
Johannes Brahms
Brahms, compositor alemão, recebeu as primeiras lições de música de seu pai, pouco endinheirado contrabaixista que desejava fazer do filho um instrumentista de orquestra. Este, porém, revelava forte atração para o piano, e foi por isso entregue aos cuidados de um professor de mérito, Eduard Marxsen.
Brahms começou cedo ganhando a sua vida, tocando em cafés freqüentados principalmente por marinheiros. O encontro, em 1850, com o violinista húngaro Reményi, refugiado político, foi decisivo para o seu futuro. Durante uma viagem de concertos ele conhece Liszt e Schumann, que o recebe com toda cordialidade. As relações com os Schumanns são da mais profunda afeição.
Brahms assiste à família nos tempos que puseram tragicamente termo à ida do grande compositor. Ele permanece dois anos em Dusseldorf para acompanhar no seu luto Clara Schumann. Os laços que o ficam prendendo a esta e a influência artística que dela recebeu deviam durar até a morte da admirável mulher, ocorrido um ano antes da sua.
Em 1863 ele aceita o lugar de diretor da Singakademie de Viena, que abandona ao cabo de um ano. Viena, no entanto, estava destinada a tornar-se a sua segunda pátria, e o compositor ali se fixa, com efeito, em 1869 depois de vários atritos com a família.
Entretanto, havia realizado algumas viagens e dado a conhecer a obra que verdadeiramente chamou para ele as atenções como compositor: o Réquiem alemão, executado pela primeira vez, ainda não na sua forma completa, em Brema, em 1868, e logo no ano seguinte, na sua versão definitiva, em Leipzig.
Em 1875, Brahms resigna-se do lugar de diretor de Gesellschaft der Musikfreunde e passa a dedicar-se apenas a sua criatividade criadora. Em 1887 é-lhe conferida a ordem prussiana Pour le mérite e em 1889 é feito cidadão honorário de Hamburgo, honraria que lhe dá grande satisfação. Prematuramente envelhecido, Brahms consagra as suas últimas forças criadoras quase exclusivamente à música de câmara, ao piano e às melodias, em que se havia mostrado o mais ilustre continuador do lirismo de Schubert e Schumann. A morte, em 1896, de Clara Schumann, produz-lhe profundo abalo. A sua saúde declina rapidamente e, em 1897, passa ao outro mundo vítima de cancro no fígado.
Embora Brahms tem sido chamado até de o " terceiro B" (comparando-o assim a Bach e Beethoven) sua personalidade artística tem sido das mais discutidas.
Nos paises latinos só a muito custo a sua música tem obtido aceitação, ao passo que na Alemanha e Inglaterra, por exemplo, ela goza de indubitável prestígio.
Apesar de a estréia do RÉQUIEM ALEMÃO ter acontecido em l869, os esboços remontam a l861; a intensificação da atividade aconteceu após a morte de sua mãe em l866. Sua mensagem de esperança se apóia numa rígida estrutura simétrica e o texto está formado por passagens escolhidas da Bíblia, a partir da tradução realizada por Lutero.
Nos estático clima criado por violoncelos, contrabaixo, trompas e órgão, sobre uma única nota e nos seus registros mais graves surge um motivo, primeiro nos violoncelos e logo depois nas violas, que prepara a aparição do coro, flutuante, quase incorpóreo, com as palavras "Selig seid, die da Leid tragen", estabelecendo assim o clima emocional que domina a obra: a tranqüila aceitação da morte.
Tranqüilidade obscura, já que o compositor elimina todo o brilho ao anular violinos, clarinetes e trombetas.
As vozes adquirem uma maior mobilidade na segunda seção:
"Die mit Tränen säen werden mit Freuden ernten".
O encontro entre estas duas ressonâncias, onde os centros são as palavras "selig"e "Freude", cria uma equilibrada tensão. Estes elementos voltam a se alternar, recuperando as palavras iniciais e desatando um breve clímax com o acompanhamento, belíssimo e variável, da seção das madeiras, que junto com os desvanecidos sons da harpa e aos pizzicatti das cordas, encerra o movimento.
Uma marcha monumental inicia a segunda parte. Estranha dança da morte, comparada com freqüência a um canto de peregrinos, que anuncia a inexorável extinção. Essa marcha dá lugar a uma passagem, com a frase "so seid geduldig"cantada por tenores e contraltos e seguida por todo coro, que anuncia a seção final e na que se destaca o solo de flauta, que continua até a reaparição da marcha.
Uma breve transição leva a um hino de júbilo, numa fuga que começa com a voz dos baixos com uma poderosa orquestração, para logo sublinhar, de um modo magnífico, o contraste entre as notas, quase dolorosamente alongadas e graves das palavras "Schmerz und Seufzen", e as breves, precisas e rápidas de "wird weg müssen". O otimismo se desvanece numa seção mais tranqüila, onde uma melodia, expressando a eterna alegria da salvação, corrobora o triunfo sobre a fatalidade da marcha fúnebre.
As cores escuras do primeiro movimento reaparecem no terceiro: sobre o som das trompas, tímbales e cordas, o barítono inicia um lamento. O tom declamatório, bem próximo do recitativo, revela-se idôneo para expressar a íntima inquietação do homem diante da natureza imprevisivel da morte.
O coro repete o texto com efeito de eco, como se a comunidade fosse incapaz de aliviar a solidão do indivíduo diante da morte. Após um crescendo rapidamente abafado, desenvolvem-se as variações sobre "Ich muss davon". Um grito súbito sobre a última palavra leva a um progressivo e tenso diminuendo da orquestra; um pizzicatto das cordas é a derradeira e frágil ressonância ante o silêncio.
Depois do vazio vem o consolo: motivos de instrumentos de sopro acompanham as reflexões acerca da futilidade de uma vida dominada pelos interesses materiais. De novo aparece a pergunta-chave, latente, e com ela o desespero "Nun Herr, wess soll ich mich trösten".
O coro, como um remanso, reafirma a esperança e o ambiente transfigura-se com uma impressionante fuga: a permanente instabilidade, que até agora dominava, desaparece ante uma sólida e imponente forma reforçada sobre um ré, extraordinariamente alongado, mantido por contrabaixos e órgão.. Base firme, como a mão do Senhor, à qual se submete a humanidade.
O quarto movimento constitui o centro da obra.
Sem correspondência na estrutura simétrica, funciona como o seu eixo: neste, a dialética entre a esperança e o terror, entre a luz e a sombra, resolve-se decididamente a favor das primeiras. O coro descreve as excelências da glória eterna. A seção dos sopros, sobretudo flautas e clarinetas, desenha frases num clima de tranqüilidade. Ressalta o crescendo descritivo da frase "Meine Seele verlanget und sehnet sich" e os toques de corda, quase palpitações, em "Mein Leib und Seele freuen sich".
O quinto movimento continua acentuando o consolo. Agora a voz solista é a de um soprano. Numa total intimidade, as cordas em surdina, a linha vocal emerge recolhida, quase abrigada, em uma delicada e suave textura, nos instrumentos de madeira e coro, que a rodeia e abraça maternalmente. Entre os numerosos detalhes de uma prodigiosa orquestração, são maravilhosos os solos de oboé e violoncelo em "Ihr habt nun Traurigkeit" e a sublime melancolia da parte final "ich will euch trösten, wie einem seine Mutter tröstet", referência explícita à pessoa cuja morte inspirou a criação da obra.
O contraste do sexto movimento é ainda mais eficaz. Começa, mantendo a simetria, com uma marcha, tal como no segundo movimento. Das vozes do coro surge, enérgico, o barítono, com uma impressionante intensidade, para revelar o segredo da Ressurreição. As vozes repetem suas frases hipnoticamente, com assombro e reverência, até que um crescendo nos transporta à pessoalíssima interpretação que Brahms realiza do Dies Irae. Orquestra, coro e órgão anunciam a hora do chamado final, enfatizando a vitória sobre a morte - e não o juízo ou o castigo, como é tradicional na liturgia católica.
O jogo reflexivo e o caminho conceitual terminam no sétimo movimento, que recupera exatamente o mesmo espírito do primeiro. O texto selecionado é similar. A melodia dos sopranos é contestada pelos baixos, mas em vez de um movimento fugado, como era de se esperar, surge um movimento coral compacto em que aparecem, com continuidade, elementos imitativos. A seguir é exposta a idéia do descanso, numa clara referencia à missa católica, para voltar aos versos iniciais que, se num princípio usam o mesmo material temático, passam depois de um breve crescendo à música do primeiro movimento, reforçando a esperança sobre a sombria orquestração e finalizando com a extinção dos pizzicatti, da seção das madeiras e harpa. Com perfeição circular afirma-se a vitória sobre a morte.
Fonte: www.unb.br

Johannes Brahms
Nasceu em em 7 de maio de 1833, em Hamburgo, Alemanha.
Faleceu em Viena, Áustria, em 3 de abril de 1897.
Na mocidade foi romântico, mas poucas obras românticas subsistem porque Brahms tinha o hábito de destruir os originais que não resistiam à sua severa autocrítica. Calcula-se que só possuímos a metade daquilo que escreveu.
Em sua segunda fase, decididamente não-romântica, seguiu, como modelo, o Beethoven da segunda fase. Música instrumental absoluta, evitando inspirações e alusões poético-literárias. É a música do classicismo vienense ressurgindo em plena metade do século XIX, embora diferente, pelo espírito sombrio de Brahms.
É uma sucessão de obras-primas.
A última fase de Brahms caracteriza-se por efusões rapsódicas, o emprego de recursos pré-clássicos e formas de Bach.
Ele apenas não escreveu óperas.
Sua linguagem musical é original, específica. Sua música é caracterizada pela fusão do lied melódico e da polifonia instrumental, através de uma rigorosa construção arquitetônica, conforme os princípios de Haydn, Mozart e Beethoven. Não tolera a improvisação nem os isoláveis "trechos brilhantes". A emoção profunda, sim, mas em forma estrita.
Esse "formalismo" dificulta o acesso à sua música para todos os que só costumam ouvir com o coração.
Para os ouvintes não-alemães há mais uma dificuldade: o germanismo muito mais acentuado que o do nacionalista Wagner. Sempre se interessou pelo folclore musical. Esse germanismo dificultou, durante muito tempo, a difusão de sua música no estrangeiro.
Na Alemanha, o wagnerianismo vitorioso o hostilizou de todas as maneiras. Mas enfim, tanto a Áustria como a Alemanha acabaram por se render a Brahms.
Fonte: www.geocities.com