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O Garimpeiro

bernardo guimarães

XIV

A LAVADEIRA

No dia seguinte bem cedo a boa velha veio pressurosa acordar Elias.

- Levante-se, meu moço; o dia amanheceu bonito, e tenho uma bela notícia para lhe dar.

- Boa notícia para mim!... não é possível! para mim!... neste mundo já não pode haver notícia nem boa nem má. A única boa notícia que me poderiam dar era que já morri.

- Qual! quem fala agora em morrer!... dou-lhe parte que temos agora aqui perto uma bela vizinhança: já Vmcê. não ficará tão sozinho.

- Vizinhança! oh! que bela nova! tomara que me deixem sozinho, e que eu nunca lhes veja a cara. Senão me mudarei ainda para mais longe.

- Sozinho se veja o diabo!... olhe que uma vizinhança como esta não é para desprezar. É um velho, uma menina muito linda, e uma moça bonita como um sol. Não os conheço, nem me lembro de ter visto essa gente em parte nenhuma.

- Mas não me recordo de ter visto casa nenhuma aqui por perto, e pensei que estava livre de toda a vizinhança.

- Pois não viu uma casinha coisa de uns cem passos ali mais adiante?

- De todo não me lembro; também eu estava tão doente...

- Também a casa é tão pequena, é como esta mais ou menos, e está escondida no mato, que mal se avista.

- Então são tão pobres como nós?...

- Assim parece, ou talvez mais ainda, coitados; mas parece ser boa gente. Quando fui apanhar água fresca numa fonte que há para a casa, pediram-me para encher o pote, e estive conversando um pouco com eles. O homem estava para dentro; mas a menina é muito dada e muito meigazinha; a moça é também muito boa e bonita, meu moço, bonita até ali... mas não sei que tem, que anda tão triste!... comparando mal, parece uma imagem de Nossa Senhora das Dores.

- Pois de todo não sabes quem é essa gente? de onde é? de onde veio? perguntou com sôfrega curiosidade Elias, a quem um súbito pensamento tinha atravessado o espírito.

- Nada sei de todo.

- Um velho, uma moça e uma menina, não é o que disseste?

- Tal e qual.

- Um velho alto e cheio de corpo...

- Isso mesmo.

- A menina é morena e terá dez ou onze anos. A moça é clara, bem-feita, olhos grandes, cabelos castanhos...

- Justamente!... pelo que vejo, são seus conhecidos?...

- Parece-me que sim.

- Um velho, uma moça, uma menina! refletiu consigo Elias, e com estes sinais! não podem ser outros. O Major estava em vésperas de completa ruína!... infeliz família!...

- E não tiveste ocasião, continuou Elias, de ouvir o nome de alguma das pessoas da família.

- Acho que sim... espere... Ah! agora me lembro... ouvi o velho chamar lá de dentro a moça pelo nome de... de... Lúcia.

- Lúcia!... que nome divino acabas de pronunciar, minha boa velha! são eles mesmos! é ela!... ah! desventurada Lúcia! e mais desventurado de mim, que não posso valer-te!...

- Estou vendo que essa moça é o anjo de que Vmcê. há pouco falava?...

- É, minha velha, é ela mesma. E dirás ainda que os anjos não andam cá pela terra?...

Elias não teve mais sossego, e levantou-se imediatamente. Só a idéia de que ali tão perto dele achava-se Lúcia, dava-lhe vigor e alma nova. Era impetuoso, irresistível o desejo de vê-la; mas ao mesmo tempo a lembrança da pobreza, em que ia encontrá-la, o contristava e enchia-lhe de amargura o coração. Vieram-lhe ao espírito todos os tristes transes de sua vida passada, e refletiu amargamente sobre os cruéis e estranhos caprichos da sorte. Ele, que outrora fora quase que despedido da casa do Major, e considerado indigno de pôr os olhos em sua filha, ele que há poucos dias fora tratado desabrida e brutalmente em casa do mesmo Major por amor de um infame aventureiro, ele o via esse mesmo Major, a seu lado, tanto ou mais miserável do que ele próprio. Se tivesse alma maldosa e vingativa, oferecia lhe então uma bela ocasião de espezinhá-lo humilhando-o com a sua visita; a sua presença por si só seria um sarcasmo vivo que devia encher de confusão e vergonha aquele homem outrora tão fátuo e ambicioso. Mas Elias nada tinha de vingativo e rancoroso. Sua alma nobre era incapaz de desrespeitar o infortúnio de quem quer que fosse, quanto mais do pai daquela a quem tanto adorava.

Entretanto crescia-lhe o desejo cada vez mais impaciente de ver Lúcia. Passado o abalo e a comoção violenta dos primeiros dias, e enfraquecido o corpo pela enfermidade, acalmou-se a irritação do espírito do infeliz mancebo, começou a refletir com mais frieza, e uma voz interior como que o advertia de que Lúcia era inocente, e o amava ainda como sempre, e que algum motivo muito poderoso a forçara a condescender com a vontade de seu pai.

Posto que ainda bastante fraco, Elias parecia lesto e disposto como em seus dias de perfeita saúde; uma força interior o reanimava como por encanto. Seu primeiro cuidado foi ir ver, ainda que a certa distância, a casinha em que viera habitar a família do infeliz Major. Era uma tosca choupana, a última que se via à orla do caminho que seguia rio acima para o comércio de Mundim. Mas essa choupana aos olhos de Elias tinha mais encantos que um palácio: era o templo que encerrava uma divindade.

Sentado sobre a relva que se estendia pela encosta acima em frente de sua casinha, esteve por largo tempo contemplando-a e examinando-a minuciosamente; mas não viu ninguém. Apenas a fumaça que saía pelo telhado, e algum rumor confuso de vozes atestavam que a choupana era habitada. Depois de estar ali mais de uma hora a contemplar a casa, e embebido em mil pensamentos, ora risonhos e esperançosos, ora amargos e sombrios, a porta se abriu, o Major saiu, e imediatamente a porta se fechou. Envolvido num largo sobretudo, chapéu de pêlo de lebre, carregado sobre os olhos, a cabeça descaída sobre o peito, arrimando-se a uma grossa bengala, lá ia o Major a caminho da povoação.

Ao vê-lo, Elias teve o mais profundo dó e sentiu apertar-lhe o coração. Como estava a certa distância do caminho, o Major passou sem vê-lo.

- Onde irá aquele infeliz pai?, pensava Elias; que irá fazer? Irá talvez envidar os últimos esforços para achar algum meio de manter com decência sua pequena família, tão digna de melhor sorte! irá talvez vender alguma jóia que ainda resta a suas filhas, para dar-lhes um pedaço de pão!... E a que portas vais bater, infeliz Major!... de uns monstros sem consciência e sem entranhas, que folgam com a desdita alheia, como folga o urubu ao ver expirar o animal em que vai cravar o imundo bico faminto de carniça. Esses mesmos, que ainda ontem regozijavam-se em tua casa, e bebendo à tua custa, hoje apenas se dignarão testemunhar-te um pouco de compaixão. Cega-os a gana do dinheiro; piores que os lobos, são capazes de devorarem-se uns aos outros por um punhado de ouro. Major! Major! eles vos arrancarão até a camisa do corpo, e tomai bem cuidado sobre vossas filhas! eles são capazes de roubar-te esse único tesouro de teu coração, esse último consolo de teu infortúnio!...

A voz da velha enfermeira o veio despertar daquelas sombrias reflexões.

- Olá, senhor Elias!... o que está aia banzar?... fuja desse sol, que está ficando muito quente; venha tomar seu caldo. Então? perguntou ela depois que Elias se aproximou; então, viu os novos vizinhos?

- Vi somente o velho: é muito meu conhecido.

- Falou com ele?

- Não; ele saiu de casa, e passou por mim sem ver-me; coitado! vai tão cabisbaixo! ainda ontem era rico; hoje, minha velha, talvez lhe possamos dar esmolas!

- Forte pena!... mas Deus é grande; há de compadecer-se deles. Eu tenho mais dó é das pobres meninas, coitadinhas! tão mimosas, tão bonitinhas! há de custar-lhes bastante acostumarem-se com a pobreza.

- Talvez não; foram criadas na roça, e estão acostumadas com o trabalho. O pai não tinha outro defeito senão o de ser muito fanfarrão e todo enfatuado de riqueza e fidalguia. No mais era um homem de bem, e soube dar excelente educação a suas filhas. Mas nem por isso são menos dignas de lástima.

- E por que não vai fazer-lhe uma visita, e oferecer-lhe o nosso préstimo? coitados!... Não digo hoje, mas amanhã ou depois, quando melhorar...

- Esse é o meu desejo; mas...

- Mas o quê?... há de ir; são nossos vizinhos, e talvez lhes possamos prestar nalguma coisa.

Elias bem ardia em desejos de ir ver Lúcia. Mas, ofendido há tão pouco tempo pelo Major em seu amor-próprio, sentia certa repugnância em ir visitá-lo, e demais receava que ele pensasse que sua visita naquela ocasião tinha por fim humilhá-lo e mortificá-lo. Visitar Lúcia na ausência do pai, também sua natural delicadeza não permitia, principalmente naquela condição em que ela se achava; era dever duplamente sagrado para ele respeitar-lhe o recato e a reputação.

Elias passou essa manhã a excogitar um meio de ver Lúcia sem encontrar-se com o Major; mas seu cérebro abrasado e debilitado pela moléstia não lhe sugeriu nenhum. A tarde o acesso febril o prostrou na cama, e forçoso lhe foi renunciar por esse dia ao seu desejo.

No dia seguinte amanheceu muito melhor. O Major saiu como na véspera à mesma hora. Elias que não ousava fazer uma visita formal à casa de seus vizinhos, começou a rondá-la em torno, mas em certa distância respeitosa, a ver se por acaso entrevia de longe a sua querida Lúcia, e esperando que o acaso lhes proporcionaria ao menos um momento de entrevista. O sítio era inteiramente ermo. A casa tinha um grande cercado ou quintal quase inteiramente inculto, e contíguo ao quintal da casa de Elias, tendo ambos nos fundos por limites o ribeirão. Elias rodeou primeiramente o cercado pelo lado exterior, passou pela frente da casa e desceu até à margem do ribeirão, enfiando ávidos e perscrutadores olhares por todas as janelas, através das cercas e dos arvoredos. Se alguém o visse, nada poderia suspeitar; ia embuçado em seu capote, arrimado a um bastão, era um pobre enfermo em convalescença, que dava o seu passeio higiênico. Não viu ninguém.

De volta à casa lembrou-se de fazer a mesma excursão pelo lado interior do quintal de sua casa, que ficava contíguo ao dos vizinhos. Aquele também estava coberto de arbustos silvestres e capoeira inculta, de maneira que, por entre as moitas, podia Elias muito a seu sabor e sem ser visto observar por entre paus mal unidos da cerca todo o quintal vizinho, e mesmo divisar algumas vezes o terreiro. Teria dado como uns trinta passos ao longo da cerca que ia morrer à beira do rio, quando ouviu vozes de mulher um pouco mais abaixo. O coração pulou-lhe cheio de alvoroço; cuidou ouvir a voz de Lúcia! Foi-se aproximando com precaução até o ponto donde partiam as vozes, colocou-se à cerca, espreitou e viu...

A pequena distância da cerca um jorro d'água caía por uma bica em um tanque raso alcatifado de cascalhos, no qual Lúcia, com os pés descalços mergulhados n'água, a saia do vestido, presa por um lenço, regaçada quase até os joelhos, o corpo do vestido descido, os róseos seios mal cobertos pela fina e transparente camisa e os compridos cabelos ajuntados atrás por uma fita, caindo-lhe pelas espáduas, estava lavando roupa.

Debruçada sobre o tanque, cujas águas borbulhando-lhe em torno beijavam amorosas as duas colunas de alabastro nelas mergulhadas, dir-se-ia Vênus no momento em que nascia da espuma do mar, ou branca açucena que ali nascera à beira da fonte, e pendia o cálix a mirar-se em seu cristalino regaço. Nunca Elias, nos dias em que ela era rica e feliz, no meio das festas e do esplendor do luxo, nunca a vira tão linda, tão fascinadora assim. O coração batia-lhe com tal violência, que tinha medo que fosse ouvido e traísse a sua presença ali. Entretanto quase se envergonhava de estar ali espreitando às escondidas e profanando com suas vistas o inocente e descuidoso desalinho daquela casta criatura. Queria fugir, mas seus pés estavam pregados à terra, e seus olhos não podiam desviar-se daquela angélica figura que os fascinava, e se Lúcia nunca dali saísse, Elias também ali ficaria para sempre, ou então de um salto transpondo a cerca, iria se arrojar aos pés dela, se do lado de cima da bica não estivesse em pé uma escrava que com ela conversava. Era a boa e fiel Joana, que acabava de colher nos canteiros destroçados daquela inculta horta um punhado de ervas para o parco jantar da família, enquanto a senhora lavava a roupa.

Não é só a morte que nivela as condições; o destino às vezes a antecipa, e se compraz em curvar a cabeça dos ricos e orgulhosos até beijarem o pó da terra, e coloca escravos ao nível do senhor. Mas o destino é cego, e o raio que fulmina sobre a cabeça do culpado também às vezes debruça sobre o lodo o lírio puro da inocência e da virtude.

Quando Elias as avistou, a conversa das duas estava tocando a seu fim.

- Tem paciência, sinhazinha, dizia a escrava. Nossa Senhora do Patrocínio há de ter piedade de nós. Querendo Deus, tudo se há de arranjar e nós ainda havemos de voltar para nossa roça. Mas enquanto isso se não arranja, aqui está sua negra velha, que ainda pode trabalhar para Vmcês. todos...

- Mas tu hoje és forra, Joana; deves ir cuidar na tua vida...

- Que me importa lá isso?... por acaso eu pedi alguma alforria? entreguem-me cá a minha carta, e hão de ver como eu a faço em pedacinhos e atiro tudo no fogo.

- Isso não, Joana!... tal não farás. Fui eu que pedi a meu pai te forrasse, e sabes por quê?...

- Eu sei lá!... de certo foi porque sinhazinha não me quer mais; quer ficar livre de mim...

- Pelo contrário, Joana, foi para não ficar sem ti. Se não fosses forra, irias cair nas mãos dos credores de meu pai, como todos os outros escravos da casa.

- Credo! Nossa Senhora me guarde!... então, não; quero a minha carta; quero ser livre para poder ser escrava de minha sinhazinha. Esses diabos desses homens! Deus me perdoe!... parece que não são batizados. Meu senhor já valeu a eles todos, e agora não tem um só que tenha piedade dele. Má peste que os persiga!... Agora vou cuidar na janta... sinhazinha fica aí?

- Fico, Joana; podes ir; vou acabar de enxaguar esta roupa.

- Deixa isso, sinhazinha. Eu logo venho acabar de lavar e estender toda essa roupa; não esteja se matando sem precisão.

- Não gosto de estar à toa, e bem sabes que não é a primeira vez que lavo roupa, e também isto me serve de distração.

- Não tem medo de ficar aqui sozinha?

- Medo de quê?... quem pode vir me fazer mal aqui neste ermo?

- Está bem, disse Joana retirando-se. Assim mesmo eu vou chamar sinhá Júlia para ficar com Vmcê.

- Não é preciso, Joana... Júlia está ocupada com uma costura que é preciso acabar hoje mesmo. Eu também lá vou neste instante.

Nenhum favor melhor podia o céu fazer a Elias naquele instante do que deixar Lúcia ali sozinha; e dir-se-ia que Lúcia adivinhava, e queria ficar só, como se tivesse ajustado uma entrevista. A emoção de Elias subiu de ponto. Não fosse uma excessiva ousadia, uma profanação, teria de um salto transposto a cerca e iria cair a seus pés...

Logo que Joana desapareceu por entre os arbustos do quintal, Lúcia deixou a fonte, e sentou-se sobre a grama do coradouro, pousou a face em uma das mãos, e pôs-se a cismar. Era um modelo perfeito para a estátua de uma náiade. Depois tirou do seio uma carta, e lançou sobre ela um olhar. Seus olhos arrasavam-se de lágrimas.

- Que crueldade, meu Deus, exclamou ela, deixar-me assim arrebatadamente, e abandonar-me tão sozinha e desamparada neste ermo... isto é de quem ama deveras?... e além de tudo, a pobreza!... Meu Deus!... não sei o que será de mim... hei de morrer de tristeza!... se me dissesse ao menos onde foi!... eu dera tudo para saber onde ele está!...

Ouvindo estas palavras, Elias não pôde mais conter-se; pulou a cerca, e em dois saltos estava ao pé de Lúcia.

- Eis-me aqui, Lúcia!... eis-me aqui a teus pés! exclamou o mancebo.

Lúcia assustada deu um grito, e ergueu-se rapidamente. Num relance desatou da cintura o lenço com que suspendia as saias, e com ele compôs os ombros e os seios que trazia quase nus. Lembrava Vênus, quando do traje de ninfa caçadora, em que estava disfarçada, transfigurou-se subitamente aos olhos de Enéias em verdadeira deusa, deixando tombar-lhe aos pés as vestes roçagantes.

- Perdoa-me, minha Lúcia! perdoa a minha ousadia; ela é filha do muito amor que te consagro. Eu estava ali... eu te ouvia, e eu te amo; vê se era possível conter-me. Se ainda me amas, tu me perdoarás.

O sobressalto de Lúcia não tardou em transformar-se na efusão de uma celeste alegria.

- Se ainda te amo!... exclamou, pois duvida ainda?...

- Sou tão infeliz, que custo a acreditar em tamanha ventura.

- Compreendo. Pensa que lhe fui infiel; que trai o nosso amor. Tinha razão para pensar assim; mas quando souber o que houve, estou certa que me há de perdoar.

- Não tenho nada que perdoar-te; eu é que devo pedir-te perdão de meu estouvamento e precipitação. Meu coração já adivinhou tudo. Mas entretanto conta-me, minha querida Lúcia, conta-me como tudo isso foi...

Aquela entrevista, que o acaso preparara, durou apenas meia hora; mas meia hora de gozos e efusões d'alma, de delicias inefáveis, meia hora tão cheia de amor e felicidade, que aos olhos de Elias compensou largamente dois anos de agros sofrimentos e ásperos trabalhos, meia hora que ele trocaria de bom grado por um século de viver ordinário.

Entretanto Lúcia contou-lhe rapidamente a história de seu projetado casamento com Leonel, as solicitações de seu pai, e as tristes circunstâncias que a arrastaram àquele sacrifício, que além da felicidade lhe custaria também a vida, mas que ela julgava necessário e de seu dever para felicidade de seu pai e de sua irmã.

- E não te lembravas, disse Elias com um triste sorriso, que nesse sacrifício arrastavas mais uma vítima?...

- Oh! se me lembrava!... mas eu nem notícias tinha de ti... e, mesmo que as tivesse, a não estares em circunstâncias de valer a meu pai, levarias a mal esse sacrifício, se infelizmente se consumasse?...

- Não, minha Lúcia... eu não teria remédio senão admirar-te, embora se me estalasse de dor o coração. Mas a carta que te escrevi do Sincorá, acaso não chegou-te às mãos?

- Chegou, Elias; mas em que momento, meu Deus? Eu acabava de dar o meu consentimento, de comprometer solenemente a minha palavra para com meu pai; já era tarde. Faz idéia de quanto era triste e desesperadora a minha posição.

- Pobre Lúcia! quanto és boa... quanto és adorável e sublime! Se antes eu te amava, de hoje em diante eu te admiro, eu te adoro, e não me julgo digno do amor de uma criatura tão superior, de um anjo, de que o mundo não é digno.

- Se não te julgasse digno, eu nunca te amaria, e não teria passado por tantas aflições e angústias só por amor de ti. Mas, hoje sou feliz. Deus teve piedade de mim, arredou de meu caminho aquele maldito homem, e restituiu-me o meu Elias...

- Oh! aquele homem parecia enviado ao mundo por Satanás para perturbar a nossa felicidade! Tudo que podia fazer meu prazer, minha glória neste mundo, ele pretendia arrancar-me; parece que o perseguia uma inveja feroz de tudo quanto era meu; queria para si o dinheiro de minha bolsa, o amor de meu coração, o ar de meus pulmões, o sangue de minhas veias. Mas o monstro apenas conseguiu roubar-me o fruto do meu suor, essa pequena fortuna que eu tinha adquirido... mas que importa isso, Lúcia?!... Deus ainda me conserva a mesma inteligência, a mesma atividade e disposição, e eu saberei adquirir outra...

- Mas por piedade!... eu te peço, não me abandones mais; não vás mais procurar fortuna lá tão longe. Não quero mais que saias de perto de mim...

- Mas, Lúcia, eu sou pobre... tu também estás tão pobre como eu. Hoje há um motivo ainda mais forte para que eu empregue todos os esforços para adquirir alguma coisa; e se por aqui não for possível, devo...

- Deves amar-me, a mim só, e a mais ninguém. Somos ambos pobres; o destino nivelou nossas condições; e agora não há mais embaraço algum para nossa união!...

- Mas a pobreza, Lúcia... por mim só eu a suportaria como tenho suportado, de coração alegre; mas doer-me-ia horrivelmente ver-te em minha companhia sofrendo as inclemências e privações da indigência sem poder erguer-te a uma condição mais feliz.

- Porventura já não sou tão pobre, Elias? e deixarei de sê-lo, se me abandonares?... então antes queres me ver sofrendo sozinha os rigores da pobreza, do que em tua companhia!

- Mas olha, Lúcia; tu és muito moça, formosa e bem-educada... não te faltarão maridos que, mais felizes do que eu, possam dar-te no mundo a posição de que és tão digna...

- Cala-te!... não digas mais tal blasfêmia, eu te peço pelo nosso amor. Antes miserável contigo do que milionária com um Leonel, ou com quem quer que seja. Mas tu não irás mais para longe; fica por aqui mesmo na nossa terra; eu te peço pelo nosso amor, por tudo quanto mais queres neste mundo ou no outro... pela alma de teu pai e de tua mãe... em toda a parte se ganha com que passar a vida, e que necessidade temos nós de riquezas? o nosso amor será a nossa riqueza, e porventura não basta ele para nos tornar felizes?

- Sossega, minha querida Lúcia; não irei longe. O teu amor, assim como me enche o coração de felicidade, dá-me também toda a coragem e toda a confiança no futuro. É impossível que Deus não abençoe o trabalho de quem se esforça para amparar e fazer a felicidade de um anjo, como tu és. Mas olha, Lúcia, não quero, não devo pedir-te a teu orgulhoso pai, enquanto desta destra que vou oferecer-te, não puder escorregar um pouco de ouro.

- Ah... mas se isso não for possível, me abandonarás?...

- Nunca, minha Lúcia, nunca! serei teu, sempre teu.

- Basta!... adeus! já estamos aqui há muito tempo; alguém pode nos ver...

- Um instante ainda: escuta, Lúcia. Da minha malfadada fortuna do Sincorá restam-me ainda alguns destroços. Vou pô-los em jogo. Não sairei destes arredores. Saberás notícias minhas, e eu virei ver-te todas as vezes que puder; não sei que pressentimento me diz que seremos felizes, muito felizes. Adeus.

- Adeus... não te esqueças de mim e não me fujas mais.

- Não; nunca mais; eu te juro... por este beijo... mais este... e mais ainda. Adeus!

E dizendo isto Elias cingiu a moça a seu peito, e lhe deu um beijo em cada uma das faces e o último na boca. Era a primeira vez que tal ousava.

XV

ABNEGAÇÃO

O garimpeiro é como o jogador; sua esperança está sempre no seio da grupiara, como a do jogador nas cartas do baralho, nos dados ou no tabuleiro verde do bilhar; isto é, sua felicidade dorme na urna do acaso, de onde as mais das vezes nunca sai. Por mais que sejam os reveses com que a fortuna os maltrate, por mais que repila e os calque aos pés, esses cegos e pertinazes amantes estão sempre de rojo a mendigar favores aos pés daquela cruel e caprichosa amásia.

Elias possuía ainda algum dinheiro e objetos de valor, restos que tinham escapado à depredação de seu execrável protetor do Sincorá, e que podiam servir de princípio a novas especulações. Elias, que já tinha garimpado muito, tinha certo pendor natural para este gênero de vida; e apesar de ter dissipado o melhor de seu tempo e de seu dinheiro em explorar minas de diamantes, sem outro resultado mais do que contínuas perdas, nem assim perdera a fé em que estava de que do chão havia de lhe brotar a riqueza e a felicidade. Esta era a crença firme do seu velho camarada, crença que por muito repetida não deixava de fazer profunda impressão na imaginação algum tanto fatalista e supersticiosa de seu jovem amo.

Elias costumava também ter sonhos matizados de rubis e diamantes, e além disso, como já ouvimos da boca do velho Simão, uma cigana lhe predissera que sua estrela era de pedra. O amor não contribuía menos poderosamente para inspirar-lhe aquela resolução; suspirava impaciente pelo momento em que pudesse ver-se para sempre unido a Lúcia, e para esse fim só É que desejava enriquecer, e enriquecer depressa. Ora, a não cair do céu, só do seio da terra poderia ver surgir de um dia para outro uma fortuna. Demais a questão era de pouco tempo; em poucos meses, em poucos dias, em algumas horas mesmo poderia ficar resolvido o problema de seu destino. Elias era audaz e resoluto; com o primeiro sorriso de Lúcia voltara-lhe toda a sua coragem e seguridade, toda a sua confiança no futuro.

Comprou datas, engajou praças, e começou a trabalhar com atividade e ardor inconcebível. Mas ah! aquela terra da Bagagem para ele parecia ser amaldiçoada; parecia que o diamante sumia-se do lugar onde tocavam suas plantas!

Tinha-se escoado um mês, e com ele grande parte dos recursos de Elias sem o menor resultado. Montões de cascalho bruto aglomerado em torno das grupiaras, eis o fruto único que se via do trabalho do infeliz moço.

Durante esse tempo duas vezes viu Lúcia, mas com o coração pesaroso e cheio de tristes presságios não ousou comunicar-lhe o mau êxito de suas explorações, e embalou-a com vagas esperanças, que ele mesmo não alimentava. Mas nem assim desistiu ainda. Coragem!... dizia ele consigo. Mais um pouco de paciência!... mais quinze dias; mais um mês! às vezes a sorte do jogo está na última cartada.

E mais quinze dias, mais um mês se foram de insano trabalho, e de ansioso esperar, sem que a ingrata grupiara lhe entreabrisse nem mesmo um leve sorriso de esperança.

Elias já tinha o coração curtido de decepções; mas nem por isso este último insucesso deixou de lhe amargar cruelmente. Depois de tantas tentativas malogradas, depois de tantos e tão cruéis reveses, esbarrava enfim na muralha impenetrável do impossível. Cansou de lutar, e o desalento calou-lhe fundo pela alma adentro.

- Pobre ainda, meu Deus! exclamava o infeliz; pobre sempre, e cada vez mais pobre! e não poder dar a Lúcia, pobre ainda mais do que eu, senão a miséria em troca de seu amor! Ah! céu de bronze, que deixas exposta aos mais duros rigores da sorte a mais pura e a mais bela de tuas criaturas! ah! terra maldita, que escondes tesouros em teu seio avaro e deixas perecer à míngua o mais lindo dos seres, a mais formosa flor que te adorna a face!...

Elias por si só bem pouco se importaria com a pobreza; estava afeito a suportá-la desde longo tempo. Mas cortava-lhe o coração ver a sua querida Lúcia, nascida e educada sempre no meio da abastança, sofrendo privações e quase reduzida à miséria, e condenada a trabalhar com suas próprias mãos para prover à sua subsistência, de seu pai e de sua irmãzinha. Blasfemava contra o céu e maldizia da Providência, que lhe negava sua proteção naquela nobre e santa tarefa em que se empenhava para arrancar à miséria aquela criatura digna do céu.

Desejava morrer, e a idéia do suicídio como um fantasma lúgubre lhe esvoaçava de contínuo pela mente. Mas lembrava-se de Lúcia, de Lúcia na miséria, e compreendia que era preciso viver para ela. Quem lhe poderia valer, se ele faltasse?... arrancar-se a existência naquela ocasião era talvez roubar a Lúcia o último, se bem que fraco arrimo, que lhe restava neste mundo. Naquelas circunstâncias já não era somente o simples amante de Lúcia; considerava-se um irmão, um pai.

Elias, completamente desalentado, abandonou de todo os seus serviços, e estava como que de braços cruzados em frente de seu destino inexorável a contemplar-lhe a sinistra catadura, sem ousar lutar contra ele e esperando que o esmagasse.

Elias tinha-se estabelecido no Comércio de baixo, chamado de Joaquim Antônio, que fica rio abaixo, a perto de uma légua da povoação principal. Há dois dias, desamparado da esperança, tinha abandonado o trabalho, e não fazia mais do que cismar na sua triste sorte, entregue às mais pungentes angústias e à mais cruel perplexidade.

Na tarde do segundo dia, estando à janela da casinha que habitava, envolto em suas cismas ordinárias, um rapaz entregou-lhe uma carta. Abriu-a imediatamente; era de Lúcia e dizia assim:

"Meu querido Elias. A sorte começa a conspirar de novo contra nós. Eu pensava que, caindo em pobreza, ninguém mais poria os olhos em mim, e que poderia amar-te tranqüila e livremente, sem que a turba dos pretendentes, que outrora me importunava, viesse mais perturbar a nossa felicidade, por essa doce compensação que me trazia. Enganava-me, ai de mim!... Um de meus antigos pretendentes reaparece, e solicita com mil empenhos a minha mão. E um moço não muito rico, mas negociante bem principiado, e dotado, segundo dizem todos, de excelentes qualidades. Meu pai insta comigo com todas as forças para que me decida quanto antes. Tenho esgotado sem resultado algum todas as minhas escusas, e já não sei de que meio lançar mão para me defender. Infelizmente este não é um aventureiro desconhecido, um moedeiro falso, que de um instante para outro pode desaparecer entre as grades de uma cadeia. É do país, e geralmente conhecido e estimado por suas boas qualidades, e promete mil arranjos a meu pai. Não preciso dizer-te mais, meu querido Elias, podes ajuizar em que cruéis apuros me vejo de novo enleada. Nossa pobreza aumenta de dia a dia, e eu quase enlouqueço pensando nestas coisas. Aparece, Elias; só a tua presença me poderá inspirar resolução e coragem para arredar de nossa cabeça mais esta desgraça! Vem; eu te espero com ansiedade. Adeus!..."

Acabada a leitura, Elias entrou em acessos de furor; percorrendo a passos largos e precipitados a pequena sala em que estava, soltava bramidos de desespero, e chorava lágrimas de fogo, e batendo com a cabeça pelas paredes, arrancando os cabelos, vomitava blasfêmias e imprecações horríveis.

- Pois bem! bradava ele, já que o céu me não favorece, já não recompensa o trabalho honesto, condena a virtude às torturas da miséria, e só enriquece os ladrões, tomarei duas pistolas, irei me postar aí em qualquer ponto da estrada, e tomarei à força aos ladrões o que o céu desapiedado nega a um anjo. Que importa!... estou certo que em cada negociante que matar mandarei para o inferno a alma de um ladrão, e é lá o seu lugar. É um crime!? não... pelo menos a consciência não me remorde... Não serei mais do que o agente da justiça do céu sobre a terra, já que nela não há nem sombra de justiça. Infames!... não contentes de enriquecerem-se à custa do suor e das lágrimas dos pobres, ainda querem lhes roubar a felicidade, e julgam-se com direito a isso, porque sabem absorver o fruto do trabalho dos outros! Oh! por Deus, ou pelo diabo, que não há de ser assim!... Este mundo!... este mundo é o inferno dos bons e o paraíso dos malvados... E portanto o remédio é ou livrar-me dele para sempre, ou alistar-me no número dos malvados... Mas... que estou eu a dizer!... eu endoideço!... Lúcia! minha Lúcia! é pois verdade que devo perder-te!... perder-te para sempre?!...

Este estado de exaltação, que quase tocava ao delírio, durou por largo tempo, até que veio a fadiga e a prostração. Por fim atirou-se na cama que tinha ali mesmo na pequena sala; já a noite ia adiantada, e graças ao torpor do cansaço dormiu algumas horas. Com esse repouso acalmou-se um pouco a irritação de seu espírito. Quando acordou, já os galos cantavam. Levantou-se, abriu a janela para refrescar a cabeça abraseada ao sopro das brisas da madrugada. Ainda não era dia. Debruçou-se sobre o peitoril e depois de estar a cismar largo tempo com a cabeça embebida entre as mãos, murmurou consigo:

- Está decidido!... minha vida tem de ser sempre uma série de provações e martírio. É essa a vontade do céu, e é escusado lutar contra o destino. Portanto ou devo me desfazer dela desde já, ou resignar-me à minha sorte. O meu dever de cristão é curvar-me e aceitar cheio de resignação o cálix da amargura. Lúcia, a sublime Lúcia, já uma vez me deu o exemplo. Ela ia resoluta e corajosa sacrificar a sua felicidade ao bem-estar de seu pai e de sua irmã. Agora o céu me impõe igual sacrifício; saibamos imitá-la. Esquecê-la, deixar de amá-la, ah! não; isso não cabe no possível. Mas fugirei; irei morrer longe dela, ralado de desgosto e de saudade. Se o céu não me permite possuí-la, saiba eu ao menos ser digno dela.

Elias tinha tomado uma resolução santa e sublime, digna de seu nobre coração. Ia retirar todas as promessas, protestos e juramentos que fizera a Lúcia, ia renunciar a todas as suas esperanças e imolar seu amor e sua felicidade ao bem-estar e ao futuro da família de Lúcia. O sacrifício era duro, mas a nobreza e magnanimidade daquela ação o exaltava aos olhos da própria consciência, e dava-lhe coragem bastante para levá-la a efeito. Iria ele mesmo em pessoa anunciar à sua amada a heróica resolução que tomara?... nos primeiros momentos foi esse o seu pensamento; iria comunicar-lhe aquele desígnio que, estava certo, lhe fora inspirado pelo céu, e que julgava de seu rigoroso dever levar a efeito. Se ela fraqueasse, se recuasse diante da enormidade do sacrifício, embora! ele não desistiria do seu propósito, lhe faria ver que seria uma ação indigna, um crime da parte dele estar servindo de eterno embaraço ao sossego e felicidade de uma família a quem ele, pobre e desprotegido da fortuna, não podia servir de auxílio algum. Lembrar-lhe-ia que há bem pouco tempo ela, de seu próprio moto, se havia votado a um sacrifício semelhante, porque o julgava de seu dever, e que esse dever reaparecia agora, talvez ainda com mais forte razão; enfim procuraria por todos os modos vigorar-lhe o coração; e com suas palavras e seu exemplo não lhe custaria inspirar à nobre e virtuosa alma de sua amante a necessária coragem e resignação.

Mas Elias, depois de refletir melhor, teve medo de dar este passo e desconfiou da força de seu próprio coração. Julgou que por meio de uma carta conseguiria o mesmo resultado, evitando uma cena dilacerante, a que nem ele nem talvez ela pudessem resistir. Pegou na pena e escreveu a Lúcia a seguinte carta:

"Querida Lúcia: O destino me persegue, o céu me abandona, e eu nunca poderei ser mais que um esforço perene para a tua felicidade e de tua família. O céu votou-me a um perpétuo martírio; forçoso me é aceitá-lo e resignar-me, porque é loucura querer lutar contra a onipotência do destino. O mesmo sacrifício, a que não há muito tempo te curvaste em virtude de um dever santo, hoje de novo nos é imposto a nós ambos pelo nosso inexorável destino. Resignemo-nos, minha querida, já que é essa a vontade do céu, e pede a Deus que nos inspire a resolução e coragem necessária para não desfalecermos no cumprimento deste doloroso dever. Cumpre-nos renunciar para sempre a este amor tão puro e tão ardente que era o sonho dourado do nosso porvir, e dizer eterno adeus à esperança e à felicidade. Embora o coração se nos rasgue entre as garras da angústia, a consciência estará pura e serena; e se nos não é possível ser unidos neste mundo pelo amor, ao menos procuraremos ser dignos um do outro pela virtude. Não creias que com esta triste separação vão quebrar-se os protestos e juramentos santos que proferimos nos nossos dias de esperança; não, porque nossas almas nunca se separarão; e sempre se amarão, porque o amor é uma chama que o sopro do destino não pode apagar. E, se acaso estão rotos os juramentos de nosso amor, foi a mão de Deus que os desatou, impondo-nos um dever mais alto e mais santo. Adeus, Lúcia!... Deus me é testemunho que, ao romper estes tão suaves laços, rompem-se-me também uma por uma todas as fibras do coração. Adeus; tem coragem para entregar teu destino a quem pode amparar-te. Quanto a mim, vou para bem longe amar-te ainda e sempre, até que a dor e a saudade venham pôr termo a meus tristes dias... Elias."

Quando Elias terminou esta carta, escrita com as lágrimas dos olhos e o fel do coração, sua fronte, coberta de palidez cadavérica, apesar do fresco da manhã que girava pela sala, gotejava bagas de suor frio. Dir-se-ia um condenado que lavrava com a própria mão sua sentença de morte.

Li Elias mesmo quis ser o portador de sua carta até à casa de sua velha enfermeira, onde encarregaria a esta de fazê-la chegar às mãos de Lúcia.

O Sol que surgia dardejava seus raios horizontais por entre as copas das árvores seculares, restos da antiga floresta, que aqui e acolá projetavam sombras gigantescas pelas ribanceiras do rio, quando Elias montou a cavalo, e dirigiu-se a seu destino, absorto em seus tristes pensamentos, e procurando fortalecer-se na nobre e generosa resolução que acabava de tomar. Estaria pouco mais ou menos no meio do caminho, ladeado de distância em distância de pequenos ranchos, que costeando a margem do ribeirão seguia para o Comércio da Cachoeira, quando em certa altura ouviu uns gemidos abafados que pareciam sair de dentro de uma miserável choupana, quase escondida entre a capoeira, que se avistava a uns cinqüenta passos da estrada, quase à beira do rio. Parou e escutou por alguns instantes; os gemidos continuaram. Não podia haver dúvida; era algum desgraçado que sofria, e morria talvez à míngua e à fome naquele miserável casebre, ou também quem sabe? ali gemia a vítima de algum horroroso atentado, desses que tão comumente se perpetravam na Bagagem, naquela época. Elias não era homem de ânimo a presenciar o sofrimento de quem quer que fosse, sem procurar socorrê-lo de qualquer maneira.

Dirigiu-se à choupana, apeou-se e bateu à porta.

XVI

O MORIBUNDO

Apareceu daí a um instante, na única janelinha que havia na casa, a cara encarquilhada de uma velhinha de aspecto repulsivo e sinistro: seus olhos grandes e redondos, o olhar frouxo mas lôbrego e carregado, o nariz adunco e largo sobreposto às faces engelhadas, cabelo curto e eriçado em forma de topete davam-lhe a aparência de uma verdadeira coruja, aninhada naquele pardieiro. Elias quase teve medo, e se não fosse dia claro teria acreditado na existência de bruxas.

- O que quer, meu senhor?... bradou, ou antes guinchou a velha com voz esganiçada.

- Desejava ver a pessoa que está aí dentro a gemer. Parece que sofre bastante; talvez eu lhe possa ser útil, e dar alguns alívios.

- Não se aflija, meu patrão: é um pobre velho que está entrevado ali no fundo de uma cama. Há muito tempo que está assim, sem que ninguém possa lhe dar alívio, coitado!... dali só para a cova. Se quer dar a ele alguma esmola, pode me entregar, e Deus Nosso Senhor lhe dará o pago...

- Mas eu mesmo desejava vê-lo; também entendo alguma coisa de medicina, e talvez lhe possa ensinar algum curativo com que se dê bem...

- Mas o médico que trata dele não quer que receba visita nenhuma, - nem fale com ninguém; por isso Vmcê. não repare, eu não lhe posso abrir a porta...

- Não tenha cuidado; eu atalharei toda a conversa, e, se for necessário, não lhe darei mesmo uma só palavra. Quero só vê-lo um instante e saio imediatamente.

- Não, senhor; perdão; não pode ser. Ele é muito palrador, e vendo gente começa a tagarelar de modo que nunca mais tem fim; e fica cada vez a pior, a pior; e eu é que o estou agüentando, e isso não me faz conta.

- Mas já lhe disse que se ele falar, me retirarei logo, replicou com vivacidade Elias, a quem já começavam a impacientar as negativas da velha, e que mesmo já começava a desconfiar que havia ali algum mistério que a maldita velha estava com medo que ele fosse descobrir. - Em nome do céu, abra essa porta.

- Não, senhor; já lhe disse; não pode ser.

- Ah! senhor! bradou de dentro a voz rouca e alquebrada do enfermo. Quem quer que está aí, pelo amor de Deus, entre cá dentro.

- Está ouvindo? disse Elias, ele me chama; abra essa porta.

- Não, não pode ser; quantas vezes quer que lhe diga?

E depois voltando-se para dentro e abrindo extraordinariamente os enormes olhos, como rã esbordoada, bradou para o enfermo:

- Ah! velhote de uma figa! não pode calar essa boca?... é assim que pretende sarar?... parece uma criancinha!... pois olhe: se continuar assim, não sei se estarei mais para o aturar... se quer conversar com todo o mundo que passa, mando pôr sua cama lá no meio da estrada, e eles que o agüentem.

- Quem está aí na porta entre cá por caridade; não faça caso do que ela está dizendo; por caridade!... pelas cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo! entre... entre... quanto antes.

- Ai! ai! ai!... ululou a velha harpia. Bendito Deus! ainda de mais a mais variado do juízo!

- Mulher infernal, bradou Elias com força, abre-me já, se não queres que arrebente a porta.

- Arrebentar! como está bonito o moço! tomara ver isso!... porventura a casa é sua?... moço, vá andando seu caminho, e não esteja tentando a Deus! já lhe disse que não abro.

E dizendo isto bateu com a janela, e trancou-a.

Elias entendeu que não devia mais esperdiçar palavras com aquela megera. Meteu o ombro à franzina porta que estava apenas trancada por uma fraca tramela, e que cedeu logo ao primeiro empurrão.

- Misericórdia! guinchou a velha, este homem tem o diabo no corpo! misericórdia! aqui-del-rei!

Elias afastou com um empurrão a velha que se apresentara por diante querendo-lhe estorvar a entrada e fazendo uma berraria dos diabos; e foi-se dirigindo rapidamente para a miserável alcova, antes antro, em que jazia o desgraçado velho. Em um jirau de pau roliço, desses cujos pés são forquilhas cravadas no chão, naquela espelunca escura e úmida, sobre um imundo colchão de palha, estava estirado um velho caboclo, esquálido e macilento, arquejando convulsivamente e entregue aos mais dolorosos sofrimentos. Espetada à parede, junto à cabeceira, uma negra candeia de ferro lhe dava sobre o rosto bronzeado um lúgubre clarão amarelento.

- Ah!... és tu, meu pobre Simão! exclamou o moço com um tom de assombro e de angústia inexprimível, apenas fitou os olhos na fisionomia do velho. Es tu, meu bom Simão! continuou sentando-se à beira do pobre leito, e tomando entre as suas as mãos do velho camarada. Perdoa-me, meu Simão; sou eu o culpado de aqui jazeres assim à míngua!...

- Ah! meu patrão! meu patrão! bradou o velho fazendo um esforço supremo para levantar-se e erguendo ao céu os braços descarnados; bendito seja Deus!...

- Ah! já eram conhecidos!... rosnou com voz trêmula a velha que se tinha postado à porta da alcova, e com os olhos esbugalhados e torvos contemplava cheia de furor aquela cena. Tanto melhor para mim!... Olá, meu moço, já que veio tomar conta da casa com tanta sem-cerimônia, fique-se por aí, e arrume-se lá com seu doente, que eu aqui não ponho mais os meus pés.

- Vai-te com Deus ou com o diabo, mulher infernal; nem nunca mais me apareças, que não fazes falta nenhuma.

- Que eu vou, é sem dúvida; Vmcê. quando veio aqui tentar a gente, já veio de má tenção... mas olhe, meu senhorzinho, que talvez não leve o bocado à boca. As vezes a gente vai buscar lã, e sai tosquiado.

Elias mal ouviu estas palavras, que a velha ao retirar-se ia resmungando entre as queixadas.

- Foi Deus, meu amo, disse o velho com voz arquejante, e nos olhos já quase embaciados pelas sombras da morte divisava-se um lampejo de alegria - foi Deus, que o trouxe aqui agora... Eu ia morrer com o coração tão triste... ah! esta velha!... esta velha é o diabo que me entrou pela casa. Deus me perdoe!...

- Não te embaraces com ela, Simão; já lá se foi...

- Não creia, patrão, há de andar por aí rondando para nos escutar. Vá ver primeiro, patrão, tenha paciência; e volte depressa. Tenho muito que lhe contar, e não sei se a morte me dará tempo.

Elias, cheio de curiosidade e assombro, saiu sutilmente da alcova e foi rodear a cabana. A velha estava de feito do lado de fora com o ouvido colado à parede do quarto, onde se achava o moribundo. Apenas porém pressentiu Elias, foi-se retirando e resmungando horríveis pragas.

- Mau fim tenhas tu, velho feiticeiro, e a teu louco patrão, rosnava a velha. É esse o pago que me dás de te ter agüentado até aqui com toda a paciência!...

- Cala-te, velha bruxa!... se te encontrar aqui mais a espreitar e escutar, atiro-te com um pau a vontade de voltar mais cá.

A velha amedrontada com a ameaça de Elias que há pouco tivera razão para crer que não ficaria só em palavras, sem nunca deixar de resmungar pragas e maldições, foi recolher-se à sua casa que ficava a. uma centena de passos.

Elias voltou pressuroso ao quarto do enfermo.

- Agora podes falar, Simão, disse sentando-se à beirada do jirau. Ninguém nos ouve; estamos completamente sós... mas não... espera. Vou ver os meios de procurar-te algum socorro... coitado do meu Simão!... aqui tão desamparado!... e nas garras desta bruxa maldita!... vou mandar ver um médico.

- Qual médico, patrão!... não tome esse trabalho... uma a duas horas de vida é o mais que me resta... se tanto...

- É o que pensas, meu pobre Simão; quem sabe?... Em todo o caso não posso deixar-te morrer assim à míngua de socorro... Dize-me, não haverá por aqui algum vizinho que tenha préstimo a não ser essa velha maldita?

- Oh! patrão, por piedade! não cuide nisso... o tempo é pouco... sinto-me morrer...

- Morrer!... não; tem ânimo, meu Simão... eu vou...

- E quando voltar, me achará morto, e o que é pior ainda, roubado!

- Roubado!... Exclamou Elias com um triste sorriso, pensando que aquilo era já o delírio da agonia.

- Sim, patrão; roubado!... fique aí sossegado... tenho muito que lhe contar, e há de ser já. Depois faça o que quiser.

A curiosidade de Elias era grande, ansiosa, e o estado do velho camarada era com efeito extremo, e ele podia expirar de um momento para outro. Forçoso foi pois ceder à rogativa do pobre camarada que, com a voz sumida entrecortada de gemidos, a custo pôde fazer a seguinte narração:

- Quando Vmcê. foi-se embora para o Sincorá, meu único cuidado foi andar esgravatando por todo esse rio abaixo e acima a ver se Deus me ajudava e se eu descobria alguma lavra bem rica para meu patrão. Meu patrão velho, coitado, Deus o tenha em sua glória!... quando ele morreu, deixou Vmcê. pequenino a meu cuidado. Como é que eu havia de morrer sossegado se deixasse Vmcê. pobre e desamparado neste mundo?!... Para mim, pobre velho cansado e sozinho no mundo, o que eu quero fazer com diamante?... era para Vmcê. Com o almocafre no ombro e a bateia na mão andei provando as formações por toda essa beira de rio. Perdi muito tempo sem achar... mas, Deus louvado, sempre fazia algum vintém para ir passando o resto da vida. A resto Nossa Senhora do Patrocínio me ouviu... sempre achei o que eu e Vmcê. andávamos procurando há tanto tempo. Que lavra, patrão!... é uma lavra de estrondo!... eu ia morrer com tamanho pesar, se não lhe pudesse contar!... mas Deus foi de misericórdia... agora morro sossegado...

Elias ouvia atônito aquelas palavras do velho camarada e não ousava dar-lhes crédito. Eram seguramente delírios da imaginação de um moribundo, e em sua incredulidade quase se envergonhava de tomá-las ao sério.

- Pobre Simão!... refletiu consigo, a razão já o vai abandonando com a vida! Não podia conceber que à cabeceira de um miserável moribundo a fortuna e a felicidade o esperassem, como por vezes o infortúnio costumava-se ocultar entre as rosas de um festim para nos desfechar um golpe fatal e imprevisto. Todavia não pôde deixar de interromper o velho, e dirigir-lhe com ávida curiosidade esta pergunta:

- Uma lavra!... tu deliras, meu pobre Simão!... onde está ela?...

- Eu já lhe conto... ah! se Vmcê. não aparecesse tão a tempo!... Vmcê. está duvidando?... aqui está o que lhe há de fazer acabar de crer... é o diamante, que eu já tinha tirado... isto é seu... se Vmcê. não aparecesse, tudo isto ia parar nas mãos daquela malvada mulher, Deus me perdoe a mim e a ela!

Dizendo isto o velho, com a mão trêmula e convulsa, ia tirando do pescoço um pequeno saquitel de couro preso a um cordão, em forma de bentinho, e o entregou nas mãos de Elias, dizendo-lhe:

- Corte e veja para acabar de crer, e não cuidar que já estou treslendo...

Elias puxou a faca que trazia presa à casa do colete, e cortou com cuidado o saquitel. Caiu-lhe na mão um punhado de grossos e lindos diamantes. Um lampejo de alegria raiou nos olhos empanados do moribundo que murmurou com voz surda:

- É seu; é tudo seu, patrão.

- Mas, Simão, disse Elias, não deixas no mundo filho, irmão, parente ou amigo, a quem queiras beneficiar?... posso eu aceitar isto sem prejuízo de ninguém?

- De ninguém, patrão, de ninguém. Eu sou sozinho no mundo. Se o patrão não aparece tão a tempo, minha herdeira era essa velha desalmada... cruz!... Deus lhe perdoe...

- E quem é esta velha?... que pretendia ela

- Eu já lhe conto... ah!... meu Deus!... que dor!... parece-me que vou já morrer! Meu Deus!... dai-me força por mais um instante para poder acabar...

Elias olhou para o céu e repetiu do fundo d'alma a súplica do moribundo. O velho acalmou-se um pouco e continuou:

- Há mais de um mês que caí entrevado e sem poder mover-me, meti-me neste ranchinho onde sempre tenho morado. Achei-me sozinho e sem ter quem me tratasse, morreria aqui à fome e à míngua sem ninguém saber, se não fosse esta velha, única vizinha que há aqui mais perto e que, dando fé de mim que aqui estava abandonado, ofereceu-se para me tratar. Aceitei agradecido a esmola que me fazia e julguei que vinha mandada por Deus. O povo daqui, vendo-me assim andar arredado e sozinho e sempre a garimpar pelos matos, tinha tomado cisma comigo e andava dizendo que eu era feiticeiro, tinha parte com o diabo, e que neste meu ranchinho eu tinha arrobas de diamante enterrado. A velha que dava ouvido a estas coisas, e tentada pelo demônio, veio um dia dar busca em meu pescoço, enquanto eu estava dormindo... eu logo acordei e bem o percebi; mas ela já tinha descoberto o negócio... Foi a minha perdição... Ninguém mais entrou aqui senão ela e uma sua comadre, tão boa como ela, Deus a perdoe! que faz as suas vezes e me fica de sentinela, quando a outra tem precisão de sair. Assim há mais de um mês estou aqui no fundo desta cama... elas não me deixam sozinho um instante e não vejo outras caras senão as delas... O certo é que cada vez vou a pior e desconfio... mas, ah! patrão, por alma do defunto patrão velho, não vá dizer a ninguém nem faça mal a essas desgraçadas.

- Mas desconfias o quê?... fala, fala, Simão.

- Desconfio que estão me preparando para ir mais depressa. Nestes dias, vendo que estava mesmo às portas da morte, disse a elas que tinha que fazer certas declarações e pedi-lhes que me chamassem um homem para escrever o que eu queria e algumas pessoas para testemunhas... Tempo perdido!... nunca mais acharam o tal homem. Por fim pedi que me chamassem um padre: o mesmo; nunca acharam padre para me confessar. Eu ia morrer sem confissão nas garras daquelas duas bruxas, Deus me perdoe! que estavam aflitas por me verem morto para me roubarem e deitarem meu corpo aos urubus... Mas nesta hora não devo lembrar-me das ofensas, senão para perdoar. Deus louvado! Vmcê. apareceu, e eu lhes perdôo de todo o coração.

- Ah! em que mãos estavas, meu pobre Simão!... mas a lavra, Simão? ainda não me disseste onde está a lavra?...

- Ah!... sim... a lavra é... ai! meu Deus!...

Deu um grito, estrebuchou, seus olhos se estalaram, escapou-lhe do peito um soluço rouquenho, e ficou imóvel.

- Simão! Simão! gritou Elias agitando-lhe o braço. Vendo porém que não dava indício algum de vida: - Morto! morto! exclamou com angústia, morto e levando consigo para a sepultura o segredo de minha felicidade!

Elias, tendo-o já por morto, já se dispunha a retirar-se e a ir dar ordens para o enterro de seu velho camarada, quando um fraco gemido veio anunciar-lhe que ele ainda não estava morto. O moribundo tinha feito apenas o primeiro termo, que durou cerca de dez minutos. Elias foi examiná-lo, e viu que respirava, e começava a mover os olhos.

- Patrão? patrão!... que é dele? foram as primeiras palavras que proferiu com voz quase imperceptível. Ah! está ai... quase que não enxergo nada... A lavra é lá... rio abaixo... quase uma légua abaixo de Joaquim Antônio... passando três córregos, o terceiro do lado de cá do rio... Há lá uma cruz de cedro que eu mesmo finquei... e cinco pedras grandes em cruz... e...

Não pôde dizer mais... Estas últimas palavras mesmo eram ditas com voz tão sumida, que Elias precisava quase encostar o ouvido à boca do moribundo para poder ouvi-las. De novo estalou os olhos, inteiriçou-se na cama, e exalou um suspiro convulsivo; era o derradeiro.

Elias cerrou-lhe os olhos, e, ajoelhando-se ao pé do mísero leito com piedoso recolhimento, rezou pela alma do finado. Depois deu ao céu fervorosas graças pelo inestimável e quase miraculoso benefício que acabava de fazer-lhe por intermédio de um velho e miserável camarada.

Fechou cuidadosamente as portas e janelas da casa, montou a cavalo e partiu a galope para o Comércio da Cachoeira a dar ordens para que se fizesse um enterro decente a seu fiel e infeliz camarada.

XVII

A GRINALDA E O TÚMULO

Desde pela manhã Lúcia esperava com a mais ansiosa impaciência a vinda de seu amante. Achava-se cada vez mais enleada em cruéis apuros, e todos os dias seu pai a apertava vivamente para que se decidisse a aceitar por marido o negociante que havia solicitado sua mão.

Bem via ela que o horizonte de novo se anuviava e que outra vez o céu ia lhe impor o cruel dever de imolar, desta vez irremissivelmente, o seu amor à felicidade de sua família. Mas desta vez sua alma, ou porque já estivesse cansada de tantos embates e prostrada pelo desalento, ou porque seu amor mais avivado pela presença de Elias e fortalecido pela esperança dominasse despoticamente em seu coração, já não sentia aquela coragem que a tinha sustentado a primeira vez em sua nobre dedicação.

- Mas, refletia ela consigo, eu então era só. Não tinha notícias de Elias, que andava por longas terras; não podia saber se ainda amava-me e nem mesmo se era vivo ou morto; podia dispor livremente de meu destino. Mas, agora que ele se acha perto de mim, que sei que vive e vive só para amar-me, e tanto direito tem adquirido ao meu amor, posso eu, sem consultá-lo, sem dizer-lhe uma palavra, sacrificar o meu futuro, que é também o dele, a um pesar eterno?... oh! não! certo que não!... eu atraiçoaria o amor que me consagra e a confiança que em mim tem, e mereceria bem que de novo me desprezasse e amaldiçoasse.

Tranqüilizada um pouco por este subterfúgio que lhe sugeria a sua consciência de amante, Lúcia se escusava para com seu pai com algumas evasivas, procurando ganhar tempo até que tivesse ocasião de achar-se com Elias para de acordo com ele resolver o terrível dilema em que estava empenhado o futuro de ambos.

Mas o sol já descaía muito de meio-dia e Elias não se apresentava. A posição de Lúcia tornava-se cada vez mais triste e aflita e recresciam as instâncias, rogos e ameaças de seu pai, que nesse dia assentara de levar ao último extremo a resignada paciência e submissão de sua filha.

Os homens de alma fraca e espírito acanhado, quando de ricos que eram caem em estado de pobreza, tornam-se irritáveis, intolerantes, injustos e até às vezes cruéis. O rancor de que se acham possuídos contra o destino que os maltrata e do qual não se podem vingar, eles o desabafam contra as pessoas que com eles vivem e lhes são sujeitas. O Major, encolerizado com as delongas e hesitações de Lúcia, perdeu aquela prudência e bonomia que sempre o caracterizava, e, calcando aos pés o decoro e o respeito que sempre guardava para com os sentimentos de sua filha, acabrunhou-a com um montão de impertinentes repreensões e cruéis exprobrações:

- Filha indócil e caprichosa!... bradava ele em acessos de cólera, que não sabes sacrificar uma paixãozinha indigna e ridícula aos verdadeiros interesses e ao sossego e felicidade de minha velhice... pensa acaso que não estou percebendo que ainda traz arraigada no coração essa afeição vergonhosa por esse pobre-diabo, que aí anda à toa sem eira nem beira, e que tem sido constantemente o fantasma perturbador do meu repouso e da felicidade de minha família?! Se nesta desgraçada terra houvesse polícia e um recrutamento em regra, não andariam por aí passeando livremente esse e outros vadios dessa laia, que não têm outra ocupação mais do que perturbar a paz das famílias!... Ah! nunca pensei que a minha filha querida, que eu criei aos meus braços e ao meu colo, com tanto esmero e tanto mimo, viesse amargurar-me assim o resto de meus dias!...

E Lúcia, a pobre Lúcia, com os olhos baixos e coberta de vergonha, ouvia toda aquela explosão da cólera paterna, trêmula e transida de horror, como quem ouve o estalar da trovoada, e só respondia com lágrimas e soluços. Seu coração já não tinha forças para resistir a tão rudes embates; forçoso lhe era curvar-se a esse novo sacrifício que o coração repelia, mas a consciência aconselhava.

Levada ao último extremo pelas cruéis e duras palavras do Major, Lúcia, com a fronte rubra a um tempo de pejo e de indignação, com o coração a transbordar de amargura e desespero, atirou-se aos pés de seu pai.

- Eis-me aqui, meu pai!... bradou com voz rouca e cortada de soluços. Eis aqui, não a sua filha, mas a sua escrava. Faça dela o que bem lhe aprouver!

Nesse momento ouve-se o tropel de um cavaleiro que apeia-se e bate à porta. Esse incidente correu o pano sobre aquela triste e dolorosa cena; Lúcia levantou-se enxugando à pressa as lágrimas e procurando compor o rosto transtornado pelas cruéis emoções do momento. O Major foi tranqüilamente abrir a porta que da rua ou da estrada dava imediatamente para a pequena sala em que se achavam; mas empalideceu ao reconhecer no visitante o mancebo contra o qual há poucos instantes a cólera lhe tinha feito vomitar os mais injuriosos impropérios. Elias, graças ao bafejo extraordinário que recebera da fortuna à cabeceira de seu camarada moribundo, apresentava-se com ar altivo e resoluto; dir-se-ia que ouvira as injúrias de que há pouco fora o alvo, e delas vinha exigir pronta satisfação. Mas, não era nada disso.

Elias, depois de ter dado com minucioso cuidado as necessárias providências para que se fizesse o enterro a seu velho camarada com a possível decência, montou de novo a cavalo, e sem ao menos parar na casa de sua velha enfermeira, dirigiu-se a toda a pressa à choupana do Major. Já não eram precisas as entrevistas furtivas; os tímidos e ocultos manejos já não tinham lugar. Era tempo de apresentar-se francamente e declarar sem dissimulação as suas pretensões.

Quando Elias se apresentou ao limiar da porta, Lúcia não pôde conter um grito de surpresa. O Major recuou um pouco desconcertado, murmurando consigo: este homem...! meu Deus!... este homem é como um espectro que surge sempre diante de mim em ocasiões destas. Depois, recuperando o sangue-frio, cumprimentou cortesmente e disse-lhe:

- Oh! senhor Elias, muito me honra a sua visita... mas, desculpe-me a franqueza, continuou com sorriso sardônico, não posso dissimular-lhe que nesta ocasião ela não me parece de muito bom agouro.

- Não?... sinto muito, senhor Major; mas não admira que eu, que sempre tenho sido infeliz, não possa agourar senão desgraças. Mas agora... não sei qual possa ser o motivo...

- Não se lembra que a última visita com que me honrou, foi em vésperas de casar-se minha filha Lúcia?...

- Oh! se me lembro!... perfeitamente.

- E lembra-se também que esse casamento se desfez de um modo bem triste?...

- Como se fosse hoje, senhor Major...

- Pois bem; e agora que estou de novo em vésperas de casá-la, eis que me aparece a sua visita. Sou algum tanto supersticioso e não deixo de ficar um pouco apreensivo...

- E não é sem fundamento a sua apreensão, senhor Major. Já que me fala com tanta franqueza, permita-me que lhe retribua na mesma, e fique sabendo que o meu aparecimento hoje em sua casa não está longe de ser o anúncio de um novo desmancho de casamento.

- Deveras, senhor Elias!? exclamou o Major com um sorriso que exprimia a um tempo estranheza, desdém e zombaria. Deveras! então ainda desta vez espera que temos pela barba algum moedeiro falso?...

- Pouco importa, retorquiu Elias sorrindo. Se não é moedeiro falso, o noivo de agora não deixa de ser um usurpador que pretende roubar o que lhe não pode pertencer. Da primeira vez foi a polícia quem se encarregou de desmanchar o casamento; desta vez, porém, serei eu mesmo.

O Major estava pasmo, e não sabia o que pensar da audácia e impavidez com que o moço proferia aquelas palavras que a seus olhos eram verdadeiros despropósitos. Estará louco este homem? pensava; ou prevalecendo-se do estado de pobreza e desvalimento em que me acho, vem agora vingar-se insultando-me?...

Lúcia também, entre atônita e contente, não podia bem atinar com a significação daquele inesperado incidente, e ardia por ouvir da boca de Elias a explicação de tão extraordinário procedimento; mas não lhe ficando bem dirigir-lhe a palavra, o interrogava com os olhos, onde reluzia a mais ansiosa e viva curiosidade.

- Seguramente, replicou o Major depois de um instante de silêncio, o senhor está gracejando; mas permita-me que lhe advirta que nem a ocasião nem o assunto são próprios para zombarias.

- Perdão, senhor Major!... não zombo, nem sou capaz de zombar de ninguém em negócio tão melindroso. Repito-lhe que venho desmanchar um casamento, porque venho aqui de propósito para pedir a mão de sua filha para outra pessoa que tem mais direito a ela do que esse pretendente com quem a quer casar, e que em ponto nenhum lhe é inferior.

O assombro do Major crescia de ponto, ao mesmo tempo que se aumentava o contentamento de Lúcia, que começava a entrever o desfecho daquela cena.

- Então o senhor, prosseguiu o Major pausadamente e carregando nas palavras; então o senhor veio à minha casa de propósito para embargar o casamento de minha filha com a pessoa a quem eu quero dá-la?... Deveras meu senhor? o senhor mesmo?...

- Sim, senhor! eu mesmo! repetiu Elias com segurança.

- E quem lhe dá esse direito?...

- Perdão; não venho exigir; venho pedir.

O Major hesitou um momento na resposta que devia dar; passou a mão pelas barbas grisalhas e respondeu:

- Se vem pedir, o caso é diferente... Todavia, por mais que o senhor me diga isto, me parece uma farsa, e acabemos com ela, eu não posso por modo algum faltar à minha palavra já comprometida com outra pessoa.

- E a senhora D. Lúcia?... não conta com ela? desculpe-me a pergunta. Dizendo isto, Elias fitava os olhos em Lúcia.

- Não posso deixar, respondeu o Major, de estranhar o desembaraço com que o senhor se intromete nos negócios de minha família; contudo devo declarar-lhe...

O Major ia responder que sim; mas Lúcia fixou-lhe um olhar, que parecia dizer-lhe: não minta. O Major prosseguiu algum tanto embaraçado:

- Devo declarar-lhe que ela, infalivelmente, dará o seu consentimento; tenho disso certeza.

Elias olhou para Lúcia; esta lhe fazia com a cabeça um sinal negativo.

- Que certeza tem disso, senhor Major? já a consultou?

- Tenho toda a certeza. Demais, já que começamos a explicar-nos com toda a franqueza, continuemos da mesma sorte: não desfazendo em nenhuma outra pessoa, o noivo a quem destino minha filha é um moço muito distinto, ativo e inteligente, e já possui alguma coisa; aqui pela Bagagem não conheço outro que esteja em melhores, nem mesmo em iguais condições. Poder-se-á dizer outro tanto desse que a pretende, e que julgais com mais direito de que o outro? Estamos pobres como sabe; por mim, que já pouco tenho a viver, pouco me importaria a pobreza. Mas custar-me-ia muito resignar-me a ver minha Lúcia sofrer as privações da pobreza, podendo dar-lhe uma posição mais cômoda e brilhante na sociedade. Seria uma crueldade que nunca me perdoaria a mim mesmo.

- Tem razão de sobra, senhor Major; nem vou contra isso. Então é muito rico esse moço?... quanto possuirá ele pouco mais ou menos?

- Principiou a negociar há pouco tempo, e já possui talvez mais de vinte contos livres. Aqui para o sertão não é mau começo.

- E se esse outro, que também pretende a mão de sua filha, possui tanto ou mais do que isso?

- Embora!... a minha palavra é sagrada; não é motivo bastante para eu faltar a ela.

- Mas, senhor Major, sua filha ainda não deu palavra ao noivo que lhe quer dar. E suponhamos que ela já tivesse hipotecado sua palavra e seu amor a este de quem lhe falo, e que fosse o noivo da escolha de seu coração?

- Ah! nesse caso... eu sei? mas... acabemos com este mistério; quem é esse pretendente?... onde está esse noivo?

- Pergunte-o á sua filha, senhor Major; ela, tanto como eu, lho poderá dizer.

Lúcia corou extraordinariamente e baixou os olhos.

- Ah!... exclamou o Major como acordando de um sonho, não é preciso que me digam nada; já o adivinhei!... é o senhor mesmo... mas será possível?

- Sim, senhor Major; o senhor o disse; sou eu mesmo. O que acha nisso de estranho?

- Nada... O que somente me maravilha e não posso conceber é que o senhor, que ainda ontem era tão pobre como eu me vejo agora, pudesse de um dia para outro adquirir uma fortuna...

- Caiu-me do céu, senhor Major; posso assim dizer. E não foi para mim que o céu a enviou, foi para sua filha, que é um dos seus anjos, que o céu a enviou. Era para ela que eu há muitos anos, com esforços e diligências inauditas, a procurava. A caprichosa fortuna de um dia para outro o reduziu à pobreza, quis também de um momento para outro tornar-me rico. Foi uma compensação, senhor; e o céu quer que este pouco que agora a fortuna me concede seja consagrado a tirar da miséria a família a quem ela tão cruelmente despojou.

- Senhor Elias, disse o Major comovido, desculpe-me... eu tenho sido vítima de tantas decepções, de tantas mistificações neste mundo...

- Compreendo, atalhou o moço, duvida ainda do que eu digo. Tem muita razão, senhor Major. Quer uma prova, não é assim? Ei-la aqui.

Dizendo isto, Elias tirou do bolso um pequeno embrulho, e o entregou ao Major.

- Bem vê, acrescentou ele, que só o jogo, o testamento ou o garimpo nos podem tornar ricos de um dia para outro.

- São na verdade magníficos brilhantes, disse o Major depois de abrir o embrulho. Só aqui, há um valor de muito mais de vinte contos.

- E a lavra de onde saíram ainda não está esgotada, disse Elias.

- Já vejo que o céu os destinava um ao outro, e de maneira nenhuma me posso opor ao vosso casamento, visto que as coisas tocadas pela mão de Deus se encaminham de modo tão visível para esse fim. Não me é preciso perguntar a Lúcia se consente nesse casamento. Há muito sei de vossa mútua afeição, e que era a causa da repugnância de Lúcia em aceitar outros enlaces. O céu me é testemunha de que eu, dentro d'alma, não desaprovava esse amor, e que sempre fiz justiça às suas qualidades e bons sentimentos, senhor Elias. Mas este mundo, esta sociedade tem tais exigências... e eu também, eu que em minha vida singela e uniforme nunca sondei o oceano das paixões humanas, não podia conhecer todo o alcance de tal amor, e pensava, insensato que eu era! que contrariando os afetos de minha filha, procurava-lhe a verdadeira felicidade. Mas espero, meus filhos, que me perdoarão e não me quererão mal por isso.

- Esqueçamos o passado, senhor Major, esse passado, que para nós ambos tem sido bem triste e bem cheio de transes de amargura. Tinha um motivo justo de proceder assim, eu o reconheço; e tanto o reconheço que ainda hoje, ao levantar-me do leito onde passara a noite em lágrimas, torturado de angústias e o desalento n'alma, vendo-me pobre, sem futuro e sem esperança depois de mil vãs tentativas e desesperados esforços para adquirir algumas coisas, parti para aqui com a firme resolução de renunciar para sempre ao meu amor e a todas as minhas esperanças de felicidade, desligar-me de todos os juramentos e protestos que nos dias de esperança fizera à sua filha e com o meu exemplo e minhas palavras aconselhá-la, alentá-la, para que se resolvesse a aceitar o esposo que podia ampará-la neste mundo, e esquecesse o desgraçado que não podia servir senão de estorvo à sua felicidade e à de sua família.

- Que belo e generoso procedimento! exclamou o Major, já sinto-me orgulhoso em o ter por genro.

Lúcia, sem dizer palavra, olhava fixamente para Elias com os olhos nadando em ternura e em arroubos de felicidade.

- Mas o céu se condoeu de nós, continuou, e no curto caminho do Comércio de baixo para aqui, a fortuna por um modo extraordinário sorriu-me junto ao leito de morte de um pobre velho, e encontrei num momento e sem procurar aquilo que há tanto tempo procurava em vão com esforços inauditos. Esqueça-se do passado, senhor Major, e abençoe o nosso amor; eu também de tudo me esquecerei, e pode ficar certo que encontrará em mim um filho submisso e afetuoso, e suas filhas, uma um marido terno e extremoso, e outra um irmão dedicado.

O Major, comovido no íntimo do coração pelo generoso procedimento e pelas nobres palavras do mancebo, lançou-se em seus braços.

- Sejam felizes, exclamou com lágrimas nos olhos, sejam felizes, meus filhos!... o céu abençoe o vosso amor.

Logo desde o dia seguinte Elias tratou de empregar toda a diligência para descobrir a mina indicada por seu velho camarada no leito de morte. No fim de alguns dias de pesquisas, com bastante trabalho e paciência, descobriu-a enfim no fundo de um grotão escuro e coberto de espessa mata. Não havia trilho algum que lá conduzisse. O velho e astuto caboclo mui de propósito tinha tido o cuidado de não deixar vestígio algum por onde pudesse ser descoberto o tesouro que não queria que pertencesse a mais ninguém senão a seu jovem patrão. Elias imediatamente deu serviço e o resultado não desmentiu as palavras do velho caboclo. Em poucos dias ele tinha quadruplicado o legado que na hora da morte recebera das mãos do fiel e dedicado Simão. Mas, coisa singular! logo depois a lavra se esgotou, e por mais serviços que dessem, ninguém conseguiu descobrir o mínimo diamante. Dir-se-ia que a Providência tinha ali depositado aquele pequeno tesouro unicamente para servir de recompensa à virtude daqueles dois fiéis e dedicados amantes.

Quinze dias depois do acontecimento que teve lugar na pequena choupana do Major, na pequena e única capelinha que então havia na Bagagem, celebrava-se um casamento sem pompa alguma e com a maior simplicidade; mas o júbilo e contentamento que se irradiava na fisionomia dos noivos e de todos que presenciavam aquela solenidade, davam-lhe um ar festivo e anunciavam que era um casamento feliz. Era com efeito um simpático e formoso par, digno de todas as venturas da terra e de todas as bênçãos do céu.

Ao saírem da igreja, os noivos, separando-se da comitiva que os acompanhava, desviaram-se para um lado da igrejinha, e encaminharam-se para uma cova que ali se havia recentemente aberta, junto à qual havia também uma cruz nova de madeira.

Ajoelharam-se junto dela, e nessa postura estiveram rezando por algum tempo. Ao levantarem-se, a moça despregou o mais lindo ramo de sua grinalda de noiva e o depositou em um dos braços da cruz; no outro o marido colocou um ramalhete de perpétuas e saudades. E o povo que, cheio de interesse e admiração, contemplava aquela nobre e tocante cena, bendizia-os de todo o coração.

Fonte: www.biblio.com.br

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