Cagaita
Cagaita

Cagaita

Cagaiteira

Eugenia dysenterica DC

1 INTRODUÇÃO

O Cerrado é uma formação savânica tropical que ocupa aproximadamente 2,0 milhões de Km2 e corresponde a 23,1% do território brasileiro. Situa-se no Planalto Central, com pequena inclusão no Paraguai e na Bolívia, estendendo-se pelos estados de Goiás, Tocantins, Distrito Federal e porções dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, parte do Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Piauí, Pará e Rondônia (BUSHBACHER, 2000).

Embora seja um bioma pouco estudado, sabe-se que se constitui em uma das regiões de maior biodiversidade do planeta.

Por apresentar relevo plano em quase toda a sua extensão e facilitar o avanço de máquinas agrícolas, grandes áreas deste bioma foram incorporadas ao sistema produtivo, sendo ocupadas principalmente por extensas lavouras de grãos e pastagens de baixo nível tecnológico. Este tipo de ocupação vem contribuindo de forma significativa para a descaracterização e degradação destas áreas e colocando em risco inúmeras espécies vegetais endêmicas, a maioria ainda não estudada.

Grande número destas espécies apresenta elevado potencial econômico e ecológico, além da importância social, muitas vezes complementando a dieta e servindo como fonte de medicamentos, fibras, madeira para construções e energia para os habitantes locais.

Segundo Barbosa (1996), algumas espécies vegetais do Cerrado podem constituir potenciais fontes de exploração econômica, desde que a pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias viabilizem seu aproveitamento.

Neste contexto, insere-se a cagaiteira (Eugenia dysenterica DC.), uma espécie frutífera nativa do Cerrado, aproveitada pela população local para uso alimentar e medicinal.

Este boletim engloba, ao longo de suas páginas, as informações mais relevantes sobre essa frutífera, relacionando suas principais características, utilidades, aspectos nutricionais, relevância, propagação e usos na culinária.

2 CAGAITEIRA

2.1 Características, Ocorrência e Fenologia

A cagaiteira, também conhecida como cagaita em razão de suas propriedades laxativas, é uma árvore frutífera natural do Cerrado, pertencente à família Myrtaceae. Segundo Naves (1999), ocorre em maior densidade nos Latossolos Vermelho- Amarelos, sendo freqüente em áreas com temperaturas médias anuais variando entre 21°C e 25°C e altitudes de 380 a 1.100 m.

Sua distribuição é bastante ampla, sendo mais comum nos estados de Goiás, Minas Gerais e Bahia, em cerrados e cerradões. Aparece com alta freqüência em algumas regiões, formando consideráveis grupamentos. Em levantamento realizado por Naves (1999), em 50 áreas amostrais, cada uma com 1,0 hectare de Cerrado pouco antropizado do estado de Goiás, esta espécie foi encontrada em 10 áreas, sendo que, em uma delas, foi registrada a ocorrência de 162 indivíduos com diâmetro acima de 3,0 cm, medido a 10 cm do solo.

Constitui-se em uma árvore de porte médio, possuindo de 4 a 10 m de altura, tronco tortuoso e cilíndrico, com 20 a 40 cm de diâmetro e uma casca suberosa e fendada bem característica (Figuras 1A e 1B).

Cagaiteira
Figura 1 A - Cagaiteira adulta

Cagaiteira
Figura 1 B - Detalhe de seu tronco.
(MARTINOTTO, 2004 -UFLA).

Sua copa é alongada e densa, com ramos quadrangulares e glabros, exceto os botões, pedicelos, folhas e ramos jovens que são pubérulos. É uma planta decídua, heliófita e seletiva xerófila. Apresenta folhas membranáceas, opostas, ovadooblongas, simples, curto-pecioladas a subssésseis, glabras, aromáticas e caducas na floração (DONADIO et al., 2002).

As flores, sempre axilares, solitárias ou organizadas em arranjos de três, são hermafroditas e completas, com 1,5 a 2 cm de diâmetro, dotadas de pétalas de coloração branca (LORENZI, 2000).

No Cerrado, o florescimento da cagaiteira dá-se de agosto a setembro, geralmente sincronizado com o início das primeiras chuvas ou até mesmo antes delas, não durando mais que uma semana. Juntamente com o florescimento surge um fluxo de novas brotações ricas em pigmentação vermelha (PROENÇA & GIBBS, 1994). No espaço de um mês ocorre o florescimento, produção de nova folhagem e frutificação (RIBEIRO et al., 1994; SANO et al., 1995). As abelhas constituem-se em seus polinizadores preferenciais (PROENÇA & GIBBS, 1994).

O fruto da cagaiteira é uma baga globosa-achatada, amarelo-pálida, de 2 a 3 cm de diâmetro, contendo de 1 a 3 sementes brancas, envoltas em uma polpa levemente ácida. Apresenta um cálice seco aderido ao fruto, casca brilhante membranácea, mesocarpo e endocarpo suculentos (Figura 2).

Suas sementes, de coloração creme e formato oval, achatado ou elipsóide, medem de 0,8 a 2,0 cm de diâmetro. Apresentam superfície lisa e tegumento coriáceo, constituindo-se quase que totalmente pelos dois cotilédones. Apresenta germinação hipógea, com vigoroso desenvolvimento inicial do sistema radicular (Figura 3). Um quilo de sementes contém cerca de 700 a 1600 unidades (DONADIO et al., 2002).



Figura 2 Aspecto visual dos frutos de cagaiteira. (MARTINOTTO, 2004 - UFLA).

Cagaita
Cagaita
Figura 3 Aspecto das sementes de cagaiteira (A), (MARTINOTTO, 2004) e de sua germinação
(B), (ANDRADE et al., 2003).

A dispersão das sementes ocorre no início da estação chuvosa, uma estratégia aparentemente ligada ao estabelecimento da espécie. Segundo Sano et al. (1995), há evidências de que essa dispersão seja zoocórica, já que a cagaiteira apresenta elevada produção de frutos, podendo oferecer recompensa energética para prováveis dispersores.

Possui um grande potencial produtivo e pouca alternância de produção, podendo-se encontrar muitas árvores com mais de 1.500 frutos na mesma safra. O peso destes varia de 2,0 g a mais de 30 g, com maior concentração entre 6,0 e 14 g, e seu diâmetro, de 2,0 cm a 3,0 cm.

2.2Utilização

A cagaiteira é considerada uma espécie de interesse econômico, principalmente por causa do aproveitamento de seus frutos na culinária. Além do consumo in natura, são inúmeras as receitas de doces e bebidas que levam o sabor de sua polpa. Esse aproveitamento é bastante difundido entre os habitantes do Cerrado, podendo ser encontrados, inúmeros pratos típicos da região confeccionados com essa fruta, com destaque para os doces, geléias, licores, refrescos, sorvetes e sucos.

Seus frutos, porém, quando consumidos em excesso ou quentes, podem causar diarréia e embriaguez. Ainda imaturos podem ser utilizados como forragem para o gado (RIBEIRO et al., 1986). De sua polpa também são obtidos vinagre e álcool (CORRÊA, 1984).

A madeira do caule da cagaiteira é pesada, com densidade de 0,82 g cm-2, dura e de textura fina, mas de baixa qualidade, podendo ser usada como mourão, lenha e carvão (CORRÊA, 1984).

A casca, além de servir à indústria de curtume, é utilizada na medicina popular como antidiarréica. Apresenta considerável quantidade de súber, com uma espessura de 1,0 a 2,0 cm, sendo empregada também na indústria de cortiça (MACEDO, 1991).

Suas folhas consituem-se em um excelente pasto arbóreo, convenientemente aproveitado em algumas regiões. Apresentam ainda propriedades medicinais, sendo utilizadas na medicina popular como antidiarréicas, para problemas do coração (BRANDÃO, 1991) e também no tratamento de diabetes e icterícia (SILVA, 1999). Costa et al. (2000) verificaram alta atividade antifúngica no óleo hidrolisado de folhas de cagaiteira no controle de Cryptococcus neoformans

Pelo fato de apresentar florescimento exuberante, concentrado e, quase sem folhas, a cagaiteira se mostra também, como uma árvore de elevado potencial paisagístico (RIBEIRO et al., 1994), sendo também citada por Brandão & Ferreira (1991) como planta melífera.

2.3 Aspectos Nutricionais

Estudos da composição nutricional de diversas frutas nativas do Cerrado verificaram que a cagaita possui um elevado teor de água (95,01%), sendo uma das frutas que apresentam maior percentagem de ácidos graxos poliinsaturados (linoléico e linolênico), ficando atrás apenas da amêndoa do baru e da polpa da mangaba. Possui maior teor de ácido linoléico (10,5%) que o azeite de oliva e de dendê. Quanto ao teor de ácido linolênico (11,86%), supera o do óleo de milho, girassol, amendoim, soja, oliva e dendê. Os ácidos graxos possuem importante papel no organismo humano, sendo o linoléico e o linolênico essenciais. São precursores de substâncias de papel importante na estrutura de membranas celulares, como componentes de estruturas cerebrais, da retina e do sistema reprodutor (ALMEIDA, 1998a).

Os teores de vitamina C da cagaita (18,28 mg/100 g) são superiores aos encontrados em muitas frutas convencionalmente cultivadas, como a banana madura e a maçã Argentina, de 6,4 e 5,9 mg/100 g, respectivamente (FRANCO, 1992).

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