Anita Malfatti nasceu em São Paulo no final do século XIX, mais precisamente no dia 2 de dezembro do ano de 1889. A república ainda estava no berço e Papai Noel preparava sua viagem de trenó, vindo do Pólo Norte. A menina viveu sem grandes problemas financeiros até o final da adolescência, quando morreu o seu pai italiano. A mãe, americana, mulher culta e dedicada a pintura, foi responsável pela sua educação e passou a trabalhar nessa ocasião. Anita começou a dar aulas para ajudar no orçamento. Apesar dessas ligeiras dificuldades, conseguiu ir para a Alemanha estudar arte, presente de um tio e do seu padrinho. Teve contato com grandes nomes da pintura e depois seguiu para os Estados Unidos. Fazia sucesso e era reconhecida no exterior quando resolveu voltar para o Brasil. Fez uma primeira exposição e já era bastante conhecida quando preparou a segunda, em 1917, que a tornou imediatamente famosa. Mas não foi da maneira como desejava.


Paisagens com grande força envolvente - Anita Malfatti
A exposição de 1917 recebeu uma crítica violenta de Monteiro Lobato, nome extremamente prestigiado já naquela época. Monteiro Lobato goza da fama de homem amoroso, contador de histórias e criador de muitos personagens infantis como o Visconde da Sabugosa, Emília, Dona Benta e toda aquela galera que faz do Sítio do Pica-Pau Amarelo uma delícia para adultos e crianças. É merecedor dessa fama, mas foi também um crítico violento, destemperado e um cronista mordaz, com fortes preconceitos. Lobato nem sequer foi a exposição de Anita, mas disparou contra o modernismo e descarregou em cima da 3 toda a violência de suas palavras. Durante o seu período no exterior, ela havia quebrado as amarras com as normas vigentes da pintura clássica e abandonado os cânones tradicionais, pintando com liberdade de pensamento e sentimento. Na exposição de 1917, Anita mostrou toda a influencia do cubismo e da modernidade trazida da Europa e Estados Unidos. Foi disso que Lobato não gostou.

O Homem Amarelo e um retrato de Mário de Andrade - competência
com os pinceis
A crítica de Monteiro Lobato foi uma coisa pessoal do autor contra o grupo modernista e Anita foi usada nesse processo. O artigo foi preconceituoso, irracional e irresponsável, mas o prestígio do escritor era muito grande e Anita saiu machucada e seriamente ferida do episódio. Afastou-se da arte por um tempo e só aos poucos voltou a estudar a pintura clássica. Uma viagem a Paris ajudou-a a recuperar-se e acabou participando da Semana de Arte Moderna de 1922. Apesar dessa recuperação aparente, a crítica de Lobato foi extremamente destruidora para Anita e a colocou em profunda depressão, acentuando uma insegurança que lhe acompanharia por toda a vida. Reprovável o que fez o escritor possivelmente em busca de público e a procura de uma polêmica que chamasse a atenção dos leitores.
Esse tipo de comportamento não é absolutamente raro e temos visto críticos e curadores dispostos a destruir uma carreira arrasando um 3 iniciante com sutileza de uma motoniveladora. Talvez sintam necessidade de mostrar o poder de suas palavras ou a força de sua opinião. Vaidade? Arrogância? Idiotice? Seja o que for, esse tipo de crítica violenta e radical pode ser extremamente prejudicial sem contribuir com nada. Trata-se então de ser bonzinho e aceitar qualquer coisa? Claro que não, mas nenhum de nós é dono da verdade e temos o direito de concordar ou discordar, mas nunca de classificar um 3 como "paranóico" ou como "furúnculo da cultura" e seu trabalho como "produto do cansaço e da decadência". Era a luta de um peso pesado contra uma jovem insegura e inexperiente. O efeito foi arrasador.

Paisagens - cenários que parecem conter o observador
Como o mundo dá muitas voltas e gira mais rápido do que se pensa, Anita rapidamente tornou-se uma das mais importantes 3s do cenário brasileiro e a semana de 22 transformou-se em um marco da história da arte em nosso país. Em contrapartida, as palavras de Lobato soam hoje como despropositais e ingênuas. Aqueles que ele chamou de idiotas acabaram atravessando o tempo de forma vitoriosa; todos aqueles conceitos inovadores dos quais Lobato não gostava, ocuparam o seu lugar na arte brasileira. Pertence àquele tempo o que ainda hoje é o mais valioso quadro brasileiro, o Abaporu, arrematado por um milhão e meio de dólares em 1996. O quadro, de Tarsila do Amaral, deu início ao movimento antropofágico e tinha, na intenção do trabalho, exatamente o que mostrava Anita Malfatti, o desejo de questionar a arte tradicional, as cores e proporções instituídas, os cânones estabelecidos.


Abaporu, de Tarsila do Amaral e o retrato de Tarsila feito por Anita -
US$ 1.500.000,00