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Histórias e Tradições da Província de Minas Gerais

bernardo guimarães

Capítulo VI

Quirino enganava-se; a indiferença de Jupira para com ele não era simples efeito da timidez selvática, nem da inocência própria dos verdes anos da rapariga; tinha outro motivo mais poderoso, o qual Quirino absolutamente ignorava. Para aquele temperamento de fogo, para aquela alma inflamável, aos quinze anos o amor era uma necessidade imperiosa, Jupira começava a amar outro.

O leitor há de se lembrar de Carlito, sobrinho de José Luís, aquele menino travesso que ele pusera como sentinela a sua filha durante a sua anterior estada na casa paterna.

Carlito, que agora apenas entrava na puberdade, se bem que não fosse estudante, tinha morada no seminário, mas ia com muita freqüência à casa do tio, onde tinha entrada franca por todos os cantos, entrando e saindo à hora que lhe aprazia. Era impossível que em tão contínuo contato com sua formosa prima não ficasse gostando dela.

Carlito por sua parte era um adolescente lesto, bem disposto, e de encantadora presença. Ainda mais uma circunstância era própria para torná-lo agradável aos olhos de Jupira; era ágil e travesso como ela; tinha artelhos de aço, e corria e saltava como um gamo; trepava a uma árvore como um sagüi, e nadava como a lontra.

Foi vagueando e brincando à sombra dos laranjais em flor, ao murmúrio da fonte do quintal, que aquelas duas almas, virgens como duas pombas novas que começam a bater as asas fora do ninho, arrularam em segredo seus primeiros amores.

Por alguns meses assim se lhes passaram rapidamente os dias no enlevo daquelas primeiras emoções de um amor virginal, naqueles eflúvios da alma tão puros e deliciosos como essas exalações balsâmicas, que a brisa da madrugada levanta dentre os rosais orvalhados. Carlito amava como menino que era. Era mais a febre dos desejos sensuais que lhe agitava o sangue juvenil à vista dos sedutores encantos de sua prima, do que o coração que acordava suspirando ao sopro de uma paixão. O amor de Jupira era amor de cabocla, ardente como o sol do deserto que lhe dourava a tez, profundo como os abismos do rio onde banhava os membros infantis. Aquela, que matara para se desfazer do amante importuno que odiava, era também capaz de morrer de amor por aquele a quem adorasse, ou de apunhalar o amante que a atraiçoasse. Carlito, simples criança, não podia adivinhar quanta paixão, energia e resolução havia no fundo da alma daquela menina na aparência tão indolente, frívola e descuidosa.

Apesar dos esforços de seu pai, Jupira nunca pudera perder de todo os hábitos de selvática liberdade em que fora criada. Saía sozinha de casa e vagava por campos e matas, caçando ou pescando, como se fosse um rapaz, e muitas vezes nos dias calmosos ia sozinha banhar-se nas águas do seu querido Rio Verde, no mesmo sítio em que na infância se exercitara a fender-lhe as ondas, em um remanso límpido e profundo sobre o qual se debruçavam árvores copadas, cobrindo-o de sombra e fresquidão deliciosa. Esses passeios, que seriam muito desinquietadores e dariam muito que falar em outra qualquer rapariga, em Jupira ninguém os estranhava.

Ela gozava da reputação de ter em aversão os homens, principalmente aqueles que a amavam. Essa fama, baseada no seu gênio arisco e um tanto crespo, na história do cacique que havia matado, e no uso de uma pequena faca guarnecida de prata que sempre trazia no seio, serviam-lhe de salvaguarda, e ninguém ousava atravessar-se em seu caminho quando saía em suas excursões, e se acaso algum rapaz a encontrava pelos rincões solitários ou pelas veredas escusas da mata, tirava-lhe respeitosamente o chapéu, e seguia seu caminho.

O próprio José Luís não mostrava inquietar-se muito com aqueles passeios de sua filha. – Quem sabe tão bem guardar-se, – costumava ele dizer, – e fazer-se respeitar por tanto tempo no meio das matas e entre bugres bravios, que risco pode correr aqui no meio de gente cristã e civilizada? Só havia uma pessoa, que não lhe tinha medo; era Carlito. Mas esse mesmo ainda não tinha ousado ir perturbá-la em seus giros solitários.

Todavia, Carlito sentia um vivíssimo desejo, que não podia mais refrear, e era de ir espiar sua linda prima, quando ela ia banhar-se nas águas do Rio Verde. Nada lhe era mais fácil do que gozar, sem que Jupira o pressentisse, daquele espetáculo, com o qual esperava que gozaria todas as delícias do céu, e que nada mais lhe restaria a desejar sobre a terra.

Quando a viu pois dirigir-se para os lados do rio, o qual corria como a um quarto de légua de distância, deu uma grande volta, passou para o outro lado do rio, e foi cuidadosamente esconder-se em uma moita donde a esteve espreitando muito a seu sabor. Dali em diante todas as vezes que Jupira ia ao seu costumado banho, tinha sem o saber um espectador invisível, que a espreitava e cevava olhos ávidos e ardentes na contemplação de seus mais ocultos encantos.

Um dia, porém, Carlito, petulante e lascivo como um sátiro, não se pôde mais conter.

– Vou aparecer-lhe, dê no que der; – murmurou consigo o rapaz. – Que mal me poderá fazer uma fraca rapariga? tenho boas pernas e braços e sei nadar e correr... e também se ela me matar, terei muito gosto em receber a morte das mãos dela.

Jupira brincava descuidada no rio, ora boiando serena ou resvalando à flor da água em todas as posições, ora dando pulos e mergulhando como a lontra, ora espanejando-se e fazendo saltar uma chuva de aljôfares sobre sua cabeça, como a marreca silvestre a bater as asas lavando a luzidia plumagem. Eis senão quando ouve um barulho como de um corpo que caiu de golpe na água, e sumiu-se no fundo. Olhou assustada em roda de si arredando dos olhos os cabelos ensopados, mas nada viu.

– Não pode ser senão alguma ariranha, – pensou Jupira. – Dessa não tenho eu medo. Jacaré aqui não há, que eu saiba.

Pensando assim, a moça nadava rapidamente para a margem oposta, que era a que lhe estava mais próxima. Qual, porém, não foi o seu espanto, quando viu surgir diante de si a cabeça do travesso e petulante Carlito, soltando-lhe à cara uma estridente gargalhada. A cabocla deu um grito, sumiu-se de mergulho, e arrepiando carreira foi reaparecer no meio do rio, nadando rapidamente para a outra margem, onde tinha seus vestidos.

– Sossegue; não tenha susto, Jupira! – gritou-lhe Carlito. – Eu já me vou embora.

Jupira voltou o rosto, e com um gesto entre irado e risonho, que tanto se podia tomar por uma ameaça como por um convite, continuou a nadar. Carlito, que era estouvado e audacioso, atirou-se a nado em seguimento dela. Mas antes que pudesse alcançá-la, já ela tinha saltado à praia e agarrando suas roupas não havendo tempo para vesti-las, nelas embrulhou-se à pressa, e correu a embrenhar-se no mato soltando uns clamores, que mal se podia saber se eram gritos de terror ou risadas de prazer.

Carlito seguiu-a de perto, e um momento depois sumia-se também pelas brenhas atrás dela.

Os mistérios, que a cúpula frondente do bosque amparou com sua discreta sombra nos momentos que se seguiram, ninguém os sabe. É certo que uma nuvem carregada tapou então a face do sol, um tufão vergou o topo dos arvoredos com pesaroso sussurro, e uma sombra sinistra toldou o álveo límpido das águas, e... no ádito das brenhas ressoaram murmúrios intercadentes beijos e suspiros abafados.

Capítulo VII

Imaginem os leitores, que eu não o tentarei descrever, como rápidos e deliciosos corriam os dias aos dois jovens amantes fruindo em segredo seus furtivos amores à sombra das florestas virgens, ao murmúrio dos córregos do deserto. Vênus e Adônis, vagueando pelos vergéis da Idália, Diana e Endimião pelas selvas da Tessália não gozaram momentos mais venturosos do que os nossos dois jovens sertanejos à sombra das florestas americanas.

Mas essa bem-aventurança não devia durar muito tempo, como toda aquela que provém de uma fonte impura e viciada. As portas daquele paraíso de delícias deviam ser-lhes trancadas, como foram aos primeiros pais da humanidade, que morderam o fruto vedado por expressa determinação da divindade.

Carlito era leviano e volúvel como criança, que era. Depois de se ter longamente embriagado de volúpia nos braços amorosos da feiticeira cabloca, começou a sentir cansaço, a enfastiar-se como o conviva repleto depois de uma longa noite de orgia. Pouco a pouco e sem o sentir ia escasseando suas carícias, e já não era tão assíduo e extremoso ao pé de sua amante. Jupira pelo contrário cada vez o amava com mais ardor, e seria capaz de passar a enternidade nos braços dele sem a menor quebra na exaltação de seus afetos. Doía-lhe cruelmente no íntimo da alma aquele resfriamento da paixão do moço; mas Jupira não sabia queixar-se, nem chorar.

Quantas vezes ia ela ao aprazível remanso do Rio Verde, onde costumava banhar-se, sítio favorito de suas furtivas entrevistas, e ali ficava largo tempo sentada com a mão na face a olhar para o fundo límpido do rio a esperar em vão pelo remisso e frouxo amante, que não vinha! Uma tristeza mortal lhe pesava sobre o coração, e cansada de esperar voltava para casa com a fronte baixa e a passos vagarosos.

– Que tens, Jupira?... o que estás aqui cismando assim tão triste?... disse-lhe Carlito um dia em que a encontrou naquela triste postura, pensativa à beira do rio.

– Ah! Carlito!... Carlito!... por que razão não me queres mais bem?...

A rola viúva não saberia gemer com mais tristeza, do que Jupira suspirou aquela magoada queixa.

Carlito comovido caiu em si, e sentiu acudirem-lhe as lágrimas aos olhos.

– Eu não te querer mais, meu bem? quem te disse isso?...

– Quem me disse!?... ainda me perguntas?... estas árvores, este rio, este céu que nos cobre, tudo está vendo que não sou mais querida...

Carlito não sabendo o que responder-lhe, abraçou-a, e procurou abafar-lhe a voz com beijos.

– Deixa-me, Carlito; Jupira já não é mais tua, – murmurou ela esquivando-se aos beijos de Carlito.

Os olhos de Jupira desataram uma torrente de lágrimas. Era a primeira vez que chorava em dias de sua vida, desde que deixara de ser criança.

As lágrimas que borbotavam ardentes e copiosas dos olhos de Jupira, escaldavam as faces de Carlito, mas bem depressa se estancaram, e os olhos da cabocla reluziram secos e cintilantes como os da jararaca enfurecida; passou pelos lábios ressequidos a língua fina e rubra, soltou um sorriso convulso, amargo, indefinível, e disse:

– Quando não me quiseres mais bem, me fala; ouviste, Carlito?...

– Quando é que hei de deixar de te querer bem?... Jupira, por quem és não me fales assim.

– Como não hei de falar?... torno a repetir, quando me não quiseres mais, fala, Carlito.

– Então podes ficar certa, que nunca te hei de dizer nada.

– Sim?... por quê? – Porque nunca hei de deixar de te querer.

– Isso é de boca... teu coração diz o contrário... bem estou vendo... não será necessário que me digas nada... mas quero ver ainda mais, e depois...

– E depois o quê, Jupira? – Estás vendo esta faca? disse a cabocla tirando do seio e desembainhando a lâmina luzente e afiada de sua pequena faca.

– Jupira!...

– Não estás vendo? – continuou Jupira com um tom de glacial indiferença, que fez estremecer o rapaz. – Acho que a folha desta faca é bastante comprida para chegar-me ao coração, e ao teu também, Carlito.

Carlito, que estava sentado ao pé dela, pôs-se em pé de um salto.

– O que é isso? exclamou aterrado: o que dizes, menina?...

– Não te assustes, meu Carlito, – disse a cabocla com um sorriso de inexplicável expressão e tornando a meter no seio a faca. – Cuidas já que quero matar-te?... não sou tão má como isso... Tu é que queres matar-me com tuas ingratidões.

– Mas quantas vezes queres que eu jure que nunca, nunca te deixarei?...

– Tens razão... perdoa-me... eu sou uma doida. Vem Carlito; vem sentar-te outra vez ao pé de mim...

O beijo da reconciliação soou entre suspiros. Os dois amantes enlaçaram nos braços um do outro, e alguns momentos depois se retiraram, por lados diversos, Jupira melancólica e abatida, Carlito aterrado e apreensivo.

Jupira ainda não conhecia toda a extensão do seu infortúnio, não sabia a que ponto chegava a ingratidão e aleivosia de seu volúvel e leviano amante. Carlito tinha travado um novo conhecimento, que o ia fazendo esquecer sua encantadora prima. Uma formosa menina loura e branca como uma açucena, filha de uma pobre mulher que vivia de lavar a roupa do seminário, tinha-lhe cativado... não o coração porque esse era leve e livre como o vento; tinha-lhe cativado os olhos. Rosália era uma criança de treze para catorze anos, uma flor quase em botão. Carlito tornou-se seu assíduo adorador, e com tal habilidade soube se haver, que em breve tempo tinha conquistado o coração da menina. Tenho sorvido a fartar o aroma ativo e inebriante da magnólia das florestas, queria aspirar também o delicado perfume do lírio dos jardins. Era um formidável conquistador, que se estava preparando na pessoa do pequeno sertanejo, um d. Juan dos sertões.

Não pôde ficar oculta por muito tempo a Jupira a nova afeição e a deslealdade de seu primo. A pequena povoação de Campo Belo, se povoação se podia chamar, composta de alguns agregados, que viviam na dependência do seminário, constava apenas de um mui limitado número de casinhas dispersas aqui e acolá pelo suave e descampado lançante de uma colina, ao pé da qual corria um pequeno córrego. Da casa de Jupira, portanto, avistava-se perfeitamente a de Rosália, onde ela viu por diversas vezes entrar e sair o seu amante. O zelo entrou-lhe no coração como uma lava incandescente e devastadora. O abatimento e tristeza, em que vivia, converteram-se em raiva e desesperação. Naquela mulher, que amava tanto e com todas as forças de uma alma ardente e impetuosa, o ciúme devia produzir terríveis explosões.

Mais por medo que lhe ia tomando e por dissimular sua inconstância, do que por satisfazer a um desejo do coração, Carlito não deixava de procurar sua prima. Carlito ficou assustado à vista dos lampejos torvos e sinistros, que viu luzirem nos olhos de Jupira num dia em que a foi visitar em sua casa; pareciam relâmpagos, que se desprendiam do seio de uma nuvem negra e tempestuosa. A cada momento cuidava ver luzir-lhe na mão o terrível punhal que lhe havia mostrado à beira do Rio Verde.

– Que tens, Carlito, que estás assim com os olhos espantados? – disse a cabocla com um sorriso de mofa e de desdém. – Ainda estás com medo de mim?...

– Eu com medo de ti ?!... mas parece que estás zangada comigo...

– Se estou!... Carlito!... não zombes comigo assim, que me matas... ou eu te mato...

– Mas o que isso então?... que mal te fiz eu, Jupira?...

– Olhem o inocente!... o que é que vais fazer tantas vezes em casa da Genoveva?...

– Ah!... é só isso?... costumo ir lá sempre, isso não é de agora.

– Mentira!... nunca te vi lá ir.

– Eu mentir?!... para quê, Jupira!... disse Carlito em tom de desdém.

– Para quê?!... então, se gostasse de Rosália, não me enganavas?...

– Ora deixa-te dessas idéias, menina; – disse Carlito em tom de gracejo querendo meter à bulha o negócio para disfarçar a perturbação e embaraço, em que se achava. A Rosália é uma boa menina, com quem estou acostumado a brincar desde criança, e a mãe dela me quer muito bem. Vou lá patuscar com elas e tomar café com biscoitos, que a tia Genoveva faz muito bem-feitos.

– Café com biscoitos! e por que não o vens tomar aqui, como costumavas?...

– Ora! – replicou o rapaz esforçando-se ainda por gracejar. Os biscoitos da Rosália... digo da tia Genoveva, são tão doces...

– Carlito! – bradou a rapariga levantando-se de um salto do tamborete, em que estava sentada, e com os olhos faiscantes. – Carlito, tu zombas de mim? O rapaz recuou aterrado; mas depois sentiu que era vergonha ter medo de uma mulher.

– Que tens hoje que estás tão bravinha, caboclinha do meu coração?... disse ele procurando ainda zombetear.

Jupira, enfurecida como a boicininga que foi pisada, agarra-lhe num braço, morde-o e enterra-lhe os agudos dentes com toda a força até esguichar sangue. Carlito deu um grito horrível, e saiu correndo pela porta afora.

– Arre!... que dor! que dentes, meu Deus do céu!... ia murmurando o rapaz, e saltaram-lhe dos olhos lágrimas de dor.

De feito, para um primeiro arrufo, uma dentada daquelas não era má estréia, e fazia pressagiar para o segundo um braço quebrado, e para o terceiro uma punhalada.

Capítulo VIII

Jupira em sua cólera era bela e sublime, mas bela e sublime para inspirar um artista, e não para despertar o ardor e ameigar o coração do amante, que começa a arrefecer-se. Sua palidez era como a do mármore encardido; os olhos fuzilavam revérberos cor de sangue; a boca espumava, os lábios e as narinas lhe tremiam convulsivos. Reinava em seu todo um ar imperioso, feroz, que fazia medo.

À indiferença e enfado que Carlito começava a sentir por Jupira, vinha agora juntar-se também o medo para mais arredio e esquivo torná-lo. Todavia, esse mesmo medo fazia com que ele a procurasse mais vezes do que desejava, mas com toda a precaução e reserva, temendo mais alguma explosão de seu furioso ciúme, e tratasse daí em diante de ocultar o mais possível suas entrevistas com Rosália.

Quirino tinha-se retirado para a fazenda de seu pai, triste, acabrunhado, porém, ainda não de todo desanimado. A repulsa de Jupira ainda mais lhe avivara a chama que o devorava. Aquela boca feiticeira da cabocla, que prometia um paraíso de volúpias, ou contornos daqueles ombros, daquele talhe, tão bem boleados, aqueles olhos negros, cujo brilho profundo era um pouco velado por pálpebras languidamente descaídas, aqueles seios redondos, que lhe arfavam sob a camisa como duas rolinhas arquejantes arrulando de amor em seu ninho, tudo isso a todo momento se lhe estava pintando na imaginação com as mais sedutoras e vivas cores escaldando-lhe o cérebro em noites de insônia, fazendo pular-lhe o coração e ferver-lhe o sangue em frenéticos anelos de volúpia e de amor. Não pôde suportar a ausência por muito tempo, e voltou a Campo Belo decidido a envidar os últimos esforços, a tentar o último sacrifício para alcançar o objeto de seus ardentes desejos.

Jupira desta vez acolheu Quirino com mais brandura, e ouviu suas queixas sem se enfadar, ou porque já sabedora de quanto é doloroso o dissabor, que provém de um amor mal correspondido, se compadecesse do mancebo, ou porque quisesse punir Carlito com pena de talião correspondendo ou fingindo corresponder ao amor de Quirino, ou talvez porque, no estado de angústia e perturbação, em que se achava, gostasse que alguém lhe falasse e fizesse dispersão às ânsias de seu coração. Quirino criou alma nova e encheu-se de esperanças.

– Bem dizia eu! – pensava ele consigo. – Era uma criança arisca e medrosa e nada mais; mas isso não podia durar sempre... já vai chegando à fala; não tardará muito a cair-me nos braços.

Jupira já não podia duvidar da deslealdade de Carlito. Todavia, ainda algumas dúvidas lhe pairavam por vezes no espírito; era uma ligeira sombra de esperança, que a triste afagava em seu coração; desejava convencer-se por seus próprios olhos, queria uma prova bem positiva da aleivosia de Carlito. Se em seus amores era livre como a brisa do deserto, consideração nenhuma a podia tolher nos violentos acessos de seu feroz ciúme. Como a onça esfaimada rodela e espia o nédio e tenro veado, que descuidado vagueia por bosques e campinas, até lançar-lhe as garras, assim Jupira espiava com olhar cioso todos os passos de seu volúvel amante, acompanhava-o sem ser vista, conhecia-lhe o rasto, e em seu instinto selvático quase que o farejava.

Carlito bem o pressentia, e por mais desvios que procurasse, por mais que tentasse ocultar seus passos, não podia escapar às vistas penetrantes, ao instinto advinhador de sua ciosa amante. Esta espionagem o fatigava e aborrecia, dando lugar a queixas e arrufos cotidianos, e, quando se achavam juntos, em vez de se afagarem e beijarem-se como outrora, não faziam senão brigarem, arranharem-se e morderem-se como dois gatos-do-mato.

Esse constrangimento, em que o temível ciúme de Jupira colocava o pobre rapaz, ainda mais lhe atiçava o desejo de estar com a sua alva e meiga Rosália. Posto que sua afeição pela cabocla estivesse quase de todo extinta, não sei por que ela exercia sobre seu espírito um poderoso e terrível ascendente, e ele ainda que com medo e repugnância mesmo, vinha sempre rojar-se aos pés dela. Dir-se-ia que ela tinha o poder de fascinar como a cobra.

Já havia quatro ou cinco dias, que Carlito não fazia uma visita à casa de Genoveva e não via Rosália, com medo de Jupira, que o espreitava lá de sua janelinha, ou lhe seguia a pista sutil e sorrateira como a jaguatirica. Por fim não pôde mais ter-se, e rebelando-se resolutamente contra aquele aperreamento, em que vivia, encaminhou-se franca e impavidamente para a casa de Rosália.

– Não faltava mais nada! ia ele rosnando pelo caminho. – Eu ter medo daquela caboclinha, como se fosse minha mãe ou minha senhora- moça!... nada! quer tomar-me à sua conta!... está enganada; – nem tão bobo sou eu, que me deixe alinhavar como o cacique, que ela matou... não me mete cucas... porventura ela é minha mulher para me proibir que eu esteja com a coitadinha da Rosália! ao menos ela não anda de faca e nem tem dentes de onça para morder a gente. Hei de ir vê-la, quer Jupira queira, quer não. Se quiser ver, veja; se não quiser, não me ande espiando.

Fazendo estas reflexões Carlito entrava em casa de Rosália muito ancho e senhor de si. Jupira o viu; sem mais demora meteu no seio a sua faquinha prateada, e com os olhos em chama e batendo os dentes como o javardo em furor saiu e correu para a casa de Genoveva. Era esta um pequeno rancho, cuja frente constava unicamente de uma sala com uma porta e uma janelinha. Nesta sala sentados em um banco se achavam Carlito e Rosália, enquanto a mãe descuidada lavava roupa na fonte do quintal. Jupira chegou sutilmente e sustendo a respiração para não ser pressentida, avizinhou-se à janela e olhou para dentro. Enlaçados em um delicioso abraço os dois amantes beijavam-se em um beijo sem fim, e tal era o seu enlevo que não deram fé da chegada de Jupira. Esta mal deu com os olhos naquele interessante espetáculo, levou subitamente a mão ao coração, como se o sentisse atravessado por uma facada, abafou um grito, e ficou por um momento hirta, pálida, imóvel. Depois levou a mão ao seio e apalpou a faca, mas hesitou e abanando a cabeça: – Não! não! – murmurou; – ainda não!.. mais tarde.

E deitou a correr para casa. Lá foi dar desabafo à violência da dor e da raiva que a torturavam, e os mais atrozes planos de vingança lhe tumultuavam no espírito. Ter-lhe-ia sido fácil matá-los a ambos, mas isso não a satisfazia. Queria fazer Carlito sofrer muito e por muito tempo dores horrorosas do corpo e da alma, insultá-lo, esbofeteá-lo, cuspir-lhe no rosto, antes que morresse, e depois apunhalar-se sobre o seu cadáver. Entregue a um turbilhão de idéias, que se atropelavam em seu espírito, indecisa, arquejante, louca, ora percorria a casa a passos precipitados, ora se debruçava sobre o leito arrancando soluços convulsos e chorando lágrimas de sangue.

Nesta terrível agitação a veio achar Quirino, que entrava pela porta adentro. Ao vê-la com as feições transtornadas, os olhos macerados e injetados de sangue, os seios ofegantes, o olhar torvo e desvairado, Quirino recuou de espanto.

– Meu Deus! – exclamou ele, – o que lhe terá acontecido, que a vejo tão alterada!

– Ah! o senhor está aí, moço...

– Desculpe-me, se está incomodada, eu vou-me embora.

– Incomodada!... não... não estou; mas... estou com uma raiva... disse a cabocla encrespando os punhos, e trincando os dentes.

– Raiva?!.. de quem?... será de mim, meu Deus!...

Jupira não sabia ocultar, nem disfarçar os tempestuosos transportes de sua alma ardente; sentia mesmo necessidade de desabafar a sua cólera, e foi dizendo tudo sem rebuço nem preâmbulos.

– Do senhor?! não; – replicou a cabocla; – é de um atrevido, de um malvado, que me desfeiteou...

– Quem foi esse atrevido?... diga, diga já, que quero ir castigá-lo neste instante...

A cabocla fitou em Quirino um olhar firme e penetrante, como quem queria devassar-lhe o fundo da alma, e perguntou-lhe: – Moço!... o senhor me quer bem, mesmo como tantas vezes me tem dito? – Ainda pergunta?!... não é possível querer-se mais bem do que eu lhe quero.

– Pois bem! é chegada a ocasião de mostrar, que é deveras que me quer bem.

– Sim, formosa Jupira?... quer dar-me esse gosto?... o que quer que eu faça?... fale... aqui estou às suas ordens como o mais humilde de seus escravos!... disse Quirino pondo-se de joelhos aos pés da cabocla.

– Então está pronto a fazer o que eu mandar?...

– Pronto! pronto sempre, linda Jupira; não há impossível a que não me arroje por seu amor.

– Jura? – Juro.

– Pois bem; escute; o senhor conhece o Carlito, não conhece? – Se o conheço!... muito; desde criança.

– Pois saiba que foi ele, quem se atreveu a desfeitear-me.

– Deveras!.. o Carlito? aquele fedelho, aquele biltrezinho?... que atrevido!... vou já puxar-lhe as orelhas, e esfregá-lo a cachações.

– Arrancar-lhe o coração, e beber-lhe o sangue é o que eu queria... mas escute, moço; eu preciso dizer-lhe toda a verdade; eu queria muito bem àquele menino...

– Queria-lhe bem?... deveras, Jupira?... ah!... por que razão não me falou isso há mais tempo? Quirino soltou um gemido abafado.

– Como, se nem eu mesmo sabia? replicou-lhe a moça; – empreguei bem mal o meu amor... mas não se aflija, moço; se era grande o amor, maior é o ódio que hoje lhe tenho. Tinha vontade de ver varado a facadas aquele maldito e pisá-lo debaixo dos pés... ah! se eu pudesse virar-me em onça para estrafegá-lo entre meus dentes e chupar-lhe todo o sangue do coração!... mas o senhor quer o meu amor?... quer que eu seja para sempre sua?...

– Ah! não me pergunte; para tê-la um só instante nos meus braços, eu daria mil vidas, que tivesse.

– Não é preciso que perca a vida; basta tirá-la a outro.

Quirino estremeceu e fez um gesto de horror; espantava-o ver em tão terna idade aquela fria ferocidade e sede de vingança.

– Tem medo, moço?... ah! pensei que era homem...

– Medo eu?... fale, Jupira; o que quer que eu faça? – Pois não me entende?...

– Talvez não; fale claro, disse o mancebo, ainda duvidando do que estava ouvindo.

Jupira tirou tranqüilamente a faca que tinha no seio, e a apresentou a Quirino.

– Carlito me desfeiteou, me atraiçoou, e eu não tive e nem sei se terei ânimo de o matar... entretanto, quero que ele morra. Sou uma fraca mulher; o pulso do homem é mais firme e certeiro. Não pode morrer por minha mão, vá ao menos a minha faca beber-lhe o sangue.

Quirino olhava espantado para a cabocla sem saber que responder-lhe.

– Não tem ânimo?... disse ela resolutamente; então adeus, moço; não me apareça mais aqui...

– Mas, Jupira! – disse o mancebo hesitando – eu... não sei... matar uma pobre criança!... é uma barbaridade... oh! isso nunca! – Ah!... é assim que me quer bem? que me importa!... se o senhor não tem ânimo, não faltará quem o mate, e ele há de morrer mesmo, e eu nunca hei de ser sua.

– Nunca! ah! Jupira! Jupira! que palavra cruel! moça!... ah!... não me ponha a perder... eu perco o juízo! – Vai, ou não?...

– Jupira...

– Eu juro que hei de ser sua, sua para sempre, moço.

– Jupira!...

– Hei de amá-lo tanto, com odeio a Carlito.

– Jupira! – ... ai!... eu perco a cabeça...

– Vá, vá; eu juro, que hei de ser sua; vá... e tome este beijo em penhor de que hei de cumprir a minha palavra.

Jupira enlaçou o braço ao colo do mancebo, e imprimiu-lhe na boca seus lábios nacarados e ardentes. Aquele beijo, alucinou-o, exaltou até ao delírio a sua paixão; foi como um filtro sutil e fatal, que coou-lhe até o mais íntimo da alma, e nela vazou todo o ódio, ferocidade e sede de vingança de que a cabocla se achava possuída, acabando com toda a sua indecisão.

– Dá-me, dá-me essa faca!... exclamou Quirino, e, arrebatando a faca da mão de Jupira, saiu precipitadamente.

Capítulo IX

Na noite desse mesmo dia Quirino foi procurar Carlito e o convidou para uma pescaria em canoa no Rio Verde na manhã do dia seguinte, que era um domingo. Carlito, que muito gostava desse gênero de divertimento, no outro dia bem cedo já estava pronto à espera do companheiro, com seus anzóis preparados e algumas provisões de boca para passarem o dia no mato. Saíram ambos; a manhã estava magnífica; os passarinhos faziam ouvir pelos pomares a mais festiva algazarra; o sino da capela repicava alegremente derramando ecos sonoros aquelas aprazíveis devesas.

O Rio Verde colocando através dos vargedos, parecia uma luzente cobra de escamas de esmeralda, espreguiçando-se à luz do sol formoso das solidões. Pelas diversas veredas da colina viam-se diversos grupos de famílias camponesas com seus vestidos domingueiros de garridas cores, encaminhando-se para o seminário para ouvirem as missas e as práticas dos padres santos, que assim chamava a gente do sertão aos padres da congregação.

Carlito sentia o coração pular-lhe no peito cheio de vida, animação e alegria. Tinha acabado de assistir à missa matinal, onde estivera extasiado a contemplar e a trocar olhares expressivos com a meiga e formosa Rosália, e só essa lembrança era como um perfume, que o embevecia nas mais suaves emoções.

Não assim Quirino, que, com o espírito turbado por sombrios e sinistros pensamentos parecia um réprobo, que traz na fronte o selo da condenação eterna, e debalde se esforçava por ocultar a angustiosa agitação de sua alma. Encaminhavam-se rio acima para um bonito lugar, chamado Olaria, onde o rio depois de atravessar em carreira pressurosa os mais risonhos chapadões, refletindo à flor do campo todo o esplendor daquele céu deslumbrante, como para descansar de suas correrias pelas campinas vem espreguiçar-se sereno em um extenso e profundo remanso, à sombra de duas alas de frondentes e viçosos capões.

Chegados à beira do rio os dois pescadores desprenderam uma pequena canoa, que ali estava amarrada com um cipó a um tronco da margem. Quirino tomou na praia uma grande e pesada pedra, e a colocou dentro da canoa.

– Para que essa pedra? – perguntou Carlito.

– Esta canoinha é muito doida, Carlito; esta pedra é para fazê-la calar mais um pouco na água, e não virar com agente.

Soltaram a canoa e a tangeram rio abaixo pelo remanso de que falamos. Carlito preparou o seu anzol e o lançou na água. Estava em pé no meio da canoa, com a vara em punho e os olhos fitos no rio. Por detrás dele Quirino assentado à popa manejava o remo. Quem os visse então, havia de notar o extremo antagonismo que havia na expressão daquelas duas fisionomias. Carlito com olhar tranqüilo, que revelava a placidez de sua alma tão serena como a torrente mansa sobre que resvalava, tinha a atenção presa aos movimentos da linha de seu anzol, e um meio sorriso como de uma satisfação íntima lhe pairava pelos lábios. Quirino com os olhos torvos e espantados olhava com inquietação ora para uma ora para outra margem; ora apalpava a faca e fitava olhar sinistro e desvairado sobre o adolescente que estava diante dele, ora deixava por instantes cair a fronte sobre o peito em profundo e sombrio abatimento. Seu espírito debatia-se entre os estertores da mais violenta e angustiosa luta.

Aquele mocinho tão novo, tão esbelto e garboso, com a alma tão serena, tão cheia de risonhas visões e doces sonhos de esperança; aquela criança descuidosa, que nenhum mal lhe fizera, que a ele se abandonava com tão sincera e ingênua confiança, ter de cair vítima do seu punhal, ir servir de pasto a esses mesmos peixes que procurava atrair ao seu anzol, e com que esperava regalar-se!... O coração do mancebo fraqueava, e tinha ímpetos de arrojar ao rio a faca que lhe dera Jupira, e dizer ao seu companheiro: – fujamos; Carlito, fujamos; um grande perigo aqui nos ameaça! Mas para logo surgia ante o seu espírito a linda e voluptuosa imagem de Jupira, que como o anjo do mal conjurava todos aqueles escrupulosos impulsos.

O beijo de fogo, que lhe dera, ardia-lhe ainda nos lábios, e lhe fervia no coração como um filtro peçonhento que lhe queimava o sangue, e lhe escaldava o cérebro em delírios de volúpia. – Oh! pensava ele ainda contemplando com olhos cheios de inveja e de ciúme as esbeltas e bem talhadas formas e o encantador semblante do imberbe adolescente; – oh! este menino!... este menino!... e ela o amava!... por mais que diga que o odeia, esse ódio não pode durar muito... e no fim de contas, se eu o poupar... quem sabe... será ele o feliz amante, que há de vir a gozar de todos aqueles mimos, que eu há tanto tempo cobiço com todo o ardor de minha alma!... oh! não? mil vezes não! já agora, Jupira, ainda que te arrependas mil vezes, ainda que venhas me pedir de joelhos por ele, tem de morrer! é preciso absolutamente, que eu te livre a ti e a mim desse rapazinho que estorva a nossa felicidade... eia! ânimo!... antes que se arrependa...

E a canoa vinha suavemente resvalando à mercê da torrente serena; Carlito, com semblante plácido e risonho, em pé com a vara na mão, refletindo na água límpida do rio os contornos de sua gentil figura, cismava nos sorrisos e beijos de Rosália, à espera que o peixe lhe viesse morder no anzol, e por detrás dele hirto, medonho, sombrio, o vulto de Quirino com a faca em punho se ia erguendo sinistra e vagarosamente.

Capítulo X

Jupira passara a noite entre penosas insônias e sonhos pavorosos, entregue à mais horrível agitação. Apenas adormecia via a figura de Quirino com os olhos torvos e abrasados, hirtos os cabelos, e nos lábios um feroz sorriso de triunfo, com as mãos e o punhal banhados no sangue de Carlito, vir correndo a ela pedir-lhe o cumprimento de suas promessas. Outras vezes era Carlito que lhe aparecia pálido, triste, abatido, com um punhal cravado no coração, e que com voz dorida vinha acabrunhá-la com o peso de maldições e terríveis imprecações. Mil outras hediondas visões se atropelavam em seu espírito, e os remorsos torturavam-lhe o coração.

Mal despontou a primeira barra do dia que ela ansiosamente esperava, ergueu-se e quis sair; mas seu pai tinha o costume de guardar cuidadosamente todas as chaves das portas de fora, e foi-lhe forçoso esperar, na mais angustiosa impaciência, que despertasse e se levantasse. Apenas pôde sair, foi direta correndo a casa onde Quirino costumava hospedar-se. Já não estava em casa; soube que tinha saído ao romper do dia.

– Ai de mim! – disse ela na mais extrema aflição;– Deus sabe o que terá acontecido... meu Deus!... meu Deus!... será já tarde! Dali correu imediatamente ao seminário, onde Carlito morava. Um criado disse que tinha saído muito cedo, e que não sabia para onde tinha ido.

– Ai! meu Deus! meu Deus! que será dele!... desgraçada de mim! – saiu a menina exclamando na maior consternação, e dali se foi sempre a correr a casa de Genoveva. Esta e sua filha acabavam de chegar da missa, e perguntando-lhes Jupira se não tinham visto Carlito.

– Esteve conosco ainda agora, lhe disseram, na missa da madrugada, e nos disse que dali ia para o Rio Verde passar o dia e pescar com o sr. Quirino, que estava junto com ele.

Com esta notícia a aflição e angústia da rapariga subiram ao último ponto, cobriu-se de palidez mortal, cambaleou, e foi preciso encostar-se à parede para não ir ao chão.

– Para que banda foram eles, perguntou ela ainda com ar tão inquieto e perturbado que surpreendeu as duas mulheres.

– Foram para a banda da Olaria, – respondeu Genoveva; – mas o que tens, minha filha, que estás tão assustada?... aconteceu alguma coisa?...

Sem nada responder, com grande espanto das duas mulheres, Jupira de um salto pôs-se da parte de fora, e lá se foi a correr para o lado da Olaria, que distava dali quase meia légua.

Dirigiu-se para o remanso, onde esperava encontrá-los, penetrou pela estreita ourela de mato que bordeja o rio naquela paragem, e chegou à borda esbaforida, desgrenhada e torva como uma onça malferida. Lançou os olhos pelo rio acima, e viu a canoa boiando serena pela torrente abaixo, em meio dela Carlito em pé com seu anzol na mão pescando tranqüilamente, e por detrás dele Quirino com a faca alçada... Súbita vertigem cobriu-lhe os olhos de uma nuvem cor de sangue, e antes que ela pudesse soltar um grito, a faca tinha descido três vezes sobre as costas da infeliz vítima, que sem soltar um ai caiu de bruços no fundo da canoa golfando sangue aos borbotões.

Através da caligem que lhe turvava os olhos, Jupira viu aquela horrível cena como em um pesadelo, bateu palmas, e deu um grito, antes um uivo horroroso, com os braços em tremor convulsivo estendidos para o céu.

Quirino assustado olhou rapidamente para aquele lado; mas depois que reconheceu Jupira: – Está satisfeita? – bradou de longe mostrando a faca ensangüentada, e apontando para o fundo da canoa, onde jazia o cadáver de Carlito estrebuchando e vomitando sangue.

– Bravo! bravo!.. muito bem! gritou a cabocla, com um sorriso de infernal ironia. – Agora venha! venha depressa receber o prêmio...

– Espera lá ainda, minha Jupira; preciso dar sepultura a este desgraçado...

Falando assim, Quirino desatava da cintura uma forte e comprida cinta de duas voltas, que trazia de propósito, destinada a atar ao pescoço de Carlito a pedra, que pusera na canoa, e atirá-lo ao fundo do rio.

– Ainda não, moço!... espera.... traze-o cá... quero vê-lo ainda uma vez... coitado... era tão bonitinho!...

Quirino, ainda que um tanto receoso de qualquer fatal contingência, não ousou replicar-lhe; aquela mulher exercia um ascendente irresistível sobre aqueles que a amavam.– Quirino tocou a canoa para a margem.

Jupira contemplou muda, por alguns instantes, o cadáver de seu infeliz amante com os braços cruzados, os olhos em brasa, engolindo lágrimas e soluços, que ninguém poderia dizer se eram de furor ou de angústia, de dó ou de terror, de remorso ou de desesperação, porque era de tudo ao mesmo tempo.

– Está satisfeita comigo? perguntou o mancebo olhando para ela com terror e desconfiança.

– Oh! muito! muito! – respondeu-lhe com um sorriso satânico, – agora pode entregar-me a minha faca.

Quirino assombrado restituiu-lhe a faca ensangüentada.

– Bem! podemos agora dar sepultura a este pobrezinho, disse apontando para o meio do rio, e entrando para a canoa.

Quirino tangeu-a para o meio do rio.

– Olha, moço! continuou ela com os olhos fitos no cadáver; – não era tão lindo o meu Carlito!... oh! muito!... muito lindo!... quero dar-lhe ainda um beijo... não tenha ciúmes, moço... é um derradeiro adeus.

Jupira abaixou-se sobre o cadáver que estava de bruços, afogado em sangue, voltou-o de costas, e cobriu-lhe os lábios e as faces de ardentes e repetidos beijos. Transido de assombro e de terror, Quirino contemplava aquela cena.

Quando ela levantou-se com os lábios, as faces e o colo manchados no sangue de Carlito, estava hedionda!... Quirino horrorizado estava quase a lançar-se ao rio. Mas ela imediatamente ameigando a voz, e abrindo-lhe os braços: – Agora sou tua, – disse, – abraça-me! Quirino arrojou-se aos braços dela com o frenesi de uma paixão louca, que o levara a praticar o mais vil e hediondo assassinato. Mas ao mesmo tempo que a ia apertando contra o peito, a faca de Jupira lhe ia atravessando o coração, e nas vascas da morte ele ouvia uma voz rouca e sinistra rosnar-lhe ao ouvido estas palavras: – Morre também, vil matador! eu não te quero...

Dois dias depois encontrou-se boiando, já a uma légua de distância, uma canoa sem ninguém que a governasse, mas tripulada por uma multidão de urubus, que disputavam entre si os restos de dois cadávares.

Quanto a Jupira, sumiu-se, e nunca mais se soube ao certo o que foi feito dela.

Passados tempos, uns caçadores encontraram em uma grota no seio de uma mata profunda o esqueleto de uma mulher pendurado a uma árvore por um cipó. Presume-se com muita probabilidade que era Jupira que se havia enforcado.

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

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