As regiões que formam os municípios de Araxá, Patrocínio e Bagagem, na província de Minas, encerram paisagens as mais risonhas e encantadoras que se podem imaginar, e quem uma vez tem percorrido esses férteis e pitorescos sertões nunca mais os perde da lembrança.
É impossível dar uma idéia do aspecto geral desse país. A cada eminência que se transpõe, uma nova perspectiva nos surpreende, um novo panorama se desenrola aos olhos do viandante. Aqui o solo ondula graciosamente em colinas de suave declive, separadas uma das outras por cristalinos córregos, orlados de capões, cujo tope escuro se destaca vivamente em meio do brilhante e verde-claro matiz das campinas. Além se achata em vastos chapadões, que cansam a vista e impacientam o viandante que os percorre. Acolá os espigões se abaúlam, como leivas gigantescas divididas pelos buritizais que se estendem como filas de guerreiros ao longo dos brejais. Aqui o horizonte é limitado ao longe por uma linha de serras, cujos topes, longe de serem coroados de ásperos alcantis, são lisos e risonhos tabuleiros cobertos de viçosas e suculentas pastagens. Acolá uma linha escura forma o fundo do painel; é a selva profunda e imensa, que lá se vai perder pelo coração dos desertos sem fim. De todas essas encostas, por todos esses vales, à sombra de todos esses selváticos vergéis, jorram e murmuram perenemente com pasmosa abundância as mais límpidas e frescas águas. O humilde regato que aqui transpondes de um salto, algumas léguas além ainda ao alcance de vossas vistas já é largo e caudaloso rio.
Tudo é belo e grandioso, é risonho e enlevador por aquelas imensas solidões.
Inúmeras manadas de gado e de éguas, mugindo e relinchando pelos vargedos de viço perenal, bandos de emas e siriemas vagando pelos camegais, alegram a solidão daqueles sertões abençoados.
De três em três, de quatro em quatro léguas lá alveja no fundo do valado, entre moitas de laranjais, coqueiros e bananeiras, a casa do abastado lavrador, que o viandante fatigado saúda sempre com indizível prazer, pois sabe que à sua porta o espera a mais franca e cordial hospitalidade.
Posto que ali ainda não tenham penetrado os benefícios do progresso material, todavia a condição moral e intelectual da população é e sempre foi excelente. Os habitantes dessas regiões são notáveis pela amenidade dos costumes e pela amabilidade do trato.
Nessas paragens os homens são robustos, ativos e inteligentes, as moças são bem-feitas, meigas e formosas.
Todas essas vantagens são devidas talvez em grande parte à doce e sempre igual temperatura do clima, à inexcedível uberdade do solo, à beleza e magnificência de seus horizontes incomparáveis.
Entre a Bagagem e a vila do Patrocínio, no meio de espigões separados por um pequeno córrego situado num vale delicioso, que ia morrer nas faldas de um serrote vizinho, era a fazenda do Major. No sertão não há fazendeiro algum tanto abastado que não tenha um posto elevado na guarda nacional. Portanto, para não declinar o nome de nosso personagem, o designaremos sempre pelo do seu posto.
A casa do Major era baixa mas espaçosa, circundada pelas suas faces, que olhavam para o lançante do espigão, de uma larga varanda aberta, e pelos fundos reunida entre moitas de laranjeiras, coqueiros, jambeiros e outras árvores frutíferas, que em pitoresca desordem a sombreavam em torno.
Na frente havia um vasto curral em um canto do qual erguia-se uma velha e truculenta gameleira, dessas que estendem seus galhos gigantescos dez braços em derredor, e que servia de sombra e aprisco para o gado, para os carros e outros utensílios de roça.
No fundo do quintal que era um vasto vergel de árvores frutíferas plantadas promiscuamente e sem simetria alguma, corria o córrego, que descia das alturas vizinhas sempre fresco e cristalino, à sombra de espessos e viçosos capões. Do outro lado, pela beira do córrego, corria uma orla de capoeira inculta e emaranhada.
Em certo lugar o riacho, como que fatigado de correr e retouçar por entre as pedras, vinha espreguiçar-se e adormecer em um largo e cristalino tanque, em cujas bordas havia uma linda vargenzinha toda alcatifada de rasteiro e mimoso capim. Era ali a fonte e o coradouro em que as escravas da casa costumavam lavar a roupa. Ali também a filha do Major, a formosa e interessante Lúcia, costumava trazer, nas horas de sesta, a sua cestinha de costura, e junto com Júlia, sua irmãzinha de nove anos, assentada no gramal à sombra de uma moita de arbustos, trabalhava cantarolando alguma singela copla, ou conversando com as escravas.
- Joana, tu não queres ir à vila agora pelas festas do dia 7 de setembro?
- Sinhazinha vai?
- Eu hei de ir por força; há parada, papai é Major, não pode deixar de ir, e bem vês que não pode deixar-nos aqui sozinhas.
- E então? como é que sinhazinha há de ir sem sua negra? quem é que há de lhe lavar e engomar os vestidos, pentear seu cabelo, e fazer o mais preciso? Sinhazinha cuida que há de me deixar aqui? não vê... não hei de ser eu que hei de perder festa; só se me amarrarem... já estou velha: é preciso aproveitar o meu tempo.
- Hás de ir, Joana, não tenhas cuidado, não posso passar sem ti... A festa dizem que vai ser muito arrojada; temos de lá ficar uns oito dias. Há cavalhadas, Joana.
- Cavalhadas! ainda mais isso! que bom! e eu que sou doida por cavalhadas! não pode haver brinquedo mais bonito. Há quanto tempo não há disso por aqui! Esta terra já não é o que era dantes. No meu tempo, ah! sinhazinha! se Vmcê. visse! que bonitas cavalhadas não se corriam aqui e no Araxá! era um gosto! hoje isto já não presta para nada. Que é dos corredores de fama que então havia? já morreu tudo. Agora isso há de ser alguma coisa à-toa.
- Estás enganada, Joana, estas vão ser muito boas. Aquele moço que aqui passou outro dia, não te lembras? aquele moço alto, de cabelo preto e anelado...
- Ah! já sei... o Sr. Elias, aquele moço de Uberaba...
- Isso mesmo, Joana; ele também vai correr, e pediu a meu pai o cavalo rosilho.
- Oh! aquele sim, que bonito cavaleiro não há de ser! é um mocetão sacudido e muito bem parecido.
- Não achas, Joana, que é um moço bem bonito? eu também gostei muito dele.
- É um figurão, e parece ser muito boa pessoa. É pena ser tão pobre.
- Quem te disse que ele é pobre? você o conhece?
- Eu não; mas está se vendo, sinhazinha; nem um pajem, nem um camarada... ele só com seu cachorro, sua espingarda e sua mala na garupa... então gente rica anda assim?
- Ora, isso não quer dizer nada; há muita gente rica que anda assim por gosto.
- Não creia nisso, minha sinhá; está-se vendo que ele é mesmo pobre. Quem sabe se mesmo o cavalo em que anda não é emprestado!
- Arre lá! Joana - replicou a moça com um sorriso que não disfarçava o seu enfado. - Também que nos importa que ele seja pobre ou rico; entretanto eu duvido que nessas cavalhadas apareça um cavalheiro mais bem-feito e mais bonito.
- Ah! sinhazinha! está me parecendo que Vmcê. ficou... não quero falar... não; Deus me defenda.
- Ficou o quê?... Joana; fala...
- Sinhazinha, não fica zangada com sua negra?
- Não, podes falar sem susto.
- Ficou mordida...
- Mordida! Não entendo.
- Pois se não entende, melhor; e calo minha boca!
A escrava com quem Lúcia entretinha esta conversação era uma crioula algum tanto idosa, mas esperta, viva e palradeira: boa e fiel escrava, muito estimada de seus senhores e especialmente de Lúcia, a quem na infância tinha amamentado. As últimas palavras que dirigiu à moça foram proferidas com certa intenção, ao mesmo tempo que fitava nela um olhar malicioso. A moça compreendeu, corou e sorriu levemente, e tratou de desviar a conversa daquele assunto.
- Mas, Joana, eu tenho muita costura que fazer de amanhã em diante, tu e a Paula hão de me ajudar, se é que querem ir à festa.
A estas palavras, as quatro ou cinco raparigas que ali se achavam também ocupadas na lavagem de roupa, acudiram a um tempo, a garrular como uma chusma de periquitos.
- E eu também estou aí, sinhazinha. Paula não é capaz de engomar melhor do que eu; sinhazinha há de me levar, não é assim?
- E a mim também, sinhazinha, há que tempos que eu não vou à vila.
- Cala-te; você ainda outro dia foi à desobriga, e eu fiquei; agora é que eu devo ir, sinhazinha.
- E eu então? vocês todas têm ido à vila este ano, e eu, pobre de mim, ainda nem para ouvir uma missa.
Lúcia via-se zonza no meio daquela algazarra de pedidos importunos que choviam sobre ela a um tempo a atordoar-lhe os ouvidos, como um bando de maritacacas.
- Pelo que vejo, vai a não ficar ninguém em casa! Hão de ir aquelas que for possível. Havemos de ver isso depois. Por agora tratem de seu serviço e não estejam a me aborrecer.
Estas palavras, a que Lúcia então procurava dar um tom severo, não produziram senão um efeito passageiro. A tagarelagem e as importunações continuaram na mesma, daí a pouco, e não teriam fim, se o sol que se ia escondendo atrás das colinas não viesse avisar que era tempo de se recolherem.
As negras trataram de arrumar a roupa em gamelas e balaios, que puseram na cabeça; Lúcia tomou em um dos braços seu balainho de costura, deu a mão à sua irmãzinha, e todo aquele alegre e interessante grupo a um de fundo foi desaparecendo por entre o laranjal.
Daí a pouco ouvia-se a sineta da casa chamando a família e os escravos para a reza da ave-maria, e ao som dessa reza, dos últimos cantos do galo e dos gorjeios do sabiá, enviando à tarde um derradeiro adeus, a paz e a bênção do céu desciam nas asas cinzentas do crepúsculo sobre aquelas tranqüilas solidões.
Lúcia tinha dezoito anos; seus cabelos eram da cor do jacarandá brunido, seus olhos também eram assim, castanhos bem escuros. Este tipo, que não é muito comum, dá uma graça e suavidade indefinível à fisionomia.
Sua tez era o meio-termo entre o alvo e o moreno, que é, a meu ver, a mais amável de todas as cores. Suas feições, ainda que não eram de irrepreensível regularidade, eram indicadas por linhas suaves e harmoniosas. Era bem-feita, e de alta e garbosa estatura.
Retirada na solidão da fazenda paterna, desde que saíra da escola, Lúcia crescera como o arbusto do deserto, desenvolvendo em plena liberdade todas as suas graças naturais, e conservando ao lado dos encantos da puberdade toda a singeleza e inocência da infância.
Lúcia não tinha uma dessas cinturas tão estreitas que se possam abranger entre os dedos das mãos; mas era fina e flexível. Suas mãos e pés não eram dessa pequenez e delicadeza hiperbólica, de que os romancistas fazem um dos principais méritos das suas heroínas; mas eram bem-feitos e proporcionados.
Lúcia não era uma dessas fadas de formas aéreas e vaporosas, uma sílfide ou uma baiadera, dessas que fazem o encanto dos salões de luxo. Tomá-la-íeis antes por uma das companheiras de Diana, a caçadora de formas esbeltas, mas vigorosas, de singelo mas gracioso gesto.
Todavia era dotada de certa elegância natural, e de uma delicadeza de sentimentos que não se esperaria encontrar em uma roceira.
Esses dotes ela os devia em parte ao céu, que tanto a favorecera, e em parte à sua mãe, mulher espirituosa e sensível, e que se esmerava em dar-lhe uma excelente educação, que Lúcia procurava transmitir à sua pequena irmã, desde o berço.
Quanto ao Major, homem de espirito acanhado, frio e positivista, mas boa alma, o melhor dote que julgava poder dar às suas filhas era dinheiro e só dinheiro.
A gentil sertaneja bem raras vezes ia à vila do Patrocínio; sua vida deslizava-se naquele ermo tranqüila e uniforme, como o murmúrio monótono de uma fonte, e sua alma era pura e alegre como manhã de abril, plácida e serena como uma noite de luar. Mas a vida não lhe corria inativa, e nem seu coração estava vazio.
Além de sua irmãzinha, em que concentrava as suas mais ternas afeições, e a quem servia de mestra e de mãe na falta da verdadeira, que há muito haviam perdido, eram seus cuidados uma linda e mansa vaquinha favorita, da qual todos os dias com suas próprias mãos tirava o alvo e espumante leite; eram suas pombas, seu pequeno jardim, e seu lindo oratório, que sempre trazia enfeitado de frescas e fragrantes flores, e em que todas as noites, com sua irmãzinha ao lado, rezava por alma de sua mãe.
Lúcia tinha prazer todas as vezes que se oferecia ocasião de ir à vila a qualquer festa, ou simplesmente para ouvir missa. Era uma agradável interrupção à sua vida monótona de roceira; ia espairecer um pouco seu espírito na sociedade, ia ver e gozar da companhia de suas amigas de escola. Mas, passados alguns dias, começava a sentir saudades de sua vaquinha, de suas pombas, de suas flores e de seu oratório.
Naquela ocasião, em que havia festas esplêndidas e arrojadas, como há muitos anos não se faziam naquele lugar por ocasião do aniversário da independência, havia ainda mais um incentivo, e pode-se fazer idéia da alegria infantil com que Lúcia e Júlia faziam os preparativos da pequena viagem, e da impaciência com que esperavam o dia da partida.
Para Lúcia havia ainda mais um poderoso motivo de emoção e alegria. O gentil mancebo, que pousara em sua casa, e que ia correr nas cavalhadas, não lhe saía da lembrança. Ao pensar nele Lúcia sentia no coração um alvoroço estranho, como nunca sentira em dia de sua vida.
II
A CAVALHADA
A vila do Patrocínio está em uma das mais lindas e aprazíveis situações. Ocupa o alto e os lançantes de uma colina de pendor suave, encostada de um lado ao topo de uma serra, e gozando pelos outros lados da mais risonha e extrema perspectiva de largos e formosos horizontes.
Nas vésperas da festa, a que nos reportamos (há de haver mais de vinte anos), a alegre e faceira vila estava mesmo louçã e garrida, como menina da roça, que se enfeita com alegre sofreguidão para ir à festa na povoação vizinha. As fazendas e arraialetes, num raio de dez léguas em redor, tinham ficado despovoados. As casas da pequena vila já não eram suficientes para acomodar tanta gente; os ranchos improvisados e cobertos de capim; as barracas e os carros de bois, outras barracas ambulantes, com seu toldo de couro, agrupados em desordem pelas campinas e vargedos vizinhos, abrigavam uma multidão de famílias sertanejas, que ao sol sempre brilhante daquelas paragens, onde se desconhecem as neblinas e aguaceiros, alardeavam seus vestidos de cores vivas e variegadas, seus grossos rosários e trancelins de ouro com pesados relicários e medalhas pendentes do pescoço, derramando-se pelo seio com incrível profusão. Os rapazes montados em lindos poldros ou em possantes mulas ajaezadas de prataria, as esporeavam pelas ruas, procurando fazer admirar as excelentes qualidades de suas cavalgaduras, e o seu desempenho e galhardia em dirigi-las. As violas, violões e guitarras ressoavam por todos os cantos daquela vila que sempre foi notável por seu gosto pelas sinfonias e serenatas.
A arena ou circo, em que se deviam correr as cavalhadas, era no meio do largo da Matriz, em uma esplanada que fica na parte mais eminente do outeiro em que está situada a vila. Era um arco circular de cento e vinte passos, mais ou menos, de diâmetro, em torno do qual os particulares iam construindo em desordem e sem simetria alguma seus palanques toldados e guarnecidos em roda de colchas de damasco, de seda e de chita de variadas e brilhantes cores.
Dois dias antes da festa, à tarde, fazia sua entrada na vila pela estrada do sertão uma família, que, entre outras muitas que iam chegando, atraiu particularmente a atenção do povo que vagava pelas ruas, e que se apinhava pelas portas e janelas. Era um homem idoso, tendo a seu lado uma jovem e gentil cavaleira, que cavalgava com suma graça um lindo ginete branco, uma menina de nove a dez anos, e alguns pajens e mucamas a cavalo.
- Que moça tão bonita é aquela? - perguntavam dali.
- É a Lúcia! pois não conhecem a Lúcia? ah! cada vez mais bela!
- É a Lúcia! aí vem a Lúcia! - sussurrava-se em outro grupo; e moços, velhos e meninos a correrem às janelas para verem aquela peregrina formosura, cuja fama há muito já se tinha espalhado por toda aquela redondeza.
- É um sol de formosura! exclamavam simpaticamente os velhos. É o retrato de sua mãe, que eu conheci muito no meu tempo, mas retrato favorecido...
- É na verdade bonita - diziam as moças; mas, coitada, por viver sempre na roça, está com um ar tão acanhado.
- Ora, prima, se a senhora não fosse tão bonita, eu diria que isso é inveja. Veja com que graça e desembaraço ela governa o cavalo... queria que ela estivesse a olhar sempre para todos os lados?
Quando uma moça é bonita, airosa e bem-feita, se cavalga um lindo ginete e sabe bem dirigi-lo, seus encantos ganham novo realce. Com o movimento as faces se incendem de cores mais vivas, os olhos despedem mais fulgor, e o porte como que se torna mais garboso e senhoril. Lúcia, que reunia todas aquelas condições em grau eminente, estava fascinadora. Sua entrada na vila produziu uma verdadeira expectação.
- Que bonita moça! e como governa bem o seu lindo cavalinho! - dizia-se ainda em um grupo de moços, que se afastara a um canto para vê-la. Eu prefiro este espetáculo a quanta cavalhada há neste mundo.
- Tens razão. Entre as coisas lindas, que há neste mundo, uma das mais lindas é ver uma linda moça montada em um lindo cavalo.
- Oh! se as mulheres também corressem cavalhadas, e pilhássemos um terno de cavaleiras como aquela!... que dizes, Elias?
- Isso é impossível - respondeu este - como aquela não pode haver outra no mundo. Mas nesse caso eu quisera correr cavalhadas toda a minha vida!
- Ah! meu Deus! a primeira argolinha, que eu correr, e que hei de tirar por força, há de ser oferecida àquela incomparável formosura.
- Alto lá, eu corro primeiro que tu, e serei eu que primeiro terei a honra de ofertar-lhe o anel... que ventura, já estou sonhando com o gracioso sorriso com que ela tem de agradecer-me.
- Que esperança! na primeira corrida vocês todos hão de errar, eu aposto; e eu, que serei um dos últimos a correr serei o primeiro a levar a argolinha à gentil dama, e o que vocês ainda não sabem, o pai dela com quem muito me dou, me há de convidar a jantar em sua casa. Olhem, não vão morrer de inveja.
O grupo, como se vê, era de corredores de cavalhadas, e entre eles achava-se Elias. Lúcia o tinha avistado, e tinham-se saudado com os olhos. Elias ao ouvir as palavras de seus companheiros remoía-se por dentro, e começava a sentir as primeiras inquietações do amor. Quando passara pela fazenda do Major sentira irresistível atração pela moça; mas, atendendo à sua posição de moço pobre e sem posição, não ousara afagar muito aquele sentimento, que esperava em breve se desvaneceria. Quando porém a viu entrar na vila radiante de beleza, e como que rodeada de uma auréola de prestigio, quando a viu tornar-se o alvo da admiração de tantos ricos e galhardos moços, que pareciam porfiados em merecer dela um olhar ou um sorriso, Elias sentiu um não sei quê picar-lhe o coração, e compreendeu que nunca poderia ver de bom grado aquela beleza passar ao poder de outrem.
Depois de dar o tempo necessário para o descanso dos recém-chegados, que se apearam em uma das melhores casas do largo, Elias foi um dos primeiros a visitá-los, no que não só cumpria um dever como também satisfazia o mais ansioso anelo do seu coração. A recepção foi cordial e afetuosa. E escusado dizer que Lúcia, ao ver o moço, corou de um modo muito expressivo.
Havia já lá, na sala do Major, um jovem trajado com elegância e certo requinte de mau gosto, porém, à última moda. Sobre o colete brilhavam-lhe a grossa cadeia do relógio, guarnecida de uma infinidade de penduricalhos, a luneta com seu competente trancelim, e no peito da camisa um formidável alfinete de diamante. O colete tinha também uma cintilante abotoadura metálica. Era em tudo o tipo acabado do peralvilho da corte, todo frisado e almiscarado. Era um negociante fluminense há pouco estabelecido no lugar. Fora a principio mascate ambulante, mas havia um ano que se instalara no Patrocínio com loja e balcão, e segundo dizia estava bem principiado, e em vias de enriquecer-se. Gostava muito de Lúcia, e fazia a corte ao Major que o não olhava com maus olhos; pois via nele um ricaço em esperança, e por conseguinte um excelente genro.
Elias viu com desespero que por toda a parte não encontrava senão rivais. Essa circunstância, porém, longe de desalentá-lo, mais estimulava e incendiava a sua nascente paixão.
O jovem negociante era de conversação jovial e zombeteira. Para se inculcar de fina e polida educação escarnecia de tudo quanto era do sertão, e naquela ocasião, para dar mostras de seu espírito, começou pelas cavalhadas.
- Na corte ninguém iria ver cavalhadas senão para rir-se. É um divertimento do tempo de El-Rei nosso senhor. Que papel ridículo não fazem esses papalvos que ali vão galopar enfeitados de chapéus armados, bandas, fitas e ouropéis como figuras de entremez!... E a embaixada, Santo Deus! há nada mais estúpido! admira que ainda haja homens sérios, que assim se atrevam a prestar-se ao debique em público sobre um cavalo dançador, repetindo de boca cheia umas asneiras que ninguém entende! É espetáculo próprio só para bobos ou crianças.
- Ora deixe-se disso, senhor Azevedo - replicou o Major - o senhor é bem difícil de contentar. O nosso povo gosta de cavalhadas, é doido por elas. Não podemos ter circos nem teatros, como nas grandes cidades; que remédio se não nos servirmos com a louça de casa!
- Ora! façam banquetes, façam bailes, façam corridas de touros; não faltam meios de divertir-se o povo; mas deixem-se dessa triste bobice das cavalhadas.
- Mas talvez V. S.ª goste de ver estas. Os cavaleiros são excelentes; temos soberbos cavalos, e estão muito bem doutrinados.
- Qual! nestas coisas, quanto melhor, pior! Quanto mais perfeito anda o negócio, mais ridículo. Antes fosse uma verdadeira mascarada carnavalesca e doidejante; mas aquela cômica gravidade, aquela insípida regularidade, é coisa tristemente ridícula.
- É para V. S.ª, acostumado aos brilhantes e variados espetáculos da corte; mas para nós, pobres roceiros, não há nada mais divertido do que ver um guapo cavaleiro dirigindo um bom e bem doutrinado ginete, tirar uma argolinha, e, encaminhando-se a um palanque, ofertá-la a uma formosa dama...
- Sim; e depois com cara d'asno vir volteando o círculo com um molho de fitas na ponta da lança, ao som de músicas e foguetarias, e ir colocar-se de novo muito concho no seu posto. Há nada mais insípido! São coisas que se devem deixar para os artistas do circo eqüestre, que as fazem muito melhores, e disso ganham a vida.
Elias, que ouvia com impaciência as palavras do negociante, que humilhavam e o feriam em seu amor-próprio, julgou que não devia deixar sem resposta os motejos daquele pelintra, com quem, sem saber por quê, embirrara desde princípio, e assentou de confundi-lo e esmagá-lo. Elias, que além de ter feito os estudos preparatórios, por seu amor à leitura tinha adquirido variada instrução, era de feito muito superior ao seu adversário.
- Perdão - replicou Elias com polidez - não lhe acho razão, meu senhor, e entendo que a cavalhada é um divertimento muito nobre, muito agradável, e muito útil.
- Deveras! e não me fará o favor de dizer em quê?...
- Em quê? em muita coisa. O senhor bem sabe que as cavalhadas não são mais do que uma imagem, um simulacro das antigas justas e torneios. Mas esses divertimentos bárbaros, em que se derramava sangue, e que muitas vezes custavam a vida aos justadores, não podem compadecer-se com as luzes e costumes da civilização atual, e admira que, mesmo nos sanguinários tempos da média idade, fossem tolerados entre povos cristãos. A cavalhada, porém, ficou como uma imitação daquelas lutas cavalheirescas, que, não custando o sangue nem a vida a ninguém, oferece um brilhante e nobre espetáculo aos olhos do povo. A equitação é uma arte útil, necessária mesmo; ninguém o pode contestar. A cavalhada produz estímulo e emulação entre os moços para se exercerem nesta vantajosa e nobre arte, dando-lhes ocasião de alardear o seu garbo e destreza em dirigir um possante e fogoso ginete aos olhos do público, e às vezes também de uma amante querida, que do fundo do seu palanque o anima com um olhar, ou com um sorriso. Dizendo estas últimas palavras, Elias lançou furtivamente sobre Lúcia um olhar rápido.
- Triste meio de agradar às belas, fazendo papel de truão! exclamou com uma gargalhada o jovem negociante.
- E mais nobre e cavalheiresco - retorquiu Elias - do que o namoro nos bailes e nas igrejas, que é tão comum hoje. E ainda nisto a cavalhada é uma semelhança dos antigos torneios, nos quais os campeões tinham sempre uma dama dos seus pensamentos, pela qual iam romper lanças na sanguinosa liça.
- Oh! meu senhor! já lá se foi o tempo dos D. Quixotes e das Dulcinéias - disse o negociante.
- É verdade; hoje estamos no tempo dos melcatrefes e dos bonecos almiscarados; duvido que melhorássemos nesse ponto. O uso de correr cavalhadas também produziria ainda uma outra vantagem, e seria inspirar aos nossos fazendeiros o gosto pela criação de bons e bonitos animais, tendo mais capricho na escolha e apuração das raças cavalares, coisas de máxima importância, e que em nosso país se trata com o maior desleixo. A cavalaria é uma das armas mais poderosas, principalmente nas guerras da América, onde ela é indispensável, e sem bons cavalos e bons cavaleiros não pode haver boa cavalaria. Quando a arte for uma arte inútil, quando a carreira militar for uma profissão ignóbil e desprezível, então a cavalhada será um espetáculo só próprio para bobos e crianças.
- Não creia que hão de ser as cavalhadas, que se correm de anos em anos, quando se correm, que nos hão de dar bons cavaleiros, nem bons cavalos. Infelizes de nós, se não houvesse outros meios de obtê-los, como as escolas de equitação, as corridas de parelhas...
- Mas onde está nada disso entre nós? As escolas de equitação seriam úteis, sem dúvida; mas as cavalhadas e todos os espetáculos eqüestres seriam um complemento delas, porque estimulariam os moços a se exercerem nessa arte oferecendo-lhes ocasião de exibirem em público sua agilidade e galhardia. Ninguém freqüentaria as escolas de música ou de qualquer outra arte agradável, se não houvesse ocasião de apresentar em público, em ocasiões solenes como nas igrejas e nos teatros, seu talento e maestria. Para nós, porém, que desde a infância andamos a cavalo, essas escolas são muito dispensáveis, e mesmo sem elas sabemos, não só governar, como domar e doutrinar os mais fogosos animais, e quando é ocasião de nos apresentarmos em público; em breve o senhor poderá julgar se somos ou não bons cavaleiros.
- Ah! pelo que vejo, o senhor também é um dos corredores da cavalhada? nesse caso peço-lhe mil perdões pelo que tenho dito; mas, meu amigo, a falar-lhe com franqueza, não lhe invejo o gosto.
- Embora!... O senhor acha ridícula a cavalhada; mas, pergunto eu, qual será mais ridículo, uma cavalhada ou um baile? Quem se presta mais ao debique público: aquele que dirige e sopeia um generoso corcel no meio da liça, sopesando uma lança ou brandindo uma espada, ou aquele que ao lado de uma dama arrasta os pés em um salão, fazendo mesuras, trejeitos e requebros? Qual será a prenda mais útil e mais nobre, a dança ou a equitação? qual será mais proveitoso ao país, um bom dançarino ou um bom cavaleiro?
O negociante sentiu-se algum tanto desconcertado com as calorosas tiradas do jovem sertanejo em defesa das cavalhadas, e que eram interrompidas continuamente pelos aplausos e animadores apartes do Major. Lúcia, que não supunha Elias tão instruído e bem-falante, o escutava com íntima satisfação e aplaudia, ora com um gesto, ora com um sorriso.
- Seja como quiser, meu caro senhor - disse o negociante. - Não sabia que era cavaleiro e tão entusiasta; agora que o sei, não me animo mais a contrariá-lo. Fique cada um com sua opinião que não vale a pena questionar sobre semelhante coisa.
E, dirigindo-se ao Major, mudou bruscamente de conversação.
No entanto, Elias teve ocasião de dirigir timidamente a Lúcia algumas palavras sem importância, só pelo prazer de falar com ela e de lhe ouvir a voz. Por fim sempre se animou a pedir permissão para oferecer-lhe a primeira argolinha que tirasse nas corridas do primeiro dia.
No dia 7 houve pela manhã a missa cantada, o te-déum e a parada de costume. Tudo era farda: no meio daquela multidão de uniformes, os homens vestidos à paisana formavam uma minoria imperceptível. As famílias que queriam ir à igreja eram conduzidas pelas crianças e escravas, pois os pais e os irmãos adultos por via de regra estavam debaixo de forma. Assistindo-se aos festejos de gala nas vilas do interior, dir-se-ia que não há povo mais militarizado que o nosso. Entretanto, não há povo mais essencialmente pacífico, menos propenso à carreira das armas.
A lei lhe impõe o dever de envergar uma farda e entrar em forma em certos dias do ano, e eis em que consiste o militarismo e a missão única da guarda nacional.
À tarde tiveram lugar as cavalhadas.
Às três horas, já os palanques toldados de colchas de cores brilhantes estavam atulhados de famílias. Por baixo e em torno deles formigava remoinhando uma multidão inquieta, esperando com impaciência o começo do espetáculo.
Por fim o estouro das girândolas e o repique dos sinos deram sinal da vinda dos cavaleiros.
Dai a um instante estes, divididos em duas turmas de dez cada uma, entraram na arena a galope por lados opostos, montados em lindos ginetes ricamente ajaezados e enfeitados de fitas e ouropéis, penachos e ressoantes guizos, e meneando as lanças ornadas de compridas fitas. Não traziam máscara, nem estavam trajados a caráter, como é costume em algumas partes; mas, segundo o uso do sertão, traziam uniforme militar à moda do tempo, cada um a seu talante e com primor e riqueza que podia. Uma das turmas, porém, trazia farda azul, e outra escarlate, figurando aquela os cristãos, e esta os mouros.
Depois de fazerem diversas evoluções, postaram-se as duas turmas em fila defronte uma da outra nas extremidades do circo. Cada cavaleiro tinha o seu pajem da lança a pé, conduzindo pela rédea mais um cavalo à destra.
É escusado descrever todas as evoluções das corridas, porque suponho que os leitores pela maior parte têm assistido a este divertimento, se bem que este hoje vá caindo em completo desuso e esquecimento.
Elias era o segundo da fila dos mouros, e logo na primeira corrida ia sendo vítima de um infeliz contratempo. Seu cavalo nimiamente fogoso e pouco acostumado ao estrondo da música e da foguetaria, desgovernou-se, e era quase impossível ao cavaleiro fazê-lo trilhar a linha marcada. Corria ou antes corcoveava à direita e à esquerda, como um poldro bravio. Elias exasperado o castigava rigorosamente. O cavalo falseou de uma das mãos, e caiu de peito em terra. Elias saltou fora dos arreios; o cavalo levantou-se imediatamente; mas uma roseta da espora tendo se embaraçado no selim, Elias caiu e foi arrastado pelo circo umas dez braças no maior perigo do mundo.
- Jesus! Maria! Misericórdia! - foi o grito de alarme, que ressoou por todos os palanques.
Mas Elias se desvencilhara, e estava prestes a montar de novo; mas seus companheiros não queriam consentir; ele porém insistiu vivamente até que um pajem, vindo a toda pressa do palanque do Major, veio pedir-lhe por parte deste e de sua filha Lúcia que não corresse mais naquele cavalo.
- Sinhazinha teve tamanho susto, que ficou fora de si, e quase caiu - disse o pajem.
Ao saber que Lúcia tinha desmaiado, Elias teve ímpetos de matar ali mesmo o cavalo a lançadas e correr aos braços dela; mas ao mesmo tempo não podia deixar de abençoar do íntimo d'alma aquele incidente, que viera revelar de modo tão positivo o grau de interesse que inspirava à jovem e gentil roceira.
O jovem fluminense, que nunca largava a companhia do Major, estava em seu palanque.
- Oh! minha senhora - exclamou ele com certo despeito ao ver o susto e inquietação de Lúcia - não vale a pena tomar tanto cuidado pelo pobre rapaz. Deixa-o; está no seu torneio; e, se aqui não se quebram lanças, nem rompem-se couraças em honra das amantes, ao menos quebram-se as costelas no chão. E resultado do entusiasmo cavalheiresco.
Lúcia apenas respondeu com um olhar de desprezo.
Elias mudara os arreios para outro cavalo e as corridas continuaram. Ele ostentou-se sempre o mais garboso e mais hábil cavaleiro.
Chegou a hora da corrida de cabeças.
São cabeças de papelão colocadas sobre quatro postes nos cantos, e uma quinta no meio da arena. Os cavaleiros, volteando a arena a galope, cada um por sua vez tem de enfiá-las na ponta da espada; é este último passo o mais difícil, e em que poucos são felizes.
Elias, quando largou a lança, tinha nela enfiadas todas as quatro cabeças. Depois em vez de desembainhar a espada como os outros, viram-no abrir alguns botões da farda, tirar do seio um curto punhal, e dependurando-se dos arreios com a presteza e agilidade de um gaúcho, quase sumir-se debaixo do cavalo, e depois reaparecer com a cabeça cravada na ponta do punhal. Os aplausos e os foguetes retumbaram por todos os lados.
- Ah! Meu Deus! - exclamou Lúcia involuntariamente e cobrindo os olhos com o lenço ao ver o moço naquela arriscada posição.
- Não se assuste, minha senhora - acudiu o fluminense - o rapaz está em seu elemento; é um excelente artista. No circo eqüestre do Bartolomeu este rapaz podia fazer fortuna.
Chegou por fim o momento de correr à argolinha, que é de todos os exercícios da cavalhada o mais difícil.
Os cavaleiros de ambas as turmas se reúnem de um só lado. Em frente deles, na outra extremidade, está pendurada a um cordão, preso a dois altos postes, uma argola de metal de uma polegada de diâmetro. Os cavaleiros, cada um por sua vez saindo a galope da fileira, têm de tentar enfiá-la na ponta da lança.
Quando chegou a sua vez, Elias tinha montado de novo o fogoso rosilho; quando deram fé, já era tarde para estorvá-lo. O cavalo saiu aos trancos, num galope áspero e descompassado; mas a despeito disso, quando Elias passou entre os postes, a argolinha tinha desaparecido do cordão. Como é de estilo, dois cavaleiros vieram escoltá-lo, e ele, ao som de aplausos, músicas e foguetes, dirigiu-se ao palanque de Lúcia. Esta, com o mais amável dos sorrisos nos lábios e com mão trêmula de emoção, na forma do costume, atou-lhe na ponta da lança um molho de largas e compridas fitas, e ele volteou de novo a arena a toque de música e estouros de foguetaria. Era o herói da festa.
Seguiu-se a embaixada. Um parlamentar, montado em um formoso e bem doutrinado ginete, saiu caracolando, dançando, pinoteando para o meio da arena, e em um discurso bombástico no estilo do Carlos Magno, intimou por parte do rei dos cristãos ao chefe dos infiéis que se rendesse à discrição, etc. Mas o turco descrido não está por isso, e com a mais despejada arrogância jura por Mafoma que se não renderá e desafia a cólera do cristão vencedor. Então há a corrida desordenada. Os cavaleiros cristãos em massa investem sobre os turcos, os quais não podendo sustentar o choque, correm atropeladamente pelo circo, uns para aqui, outros para acolá, sempre perseguidos pelos cristãos. Enfim os mouros, vendo-se apanhados, põem rapidamente o pé em terra e, largando seus cavalos, correm a procurar refúgio e padrinho cada qual em um palanque de sua escolha, e assim aqueles perros infiéis, abrigados cada um aos pés de uma beleza cristã, de cujas mãos querem receber o batismo, ficam inteiramente a salvo da sanha dos perseguidores.
Elias, que era mouro, atracou-se logo ao palanque do Major, e foi apadrinhar-se com Lúcia. Esta com alegre alvoroço e quase pensando, em sua imaginação infantil, que aquilo era uma realidade, adiantou-se sorrindo a dar a mão ao cavaleiro; como é costume nessas ocasiões, este foi convidado a jantar em casa de sua madrinha.
Assim passou-se alegremente o primeiro dia de festa. Os outros dois, que se seguiram, correram igualmente animados e folgaram sem incidente algum, cabendo sempre a Elias as honras do dia nas cavalhadas.
III
NA ROÇA
Festas acabadas, músicos a pé. Por vir muito a pêlo, cai-me agora do bico da pena este anexim popular.
Acabada a festa, tudo caiu na tristeza e monotonia, não direi ordinária, porém muito pior ainda, pois contrastava horrivelmente com a alegria e festivo alvoroço dos dias que acabavam de escoar-se, e dos quais somente restavam as saudades.
Elias, de garboso e brilhante cavaleiro que era, passou a não ser mais que mero peão, isto é, voltou à sua condição de moço pobre e sem posição.
O Major teve de demorar-se alguns dias ainda na vila. Elias durante esse tempo não deixou passar um dia sem ir à sua casa; era, porém, muito maior a freqüência de seu rival, cuja importuna assiduidade já escandalizava os olhos do público. Lúcia raras vezes lhe aparecia, e só quando era chamada por seu pai. Outro tanto não praticava com Elias, a quem vinha sempre cumprimentar com ar modesto, mas com as faces incendiadas em certo rubor, que significava muito. Este procedimento enchia de despeito e feria dolorosamente o amor-próprio do negociante:
- Sempre é da roça! - dizia ele com seus botões para desabafar seu desgosto. - Estas matutas são assim mesmo; parece que têm medo dos homens de certa classe e de certa educação mais elevada, e só se ligam com os da sua ralé. Quando lhes aparece em casa alguma pessoa mais bem trajada e de maneiras mais polidas apenas animam-se a espiar por trás das portas... Mas esta moça... julguei que tivesse um bocadito mais de espírito... qual! E como as outras, ou pior. Lá se avenha ela com o palerma do seu cavaleiro andante. Lé com lé, cré com cré. Admira que o bobo do Major não perceba certas coisas e não veja que aquele lorpa lhe anda fazendo corte à filha. Queira Deus que dali não saia alguma alhada! Muito me hei de divertir com isso.
Falando assim, porém, o nosso negociante nem por isso estava desanimado, nem abandonava o campo. Sabia que o rapaz não era do lugar, e tinha de ir-se embora. Mesmo que não fosse, estava firmemente convencido de que o Major, homem de fortuna, jamais se resolveria a dar sua filha a um pobre-diabo, que não tinha onde cair morto, só porque sabia correr cavalhadas. Assim pensava, e guardava-se para melhores tempos.
Elias, que viera de Uberaba expressamente para tomar parte nas cavalhadas, - pois tinha bem merecida nomeada de bom cavaleiro por todos aqueles sertões - Elias viera recomendado ao Major por pessoas importantes daquela localidade, e portanto a sua assiduidade em casa deste tinha explicação muito natural, e o Major estava longe de presumir que o moço tivesse a veleidade de pôr olhos apaixonados em sua filha. Estulto e cego, que pensava que o amor calcula as dificuldades e mede as distâncias das posições, e que não via que aquelas duas criaturas eram próprias para se inspirarem mútuo e ardente amor!
Mas, ai deles! aproximava-se o tempo de se separarem, e esta lembrança os enchia de angústia e melancolia. Viram-se, amaram-se e sabiam que eram amados; mas nunca, por uma palavra que fosse, tinham confessado um ao outro aquele sentimento, e agora iam separar-se sem um adeus, um aperto de mão, um protesto, que os confortasse naquela longa, e quem sabe se eterna separação.
Elias andava excogitando um meio de despedir-se de Lúcia e protestar-lhe seu eterno amor, quando o Major o veio tirar desse embaraço e encher da mais viva alegria. O Major tomara simpatia e afeição pelo jovem uberabense, e, como lhe era recomendado por pessoas a quem não podia deixar de servir, o convidou para sua fazenda, onde, dizia o Major, teria muito em que empregá-lo, até que pudesse procurar melhor arranjo.
Faça-se idéia do prazer e ufania com que Elias partiu, atravessando a vila ao lado da sua amada, montado no próprio rosilho em que tantas brilhaturas fizera nas cavalhadas.
Instalado na fazenda do Major, Elias foi ali tratado com afetuosa bondade, como se fora um membro da família. Era o escriturário, ou antes secretário particular do Major, e posto que a escrituração de um fazendeiro do sertão seja quase que nenhuma, todavia o pai de Lúcia, na sua qualidade de Major de estado-maior e ocupando um cargo de polícia, que raras vezes exercia, tinha vários ofícios a fazer e a responder, e não deixava de tirar proveito da boa letra e das luzes de Elias.
Elias era também excelente músico: tocava diversos instrumentos, tinha uma boa voz, e todas as noites divertia os serões da família cantando modinhas e cançonetas, acompanhando-se com uma viola, único instrumento que havia em casa. Portanto, além de gentil cavaleiro, Elias era também insigne trovador. Tudo isto reunido a alguma instrução e a uma conversação agradável, tornava a sua companhia sempre amável e desejada. Assim, quando acontecia ausentar-se por alguns dias em algumas comissões, de que às vezes o Major o encarregava, sua falta era muito sentida no seio daquela pequena e respeitável família.
Lúcia e sua irmã mostravam muita vontade de aprender um pouco de música. Tendo um tão bom mestre em casa, o pai não pôde deixar de condescender com os desejos de suas filhas, e encarregou a Elias de, nas horas vagas, dar-lhes algumas lições.
Todos os dias, pois, em horas indeterminadas, via-se Elias, na espaçosa varanda, assentado em um comprido e antigo banco de cedro entre as duas meninas, debaixo das vistas do Major, bem entendido, ocupado em ensinar-lhes os rudimentos de música e a dar-lhes lições de solfejo. A perspectiva que tinham em frente era magnífica: a vista se perdia por vastas e risonhas campinas e remotos horizontes, banhados pela luz de um sol esplêndido. E por entre a algazarra dos melros, pintassilgos e patativas, que chilravam em torno da casa, e os gorjeios cadenciados do sabiá que cantava ao longe, ouviam-se os ensaios tímidos daquelas duas vozes infantis. Era de sobejo para encantar e exaltar a imaginação impressionável do mancebo, que nessas horas de doce ocupação esquecia-se de si, de sua pobreza, do seu futuro, para se entregar ao enlevo do mais puro e do mais ideal dos amores. As duas alunas também, por sua parte, e principalmente Lúcia, tinham aquelas horas pelas mais bem empregadas da sua vida. Mas Elias já tinha lido a Júlia de João Jacques Rousseau, e no meio de suas doces emoções às vezes estremecia ao lembrar-se da sorte dos dois amantes no romance do imortal filósofo de Genebra.
O contato íntimo daqueles dois corações, que pareciam criados um para o outro, acabou de abrasá-los em uma paixão enérgica e profunda, dessas que não se extinguem senão com a vida. No seio da solidão as paixões tomam maior vulto e se enraízam mais na alma, do que no meio do bulício e das distrações do mundo. A alma solitária é como a fonte do deserto, resguardada dos ventos, que no regaço límpido e imóvel guarda fielmente a imagem do arvoredo que a sombreia.
Lúcia e Elias amavam-se; todavia nem uma só palavra de amor lhes havia ainda escapado dos lábios; os olhares e os sorrisos diziam tudo; eles sabiam muito bem que se amavam, e era quanto bastava para sua felicidade. Como dois cisnes, deixavam-se levar descuidosamente pela torrente plácida e voluptuosa das emoções presentes, sem se lembrarem que mais além podiam ser arrastados e despedaçados por furiosas cachoeiras, ou engolidos em trevos sorvedouros.
Elias suspirava por uma ocasião de poder estar a sós com Lúcia, e de declarar-lhe de viva voz o seu amor; mas essa ocasião por si mesma não podia oferecer-se. Todos os dias tomava a firme resolução de pedir furtivamente à moça uma entrevista, cujo lugar e hora já tinha premeditado. Mas, quando era ocasião de falar-lhe, um invencível acanhamento como que lhe paralisava a língua; receava profanar com aquele pedido a pureza angélica daquela criatura.
Um dia enfim revestiu-se de ânimo a superar os seus escrúpulos.
- Ah! Se eu um dia pudesse falar sem testemunhas, e revelar-lhe tudo quanto sinto! - disse ele baixinho a Lúcia numa ocasião em que o pai se ausentara por um momento.
- Mas... isso... não pode ser, - murmurou Lúcia com voz breve e decisiva, mas cobrindo-se de tal vermelhidão, que se teria traído completamente, se ali houvesse olhos perspicazes e perscrutadores.
- Talvez possa - continuou Elias sorrindo. - Sei que a senhora passa às vezes horas inteiras sozinha na fonte do quintal. Ficará muito assustada, se eu um dia lá aparecer?
- Sem dúvida!... não; não vá; senão, nunca mais lá voltarei.
- Nada receie; eu a respeitarei tanto ou mais do que se estivéssemos aqui, em presença de seu pai.
- Não vá, não... tenho medo. Agora nunca mais irei lá sozinha.
- Perdão, minha senhora! não lhe teria feito este pedido, se soubesse que me tinha tanta aversão.
- Aversão!...
Os tamancos do Major, ressoando no soalho, anunciavam a sua volta, e impuseram silêncio aos dois amantes.
No primeiro dia que se seguiu a este colóquio, Lúcia cumpriu restritamente a ameaça que fizera de não voltar mais à fonte; mas só Deus sabe quanto isto lhe custou. No segundo dia foi, porém acompanhada de sua irmã e de Joana; pensava seriamente nas conseqüências daquele passo, e tinha medo; mas o coração a arrastava para lá. Elias, que tudo observava com a vista perspicaz do amante, que ouvia a voz dela, sentia-lhe os passos, e quase adivinhava quando estava em casa, e que, além disso, subindo um pouco pela encosta do espigão podia devassar o estreito trilho que embrenhando-se pelo pomar ia ter à fonte, não pôde deixar de manifestar seu descontentamento não por palavras mas por seu ar triste e taciturno.
Ao terceiro dia Lúcia não pôde conter-se, tomou sua cestinha de costura e lá desceu a sentar-se à sombra no gramal da fonte. Elias bem o pressentiu; mas era já muito tarde para ter tempo e dar as voltas necessárias a fim de ocultar seus passos; e portanto lá não apareceu.
- Cumpriu a sua promessa de não ir mais à fonte? - perguntou-lhe ele no outro dia à hora da lição.
- Cumpri sim, senhor; sozinha não vou lá mais.
- Entretanto se me não engano parece-me que a vi ontem descer sozinha para lá.
- Quem? a mim? o senhor viu?...
- Sim, senhora, vi; e creio que era mesmo a senhora.
- Pode ser... à tarde faz tanto calor aqui em casa; e demais estou certa que o senhor lá não há de aparecer, não é assim?
Elias sorriu-se, e Lúcia sentiu o rubor afoguear-lhe as faces.
Elias costumava caçar pelos campos do arredor, mui abundantes em perdizes, codornizes e outras caças.
No dia seguinte, logo após o jantar, arreou seu cavalo, pegou na espingarda, chamou seu cão, e saiu. Deu longas voltas para poder, sem ser observado, entrar pelo capão que desde as cabeceiras bordejava o córrego até os fundos do quintal. Apenas se embrenhou no mato, apeou-se, atou o animal a uma árvore, e desceu costeando o córrego por estreitos trilhos feitos pelos pés do gado e de animais silvestres.
Elias contava quase com certeza encontrar Lúcia na fonte, e não se enganou. Ela já estava com efeito, não naquele doce descuido d'alma, em que a temos visto outras vezes, mas inquieta, anelante, como a corça espavorida, que cuida ouvir a cada instante o latir dos cães e as vozes do caçador.
A entrevista durou apenas alguns minutos. Elias, que tinha estudado mil frases apaixonadas, apenas disse, tomando-lhe a mão e beijando-a:
- Eis-me aqui, D. Lúcia; perdoe-me esta audácia... se soubesse quanto a amo!...
- O senhor é bem animoso - disse ela entre risonha e enfadada.
- Não lhe tinha pedido que não viesse aqui?...
- Bem lhe queria obedecer; mas o amor foi mais forte que eu. Vim para ouvir de seus lábios uma só palavra de que depende a minha felicidade, a minha vida. Diga-me, a senhora me tem amor?...
Lúcia hesitou um instante, fitou os olhos no chão, e murmurou timidamente:
- Muito!...
- Anjo! - exclamou Elias caindo a seus pés e procurando derramar em palavras de ternura o prazer que lhe transportava a alma; mas não pôde dizer mais nada. Quando o coração está cheio de felicidade, a vida toda se concentra ali, a cabeça fica erma de idéias, e a língua fica paralisada.
Mas Lúcia imediatamente o tirou daquele embaraço, dizendo-lhe com ar inquieto.
- Está satisfeito o seu desejo. Agora retire-se, retire-se quanto antes. A cada momento pode aqui chegar alguém...
E, tirando uma flor que tinha no cabelo, a entregou a Elias. Este enlaçando-lhe o braço em torno ao colo, tomou-lhe a mão e beijou-a com ardor. Foi tudo quanto ousou fazer.
- Adeus!
- Adeus!
Quando Lúcia, tendo dado alguns passos, voltou o rosto para ver ainda uma vez seu amante, avistou-o de joelhos, beijando a relva em que ela estivera reclinada. Fez-lhe vivamente aceno com a mão, para que se retirasse, e sumiu-se entre o laranjal.
Eis em que consistiu aquela entrevista tão ardentemente desejada. Parece que não valia a pena tomarem tanto trabalho, sujeitarem-se a tantos sustos e inquietações, para trocar duas palavras, dar um beijo na mão e receber uma flor. Mesmo debaixo dos tetos do Major não faltaria ocasião azada para fazerem outro tanto muito a seu salvo. Mas era sempre uma entrevista, e uma entrevista tem grande importância aos olhos dos amantes, principalmente se tem lugar ao ar livre, tendo por testemunhas o céu, o bosque, a fonte. É mais uma prova de confiança mútua, uma garantia mais solene da lealdade e pureza do amor. O beijo da entrevista é o selo imposto ao contrato que liga para sempre duas almas.
Os amantes são de ordinário mui fáceis em capacitar-se de que ninguém adivinha o sentimento que lhes ocupa o coração; cegos, não se apercebem que em cada palavra, em cada gesto, em cada olhar estão traindo a todo o momento a paixão que julgam escondida nos mais íntimos seios d'alma e que entretanto lhes vai transparecendo em todo o seu ser. O Major não era dotado de grande perspicácia, nem tinha muito conhecimento do coração humano, coisa que nem em si mesmo tivera ocasião de estudar, pois nunca vivera a vida do coração. Todavia chegou a desconfiar, e em breve se convenceu da existência de uma mútua afeição entre Lúcia e o seu logo o mal, antes que tomasse maior vulto. Desde logo tratou de suprimir as lições de música. Não o fez, porém, abertamente; mas todas as vezes que era ocasião de tomar lição, achava pretexto para atrapalhá-los, inventando algum serviço urgente, ora para o mestre, ora para as discípulas.
Além disso, ocupava mais que de costume a Elias em comissões e viagens, de modo que este pouco tempo parava em casa. Assim julgava ele impedir o progresso do mal, enquanto procurava ajeitar um meio suave e natural de se ver livre de tal hóspede.
Lúcia e Elias, portanto, já raras vezes se viam. Estava mais que claro que tudo aquilo era manobra do Major, que por certo já suspeitava a existência de sua recíproca afeição. Elias compreendeu que era tempo... de quê? de pedir Lúcia em casamento... não por certo. Na posição precária e quase desvalida em que se achava, não se abalançaria a dar semelhante passo; só podia esperar um não redondo, categórico e humilhante. Era tempo de dizer adeus a Lúcia, ao amor, à felicidade, e também à última esperança que lhe restava n'alma.
A persuasão de Elias ainda. mais se confirmou, quando um dia o Major, com o tom o mais benévolo e paternal do mundo, lhe disse:
- Meu amigo, creia que lhe quero bem, e sinceramente desejo o seu adiantamento. Um moço como o senhor, que teve estudos, e tem tantas habilitações, não deve estar-se perdendo em uma roça, onde as suas prendas e habilidades de nada lhe podem servir. Em qualquer povoação que se estabeleça, pode com facilidade ganhar dinheiro e posição, ao passo que aqui, na roça, falo com franqueza de amigo, está perdendo completamente o seu tempo. De minha parte, qualquer que seja o lugar para onde deseje ir, pode contar sempre com o meu pequeno préstimo naquilo em que lhe puder ser útil... e...
- Tem razão, Sr. Major - interrompeu vivamente Elias; V. S.ª preveniu-me em um propósito que eu já há muito tinha formado. - Vejo que aqui em sua casa sou um ente inútil e que não é à sombra de seu telhado que poderia encontrar fortuna, nem felicidade.
- Agastou-se comigo?... não o estou mandando embora... é apenas um conselho de amigo.
- Não me agastei, Sr. Major; já lhe disse que era o meu propósito, só receava que V. S.ª o não aprovasse; agora, que sei o contrário, dê-me as suas ordens, que pretendo partir o mais breve possível.
Elias bem sabia o motivo daquele procedimento do Major, e nada tinha que lhe replicar. Era um modo polido de despedi-lo. De feito não era possível de modo mais benévolo e lisonjeiro cravar-se o punhal no coração de uma vítima. As palavras do Major caíram-lhe como rochedos sobre o coração com peso esmagador. Forçoso lhe era deixar Lúcia, talvez para sempre!
- Ah! pobreza! pobreza! maldita pobreza! - exclamava Elias em transportes de frenesi, entrando para o seu aposento. - Pobreza! tu és o pior dos males que afligem a humanidade, pior que a fome, pior que a lepra, pior que a morte mesmo. De toda parte és repelida, como se foras um mal contagioso. Além de faltarem ao pobre todas as comodidades materiais da existência, são-lhe vedados todos os prazeres do coração. O pobre não pode, não deve amar... Ah! se eu fosse rico!... por que não quis a sorte, que eu possuísse um pouco de dinheiro? mas quem me impede de o ter? os outros, que o ganham, são porventura melhores do que eu?... Sou moço, e, graças ao céu, tenho saúde, robustez e a inteligência necessária para saber ganhar dinheiro... A Bagagem está ali perto... é um garimpo riquíssimo... pouco custa cavar a terra, e lavar o cascalho. Major! Major!... tu me expeles de tua casa por ser pobre... mas, ah! Major! queira Deus que bem cedo não te arrependas do pouco-caso que hoje fazes de mim, e não venhas humilhado implorar o perdão a meus pés. Major! por ti só, tu nada vales; e esse teu vil procedimento eu o lançaria ao desprezo, sem que me custasse um só momento de sono. Mas tua filha vale um tesouro e é por amor dela que eu sofro, e é por ela e para ela que eu juro e protesto... serei rico, ou do contrário nem tu, nem ela, nem mais ninguém neste mundo me verá a face.
As relações entre Lúcia e Elias estavam, pois, completamente interceptadas. Há muito tempo não se viam senão à hora do jantar com a família. Este era para eles o pior dos martírios. Iam-se separar sem poderem dizer-se um adeus... Um medianeiro seria para eles naquela ocasião um presente do céu, para se comunicarem suas angústias, receios, e esperanças, se esperanças podiam ter. Só Lúcia poderia achar um meio de comunicação entre eles. Lúcia lembrou-se de Joana; era a única pessoa a quem podia incumbir de tão melindrosa tarefa. Ela sabia muito bem que a velha e matreira crioula já estava ao fato de seus amores com Elias, e portanto nada arriscava encarregando-a de um recado ou de um bilhete.
- Joana, tu hás de me fazer uma coisa!...
- Por que não, sinhazinha?... qual é essa coisa?
- Entregar-me este bilhete a... meu mestre.
- Para que isso, minha sinhá?... esqueça-se desse moço! amanhã ele vai-se embora...
- É por isso mesmo; quero dizer-lhe adeus. Entregas?
- Eu sei!... Nhonhô sabendo não há de gostar; ele já anda ressabiado, e me recomendou que não deixasse sinhazinha andar sozinha.
- E que necessidade há de que ele saiba?... isso não faz mal; o moço tem de retirar-se e talvez nunca mais nos encontremos - disse a moça suspirando.
- Ah! sinhá! eu... não... sei...
- Vai; leva isso e cala-te. Se ele te der alguma coisa para trazer-me, entrega-me fielmente, ouviste?
- Sinhá mandou... que remédio tenho eu...
Nessa noite Elias recebia o seguinte bilhete:
"Meu pai já tem conhecimento de nosso amor, e, como bem está se vendo, não o aprova. Vejo que nossa separação é inevitável. Não posso explicar quanto tenho sofrido. Não sei o que será de mim, e nem vejo remédio para nossa desgraça. Tudo poderão fazer de mim menos arrancar-me do coração este amor que lhe consagro. Adeus, não se esqueça desta infeliz, que, aconteça o que acontecer, há de amá-lo sempre, sempre."
Na manhã seguinte Elias mandou-lhe a seguinte resposta:
"Teu pai tem dado a entender claramente que não me quer mais em sua casa. Devo deixar-te e amanhã mesmo estarei longe de ti; este golpe feriu-me cruelmente, mas não me desalenta. Sou pobre, e é essa a razão por que teu pai me despreza. Mas devia lembrar-se que sou moço, e, louvado Deus! tenho robustez e inteligência, sei trabalhar, e amanhã posso ser rico. Adeus, Lúcia; não percas a esperança, e ama-me sempre, que para tudo há remédio. Eu vou trabalhar para me tornar digno de ti aos olhos de teu pai. O teu amor me alenta e me enche de coragem e de confiança em minha estrela. Ah! possas tu nunca faltar-me com ele! Eu parto com o coração ralado de angústia e de saudade. Terás notícias minhas... dentro em dois anos estarei de volta ou... Adeus."
No dia seguinte Elias seguindo caminho de Bagagem via sumir-se no horizonte longínquo a fazenda do Major, e sentia como que um véu de luto abafar-lhe o coração, ao passo que aquela aprazível morada, que antes formara as delícias de Lúcia, ia dora em diante tornar-se para ela um deserto horrendo, um exílio insuportável.