considerações a teria arrebatado à força de armas e despeito de Oriçanga, de Inimá e dos Chavantes, e teria arrostado o furor da tribo inteira só para possuí-la. Mas os longos infortúnios e reveses por que passara tinham domado um pouco sua índole impaciente e fogosa, tornando-o mais prudente e cauteloso.

Guaraciaba por sua parte ouvia com indiferença desde a infância falar-se em sua futura união com Inimá, e nunca ao nome desse guerreiro sentira palpitar-lhe mais rápido o coração. Porém depois que conheceu o jovem estrangeiro, essa idéia tornou-se um peso para sua alma, e não concebia como poderia ser mulher de Inimá amando Itajiba. Mas seu coração, cheio da confiança que a inocência inspira, repousava no porvir e esperava que o céu aplainaria todas as dificuldades, e portanto abandonava-se sem reserva à paixão que a dominava.

Inimá, retraído na profundez das selvas com alguns dos Chavantes que lhe eram mais afeiçoados, continuava a viver afastado das tabas e quase sem comunicação alguma com o resto da tribo, e o desgraçado amante ignorava ainda que nesse mísero forasteiro, que deixara moribundo e crivado de golpes e somente digno de lástima e piedade, surgia contra ele um poderoso e formidável rival de glória e de amor.

Isolado no fundo das solidões procurava disfarçar o seu pesar e abreviar o tempo ansiosamente esperado de lavar sua afronta, cevando o seu furor nos fragueiros exercícios da caça, e perseguindo animais ferozes, como o touro batido e expelido da manada, que desabafa as iras entre rugidos furiosos escorchando troncos e rasgando a terra com as polidas pontas.

Um dia os dois amantes, enlevados em seus entretenimentos, transpondo arroios, descendo grutas e galgando colinas, não dando fé das distâncias que percorriam, nem das horas que se escoavam rapidamente, esquecidos das tabas, do tempo e do mundo, foram-se alargando mais que de costume em seu passeio pela floresta.

Quando enfim já fatigados e percebendo-se do tempo, que fugia, lembraram-se de encaminhar seus passos de novo para as cabanas, acharam-se em considerável distância, e com o dia já quase a terminar sua carreira. O sol descambava rapidamente para o ocaso, e nuvens bronzeadas, que de espaço em espaço enchiam-se de fogo como estofos de algodão ardente, anunciavam iminente tempestade. Itajiba, que desconhecia aqueles lugares, onde pela primeira vez penetrava, e que se achava algum tanto confundido pelos giros e voltas que dera pela floresta, subiu a uma eminência a fim de procurar orientar-se; mas o negrume do ocidente, impelido por uma rija ventania, começava a apoderar-se de todo o horizonte; o sol se escondera completamente entre um montão de negras e carregadas nuvens, e Itajiba, cercado por todos os lados de horizontes nublados e morros cobertos de florestas, não podia atinar com o rumo das habitações dos Chavantes.

Por si só nada receava Itajiba, afeito a assoberbar todos os contratempos suscitados pelos homens ou pelos elementos; nem tão pouco sentia-se sem coragem para proteger contra quaisquer azares naquelas solidões a frágil e mimosa criatura que tão cheia de confiança o acompanhava. Ele bastaria para Guaraciaba, como Guaraciaba era todo o seu mundo ou antes o seu céu. Mas a sua longa ausência, o sol que baixava, a tempestade e a noite, que se avizinhava, as suspeitas e susto de Oriçanga e de todos os Chavantes crendo perdida sua Guaraciaba e talvez roubada por ele, em quem tão generosamente se fiara, e sobre quem iam recair ainda que por momentos suspeitas da mais negra deslealdade, tudo isto eram reflexões que o enchiam da mais cruel inquietação.

O vento rugia cada vez com mais violência; o céu se abria em cataratas de fogo, e a chuva começava a despejar-se em torrentes; açoitadas pela refega as árvores vergavam-se rangendo e uivando horrivelmente, e de tempos a tempos um tronco arrancado pelo temporal baqueava com temeroso estrondo desabando pelos grotões profundos. Itajiba naquela cruel conjuntura, já esquecido de todos os mais cuidados, só tratou de procurar uma guarida, em que pudesse pôr a salvo de tão tremendo temporal a sua amada Guaraciaba. Mas por toda a parte só via as selvas imensas, que rugiam e curvavam-se ameaçadoras como querendo desabar sobre suas cabeças, e as torrentes que estrugiam rolando troncos e rochedos pelas quebradas inacessíveis. Tomando Guaraciaba pela mão e amparando-a contra a fúria do vento, que parecia querer arrancá-la do solo e arrebatá-la pelos ares, Itajiba foi descendo para um grotão, no fundo do qual roncava um ribeirão encachoeirado entre rochedos. Não longe da ribanceira enorme lajedo servia de teto a uma vasta e profunda furna, cuja larga entrada se formava sobre uma esplanada, por baixo da qual a torrente turva e espumosa rolava em catadupas. Essa furna medonha à margem de um abismo, ninho talvez de panteras e serpentes, tornou-se nesse dia como a alcova misteriosa que acolheu em seu seio dois amantes felizes, que a tempestade surpreendeu desgarrados de seus lares, e os abrigou contra a fúria dos elementos desencadeados. Entretanto Guaraciaba, perdida no deserto com seu amante em meio daquela horrorosa borrasca, não mostrava pavor nem inquietação alguma, e sorria-se ao perigo, como a gaivota unindo seus alegres pios ao rugir do furacão dos mares. É que ela se fiava na sua inocência e na eficaz proteção de seu valente e dedicado amante. Ali no interior daquela furna os dois amantes se assentaram ao lado um do outro sobre um musgoso banco de pedra talhado pela natureza, esperando que a tormenta se amainasse. Itajiba enlaçava o braço em torno do colo de Guaraciaba, e lhe apertava as mãos entre as suas, enquanto esta fitava nele seus olhos negros cheios ao mesmo tempo de amor e de timidez.

CAPÍTULO VI - NA LAPA

As paixões grandes gostam de expandir-se em ocasiões solenes em face dos espetáculos grandiosos da natureza, em meio das solidões. Itajiba, com o coração a transbordar de emoção e de amor, pensou que o céu lhe enviara aquela tremenda tempestade e lhe mostrara aquele recôndito e misterioso abrigo de propósito para que tivesse ensejo de revelar à formosa filha de Oriçanga toda a força e ardor imenso de sua paixão, e todos os cuidados e desassossegos que o acompanhavam. Enquanto pois em roda e por fora da caverna urravam os furacões, de instante a instante os raios estalavam, a torrente entumecida despenhava-se com fragor na profundeza do abismo, e a tormenta desabava furiosa dilacerando o manto verde-negro das florestas, uma paixão imensa como os desertos onde engendrou-se, pura como a casta e inocente virgem que dela era objeto, se desafogava em palavras repassadas de ternura no seio da selvática beleza que a tinha sabido inspirar.

— Ó minha mui formosa e querida Guaraciaba, murmurava Itajiba aos pés da filha de Oriçanga; se teu coração não adivinhou nem compreendeu o puro e ardente afeto que do fundo da alma te consagro, eu não sei por que maneira, nem com que palavras te possa explicá-lo, pois nem na nossa linguagem das florestas, nem naquela que os imboabas nossos perseguidores me ensinaram, não existem expressões que possam dar idéia dos suaves transportes desta paixão imensa e profunda, que tu, ó a mais formosa das filhas da floresta, só tu soubeste inspirar me. Paixões como esta, que me devora, não as pode explicar a língua dos homens; só os anjos do céu poderiam exprimi-las em seus cantares de inefável harmonia. Ah! e como poderia eu não amar-te, a ti, manitó celeste enviado por Tupá para velar sobre meus dias, a ti, que com teus carinhosos desvelos, com teu divinal sorriso me restituíste à vida, quando eu era já cadáver, a ti enfim, que com teu amor tornando-me o mais feliz dos viventes, vens abrir-me de novo as portas do porvir e da esperança!...

A estas palavras Itajiba cobriu de ardentes beijos as mãos de Guaraciaba, que tinha entre as suas, levantou-se e assentou-se de novo ao lado dela, continuou em tom mais grave: — Mas ah! minha querida Guaraciaba, quantos embaraços e obstáculos invencíveis não vêm opor-se ao complemento de nossa felicidade! e quão incerta é a nossa sorte no futuro! Teu pai desde o berço destinou-te ao belo e valente Inimá, que também te adora com extremo; e teu pai jamais consentirá em quebrar tão sagrado compromisso. Os guerreiros de tua tribo de há muito te consideram e aclamam à futura esposa desse brilhante chefe, e sem dúvida se oporão resolutamente a que sejas entregue ao obscuro estrangeiro foragido. Bem sei que as florestas imensas estão à nossa disposição, e que em qualquer canto da terra, sem nada mais que o nosso amor, seríamos felizes, como o somos agora dentro desta lapa zombando das tormentas, que aí rugem pelo mundo. Mas tu bem sabes, jurei lealdade e prometi meus serviços a Oriçanga e à sua tribo, e a nossa fuga seria uma torpe traição, em que nem eu nem tu consentiríamos jamais. Entretanto eu te amo com amor inextinguível, e creio que nem na terra nem no céu há poder para apagar esta chama viva e pura que arde-me no coração, e nem de leve posso suportar a idéia desesperadora de perder-te um dia. Ó Guaraciaba, minha doce e pura Guaraciaba! Pudessem estes momentos, que aqui passamos sós nesta caverna ignorada, tendo aos pés essa torrente, amparados por este penedo e guardados pela tempestade, pudessem estes momentos prolongar-se por toda a eternidade! Estas palavras coavam docemente pelos atentos ouvidos de Guaraciaba, e lhe ressoavam na alma como um hino celestial. Ela sentia-se ao mesmo tempo enternecida e ufana por ouvir aquele altivo e indômito guerreiro pronunciar a seus pés palavras do mais submisso e mavioso amor, e respondeu-lhe cheia de emoção: — Itajiba, tuas falas são mais doces para a minha alma do que os favos da jataí, ou o suco delicioso do abacaxi. Elas fazem-me palpitar o coração como a flor que estremece ao bafejo perfumado das brisas da manhã. Tu me amas, bem o sei: e o amor que te consagro, também não é para ti nenhum segredo, embora meus lábios não o tenham revelado. A flor mesmo nas trevas se trai pelo seu perfume; a fonte do deserto escondida entre os rochedos se revela por seu murmúrio ao caminhante sequioso. Desde os primeiros momentos tu viste meu coração abrir-se para ti, como a flor do manacá aos primeiros raios do sol. Sinto que não poderei viver mais senão ao teu lado e à tua sombra; se eles quiserem separar-me de ti, ah! morrerei como a flor que da sombra orvalhada do bosque foi transplantada para os areais de fogo. Mas, Itajiba, confiemos na proteção do céu; Tupá é bom e ampara os amores puros. Inimá bem depressa se convencerá de que o não posso amar, procurará esquecer-se de mim, e desistirá de suas pretensões; e meu pai desligado de suas promessas abençoará nosso amor. Amemo-nos, Itajiba, amemo-nos cada vez mais, se é possível, e o céu encarregará de nosso futuro.

E dizendo estas palavras Guaraciaba lançava seus mimosos braços ao colo de Itajiba e o bafejava com seu amor, como a baunilha que enlaça seus tenros vimes ao robusto e altivo tronco do deserto, e lhe distila em torno seu delicioso perfume.

Itajiba, bebendo com avidez as suaves falas de Guaraciaba, foi-se deixando também enlevar pela ingênua e viva confiança que aquela alma inocente depositava na proteção do céu. A tempestade tinha sido tão violenta quanto passageira. O mesmo vento impetuoso que a trouxera a varria rapidamente do firmamento e impelia as nuvens dilaceradas para além das últimas montanhas do levante, como os esquadrões em debandada de um exército derrotado, que foge atropeladamente diante do inimigo vitorioso. O sol já quase tocando ao ocaso, desembaraçado das nuvens que o afrontavam, vibrou subitamente seus raios horizontais por entre os ramos orvalhados da floresta, e um brando clarão róseo insinuando-se pela entrada da caverna iluminou-a de suave crepúsculo e revestiu-a do aspecto fantástico de uma gruta de fadas.

— Olha, Itajiba, exclama sorrindo a filha de Oriçanga, Tupá mandou-nos a tempestade e encaminhou nossos passos para esta caverna ignorada pelos homens a fim de que as juras de nosso amor fossem proferidas longe de vistas curiosas, e não ecoassem em ouvidos estranhos. Vê como ele agora nos envia um raio de esperança e festeja nossa felicidade!...

Itajiba transportado de amor enlaçou ao peito a fronte radiante de Guaraciaba; já seus lábios se tocavam nas delícias do primeiro beijo de amor... súbito um rumor, que se avizinha, chega-lhes aos ouvidos; ouvem-se gritos selváticos, latir de cães, sons de borés e tropear de caçadores. Este estrugido se avizinhava de mais em mais; um instante depois um ligeiro rumor se fez sentir mesmo ao pé da entrada da furna; Itajiba e Guaraciaba sobressaltados olham para aquele lugar e levantam-se de súbito dando um grito de terror . Uma enorme canguçu negra se apresenta parada á porta da gruta com os olhos chamejantes, rosnando e mostrando as agudas presas como que pasmada e indignada de encontrar em seu covil aqueles estranhos hóspedes. Tão perto deles se achava a fera, que Itajiba não tendo espaço suficiente para enristar a flecha, brandiu contra ela o seu formidável tacape. O monstro surpreendido por aquele brusco ataque recuou dois saltos e de novo voltou a face ao seu agressor; este em pé à porta da gruta já de arco feito procurava segurar a mira no coração da onça, quando cheio de pasmo dá com os olhos em um guerreiro, que em pé sobre a esplanada exterior da furna a uns dez passos de distância por detrás da fera, igualmente de arco encurvado também a encarava com assombro, e parecia como que a sua sombra ou o reflexo de sua figura. Era Inimá, que seguido de alguns companheiros perseguia aquela onça e de flecha feita igualmente fazia a mira... contra ele ou contra a fera, que se interpunha entre os dois na mesma direção? Não o pôde saber Itajiba, que em seu assombro esqueceu a fera, que diante dele rugia apresentando as presas ameaçadoras e agitando a comprida cauda a estorcer-se e bater-lhe os flancos como uma jararaca enfurecida. Tendo em frente dois inimigos igualmente ferozes como que hesitava em qual dos dois empregaria o primeiro tiro e aguardava o que primeiro atacasse. Inimá porém, que entre as sombras da gruta entrevira Guaraciaba, espumava e batia os dentes de furor, e na sofreguidão de sua cólera com tal fúria esticou o arco, que este partiu em suas mãos, e a flecha caiu-lhe inerte aos pés. A este rumor a onça, cujos olhos até então estavam constantemente fixos em Itajiba, volta-se rapidamente, em dois pulos se precipita sobre Inimá, tomba-o de costas, calca-lhe o peito com as enormes patas, e apresenta aos cães, que começam a assaltá-la, a boca escancarada guarnecida de buídos dentes, à semelhança de um riso de feroz escárnio. Os companheiros de Inimá, não podendo acompanhar de perto seu infatigável e valente chefe, ainda não eram chegados; mais um instante só e Inimá teria terminado ingloriamente a existência às garras daquele feroz animal. Estava nas mãos de Itajiba o ver-se para sempre livre de seu poderoso rival, sem que sua morte pudesse por maneira alguma serlhe imputada. Mas tal pensamento nem por sombra lhe passou pelo espírito, que a isso se recusava absolutamente seu coração leal e generoso. Uma bem despedida seta partiu de seu arco e voou silvando ao coração do monstro, que expirou estrebuchando em seu sangue. Inimá levantou-se desfigurado e torvo, com o peito sangrento lacerado pelas unhas da terrível canguçu. O peito lhe arquejava com violência e seus olhos sanguíneos e desvairados procuravam Itajiba; apenas o avista, grita-lhe com voz convulsa: — Bem lançada flecha, guerreiro!... cumpriste com destreza o teu dever. Quando o canguçu acossado encontra-se com o jaguar, este o mata, e oferece assim dobrada presa ao caçador. O jaguar se refugia na toca do canguçu, onde o caçador o veio surpreender. É pois forçoso agora que pelejemos. Miserável forasteiro, que vieste trazer a zizânia e a discórdia a nossas tabas, desta vez não me escaparás. Dize-me, insolente e traidor imboaba, como ousaste roubar à taba do cacique essa virgem que te acompanha? Contavas acaso conduzi-la a salvamento para o teu covil tenebroso?... Mas tu vês; Tupá é justiceiro; foi ele que em seus ocultos desígnios dirigiu para aqui meus passos, dando-me por guia essa fera, que acaba de morrer às tuas mãos, como tu morrerás às minhas em punição de teu infame atentado. E tu que fizeste, desgraçada Guaraciaba, incauta pomba, que te deixaste enlear nos laços da astuciosa serpente? como te animaste cobrir assim de vergonha e opróbrio as cãs veneráveis de teu pai?... tu que eras o manitó tutelar de nossa tribo, serás de hoje em diante a sua ignomínia, e verás teu nome pronunciado com horror!...

A raiva, o pasmo, o ciúme de Inimá, vendo a sua adorada Guaraciaba transviada e fugitiva por aqueles desertos em companhia de um estrangeiro, que ele detestava, tinham-lhe ofuscado completamente o espírito, e extinguido em seu coração todo o sentimento nobre, todo o instinto de generosidade. Arrebatando um arco a um dos companheiros, que por fim vinham chegando de tropel, embebe-lhe uma flecha e a dispara contra Itajiba, porém com tal fúria e cegueira, que a flecha passou sibilando aos ouvidos de Itajiba, roçou pelo cocar de plumas de Guaraciaba, que se achava por detrás dele, e sem tocar em ninguém foi-se perder zunindo lugubremente na profundez da furna.

Itajiba, que até aquele momento ouvira tudo com impassível serenidade, e só tratava de guardar-se a si e a sua formosa companheira da furiosa agressão do exasperado cacique, rompe enfim o silêncio: — Inimá, brada ele, és um vil e um cobarde tu, que à testa de tantos guerreiros não te pejas de insultar a um estrangeiro só e sem outra defesa mais que as suas armas, e destilas de teus lábios o veneno da calúnia contra a filha de teu chefe, contra uma virgem adorável digna do respeito e do culto dos homens. És um vil e um cobarde tu, que voltas tuas armas contra aquele que há poucos instantes salvou-te a vida podendo te deixar morrer vilmente entre as garras de uma fera...

Inimá espumando de raiva não o deixou prosseguir, lança-se de um salto sobre Itajiba e atira-lhe um furioso golpe de tacape. Itajiba destro como a onça desvia-se rapidamente dando um pulo para trás, e com a faca em uma das mãos e o tacape na outra está pronto e em atitude de pelejar.

Aquela caverna ia ser testemunha de uma luta tão feroz e sanguinolenta como essa que Itajiba já tivera a sustentar ao chegar entre os Chavantes; mas ah! desta vez ele não quereria morrer, pois o prendia com os mais suaves laços ao mundo e à vida o amor da linda e inocente criatura que ali se achava testemunhando todas aquelas cenas de horror. Entretanto o combate era dos mais arriscados e desiguais; embora matasse Inimá, Itajiba teria de travar-se depois com os cinco ou seis guerreiros da comitiva daquele. Mas o ânimo não lhe franqueia, encomenda-se com mais fervor que nunca à celestial protetora e resoluto aguarda novo ataque de Inimá. Guaraciaba, porém, lança-se no meio dos dois contendores, e voltando-se para Inimá com ar altivo e senhoril exclama:

— Detém-te, Inimá! que furor te cega? é com esse procedimento atroz e indigno que esperas merecer um dia ter a teu lado, em tua taba, a filha do nobre e valente Oriçanga? é assim que pretendes tornar-te digno de comandar a heróica e generosa nação dos Chavantes?... no furor insensato que te alucina, ousas lançar injúrias e baldões contra a filha de teu chefe, e atentar contra a vida daquele que a acompanha e protege por estas solidões! sabes acaso o motivo que nos obrigou a procurar este abrigo, onde nos vieste encontrar? quem te disse que fugimos oculta e traiçoeiramente da cabana de Oriçanga?... Mas não é para contigo, Inimá, que devo justificar-me desta singular ocorrência. Guerreiros, continua ela dirigindo-se aos companheiros de Inimá, guiai-me a mim e a este estrangeiro às nossas tabas e conduzi-nos à presença de meu pai; a ele e a mais ninguém devo dar satisfação do meu procedimento.

Falando assim o peito de Guaraciaba ofegava de indignação, seus olhos cintilavam como diamantes entre as sombras da caverna, e seu talhe e colo elevavam-se garbosos como o da ema, rainha das campinas, quando irritada se ergue contra aquele que pretende roubar-lhe o ninho. Em seu orgulhoso porte, na altivez de sua nobre linguagem, revelava-se a descendente de heróicos caciques, a verdadeira princesa das florestas. A estas nobres e severas palavras de Guaraciaba Inimá sentiu gelar-se-lhe no coração toda a sua cólera, e esteve a ponto de cair de rojo a seus pés suplicando-lhe perdão; mas Itajiba ali estava, o orgulho o conteve e balbuciou apenas timidamente estas palavras: — Perdoa-me, formosa filha de Oriçanga, se te ofendi com minhas rudes falas; a cólera, o amor, o ciúme me desvairam... Vai, gentil Guaraciaba , vai tranqüila recolher-te à sombra da taba, onde sem dúvida teu pai te espera na mais ansiosa inquietação. Mas esse vil forasteiro, que te acompanha, esse sedutor infame pertence-me; há entre mim e ele um pleito de vida e morte, o qual é forçoso que hoje mesmo fique decidido.

— Inimá, bradou ela com império, este estrangeiro acompanhou-me por vontade minha, e deve comigo voltar às tabas. Itajiba, acompanha-me; guerreiros, segui-me e guiai-nos à taba de meu pai.

Inimá, subjugado por aquelas imperiosas palavras, nada replicou; receava mais a indignação daquela delicada virgem do que todo o valor e destreza de seu audaz e intrépido rival. Comprimiu pois todo o seu orgulho bem no fundo da alma, e acompanhou silenciosamente aos outros sem nada compreender das intenções da filha de Oriçanga. Mas aquela submissão e deferência já vinham tarde e de nada já lhe podiam servir. A sentença do jovem cacique estava irrevogavelmente lavrada no espírito de Guaraciaba.

CAPÍTULO VII - A VOLTA

Grande agitação e ansiedade reinava no arraial dos Chavantes. Há muito que as sombras da noite tinham descido sobre a terra, e nem Guaraciaba nem Itajiba, que desde pela manhã vagavam pelas florestas, não apareciam.

Que grave acidente lhes teria sobrevindo, que assim os retinha à noite pelos desertos? a tempestade tê-los-ia desorientado, e vagariam perdidos pelas obscuras selvas sem acharem quem os guiasse às tabas? ou talvez a cheia das torrentes tivesse arrebatado, o raio fulminado, ou as feras devorado aqueles imprudentes e descuidados caçadores? ou talvez, quem sabe? — e esta era a mais plausível e a mais cruel das conjecturas, — talvez o astuto e fementido estrangeiro, tendo seduzido o singelo coração de Guaraciaba, traindo infamemente as suas promessas, pagasse a generosa proteção e hospitalidade que encontrara na taba de Oriçanga, roubando-lhe a filha, último ramo de sua geração, e única alegria e consolação de seus velhos dias? Entre todas estas tristes apreensões se dividiam os espíritos preocupados e inquietos com a estranha desaparição da filha do cacique, e de seu hóspede. Já por ordem de Oriçanga grande número de pessoas batiam as florestas por todos os lados à pista dos dois amantes desgarrados ou fugitivos. E que ânsias, que dolorosas angústias não dilaceravam o coração do idoso chefe, que se via em trances de perder sua única e adorada filha, alegria e orgulho de sua velhice! Desatinado e louco não parava um instante em parte alguma; ora se assentava ao pé das cinzas de seu fogo extinto arrancando as cãs, e proferindo imprecações; ora em pé à porta da cabana olhava para todos os lados... a escuridão da noite; escutava a todos os instantes... o silêncio das solidões; a cada momento expedia mais um mais outro batedor para estes e aqueles sítios, e já quase a tribo inteira, deixando desertas as tabas, percorria as florestas em todas as direções em procura dos dois transviados.

Somente o velho Andiara parecia estar tranqüilo e pouco cuidadoso do sucesso, que a todos preocupava. Esse sábio e experiente pajé, que sabia ler no coração dos homens, bem tinha notado o ardente e vivo amor que os dois jovens se votavam um a outro, e longe de condenar esse amor e procurar estorvá-lo, ele o aprovava e aplaudia interiormente, pois tinha em pouco apreço o jovem Inimá, que não julgava digno do comando de sua nação, e concebera desde o começo a mais sincera e profunda estima e admiração por Itajiba, e tinha para si que ele seria capaz de elevar a nação ao mais alto grau de poder e prosperidade.

Andiara pois, que observava e protegia os amores dos dois jovens, e que lia claramente em seus corações, adivinhara o verdadeiro motivo de sua demora, e procurando acalmar a inquietação do velho cacique dizia-lhe: — Nada receies, Oriçanga, sobre a sorte dos dois jovens passeadores. Sem dúvida procurando abrigar-se da tormenta, que os acolheu longe daqui, asilaram-se no seio de alguma gruta, ou no côncavo de algum velho tronco, e aí esperando que a tormenta amainasse, surpreendidos pela noite adormeceram no sono descuidado da inocência, como duas aves errantes, que ao cair das trevas pousam à sombra do primeiro tronco que encontram em seu caminho.

Tranquiliza-te; Guaraciaba e Itajiba te amam e te veneram muito para te fugirem traiçoeiramente. Eles se amam e Tupá vela sobre eles.

Enfim um murmúrio surdo começou a levantar-se na extremidade das habitações, e brandões acesos ondearam através da escuridão da noite. Um grupo de guerreiros avança pela frente das tabas ao longo da margem do rio. No meio deles marchavam Guaraciaba e Itajiba opressos de fadiga, mas com rosto tranqüilo e sereno. Atrás do séquito um vulto silencioso e isolado seguia com ar sinistro; era Inimá. Pelo caminho o séquito se engrossava cada vez mais e agitava-se soltando grandes clamores. Estes clamores eram em grande parte aclamações de alegria pelo feliz reaparecimento de Guaraciaba; muitos deles porém eram também gritos ameaçadores e imprecações contra aquele que eles julgavam ter desencaminhado e pretendido roubar deslealmente a filha do cacique. Já os ânimos se amotinavam, e muitos guerreiros, ignorando as circunstâncias daquele fatal sucesso, com gestos ameaçadores estavam prestes a se lançarem sobre Itajiba. Felizmente chegaram sem incidente algum à taba do velho cacique.

Guaraciaba saltou ao colo de seu pai, que a esperava à porta com os braços estendidos e chorou de alegria apertandoa contra o peito. Oriçanga ordenou que se retirasse a turba que se apinhava tumultuosa à porta de sua cabana, e ficou com Guaraciaba e Itajiba.

— Querida filha, exclama ele, que mau espírito te desencaminhou por essas selvas, e ia-te desgarrando da sombra da taba paterna?... Ah! quantas angústias, quantos frios sustos não embebeste no coração de teu velho pai, demorando-te assim até as horas mortas da noite entre os perigos da floresta tenebrosa!... Esse estrangeiro, que te acompanha, por que não te guiou ele mais cedo às nossas tabas? Oh! minha Guaraciaba, por Tupá eu te peço, dizeme, não seria ele acaso quem de propósito transviou-te procurando roubar vil e traiçoeiramente a minha filha, único bem que o céu ainda me conserva, a Inimá a esposa que eu lhe tinha prometido, e à tribo o último ramo de um antigo e ilustre tronco de heróis já quase extinto?... Ai dele se tal era seu louco intento! por enorme e cruel que seja não haverá castigo que seja excessivo para punir tão nefanda traição.

— Tranqüiliza-te, meu pai, atalhou Guaraciaba, nem eu nem Itajiba cometemos crime algum, nem praticamos ação de que possamos nos envergonhar diante de ti. Eu vou contar-te fielmente a história dos acontecimentos que nos detiveram na floresta até estas horas, e se ainda me acreditas, meu pai, verás que somos inocentes e nos perdoarás.

Então Guaraciaba, com a franqueza e ingenuidade de uma alma pura, referiu-lhe por miúdo o seu descaminho, a tempestade que os assaltou e os obrigou a procurarem refúgio dentro de uma furna; pinta-lhe com calor e vivacidade, como quem se achava ainda sob a impressão dos acontecimentos, as terríveis cenas que ali tiveram lugar, e por fim em tom grave e triste acrescentou estas palavras: — Agora, pai querido, forçoso é revelar-te um sentimento, que não devo ocultar-te por mais tempo; ah! e quanto me custa fazê-lo, pois sei que vou magoar-te o coração.

— Filha, se para repouso de teu coração é preciso que me faças essa revelação, fala, que estou pronto a ouvirte, embora isso deva doer-me como uma seta envenenada.

— Perdoa-me, meu pai, se vou de encontro às tuas vistas a meu respeito; mas devo hoje declarar-te com franqueza, eu não devo jamais ser esposa de Inimá.

— Que dizes, filha? pois queres que eu falte a minhas sagradas promessas? — Mas, meu pai, se esse que destinais para meu companheiro e que deve substituir-te no comando da tribo, tornar-se por suas ações indigno dessa hora, se procede como um vil e vai deslustrar teu nome e tua geração, desde esse momento estás desligado de tuas promessas. Desde o berço ouço falar que sou destinada a Inimá, mas posto que não lhe tivesse repugnância, contudo nunca ao seu nome palpitou-me o coração, nem suspirou por essa união. Hoje, porém, tudo mudou-se; sua presença me importuna, seu amor me atormenta, e essa união, com que me acenam, tornou-se para mim uma ameaça de morte. Se é a sucessão no governo da tribo que ele ambiciona, dá-lha, meu pai, mas dá-lha sem mim, que de bom grado a ela renuncio, e nem aspiro a outra felicidade senão a que é dada pelo amor.

— Pelo amor! e acaso amas tu alguém, que não seja Inimá? — Ah! meu pai! desde que meus olhos viram Itajiba, meu coração voou para ele.

— Oh! sim! meu coração parece-me que já tinha adivinhado esse fatal desvio de tuas afeições... e não te envergonhas de amar um estrangeiro foragido, que o acaso arrojou em nossas praias? — Não, meu pai; antes me ufano disso e me desvaneço de ser por ele amada, pois que esse estrangeiro é um herói.

— Ah! Guaraciaba, minha querida, raio de luz que me alumias os tenebrosos caminhos da vida, flor mimosa que embalsamas com teus aromas minha taba solitária, em que cruel ansiedade vem colocar-me o teu imprudente amor! Devo eu despedaçar teu coração contrariando tuas afeições, e impondo-te um jugo que detestas? Ah! não; amo-te muito para poder fazê-lo. Mas posso eu sem quebra de minha lealdade iludir as esperanças por tão longo tempo alimentadas do jovem cacique, e faltar vergonhosamente a meus sagrados compromissos?... nunca; antes a morte do que um tal opróbrio. Minha mente vacila incerta entre esses dois tremendos escolhos. Só a voz inspirada dos pajés que sondam os arcanos do porvir e interpretam a vontade do céu, poderá guiar-me na penosa escuridão do meu espírito. Amanhã, ao primeiro canto das aves na floresta, eu os farei chamar na minha taba, e com seus sábios conselhos eles me inspirarão por certo o modo mais acertado de proceder em tão difícil conjuntura. Entretanto, cara filha, vai repousar das fadigas e tribulações deste mal-agourado dia, enquanto eu velo sobre tua sorte meditando os meios de torná-la feliz.

Inimá de volta às tabas, das quais vivia retirado desde o dia em que trouxera Itajiba moribundo à presença de Oriçanga, foi minuciosamente informado por seus amigos de tudo que nelas ocorrera durante a sua ausência. A pretendida origem e nacionalidade de Itajiba, as singulares aventuras de sua vida, que já andavam de boca em boca, seus oferecimentos e a pretensão que manifestara de ser adotado na tribo, o agasalho e cordial hospitalidade que encontrara na cabana do cacique, a viva simpatia e interesse que inspirara a Guaraciaba, seus passeios e caçadas quotidianas pelas selvas vizinhas, a cega condescendência de Oriçanga e a proteção não disfarçada de Andiara para com os dois amantes, tudo isso foi sabido nessa mesma noite por Inimá entre transportes de indignação e furor.

As coisas tinham tomado uma fatal direção, que ele no fundo de suas selvas estava bem longe de adivinhar.

Naquele mísero estrangeiro, que derrubara a um golpe de seu tacape, e a quem de propósito procurara poupar a vida a fim de tornar mais solene o seu triunfo sacrificando-o no dia de suas bodas, via surgir um temível e poderoso rival a suas ambiciosas esperanças de amor e de poder. Inimá bem o compreendeu, e tratou desde logo de estorvar por todos os meios o progresso da fortuna daquele audaz aventureiro. Entregue à raiva e ao ciúme, que lhe envenenava o coração, perturbava-lhe o espírito, andava de taba atiçando o ódio e a zizânia, concitando os ânimos dos Chavantes já predispostos pelos acontecimentos do dia contra Itajiba, ao qual pintava como um embusteiro, um enviado dos imboabas, que viera astutamente insinuar-se entre eles para entregá-los traiçoeiramente aos seus perseguidores.

Comentando os acontecimentos mostrava-lhes como o ardiloso forasteiro, para chegar a seus fins, com fingida humildade e submissão conseguira captar a benevolência do velho e crédulo cacique, e procurara com suas artes infernais seduzir sua filha para dela fazer um instrumento de suas abomináveis maquinações e planos de traição. Fazia-lhes ver, também, que Oriçanga, a quem o peso dos anos tornara imbecil e caduco, com suas imprudentes complacências, com sua estulta credulidade, deixava o campo inteiramente livre às pérfidas maquinações do astuto forasteiro; que eles Chavantes nada podiam esperar mais de um chefe que a idade tinha tornado idiota a tal ponto, que via sem indignação sua filha entregar-se sem reserva a uma vergonhosa paixão pelo ignóbil forasteiro, que sem injúria e desonra da briosa nação dos Chavantes não podia nem mais um dia permanecer vivo entre eles. Quanto a si, Inimá considerava-se instrumento escolhido por Tupá para destruir os sinistros planos e punir a audácia do estrangeiro; os acontecimentos até ali ocorridos bem o estavam revelando, e ele contava com o valor e dedicação de seus bravos companheiros para ajudá-lo a bem desempenhar sua missão.

Estas falas apaixonadas de Inimá caíram nos ânimos de grande parte daqueles selvagens como a chama lançada em tórridas macegas nos ardentes e ventosos dias de Agosto. Os amigos de Inimá protestavam alto e bom som, que na aurora seguinte haviam de arrancar da taba do cacique o traidor estrangeiro, arrastá-lo por diante das tabas, arrancar-lhe os olhos e a língua, e atirá-lo no fundo do rio com uma pedra atada ao pescoço.

Também Itajiba por sua parte já contava entre os Chavantes não pequeno número de camaradas dedicados, dos quais soube granjear a estima e afeição por seu caráter naturalmente bom e generoso, e a quem por seus atos de valor, por sua força e destreza inexcedíveis, inspirava respeito e admiração. Estes o defenderiam com ardor a todo o trance, e se oporiam resolutamente à execução do plano atroz de seus inimigos.

Os espíritos divididos se irritavam, e a noite, que se passou quase toda sem dormir em roda das fogueiras em calorosas altercações, parecia pressagiar para o dia seguinte graves e temerosos acontecimentos.

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