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A Arte da Capoeira

Camille Adorno

NAVEGAR É PRECISO...

A expansão marítima teve como significado a escravização dos africanos. Desde meados do século XV os negros foram submetidos ao trabalho nas plantações do sul de Portugal (Algarve), nas minas da Espanha e serviços domésticos em geral na França e Inglaterra.

No decorrer do tempo e como resultado da valorização do tráfico negreiro - uma atividade comercial altamente lucrativa - as formas de exploração sobre o continente negro foram se sofisticando. Chefes de grupos tribais eram corrompidos por mercadores europeus em troca de tecidos, jóias, metais preciosos (como ouro e cobre), armas, tabaco, algodão, cachaça e mesmo búzios - considerados objetos sagrados, e até funcionando como moeda.

As incursões com o objetivo de apresar nativos foram se tornando raras, já que os sobas, chefes locais, se encarregavam da apreensão da mercadoria, inclusive organizando ataques a outras tribos. O comércio começava a ser feito harmonicamente...

Ao serem embarcados nos portos da África os negros eram batizados pelos padres encarregados de convertê-los ao cristianismo e marcados com ferro quente. A marca servia também para distinguir os batizados daqueles que ainda não haviam recebido os sacramentos... Viajando nos porões dos navios negreiros, chamados tumbeiros, amontoados como coisas, na mais completa promiscuidade, inúmeros africanos morriam em razão dos maus tratos e doenças, dos ferimentos diversos e ainda sucumbindo ante a condição desumana a que eram submetidos. A dor imensa causada pela perda da liberdade, o afastamento de tudo que lhes era caro, provocava o banzo - sentimento de revolta, dor, pesar e nostalgia. Depois, vinha a morte. Rugendas fez o registro: “Tenha-se a imagem cruel do negro em face da separação de tudo quanto lhe era caro e sejam recordados os efeitos do mais profundo abatimento ou mais terrível desespero de espírito, unido às privações do corpo e às provações da viagem. Então não se estranhará a baixa mortal de tantos, no alto-mar.” Na chegada às terras brasileiras os negros eram leiloados. E as melhores peças de imediato adquiridas por capatazes ou pelos próprios senhores, que não raro se dedicavam à escolha cuidadosa dos cativos.

A vida rural predominava com características de exploração que perduram até os dias atuais. Aliás, têm um forte sabor de atualidade as observações feitas por frei Vicente do Salvador a respeito dos hábitos extrativistas cultivados pelos colonizadores europeus: “Não só os que de lá vieram, mas também os que nasceram cá, não usam da terra como senhores, mas como usufrutuários, só para a desfrutarem e a deixarem destruída.” Os africanos trabalhavam nas lavouras e tarefas domésticas nas casas dos senhores. Viviam nas senzalas, quase sempre formadas de muitas construções apertadas umas às outras. Na senzala e na casa grande, onde moravam os donos dos engenhos, o proprietário era senhor absoluto. Os negros eram submetidos aos trabalhos forçados e cabia aos feitores estabelecer a disciplina e garantir a produtividade dos escravos.

Nos séculos XVI e XVII o Rio de Janeiro, Salvador e Recife foram os mais importantes centros receptores de negros sudaneses - como os iorubás, geges, haussas e minas; de bantos - como os angolas e os cabindas; e de malês, de idioma árabe e islamizados.

Um alto preço foi pago em razão da cruel valorização mercantilista do homem negro, absurda fonte da riqueza dos que traficavam e dos que o utilizavam, como afirma Herbert Aptheker: “Em quatro séculos, do XV ao XIX, a África perdeu, entre escravizados e mortos, 65 a 75 milhões de pessoas e estas constituem uma parte selecionada da população, uma vez que ninguém, intencionalmente, escraviza os velhos, os aleijados, os doentes”.

Afonso Taunay estima que teriam entrado no Brasil, nos séculos XVI, XVII e XVIII, respectivamente 100.000, 600.000 e 1.300.000 negros escravizados. Arrancados à força da sua terra, uma vida de sacrifícios os aguardava: trabalho árduo de sol a sol nas grandes fazendas-engenhos de açúcar, por exemplo. Tão grande era o esforço que um africano sobrevivia em média de sete a dez anos. Chegar ao Brasil já era uma demonstração de incrível resistência: cerca de 40% dos negros malungos, denominação para os aprisionados e transportados, pereciam durante a viajem.

Charles Ribeyrolles discorreu longamente acerca dos trabalhos desenvolvidos pelos negros no Brasil: “Quem cavou a terra, quem abriu as galerias, desviou as correntes, lavou as areias, achou o ouro e os diamantes? Os negros. As tribos dos índios foram escorraçadas pelos colonos proprietários, de floresta em floresta ou de morro em morro. Mas quem arroteou os terrenos e cultivou o solo, ou quem semeou, plantou e colheu? Os negros. Quem aprontou os trabalhos do campo, tão rudes e penosos, em plena zona tórrida, e quem se encontrava a mourejar nas usinas, moinhos, estaleiros e estradas? Os negros.” Já foi dito que os escravos faziam de tudo. Eram as mãos e pés do senhor de engenho. As riquezas produzidas no Brasil dependiam desses trabalhadores. André João Antonil, jesuíta que analisou nossa vida econômica e social em seu Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas, escrito no início do século XVIII, noticia a necessidade da importação de trabalhadores escravizados por serem indispensáveis. Afirmou Antonil: “(...) É necessário comprar cada ano algumas peças e reparti-las pelos partidos, roças, serrarias e barcas.” As tarefas mais especializadas (de caldeireiro, carpinteiro, tacheiro e marinheiro) eram realizadas pelos negros que se adaptavam mais rapidamente à nova situação. Serviços brutais eram realizados por homens e mulheres que também pegavam na foice e na enxada, nos canaviais, nas oficinas ou na casa grande; e um número pequeno de trabalhadores livres, assalariados, desempenhando funções de vigilância ou que exigiam conhecimento técnico - como no caso do preparo do açúcar - aumentavam a enorme multidão de explorados.

Formadas de roças e pomares, as grandes fazendas alcançavam praticamente a auto-suficiência. Era comum os escravos terem um dia na semana para plantarem para si; o básico em sua alimentação era a mandioca. Havia ainda nos engenhos outros homens livres e expropriados, que não foram integrados à produção mercantil. Como trabalhavam nas roças de subsistência eram chamados roceiros. Como pagamento do seu trabalho os escravos recebiam castigos: "pau, pano e pão". E reagiam. Em troca dos tormentos, assassinavam feitores, suicidavam-se, evitavam a reprodução, eliminavam capitães-do-mato e mesmo proprietários. A resistência se manifestava nos seus cultos, onde a dominação era simbolicamente contestada. O candomblé foi - e ainda é - um ritual de liberdade, protesto, reação à crueldade e opressão do Deus dos brancos. Dançar, batucar, rezar e cantar eram modos encontrados para alívio da asfixia da escravidão. A dominação era contestada também ao nível do real - na fuga das fazendas e na formação de quilombos, aldeias de negros foragidos, onde tentavam reconstituir em matas brasileiras o modo de vida que levavam na África.

Em seu esforço para estabelecer a verdade quanto ao autêntico trabalho de construção do Brasil, informa Ribeyrolles: “Nas chácaras, nas fazendas, nas moradas urbanas, nas ruas e nas praças das grandes cidades, sobre quem recaíam os trabalhos servis e domésticos? Nas fábricas e nas oficinas, quem girava as molas, acendia os fornos, esfregava, suava, carregava e se incumbia, numa só palavra, dos mais baixos misteres? Os negros, os negros, quase unicamente os negros. O trabalho africano, em todas as coisas e todas as tarefas, foi o instrumento, a mão, a roda e a ferramenta, intervindo em tudo como agente de produção, dos transportes e das mudanças, vivendo para todos os serviços e todos os encargos.” Os castigos corporais eram uma constante. Punições inimagináveis aplicadas sem compaixão. O trabalho diário constituía jornada estafante e muitos senhores estabeleciam que os negros deviam prover o próprio sustento, através do cultivo, fora das horas de trabalho - no que seria o período de descanso - das lavouras para a subsistência. Com isto, não havia repouso suficiente para a reposição de forças. Tudo acontecia sob os olhos atentos dos prepostos dos senhores, vigilantes a qualquer sinal de rebeldia.

A grande maioria dos negros se situava entre a oposição aberta à escravidão e a submissão conformada.

Pouco a pouco, os africanos passavam a ter conhecidas as características de seu comportamento frente à escravidão. Os escravistas puderam formar conceitos quanto à natureza de cada tipo; muitos jamais aceitaram a dominação.

Quando esgotavam as possibilidades de barganhas e concessões partia-se para a ruptura ? o confronto direto.

As fugas eram rotineiras e havia aqueles que se prestavam ao papel de tentar recapturá-los, de preferência com vida, para retornarem ao cativeiro; se fosse preciso, mortos - para servirem como exemplo e desencorajar novas tentativas. O aprisionamento dos fugitivos competia aos capitães-do-mato, que contavam com auxiliares e a colaboração oficial da Justiça colonial.

O ambiente das senzalas era o que restava aos negros para tentar a preservação das suas dimensões humanas, até que surgisse a oportunidade propícia à fuga. Sob o disfarce de cantigas e danças sobreviviam suas crenças e ritos, como a mais inocente forma de diversão.

Gravuras e desenhos feitos pelos primeiros estudiosos que visitaram as terras americanas, registraram cenas da vida na sociedade colonial, onde se encontra impressa a força das manifestações da cultura africana.

Ao som dos atabaques permanecia vivo o culto aos orixás e outras danças das quais se perdeu a memória, mas de onde nasceria o jogo da Capoeira: os movimentos de corpo dos africanos - gestos ancestrais preservados em suas danças - serviram com base para a elaboração de uma luta coletiva; afinal, os meneios de corpo, o jeito solto e ágil, servem perfeitamente tanto ao fascínio da dança quanto à magia da luta.

Sabe-se que os negros eram insuperáveis na luta corpo a corpo, também numa conseqüência direta do vigor físico comprovado no estafante trabalho muscular que exigia alta carga de força. Habituados aos rigores da vida na África, as tarefas que antes se constituíam em atividade necessária na terra natal eram instituídas como trabalho forçado no Brasil. A aparente submissão era o modo dos cativos de costumes e culturas diferentes ganharem o tempo necessário para criar - ou simplesmente aproveitar - a oportunidade de fuga, dificultada pelo fato de sequer possuírem uma língua comum.

A expressão corporal nos ensina há milênios uma linguagem que permite a comunicação sem palavras, estabelecendo a fraternidade nos gestos comuns: a dança revela os sentimentos e evidencia idéias, na plástica e harmonia dos movimentos. Pois disto se serviram os negros: protestando e se insurgindo, individual ou coletivamente, expressando a linguagem do corpo na revolta, na insubordinação às regras do jogo do sistema colonial: formando quilombos, promovendo fugas, e assassinando senhores; mas sua luta passou especialmente pela afirmação de sua cultura.

As fugas dos escravos se tornaram cada vez mais organizadas. É fácil imaginar o negro desarmado, porém exímio no manejo do corpo, a desfechar o golpe certeiro, no momento oportuno - para em seguida ganhar a liberdade. Livre, o terreno de pouco mato era adequado à manutenção da liberdade, permitindo o enfrentamento dos perseguidores. A vegetação rasteira, denominada em língua tupy caá-puera iria dar nome aos guerreiros e à sua luta: Capoeira.

A Capoeira é um bom exemplo de como os negros agiam com malícia dissimulando sua verdadeira intenção ao enfrentar os senhores e seus agentes. Para disfarçá-la, a ginga ? que fazia dela ao mesmo tempo uma luta e uma dança! Cada negro recapturado trazia em si a certeza da liberdade. Tudo apenas uma questão de tentar sempre. Na próxima tentativa... E as fugas se sucediam.

Nas matas, os negros que conquistavam a liberdade formavam quilombos, onde viviam segundo regras próprias. Estas comunidades foram numerosas desde meados do século XVI, havendo-as em todas as capitanias e principalmente na região de Pernambuco e Alagoas. Aí houve uma verdadeira nação, conhecida como Palmares, que enfrentou bravamente os escravocratas.

A destruição de Palmares aconteceu depois de cerca de sessenta anos de luta, por forças comandadas pelo paulista Domingos Jorge Velho e o pernambucano Bernardo Vieira de Melo. Mas este fato não significou derrota total. Cresceu daí a consciência da própria força no povo negro e a certeza de que poderia encontrar a liberdade, nas terras para onde veio trazido como escravo.

Palmares ficou como ponto de referência de uma gente espalhada por todas as partes deste país, simbolizando uma luta secular de libertação de um povo que se identifica não somente pela pigmentação da pele, mas pela mesma herança cultural. A luta do povo de Palmares está viva como ponto de partida para chegarmos a uma sociedade livre.

Desde a época da campanha dos escravistas contra o Quilombo de Palmares ficou o registro da luta heróica em defesa da autonomia cultural.

A existência da Capoeira resulta da longa luta por reconhecimento cultural travada ao longo dos quatro séculos de cativeiro. E o termo capoeira, nome dos guerreiros das capoeiras e de sua estranha forma de luta, que tornava homens desarmados capazes de enfrentar e vencer vários adversários, corporifica ainda hoje nos jovens praticantes do século XXI. Assim é que a luta dos africanos e seus descendentes afro-brasileiros subsiste no jogo da Capoeira.

A respeito das origens remotas da Capoeira é interessante transcrever Albano de Neves e Souza, que escreveu de Luanda, Angola, a Luis da Câmara Cascudo, afirmando: “Entre os Mucope do sul de Angola, há uma dança da zebra N’Golo, que ocorre durante a Efundula, festa da puberdade das raparigas, quando essas deixam de ser muficuemas, meninas, e passam à condição de mulheres, aptas ao casamento e à procriação. O rapaz vencedor do N’Golo tem o direito de escolher esposa entre as novas iniciadas e sem pagar o dote esponsalício. O N’Golo é a Capoeira.” Em seguida, Albano de Neves e Souza passa a expor sua teoria a respeito da evolução do N’Golo no Brasil: “Os escravos das tribos do sul que foram através do entreposto de Benguela levaram a tradição de luta de pés. Com o tempo, o que era em princípio uma tradição tribal foi-se transformando numa arma de ataque e defesa que os ajudou a subsistir e a impor-se num meio hostil”. Neves de Souza acrescenta algumas informações e conclui pela origem africana da Capoeira: “Os piores bandidos de Benguela em geral são muxilengues, que na cidade usam os passos do N’Golo como arma. (...) Outra das razões que me levam a atribuir a origem da Capoeira ao N’Golo é que no Brasil é costume os malandros tocarem um instrumento aí chamado de Berimbau e que nós chamamos hungu ou m’bolumbumba, conforme os lugares, e que é tipicamente pastoril, instrumento esse que segue os povos pastoris até a Swazilândia, na costa oriental da África.” Estes relatos ilustram hipóteses quanto às origens da Capoeira. Note-se que essas danças são conhecidas no Brasil apenas através da literatura sobre o assunto. A história da Capoeira aguarda pesquisa minuciosa em terras africanas com o objetivo de constatar nessas danças os possíveis elementos formadores da Capoeira. Danças com características de luta já foram identificadas em Cuba, Martinica, na Venezuela e em outras localidades das Américas, mas discute-se se teriam origens comuns à Capoeira. Concretamente, temos a luta dos negros, elaborada a partir de gestos e movimentos próprios dos africanos, cuja fonte primária é a terra de onde vieram os guerreiros : a África. De lá veio o elemento matriz no processo que culminou no jogo da Capoeira - o negro! - e os movimentos corporais da capoeira atual são fragmentos atualizados da memória negra afro-brasileira. Recriando a cultura africana nessa terra, os negros não ficaram passivos diante de sua nova condição. Desterrados e escravizados, combateram o poder escravista com uma rica produção cultural, conquistando espaços e recriando sua autonomia e identidade étnica em solo brasileiro. E acabou brasileira esse jogo-luta, como testemunhou Charles Ribeyrolles, um francês que aproveitou o tempo vivido em nossa terra - exilado por Napoleão III - para retratar os costumes da nação que se formava: “No sábado à noite, finda a última tarefa da semana, e nos dias santificados, que trazem folga e descanso, concedem-se aos escravos uma ou duas horas para a dança. Reúnem-se no terreiro, chamam-se, agrupam-se, incitam-se e a festa principia. Aqui é a capoeira, espécie de dança pírrica, de evoluções atrevidas e combativas, ao som do tambor do congo.”

A ORIGEM DO TERMO CAPOEIRA

É de aceitação geral a hipótese do jogo de agilidade corporal ter sido o instrumento utilizado pelos escravos fugitivos na defesa contra seus perseguidores, representados pela figura do capitão-do-mato. E era no mato que se travava a luta decisiva. Pois foi desse tipo de mato - a capoeira - onde os negros buscavam refúgio e ofereciam resistência aos perseguidores, que surgiu também a polêmica que por longo tempo consumiu em debates intermináveis inúmeros intelectuais.

Uma das teorias quanto à origem da expressão capoeira estabelece a língua tupy como aquela de onde procederia a vernaculização: caá-puêra (caá = mato; puêra = que já foi) resultaria nos brasileirismos capuíra, capoêra e capoeira. Outros estudiosos afirmam que a acepção capoeira designa um tipo especial de cesto, usado no transporte de galinhas, que eram conduzidas por escravos aos mercados. A esses escravos teria se estendido o emprego da denominação primeiramente aplicada às gaiolas. Segundo os defensores dessa hipótese, enquanto aguardavam a chegada dos comerciantes, os escravos se divertiam na prática do brinquedo que também seria abrangido pelo nome capoeira. Fora da discussão da origem do termo - assunto para filólogos, como Plínio Ayrosa e Antenor Nascentes - temos concretamente o 'jogo da capoeira' com definição única e universal. Resta ainda a palavra capoeiragem, empregada para nomear a prática desse jogo e utilizada no Código Penal de 1890 pelos juristas da época, que puniam a prática do jogo, classificando-o como atividade criminosa.

ZUMBI: O MESTRE DA RESISTÊNCIA

“Zumbi, comandante-guerreiro/Ogum-iê, ferreiro mor, capitão/Da capitania da minha cabeça/Mandai alforria pro meu coração” Gilberto Gil & Walid Salomão, Zumbi, a felicidade guerreira

Na língua dos negros, 'quilombo' significava povoação, capital, união; no Brasil, teve por significado local de refúgio. Os quilombos eram divididos em aldeias de nome mocambo. Seus integrantes eram chamados quilombolas, calhambolas, mocambeiros.

Zumbi nasceu no quilombo de Palmares por volta de 1655. Décadas antes do seu nascimento este quilombo havia sido fundado por um grupo de escravos fugidos de um engenho no sul de Pernambuco. Localizado bem no alto de uma serra, onde estão hoje situadas partes dos Estados de Alagoas e Pernambuco, de lá era possível a visão privilegiada das imediações.

Herói do povo afro-brasileiro, coube a Zumbi liderar a gente do quilombo num momento decisivo da luta contra os escravistas, empenhados em sufocar a semente da liberdade que teimava por crescer no solo brasileiro.

A história daquele que seria o Zumbi começa quando um grupo de expedicionários liderados por um comandante chamado Brás da Rocha ataca Palmares, no ano de 1655, levando um recém-nascido, entre os adultos capturados. A criança foi entregue ao chefe da coluna atacante, que por sua vez resolveu fazer um presente ao padre Melo, cura de Porto Calvo. O religioso decidiu chamá-lo Francisco. O garoto aprendeu a língua latina, o português e dando mostras da inteligência.

A grande batalha do chefe guerreiro Zumbi, zelando dia e noite pela segurança do seu povo e lutando para que não fosse extinto o ideal de se formarem comunidades onde conviviam negros, índios e brancos, começou ao completar quinze anos, em 1670. Nesse ano Francisco fugiu do padre Melo e voltou para Palmares. Livre desde que nasceu, deixou para trás uma vida muito diferente daquela que iria levar.

Quando Francisco voltou a Palmares, o quilombo havia se transformado numa fortaleza. Segundo estudos recentes, dez mil pessoas, aproximadamente, viviam no local Eram negros fugidos, mulheres capturadas, além de índios e brancos que se escondiam da justiça colonial portuguesa. Plantava-se de tudo para o sustento da população quilombola: feijão, milho, mandioca, cana-de-açúcar, batata. E muitos desses artigos eram comercializados clandestinamente com as cidades vizinhas, pobres em gêneros alimentícios porque se dedicavam a uma única cultura: o plantio da cana-de-açúcar, base da economia de exportação predominante nessa época.

O quilombo de Palmares era uma pequena África onde os negros procuravam resgatar suas raízes, inclusive abandonando os nomes recebidos dos escravistas e trocando por outros de origem africana. À frente desse povoado estava Ganga Zumba e nas pequenas aldeias lideravam chefes locais.

Ao retornar a Palmares, Francisco, com seus quinze anos, passou a ser Zumbi. Vale lembrar que o Deus principal de Camarões e do Congo é chamado Nzambi; em Angola denominavam Zambi o que morreu; e no Caribe, Zumbis são mortos-vivos, criaturas que mesmo no além jamais descansam.

Em Palmares foi livremente constituída sua família - pai, irmãos, tias e tios. O principal dentre seus parentes: Ganga Zumba. Pouco depois de retornar ao quilombo, Zumbi já era chefe de um desses mocambos e defendia a região com imensa habilidade.

Palmares sofreu diversas investidas durante quase cem anos. Quando os holandeses invadiram o Brasil, por volta de 1624, esses ataques diminuíram muito: os colonos lusitanos estavam mais preocupados em defender o território das ameaças externas. Foi nessa época que o Quilombo mais se desenvolveu. Entretanto, após a expulsão holandesa em 1654, uma verdadeira campanha contra Palmares se fez surgir. Dezessete expedições organizadas por vilas próximas, bem como pelo próprio governo de Pernambuco, embrenharam-se pela mata para derrubar os palmarinos.

Em 1677, um tal Fernão Carrilho, exímio caçador de negros entrou em ação. Marchando contra Palmares com seus combatentes, Carrilho conseguiu derrubar alguns chefes de mocambos e matar vários quilombolas. Neste ataque, Ganga Zumba foi ferido, mas ainda assim conseguiu fugir. Em decorrência disso, foi levado a aceitar um tratado de paz proposto pelo governador de Pernambuco em que se prometia liberdade apenas aos nascidos no Quilombo.

Aos 23 anos, Zumbi rejeitou a paz dos escravistas, paz que garantia sua liberdade - pois nascera em Palmares. Desmoralizado por aceitar a proposta, Ganga Zumba viu-se diante de uma operação dos quilombolas organizados para depô-lo, sob a liderança de Zumbi, que nesse contexto tornou-se o líder maior do quilombo. Ganga Zumba desistiu de tudo, partiu para Cacaú, ao sul de Pernambuco, onde viria a morrer envenenado pouco tempo depois. Acredita-se que tenha sido morto por enviados de Zumbi.

Zumbi assumiu o posto de chefe maior e reorganizou toda a estrutura de Palmares. Preparou seus homens para os combates que estavam por vir. Durante esse período, o governador de Pernambuco e a própria Coroa procuraram negociar, garantindo vida ao líder e a seus familiares, caso aceitasse a rendição. Zumbi preferiu lutar a entregar seu povo: sua dignidade não tinha preço.

Os senhores de engenho não aceitavam as perdas de escravos, mercadorias muito valiosas; o governo colonial não suportava mais tanta derrota. Foi quando surgiu a idéia de contratar os bandeirantes paulistas, conhecidos por serem grandes desbravadores e verdadeiros assassinos.

Na guerra contra Zumbi e o povo de Palmares o sistema escravista pretendia varrer da memória coletiva até a lembrança da existência de possibilidades reais das populações oprimidas construírem uma alternativa à estrutura social baseada na exploração do trabalho forçado. O combatente que representava os civilizados escravagistas: Domingos Jorge Velho.

Sobre este paulista, encarregado de destruir Palmares, escreveu em 1697 um seu contemporâneo, o Bispo de Pernambuco: “Este homem é um dos maiores selvagens com que tenho topado... tendo sido sua vida, desde que teve razão - se é que teve, de sorte a perdeu tanto que entendo não a achará com facilidade - até o presente, andar pelos matos à caça dos índios, e de índias, estas para o exercício das suas torpezas e aqueles para o granjeio de seus interesses.” Após uma primeira derrota, Domingos Jorge Velho iria travar a batalha definitiva no ano de 1694. Antes de completar 25 anos de vida, Zumbi se recusou a desistir de lutar pela liberdade sem adjetivos, concessões ou condições: combateria até o fim.

Apesar de toda a violência e da selvageria dos prepostos do sistema colonial, não foi possível derrotar o símbolo do heroísmo do povo brasileiro. Após muitos anos de luta os escravistas não conseguiram submeter a alma dos resistentes. Cada guerreiro morto em defesa do direito à liberdade é um exemplo de que só existimos na plenitude quando somos livres. E morrer nessa luta significa dar a vida pela própria vida.

Símbolo da resistência à dominação, Zumbi dos Palmares é referência legada tanto às gerações africanas trazidas ao Brasil quanto aos seus descendentes afro-brasileiros. Mestre na luta pela liberdade, seu vulto se confunde com o caminho para a consciência do povo brasileiro.

“Minha espada espalha o sol da guerra Rompe mato, varre céus e terra a felicidade do negro é uma felicidade guerreira Do maracatu, do maculelê e do moleque bamba Minha espada espalha o sol da guerra Meu quilombo incandescendo a serra Taliqual o leque, o sapateado do mestre-escola de samba Tombo da ladeira, rabo de arraia, fogo de liamba...” Acompanhado de um grupo considerável de combatentes fortemente armados, Domingos Jorge Velho se lançou em direção à Cerca Real do Macaco, onde se encontravam Zumbi e todo o seu exército. Grande foi sua surpresa ao encontrar o esquema de defesa montado pelos quilombolas. Muros gigantescos de pedra e madeira formavam três fileiras, seguidas logo após por buracos camuflados com estacas pontiagudas em seu interior. Em seguida, uma outra muralha mais comprida, contava com guaritas que abrigavam atiradores.

Amedrontado, Jorge Velho mandou buscar canhões de Recife e construiu, paralelamente à muralha de Zumbi, uma outra muralha. O ataque foi fatal. O grande chefe dos quilombolas foi apanhado de surpresa pelo descuido de um sentinela. Muitos morreram combatendo ou se suicidaram; outros tentaram fugir pelo lado esquerdo da Cerca Real, onde havia enorme precipício. Zumbi foi um dos que conseguiu sobreviver à matança, mas Palmares foi inteiramente destruída.

Zumbi comandou seus guerreiros e venceu inúmeras batalhas empregando com talento as técnicas da guerra de guerrilhas. No combate em posição fixa encontrou o fracasso. Perdeu o domínio da Serra da Barriga, onde se estabeleceram - entre disputas e conflitos pessoais - os vencedores: bandeirantes, militares e "homens de bem" de Pernambuco e Alagoas. Só restava uma alternativa: retornar à estratégia da guerra do mato. Eram cerca de mil homens. Os guerreiros foram divididos em dois bandos e foi confiada a chefia de um dos grupos a um companheiro chamado Antônio Soares, que sofreu uma emboscada. Soares foi preso e enviado sob forte escolta para Recife.

Nesse trajeto a escolta se encontrou com uma bandeira, chefiada por André Furtado. Soares foi seqüestrado e por longo tempo sofreu violentas torturas aplicadas por seus captores: queriam que revelasse onde era o esconderijo de Zumbi. Como não obtinha êxito, Furtado mudou de tática: garantia sua vida e liberdade se cooperasse. Deu certo. Soares era da confiança de Zumbi. Foram em sua procura, e quando Zumbi se preparava para abraçar o companheiro, foi surpreendido: Soares cravou-lhe uma faca na barriga.

Nos olhos de Zumbi deve ter surgido então um outro brilho: de tristeza e desencanto. Dos seis guerreiros que o acompanhavam, a fuzilaria que saía do mato ao redor derrubou cinco, de imediato. Ferido e sozinho, lutou até o último momento: matou um dos atacantes e feriu outros. Amanhecia o dia 20 de novembro de 1695.

Zumbi foi esfaqueado, baleado e mutilado, tendo seu órgão genital masculino decepado e enfiado em sua boca. Era um homem magro, pequeno e coxo; muito diferente da imagem construída a seu respeito. Seu corpo foi reconhecido pelo padre Antônio Melo, o mesmo que batizara o pequenino Francisco. Segundo o padre, algumas vezes Zumbi desceu a Porto Calvo para visitar seu antigo tutor e numa dessas visitas o guerreiro já estava com a perna afetada por um ferimento sofrido em combate.

A violência contra Zumbi não parou aí: sua cabeça foi cortada, mergulhada em sal e mandada para Recife, com a finalidade de ser vista pelo povo que o considerava imortal. Mas isso de nada disso foi suficiente para impedir que renascesse num mito: sua coragem, sua força se tornaram eternas para os que continuaram resistindo contra a escravidão. Assim é que nos muitos quilombos que se formaram pelo Brasil nos séculos seguintes e para os que hoje relembram a sua história de luta, Zumbi permanece vivo na lição de resistência.

De forma exemplar, Zumbi encarna os horrores do escravismo. Zumbi permanece vivo na lição de resistência e é - para sempre! - um cadáver insepulto, um morto vivo. Sua lembrança sobreviverá aos tempos que nos obrigam a sonhar, à historiografia oficial que insiste em ignorar sua real importância. Permanecerá como símbolo das atrocidades infindáveis do poder ilimitado, arbitrário, prepotente. Ficará, acima de tudo, como exemplo a todos que resistem à opressão e lutam por liberdade e justiça.

“Em cada estalo, em todo estopim, no pó do motim Em cada intervalo de guerra sem fim Eu canto, eu canto, eu canto assim A felicidade do negro é uma felicidade guerreira...

II

CAPOEIRA & CAPOEIRAS “Meu chapéu de lado/tamanco arrastando lenço no pescoço/ navalha no bolso, eu passo gingando/ provoco desafio, eu tenho orgulho de ser vadio.

Sei que eles falam desse meu proceder, eu vejo quem trabalha andar no miserê.

Eu sou vadio porque tive inclinação.

Quando era criança, tirava samba-canção.” Wilson Batista, Lenço no Pescoço.

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