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Canto da Solidão

bernardo guimarães

O Devanear de um cético

Tout corps som ombre et tout
esprit son doute. (V. Hugo)

Ai da avezinha, que a tormenta um dia
Desgarrara da sombra de seus bosques,
Arrojando-a em desertos desabridos
De brônzeo céu, de férvidas areias;
Adeja, voa, paira.... nem um ramo
Nem uma sombra encontra onde repouse,
E voa, e voa ainda, ate que o alento
De todo lhe falece - colhe as asas,
Cai na areia de fogo, arqueja, e morre....
Tal é, minh'alma, o fado teu na terra;
O tufão da descrença desvairou-te
Por desertos sem fim, onde em vão buscas
Um abrigo onde pouses, uma fonte
Onde apagues a sede que te abrasa!
................................................................
Ó mortal, por que assim teus olhos cravas
Na abóbada do céu? - Queres ver nela
Decifrado o mistério inescrutável
Do teu ser, e dos seres que te cercam?
Em vão seu pensamento audaz procura
Arrancar-se das trevas que o circundam,
E no ardido vôo abalançar-se
Às regiões da luz e da verdade;
Baldado afã! - no espaço ei-lo perdido,
Como astro desgarrado de sua órbita,
Errando às tontas na amplidão dos vácuo!
Jamais pretendas estender teus vôos
Além do escasso e pálido horizonte
Que mão fatal em torno te há traçado....
Com barreira de ferro o espaço e o tempo
Em acanhado círculo fecharam
Tua pobre razão: - em vão forcejas
Por transpor essa meta inexorável;
Os teus domínios entre a terra e os astros,
Entre o túmulo e o berço estão prescritos:
Além, que enxergas tu? - o vácuo e o nada!...

Oh! feliz quadra aquela, em que eu dormia
Embalado em meu sono descuidoso
No tranqüilo regaço da ignorância;
Em que minh'alma, como fonte límpida
Dos ventos resguardada em quieto abrigo,
Da fé os raios puros refletia!
Mas num dia fatal encosto à boca
A taça da ciência - senti sede
Inextinguível a crestar-me os lábios;
Traguei-a toda inteira -, mas encontro
Por fim travor de fel - era veneno,
Que no fundo continha -, era incerteza!
Oh! desde então o espírito da dúvida,
Como abutre sinistro, de contínuo
Me paira sobre o espírito, e lhe entorna
Das turvas asas a funérea sombra!
De eterna maldição era bem digno
Quem primeiro tocou com mão sacrílega
Da ciência na árvore vedada
E nos legou seus venenosos frutos...

Se o verbo criador pairando um dia
Sobre a face do abismo, a um só aceno
Evocava do nada a natureza,
E do seio do caos surgir fazia
A harmonia, a beleza, a luz, a ordem,
Por que deixou o espírito do homem
Sepulto ainda em tão profundas trevas,
A debater-se neste caos sombrio,
Onde embriões informes tumultuam,
Inda aguardando a voz que à luz os chame?

Quando, espancando as sombras sonolentas,
Surge a aurora no coche radiante,
Inundado de luz o firmamento,
Entre o rumor dos vivos que despertam,
Levanto a minha voz, e ao sol, que surge,
Pergunto: - Onde está Deus? - ante meus olhos
A noite os véus diáfonos desdobra,
Vertendo sobre a terra almo silêncio,
Propício ao cismador - então minha alma
Desprende o vôo nos etéreos páramos,
Além dos sóis, dos mundos, dos cometas,
Varando afouta a profundez do espaço,
Anelando entrever na imensidade
A eterna fonte, donde a luz emana...
Ó pálidos fanais, trêmulos círios,
Que nas esferas guiais da noite o carro,
Planetas, que em cadências harmoniosa
No éter cristalino ides boiando,
Dizei-me - onde está Deus? - sabeis se existe
Um ente, cuja mão eterna e sábia
Vos esparziu pela extensão do vácuo,
Ou do seio do caos desbrochastes
Por insondável lei do cego acaso?
Conheceis esse rei, que rege e guia
No espaço infindo vosso errante curso?
Eia, dizei-me, em que regiões ignotas
Se eleva o trono seu inacessível?

Mas em vão enterrogo os céus e os astros,
Em vão do espaço a imensidão percorro
Do pensamento as asas fatigando!
Em vão - todo o universo imóvel, mudo,
Sorrir parece de meu vão desejo!
Dúvida - eis a palavra que eu encontro
Escrita em toda a parte - ela na terra,
E no livro dos céus vejo gravada,
É ela que a harmonia das esferas
Entoa sem cessar a meus ouvidos!

Vinde, ó sábios, alâmpadas brilhantes,
Que ardestes sobre as aras da ciência,
Agora desdobrai ante meus olhos
Essas páginas, onde meditando
Em profundo cismar cair deixastes
De vosso gênio as vívidas centelhas:
Dai-me o fio subtil, que me conduza
Pelo vosso intricado labirinto:
Rasgai-me a venda, que me enubla os olhos,
Guiai meus passos, que embrenhar-me quero
Do raciocínio das regiões sombrias,
E surpreender no seio de atrás nuvens
O escondido segredo...

Oh! louco intento!...
Em mil vigílias palejou-me a fronte,
E amorteceu-se o lume de seus olhos
A sondar esse abismo tenebroso,
Vasto e profundo, em que as mil hipóteses,
Os erros mil, os engenhosos sonhos,
Os confusos sistemas se debatem,
Se confundem, se roçam, se abalroam,
Em um caos sem fim turbilhonando:
Atento a lhe escrutar o seio lôbrego
Em vão cansei-me; nesse afã penoso
Uma negra vertigem pouco e pouco
Me enubla a mente, e a deixa desvairada
No escuro abismo flutuando incerta!
................................................................
Filosofia, dom mesquinho e frágil,
Farol enganador de escasso lume,
Tu só geras um pálido crepúsculo,
Onde giram fantasmas nebulosos,
Dúbias visões, que o espírito desvairam
Num caos de intermináveis conjeturas.
Despedaça essas páginas inúteis,
Triste apanágio da fraqueza humana,
Em vez de luz, amontoando sombras
No santuário augusto da verdade.
Um palavra só talvez bastara
Pra saciar de luz meu pensamento;
Essa ninguém a sabe sobre a terra!...

Só tu, meu Deus, só tu dissipar podes
A, que os olhos me cerca, escura treva!
Ó tu, que és pai de amor e de piedade,
Que não negas o orvalho à flor do campo,
Nem o tênue sustento ao vil inseto,
Que de infinda bondade almos tesouros
Com profusão derramas pela terra,
Ó meu Deus, por que negas à minha alma
A luz que é seu alento, e seuu conforto?
Por que exilaste a tua criatura
Longe do sólio teu, cá neste vale
De eterna escuridão? - Acaso o homem,
Que é pura emanação da essência tua,
É que se diz criado à tua imagem,
De adorar-te em ti mesmo não é digno,
De contemplar, gozar tua presença,
De tua glória no esplendor perene?
Oh! meu Deus, por que cinges o teu trono
Da impenetrável sombra do mistério?
Quando da esfera os eixos abalando
Passa no céu entre abrasadas nuvens
Da tempestade o carro fragoroso,
Senhor, é tua cólera tremenda
Que brada no trovão, e chove em raios?
E o íris, essa faixa cambiante,
Que cinge o manto azul do firmamento,
Como um laço que prende aos céus a terra,
É de tua clemência anúncio meigo?
É tua imensa glória que resplende
No disco flamejante, que derrama
Luz e calor por toda a natureza?
Dize, ó Senhor, por que a mão ocultas,
Que a flux esparge tantas maravilhas?
Dize, ó Senhor, que para mim não mudas
As páginas do livro do universo!...
Mas, ai! que o invoco em vão! ele se esconde
Nos abismos de sua eternidade.
...............................................................
Um eco só da profundez do vácuo
Pavoroso retumba, e diz - dúvida!....

Virá a morte com as mãos geladas
Quebrar um dia esse terrível selo,
Que a meus olhos esconde tanto arcanos?
...............................................................
Ó campa! - atra barreira inexorável
Entre a vida e a morte levantada!
Ó campa, que mistérios insondáveis
Em teu escuro seio muda encerras?
És tu acaso o pórtico do Elísio,
Que nos franqueias as regiões sublimes
Que a luz da verdade eterna brilha?
Ou és do nada a fauce tenebrosa,
Onde a morte pra sempre nos arroja
Em um sono sem fim adormecidos!
Oh! quem pudera levantar afouto
Um canto ao menos desse véu tremendo
Que encobre a enternidade...

Mas debalde
Interrogo o sepulcro - e o debruçado
Sobre a voragem tétrica e profunda,
Onde as extintas gerações baqueiam,
Inclino o ouvido, a ver se um eco ao menos
Das margens do infinito me responde!
Mas o silêncio que nas campas reina,
É como o nada - fúnebre e profundo...
...............................................................
Se ao menos eu soubesse que co'a vida
Terminariam tantas incertezas,
Embora os olhos meus além da campa,
Em vez de abrir-se para a luz perene,
Fossem na eterna escuridão do nada
Para sempre apagar-se... - mas quem sabe?
Quem sabe se depois desta existência
Renascerei - pra duvidar ainda?!...

Desalento

Nestes mares sem bonança,
Boiando sem esperança,
Meu baixel em vão se cansa
Por ganhar o amigo porto;
Em sinistro negro véu
Minha estrela se escondeu;
Não vejo luzir no céu
Nenhum lume de conforto.

A tormenta desvairou-me,
Mastro e vela escalavrou-me,
E sem alento deixou-me
Sobre o elemento infiel;
Ouço já o bramir tredo
Das vagas contra o penedo
Onde irá - talvez bem cedo -
Soçobrar o meu batel.

No horizonte não lobrigo
Nem praia, nem lenho amigo,
Que me salve do perigo,
Nem fanal que me esclareça;
Só vejo as vagas rolando,
Pelas rochas soluçando,
E mil coriscos sulcando
A medonha treva espessa.

Voga, baixel sem ventura,
Pela túrbida planura,
Através da sombra escura,
Voga sem leme e sem norte;
Sem velas, fendido o mastro,
Nas vagas lançado o lastro,
E sem ver nos céus um astro,
Ai! que só te resta a morte!

Nada mais ambiciono,
Às vagas eu te abandono,
Como cavalo sem dono
Pelos campos a vagar;
Voga nesse pego insano,
Que nos roncos do oceano
Ouço a voz do desengano
Pavorosa a ribombar!

Voga, baixel foragido,
Voga sem rumo - perdido,
Pelas tormentas batido,
Sobre o elemento infiel;
Para ti não há bonança;
À toa, sem leme avança
Neste mar sem esperança,
Voga, voga, meu baixel!

No meu aniversário

Ao meu amigo o Sr. F.J. de Cerqueira

Hélas! hélas! mes années
Sur ma tête tombent fanées,
Et ne refleuriront jamais.
(Lamartine)

Não vês, amigo? - Lá desponta a aurora
Seus róseos véus nos montes desdobrando;
Traz ao mundo beleza, luz e vida,
Traz sorrisos e amor;
Foi esta qu'outro tempo
Meu berço bafejou, e as tenras pálpebras
Me abriu à luz da vida,
E vem hoje no circulo dos tempos
Marcar sorrindo o giro de meus anos.
Já vai bem longe a quadra da inocência,
Dos brincos e dos risos descuidos os;
Lá s'embrenham nas sombras do passado
Os da infância dourados horizontes.
Oh! feliz quadra! - então eu não sentia
Roçar-me pela fronte
A asa do tempo estragadora e rápida;
E este dia de envolta com os outros
Lá s'escoava desapercebido;
Ia-me a vida em sonhos prazenteiros,
Como ligeira brisa
Entre perfumes leda esvoaçando.
Mas hoje que caiu-me a venda amável!
Que as misérias da vida me ocultava,
Eu vejo com tristeza
O tempo sem piedade ir desfolhando
A flor dos anos meus;
Vai-se esgotando a urna do futuro
Sem do seio sair-lhe os dons sonhados
Na quadra em que a esperança nos embala
Com seu falaz sorriso.
Qual sombra vá, que passa
Sem vestígios deixar em seus caminhos,
Eu vou transpondo a arena da existência,
Vendo irem-se escoando uns após outros
Os meus estéreis dias,
Qual náufrago em rochedo solitário,
Vendo a seus pés quebrar-se uma por uma
As ondas com monótono bramido,
Ah! sem jamais no dorso lhe trazerem
O lenho salvador!
Amigo, o fatal sopro da descrença
Me roça às vezes n'alma, e a deixa nua,
E fria como a laj em do sepulcro;
Sim, tudo vai-se; sonhos de esperança,
Férvidas emoções, anelos puros,
Saudades, ilusões, amor e crenças,
Tudo, tudo me foge, tudo voa
Como nuvem de flores sobre as asas
De rábido tufão.
Onde vou? Para onde me arrebatam
Do tempo as ondas rápidas?
Por que ansioso corro a esse futuro,
Onde reinam as trevas da incerteza?
E se através de escuridão perene
Só temos de sulcar ignotos mares
De escolhos semeados,
Não é melhor abandonar o leme,
Cruzar no peito os braços,
E deixar nosso lenho errar às tontas,
Entregue às ondas da fatalidade?
.............................................................
.............................................................

Ah! tudo é incerteza, tudo sombras,
Tudo um sonhar confuso e nebuloso,
Em que se agita o espírito inquieto,
Até que um dia a plúmbea mão da morte
Nos venha despertar,
E os sombrios mistérios revelar-nos,
Que em seu escuro seio
Com férreo selo guarda a campa avara.

Visita à sepultura de meu irmão

A noite sempiterna

Que tu tão cedo vists,
Cruel, acerba e triste
Sequer da tua idade não te dera
Que lograsses a fresca primavera?
(Camões)

Não vês nessa colina solitária
Aquela ermida, que sozinha alveja
O esguio campanário aos céus erguendo,
Como garça, que em meio das campinas
Alça o colo de neve?
E junto a ela um tésco muro cinge
A pousada dos mortos nua e triste,
Onde, plantada em meio, a cruz se eleva,
A cruz, bússola santa e venerável
Que nas tormentas e vaivéns da vida
O porto indica da celeste pátria....
Nem moimento, nem piedosa letra
Vem aqui iludir a lei do olvido;
Nem árvore funérea aí sussurra,
Prestando pia sombra ao chão dos mortos;
Nada quebra no lúgubre recinto
A paz sinistra que rodeia os túmulos:
Ali reina sozinha
Na hedionda nudez calcando as campas
A implacável rainha dos sepulcros;
E só de quando em quando
Vento da soidão passa gemendo,
E levanta a poeira dos jazigos.

Aqui tristes lembranças dentro d'alma
Eu sinto que se acordam, como cinza,
Que o vento de entre os túmulos revolve;
Meu infeliz irmão, aqui me surges,
Como a imagem de um sonho esvaecido,
E no meu coração sinto ecoando,
Qual débil som de suspirosa aragem,
Tua voz querida a murmurar meu nome.
Pobre amigo! - no albor dos anos tenros,
Quando a esperança com donoso riso
Nos braços te afagava,
E desdobrava com brilhantes cores
O painel do futuro ante os teus olhos,
Eis que sob teus passos se abre súbito
O abismo do sepulcro....

E aquela fronte juvenil e pura,
Tão prenhe de futuro e d'esperança,
Aquela fronte que talvez sonhava
Ir no outro dia, - ó irrisão amarga!
Repousar docemente em niveo seio,
Entre os risos de amor adormecida,
Vergada pela férrea mão da morte,
Caiu lívida e fria
No duro chão, em que repousa agora.
E hoje que venho no aposento lúgubre
Verter piedoso orvalho de saudade
Na planta emurchecida,
Ah! nem ao menos nesse chão funéreo
Os vestígios da morte encontrar posso!
Tudo aqui é silêncio, tudo olvido,
Tudo apagou-se sob os pés do tempo...

Oh! que é consolo ver ondear a coma
Duma árvore funérea sobre a lousa,
Que escondeu para sempre a nossos olhos
D'um ente amado inanimados restos.
Cremos que a anima o espírito do morto;
Nos místicos rumores da folhagem
Cuidamos escutar-lhe a voz dorida
Alta noite gemendo, e em sons confusos
Mistérios murmurando d'além-mundo.
Desgrenhado chorão, cipreste esguio,
Funéreas plantas dos jardins da morte,
Monumentos de dor, em que a saudade
Em nênia perenal vive gemendo,
Parece que com lúgubre sussurro
Ao nosso dó piedosos se associam,
E erguendo ao ar os verde-negros ramos
Apontam para o céu, sagrado asilo,
Refúgio extremo a corações viúvos,
Que colados à pedra funerária,
Tão fria, tão estéril de consolos,
O seu dorido luto em vãos lamentos
Arrastam pelo pó das sepulturas.

Mas - nem um goivo, nem funérea letra,
Amiga mão plantou neste jazigo;
Ah! ninguém disse à árvore dos túmulos
- Aqui sobre esta campa
Cresce, ó cipreste, e geme sobre ela,
Qual minha dor, em murmurio eterno! -
Sob essa grama pálida e enfezada
Entre os outros aqui perdido jazes
Dormindo o teu eterno e fundo sono...
Sim, pobre flor, sem vida aqui ficaste,
Envolta em pó, dos homens esquecida.

"Dá-me tua mão, amigo,
"Marchemos juntos nesta vida estéril,
"Vereda escura que conduz ao túmulo;
"O anjo da amizade desde o berço
"Nossos dias urdiu na mesma teia;
"Ele é quem doura os nossos horizontes,
"E a nossos pés alguma flor esparge....
"Quais dous regatos, que ao cair das urnas
"Se encontram na valada, e num só leito
"Se abraçam, se confundem,
"E quer volvam serenos, refletindo
"O azul do céu e as florejantes ribas,
"Quer furiosos ronquem
"Em boqueirões sombrios despenhados,
"Sempre unidos num só vão serpeando
"Té se perderem na amplidão dos mares,
"Tais volvam nossos dias;
"A mesma taça no festim da vida
"Para ambos sirva, seja fel ou néctar:
"E quando enfim, completo o nosso estádio,
"Formos pedir um leito de repouso
"No asilo dos finados,
"A mesma pedra nossos ossos cubra!"
É assim que tu falavas
Ao amigo, que aos cândidos acentos
De teu falar suave atento ouvido
Inclinava sorrindo:
E hoje o que é feito desse sonho ameno,
Que nos dourava a ardente fantasia?
Dessas palavras de magia cheias,
Que em melíflua torrente deslizavam
De teus lábios sublimes?
São vagos sons, que me murmuram n'alma,
Qual reboa gemendo no alaúde
A corda que estalara.

Ledo arroio que vinhas da montanha
Descendo alvo e sonoro,
O sol abraseado do deserto
Num dia te secou as ondas límpidas,
E eu fiquei só, trilhando a escura senda,
Sem tuas puras águas
Para orvalhar-me os ressequidos lábios,
Sem mais ouvir o trépido murmúrio,
Que em tão plácidos sonhos m'embalava....

Mas - cessem nossas queixas, e curvemo-nos
Aos pés daquela cruz, que ali se exalça,
Símbolo sacrossanto do martírio,
Fanal de redenção,
Que na hora do extremo passamento
Por entre a escura sombra do sepulcro
Mostra ao cristão as portas radiantes
Da celeste Solima, - ei-la que fulge
Como luz de esperança ao caminhante,
Que transviou-se em noite de tormenta;
E alçada sobre as campas
Parece estar dizendo à humanidade:
Não choreis sobre aqueles que aqui dormem;
Não mais turbeis com vossos vãos lamentos
O sono dos finados.
Eles foram gozar bens inefáveis
Na pura esfera, onde d'aurora os raios
Seu brilho perenal jamais extinguem,
Deixando sobre a margem do jazigo
A cruz dos sofrimentos.

Adeus, portanto, fúnebre recinto!
E tu, amigo, que tão cedo vieste
Pedir pousada na mansão dos mortos,
Adeus! - foste feliz, - que a senda é rude,
O céu é tormentoso, e o pouso incerto.

À sepultura de um escravo

Também do escravo a humilde sepultura
Um gemido merece de saudade:
Uma lágrima só corra sobre ela
De compaixão ao menos....
Filho da África, enfim livre dos ferros
Tu dormes sossegado o eterno sono
Debaixo dessa terra que regaste
De prantos e suores.

Certo, mais doce te seria agora
Jazer no meio lá dos teus desertos
À sombra da palmeira, não faltara
Piedoso orvalho de saudosos olhos
Que te regasse a campa;
Lá muita vez, em noites d'alva lua,
Canção chorosa, que ao tanger monótono
De rude lira teus irmãos entoam,
Teus manes acordara:
Mas aqui - tu aí jazes como a folha
Que caiu na poeira do caminho,
Calcada sob os pés indiferentes
Do viajor que passa.

Porém que importa - se repouso achaste,
Que em vão buscavas neste vale escuro,
Fértil de pranto e dores;
Que importa - se não há sobre esta terra
Para o infeliz asilo sossegado?
A terra é só do rico e poderoso,
E desses idolos que a fortuna incensa,
E que, ébrios de orgulho,
Passam, sem ver que co 'as velozes rodas
Seu carro d'ouro esmaga um mendigante
No lodo do caminho !...
Mas o céu é daquele que na vida
Sob o peso da cruz passa gemendo;
É de quem sobre as chagas do inditoso
Derrama o doce bálsamo das lágrimas;
E do órfão infeliz, do ancião pesado,
Que da indigência no bordão se arrima;
do pobre cativo, que em trabalhos
No rude afã exala o alento extremo;
- O céu é da inocência e da virtude,
O céu é do infortúnio.

Repousa agora em paz, fiel escravo,
Que na campa quebraste os ferros teus,
No seio dessa terra que regaste
De prantos e suores.
E vós, que vindes visitar da morte
O lúgubre aposento,
Deixai cair ao menos uma lágrima
De compaixão sobre essa humilde cova;
Aí repousa a cinza do Africano,
- O símbolo do infortúnio.

O destino do vate

À memória de F'. Dutra e Meio

Entretanto não me alveja a fronte, nem minha cabeça pende
ainda para a terra, e contudo sinto que hei pouco de vida.
(Dutra e Melo)

Em manso adejo o cisne peregrino
Passou roçando as asas pela terra,
E sonorosos quebros gorjeando
Despareceu nas nuvens.
Não quis mesclar do mundo aos vãos rumores
A celeste harmonia de seus carmes;
Passou - foi demandar em outros climas
Pra suas asas mais tranqüilo pouso,
Ares mais puros, onde espalhe o canto;
Onde foi ele - em meio assim deixando
Quebrado o acento da canção sublime,
Que apenas encetara?
Onde foi ele? em que felizes margens
Desprende agora a voz harmoniosa?
Estranho ao mundo, nele definhava
Qual flor, qu'entre fraguedos
Em solo ingrato langue esmorecida:
Uma nuvem perene de tristeza
O rosto lhe ensombrava - parecia
Serafim exilado sobre a terra,
Da harpa divina tenteando as cordas
Pra mitigar do exílio os dissabores.

Triste poeta, que sinistra idéia
Pende-te assim a fronte empalecida?
Que dor fatal ao túmulo te arrasta
Inda no viço de teus belos anos?
Que acento tão magoado,
Que lacera, que dói no seio d'alma,
Exala a tua lira,
Funéreo como um eco dos sepulcros?
Tua viagem começaste apenas,
E eis que já de fadiga extenuado
Co desânimo n'alma te reclinas
À margem do caminho?!

Olha, ó poeta, como a natureza
Em torno te desdobra
Sorrindo o seu painel cheio de encantos:
Eis um vasto horizonte, um céu sereno,
Serras, cascatas, ondeantes selvas,
Rios, colinas, campos de esmeralda,
Aqui vales de amor, vergéis floridos,
De frescas sombras perfumado asilo,
Além erguendo a voz ameaçadora
O mar, como um leão rugindo ao longe,
Ali dos montes as gigantes formas
Com as nuvens do céu a confundir-se,
Desenhando-se em longes vaporosos.
Donoso quadro, que me arrouba os olhos,
N'alma acordando inspirações saudosas!
Tudo é beleza, amor, tudo harmonia,
Tudo a viver convida,
Vive, ó poeta, e canta a natureza.

Nas sendas da existência
As flores do prazer ledas vicejam;
À mesa do festim vem pois sentar-te,
Sob uma coroa de virentes rosas
Vem esconder os prematuros sulcos,
Vestígios tristes de vigílias longas,
De austero meditar, que te ficaram
Na larga fronte impressos.
Dissipe-se aos sorrisos da beleza
Essa tristeza, que te abafa a mente.
Ama, ó poeta, e o mundo que a teus olhos
Um deserto parece árido e feio,
Sorrir-se-á, qual horto de delícias:
Vive e canta os amores.

Mas se a dor é partilha de tua alma,
Se concebeste tédio de teus dias
Volvidos no infortúnio:
Que importa, ó vate; vê pura e donosa
Sorrir-se a tua estrela
No encantado horizonte do futuro.
Vive e sofre, que a dor co'a vida passa,
Enquanto a glória em seu fulgor perene
No limiar do porvir teu nome aguarda
Para enviá-lo às gerações vindouras.
E então mais belos brilharão teus louros
Entrançados co'a palma do martírio;
Vive, ó poeta, e canta para a glória.

Porém - respeito a essa dor sublime -
Selo gravado pela mão divina
Sobre a fronte do gênio,
Não foram para os risos destinados
Esses lábios severos, donde emana
A linguagem dos céus em igneos versos;
Longe dele a vá turba dos prazeres,
Longe os do mundo passageiros gozos,
Breves flores de um dia, que fenecem
Da sorte ao menor sopro.
Não, - não foi das paixões o bafo ardente
Que os ledos risos lhe crestou nos lábio;
A tormenta da vida ao longe passa,
E não ousa turbar com seus rugidos
A paz dessa alma angélica e serena,
Cujos tão castos ideais afetos
Só pelos céus adejam.
Alentado somente da esperança
Contempla resignado
As sombras melancólicas, qu'enlutam
O horizonte da vida; - mas vê nelas
Um crepúsculo breve, que antecede
O formoso clarão da aurora eterna.
Quando vem pois sua hora derradeira,
Saúda sem pavor a muda campa,
E sobre o leito do eternal repouso
Tranqüilo se reclina.
Oh! não turbeis os seus celestes sonhos;
Deixai correr nas sombras do mistério
Seus tristes dias: - triste é seu destino,
Como o luzir de mombunda estrela
Em céu caliginoso.
Tal é seu fado; - o anjo d'harmonia
C'uma das mãos lhe entrega a lira d'ouro,
Noutra lhe estende o cálix da amargura.

Bem como o incenso, que só verte aromas
Quando se queima, e ardendo se evapora,
Assim do vate a mente
Aquecida nas fráguas do infoitúnio,
Na dor bebendo audácia e força nova
Mais pura ao céu se arrouba, e acentos vibra
De insólita harmonia.
Sim - não turbeis os seus celestes sonhos,
Deixai, deixai sua alma isenta alar-se
Sobre as asas do êxtase divino,
Deixai-a, que adejando pelo empíreo
Vá aquecer-se ao seio do infinito,
E ao céu roubar segredos de harmonia,
Que sonorosos troem
D'harpa sublime nas melífluas cordas.

Mas ei-la já quebrada, -
Ei-la sem voz suspensa sobre um túmulo,
Essa harpa misteriosa, qu'inda há pouco
Nos embalava ao som de endeixas tristes
Repassadas de amor e de saudade.
Ninguém lhe ouvirá mais um só arpejo,
Que a férrea mão da morte
Pousou sobre ela, e lhe abafou pra sempre
A voz das áureas cordas.
Porém, ó Dutra, enquanto lá no elísio
Saciando tua alma nas enchentes
Do amor e da beleza, entre os eflúvios
De perenais delícias,
E unido ao coro dos celestes bardos,
O fogo teu derramas
Aos pés de Jeová em gratos hinos,
A glória tua, teus eternos cantos,
Quebrando a mudez fúnebre das campas
E as leis do frio olvido, com teu nome
Através do porvir irão traçando
Um sulco luminoso.

Esperança

Espère, enfant! - demain! - et puis demain encore;
Et puis, toujours demain! (V. Hugo)

Singrando vai por mares não sulcados
Aventureiro nauta, que demanda
Ignotas regiões, sonhados mundos;
Ei-lo que audaz se entranha
Na solidão dos mares - a esperança
Em lisonjeiros sonhos já lhe pinta
Rica e formosa a terra suspirada,
E corre, corre o nauta
Avante pelo páramo das ondas;
Além um ponto surde no horizonte
Confuso - é terra! - e o coração lhe pula
De insólito prazer.
Terra! - terra! - bradou - e era uma nuvem!
E corre, corre o nauta
Avante pelo páramo das ondas;
No profundo horizonte os olhos ávidos
Ansioso embebe; - ai! que só divisa
Ermos céus, ermas ondas.
O desalento já lhe coa n'alma;
Oh! não; eis nos confins lá do oceano
Um monte se desenha;
Não é mais ilusão - já mais distinto
Surge acima das ondas - oh! é terra!
Terra! - terra! - bradou; era um rochedo,
Onde as ondas batendo eternamente
Rugindo se espedaçam.
Eis do nosso passar por sobre a terra
Em breve quadro uma fiel pintura;
É a vida oceano de desejos
Intérmino, sem praias,
Onde a esmo e sem bússola boiamos
Sempre, sempre com os olhos enlevados
Na luz desse fanal misterioso,
Que alma esperança mostra-nos sorrindo
Nas sombras do porvir.

E corre, e corre a existência,
E cada dia que cai
Nos abismos do passado
É um sonho que se esvai,

Um almejo de noss'alma,
Anelo de felicidade
Que em suas mãos espedaça
A cruel realidade;

Mais um riso que nos lábios
Para sempre vai murchar,
Mais uma lágrima ardente
Que as faces nos vem sulcar;

Um reflexo de esperança
No seio d'alma apagado,
Uma fibra que se rompe
No coração ulcerado.

Pouco e pouco as ilusões
Do seio nos vão fugindo,
Como folhas ressequidas,
Que vão d'árvore caindo;

E nua fica nossa alma
Onde a esp'rança se extinguiu,
Como tronco sem folhagem
Que o frio inverno despiu.

Mas como o tronco remoça
E torna ao que d'antes era,
Vestindo folhagem nova
Co volver da primavera,

Assim na mente nos pousa
Novo enxame de ilusões,
De novo o porvir se arreia
De mil douradas visões.

A cismar com o futuro
A alma de sonhar não cansa,
E de sonhos se alimenta,
Bafejada da esperança.

Esperança, que és tu? Ah! que minha harpa
Já não tem para ti sons lisonjeiros;
Sim - nestas cordas já por ti malditas
Acaso tu não ouves
As queixas abafadas que sussurram,
E em voz funérea soluçando vibram
Um cântico de anátema?
Chamem-te embora bálsamo do aflito,
Anjo do céu que nos alenta os passos
Nas sendas da existência;
Nunca mais poderás, fada enganosa,
Com teu canto embalar-me, eu já não creio
Nas tuas vãs promessas;
Não creio mais nessas visões donosas
Fantásticos painéis, com que sorrindo
Matizas o futuro!
Estéreis flores, que um momento brilham
E caem murchas sem deixarem fruto
No tronco desornado.
- Vem após mim - ao desditoso dizes;
Não esmoreças, vem; - é vasto e belo
O campo do futuro; - lá florescem
As mil delicias que sonhou tua alma,
Lá te reserva o céu o doce asilo
A cuja sombra abrigarás teus dias.
Porém - é cedo - espera.
E ei-lo que vai com os olhos enlevados
Nas cores tão formosas
Com que bordas ao longe os horizontes...
E fascinado o mísero não sente
Que mais e mais se embrenha
Pela sombria noite do infortúnio.
E se dos lábios seus queixas exala,
Se o fel do coração enfim transborda
Em maldições, em gritos de agonia,
Em teu regaço, pérfida sereia,
Co'a voz embaidora, inda o acalentas;
- Não esmoreças, não; - é cedo; espera;
Lhe dizes tu sorrindo.
E quando enfim no coração quebrado
De tanta decepção, sofrer tão longo,
Nos vem roçar do desalento o sopro,
Quando enfim no horizonte tenebroso
A estrela derradeira em sombras morre,
Esperança, teu último lampejo,
Qual relâmpago em noite tormentosa,
Abre clarão sinistro, e mostra a campa
Nas trevas alvejando.

Fonte: www.culturabrasil.org

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