Já vinte anos eram passados depois que tinham tido lugar em Vila Boa os deploráveis acontecimentos que ficaram referidos no começo desta narração. O nome de Gonçalo, que todo o mundo julgava morto, já quase completamente esquecido, apenas existia na memória de alguns velhos, como uma tradição dos tempos passados, que eles se apraziam em referir aos rapazes para lhes servir de exemplo e escarmento dos maus costumes. É verdade que corria como certo entre os habitantes de Goiás que o comandante dos índios selvagens, que havia anos tinham assolado o norte da capitania levando o terror e a devastação até as imediações de Vila Boa, era um branco, que em razão de seus crimes se tinha refugiado entre eles para subtrair-se às perseguições da justiça; mas nem por sombra passava pelo pensamento de quem quer que fosse que o assassino de Reinaldo fosse o terrível caudilho dos Chavantes, que Itajiba fosse Gonçalo, do qual tinham como certo que já nem ossos existiam.
Maria, a gentil causadora e vítima ao mesmo tempo daquela triste catástrofe, existia ainda, mas sempre mergulhada naquele torpor profundo, naquela paralisia da inteligência que a tinha acometido há vinte anos, quando viu expirar Reinaldo picado a facadas pela mão de Gonçalo depois de porfiosa e desesperada luta. Ela existia, mas ninguém reconheceria mais na fisionomia desfigurada e macilenta da pobre idiota as feições tão delicadas e espirituosas da gentil e travessa Maroca. Órfã e sem abrigo, Maria teria morrido à míngua e ao desamparo, se mestre Mateus, que era seu padrinho, não a tivesse recolhido em casa, onde a tratava com todo o desvelo e caridade. Mestre Mateus e Josefa sua mulher fizeram os esforços que estavam ao seu alcance para restituir o uso da inteligência àquela infeliz criatura; porém cuidados, remédios, passeios, distrações, romarias e promessas devotas, tudo foi baldado, até que por fim perderam toda a esperança de vêla restabelecida.
Começava então a derramar-se por toda a capitania de Goiás a grande fama das maravilhosas curas operadas pela intercessão da Virgem Nossa Senhora da Abadia, que era adorada em sua capelinha, erigida havia quatro ou cinco anos no lugar denominado — Muquém — à custa das esmolas e contribuições do povo, por um santo ermitão, o qual se dizia ter achado nesse lugar em uma lapa à margem do regato, que teve o nome de Córrego das Lágrimas, uma grande e perfeita imagem da mesma Senhora. Corriam na boca do vulgo a respeito desse ermitão muitas histórias e tradições diversas; mas ninguém sabia ao certo quem ele era, nem donde viera. Vivia sozinho em completo retiro subsistindo de esmolas, de frutos e legumes silvestres; trajava um hábito de algodão grosso tinto de negro, apertado por um cinto de sola, do qual pendia um grosso rosário de camândulas. Passava o tempo em contínuas penitências, orações e exercícios piedosos, e ocupado em zelar a pequena ermida, que com o auxílio dos fiéis tinha erigido à sua celestial padroeira. Demais, sua vida era simples, e despida do afetado espírito de austeridade desses que se querem inculcar como santos aos olhos do mundo e como tais serem venerados em vida; sua humildade era sincera, e seus atos de penitência e contrição eram filhos de uma verdadeira abnegação das coisas do mundo.
A imensa reputação da virtude desse santo homem, as prodigiosas curas que tinham sido operadas pela intercessão da milagrosa Santa, deram em breve tempo extraordinária voga às romarias ou peregrinações ao Muquém. A quinze de Agosto, dia em que se celebra a festa da Santa, uma imensa multidão, que acudia de todos os ângulos da capitania de Goiás e mesmo das capitanias vizinhas, vinha reunir-se em torno da capelinha do Muquém, e depor aos pés da Virgem, em cumprimento de promessas, piedosas oferendas e valiosos donativos. Nessa quadra as mal trilhadas e solitárias sendas, que dos diversos pontos da província conduzem à isolada ermida, viam-se apinhadas de viandantes de todas as classes, sexos e idades, que iam em devota romaria cumprir suas promessas levando preciosos presentes em dinheiro, escravos, gado, animais, objetos de ouro e prata, cera, paramentos, alfaias e mil outras coisas, com que ornavam e enriqueciam o santuário da miraculosa Virgem. Nessas estradas encontravam-se então a cada passo tropas e carros atulhados de víveres e efeitos de toda a espécie, numerosas cavalgatas, que lá iam em ruidosa e alegre comitiva, caravanas de homens e mulheres a pé conduzindo crianças e bagagens, ou acompanhando vagarosamente um carro puxado a bois, que com seu monótono chiar lá ia em lentas jornadas atravessando os chapadões.
Quem ignorasse o motivo desse movimento, julgaria achar-se nas vizinhanças de uma grande cidade.
Também em Vila Boa não havia quem não quisesse ir em romaria ao Muquém beijar o hábito do virtuoso ermitão, adorar a milagrosa imagem, e implorar-lhe alívio a seus males.
— Nunca mais iremos à romaria do Muquém cumprir nossas promessas, Mateus? perguntava Josefa, a velha companheira de mestre Mateus, a qual, como todas as velhas beatas, tinha o mais vivo e ardente desejo de ir àquela romaria, e julgava que sua alma não se salvaria se morresse sem ter cumprido sua promessa. Há dois anos, continuou ela, que fizemos promessa de lá ir, e levar Maria, e até agora nada! Olha que Agosto está à porta, e nós não somos crianças para deixarmos os anos passarem assim. Já vai para vinte anos que a pobre Maria está naquele estado, muda e desmemoriada. Se Nossa Senhora da Abadia não lhe der alívio e não lhe restituir o juízo e a fala, não sei quem lhe poderá valer.
— Tem paciência, minha velha, responde flegmaticamente mestre Mateus; tu bem sabes que meus incômodos e negócios me têm atrapalhado essa viagem. Mas vai-te aviando, que este ano, custe o que custar, havemos ir ao Muquém com o favor de Deus. Também eu preciso bem apegar-me com a milagrosa Virgem a ver se me dá alívio a esta maldita gota, que me atormenta, e que já nem me deixa ir trabalhar à forja.
— E eu também, que há mais de seis anos não sei o que é lograr boa saúde.
Mestre Mateus, que apesar dos seus incômodos, que ele exagerava, e de contar já seus oitenta anos, era ainda vigoroso e ágil, como um velho ciclope, começou a tratar com atividade dos preparativos para a projetada romaria. O Muquém ficava a cerca de oitenta léguas ao norte de Vila Boa de Goiás, por caminhos desertos, baldos de recursos e por vezes infestados pelos Bugres das margens do Tocantins. A viagem era longa e não sem dificuldades e perigos. Mas nenhuma dessas considerações detinha os romeiros, que em seu devoto ardor expunham-se de bom grado a todas as fadigas, privações e perigos. Mestre Mateus aprontou um grande carro-de-bois, no qual tratou de encerrar grande quantidade de víveres, roupas, utensílios e outros objetos necessários para uma longa peregrinação de mais de dois meses através de sertões desertos e inteiramente baldos de recursos.
A caravana de Mestre Mateus, que se compunha dele e sua mulher, de uma filha casada, Maria, e mais dois camaradas, pôs-se a caminho em princípios de Julho, e tangeram alegremente pela estrada do Muquém o seu pesado carro rodeado de esteira de taquara e toldado de couro, que por espaço de dois meses lhes tinha de servir ao mesmo tempo de habitação e de veículo por aquelas desertas regiões.
Os carros puxados a bois, com seu eixo móvel, pesados e vagarosos, são por certo grosseiros veículos, que bem denunciam o atraso dos meios de condução no interior do nosso país. Mas talvez por isso mesmo que revelam a infância da indústria da viação, tem um não sei quê de primitivo e poético, que enleva a imaginação. Eu nunca pude ver sem um singular e indizível sentimento de melancolia essas grandes e pesadas máquinas cobertas de couro, arrastadas vagarosamente por vinte e mais bois, quebrando com seu chiar agudo e monótono como o canto da cigarra o silêncio das solidões, atravessando os desertos em lentas e peníveis jornadas. São casas ambulantes, que muitas vezes vão transpondo para grandes distâncias famílias emigrantes com todos os seus haveres, seus móveis, animais e aves domésticas. Logo que o sol descamba do meio-dia fazem alto à beira de qualquer córrego, onde haja abundante pastagem, disjungem os bois, e aí estabelecem durante a metade do dia e durante a noite uma cômoda e agradável vivenda, qual se continuassem como sempre sua vida simples e uniforme. O rio lhes fornece água fresca e por vezes peixe abundante e saboroso; no mato acham mel, a caça e o palmito; a criança embala-se em seu berço à sombra do toldo do carro: em roda deste mugem as reses, vagueiam aves caseiras, e reina movimento, ruído e alegria como no lar doméstico.
Assim iam os nossos romeiros, pelo que depois de uma viagem vagarosa, mas alegre e sem acidentes, chegaram enfim poucos dias antes da festa ao vale triste e retraído em que se achava edificada a capelinha de Nossa Senhora da Abadia. Já aquele sítio ermo e sem habitação alguma durante o resto do ano se ia transformando em uma pequena cidade de barracas, carros e ranchos de capim ou palhas de coqueiro alinhados e formando ruas freqüentadas por uma multidão de romeiros, que afluíam de todas as partes. Depois de ter escolhido o lugar em que deviam plantar sua tenda rodante, mestre Mateus tratou de fazer um apêndice a ela formando com os arreios do próprio carro uma barraca coberta de folhas de coqueiro, e aí estabeleceu-se com sua família de romeiros.
Na manhã seguinte, apenas a primeira barra do dia clareou os horizontes, mestre Mateus tratou pressuroso de despertar sua gente para irem ter com o ermitão, antes que a turba dos romeiros o rodeasse e tornasse difícil o acesso junto dele.
— Vamos, disse ele tomando Maria pela mão, vamos procurar o santo ermitão, entregar nossas esmolas, e rezar aos pés da Santa Virgem. Tenho fé, minha pobre Maria, que Nossa Senhora dA Abadia há de curar-te desse teu mal e aliviar-me também os meus sofrimentos.
Maria, acostumada há longos anos a obedecer automaticamente a mestre Mateus, acompanhou-o silenciosamente sem nada compreender do sentido de suas palavras, e juntamente com Josefa se encaminharam para o lado da capela. O sol, que começava a aparecer, cintilava sobre o orvalho, que a noite peneirara sobre os tetos de coqueiro dos ranchos e as cobertas de couro dos carros dos romeiros, onde começavam a rumorejar a vida e o movimento como em um vasto colmeal.
A alguma distância da capela os três romeiros avistaram o virtuoso eremita de joelhos sobre a relva do adro em face da ermida com os braços abertos embebido em extática oração. O sol, que surgia por defronte deles, destacava vivamente os contornos da figura venerabunda do ermitão naquela piedosa e solene postura, e rodeando-o de esplendores o apresentava aos olhos dos romeiros como a imagem viva desses patriarcas do cristianismo cingidos com a auréola da bem-aventurança. A barba grisalha lhe descia ao peito e os grandes olhos pretos se volviam ao céu como que nadando em profundos êxtases. A tez crestada da fronte e do rosto era atravessada por longos e fundos sulcos, e a cabeça pendida para trás se lhe debruçava sobre os ombros alquebrados. Via-se, entretanto, que sua idade não podia ser muito avançada, e que aqueles prematuros caracteres de velhice eram resultado de longos sofrimentos e fadigas extremas.
Nem em sua figura nem em suas palavras se revelava desejo algum de impor à multidão e de atrair cultos e venerações de que se julgava indigno. Seu porte era modesto, e em seus olhos e em toda a sua fisionomia lia-se uma dor sincera, uma verdadeira e profunda compunção.
Mateus e suas companheiras, cheios de assombro com aquele espetáculo, cuidando ter diante dos olhos uma visão beatífica, pararam e o contemplaram em respeitosa distância sem se atreverem a interrompêlo em sua mística ocupação. Apenas porém o eremita, terminada a sua oração, levantou-se, os nossos romeiros encaminharam-se para ele. Maria, ou antes Mateus por ela, levava em oferenda à Santa Virgem um rosário de grossas contas de puro ouro com uma pesada medalha do mesmo metal, em que vinha esculpida a imagem da Virgem, obra primorosamente trabalhada nas oficinas de Vila Boa.
Tinha esta medalha sido dada em outros tempos a Maria pela mãe de Gonçalo, que a tinha conduzido à pia batismal, e era em tudo semelhante e igual à que Gonçalo possuía. Mateus e sua mulher também levavam objetos de ouro do mais fino quilate, de que eram abundantíssimas nesse tempo as minas de Goiás.
Mateus apenas se aproximou do ermitão, lançou-se-lhe aos pés procurando beijar-lhe as mãos e o hábito; mas este estorvou-o tomando-lhe as mãos, e disse-lhe com mansidão: — Que pretendeis, irmão? eu não sou nenhum santo para merecer vossas adorações; sou um miserável pecador, que para nada valho, e que choro nestes ermos minhas enormes culpas. Ide prostrar-vos, continua ele apontando para a igreja, diante daquela que é digna de vossos cultos e dos de toda a humanidade, e a única que pode dar alívio a vossos sofrimentos.
Mateus levantou-se e passou às mãos do eremita os preciosos donativos que em cumprimento de suas piedosas promessas trazia a Nossa Senhora da Abadia. Antes porém de entregar o rosário e a medalha oferta de Maria, disse ao ermitão mostrando-lhe esta: — É esta pobre mulher quem faz este oferecimento à milagrosa Senhora da Abadia, e é ela sobretudo quem mais precisa de seu valioso patrocínio pela triste doença que há vinte anos padece. Sim, virtuoso irmão, já vai para mais de vinte anos, esta infeliz rapariga caiu neste estado em que a vedes, ficando muda e sandia, ela que era a mais linda e mais viva menina de todo Goiás. Um rapaz desordeiro, que por desgraça havia então em Vila Boa, rapaz turbulento e espancador, que parecia ter no corpo uma legião de demônios, Deus me perdoe, e que se chamava Gonçalo...
— Gonçalo! interrompeu o ermitão estremecendo e encarando com atenção para Maria e Mateus.
— Sim, Gonçalo, bom irmão, prosseguiu este sem reparar na surpresa e crescente perturbação do ermitão: foi ele o causador da desgraça desta coitada, que aqui vedes. Em uma noite de folguedo em minha própria casa esse malvado assassino...
— Basta, irmão! exclamou o ermitão, e com o peito arquejante e a fronte inundada em suor frio estendia para Mateus os braços trêmulos. Por piedade, basta! eu sei de tudo...
Depois tomando precipitadamente o rosário de ouro, que Mateus ainda tinha nas mãos, examina com atenção a medalha e olha fixamente para Maria.
— Maria! exclama ele caindo aos pés da romeira, Maria, perdoa-me! Maria, sobressaltada com aquele grito e aquela atitude do ermitão, fita nele os olhos com pasmo, e por sua vez exclama: — Gonçalo!...
— Milagre! milagre! murmuraram com assombro Mateus e Josefa ao ouvirem aquela primeira palavra inteligível que depois de vinte anos Maria pronunciava; mas cheios de surpresa ao reconhecerem no ermitão o assassino de Reinaldo não sabiam o que pensar daquele extraordinário acontecimento.
— Maria! continua Gonçalo sempre de joelhos aos pés da romeira; ah! tu me reconheces ainda!...
Maria, perdoa-me; ninguém melhor do que tu sabe que eu não sou nenhum santo, mas um miserável pecador, para cujos enormes crimes é pouca ainda toda a misericórdia de Deus e dos homens. Dize-me pois, Maria, por piedade, por amor daquela soberana e imaculada Virgem, que eu e tu veneramos desde a infância, e que guiou teus passos à ermida do deserto, dize-me, Maria, vieste aqui para me acusar ou para perdoar?...
Maria, adormecida há vinte anos naquele torpor de espírito que lhe paralisara todas as faculdades da inteligência, acordou subitamente ao som daquela voz, que outrora tinha ouvido entre pragas e sangue, e que agora maviosa e humilde implorava o perdão a seus pés. Surpreendida e atônita como quem despertava bruscamente de um profundo dormir, sua alma vacila alguns momentos como que procurando em vão reatar ao presente um remoto passado; mas enfim clareando-se-lhe subitamente as idéias como por uma inspiração do céu: — Para perdoar-te, respondeu com voz calma e firme.
Os olhos do ermitão, até ali extintos e cravados no chão, encheram-se de luz e volveram-se para o céu.
— Eu vos dou infinitas graças, meu Deus, murmurou ele levantando-se dos pés de Maria, por me terdes concedido a inefável consolação de ouvir o meu perdão dos próprios lábios de minha vítima, e de vos terdes dignado baixar vossas vistas sobre este mísero pecador para torná-lo instrumento da vossa bondade e misericórdia.
Mateus e sua mulher, que atônitos contemplavam de parte aquela cena tocante e quase sobrenatural, como que custando ainda a capacitar-se do que viam e ouviam, possuídos a um tempo de timidez e respeito, até ali não se tinham atrevido a aventurar uma só palavra. Mateus por fim aproximou-se respeitosamente do ermitão e disse-lhe: — E nós, Gonçalo, acaso já nos conheces? não te lembras mais do velho Mateus? — Há muito já te reconheci, Mateus, a ti e a tua boa mulher. Mas desculpai-me; este inesperado encontro, este abalo tão profundo... ah! perdoai-me... preciso também de vosso perdão...
E como a emoção embargava-lhe as falas, ele abraçou-os chorando.
Passados aqueles momentos de emoção, e dissipado algum tanto o assombro que deixara nos ânimos aquele extraordinário acontecimento, o ermitão abriu a porta da capela e convidou os romeiros a entrarem. Ali prostrou-se perante o lindo altar, em que resplandecia a imagem da Santa Virgem; em fervorosa oração renderam graças à miraculosa Senhora pelos assinalados benefícios que dela acabavam de receber.
O disco do sol já se elevava no horizonte; a multidão dos romeiros já começava a inundar o pequeno templo, que mal os podia conter, e sussurrava como um enxame de abelhas em manhã de primavera a entrarem e saírem pela estreita porta da colmeia. Era já tempo de deixar o ermitão, que naqueles dias não pertencia a si, e tinha de dar atenção a milhares de romeiros. Antes porém de se separarem , Mateus pediu a Gonçalo que lhe contasse o que lhe tinha acontecido desde o seu desaparecimento de Vila Boa até aquela época, e que série de singulares acontecimentos o tinha levado a fundar aquela capela e a viver vida de austeridades e penitências no meio daqueles desertos.
— Mateus, lhe responde o ermitão, a história de meus desvarios e desgraças é bastante longa, e decerto não exiges de mim que a conte aqui em alguns momentos e no meio deste tumulto. Durante os dias que aqui tiverdes de demorar, vinde todas as tardes àquela choupana que ali vedes; é ali a minha morada.
Posto que me seja bem doloroso rememorar um passado de crimes, misérias e fraquezas, a vós nada devo ocultar; para me tornar digno do vosso perdão é meu dever tudo confessar-vos, e também para que fiqueis conhecendo e proclameis por toda a parte quão valioso e sublime é o poder daquela piedosa Virgem, a cuja celestial proteção devo a existência neste mundo, e por cuja intercessão espero no outro a salvação eterna.
Durante todo o tempo que estiveram no Muquém, os nossos romeiros todos os dias ao declinar do sol dirigiam-se à cabana do eremita, que distava como cinqüenta passos da capela. Era um pequeno rancho coberto de palhas de bagaçu com uma porta e uma janela, mas fresco e asseado.
Tinha junto à porta uma frondosa sucupira, única árvore de algum vulto que se notava naquela paragem. A sucupira diz-se que tem a propriedade de atrair o raio, mas Gonçalo dizia sorrindo: — Nada no mundo desafia mais os raios da cólera celeste do que o pecado, e eu sou o maior dos pecadores.
De feito depois da morte de Gonçalo o raio derribou aquela árvore, que o céu parecia ter respeitado somente enquanto prestava uma sombra ao piedoso eremita. Junto à cabana havia também um cercado, que Gonçalo amanhava com suas próprias mãos cultivando algumas flores, com que enfeitava os altares da Virgem; e era esta ocupação a única distração que concedia aos rigores de sua vida ascética e solitária.
Ali assentados em um grosso madeiro estendido junto à porta da cabana pelo lado de fora os romeiros de Vila Boa escutavam com a maior atenção da boca de Gonçalo os acontecimentos que ficam referidos nesta história, desde o desaparecimento de Gonçalo até o temeroso e estranho duelo em que matou Inimá, ficando ele salvo por uma espécie de milagre. Ele lhes contava com todos os pormenores suas longas peregrinações e trabalhos, as lutas e dificuldades que tivera a vencer durante o tempo em que, homiziado pelos desertos, se refugiava entre os selvagens procurando sufocar por meio de uma vida inquieta e cheia de azares os clamores da consciência, que mesmo no meio das maiores prosperidades não deixava de pungi-lo com seu implacável aguilhão, as extraordinárias aventuras de sua vida entre os Chavantes, seus amores com a filha do cacique, seus triunfos e a infanda peripécia que pôs termo à longa série de seus crimes e desvarios. Os romeiros, absortos no encanto daquela narrativa simples, animada e cheia de interesse, não sentiam correr o tempo, e era com grande desprazer que ao cair da noite ouviam o ermitão dizer-lhes: — É hora de oração e de repouso; voltai amanhã para ouvirdes o resto.
E depois de tudo terem ouvido, ainda não contentes faziam mil perguntas a Gonçalo, pediam-lhe que lhes tornasse a contar mais este ou aquele fato, que lhes esclarecesse e explicasse mais esta ou aquela circunstância.
Nós porém tínhamos deixado Gonçalo alta noite voltando sozinho em uma canoa pelo rio Tocantins abaixo depois de ter matado Inimá.
Atônito e confundido pela singular e quase miraculosa maneira por que ainda desta vez escapara à morte, pasmado dessa pertinaz constância com que o destino como que porfiava em prolongar-lhe a existência através de mil trabalhos e perigos, Gonçalo, esquecido de que se achava no meio de um caudaloso rio, em uma canoa que rodava à mercê da torrente, atirou-se sobre o assento da proa mergulhado em amarga e profunda meditação. Seqüestrado inteiramente do mundo, e vivendo só com seus merencórios pensamentos no meio do silêncio profundo da noite e da solidão, deixando boiar sem direção sua piroga ao capricho das ondas, que a levavam, Gonçalo era o emblema vivo do descrido, que percorre solitário as sendas áridas e desoladas de uma existência sem afeto no presente, sem saudades do passado, sem esperanças nem receios no futuro, e abandona sua sorte à torrente da fatalidade.
Que estranho fado o elevava assim alternativamente do último abatimento ao cúmulo da fortuna, da felicidade e da glória, para de novo arrojá-lo em abismo de desesperação e amargura? Que gênio amigo assim protegia tão visivelmente sua existência através de tantas e tão cruéis vicissitudes? Podia ele, que não era mais que um facínora, um bandido coberto de crimes, merecer tão assinalada proteção do céu? Entre estas e mil outras reflexões sua razão acalmava-se pouco a pouco com a paz profunda das solidões, e ao fresco bafejo das brisas da madrugada, que com as asas úmidas de orvalho lhe afagavam a fronte febricitante. Com a luz da consciência enfim ele pôde descer a perscrutar tranqüilamente os profundos abismos de sua alma, e a revolver um por um todos os monstruosos crimes e desatinos que constituíam a história de sua vida passada. Gonçalo então apareceu a seus próprios olhos como um monstro, que a humanidade devia repelir de seu seio com horror. O espectro do infeliz Reinaldo picado a facadas por suas mãos, as sombras errantes e chorosas da bela Guaraciaba e do esbelto Anhambira, cujo sangue ainda lhe tingia as mãos, e a desse mísero cacique, cujo cadáver rolava talvez a seu lado arrastado pela torrente, e de cuja desgraça era ele o único autor, ele os via a todos surgirem diante de seus olhos torvos e sangrentos, e com vozes lamentosas o cobrirem de pragas e maldições. Aquela alma de ferro caía enfim do fastígio do orgulho nos abismos da mais profunda humilhação.
A flecha de Inimá não pôde penetrar naquele coração protegido por um escudo invisível e celeste, mas lá deixou para sempre gravada a farpa do remorso.
Este último acontecimento, que o salvava de uma morte quase inevitável e por ele mesmo procurada, foi como um brado do céu, que ecoou profundamente em sua alma obcecada pelo crime e obumbrada pelos fumos do orgulho humano. Compreendeu então que a Santa Virgem, que desde a infância venerara com especial devoção, não o tinha preservado em vão até ali de tantos e tamanhos perigos, e o reservava para algum santo e piedoso desígnio, que ainda lhe era oculto; mas reconhecendo-se indigno da assinalada e miraculosa proteção que do céu recebia, arrependia-se com sincera e amarga compunção de sua indesculpável ingratidão para com a sua celeste protetora, a cujos benefícios tão mal correspondera manchando sua vida com crimes e hediondos atentados.
Sua vocação estava enfim solenemente revelada. Só com uma vida de orações, de rudes penitências e de obras de piedade poderia expiar a longa série de seus crimes e de desvarios, e lavar as hediondas nódoas de sua vida passada.
E quanto mais pensava e refletia, mais se fortalecia neste seu santo e inabalável propósito.
O dia já vinha clareando as ermas ribanceiras do Tocantins, e as brisas da manhã, que sopravam frescas, começavam a varrer o tênue vapor branco que a noite estendera sobre as águas como um rio de leite, e que despegava elevando-se em níveos flocos por sobre a coma verde-escura das florestas. As selvas enchiam-se de murmúrios, de cantos de aves e gritos de animais de toda a espécie. As águas ressoavam ao saltitar dos peixes, que aqui e acolá faziam brilhar ao sol suas luzentes escamas. Nuvens de aves aquáticas cortando os ares abatiam o vôo e vinham pousar ao longo das praias; a alva e esbelta garça, mais bela que o cisne, o guará e o colhereiro alardeando a beleza de sua mimosa plumagem cor-de-rosa, o corpulento e pesado jaburu, o pato silvestre com suas escuras penas luzentes como o aço polido, e mil outras aves de diversas espécies e tamanhos esvoaçavam, passeavam ou nadavam em bandos por ambas as margens, enquanto pelas altas ramagens, que se debruçavam mirando-se na torrente, miríades de pássaros de mil qualidades batendo as asas inquietas e fazendo imensa algazarra com seus pios e gorjeios, e os sagüis e caxinglerés gritando e saltando de árvore em árvore ou balançando-se nos ramos e cipós das brenhas emaranhadas, enchiam as selvas de vida, bulício e rumor. Ali a anta membruda arrojando-se na água fazia esvoaçarem sobressaltadas com grande ruído uma chusma de aves aquáticas; além a lontra esbelta e viva de um salto emborca-se no rio dando caça aos peixes e surge além tendo atravessada na boca a prateada pirapitinga ou a crumatã de escamas de ouro.
No meio de todas aquelas cenas tão cheias de vida e de beleza de uma natureza virgem e fecunda, Gonçalo ia passando insensível sem nada ver nem ouvir, como o espectro de um condenado através das galas e regozijos de um esplêndido festim. Imóvel, com a fronte descaída sobre o peito, concentrado em seus pensamentos e rodeado dos fantasmas que sua consciência evocava dos túmulos, dir-se-ia um cadáver ou estátua do desespero, se de espaço em espaço um ligeiro e convulsivo movimento lhe não agitasse os membros.
Foi só quando o sol, reverberando todo o seu esplendor sobre a superfície das águas, inundou de luz as pálpebras meio cerradas de Gonçalo, que este despertou de seu profundo e doloroso cismar. Só então Gonçalo, apercebendo-se de que era levado pelas águas de uma caudalosa torrente sem saber para onde, lembrou-se de tomar o remo e dirigir sua canoa... para onde? O primeiro pensamento de Gonçalo, logo depois de sua luta com Inimá, fora deixar-se levar pelas águas abaixo, até que ele e sua canoa se despedaçassem e submergissem precipitados por alguma cachoeira.
Mas a reflexão, o silêncio e a noite tendo-lhe acalmado e esclarecido o espírito, e tendo compreendido que era vontade do céu que ele vivesse, pensou seriamente no destino que devia tomar. Levado durante toda a noite pela torrente abaixo, Gonçalo não sabia em que paragens se achava. Difícil lhe seria regressar pelo rio acima, e nem quereria jamais tornar a ver os sítios fatais em que o céu o fulminara com o mais cruel dos infortúnios.
Largar o rio e embrenhar-se sozinho por aquelas imensas selvas e solidões desconhecidas infestadas de Bugres e animais ferozes era também empresa por demais trabalhosa e arriscada. Portanto Gonçalo julgou mais acertado e seguro descer em sua canoa pelo álveo do rio, que lhe oferecia estrada natural e franca até chegar à povoação da Palma, que julgava não dever estar muito longe. Arrancou de si e arrojou ao rio as armas e todos os mais adornos selváticos com que estava ataviado, calcou indignado aos pés o cinto em que se encerrava o amuleto do Africano, e conservando consigo somente com religioso cuidado a medalha da Virgem, tangeu sua canoa pelo Tocantins abaixo, confiando seu destino às águas do rio e à proteção do céu.
Assim em luta contínua com uma multidão de trabalhos, obstáculos e perigos, umas vezes rodando precipitadamente arrebatado por perigosas corredeiras, outras vezes tangendo à força de remo a sua canoa pela torrente nimiamente serena e preguiçosa, sofrendo cruéis privações e alimentando-se apenas de alguns frutos silvestres, que colhia pelas margens, chegou depois de longa e penosa viagem à povoação da Palma.
Os habitantes daquele lugar, ao verem chegar sozinho a suas praias aquele homem quase nu, cobrindo-se apenas com um pequeno saiote, que lhe cingia os rins e lhe descia até os joelhos, e um grande couro de onça, que lhe servia de capa e de leito, com cabelos e barbas compridas, esquálido e extenuado, uns possuídos de terror não ousavam aproximar-se cuidando ver algum fantasma ou algum monstro vomitado pelo rio; outros o tomando por algum louco igualmente o evitavam; não poucos também julgando-o algum Bugre feroz ou algum malfeitor estavam a ponto de o apedrejar. Esta primeira impressão porém não durou por muito tempo; pelo abatimento e profunda tristeza que se lia na fisionomia de Gonçalo, e por suas palavras cheias de senso, que nada condiziam com seu bizarro e selvático exterior, em breve compreenderam que aquele estranho personagem não era mais que uma vítima da sorte, a quem longos trabalhos e desgraças tinham reduzido àquele deplorável estado, e o acolheram com caridosa hospitalidade.
Ali tomou Gonçalo o hábito de ermitão, e viveu por algum tempo em profundo retiro na prática de assíduas e austeras penitências, subsistindo das esmolas do povo, que o estimava e venerava como a um santo, posto que ignorasse completamente quem era ele, e donde tinha vindo. Mas um vivo desejo de peregrinar pelo mundo o preocupava de contínuo, e sua alma inquieta e atormentada pelos remorsos, aos quais não achava lenitivo nem nas orações, nem nos jejuns e penitências, era agitada por um secreto pressentimento de que o céu o chamava a outros lugares a fim de cumprir uma piedosa missão, que ainda não lhe fora revelada.
Gonçalo deixou portanto a Palma, e embrenhou-se por sertões desconhecidos passando voluntariamente uma vida de ásperas mortificações e penitências. Vagueou por um largo tempo através dos ermos com um bordão à mão e um saco às costas, vivendo de esmolas ou de frutos e legumes silvestres, tendo por leito o chão frio e duro, por teto a ramagem das florestas ou a abóbada úmida de alguma lapa cavada pela natureza no viso das montanhas. Mas nem assim conseguia acalmar os pungentes remorsos que lhe atormentavam a consciência. Os fantasmas de suas vítimas o acompanhavam por toda a parte como a sombra de seu corpo, e noite e dia lhe torturavam a alma. O grosseiro e parco alimento que tomava parecia-lhe ensopado em lágrimas e sangue. À noite espectros sinistros o ansiavam e enxotavam-lhe o sono das pálpebras requeimadas de prantos e vigílias. Com os olhos amortecidos, as faces pálidas e macilentas, o corpo emagrecido e alquebrado, parecia um espectro surgido dos túmulos, e ninguém mais reconheceria nele a figura atlética e garbosa do vigoroso mancebo de outrora. Errante de povoação em povoação, de fazenda em fazenda, muitas vezes também estacionava entre as hordas selvagens, que o respeitavam e veneravam como um pajé, e conhecedor de sua linguagem e costumes procurava não sem algum resultado doutriná-los e reduzi-los ao grêmio da religião cristã. Mas não podia persistir por muito tempo entre eles, pois que os hábitos e usanças dos índios, suas festas e todas as cenas que entre eles presenciava, lhe despertavam na alma amargas e pungentes lembranças desse tempo tão cheio de extraordinárias peripécias que passara entre os Chavantes.
Também nas aldeias e habitações dos brancos, além dos tormentos que lhe infligia sua própria consciência, não lhe faltavam ocasiões de dissabores, e ouvia por toda a parte contar-se com todos os seus horríveis pormenores a história do hediondo atentado que perpetrara na pessoa de seu amigo, e que se tornara célebre em toda a capitania, e era forçado a dizer — amem — a todas as tremendas execrações que caíam sobre o assassino de Reinaldo. Era mais uma humilhação e um castigo, que aceitava resignado em expiação de suas enormes culpas. Esses mesmos que o veneravam e lhe beijavam o hábito como a um santo, sem o saber execravam sua memória e enchiam seu nome de maldições, e assim em vez de ensoberbecer-se com essas mostras de respeito e veneração, que lhe tributavam, mais humilhado e confuso se achava aos olhos da própria consciência.
Depois de longas e contínuas peregrinações pelos desertos, pelas fazendas e choupanas sem poder achar consolação nem repouso em parte alguma, Gonçalo apareceu por fim na povoação de S. José do Tocantins. Seu corpo fraco e extenuado definhava de mais a mais, e parecia um prodígio a ardente e infatigável atividade que o animava ainda a despeito de todos os jejuns, macerações e fadigas a que se sujeitava. Parecia que sua alma estava prestes a exalar-se daquela frágil prisão corpórea; mesmo assim porém, mesmo apesar das orações, penitências e mortificações a que se entregava, Gonçalo, não achando lenitivo algum às cruéis tribulações de seu espírito, vagava sem repouso pelos ermos os mais inóspitos e desabridos, exposto a todos os rigores do tempo, como o Édipo da fábula perseguido pelas Eumênides, ou como o Aasvero da legenda cristã em seu eterno peregrinar.
Um dia, oprimido de cansaço e de sede, e acabrunhado de mortal tristeza, chegou a um sítio ermo e silencioso, sem horizonte nem perspectiva alguma, a um triste e retraído vale rodeado de morros áridos e de aspecto lúgubre, cobertos de uma vegetação enfezada e rasteira. Tudo era ali mudez e solidão; uma só ave não piava pelos ramos amarelados dos arbustos, nem se ouvia rumor que denunciasse a existência de ente vivo por aquelas soturnas e melancólicas paragens. Apenas ouvia-se o vento a farfalhar pelas ramas ressequidas dos matagais e o burburinho de um córrego a desfiar por uma grota pedregosa, triste como a reza monótona murmurada ao pé do ataúde de um finado... Gonçalo desceu à grota, matou a sede, e depois ajoelhou-se para dar graças ao céu, e encomendar sua alma a Deus, pois pensou ser ali o último pouso de sua peregrinação sobre a terra. Gonçalo, se é lícito comparar uma frágil criatura humana com a divindade, estava então como o Cristo nessa hora de profundo abatimento, nesse momento de suprema agonia, em que no monte das Oliveiras junto à torrente do Cedron, sozinho e abandonado por seus discípulos, suou sangue e sentiu sua alma desfalecer e vacilar ao receber o cálix do martírio, que um anjo lhe apresentava. Gonçalo não tinha, como o divino Redentor, sobre o seu coração todo o peso dos pecados de um mundo para remi-los com seu sangue, mas tinha a consciência oprimida por suas imensas e enormes culpas, e sentia também sua alma desfalecer à míngua de consolo e de esperança. O mundo para ele não era mais que um vasto cemitério, um vale fúnebre de lágrimas e misérias; só no céu poderia achar o repouso e alívio por que em vão suspirava; mas surdo às suas preces, lágrimas e penitências, o céu para ele era de bronze, e de lá não baixava consolação nem lenitivo às cruéis tribulações de sua alma. Ali derramou ele lágrimas ardentes de contrição e arrependimento, implorou do íntimo da alma a misericórdia divina sobre seus enormes pecados, beijou com fervorosa devoção a imagem da Virgem, encostou-se sobre a relva à beira do córrego, e adormeceu ou antes caiu em um letargo, que mais era prostração e desfalecimento do que sono.
Então lhe aparece em sonho a Virgem Mãe de Deus tal qual se achava esculpida na medalha, porém rodeada de todo o esplendor de sua celeste glória, e diz-lhe: — Gonçalo, grandes e inumeráveis têm sido os teus crimes; mas consola-te, que eles te serão perdoados, porque sempre em tua vida, quer na prosperidade, quer na desgraça, invocaste o meu nome e imploraste com fé viva a minha intercessão, e porque tua contrição é verdadeira, e grande tem sido a tua penitência e arrependimento. Mas em expiação de tuas culpas, e para que volte a paz à tua consciência, é mister que leves a efeito uma obra piedosa e santa, que compense largamente em benefícios à humanidade os danos e males que lhe tens causado. Ânimo, pois! não desalentes, que eu serei contigo até a tua última hora.
Meio acordado meio adormecido Gonçalo abre os olhos; mas a gloriosa visão não se desvanece e ele a vê distintamente ir pouco a pouco se afastando e desaparecer no interior de uma lapa vizinha. Gonçalo ergue-se imediatamente, corre àquele lugar, penetra na lapa, e ali encontra em um nicho de pedra bruta uma grande e bela imagem da milagrosa Virgem. A esta vista o ermitão sentiu um raio de alegria banhar-lhe o coração, e abraçado com os pés da Santa verteu lágrimas de júbilo e gratidão. Sua missão acabava de lhe ser revelada pelo céu por um modo solene e miraculoso; ali mesmo pois prostrado aos pés da imagem prometeu erigir-lhe uma capela naquele mesmo sítio e junto àquele mesmo córrego onde fora visitado pela beatífica visão. Era esta sem dúvida a missão piedosa e santa que lhe era imposta pelo céu; era ali naqueles ermos que sua celeste protetora queria ter altar e cultos, e em seu amor e comiseração pelos males que afligem a humanidade, derramar suas graças e favores por todos os fiéis que com fé viva e sincera devoção ali viessem implorar o seu valioso patrocínio.
Depois daquela celeste aparição Gonçalo sentiu sua alma aliviada do peso enorme que o acabrunhava; a graça divina tinha baixado sobre seu coração.
A esforços seus e com o auxílio dos fiéis em pouco tempo erigiu-se a capelinha, que até hoje ainda ali existe com a invocação de Nossa Senhora da Abadia, e para a qual foi trasladada com grande pompa e solenidade a imagem achada ou antes mostrada pelo céu a Gonçalo.
Apenas edificada a capelinha começou logo a influência dos devotos, que vinham fazer penitência, oferecer à Santa suas esmolas, e igualmente beijar o hábito do piedoso ermitão, que aí passou o resto de seus dias zelando o santuário da Virgem, e aí morreu venerado como um santo.
É assim que dos grandes pecadores fazem-se os grandes santos, como da imundícia e podridão brotam por vezes as mais lindas e viçosas plantas.
Eis, meus senhores, o que sei de mais interessante a respeito da fundação dessa célebre romaria e da história de seu fundador. Se quereis saber onde fui eu ter conhecimento tão por miúdo dos acontecimentos desta verídica narração, sabei que eu a ouvi de um velho romeiro, que a tinha ouvido da boca do próprio mestre Mateus, e que a ouvi junto às ruínas da choça do santo ermitão, sentado sobre o mesmo cepo em que este outrora a tinha contado ao velho ferreiro de Goiás e à sua família de romeiros.