
A educação profissional e tecnológica tem contribuído para formar e incluir, no mundo do trabalho, os cidadãos brasileiros. Na busca por inovação tecnológica, desenvolvimento sustentável e geração de emprego e renda, as escolas da rede federal de educação tecnológica, em parceria com setores produtivos locais, estão desenvolvendo diferentes pesquisas com produtos regionais. A Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação (Setec/MEC) tem a satisfação de apresentar, nesta publicação, alguns desses trabalhos.
Estes volumes, sobre aqüicultura, biodiesel e licuri, integram a coleção de cartilhas temáticas da Setec e abordam projetos desenvolvidos pelas escolas agrotécnicas federais de Alegre e Colatina, no Espírito Santo, e de Muzambinho, em Minas Gerais, e do Centro Federal de Educação Tecnológica da Bahia (Cefet/BA). As edições anteriores trataram de pesquisas e programas de estudos relacionados à cachaça, ao café e ao vinho.
A política adotada pelo Ministério da Educação busca promover uma educação capaz de formar trabalhadores conscientes de suas responsabilidades e comprometidos com o desenvolvimento socioeconômico do país e com a redução das desigualdades sociais brasileiras.
Eliezer Moreira Pacheco
Secretário de Educação Profissional e Tecnológica
A história do biodiesel data de 1895, quando dois grandes visionários, Rudolf Diesel e Henry Ford, descobriram nos óleos vegetais um combustível e um caminho para o desenvolvimento industrial. Pesquisaram diversos combustíveis que pudessem ser utilizados em motores, entre eles o álcool produzido a partir de biomassa. Embora tivessem seus sonhos para o desenvolvimento dos combustíveis de biomassa adiados pelo rápido avanço da indústria do petróleo, deixaram sementes férteis.
Passados mais de cem anos, a associação dos óleos vegetais com o álcool, em um processo químico conhecido como transesterificação (processo de separação da glicerina do óleo vegetal), pode viabilizar um novo combustível de origem renovável para o Brasil: o éster de óleo vegetal, também conhecido como biodiesel.

Girassol
As alternativas de matéria-prima para o fornecimento do óleo vegetal são diversas no Brasil, caso do girassol, do pinhão manso, da soja, do amendoim, do algodão, do dendê, do milho, entre tantas outras que podem ser cultivadas de acordo com a aptidão agrícola e o clima de cada região do País.

A idéia do uso do biodiesel no Brasil não é nova. As primeiras avaliações de viabilidade do uso de óleos vegetais in natura e de biodiesel (mistura do óleo vegetal + álcool) começaram em 1982, quando foram realizados diversos testes com a colaboração da indústria automobilística. Dentre os vários combustíveis testados, vale mencionar o éster etílico de soja puro e a mistura de 30% de éster etílico de soja e 70% de óleo diesel.
Embora os resultados dos testes tenham sido especialmente animadores para o biodiesel, e várias tentativas de desenvolvimento de um mercado tenham sido feitas, os altos custos do produto, à época, inibiram o seu uso comercial. Com a elevação dos preços do óleo diesel e dos demais derivados de petróleo, o biodiesel passou a ser visto como uma alternativa economicamente viável.
Considerado um produto nobre, biodiesel pode ser adicionado ao óleo diesel em concentração de 1% a 2%, simplesmente com o objetivo de melhorar a lubricidade do combustível.
Experiências realizadas demonstram que, para misturas de óleo diesel com até 20% de biodiesel, não há necessidade de alterações no veículo ou no motor. Mas já estão sendo feitas pesquisas, com sucesso, para o caso de utilização do biodiesel na forma pura, em alguns transportes coletivos, tratores, caminhões e caminhonetes.

Soja
O Brasil tem, hoje, potencial para ser líder mundial na produção de biodiesel. Nenhum outro lugar é tão apropriado para diferentes culturas de oleaginosas como o nosso País. O clima favorável, a vocação agrícola e a disponibilidade de cerca de 100 milhões de hectares virgens de terras boas para a agricultura (dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE) o credenciam a ser o maior fornecedor mundial do mais ecologicamente correto combustível o petróleo verde.
Atualmente, o consumo nacional de óleo diesel está em torno de 45 bilhões de litros, por ano, e importamos cerca de 15% desse total. Com apenas seis milhões de hectares de cultivo de oleaginosas, poderemos substituir por completo o volume necessário de diesel para atender à demanda interna. Aproveitando somente as terras já desmatadas no Cerrado ou na Amazônia, a atividade pode proporcionar uma economia de pelo menos um bilhão de dólares anuais com as importações do óleo derivado de petróleo.
Com o avanço na produção do biodiesel, países como o Brasil terão grande importância estratégica para o mundo inteiro, tendo em vista que as reservas de petróleo já conhecidas deverão acabar dentro de, no máximo, cinqüenta anos (as do Brasil têm vida útil de 19,6 anos).

O biodiesel pode ser produzido com metanol, resultando no éster metílico, ou com etanol, na forma de éster etílico (a partir da cana-de-açúcar). Em ambos os processos, tem-se a produção da glicerina como subproduto, fato que pode aumentar a competitividade do biodiesel, pois essa substância pode ser utilizada como matéria- prima na produção de tintas, adesivos, produtos farmacêuticos, têxteis etc.

A opção preferencial para o Brasil deve ser o éster etílico, visto que o etanol é produzido localmente em larga escala, a custos competitivos e gerando empregos e renda rural, enquanto o metanol necessita ser importado, pois o Brasil não é autosuficiente na sua produção. Além disso, a perspectiva de produção em larga escala do éster etílico abre, também, um novo mercado para o setor sucroalcooleiro.
Além de muito atrativo economicamente, o biodiesel é vetor de qualidade ambiental. Emite 98% menos CO2 (gás carbônico) do que o petróleo, não é tóxico, é cem vezes mais biodegradável que o óleo diesel comum, libera menos partículas de enxofre e não produz fumaça preta nem odores desagradáveis.
Um dos principais atributos do biodiesel é a sua capacidade de reduzir a emissão de poluentes atmosféricos em comparação com o óleo diesel, contribuindo para a redução do efeito estufa com melhorias na qualidade de vida e da saúde pública.

Possibilita, também, a utilização dos créditos de carbono vinculados ao mecanismo de desenvolvimento limpo, decorrentes do Protocolo de Kioto (ratificado em 1997), e o uso de terras inadequadas para a produção de alimentos.
Porém, ainda há que se fazer o zoneamento para a produção dessas oleaginosas com o objetivo de impedir que essas culturas acabem por se transformar no causador do aumento do desmatamento, como o que vem acontecendo na Amazônia e no Mato Grosso em função do cultivo de soja.
A Escola Agrotécnica Federal de Muzambinho (EAFMuz), município localizado a sudoeste do estado de Minas Gerais, já conta com 52 anos de existência. Hoje, é um centro de referência em Educação Tecnológica, que busca o desenvolvimento e o bem-estar dos alunos e da população e desenvolve pesquisas em diversas áreas, inclusive com oleaginosas matérias-primas para produção do combustível verde.
O girassol, o pinhão manso e o nabo forrageiro são as culturas pesquisadas pelos alunos e professores da EAFMuz. Eles verificam a adaptação dessas culturas ao solo da região, estudam as possíveis pragas e os respectivos defensivos agrícolas mais adequados, o melhor adubo e o espaçamento que deve ser utilizado entre as plantas e, ainda, métodos e períodos de plantio e colheita.
Esses alunos, depois de capacitados pela Escola, adquiriram know-how no que diz respeito à cultura do girassol, e isso possibilitou que eles prestassem assistência técnica, na forma de estágio não remunerado, para a cooperativa de miniusinas de biodiesel, a Biobras. Atualmente, essa cooperativa é formada por nove miniusinas de processamento do combustível verde, abastecidas pela produção das mãos de mais de dois mil pequenos produtores rurais, cumprindo, assim, o papel social do Programa de Biodiesel do governo federal.
Os alunos da EAFMuz também estão sendo capacitados a fim de serem integrados ao mercado de trabalho, uma vez que o município de Muzambinho terá, para o próximo ano, a sua própria miniusina de biodiesel. A miniusina, uma iniciativa privada de moradores da região, já acordou que a prestação de assistência técnica será feita pelos alunos que estão sendo capacitados.

O desenvolvimento sustentável consiste em criar um modelo econômico capaz de gerar riqueza e bem-estar, enquanto promove a coesão social e impede a destruição da natureza. Esse modelo busca satisfazer às necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades. Ou seja, utilizar recursos naturais sem comprometer sua produção, fazer proveito da natureza sem devastá-la e buscar a melhoria da qualidade de vida.
De acordo com o professor Alberto Donizete Alves, responsável pelas pesquisas realizadas na EAFMuz com os alunos, desenvolver as oleaginosas matéria-prima do biodiesel com sustentabilidade, respeitando o meio ambiente e os conhecimentos tradicionais das populações envolvidas, é preocupação constante nos estudos. Para ele, as pesquisas que estão sendo feitas são fundamentais para que os pequenos produtores rurais sejam direcionados e orientados de forma correta, a fim de tirar o melhor proveito econômico, ambiental e social do combustível verde.
No Brasil, mais de 200 mil famílias de pequenos produtores rurais estão envolvidas com as plantações de oleaginosas, o que faz do novo combustível um fator fundamental para a inclusão social.
Mas a indústria do biodiesel tem potencial para gerar ainda mais de 500 mil empregos diretos e inúmeros indiretos. O combustível verde será, ainda, responsável pelo incremento da renda e pela melhoria de qualidade de vida de todos os envolvidos na cadeia produtiva das oleaginosas. Trata-se também, de ser um grande influenciador no desenvolvimento de novas tecnologias e incentivador de pesquisas.
Para evitar a concentração de renda e propriedade e beneficiar milhões de agricultores familiares em todo o país, o Brasil deverá criar mecanismos, inclusive com financiamentos próprios, para descentralizar a produção por meio da instalação de micro e pequenas usinas em todos os estados, em todos os municípios, a exemplo do que já vem ocorrendo. Assim, estaremos promovendo a geração de emprego e renda e a fixação do homem no campo, afirma o professor Alberto Alves.

Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apontam que a área cultivada com girassol no Brasil é de, aproximadamente, 100 mil hectares. A produção da cultura é de cerca de 150 mil toneladas do grão, mas, se depender de várias ações que estão em curso no Brasil, o girassol vai ganhar mais fôlego, pois se apresenta como uma excelente matéria-prima para a produção de biodiesel e importante alternativa de geração de emprego e renda para a agricultura familiar.
Na EAFMuz, estão sendo feitas pesquisas de campo em quinze variedades de girassol, com o objetivo de identificar, entre elas, qual seria a mais rentável para os pequenos produtores e a melhor época de plantio e colheita.
O plantio do girassol é feito em dois períodos: um entre setembro e outubro época de chuvas e o outro no verão, com início em fins de dezembro até março.
A colheita pode ser totalmente mecanizada ou semimecanizada. Ela é realizada, em média, após 110 dias do plantio do girassol, quando o capítulo (miolo onde estão as sementes) está com coloração castanha. A mecanização total da colheita é obtida com a adaptação de plataformas em colheitadeiras. Na Escola, essa adaptação tem sido feita em colheitadeiras de milho, em função até de a altura das culturas serem próximas.
Como toda cultura, a do girassol também exige correção de solo e adubação, devendo ser dada especial atenção ao boro, principalmente em solos arenosos. Esses estudos sobre as melhores correções para o solo da região são feitos na própria Escola, que possui um avançado laboratório para análise do solo e da água. Além das análises de macro e micronutrientes em solos, são feitas ainda análises de tecido vegetal (foliar) e calcário.
Os tratos são simples e consistem em capinas e limpeza doterreno. Em geral, são feitas duas capinas durante as duas primeiras semanas após o plantio. Depois disso, o próprio girassol faz o serviço, pois compete com as invasoras, mantendo-as sobre controle.
O pinhão manso é outra cultura pesquisada na Agrotécnica. Existe de forma espontânea em áreas de solos pouco férteis e de clima desfavorável à maioria das culturas tradicionais e pode ser considerada uma das mais promissoras oleaginosas do sudeste, centrooeste e nordeste do Brasil, para substituir o óleo diesel em função da sua produtividade, perdendo apenas para o dendê.
Essa planta é altamente resistente às doenças, e os insetos não a atacam, pois libera um látex que escorre das folhas e caules arrancados ou feridos.
Sua cultura é perfeitamente viável, consorciada à criação de caprinos e ovinos que não comem suas folhas em função do seu látex. Também pode ser plantado com milho, soja, batata-doce e como cerca-viva nas propriedades. No entanto, recomenda- se não plantá-lo com o café, principal cultivo da região pois, o pinhão manso não deve ser cultivado com outra espécie também perene como ele.
Sua idade produtiva leva de três a quatro anos para ser atingida, estende-se por quarenta anos e produz, no mínimo, duas toneladas de óleo por hectare.
O nabo forrageiro, outra cultura pesquisada na Agrotécnica de Muzambinho, é uma planta anual e herbácea muito utilizada, tanto para cobertura do solo em plantio direto (em sessenta dias cobre 70% da área), como para alimentação animal de bovinos de leite e de corte, em pastejo direto, ou cortado e distribuído em cochos.
Permite consórcio com aveia, centeio, milho e outras culturas. Serve tanto para adubação verde como para forragem e é recomendado como pré-cultura de algodão, feijão, milho e soja. Apresenta período longo de floração, sendo muito útil na criação de abelhas, com produção de mel de boa qualidade.
O seu rápido crescimento contribui para diminuir a infestação de invasoras, facilitando outras culturas e minorando os gastos com herbicidas ou capinas mecânicas. É considerado um adubo verde, pois apresenta elevada capacidade de reciclagem de nutrientes no solo, como o nitrogênio e o fósforo.
Mas é das pequeníssimas sementes, que ficam dentro de uma vagem (parecida com um nabo), que se extrai o óleo. Essas sementes possuem altíssimo teor de óleo e vêem sendo testadas para produção de biodiesel.
Fonte: diarioeducacao.gov.br

Usina montada pela Tecbio em Floriano, no Piauí: óleo de soja e mamona
Companheiro do etanol no âmbito dos combustíveis renováveis, o biodiesel começa a se firmar no Brasil em relação à produção e distribuição nos postos de reabastecimento. Até o final do ano, o total produzido deve chegar a 750 milhões de litros, quase os 840 milhões que o país deverá produzir a partir de 2008 para atingir a cota de 2% de incorporação desse biocombustível ao diesel mineral derivado do petróleo, como prevê lei federal de 2004 que estabeleceu o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel.
Ao longo desses últimos anos, quase três dezenas de usinas já foram construídas ou estão prestes a ser inauguradas e novas tecnologias de produção surgiram. Mas ainda há muito por fazer. Quase a totalidade desse biocombustível produzido hoje no Brasil não é propriamente renovável porque é feita com metanol, uma matéria-prima essencial para o processo de transesterificação, a reação química que transforma o óleo vegetal em biodiesel.
O metanol é um álcool feito de gás natural ou extraído do petróleo, portanto não-renovável. A alternativa é o uso do etanol, também possível de ser usado nesse tipo de reação. O problema é que para fazer o biodiesel é preciso gastar mais álcool que metanol. Para produzir mil litros de biodiesel, as usinas incorporam atualmente no processo de produção até 300 litros de metanol. Na fabricação com etanol, esse número sobe ao patamar de 500 litros do álcool feito no Brasil de cana-de-açúcar. Nos dois processos, no entanto, sobra cerca de 50% de qualquer um dos dois álcoois, num processo chamado de recuperação do excesso que leva a parte que sobra de volta ao início da produção. Com preços equivalentes, dependentes da região onde o biodiesel é produzido, os produtores estão preferindo o metanol pela diminuição dos gastos.
Uma das possibilidades que podem ajudar o renovável álcool a ser incorporado na produção do biodiesel é um sistema desenvolvido pelo professor Miguel Dabdoub, do Laboratório de Desenvolvimento de Tecnologias Limpas (Ladetel) da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto. No Brasil temos a oportunidade do uso do etanol, mas a maior parte das indústrias não tem tecnologia para isso, diz Dabdoub.
Desenvolvemos um processo pela rota etílica dentro de um conceito
de eficiência energética em que é preciso usar menos álcool e grande parte
dele é recuperado no final do processo e pode ser reutilizado. Ajudou
para isso o desenvolvimento de catalisadores, substâncias que aceleram a reação
química, nesse caso à base de cobre e vanádio. Estamos elaborando uma
patente sobre os catalisadores e o novo processo. Além do uso do etanol,
Dabdoub propõe um conjunto completo de estudos de efluentes e tratamento de
resíduos. Imaginemos que se produzam 2 bilhões de litros de biodiesel
no Brasil, precisamos lembrar que se gastaria no processo mais 1 bilhão de
litros de água, que precisam de alguma forma ser recuperados e voltar para
produção.
Mas há quem seja contrário ao uso do etanol. O etanol é quase uma commodity,
é um produto final e usá-lo é estar na contramão do ponto de vista industrial,
diz o empresário Expedito Parente, professor aposentado da Universidade Federal
do Ceará, autor da primeira patente de biodiesel brasileira
depositada em 1977. Atualmente ele é sócio na Tecbio, empresa cearense que
fornece plantas fabris para produção de biodiesel. Para ele
o etanol é um produto nobre que não deve ser usado como matéria-prima. Principalmente
na Região Nordeste, o metanol é mais barato, além de se usar cerca de 50%
a menos que o etanol, diz Parente. O metanol é basicamente feito
de um gás que poderá ser extraído de biomassa pela gaseificação de resíduos
agrícolas, até de bagaço de cana é o biometanol.
Chama invisível Para Dabdoub, é importante não combater a rota metílica porque atualmente ela é, sob a ótica econômica, a mais fatível, embora seja igualmente importante pensar num combustível 100% renovável.
No processo desenvolvido no Ladetel nós também já fizemos com o metanol e os gastos são menores, mas é preciso dizer que o metanol, além de não ser renovável, traz problemas ao sistema produtivo por ter maior possibilidade de contaminação e ser mais perigoso: ao entrar em combustão sua chama é invisível, ao contrário do etanol.
A técnica de transesterificação é antiga, tem mais de um século. Utiliza-se mais metanol porque é uma tecnologia desenvolvida no hemisfério Norte, onde o etanol até há pouco tempo não existia em grande quantidade. O momento é de tropicalizar essa tecnologia. O metanol é caro e mais tóxico, além de provocar mais acidentes, diz o engenheiro agrônomo Décio Luiz Gazzoni, pesquisador da Embrapa Soja, unidade sediada em Londrina, Paraná, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Acredito, pelas informações que possuo, que dentro de dois anos, com investimentos públicos e privado, conseguiremos avançar para processo de obtenção do biodiesel com etanol. Vários grupos como a USP, a Universidade Federal do Paraná, a Universidade Federal do Rio de Janeiro e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT) estão estudando o uso do etanol, uma tecnologia mais adaptável para o país, afirma. É uma questão de detalhes.
Gazzoni, que foi da equipe técnica da elaboração do Plano Nacional de Agroenergia, lançado pelo Ministério da Agricultura em 2003, e é membro do International Science Panel on Renewable Energies, ou Painel Científico Internacional em Energias Renováveis, que faz parte, entre outras entidades, do Conselho Internacional de Ciência (ICSU na sigla em inglês), acredita que o desenvolvimento do biodiesel no Brasil ainda é embrionário. Em escala mundial também. O estágio atual do biodiesel é comparado ao do álcool nos anos 1980. Ainda existe muita água para passar debaixo da ponte do ponto de vista tecnológico, e o Brasil novamente tem vantagens comparativas com outros países. Para ele, entre as vantagens em relação a esse biocombustível está principalmente o forte entrosamento entre as fontes do conhecimento científico. Precisamos fazer o diferencial agora porque fomos apanhados no contrapé, ao contrário do etanol. Não fomos capazes de perceber no passado a importância do biodiesel.
A argumentação de Gazzoni se dá principalmente na elaboração de culturas para produzir óleo vegetal. Precisamos deixar mais produtivas culturas como o dendê (também chamado de palma), a mamona, a canola (colza), o girassol e até a soja, mas isso demora. O ponto principal é buscar mais densidade energética em culturas antes destinadas à alimentação humana ou animal. Gazzoni acredita que, no atual estágio dessas culturas, apenas o dendê com produção de mais de 3 mil litros por hectare (l/ha), podendo chegar a 4 mil, é sustentável em 20 anos. Nada comparável ainda com a velha e boa cana-de-açúcar, gramínea hoje capaz de produzir, no mínimo, 8 mil l/ha.
Em palestra no Instituto de Estudos Avançados da USP em março, Gazzoni lembrou que o mundo produziu 6,2 milhões de toneladas de biodiesel em 2006 e deverá necessitar, em 2011, de uma produção de 33,5 milhões e, em 2020, de 133,8 milhões. A produção crescente vem principalmente da Europa, onde a porcentagem de biodiesel adicionada ao diesel será de 5,75% até 2010. A produção naquele continente atingiu 3,84 milhões de toneladas em 2006, ante 6,06 milhões em 2005, tendo nos dois anos a Alemanha na frente. Lá, o principal óleo usado é o de canola, antes um produto de exportação europeu, agora confinado ao continente para acionar ônibus, caminhões e automóveis, que também, em grande parte, são movidos a diesel. Na Europa, o biodiesel é produzido industrialmente desde 1992 e seu uso é relevante neste momento sobretudo em razão da diminuição de gases poluentes como o dióxido de carbono (CO2).
Vários estudos indicam que o uso de 1 quilo de biodiesel reduz em cerca de 3 quilos a quantidade de CO2 na atmosfera. As emissões de poluentes do biodiesel são de 66% a 90% em relação ao diesel convencional.
A realidade do biodiesel produzido hoje no Brasil se dá basicamente com a soja, cuja oferta e preço seduzem os produtores, além de o resíduo da produção do óleo, a chamada torta de soja, obter bom mercado na alimentação animal como fonte de proteína. Ocorre que a soja tem características físicas não muito próprias e produtivas para o biodiesel. Seus grãos rendem apenas 18% de óleo, resultando em uma produção de 700 l/ha. A mamona, com 47% de óleo, atinge 1.200 l/ha, e o girassol, com 40%, 800 l/ha. Segundo Ricardo Dornelles, diretor do Departamento de Combustíveis Renováveis do Ministério de Minas e Energia, a soja é a matéria-prima de 55% do biodiesel nacional produzido até aqui. A mamona representa 20% e o restante dividido entre outras oleaginosas como dendê e nabo forrageiro. Para ele ainda existe muito a caminhar em pesquisa, tanto no processo de uso do etanol, que requer aprimoramento para contribuir com os custos industriais, como no desenvolvimento de culturas que apresentam maior produtividade de óleo e controle de pragas. A cultura de soja leva vantagem porque o processo de produção de óleo é bem desenvolvido e totalmente dominado pela agroindústria, diz Dornelles. Pensamos que é preciso também programar e fazer o zoneamento das culturas de modo que fiquem mais produtivas em determinadas regiões. A mamona, por exemplo, ocupa o segundo lugar principalmente pelos incentivos aos produtores da Região Nordeste. O selo social estabelecido pelo Programa Nacional de Biodiesel é dado à produção que vem de iniciativas consideradas como de agricultura familiar e zera a tributação para produtores dessa planta nas regiões Norte, Nordeste e no semi-árido. A Petrobras, procurando atuar nesse sentido comprando sementes de mamona e de girassol de pequenos agricultores, estabeleceu uma unidade produtora de biodiesel no Pólo de Guamaré, no Rio Grande do Norte.
O pinhão não é manso
Cantado em prosa e verso como a planta da esperança para produção farta de
biodiesel, o pinhão-manso, uma planta arbustiva comum, mostrou
que não é tão manso. Ele ainda é selvagem pelo menos dentro de uma
perspectiva agrícola. Sua cultura em larga escala é inexistente e nunca foi
estudada a fundo. A domesticação está começando, mas ainda é cedo para crer
nas maravilhas espalhadas pelo país, inclusive com venda de sementes pela
internet.
O alerta foi dado em forma de manifesto, em fevereiro, por um grupo de 11 pesquisadores da Embrapa e da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais. Acreditamos no potencial futuro da planta, mas o conhecimento técnico é limitado porque não conhecemos vários parâmetros de plantação, como espaçamento entre as plantas, produção de mudas, e principalmente pragas e doenças, diz o pesquisador Liv Soares Severino, da Embrapa Algodão, sediada em Campina Grande, na Paraíba.
Uma das nossas preocupações é que muitos agricultores estejam investindo na planta e depois de dois ou três anos venham até nós para que possamos resolver problemas da cultura. E ainda não a conhecemos do ponto de vista agrícola. Severino, por meio de um projeto financiado pela Petrobras, foi com outros pesquisadores brasileiros até a Índia, onde se dizia que a cultura do pinhão-manso estava desenvolvida. Descobrimos que eles sabem tão pouco quanto nós. Um dos problemas apontados é a colheita. A planta tem a vantagem de ser perene, ou seja, não é preciso plantá-la todos os anos, mas os frutos não amadurecem ao mesmo tempo. É preciso fazer várias colheitas manuais e com isso o custo da plantação aumenta.
Em relação à quantidade de óleo, estimava-se em mais de mil litros por hectare, mas Severino diz que ela não passa dos 400 l/ha, embora exista potencial para aumentar muito essa quantidade. Antes do biodiesel, o pinhão-manso era relegado a uma planta de quintal ou de mera curiosidade e apreço pessoal. Mas já havia vivido tempos mais memoráveis, quando no século XIX seu óleo, como o de outras fontes, como a de baleia, por exemplo, era usado nas luminárias das ruas do Rio de Janeiro.

Unidade de produção experimental da Petrobras em Guamaré, no Rio Grande
do Norte
Extração geral Alternativas de plantas para produzir óleos vegetais são o que não falta em todo o mundo, principalmente na faixa tropical do planeta. Mas mesmo em áreas gélidas como a região da Patagônia, na Argentina, já existem iniciativas para produção de biodiesel com o óleo de algas marinhas. Em março, o sítio da Rede de Ciência e Desenvolvimento, SciDevNet na sigla em inglês, anunciava um empreendimento argentino tendo à frente a empresa Oil Fox, que fez um acordo com o governo local para cultivar algas marinhas em grandes piscinas na província de Chubut. Com investimentos alemães de US$ 20 milhões, a empresa anunciou que espera produzir 240 mil toneladas de biodiesel marinho anuais em apenas 300 hectares ante 600 mil hectares que seriam exigidos para a produção de soja.
No Brasil ainda existem muitas alternativas, como o babaçu, o amendoim, o caroço de algodão, o pequi e o pinhão-manso (leia boxe), por exemplo, fora outras plantas amazônicas ainda sem cultivo estabelecido. Muita coisa já foi experimentada. Entre 1977 e 1980, quando testávamos várias matérias-primas, uma produtora de suco de maracujá cearense, a Agrolusa, pediu que tentássemos a produção de diesel com sementes dessa fruta, lembra Expedito Parente, da Tecbio. Deu certo, e as kombis da empresa rodaram por seis meses com esse biodiesel. Mas depois verificaram que os preços pagos pela indústria de cosméticos para o óleo de sementes de maracujá eram bem mais compensadores.
Outra experiência curiosa de Parente nos primórdios do biodiesel no Brasil foi a produção de biocombustível com óleo de sardinha. Recebi de uma empresa da Bélgica 200 litros de óleo de peixe que se mostrou muito bom para produzir biodiesel. A gordura animal ou o sebo, tanto de bovinos como de frangos e suínos, também está atualmente na rota dos produtores com o uso do mesmo processo de transesterificação. No Brasil existem disponíveis 700 mil toneladas anuais de sebo bovino para produção de biodiesel, um produto que deixou de ser resíduo para se transformar num subproduto, diz Carlos Freitas, consultor e sócio da Conatus Bionergia, que se prepara para instalar uma fábrica de biodiesel no norte do Paraná, com capacidade de produção de 200 toneladas por dia, inicialmente com óleo de soja e girassol. A gordura animal é importante, mas, pela quantidade ofertada, sempre ficará à margem dos óleos vegetais.
Embora nascente, a indústria de biodiesel no Brasil já exporta tecnologia. Dabdoub, da USP, já prestou assessoramento para duas usinas de biodiesel que foram construídas nos Estados Unidos. Uma delas, na cidade de Gilman, no estado de Illinois, é de um empresário brasileiro, Renato Ribeiro, que produz óleo de soja em solo norte-americano. Ela tem capacidade de produção de 110 milhões de litros por ano e usa o etanol extraído do milho. Nessa empreitada, US$ 2 milhões foram exportados do Brasil para os Estados Unidos em equipamentos. Em outra usina, em Durant, no estado de Oklahoma, Dabdoub só transferiu conhecimento em forma de assessoramento. A usina está em construção para produzir 80 milhões de litros por ano e só levará equipamentos brasileiros, possivelmente, numa segunda etapa.
Durante a elaboração desse trabalho Dabdoub recebeu a oferta de um convênio para estudo de biodiesel entre a Universidade do Estado de Oklahoma e a do Texas, numa parceria com apoio da Sociedade Brasileira de Química e de sua congênere norte-americana. A interação vai beneficiar alunos por meio de estágios entre os dois países. Para o pesquisador, esse é um caminho de duas mãos. Conhecimento não se entrega, se intercambia, diz Dabdoub, que também é presidente da Câmara de Biocombustíveis do governo do estado de São Paulo.
Planta piloto A parceria e a interação com o meio acadêmico também estão na mira da empresa Marchiori, que desenvolveu equipamentos, como tubulações, tanques e reatores para usinas de biodiesel feitos com fibra de vidro em vez do tradicional aço, que custam, segundo o engenheiro de produção, Antonio Martinho Marchiori, sócio da empresa, de 30 a 40% menos que os usados atualmente. Temos uma patente dos equipamentos e do processo de produção de biodiesel com fibra de vidro, diz Marchiori, que doou uma planta piloto, que produz 200 litros por dia, para o Pólo Nacional de Biocombustíveis que funciona na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da USP. O mesmo estamos fazendo com a Universidade Estadual Paulista (Unesp), da cidade de Ilha Solteira. Nos dois casos, pretendemos, com os estudos que serão feitos, obter melhoria das nossas usinas em itens que a universidade pode colaborar, como automação e informatização. Uma outra megaparceria recém-finalizada que teve os resultados apresentados ao Ministério da Ciência e Tecnologia, em março, foi a da aprovação em testes da mistura de 5% de biodiesel ao diesel mineral. Participaram do projeto a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), empresas de autopeças, além do Instituto de Tecnologia para o Desenvolvimento (Lactec) de Curitiba, Paraná, Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e a Unesp de Jaboticabal. Com isso, o governo e as montadoras podem adotar os 5% programados para 2010.
Foram 140 caminhões, além de alguns tratores, que rodaram milhares de quilômetros e, quando abrimos os motores, verificamos excelente durabilidade, melhor lubrificação, diz Dabdoub, que coordenou os trabalhos. A montadora de tratores Valtra já pensa em dar garantia para até 20% de biodiesel.
Testes semelhantes foram finalizados em agosto de 2006 para o grupo francês PSA Peugeot Citroën feito pela equipe de Dabdoub junto com o Lactec. Um Peugeot 206 e uma Xsara Picasso, com motores a diesel, comuns na Europa, rodaram mais 110 mil quilômetros, além de passarem por testes de bancada, com 30% de biodiesel, e apresentaram excelentes resultados. Usamos óleo de dendê, soja e mamona, em proporções diferentes, e etanol na produção. Para Dabdoub ainda há uma extensa área de pesquisa ligada ao biodiesel. Uma delas é a chamada catálise enzimática da mesma forma que acontece com os estudos de pesquisadores brasileiros e de fora do país para uso do bagaço de cana ou de outros resíduos para extrair o etanol.
No caso do biodiesel, o objetivo é retirar mais óleo dos resíduos da produção da óleo soja, da mamona e de outras plantas usadas para produção do diesel vegetal. Nós já conseguimos isso, mas o método ainda não é competitivo, diz Dabdoub. Ele também afirma que a glicerina um produto resultado do processo de transesterificação que é vendido para a indústria química, farmacêutica e de cosméticos poderia ser utilizada como um novo recurso energético dentro da usina de biodiesel. Ela geraria energia elétrica por meio da criação de vapor para mover turbinas, como se faz com o bagaço da cana nas usinas sucroalcooleiras.
Mas só será viável quando cair para 70% do valor atual do diesel derivado de petróleo usado para queima em caldeiras ou para aquecimento em países de clima frio, compensando, dessa maneira, o menor poder calorífico da glicerina com um preço menor também. No cenário atual, com o preço da glicerina atingindo os US$ 700 por tonelada, usá-la em caldeiras para gerar energia ainda é inviável.
Fonte: www.revistapesquisa.fapesp.br