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Bugatti Type 57 Atlantic

A versão 57S trazia em 1936 um chassi mais baixo e curto das pistas de corrida. O mesmo chassi seria usado no Type 57SC, que ainda saía de fábrica com compressor do tipo Roots, como no 57C de corrida, item que justificava a sigla SC (de supercharger, nome inglês desse equipamento). O desempenho sadio vinha por 160 cv. Apenas dois sairiam de fábrica com compressor, o que não impediria que a maior parte dos donos de 57S mandassem seus carros de volta a Molsheim, onde os Bugatti eram construídos artesanalmente, para a instalação do superalimentador. Os resultados iam de 175 a 200 cv.

O Atlantic foi apresentado em 1935, numa unidade ainda derivada de um chassi Type 57 convencional. O motor oito-cilindros já apimentado recebia uma injeção extra de ânimo, com carburador Stromberg UUR-2 e taxa de compressão de 8.5:1. A potência, colossal para os padrões dos anos 30, passava a 210 cv a 5.500 rpm. A tração era traseira e a caixa manual tinha quatro marchas.

A carroceria de alumínio vinha montada sobre suportes de madeira e uma estrutura de aço. Para a suspensão dianteira foi escolhido um sistema semi-independente, com feixe de molas, e na traseira o Atlantic tinha eixo rígido e molas semi-elípticas. Mais curto, tinha 2,97 metros entre eixos. Os freios, como se pode prever, eram a tambor, enquanto pneus de aro 18 pol serviam de pés no chão para esse sonho sobre rodas. Tudo isso pesava apenas 953 kg, chegava a 177 km/h e acelerava de 0 a 100 km/h em 10 segundos. Tão pouco perto do Veyron, mas tão expressivo 70 anos atrás...

Além do portento técnico dessa jóia, o Atlantic trajava uma roupagem de tirar o fôlego por sua criatividade e ousadia. Seu desenho misturava inspirações aeronáuticas com a tendência streamline daqueles anos. Um paralelo comumente associado ao Atlantic é o Talbot-Lago "Teardrop", outro dos mais reverenciados clássicos da história do automóvel. O próprio Jean Bugatti resolveu ir além de seus talentos na engenharia e desenhou o Atlantic. Ele morreria em 1939, antes do Type 57 que ajudou a criar, enquanto testava um carro para a 24 Horas de Le Mans.

O carro preto, a terceira e última unidade construída, pertence hoje a Ralph Lauren e impressiona pelas linhas fluidas, com a
O carro preto, a terceira e última unidade construída, pertence hoje a Ralph Lauren e impressiona pelas linhas fluidas, com a "espinha dorsal" que vai do pára-brisa até a traseira

A frente trazia a já tradicional grade em formato oval e faróis bem baixos, próximos ao pára-choque — na verdade uma barra da cor do carro ligando os dois pára-lamas, que começavam bem à frente da própria grade, postada sobre o eixo dianteiro. Dessa maneira, a frente pronunciada por um longo capô permitia o formato de asa dos pára-lamas dianteiros nas laterais, além de um ar imponente de nobreza. Rebites visíveis, e incorporados ao desenho, justificavam-se pelo uso de peças em magnésio, material bem mais leve que o alumínio, mas tão inflamável que não permitia soldas.

Portas de abertura "suicida" continham janelas laterais na forma de um grão de feijão, mais baixas na parte posterior, e com quebra-ventos. Os pára-lamas traseiros vinham acompanhados de saias que escondiam as rodas até a base do carro. O caimento da traseira era ao estilo fastback, suave e ovalado como uma ave com suas asas recolhidas. Pequenas lanternas ladeavam o espaço reservado à placa do veículo. O maior charme do Atlantic era uma espécie de espinha dorsal que dividia ao meio a capota, do pára-brisa bem inclinado ao porta-malas.

O que ajuda a tornar esse Bugatti um clássico perene da mais alta estirpe é sua ínfima produção: apenas três foram feitos. E, para inflar ainda mais sua aura de obra de arte, cada um deles tem características próprias e o paradeiro sempre rastreado pelos colecionadores. Confeccionado sobre um chassi do Type 57 normal, o primeiro era mais alto, como denunciava seu capô. A carroceria era toda feita em magnésio (chamado comercialmente de electron na época), razão pela qual muitos o tratam por Aerolithe Electron Coupe. Tinha rodas raiadas e pneus com faixa branca. Sua história é desconhecida, mas reza a lenda que ele foi destruído por um trem.

A grade oval estava à frente do motor de oito cilindros e 3,3 litros, que fornecia 210 cv; os faróis da terceira unidade eram mais altos
A grade oval estava à frente do motor de oito cilindros e 3,3 litros, que fornecia 210 cv; os faróis da terceira unidade eram mais altos

O segundo exemplar foi fabricado com carroceria de alumínio em 1936. Por já ser um 57S, seu capô tem a mesma altura dos pára-lamas que o ladeiam. Várias partes têm rebites à vista. Ele pertenceu a um lorde de Londres, que em 1939 mandaria instalar o compressor em Molsheim. Sua cor azul claro metálico teria sido encomendada para combinar com um anel. Seu segundo dono, de Los Angeles, modificou a janela traseira do carro e trocou sua cor várias vezes. O proprietário atual, também dos Estados Unidos, o restaurou conforme as especificações de 1936 e ganhou o prêmio máximo do Concurso de Elegância de Pebble Beach em 2003.

O terceiro Atlantic é preto, mas há quem diga que sua cor original era azul marinho. Ele pertence a Ralph Lauren, da grife de vestuário, e venceu Pebble Beach em 2000. Em seu restauro foi descoberta a cobertura original dos assentos, de pele de cabra. O estofamento era de pêlo de cavalo embrulhado em musselina. São detalhes de uma lenda que já havia inspirado o conceito Atlantic da Chrysler, em 1995, e agora reflete seu brilho no recordista Veyron, outro Bugatti nascido clássico. O Atlantic prova que uma obra-prima inacessível pode ser querida por muitos e por décadas a fio. Afinal, sonhar alto não custa nada.

Fonte: www2.uol.com.br

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