O mundo ainda reserva pequenos paraísos para a prática da pedofilia. O Camboja é um desses locais onde molestar menores é quase uma tradição. Várias associações têm chamado a atenção para os pedófilos estrangeiros que actuam no país, mas a prática não é punida, quer por razões sociais quer por insuficiência judicial.
Em Julho, a imprensa tornou conhecidos o processo de um italiano condenado a dez anos de prisão e a detenção de um britânico, de 69 anos, acusado de abusar de uma menina de 12 anos nesse país. Mas estes são exemplos excepcionais de justiça cumprida.
Molestar menores é uma prática em voga no Camboja? A resposta é assustadora. "Não é hábito interrogar um cambojano que tem relações sexuais com crianças, porque essa situação é tolerável, quase uma tradição", disse a ministra dos Assuntos das Mulheres, Mu Soc Hua.
Svay Pak é uma cidade consagrada ao sexo. 40% das jovens prostitutas são vietnamitas. Entre os clientes distinguem-se essencialmente os ocidentais, mas também há chineses, japoneses e tailandeses. Sem esquecer os habitantes locais.
"Os cambojanos, quando têm meios, chegam a ter duas ou três casas: uma para a família e as outras para abrigarem crianças", a troco de favores sexuais, revelou o responsável de um grupo de organizações não governamentais, acrescentando que há "muita gente importante a mover-se no meio da pedofilia, mas esses são intocáveis".
Mas se a pedofilia é só por si uma prática inumana, os motivos que levam a população do Camboja a aceitar a situação são ainda mais complexos. Estas pessoas alimentam o tráfico de crianças e, eventualmente, de jovens, em virtude da crença ancestral segundo a qual as virgens devolvem a energia aos homens mais velhos.
Por 500 a 700 dólares (sensivelmente o mesmo preço em euros) compra-se uma criança durante uma semana a um mês, o tempo-limite para a suposta transferência de energia vital. Passado este tempo, as crianças são revendidas às redes por 100 ou 200 dólares.
Ainda mais fundamental que a alteração do sistema judicial é uma profunda revisão das mentalidades que alimentam este mercado brutal, por motivos económicos ou sociais.
"Não basta denunciar os pedófilos estrangeiros que vêm ao país, o essencial é debater o que significa a pedofilia na sociedade", declarou a ministra.
A manutenção dos mercados do sexo traz consigo os problemas sanitários inerentes, que podem desembocar na morte de milhares de pessoas. "Antes a média de idades destas crianças rondava os 13, 14 anos; agora, por causa da SIDA, a média é de sete, oito anos", revela um responsável.
Com o desenvolvimento do turismo, a oferta de serviços sexuais tornou-se num mercado muito apelativo e cada vez mais abundante nas zonas mais procuradas do mundo. O turismo sexual é como as pragas: é difícil pôr-lhe um fim.
Em cada ano há mais de 200 mil clientes estrangeiros para os dois milhões de crianças de ambos os sexos contratados para se prostituírem. A estes juntam-se outros vários milhões de jovens adultos, também prontos a serem escravizados no mercado do sexo.
O turismo sexual, como qualquer actividade comercial, só existe porque há procura. As facilidades são aliciantes para qualquer pedófilo. Os preços das passagens aéreas, cada vez mais baixos, a facilidade de movimentação dos pedófilos, na sua maioria norte-americanos e europeus, e a utilização maciça da Internet são factores que alimentam e reforçam a rede global.
O Camboja é o país com o maior índice de crianças abandonadas no Sudoeste asiático. Os orfanatos estão cheios e, dos milhares de prostitutas, mais de metade são adolescentes.
Os profissionais de turismo dizem respeitar as decisões internacionais que tentam pôr um freio a este tipo de situações, mas nem a legislação é suficiente para lutar contra uma indústria verdadeiramente aliciante, que dá a ganhar aos promotores, anualmente, milhões de dólares livres de impostos.
No Camboja, a pedofilia estrangeira beneficia de grande tolerância social, devido à miséria. Os pais podem vender os seus filhos por uma televisão. Há toda uma cultura que faz dos filhos um bem que pertence aos pais. Para agravar a situação, os pedófilos são protegidos por uma polícia mal formada e corrupta, e por juízes que se deixam comprar pelos advogados. Resultado: menos de uma dezena de estrangeiros foram, até hoje, condenados por pedofilia no Camboja.
"Não podemos agir se não tivermos uma justiça capaz, eficaz e independente", considera Mu Soc Hua, mas "é sobretudo importante mostrar à sociedade que não é aceitável continuar a violar as suas crianças".
Fonte: www.cesarsalgado.net