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Biogeografia

Ciência que estuda a origem, distribuição, adaptação e associação das plantas e dos animais na superfície da Terra.

Constitui verdadeiro traço de união entre a geografia física e a geografia humana. Implica no conhecimento não só da distribuição atual das plantas e dos animais, mas também das causas e fatores que a presidem, no tempo e no espaço; e na observação da forma pela qual se processou a adaptação dos seres vivos ao meio e os indícios dessa acomodação. Como nada existe isoladamente na natureza, procura-se conhecer as causas que originaram determinadas associações de espécies, bem como apreciar os diferentes aspectos sob os quais se apresentam. Procurando atender a todos esses objetivos é que Dansereau em Biogeography, an ecological perspective (A Biogeografia, uma perspectiva ecológica) estabeleceu os denominados planos ou níveis de integração que "representam as várias limitações que o meio impõe, sucessivamente, aos seres vivos, no tempo e no espaço". Tais níveis são os seguintes:

Nível histórico: Estuda-se a origem, evolução e causas do declínio ou desaparecimento, dos diferentes grupos de plantas ou animais. Foram os grandes acontecimentos geológicos (glaciações, transgressões marinhas, separação de continentes, formação de montanhas) os responsáveis pela atual distribuição dos elementos da flora e fauna. A tabela organizada por R. J. Russell estabelece uma comparação entre o tempo geológico e um ano do calendário, assinalando a diversidade de duração de cada era, e dentro de cada uma os grupos que, sucessivamente, surgiram, evoluíram e desapareceram. Assim é que os invertebrados precederam os vertebrados e os mamíferos são posteriores aos répteis, enquanto que, no reino vegetal, às algas seguiram-se os fetos arborescentes, os ginospermas e os angiospermas. Variando as condições, sobretudo climáticas, de cada era, os organismos sofreram sucessivas adaptações. Muitas vezes, foram essas tão especializadas que, modificando-se as condições ambientes, os organismos desapareceram, por se acharem por demais restritos a determinadas condições.

A atual distribuição dos grupos de plantas e animais resulta de longa sucessão de fatos, e o estudo das áreas dela resultante constitui um corolário lógico. Entende-se por área a extensão geográfica de um grupo, quaisquer que sejam as limitações ecológicas; nesta subdivisão do nível histórico (areografia) são analisadas as descontinuidades existentes e as causas que as originaram. Do ponto de vista estritamente geográfico, podem-se distinguir: (1) grandes áreas contínuas (as gramíneas existem no mundo inteiro); (2) grandes áreas descontínuas (as magnoliáceas têm uma extensa distribuição geográfica, pois existem nos dois hemisférios, mas ocupam regiões limitadas);(3) áreas limitadas a um hemisfério (cactáceas restritas ao hemisfério ocidental; araucariáceas ao meridional); (4) a um continente; (5), (6) e (7) às regiões tropicais, temperadas ou glaciais; (8) áreas regionais e (9) grupos endêmicos. Da análise de todas essas áreas, verifica-se que, geralmente, as ordens mais altas da escala biológica (famílias) podem ser cosmopolitas, enquanto as mais baixas (espécies) restringem-se a habitats bem definidos, por serem muitos os seus fatores limitativos.

A origem e dispersão dessas áreas constitui outro ponto importante, embora ainda não solucionado satisfatoriamente. Dentre os muitos critérios para o estabelecimento do centro da área de um grupo (centro de dispersão ou de origem) destacam-se os seguintes: ( 1 ) onde há o maior número de espécies; (2) onde há o maior número de indivíduos; (3) onde o desenvolvimento dos indivíduos é maior; (4) onde é menor a dependência a um determinado habitat etc. Ligado a esse problema de determinação do centro de origem e dispersão, acha-se o de vicariância, apresentado pelas espécies que, tendo origem comum, hoje se acham em áreas geográficas diferentes, por vezes, mesmo, muito afastadas.

Há a analisar ainda o fato de serem as áreas primitivas (onde a espécie considerada é realmente indígena) ou secundárias (invadidas recentemente devido à ação humana), distinguindo-se, nestas últimas, diferentes graus de invasão. Há os elementos estrangeiros plantados e conservados pelo homem e a cujos cuidados se acha subordinada sua propagação (o eucalipto no Brasil) e há os que se naturalizam: dentro das habitações (moscas), nas cidades (pardal), nus lugares abandonados (agaves), nos campos de cultura etc. Em geral, não oferecem competição aos elementos indígenas, regredindo quando cessa a intervenção humana. O mesmo não acontece quando o elemento é indígena ou, mesmo, alguns naturalizados que se propagam espontaneamente, invadindo áreas devastadas (Tibouchina estrellensis [quaresma]).

Critérios biológicos são utilizados para a compreensão dos deslocamentos das áreas de vegetação: a forma de seu contorno (quando descontínuas e irregulares indicarn, quase sempre, regressão); a vitalidade dos componentes (sabendo-se as exigências da planta, poder-se-á constatar o progresso ou recuo de sua área); as características do limite das árvores (timberline), que mostrarão, pelo seu avanço ou recuo, se está havendo um aumento ou decréscimo de umidade. Todos esses movimentos acham-se ligados às flutuações climáticas e, no Brasil, por exemplo, a presença do gênero Araucária, em pontos das serras do Mar e da Mantiqueira, indica a penetração para o N de um antigo clima mais frio, e a existência de Melastomatáceas (gênero Microlicia e Lavoisiera) a de outro mais seco.

Nível bioclimatológico

Nesse nível são estudadas as limitações devidas aos fatores do clima. A ação desses fatores (latitudes, distribuição dos continentes, relevo, depressões barométricas, correntes marinhas) faz-se sentir, principalmente, sobre as plantas, através de seus elementos (temperatura, precipitações, ventos). Assim, a latitude, condicionando a temperatura, acarreta a divisão da superfície da Terra em grandes zonas, nas quais o comportamento biológico é bem diversificado equatorial, tropical, temperada e fria, com as respectivas subdivisões. A cada uma delas, em função também da umidade, correspondem diferentes faixas de vegetação. Quando a altitude introduz modificações climáticas, também se estabelece um escalonamento (agora vertical) da vegetação, passando estas faixas a constituir os denominados andares de vegetação. Latitude e altitude são, assim, os dois fatores que mais influenciam sobre a distribuição das espécies.

Constitui objeto deste nível o estudo dos principais tipos de biócoros (floresta, savana, formações herbáceas ou grassland e deserto), bem como a análise da distribuição da vegetação com base nas formas biológicas. Estas foram criadas por Raunkiaer, que procurou classificar as plantas de acordo com a localização dos órgãos regenerativos, o que lhes confere diferentes graus de defesa contra as intempéries. Estabelecendo, em várias áreas, a percentagem de cada uma dessas formas, verificou que, enquanto nas regiões tropicais úmidas predominavam as fanerófitas (com brotos altos e sem proteção), nas secas dominavam as terófitas (que produzem sementes que caem ao solo e ficam inativas durante a estação adversa) e nas temperadas úmidas as hemicriptófitas (nestas a parte aérea morre até o nível do solo, onde fica o broto regenerativo). Além dessas formas, existem ainda as caméfitas (cujos brotos estão perto do solo, sendo próprias dos climas secos ou frios; nestes últimos, a neve protege os brotos no inverno) e as geófitas (nas quais a parte aérea morre anualmente, ficando apenas o broto abaixo do solo, inteiramente protegido).

Para os bioclimatologistas, uma das grandes preocupações é o estabelecimento dos isófenos (linhas que unem pontos onde determinada espécie tem igual periodicidade biológica: época de floração de uma planta, reprodução de um animal etc.). Pelo traçado dos isófenos poder-se-á ter uma idéia mais exata do clima do que pelos simples dados meteorológicos, pois as plantas, reagindo ao meio, servirão de índices. A melhor caracterização do clima é dada, porém, pelo clímax: tipo de vegetação expontânea (floresta, pradaria, etc.) que, sem a intervenção humana, vai atingir, de maneira estável, os seus próprios limites.

Tendo em vista que os climas apresentaram grandes variações através dos tempos, o exame dessas alterações é do maior interesse. Pode ser feito pela análise dos varvitos, pelos exames dos anéis de crescimento das árvores e, sobretudo, pelo exame das turfeiras. Compõem-se estas, na maior parte de musgos do gênero Sphagnum, que têm a propriedade de conservar o pólem das plantas que o rodeiam. Com a interrupção vegetativa ocasionada pelo inverno, formam-se camadas bem distintas e através da analise do pólen nelas contido, é possível chegar até a identificação de gêneros ou mesmo de espécies. As glaciações, que assinalaram diferentes épocas geológicas, tiveram importante papel na distribuição da vida na Terra e os estudos das flutuações pós-glaciais também pertence ao nível bioclimatológico. De diversas maneiras, fazem-se notar esses efeitos e os da última glaciação (que abrangeu no Pleistoceno, extensa área) são os mais sensíveis. Os principais foram: (1) destruição de alguns gêneros (o Sequóia desapareceu completamente da Europa); (2) restrição (esse mesmo gênero Sequóia, que durante o Plioceno existia em quase toda a América do Norte, acha-se hoje limitado à Califórnia); (3) isolamento de grupos: em algumas áreas, que não foram cobertas pelos gelos, mas apenas cercadas, mantiveram-se determinadas espécies, que passaram a constituir relíquias; esse isolamento foi por vezes muito acentuado (nas ilhas que não foram glaciadas, por exemplo); e (4) endemismo, que constitui o último grau na restrição geográfica das espécies; é nas ilhas e nas altas montanhas que apresenta as mais altas percentagens.

Nível sinecológico: Neste nível são estudadas a composição, estrutura e dinâmica dos ecossistemas (conjuntos dinâmicos formados pelo habitat e as associações de seres que nele vivem). A sinecologia estuda, assim, as comunidades biológicas e não o indivíduo isoladamente. Para melhor compreensão do que significa um habitat, é preciso salientar que dentro de cada biócoro principal (meio geográfico, onde dominam certas formas biológicas adaptadas a um conjunto particular de fatores meteorológicos), podem ser encontrados vários habitats, isto é, locais onde se desenvolvem todas as atividades das espécies. Em cada habitat, por sua vez, podem existir unidades menores, como as sinusias e os biótopos. As primeiras constituem as camadas horizontais, de altura definida, apresentadas pela vegetação num determinado local e que incluem plantas de mesma forma biológica (ex.: sinusia herbácea, arbustiva, arbórea). Os segundos representam unidades ainda menores que, no interior das sinusias, apresentam-se com condições de vida ainda mais particulares. Obedecendo à ordem decrescente de grandeza: biociclos (água salgada, água doce e meio terrestre), biócoros, habitats, sinusias e biótopos. Poucos são os organismos que se acham exclusivamente restritos a um biótopo; alguns limitam-se a uma sinusia ou, mais freqüentemente, a um habitat. Este, geralmente, limita ás espécies, havendo porém algumas que não se restringem nem aos biócoros, ou, nem mesmo, aos biociclos. O capim gordura (Melinis minutiflora), por exemplo, pode ser encontrado em mais de um biócoro, enquanto que o salmão (Salmo salar) vive tanto na água doce quanto na salgada. Quanto mais limitado, porém, o organismo, tanto melhor indicador será das condições do habitat.

No estudo dos biociclos, é a parte referente ao meio terrestre a que mais interessa ao geógrafo. Para a distinção dos diversos habitats, toma-se como base o fator umidade; o grau de saturação do solo pela água é principal critério para a diferenciação dentro do biociclo. Brejos e desertos constituem os dois extremos, intercalados por numerosos habitats: a mesofilia (eqüidistância entre as condições úmidas e secas), a higrofilia (preferência pela umidade excessiva) e a xerofilia (tolerância à seca). São exemplos de habitats higrófilos as florestas-galeria (nas áreas de campo), as matasciliares (onde o clímax é a mata), as turfeiras e os brejos. A maioria das florestas é mesófìla, embora haja também tipos de habitats herbáceos que são mesófilos (pradarias, p. ex.). Aliás, o clímax de uma região geográfica é sempre o tipo de vegetação mais mesófilo possível dentro dos limites do biócoro. São exemplos de habitats xerófilos as dunas, as praias e as paredes rochosas, habitats esses que podem ser encontrados em qualquer biócoro e não somente nas áreas desérticas: numa duna, em um litoral sujeito a um clima úmido, podem ser encontradas plantas semelhantes às dos desertos, constituindo as espécies suculentas um bom exemplo.

Ainda como fator ligado à vegetação encontrasse o solo, o que explica a importância da pedologia para o nível em estudo; se, por um lado, o solo resulta da ação do clima sobre a rocha matriz, por outro é conseqüência da proteção e do enriquecimento trazidos pela vegetação. Alguns tipos de solo (podzol, tchernoziom etc.) têm perfis característicos e acham-se ligados a tipos de vegetação-solo manifestos, indicando influências recíprocas.

Desde que se forme um novo solo e surja a possibilidade de colonização pela vegetação, verifica-se uma ecese (ocupação sucessiva do solo por diferentes plantas), sempre iniciada por elementos muito tolerantes c pouco exigentes. À medida que estes vão contribuindo para a melhoria do solo, outras plantas podem estabelecer-se nele. Aos poucos, instala-se uma competição, tanto entre indivíduos da mesma espécie, quanto entre os de diferentes espécies; é, precisamente, este último tipo de competição que constitui a base da própria sucessão. À proporção que esta se processa, evoluem as condições do solo, multiplicam-se os indivíduos, as espécies tornam-se mais numerosas, diversificam-se as sinusias, até que seja atingido o equilíbrio entre a dinâmica do solo, a vegetação e o clima, equilíbrio esse que representa o clímax. Cada estádio que lhe é imediatamente anterior é um subclímax (ou anteclímax) e um estádio ainda mais anterior, pioneiro. O clímax coincide, geograficamente, com o clima e, nas margens de sua área (zonas de contato com outro clímax), poderá encerrar ilhas desse outro clímax vizinho (caso este o tenha precedido). Chama-se a essa persistência de pré-clímax, se o clima anterior foi mais seco e quente, e pós-clímax, se foi mais úmido e frio. Esta persistência pode ser também originada por um microclima, por acidentes geográficos insuperáveis, pela ação do homem - sendo, então, designada disclímax. Por sua reiterada atuação, pode o homem interromper uma sucessão, fazendo com que persista o disclímax, como ocorre no vale do Paraíba (Brasil, São Paulo, Rio de Janeiro).

Além da dinâmica da vegetação, sua composição e estrutura também tem que ser estudadas, embora pelo aspecto quantitativo pertençam mais ao campo da biologia (sociologia vegetal) do que ao da geografia. Enquanto o dinamismo é indicado pelo lugar ocupado pela associação na sucessão (se é subclímax, clímax etc), a estrutura resulta da forma biológica dos indivíduos. Cada formação tem estrutura própria. Para sua compreensão, além da forma biológica, são consideradas a estratificação e a cobertura. A composição é o conjunto das espécies presentes, cada uma com papel ou valor de índice próprio. Da análise dos resultados dos levantamentos obtém-se dados sobre a abundância, sociabilizada, freqüência, presença, constância e fidelidade dos diferentes componentes de uma associação.

Nos estudos de sociologia vegetal, é necessário que as áreas escolhidas para amostra sejam bem homogêneas quanto aos seus fatores físicos.

Nível auto-ecológico: O objetivo desse nível é o estudo do ser vivo individualizado, nos vários aspectos de seu ciclo vital e em relação ao meio. Todo ser vivo manifesta urna série de exigências e de tolerâncias. Na tolerância, há a considerar também a duração e a variação do fator. Exigências e tolerâncias são fatores complementares e contrários, resultando do balanço entre ambos a melhor ou pior adaptação. Os elementos que possuem poucas exigências e muita tolerância podem aproveitar melhor os recursos do meio. Para sobreviver, os organismos têm, pois, de adaptar-se não só aos fatores cósmicos (número de horas de insolação) e climáticos (regime térmico), como também aos de seu habitat, manifestando, assim, mais diretamente, sua capacidade de reação e de aproveitamento dos recursos. Os fatores limitativos impostos pelo habitat podem ser: (1) químicos - quantidade de oxigênio, teor de cálcio e silício no solo, quantidade de sal, condições de pH etc; (2) físicos-luz (pela influência sobre a fotossíntese e reprodução, a forma, a germinação e o fototropismo), calor (tanto pelo excesso como pela deficiência; o frio p. ex., exerce grande influência sobre os seres vivos), a umidade, a pressão (esta mais sobre os animais, pela influência direta sobre a pressão do sangue); (3) biológicos - (a) vigor (plantas e animais mais vigorosos transformam, rapidamente, em seu proveito, as possibilidades oferecidas pelo meio); (b) vitalidade (capacidade de um organismo em cumprir todas as fases de seu ciclo; a esta se liga a noção de longevidade); (c) fecundidade; (d) dispersão (pelo vento, água ou animais, especialmente aves); (e) vagilidade (capacidade de locomoção própria de cada organismo).

Da participação dos diversos organismos nos elementos nutritivos do meio ou em todos os recursos do ambiente resultam as relações biocenóticas, que são as seguintes: (1) parasitismo (um dos dois organismos precisa do outro para subsistir); (2) saprofitismo (sobrevivência sobre matéria orgânica em decomposição); (3) epifitismo (as plantas aproveitam-se de outras apenas como suporte, sem utilizar-lhes a seiva); (4) simbiose (associação de duas ou mais espécies com benefício para todas); (5) comensalismo (para que possam conviver no mesmo habitat, as diferentes espécies têm que possuir exigências muito vizinhas, porém, complementares); (6) fitofagia (consumação de plantas pelos animais; alguns manifestam preferências específicas); (7) predação (há animais que se alimentam de outros).

Nos estudos da auta-ecologia, podem ser utilizados dois métodos: observação direta (o ser vivo no seu meio natural) e experimentação (controle em laboratório dos fatores que afetam o comportamento dos indivíduos).

Nível industrial: Utiliza Dansereau para esse nível o termo 'indústria' no mesmo sentido que é usado pelos antropologistas, ou seja, o resultado do impacto de adaptação do homem ao meio. Compreende seis fases sucessivas, de intensidade crescente: coleta, caça e pesca, pastoreio, agricultura, indústria e urbanização. Se da primeira poucas modificações resultam para os elementos do meio, já a partir da Segunda as alterações se fazem sentir (extermínio do bisão em áreas da América do Norte; desaparecimento do salmão c de muitos rios). Pelo pastoreio continuado (a não ser em regiões de pastagens naturais), podem constituir-se áreas de disclímax, como é o caso dos Alpes (na Europa) e do vale do Paraíba (no Brasil); todavia, como a ação do pastoreio acha-se quase sempre acrescida pela das queimadas periódicas, torna-se, muitas vezes, quase impossível determinar o clímax primitivo. Pela agricultura, o homem não só modifica a área mas também introduz nela novas espécies na vegetação (plantas domesticadas p. ex.). O estabelecimento de usinas influi, muita vez, na vegetação, pela fumaça e eliminação de outros vapores ou de poeiras prejudiciais; por outro lado, a indústria madeireira é responsável pelas alterações na composição das florestas. Finalmente, para atender aos imperativos da urbanização, é preciso modificar e, freqüentemente, destruir todo um revestimento vegetal.

Movimentando-se o homem de um ponto para outro da Terra, seu deslocamento é acompanhado por migrações, tanto de plantas como de animais, fazendo com que determinadas espécies venham a ter uma grande disseminação. Por isso, os deslocamentos de populações, as guerras as navegações etc. tiveram grande papel na disseminação de ervas daninhas, de pragas (ratos p. ex.), sem falar do transporte premeditado das plantas cultivadas.
Constitui, pois, objetivo deste nível o estudo da forma pela qual o homem utiliza os recursos do meio, bem como a maneira pela dual transforma a paisagem até o ponto de muitas vezes, estabelecer um novo equilíbrio, diferente do primitivo.

Através desses cinco diferentes níveis, tem-se uma idéia do campo da biogeografia, da variedade de suas pesquisas e dos métodos que emprega. Para atender principalmente aos interesses dos estudiosos divide-se a biogeografia em dois ramos: a fitogeografia, que estuda a distribuição geográfica dos diferentes tipos de vegetação e a zoogeografia, que faz o mesmo em relação às comunidades animais.

Apesar do inegável interesse dos estudos biogeográficos, poucos têm sido os que a eles integralmente se dedicaram. Talvez sua complexidade restrinja um pouco sua difusão, uma vez que se entrelaçam, freqüentemente, com outras ciências. Quase todos os trabalhos abordam determinado setor, em prejuízo dos demais; pela acentuada expressão que imprime à paisagem, é a fitogeografia que reúne as preferências, salientando-se esse fato até mesmo quando se examina a bibliografia que acompanha a maior parte dos trabalhos
publicados.

Fonte: www.grupoescolar.com

Biogeografia

No conjunto das discussões sobre meio ambiente e desenvolvimento, um dos temas que mais despertam interesse é o da conservação da biodiversidade, ou seja, da pluralidade das espécies que vivem num dado ambiente. Esse interesse, até mesmo de origem política, aponta para a importância do estudo da biogeografia, uma disciplina relativamente nova, estreitamente ligada à ecologia.

Compreende-se por biogeografia a ciência que estuda a distribuição dos seres vivos no planeta, suas causas e conseqüências. Disciplina que constitui o elo da ligação entre a geografia física e a humana, a biogeografia envolve o conhecimento tanto da repartição atual das plantas e dos animais pelos variados ambientes em que sobrevivem, como dos fatores que intervêm nesse processo. Na abordagem biogeográfica, não há nada na natureza que exista isoladamente e por isso é indispensável conhecer as causas da associação ou afastamento de determinadas espécies, assim como os diferentes aspectos morfológicos pelos quais estas se apresentam.

Os grandes acontecimentos geológicos, como as glaciações, a separação dos continentes, as transgressões marinhas e formação das montanhas, foram os responsáveis mais significativos pela caracterização da flora e da fauna de cada paisagem natural da Terra e, desse modo, por sua divisão biogeográfica. Em função da presença ou ausência de certos animais (zoogeografia) ou plantas (fitogeografia), os geógrafos dividiram a Terra em diversas regiões biogeográficas. Regiões biogeográficas. A primeira divisão zoogeográfica foi realizada, no século XIX, pelo naturalista britânico Alfred Russell Wallace, que tomou como modelo a distribuição dos mamíferos. Contemporaneamente, diferenciam-se cinco regiões zoogeográficas, que incluem a repartição das aves migratórias e dos cardumes de peixe, obviamente de definição mais difícil: (1) holártica, que contém as sub-regiões paleártica (Europa, norte da África e parte não-tropical da Ásia) e neártica (América do Norte); (2) paleotropical, que compreende as sub-regiões etiópica (restante da África e Arábia) e oriental (parte tropical da Ásia); (3) australiana (que reúne Austrália, Nova Zelândia, Nova Guiné e as ilhas tropicais do Pacífico); (4) neotropical (constituída da América do Sul e América Central); e (5) antártica.

As fronteiras entre essas diferentes regiões não são precisas, de modo que existem zonas de transição em que se podem achar espécies ligadas a duas regiões diferentes. Uma das zonas de transição mais extensas situa-se entre a sub-região oriental e a australiana. Compreende as ilhas Celebes, as Molucas e outros arquipélagos menores. As regiões fitogeográficas são bem mais numerosas do que as zoogeográficas. Existem mais de trinta áreas diferentes. Essa diversidade, por si só, já indica o problema que representa a seleção de critérios para determinar corretamente as divisões. Entre outras coisas, é preciso identificar as espécies que definem os limites de uma região e justificar a escolha do sistema que fundamenta tal distinção. Além disso, existem fatores que condicionam a expansão de algumas espécies. De modo geral, as plantas têm menos condicionamentos físicos para se expandir do que os grandes animais, já que suas sementes podem ser levadas a grandes distâncias pelo vento (dispersão anemocórica), pela água (hidrocórica) ou pelos insetos (entomocórica).
As grandes regiões subdividem-se em sub-regiões e estas em províncias, nas quais se tornam determinantes os fatores locais. Assim, portanto, é comum registrarem-se descontinuidades na distribuição das espécies animais e vegetais por força de condições locais como as climáticas, as geológicas ou as intrínsecas das camadas superficiais do solo. À medida que se sobe uma montanha muito alta, por exemplo, verificam-se mudanças tanto na fauna quanto na flora. É comum, também, que um dos lados da montanha, aquele a que primeiro cheguem as massas de nuvens, registre maior volume de precipitação do que o outro. Um e outro condicionamento suscitam diferenças notáveis nas comunidades de seres vivos assim afetadas.

Região holártica. Também chamada boreal, a região holártica, inclui toda a terra existente ao norte de uma linha que passa pelas zonas desérticas do México, pelo Saara e pela cordilheira do Himalaia. Envolve ainda uma sub-região ártica, situada no extremo norte e nas proximidades do círculo polar ártico. Nesta faixa, a terra encontra-se quase permanentemente coberta de gelo e apenas durante o rápido verão ocorre o crescimento de ervas, musgos, liquens e alguns arbustos que constituem a vegetação característica da tundra. Na parte meridional, não existem árvores de alto porte: apenas bétulas e sabugueiros. Entre seus animais peculiares estão o urso polar, a raposa ártica, o lemingo (Lemmus lemmus), a rena, a lebre ártica, as focas e os leões marinhos. Convivem também ali algumas espécies de aves e insetos. Ao sul da sub-região ártica estende-se um cinturão florestal de coníferas que ocupa a maior extensão da região holártica. Esse tipo de mata denomina-se taiga e é integrado por árvores como o pinheiro, o abeto ou o cedro, bem como por arbustos e liquens. Seus animais adaptam-se à vida arbórea. Observam-se entre os mais característicos o lince, o castor, o arminho, o esquilo, o pica-pau e o bico-cruzado. Alguns dos grandes mamíferos peculiares à paisagem são o cervo canadense e a rena da taiga. No terço meridional da região holártica estendem-se matas caducifólias e, na parte centro-asiática, as estepes. A elevação das temperaturas suscita, no extremo sul, o aparecimento de paisagens como a da floresta mediterrânea européia, composta basicamente de azinheiros, carvalhos e diversos arbustos. Nesses pontos mais meridionais da região holártica, existe um maior número de espécies de anfíbios, répteis e peixes. Alguns dos animais característicos são o camelo, o veado, o urso pardo, a camurça, o texugo, a perdiz e o pintarroxo. Na sub-região neártica, algumas espécies são consideradas oriundas da região neotropical, como o tatu e o gambá.

Na sub-região etiópica distingue-se uma grande variedade de ambientes: bosques úmidos, estepes e savanas, em que se registra a mais elevada densidade populacional de mamíferos em todo o globo. São representativas dessa região espécies como o leão, o rinoceronte, os antílopes, a girafa, o gorila, o chimpanzé, o elefante, a zebra e o hipopótamo.

Região paleotropical. Dentro da região paleotropical, a sub-região oriental apresenta savanas no planalto central da Índia, florestas tropicais de montanha em sua parte sul-ocidental e florestas úmidas na zona limítrofe com o Himalaia. Representam bem essa região o elefante asiático, o tigre, a anta malaia, o rinoceronte asiático, o orangotango, várias espécies de outros macacos e de morcegos. Outro de seus traços peculiares é a grande variedade de répteis. Região australiana. A região australiana, que na verdade deveria denominar-se oceânica, possui uma fauna muito particular, composta de marsupiais e monotremados, grupo a que pertence o conhecido ornitorrinco. Região neotropical. Observa-se na região neotropical grande diversidade de ambientes, desde os picos andinos até as florestas tropicais das planícies e planaltos. São espécies autóctonas o tatu, o porco-espinho, o tamanduá-bandeira, a lhama, a cutia, a chinchila, a sucuri, numerosos macacos e aves.

Região antártica. Por estar a região antártica permanentemente coberta de gelo, torna-se difícil ali o desenvolvimento das condições adequadas à vida. A maior parte dos animais dessa área habita as faixas litorâneas, em que vivem pingüins, albatrozes, focas e alguns insetos. A vegetação é semelhante à da tundra em algumas ilhas subantárticas.

O limite entre a região neotropical e a sub-região neártica encontra-se aproximadamente sobre a latitude do estado mexicano de Sonora. Considera-se que, do ponto de vista evolutivo, a união entre as duas zonas ocorreu em época relativamente recente, motivo pelo qual a primeira desenvolveu uma fauna tão peculiar como a australiana.

A biogeografia e as outras ciências. Fator decisivo para o avanço da biogeografia foi a análise das causas que motivavam a distribuição em regiões. A partir desse momento, a biogeografia converteu-se em ciência interdisciplinar. Uma vez que todos os organismos dispõem de determinados espaços dentro dos quais podem viver, a ecologia, ciência que estuda as características do meio e sua relação com os seres vivos, reúne valiosos dados para esclarecer quais podem ser os fenômenos limitadores que, em certas regiões, impossibilitam a sobrevivência de uma ou mais espécies. Dois dos fatores mais importantes são os de caráter climático e os relacionados com a composição do solo.

Os fatores climáticos, tais como temperatura, umidade, horas de sol, precipitações e ventos, afetam bastante os seres vivos. Alguns deles, como a temperatura, apresentam uma distribuição geográfica que segue certas leis. Em meados do século XIX, Alexander von Humboldt observou que a temperatura aumenta aproximadamente 1o C a cada dois graus de latitude a partir do pólo até o equador, e Frank Michler Chapman descobriu que, inversamente, diminui 1o C a cada 200m de elevação a partir do nível do mar. O conhecimento de regras desse tipo ajuda a predizer que espécies podem ser encontradas em uma determinada região. Por exemplo, Carl Bergmann, naturalista alemão do século XIX, assegurou que, entre espécies afins dos homeotermos (aqueles que mantêm constante sua temperatura corporal), as de maiores dimensões tendem a habitar mais perto do pólo ou em lugares mais altos, já que um animal de maior tamanho dispõe de melhor relação massa/superfície e despende menos energia para manter sua temperatura diante do frio exterior.

Também é fundamental conhecer a composição do solo da região, pois depende dela, em grande parte, o tipo de vegetação que ali se pode desenvolver e, indiretamente, as espécies de animais que a área pode abrigar. Embora os fatores climáticos permitam o crescimento de grandes plantas tropicais, um solo salinizado, ou no qual não proliferem as substâncias nutritivas necessárias a tais espécies, pode levar à desertificação da área.

Biogeografia histórica. Entre outros aspectos, a moderna biogeografia ocupa-se da distribuição dos seres vivos ao longo da história. Relaciona-se assim com a paleontologia, que estuda os seres já desaparecidos mediante seus restos fósseis. Essa aproximação é fruto do interesse por conhecer não apenas a atual distribuição dos seres vivos, mas também a passada, assim como as maneiras pelas quais essa distribuição se modificou.

A moderna teoria da evolução sustenta que todos os seres vivos atuais provêm de antepassados comuns, pelo que se poderia construir uma árvore genealógica em que se incluiriam tanto os seres que habitam o planeta como aqueles que se extinguiram. Com relação a isso, registrou-se desde os começos da difusão da teoria evolucionista uma exaltada polêmica entre os monofiletistas, que crêem em uma origem única da vida, e os polifiletistas, que acham ter a vida surgido em diferentes momentos da história da Terra.

A biogeografia, com a ajuda da paleontologia, desempenhou nesse debate uma função de equilíbrio, mediante a apresentação de dados que identificam, na superfície terrestre, os pontos ou focos iniciais a partir de onde se expandiu uma espécie ou um conjunto de espécies. Assim, por exemplo, costuma-se situar o centro inicial de dispersão dos vertebrados terrestres na região holártica. O maior problema desse método de estudo está na obtenção de todos os dados paleontológicos necessários.

Outro dos problemas abordados pela teoria da evolução, e sobre o qual a biogeografia histórica pode lançar certa luz, é o do insulamento. Segundo alguns biólogos, não pode aparecer uma nova espécie a não ser que, num dado momento, ela fique isolada daquela de que provém. Em conjunção com a geologia, a biogeografia pode estudar as possíveis causas de antigos insulamentos e comprovar se a distribuição de restos fósseis se acha correlacionada com a existência de barreiras como cordilheiras, mares etc. Pode estudar, ainda, as diversas influências que tais barreiras puderam exercer sobre diferentes espécies. Exemplo significativo da utilidade da colaboração entre a geologia e a biogeografia é a explicação da existência de animais da mesma espécie em lugares que atualmente se encontram muito afastados. Para isso, é preciso recorrer à teoria geológica da deriva dos continentes, segundo a qual todas as terras emersas no começo estavam unidas, dando-se posteriormente a separação nos atuais continentes. Assim se explicaria, por exemplo, a existência dos dipnóicos (ordem de peixes arcaicos da qual só algumas espécies sobreviveram) na África do Sul, Austrália e América do Sul, regiões que, nos tempos pré-históricos, se achavam ao sul de um mesmo continente.

Em alguns casos, o homem contribuiu para fazer variar a distribuição de certas espécies. Em migrações, viagens e campanhas militares transportou sementes e animais, o que algumas vezes ocasionou desastres ecológicos, visto que a introdução de uma nova espécie em um ecossistema pode alterá-lo consideravelmente. Do mesmo modo, a prática da agricultura influiu na difusão de algumas espécies cultiváveis e no desaparecimento de outras em vastas regiões, devido à sistemática derrubada de árvores.

O conhecimento da distribuição das espécies de seres vivos, propiciado pela biogeografia, assim como o de suas relações e inter-relações com o meio, proporcionado pela ecologia, tornam-se fundamentais quando se trata de promover a utilização racional dos recursos naturais. Daí por que o desenvolvimento e integração da biogeografia e da ecologia no campo das ciências biológicas constituem fato muito auspicioso para o estudo da natureza.

Os domínios morfoclimáticos brasileiros

As faunas e floras do hemisfério norte acham-se bem catalogadas. Sua evolução e distribuição relacionam-se com os ciclos de glaciação que se desenrolaram durante o pleistoceno. Não se dá o mesmo com os continentes tropicais, cujas floras e faunas estão ainda mal catalogadas e pior ainda mapeadas. Até recentemente não se dispunha de uma teoria adequada a sua interpretação. Procurou-se aplicar aos continentes tropicais, sem muito sucesso, os esquemas adotados para o hemisfério norte.

O conceito de domínios morfoclimáticos, fixado pelo geógrafo brasileiro Aziz Nacib Ab'Saber, e a utilização de dados modernos sobre ciclos climáticos do passado geológico recente, abriram novas possibilidades para a abordagem biogeográfica dessas regiões. Os componentes básicos da teoria são os seguintes: (1) cada domínio morfoclimático corresponde a uma ampla área nuclear, poligonal, onde se sobrepõem padrões característicos de clima, topografia e vegetação; (2) as faixas que separam essas áreas nucleares podem ser amplas e podem contar com vegetação de tipo intermediário ou com mosaicos da vegetação característica dos domínios vizinhos; (3) dentro de cada área nuclear pode haver enclaves (intromissões) de vegetação característica de outros domínios. O último item é corolário de um fato importante, evidenciado pela moderna geomorfologia tropical: as áreas nucleares dos domínios sofreram oscilações muito rápidas e extensas, determinadas por ciclos climáticos durante os quais se alternam fases mais úmidas e fases mais secas. Tais ciclos são de milhares ou dezenas de milhares de anos, e não de milhões, como se pensava. Por isso se tem hoje por certo que, há pouco tempo e por mais de uma vez, as florestas da América do Sul e da África tenham sido submetidas a retrações enormes, reduzindo-se a alguns refúgios isolados, cercados de formações abertas. Considera-se provável que, durante algumas das fases em que as florestas voltaram a se expandir, elas tenham alcançado desenvolvimento maior que o de hoje, e que regiões florestais atualmente separadas por formações abertas tenham estado em contato direto em passado não remoto.

Até agora, o conceito de domínios morfoclimáticos só foi aplicado ao Brasil, ainda não se estendendo ao restante da América do Sul. Como o Brasil compreende, porém, alguns domínios muito grandes, favorece a exemplificação das normas básicas da teoria, assim como de padrões de distribuição e do tipo de problemática com que hoje se defronta a biogeografia das regiões tropicais. Os domínios morfoclimáticos brasileiros são seis, designados pelas formações vegetais que os caracterizam. Três deles contêm florestas: a hiléia amazônica, a floresta atlântica e a floresta de araucária. Os três outros são de formações abertas: os cerrados, as caatingas e os campos do sul. A flora de cada uma dessas regiões é inteiramente peculiar. No caso da fauna, contudo, a catalogação, o mapeamento e a informação ecológica ainda são incompletos, mesmo no caso de classes mais conhecidas, como as das aves e dos mamíferos.

A utilização de uma espécie animal em estudos de biogeografia depende de sua fidelidade a determinado tipo de ambiente. Certas espécies são dotadas de grande versatilidade ecológica e podem sobreviver em ambientes muito diversos, de modo que não exprimem as limitações ecológicas de cada domínio. Entre os mamíferos, por exemplo, a suçuarana, puma ou onça-parda (Felis concolor), é encontrada em todos os tipos de ambiente da América, dos quase desertos até as florestas densas, das montanhas Rochosas do Canadá até a Patagônia. Outros mamíferos de bastante versatilidade, embora não tanta, são a onça-pintada (Leo onca), a anta (Tapirus terrestris) e o veado-catingueiro (Mazama simplicicornis).

A maioria das espécies, porém, compreende animais totalmente vinculados a determinado tipo de ambiente, e é por esse princípio que se orienta a zoogeografia ecológica. As diferenças faunísticas entre as formações abertas e fechadas são expressivas. Ilustra bem a flexibilidade com que os domínios morfoclimáticos se relacionam a separação, no Brasil, entre a hiléia e a mata atlântica, marcada por ampla faixa de formações abertas. Pode-se comprovar que tal situação antecede a colonização européia. As espécies em comum existentes num e noutro habitat, no entanto, indicam que no passado teria havido continuidade entre as duas florestas, ou teriam existido, nas formações abertas intervenientes, florestas ciliares (matas de galeria) suficientemente extensas para permitir a permuta faunística.

Tão notáveis, porém, quanto as semelhanças entre as duas florestas são as suas diferenças, em que as peculiaridades amazônicas sobressaem mais do que as atlânticas. Nas relações entre o cerrado e a caatinga, realidades que possuem extenso contato uma com a outra, a similaridade pesa bem mais que os traços particulares, às vezes sutis, mas inegáveis. Dos mais curiosos é o fenômeno dos enclaves, como é o caso dos brejos, pequenas áreas de mata no interior da caatinga, e das zonas de cerrado dentro da hiléia ou dentro de mata atlântica. Por sua pequena extensão, esses enclaves não abrigam conjuntos faunísticos como os das áreas nucleares de cada domínio. Quase sempre, porém, neles se encontram populações isoladas de espécies características das áreas nucleares, como a cascavel, por exemplo, presentes nos enclaves de cerrados amazônicos, mas incapaz de penetrar em nenhuma faixa da mata.

Fonte: www.webvestibular.com.br

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