Já pelas selvas, ao raiar da aurora,
Caçando, as tenras aves não persigo;
Tudo me anseia, me enfastia agora,
Nem sofro os que por dó vêm ter comigo:
Figura-me a saudade a toda a hora
Ternas delícias, que logrei contigo.
Ah! Quão depressa, gostos meus, fugistes!
Ajuda, triste lira, os versos tristes.
Como as formigas pelo chão, no Estio,
Ou como as folhas pelo chão, de Inverno,
No aflito coração, que em ais te envio,
Jazem penas cruéis, quais as do Inferno:
Ora me sinto arder, outr'hora esfrio,
Desfaz-me em ânsias um veneno interno:
Talvez meus pés, oh víboras, feristes!
Ajuda, triste lira, os versos tristes.
Nos troncos, e nos mármores gravemos
Memórias de Filena idolatrada,
Tão digna de suspiros, e de extremos,
De tantos corações tão cobiçada:
Amor! Amor! Seu nome eternizemos...
Ai, que me falta a voz! Socorro, amada;
Conforta-me dos Céus, aonde assistes!
Não mais, á triste lira, ó versos tristes."
QUEIXUMES DO PASTOR ELMANO
CONTRA A FALSIDADE DA PASTORA
URSELINA
Metido tenho a mão na consciência.
E não falo senão verdades puras.
Que me ensinou a viva experiência.
Camões, Soneto LXXXVII
Seu manto desdobrava a noite escura,
E a rã no charco, o lobo na espessura
Vociferando, os ares atroavam;
Do trabalho diurno já cessavam
Os rudes, vigorosos camponeses:
O vaqueiro, cantando atrás das teses,
Após as cabras o pastor cantando,
Iam para as malhadas caminhando;
Tudo jazia em paz, menos o triste,
O desgraçado Elmano, a quem feriste,
Ó pernicioso Amor, cruel deidade,
Flagelo da infeliz humanidade:
Tudo enfim descansava, excepto Elmano,
Que a mão do Fado, universal tirano,
Sentia sobre si descarregada;
Que, longe da paterna choça amada,
Dependente vivia em lar, estranho
Sendo os desgostos seus o seu rebanho.
Honrados maiorais o ser lhe deram
Lá junto ao Sado ameno, e lhe fizeram
Das artes cortesãs prezar o estudo:
As Musas o encantaram mais que tudo,
Ateando-lhe n'alma o fogo santo,
Que estúpidos mortais desdenham tanto.
Inflamado com ele, ao som da lira
Quebrava dos tufões a força, a ira,
E o venerando Tejo sossegado,
A cuja fresca praia o trouxe o Fado,
Mil vezes, para ouvir-lhe as ternas mágoas,
A limosa cabeça ergueu das águas.
Cego, convulso, pálido, e sem tino
Entrava na cabana de Francino
O desditoso Elmano. Entre os pastores
Geral estimação, gerais louvores
Francino com justiça desfrutava:
Alto saber o espírito lhe ornava,
Na vasta capital fora criado,
E por expertos mestres cultivado.
Doce nó de amizade os dois unia,
Concorrendo a razão, e a simpatia
Para tão bela, e plácida aliança.
Notando, pois, a fúnebre mudança,
Que no aspecto do amigo aparecia,
Assim Francino a causa lhe inquiria:
FRANCINO
Que tens, Elmano? Que fatal desgosto
Banha de tristes lágrimas teu rosto?
Tu, que ainda há brevíssimos instantes,
Te aclamavas feliz entre os amantes,
Logrando mil carinhos, mil favores
De Urselina gentil, dos teus amores,
Vens tão choroso, tão aflito agora!
Ah! Conta-me a paixão que te devora,
Das ânsias tuas o motivo explica:
Comunicado o mal, mais brando fica.
ELMANO
Ai de mim! Venho louco, estou perdido.
Oh peito ingrato! Coração fingido!
Oh desumana, oh bárbara pastora!
Fementida mulher enganadora!...
E tiveste valor para a mais feia
Traição, que pode conceber a ideia?
É possível! É certo! Oh céus! Socorro!...
Eu pasmo, eu desespero, eu ardo, eu morro.
FRANCINO
Amigo, torna em ti, recobra alento,
Declara-me o teu íntimo tormento.
Do cego frenesi, que te domina,
Quem é causa, pastor? É Urselina?
ELMANO
Quem, senão ela (oh céus!) me obrigaria
A tão pasmoso extremo? A Sorte impia
Com todo o seu poder nunca tem feito
Desmaiar a constância de meu peito;
Quem me abate é Amor, não o Destino.
Eu te conto o meu mal, eu vou, Francino,
Retratar-te a mais negra, a mais horrível
De todas as traições. Não é possível
Nos ermos encontrar da Líbia ardente
Monstro, seja leão, seja serpente,
Que possa comparar-se à fera humana,
Que com tanto rigor me desengana.
Quantas vezes notaste, honrado amigo,
Finezas, que a traidora obrou comigo!
Quantas vezes daqui presenciaste
Seus gestos, seus afagos, e julgaste,
Que o mais ardente amor, a fé mais pura
Pagavam minha cândida ternura!
Ouve, e conhecerás (ai de mim triste!)
Que foi sonho, ilusão tudo o que viste.
Já sabes, que no dia em que ligado
A Márcio Jónio foi pelo sagrado,
Indissolúvel nó, cantei louvores
A tão ditosos, tão fiéis amores,
E o número aumentei dos convidados;
Já sabes as meiguices, e os agrados,
Com que a minha infiel me fez ditoso;
Ali traçando um baile harmonioso,
Por parceiro me quis; ali sentada
Junto a mim, vezes mil a refalsada
Protestou, que em sua alma eu só vivia,
Que eu era dos seus olhos a alegria,
Dando-me a bela mão furtivamente,
Que, ardendo de paixão, beijei contente.
Pediu-me a desleal, que ali tornasse,
Que tão doce prazer lhe não roubasse:
Guiado por Amor, fui inda agora
Seu desejo cumprir, que antes não fora,
Porque não sentiria este martírio,
Este ardor, esta raiva, este delírio.
Jónio, que estava à porta da cabana,
Me veio receber.., ah! Quanto engana
Uma aparencia alegre, e carinhosa!
Entrei, pus logo os olhos n'aleivosa,
Que, em vez de me tratar com meigo agrado,
Tinha nas faces o desdém pintado.
Pasmado da mudança repentina,
Lhe disse: "Amado bem, cara Urselina,
Tu comigo tão áspera? Eu ignoro
Em que pude agravar quem tanto adoro."
Isto dizendo, avizinhei-me a ela,
Que estava ao pé da rústica janela,
E da terna pergunta não fez caso,
Nem o rosto voltou, e olhando acaso
A próxima cabana de Nigela,
Vi encostado Inálio à porta dela
Olhar para Urselina, adeus dizer-lhe,
E sem pejo a cruel corresponder-lhe
Cum doce riso, um gesto namorado,
De amantes expressões acompanhado.
Fervendo no peito o amor, e a ira,
Logo, logo em pedaços fiz a lira,
E em mil imprecaçôes, em mil queixumes
O furor exalei dos meus ciúmes,
Ameaçando a infiel, que eu me vingava
No odioso rival, que me afrontava,
Se uma satisfação, que Inálio visse,
Logo o meu pundonor não ressarcisse.
Prometeu-me que sim, mas de repente
A meus olhos se esconde, e vai contente
O lerdo, o baixo amante encher de glória,
Que não cabia em si pela vitória,
Que a pior das traições lhe tinha dado.
Fiquei louco, fiquei desesperado,
Contemplando este assombro nunca visto
Nem na imaginação. Não pára nisto
Daquela ingrata a pérfida baixeza:
De novas fúrias cruelmente acesa,
Procura Aónio, inerte pegureiro,
Que é o riso da gente no terreiro
Quando sai a bailar, e a cada passo
Se esquece da harmonia, e do compasso,
Sendo falto de prendas, e de siso
Como o louco Magálio, o rude Anfriso.
Urselina lhe diz, que me incitasse,
A que a choça de Jónio abandonasse,
Persuadindo-me, enfim, que não devia
Presenciar a afronta, que sofria.
Acreditei o indigno conselheiro
E saí da cabana, onde primeiro
Tinha logrado os mimos da perjura,
Que assim desenganou minha ternura.
Ah génio desleal, falaz perverso!
Ai! Não me alucinava o meu ciúme,
Era mais do que justo o meu queixume,
Quando (triste de mim!) quando julgava
Que Inálio, inda que simples, te agradava!
Acusei-te mil vezes de fingida,
De que a ele querias ver-te unida
Em laços de Himeneu; mas tu negaste
Sempre o que hoje sem pejo declaraste.
Traidora! Eu não dizia, eu não jurava,
Que o meu sossego ao teu sacrificava!
Ah! Porque me não deste o desengano,
Que eu te pedia, coração tirano?
Se Inálio, porque tem campos, e gados,
Numerosos casais, amplos montados,
Atrai esse teu génio interesseiro'
E eu, posto que leal, que verdadeiro,
De clara geração, de sangue honrado,
Caducos, frágeis bens não devo ao fado,
E por isso não posso no teu peito
Produzir da ternura o doce efeito;
Que razão te obrigou a acarinhar-me,
E de um fingido amor capacitar-me?
Coração em perfídias atolado,
Impia, se o não tivesse inda criado
A vingadora mão de Jove eterno,
Devia para ti criar o Inferno!
FRANCINO
Consola-te, pastor; essa perjura
Não deve motivar tua amargura;
Castiga-lhe a traição, e o fingimento
Lançando-a num profundo esquecimento.
Que mais satisfação, que mais vingança
Queres da vil, da súbita mudança,
Que ver exposta a pérfida pastora
Ao ludíbrio geral? Uma traidora,
Uma fera, uma ingrata, inda que bela,
Não merece a paixão, que tens por ela.
Pondera, que não foste injuriado
De seu duro desprezo inesperado;
Que o feminil capricho extravagante
Não te deslustra o mérito brilhante.
Nenhum, nenhum pastor n'aldeia ignora,
Que essa, que te deixou, foi até'gora
Carinhosa contigo, e fez patente
Sua correspondência a toda a gente:
Demonstrações em público te dava
De amorosa paixão, mas não te amava:
Baixo costume, natural fraqueza
É que a fez parecer de amor acesa;
Aquela alma não arde, não se inflama,
A todos corresponde, a ninguém ama.
Bem se viu com Bersálio, e com Laurénio
Seu inconstante, seu volúvel génio:
Té no mais desprezível dos pastores
-
É capaz de empregar seus vis amores:
Nunca soube escolher, tudo lhe agrada,
E inda que astutamente infatuada
Faça crer aos amantes o contrário,
É sabido seu carácter vário.
Isto em teu coração gravado fique,
E não queiras, pastor, maior despique:
Se até'gora calei quanto te digo,
Foi por não te afligir, prezado amigo.
Pouco importa perder quem nada vale.
Contente-te, que toda a aldeia fale
Contra a sua imprudente aleivosia;
Que, se pensasse bem no que fazia,
Jamais o falso monstro, que te deixa,
Fechara a tudo os olhos como fecha.
Deveria lembrar-se a fementida
De que a sua afeição foi conhecida,
De que inda em tuas mãos tens os penhores
De seus furtivos, tácitos favores,
Para não te obrigar com tal injúria
A que dos zelos a violenta fúria
Despedaçasse um véu misterioso,
Um véu tão necessário como honroso.
Mas verás se mais hora menos hora
Não é punida a infiel pastora:
Douradas esperanças lisonjeiras
Nutrem-lhe ideias vãs, e interesseiras;
Mas Inálio é como ela ambicioso,
E só deseja um himeneu lucroso,
Que lhe farte a cobiça, os bens lhe aumente:
Ele próprio mo disse, ele não mente,
Que a sua natural simplicidade
Não pode mascarar a sã verdade.
Eia, pois, cesse o pranto, enxuga o rosto,
Adora a Providência em teu desgosto;
Não delires, pastor, não desesperes,
Que és feliz em saber quem são mulheres.
ELMANO
Sim, meu amado, meu leal Francino,
Eu dou mil graças ao poder divino
Por me livrar do engano em que vivia:
Eu lutarei coa terna simpatia,
Que me fez adorar uma inconstante,
Aos falsos crocodilos semelhante.
Embora logre Inálio os seus agrados
Fingidos, mentirosos, estudados.
O sórdido interesse é quem a inspira:
Se da fortuna o meu rival sentira
A triste, perniciosa variedade;
Se a violência de horrível tempestade
Lhe derribasse as férteis oliveiras,
Se o fogo lhe engolisse as sementeiras,
Se a cheia lhe afogasse os nédios gados,
Verias os desdéns, e em desagrados
Mudar-se logo o amor, que finge a astuta,
Que de negra cobiça a voz escuta:
Tu a verias outra vez comigo
As chamas assoprar do afecto antigo,
Mendigando razões para aplacar-me,
Para me convencer, para enganar-me.
Mas ah paixão! Teu ímpeto reprime,
E busque-se vingança igual ao crime.
Ritália bela, encanto dos pastores,
Merece meus suspiros, meus amores:
Com ela fui mil vezes desatento,
Negando-lhe o devido acatamento
Por cumprir o preceito rigoroso
De Urselina infiel, que no enganoso,
No detestável peito encerra, e nutre
Da venenosa inveja o feio abutre,
Porque a meiga Ritália é mais do que ela
Branda, risonha, delicada, e bela,
Quanto é mais agradável, mais formosa
Que as outras flores a punícea rosa.
Ritália desde agora o lindo objecto
Será do meu fiel, constante afecto:
Arrebatado em êxtases de gosto,
Louvores de seus olhos, de seu rosto
Farei voar nas asas da ternura,
E assim me vingarei duma perjura.
Ela, por timbre meu, o escute, o saiba,
E o coração no peito lhe não caiba
De inveja, de furor: eu, entretanto,
Troque em plácido riso o triste pranto,
E a fria indif'rença, com que intento
Recompensar-lhe o torpe fingimento,
Até tão alto grau nesta alma cresça
Que eu veja a desleal, e a não conheça.
CANTATA
À MORTE DE INÊS DE CASTRO
As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo, chorando, memoraram.
Camões, Lusíadas
Longe do caro esposo Inês formosa
Na margem do Mondego
As amorosas faces aljofrava
De mavioso pranto.
Os melindrosos, cândidos penhores
Do tálamo furtivo
Os filhinhos gentis, imagens dela,
No regaço da mãe serenos gozam
O sono da inocência.
Coro subtil de alígeros Favónios
Que os ares embrandece,
Ora enlevado afaga
Com as plumas azuis o par mimoso,
Ora solto, inquieto
Em leda travessura, em doce brinco,
Pela amante saudosa,
Pelos tenros meninos se reparte,
E com ténue murmúrio vai prender-se
Das áureas tranças nos anéis brilhantes.
Primavera louçã, quadra macia
Da ternura, e das flores,
Que à bela Natureza o seio esmaltas,
Que no prazer de Amor ao mundo apuras
Prazer da existência,
Tu de Inês lacrimosa
As mágoas não distrais com teus encantos.
Debalde o rouxinol, cantor de amores,
Nos versos naturais os sons varia;
O límpido Mondego em vão serpeia
Cum benigno sussurro, entre boninas
De lustroso matiz, alvo perfume;
Em vão se doura o Sol de luz mais viva,
Os céus de mais pureza em vão se adornam
Por divertir-te, oh Castro!
Objectos de alegria Amor enjoam
Se Amor é desgraçado.
A meiga voz dos Zéfiros, do rio,
Não te convida o sono:
Só de já fatigada
Na luta de amargosos pensamentos
Cerras, mísera, os olhos;
Mas não há para ti, para os amantes
Sono plácido, e mudo:
Não dorme a fantasia, Amor não dorme:
Ou gratas ilusões, ou negros sonhos
Assomando na ideia espertam, rompem
O silêncio da morte.
Ah! Que fausta visão de Inês se apossa!
Que cena, que espectáculo assombroso
A paixão lhe afigura aos olhos d'alma!
Em marmóreo salão de altas colunas,
A sólio majestoso, e rutilante
Junto ao régio amador se crê subida:
Graças de neve a púrpura lhe envolve,
Pende augusto dossel do tecto de ouro;
Rico diadema de radioso esmalte
Lhe cobre as tranças, mais formosas que ele;
Nos luzentes degraus do trono excelso
Pomposos cortesãos o orgulho acurvam;
A lisonja sagaz lhe adoça os lábios,
O monstro da política se aterra,
E se Inês perseguia, Inês adora.
Ela escuta os extremos,
Os vivas populares; vê o amante
Nos olhos estudar-lhe as leis que dita;
O prazer a transporta, amor a encanta:
Prémios, dádivas mil ao justo, ao sábio
Magnânima confere,
Rainha esquece o que sofreu vassala:
De sublimes acções orna a grandeza,
Felicita os mortais, do ceptro é digna,
Impera em corações... Mas, céus!... Que estrondo
O sonho encantador lhe desvanece!
Inês sobressaltada
Desperta e de repente aos olhos turvos
Da vistosa ilusão lhe foge o quadro.
Ministros do Furor, três vis algozes,
De buídos punhais a dextra armada,
Contra a bela infeliz bramindo avançam.
Ela grita, ela treme, ela descora,
Os frutos da ternura ao seio aperta,
Invocando a piedade, os Céus, o amante;
Mas de mármore aos ais, de bronze ao pranto,
À suave atracção da formosura,
Vós, brutos assassinos,
No peito lhe enterrais os ímpios ferros.
Cai nas sombras da morte
A vítima de Amor lavada em sangue:
As rosas, os jasmins da face amena
Para sempre desbotam;
Dos olhos se lhe some o doce lume,
E no fatal momento
Balbucia arquejando: - "Esposo! Esposo'
Os tristes inocentes
À triste mãe se abraçam,
E soltam de agonia inútil choro.
Ao suspiro exalado,
Final suspiro da formosa extinta,
Os Amores acodem.
Mostra a prole de Inês, e tua, ó Vénus,
Igual consternação, e igual beleza:
Uns dos outros os cândidos meninos
Só nas asas diferem
(Que jazem pelo campo em mil pedaços
Carcases de marfim, virotes de ouro)
Súbito voam dois do coro alado;
Este, raivoso, a demandar vingança
No tribunal de Jove,
Aquele a conduzir o infausto anúncio
Ao descuidado amante.
Nas cem tubas da Fama o grão desastre Irá pelo universo:
Hão-de chorar-te, Inês, na Hircânia os tigres,
No torrado sertão da Líbia fera
As serpes, os leões hão-de chorar-te.
Do Mondego, que atónito recua,
Do sentido Mondego as alvas filhas
Em tropel doloroso
Das urnas de cristal eis vêm surgindo;
Eis, atentas no horror do caso infando,
Terríveis maldições dos lábios vibram
Aos monstros infernais, que vão fugindo.
Já c'roam de cipreste a malfadada,
E, arrepelando as nítidas madeixas,
Lhe urdem saudosas, lúgubres endeichas.
Tu, Eco, as decoraste;
E cortadas dos ais, assim ressoam
Nos côncavos penedos, que magoam:
"Toldam-se os ares,
Murcham-se as flores;
Morrei, Amores,
Que Inês morreu.
Mísero esposo,
Desata o pranto,
Que o teu encanto
Já não é teu.
Sua alma pura
Nos Céus se encerra;
Triste da Terra,
Porque a perdeu.
Contra a cruenta
Raiva ferina
Face divina
Não lhe valeu.
Tem roto o seio,
Tesouro oculto,
Bárbaro insulto
Se lhe atreveu.
De dor e espanto
No carro de ouro
O númen louro
Desfaleceu.
Aves sinistras
Aqui piaram,
Lobos uivaram,
O chão tremeu.
Toldam-se os ares,
Murcham-se as flores;
Morrei, Amores,
Que Inês morreu.
Toldam-se os ares,
Murcham-se as flores;
Morrei, Amores,
Que Inês morreu."
EPÍSTOLA
PENA DE TALIÂO
(Ao padre José Agostinho de Macedo)
Tu nihil invita dices, faciesve Minerva2. (2TU NIHIL ... MINERVA Nada digas ou faças sem o benep1ácito de Minerva.
Horácio, Arte Poét., V. 385
Invidia rumpantur ut ilia Codro3.( 3INVIDIA CODRO Para que se rompam de inveja os flancos de Codro.)
Virg., Éclogas,
Sátiras prestam, sátiras se estimam
Quando nelas Calúnia o fel não verte,
Quando voz de censor, não voz de zoilo
O vício nota, o mérito gradua;
Quando forçado epíteto afrontoso
(Tal, que nem cabe a ti) não cabe àqueles
Que já na infância consultavam Febo.
Elmiros de Paris, Cotins, são vivos
No metro de Boileau, mordaz, mas pulcro;
Codros, Crispinos, Cluvienos soam
No latido feroz do cão de Aquino,
Desse cuja moral, mordendo, imitas,
E cuja fantasia em vão rastejas,
Nos ígneos versos, que Venusa ilustram,
Nos que de fama eterna honraram Mântua,
Envoltos no ludíbrio existem Bávios,
Mévios existem, e a existência deles,
Se pudesses durar, seria a tua.
Refalsado animal, das trevas sócio,
Depõe, não vistas de cordeiro a pele!
Da razão, da moral o tom, que arrogas,
Jamais purificou teus lábios torpes,
Torpes do lodaçal, donde zunindo
(Nuvens de insectos vis) te sobem trovas
À mente erma de ideias, nua de arte.
Como hás-de, ó Zoilo, eternizar meu nome,
Se os Fados permanência ao teu vedaram?
Se a ponte, que atravessa o mudo rio,
Que os vates, que os heróis transpõem seguros,
Tem fatal boqueirão, por onde absorto
Irás ao vilipêndio, irás ao nada,
Ficando em cima ileso, honrado o nome,
Que em ditérios plebeus, em chulas frases
Debalde intentas submergir contigo?
Empraza-te a Razão; responde... e treme!
Do filósofo a tez, a tez do amante,
Meditativo aspecto, imagem d'alma,
Em que fundas paixões a essência minam
(Paixões da natureza, e não das tuas)
O que aparece em mim, à vista abjecto,
A mesta palidez, o olhar sombrio,
O que preterição desengenhosa
Dos sujos trívios na linguagem aponta,
Que importa, ó Zoilo, ao literário mundo?
Que importa descarnado, e macilento
Não ter meu rosto o que alicia os olhos,
Enquanto nédio, e rechonchudo, à custa
De vão festeiro, estúpida irmandade,
Repimpado nos púlpitos, que aviltas,
Afofas teus sermões, venais fazendas
(Cujos credores nos elísios fervem),
Trovejas, enrouqueces, não comoves,
Gelas a contrição no centro d'alma;
Ostentas férreo númen, céus de bronze,
E, a cada berro minorando a turba,
Compras n'aldeia do barbeiro o voto,
Ali triunfas, e a cidade enjoas?
Tu, de cérebro pingue, e pingue face
Farisaica ironia em vão rebuças
Com que a penúria ao desvalido exprobras:
Que tem coa Natureza o que é da Sorte?
Ou dá-me o plano de atrair-lhe as graças
(Mas sem que roje escravo) ou não profanes
Indigência e moral, quais tu não citas.
Pões-me de inútil, de vadio a tacha,
Tu, que vadio, errante, obeso, inútil,
As praças de Ulisseia à toa oprimes,
Ou do bom Daniel na térrea estância
Peçonhas de invectiva espremes d'alma,
Que entre negros chapéus também negreja,
E ante o caixeiro boquiaberto arrotas,
Arrotas ante o vulgo a enciclopédia;
Fadas, agouras o esplendor, que invejas,
Arranhas mortos, atassalhas vivos,
Insultas a grandeza, a imunidade
Do eterno Mantuano, e dás a Estácio
Um grau, que entregue ao deus, que ardendo em estro
De Tebas o cantor tentar não ousa,
Quando a Musa da morte enfreia os voos,
E quer que a Eneida cá de longe adore.
Da preferência atroz inda não pago
Das Graças ao cultor, de Amor ao vate,
De Nasónia elegia aos sons piedosos,
Que o Ponto ouviu com dor, com mágoa o Tibre,
Versos prepões, sarmático-latinos,
Versos, que inda ao burel, e ao claustro cheiram,
E que, afrontoso a ti, de aplausos c'roas,
Só por distarem de teus versos pouco.
Sanguessuga de pútridos autores,
Que vais com cobre vil remir das tendas,
Enquanto palavroso impões aos néscios,
E a crédulo tropel roncando afirmas
Que revolveste o que roçaste apenas;
(Falo das artes, das ciências falo):
Enquanto a estátua da Ignorância elevas,
Os dias eu consumo, eu velo as noites
Nos desornados, indigentes lares;
Submisso aos fados meus ali componho
À pesada existência honesto arrimo,
Coa mão, que Febo estende aos seus, a poucos.
Ali deveres, que não tens nem prezas;
Com fraternal piedade acato, exerço,
Cultivo afectos à tua alma estranhos,
Dando à virtude quanto dás ao vício;
Não me envilece ali de um frade o soldo:
Ali me esforça ao génio as ígneas asas
Coração benfazejo, e tanto, e tanto
Que a ti, seu depressor, protege, acolhe;
Que em redondo carácter te propaga
A rapsódia servil, poema intruso,
Pilhagem, que fizeste em mil volumes,
Atulhado armazém de alheios fardos,
Onde a Monotonia os mexe, os volve,
E onde a teimosa apóstrofe se esfalfa,
Já cos céus entendendo, e já coa terra.
Inda não me elevei do Pindo ao cume
Com fama, que assoberbe os sumos vates;
Porém, graças ao dom, que não desdouras
Coa birra estulta de emperradas trovas,
Vou sobranceiro a ti, de longe te olho,
E na pública voz, que se não merca,
Elmano a cisne aspira, Elmiro é ganso,
É ganso que patinha, e se enlameia
Em podres lodaçais, pauis do Letes.
A círculos pueris, a vãos Narcisos,
A Lucrécias na sala, e Lais na alcova,
E inda às sérias do tempo os "bravos" poupo;
Insulso ritmador de facho e setas,
Nugas não douro, não mendigo aplausos
De vácuas frontes, plagiárias línguas;
Não sou, nem de improviso, o que és de espaço!
Claro auditório meu, vingai-me a glória!
Vós, que em versos altíssonos mil vezes
Me vistes ir voando às fontes do Estro,
Dizei, se me surgiram Grécia, Roma
Nas prontas explosões do entusiasmo.
Se a razão, se a moral, se as leis, se a pátria
Do metro destemido objectos foram,
Ou das Marílias de hoje o riso ensosso,
Dos olhos o comércio, e não das almas,
O melindre sagaz, lição materna,
E a mercantil firmeza, a cem votada?
Dizei... Mas contra ti sobeja Elmano;
Teus uivos, teus latidos não me aterram;
Sou do novo trifauce Alcides novo;
Inda não farto de arrancá-lo às sombras
As três gargantas levarei de um golpe;
E se a canina espuma, ou sangue infecto
Monstros gerar, que multiplique a morte,
Das Fúrias o tição lhes torre as frontes.
Braveja, detractor, braveja, insano!...
Arde, blasfema em vão, de algoz te sirva
Tenaz verdade, que te rói por dentro.
Na voz deprimes o que admiras n'alma;
Se provas queres, eu te exibo as provas
Do que teu coração desdiz dos lábios.
Traz à mente o lugar, e a vez primeira
Em que, dado à tristeza, e curvo aos ferros,
Olhaste, ouviste Elmano, e grande o creste,
Quando inda os voos tímido soltava
Na imensidade azul, que aos astros guia;
Quando (não como por sistema o finges,
Mas só da Natureza endereçado)
Seguia o rasto de amorosos cisnes,
Pousando muito aquém do grau que ocupa:
Ainda carecente da ígnea força
Que à pátria deu Leandro, Inês, Medeia,
O Antro dos zelos, de Areneu e Argira
A história, que o sabor colheu de Ovídio,
Na dicção narrativa experta, idónea,
E o mais, às Musas grato, e grato a Lísia.
Da estância, onde nem sempre habita o crime,
Epístola sem sal por ti guisada,
Em tais louvores incluiu meu nome:
Versos escuta, que negar não podes;
Estilo é teu, monotonia é tua;
O que neles se envolve, escuta, em prémio
Da empresa, que tomei, de os pôr na mente:
"Do centro desta gruta triste, e muda,
Fecundo Elmano, pelas Musas dado,
O prisioneiro Elmiro te saúda,
De teus áureos talentos encantado;
De ti só fala, só por ti suspira,
Em teu divino canto arrebatado...
Quem "fértil" nomeaste, e quem "divino"
Hoje é servil, monótono, infecundo,
De texto opimo intérprete engoiado?
Coa idade e estudo o géílio em todos cresce,
E em mim desfaleceu coa idade, e estudo?
Responde ao teu juiz, ao são critério,
Réu de lesa-razão! Trazer à pátria
Nova fertilidade em plantas novas,
Manter-lhe as flores, conservar lhe os frutos,
Quais eram no sabor, na tez, na forma,
Sendo o tronco, a raiz, a copa os mesmos,
Sem que os estranhe, os desconheça o dono,
É fadiga vulgar? Não tem mais preço
Do que esse, que os carretos galardoa
Do galego boçal nos férreos ombros?
Verter com melodia, ardor, pureza
O metro peregrino em luso metro,
Dos idiotismos aplanando o estorvo,
De um, doutro idioma discernindo os génios,
O carácter do texto expor na glosa,
Próprio tornando, e natural o alheio,
É ser bugio, ou papagaio, Elmiro?
Confronta originais, e as cópias deles;
Verás se a Musa, que de rastos pintas,
No voo altivo o Sulmonense atinge,
Castel transcende, e com Delille ombreia.
Citas um verso mau, mil bons não citas?
Citas um verso mau, que não transforma
Em matos os jardins? É natureza
Estarem par a par espinhos, flores.
E não sabes, malévolo, que a regra
Une a ténues objectos simples frases?
Se imparcial, se crítico escrevesses,
Centenas de áureos versos apontaras,
Sem de um só deduzir sentença iníqua.
De Ausónia o quadro, ou venerando, ou belo,
Com justa, sábia mão presentarias;
Idades cento blasonando ao longe
Coa ruína imortal da excelsa Roma;
Ante as aras carpindo Amor, Saudade,
E ao Céu medrosas lágrimas furtando;
Aos amigos dos homens, e aos dos numes
Na terra verdejando elísios novos;
correntes sem rumor, como as do Letes,
os males na memória adormecendo,
em mármores coríntios alvejantes
o grande Fénelon, e o grande Henrique.
Se o rival de Virgílio (o que proclamas,
Porque de Gália é filho, e não de Lísia,
A cujo seio, em que borbulham génios,
Chamas com língua audaz estéril deles)
Se o rival de Virgflio ouvisse os versos
De intérprete fiel, não rude escravo,
Honrara cum sorriso úteis suores.
Pede ao mole Belmiro, anão de Febo,
Ao que ergues uma vez, e mil derrubas;
Pede ao vampiro, que a ti mesmo há pouco
Nas tendas, nos cafés deveu sarcasmos;
Pede ao bom Melizeu, d'Arcádia Fauno,
De avelada existência, e mente exausta,
Que afectas lamentar, e astuto abates,
Que por alféloa troca os sons de Euterpe
(Os sons da sua Euterpe, e não da minha),
Diz ao teu coro, de garganta indócil
(Sem que esqueça o Pigmeu no corpo, e n'alma).
Dize dos corvos de Ulisseia ao bando
Que, intérpretes qual fui, de exímios vates,
Não pagos de ir no rasto o voo alteiem:
Ou tu mesmo apresenta, of'rece à crise
De gordo original versão mirrada,
Sulcado o Estácio teu de unhadas minhas,
De muitas, que sofreste, e que aproveitas;
Nele (oh mágoa! Oh labéu!) por ti mudados
A pompa na indigência, o luto em riso;
Mostra em teus versos as imagens suas
Tíbias, informes, encolhidas, mortas:
Desdentado leão, leão sem garras,
Que à longa idade sucumbiu, rugindo;
Mas leão, que de perto inda é terrível,
E que no quadro teu vale um cordeiro.
Ousa mais: - a Lusíada não sumas,
Que o número de versos fez poema,
Tal que seu mesmo pai sem dor o enterra.
Expõe no tribunal da Eternidade
Monumentos de audácia, e não de engenho;
O prólogo alteroso, em que abocanhas
Do luso Homero as veneráveis cinzas,
E não de inepto, de apoucado arguas
Quem, porque teme a queda, encolhe as asas;
Quem, de efémeros "vivas" não contente,
Chegando a mais que tu, se atreve a menos.
Nem sômente Melpómene dispensa
Grão nome, nem Calíope sômente.
Como os Voltaires na memória vivem,
La Fontaines, Chaulieus subsistem nela:
Todos têm nome, e grau: tu mesmo o dizes,
Contraditório, túmido versista.
Tema, que escolhes, género, que abraças,
Não te honra, nem desluz: no desempenho
O lustre, a glória estão. Tem jus à fama
O vate, ou cante heróis, ou cante amores,
Contanto que de Febo as leis não torça,
Aos mui vários assuntos ajustadas.
Coa matéria convém casar o estilo:
Levante-se a expressão, se é grande a ideia,
Se a ideia é negra, a locução negreje,
E ténue sendo, se atenue a frase.
Segue o que tens de cor, mas não praticas,
Serás o que não és, o que não foste,
Quando das "Musas no Almanaque" (ai triste!)
Que a par de seus irmãos morreu de traça,
Forjaste de uma freira equórea ninfa,
Jacinta de um Tritão fingiste acesa:
Chamaste grande, harmónico a Lereno,
Ao fusco trovador, que em papagaio
Converteste depois, havendo impado
Com tabernal chanfana, alarve almoço,
A expensas do coitado orangotango,
Que uma serpe engordou, cevando Elmiro,
Os teus vícios em rosto aos mais não lances,
Tu, Fúria, tu, dragão, que entornas peste,
Por sistema, por hábito, e por génio.
Os sete, que detrais, em que te agravam?
Querias par a par subir com eles,
Nas asas do louvor a ignotos climas?
Que disseras, mordaz, quando a mimosa,
Quando a celeste Catalani exala
Milagres de ternura, e de harmonia,
Sim, que disseras, se, ultrajando a cena,
De rouquenha bandurra um biltre armado
Ante a assembleia extática impingisse
Solfa, mazomba, hispânico bolero?
Pois isto, ó Zoilo, tão impróprio fora
Como anexar teu nome aos sete, e a outros,
Que do silêncio meu não colhem manchas,
Nem carecem de mim, por si famosos,
E há muito em lira eterna ao pólo erguidos.
Verdade! rectidão! Vós sois meus numes!
Vê se as adoro, ó Zoilo: eu amo Alcino,
Filinto, Córidon, Elpino eu louvo;
Todo me apraz Dorindo, Alfeno em parte;
Nas trevas para mim reluz Tomino;
Nos génios transcendentes me arrebato,
Prezo alunos febeus, desprezo Elmiros.
De alta justiça quê mais prova exiges?
Tu, que de iníquo e parcial me increpas,
Tu, que em vez de razões opróbrios vibras
Perante um mundo, que te sabe a história!
Tu, que afeito à moral dos Tupinambas,
Tens ampla consciência, onde Amizade,
Onde Amor, e outros vínculos sagrados
São nomes vãos, fantásticos direitos;
Tu... mas língua de bronze, e voz de ferro
Mal de teus vícios a expressão dariam.
Indómito molosso, ardido ex-frade,
É contigo a razão qual é coas ondas
Arte, e saber de náufrago piloto:
Serás qual és, e morrerás qual vives.
Prossegue em detrair-me, em praguejar-me,
Porque Délio dos "prólogos" te exclui;
Pregoa, espalha em sátiras, em lojes
Que Zoilos não mereço, e sê meu Zoilo;
Chama-me de Tisífone enteado,
Porque em fêmeo-belmírico falsete
Não pinto os zelos, não descrevo a morte:
Erra versos, e versos sentenceia;
Condena-me a cantar de Ulina, e de anos;
Agrega o magro Elmano ao fulo Esbarra;
Ignora o "baquear" que é verbo antigo,
Dos Sousas, dos Arrais sàmente usado;
Metonímias, sinédoques dispensa;
Da-me as pueris antíteses, que odeio;
De estafador de anáforas me encoima;
Faz (entre insânias) um prodígio, faz
Qual anda o caranguejo andar meus versos;
Supõe-me entre barris, entre marujos;
(Dalguns talvez teu sangue as veias honre!)
Mas não desmaies na carreira; avante,
Eia, ardor, coração... vaidade, ao menos.
As oitavas ao "Gama" esconde embora,
Nisso não perdes tu, nem perde o mundo;
Mas venha o mais! Epístolas, sonetos,
Odes, canções, metamorfoses, tudo...
Na frente põe teu nome, e estou vingado.
GLOSAS
Que eu fosse enfim desgraçado
Escreveu do Fado a mão;
Lei do Fado não se muda;
Triste do meu coração !
GLOSA
Três vezes sobre meus lares
Vozeou, quando eu nascia,
Ave, que aborrece o dia,
Que prevê cruéis azares:
Amor dividira os ares
De seus tormentos cercado;
À funda estância do Fado
O voo havia abatido,
E ambos tinham resolvido
Que eu fosse enfim desgraçado.
- Esse, que os primeiros ais
Vai soltar triste, e choroso,
Seja à Fortuna odioso,
Seja pesado aos mortais:
Dos mimos de Amor jamais
Desfrute a consolação;
Ame, porém ame em vão,
Ferva-lhe n'alma o ciúme
-Isto no horrendo volume
Escreveu do Fado a mão
Cresci, cresceram comigo
Meus danos, e num transporte
Curva maga a ler-me a sorte
Com roucas preces obrigo:
Eis que toma um livro antigo,
Abre, vê, folheia, estuda,
Té que me diz carrancuda:
"Nos caracteres que olhei
Fim ao teu mal não achei;
Lei do Fado não se muda"
Absorto, convulso, e frio,
Deixo de erriçada grenha
A Fúria em côncava penha,
Seu lar medonho, e sombrio:
Debalde luto, e porfio
Contra a Sorte desde então;
Céus! Não achar compaixão!
Céus! Amar sem ser amado!
Bárbara lei do meu fado!
Triste do meu coração !
A minha Lília morreu.
GLOSA
Assim como as flores vivem
A minha Lília viveu;
Assim como as flores morrem
A minha Lilia morreu.
Assomando o negro dia,
Ave sinistra gemeu;
Cumpriu-se o funesto agouro:
A minha Lilia morreu
Desfalece, ó Natureza,
Acelera o fado teu;
Esta voz te guie ao nada:
A minha Lilia morreu.
Fadou-me o caso medonho
Vate, que nos astros leu;
Os vates são como os numes:
A minha Lilia morreu.
Que é do Sol? Que é do Universo?
Tudo desapareceu;
Foi-se toda a Natureza:
A minha Lilia morreu.
A minha ventura, e Lília
Num só laço Amor prendeu:
Morreu a minha ventura,
A minha Lilia morreu.
Em parte da minha essência
Minha essência pereceu;
Não vivo senão metade:
A minha Lilia morreu.
Oh quanto ganhava o mundo!
Oh quanto o mundo perdeu!
Doce lucro, e triste perda!
A minha Lilia morreu.
Para exultar o Universo
A minha Lília nasceu;
Para os numes exultarem
A minha Lilia morreu.
Meu coração desgraçado,
Desgraçado porque és meu,
Evapora-te em suspiros:
A minha Lilia morreu.
As estrelas se apagaram,
A Natureza tremeu,
Os promontórios gemeram,
A minha Lilia morreu.
Disse, ao ver sereno eflúvio,
Que o puro Olimpo correu:
Aquela é a alma de Lília,
A minha Lilia morreu.
APÔLOGO
OS DOIS GATOS
D ois bichanos se encontraram
Sobre uma trapeira um dia:
(Creio que não foi no tempo
Da amorosa gritaria).
De um deles todo o conchego
Era dormir no borralho;
O outro em leito de senhora
Tinha mimoso agasalho.
Ao primeiro o dono humilde
Espinhas apenas dava;
Com esquisitos manjares
O segundo se engordava.
Miou, e lambeu-o aquele
Por o ver da sua casta;
Eis que o brutinho orgulhoso
De si com desdém o afasta.
Aguda unha vibrando
Lhe diz: "Gato vil e pobre,
Tens semelhante ousadia
Comigo, opulento, e nobre?
Cuidas que sou como tu?
Asneirão, quanto te enganas!
Entendes que me sustento
De espinhas, ou barbatanas?
Logro tudo o que desejo,
Dão-me de comer na mão;
Tu lazeras, e dormimos
Eu na cama, e tu no chão.
Poderás dizer-me a isto
Que nunca te conheci;
Mas para ver que não minto
Basta-me olhar para ti."
"Ui! (responde-lhe o gatorro,
Mostrando um ar de estranheza)
És mais que eu? Que distinção
Pôs em nós a Natureza?
Tens mais valor? Eis aqui
A ocasião de o provar."
"Nada (acode o cavalheiro)
Eu não costumo brigar."
"Então (torna-lhe enfadado
O nosso vilão ruim)
Se tu não és mais valente,
Em que és sup'rior a mim?
Tu não mias?" - "Mio. - E sentes
Gosto em pilhar algum rato?"
"Sim." - "E o comes?" - "Oh! Se o como ! "
"Logo não passas de um gato.
Abate, pois, esse orgulho,
Intratável criatura:
Não tens mais nobreza que eu;
O que tens é mais ventura. "
EPIGRAMAS
Para curar febres podres
Um doutor se foi chamar,
Que, feitas as cerimónias,
Começou a receitar.
A cada penada sua
O enfermo arrancava um ai.
"Não se assuste (diz o Galeno)
Que inda desta se não vai.
"Ah senhor! (torna o coitado,
Como quem seu fado espreita)
Da moléstia não me assusto,
Assusto-me da receita."
Um escrivão fez um roubo;
Diz-lhe o juiz: "Que razão
Teve para fazer isto?"
Responde: - "Ser escrivão."
Rechonchudo franciscano
Desenrolava um sermão;
E defronte por acaso
Lhe ficara um beberrão.
Tratava dos bens celestes,
Proferindo: "Ouvintes meus,
Que ditas, que imensa glória
Para os justos guarda um Deus!
Falsos, momentâneos gostos
Há neste mundo mesquinho:
Mas no Céu há bens sem conto...
Pergunta o bêbado: - "E vinho?"
Uma terra dizem que há,
Onde a fome acerba e dura,
Cabo dos médicos dá:
Porque é isto? É porque lá
Pagam sômente a quem cura.
Homem de génio impaciente,
Tendo uma dor infernal,
Pedia para matar-se
Um veneno, ou um punhal.
"Não há (lhe disse um vizinho
Velho, que pensava bem)
Não há punhal, nem veneno;
Mas o médico ai vem.
EPITÁFIO
De Elmano eis sobre o mármore sagrado
A lira, em que chorava, ou ria Amores;
Ser deles, ser das Musas foi seu fado:
Honrem-lhe a lira vates, e amadores.
FIM
Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br