HISTÓRIAS DA CAPOEIRA
“Vou contar uma história/do tempo da escravidão/ vou contar com muita dor/muita dor no coração”
Fornecendo elementos para a história do Brasil, jogo da Capoeira se fez presente em todos os períodos, desde a colônia. Inúmeros memorialistas e cronistas de costumes fixaram a imagem de capoeiras célebres e suas peripécias, sendo possível flagrar a construção da identidade brasileira através do acompanhamento da história da capoeira.
Acredita-se que a existência da Capoeira remonte às senzalas, às fugas dos negros e aos quilombos brasileiros da época colonial: os escravos fugitivos, pare se defenderem, fazendo do próprio corpo uma arma. As origens da Capoeira estão nesse ambiente, onde os negros relembravam suas velhas danças e rituais da África. A maioria dos golpes assemelha-se às defesas e ataques de animais: a marrada do touro, o coice do cavalo, a fisgada do rabo de arraia. Ou então guardam relação com instrumentos de trabalho cuja ação é semelhante aos movimentos do corpo dos capoeiras: o martelo batendo, a foice roçando o mato.
Não há indicações seguras de que a Capoeira, conforme a conhecemos no Brasil ainda hoje, tenha se desenvolvido em qualquer outra parte do mundo. Não existem pesquisas históricas a respeito da capoeira nos séculos XVI a XVIII. Não é possível, portanto, reconstruirmos o processo que levou ao deslocamento da capoeira do campo à cidade. Esse processo deve ter ocorrido por volta do começo do século XIX, considerando que datam desse período as primeiras referências históricas (até agora conhecidas) referentes aos capoeiras urbanos.
No século XIX, os três principais centros históricos da capoeira eram as cidades do Rio de Janeiro, Salvador e Recife. Destacava-se a Capoeira carioca em virtude da presença maciça e organizada das maltas de capoeiras, as quais distribuíam-se por todas as freguesias da Corte.
À época do Brasil colonial, a presença da Capoeira já se encontrava de tal forma sedimentada na sociedade que os capoeiras passaram a formar uma classe. Premidos pelas circunstâncias, faziam usos variados da habilidade que a arte lhes conferia. Com o emprego de diversos instrumentos de ataque e defesa, passaram a prestar serviços aos membros das classes dominantes, que deles se serviam para a execução de crimes que garantiam a continuidade no poder.
As descrições do século passado revelam o emprego da mandinga como estratégia eficiente de luta dos capoeiras.
O pintor Rugendas (1835), retratou a Capoeira na gravura intitulada Jogar capoeira ou dança da guerra. Nela dois negros gingam ao som de um atabaque - tocado por um negro sentado - diante de uma assistência composta por nove negros (dentre os quais três mulheres). O cronista refere-se ao que vê como uma “dança da guerra” ou um “folguedo guerreiro”, onde há “campeões” e “adversários” e como uma “briga” na qual as “facas” acabam com a “brincadeira”.
Discorrendo sobre os “usos e costumes dos negros”, após mencionar uma “espécie de dança militar” Rugendas faz a seguinte descrição: “(...) um outro folguedo guerreiro, muito mais violento, a ‘capoeira’: dois campeões se precipitam um contra o outro, procurando dar com a cabeça no peito do adversário que desejam derrubar. Evita-se o ataque com saltos de lado e paradas igualmente hábeis; mas, lançando-se um contra o outro mais ou menos como bodes, acontece-lhes chocarem-se fortemente cabeça contra cabeça, o que faz com que a brincadeira não raro degenere em briga e que as facas entrem em jogo ensangüentando-a”.
O cronista Luiz Edmundo fez interessante registro do capoeira dessa época, em ‘O Rio de Janeiro no Tempo dos Vice-Reis’, retratando o "Capoeira Carioca": “De volta, pelo caminho que vai à vala, penetramos a rua dos Ourives, das de maior concorrência na cidade.
'À porta do estanco de tabaco está um homem diante de um frade nédio e rubicundo. Mostra um vasto capote de mil dobras, onde a sua figura escanifrada mergulha e desaparece deixando ver apenas, de fora, além de dois canelos finos, de ave pernalta, uma vasta, uma hirsuta cabeleira, onde naufraga em ondas tumultuosas alto feltro espanhol.
'Fala forte. Gargalha. Cheira a aguardente e discute. É o capoeira.
'Sem ter do negro a compleição atlética ou sequer o ar rijo e sadio do reinol é, no entanto, um ser que toda a gente teme e o próprio quadrilheiro da justiça, por cautela, o respeita.
'Encarna o espírito da aventura, da malandragem e da fraude; é sereno e arrojado e na hora da refrega ou da contenda, antes de pensar na chupa ou na navalha, sempre ao manto cosida, vale-se de sua esplêndida destreza, com ela confundindo e vencendo os mais armados e fortes contendores.
'Nessa hora o homem franzino e leve transfigura-se. Atira longe o seu feltro chamorro, seu manto de saragoça e aos saltos, como um símio, como um gato, corre, recua, avança e rodopia, ágil, astuto, cauto e decidido. Nesse manejo inopinado e célere, a criatura é um ser que não se toca, ou não se pega, um fluido, o imponderável, pensamento, relâmpago. Surge e desaparece.
'Mostra-se de novo e logo se tresmalha. Toda sua força reside nessa destreza elástica que assombra e diante da qual o tardo europeu vacila atônito, o africano se trasteja.
'Embora na hora da luta traga ele entre a dentuça podre o ferro da hora extrema, é da cabeça, braço, mão e perna ou pé que se vale para abater o êmulo minaz.
'Com a cabeça em meio aos pulos em que anda, atira a cabeçada sobre o ventre daquele com quem luta e o derruba. Com a perna lança a trave, o calço. A mão joga a tapona e com o pé a rasteira, o pião e ainda o rabo de arraia.
'Tudo isso numa coreografia de gestos que confunde. Luta com dois, com três, e até quatro ou cinco. E os vence a todos. Quando os quadrilheiros chegam com suas armas e os seus gritos de justiça, sobre o campo de luta nem traço mais se vê do capoeira feroz que se fez nuvem, fumaça e desapareceu.
'Na hora da paz ama a música, a doçura sensual do brejeiro lundu, dança a fôfa, a chocaina e a sarambeque pelos lugares onde haja vinho, jogo, fumo e mulatas. Freqüenta os pátios das tabernas, os antros da maruja para os lados do Arsenal. Usa e abusa da moral da ralé, moral oblíqua, reclamando pelourinho, degredo e às vezes, forca.
'Tem sempre por amigo do peito um falsário, por companheiro de enxerga um matador profissional e por comparsa, na hora da taberna, um ladrão. No fundo, ele é mau porque vive onde há o comércio do vício e do crime. Socialmente, é um cisto, como poderia ser uma flor. Não lhe faltam, a par dos instintos maus, gestos amáveis e enternecedores. É cavalheiresco para com as mulheres. Defende os fracos. Tem alma de Dom Quixote. E com muita religião. Muitíssima. Pode faltar-lhe ao sair de casa o aço vingador, a ferramenta de matar, até a própria coragem, mas não esquece do escapulário sobre o peito e traz na boca, sempre, o nome de Maria ou de Jesus.
'Por vezes, quando a sombra da madrugada ainda é um grande capuz sobre a cidade, está ele de joelhos, compassivo e piedoso, batendo no peito, beijando humildemente o chão, em prece, diante de um nicho iluminado, numa esquina qualquer. Está rezando pela alma do que sumiu do mundo, do que matou.
'É de crer que, como sentimento, o capoeira é realmente um tipo encantador...” Durante a primeira metade do século XIX, a Capoeira parece ter se configurado como uma experiência essencialmente escrava. Entretanto, a partir dos anos 1850, altera-se a composição étnica e social de seus praticantes, com a incorporação de libertos e livres, muitos dos quais brancos. Dentre esses últimos havia alguns membros da elite e também inúmeros estrangeiros, predominantemente portugueses. Tal ampliação introduz mudanças na prática da capoeira como a disseminação do uso da navalha, característico dos fadistas lusitanos.
Durante o segundo reinado, algumas maltas de capoeira tiveram intensa atuação política, inclusive atuando junto aos partidos da época. A aproximação com a política monárquica lhes acarretará uma implacável perseguição por parte dos republicanos sendo que estes, ao assumirem o poder, incluirão a prática da capoeira como um crime previsto pelo Código Penal de 1890.
Já em 1872 levantavam-se as primeiras vozes pedindo a criminalização da capoeira. Reconhecendo os esforços da polícia para reprimir a “audácia” dos capoeiras, “terror da população pacífica”, o chefe de polícia do Rio de Janeiro reclama, em seu relato anual, da dificuldade de se reprimir a capoeira posto que esta “não é um crime de acordo com o Código Criminal” (Holloway,1989:669).
Seis anos depois, novamente se fala sobre o assunto, porém observa-se uma diferença qualitativa na razão da perseguição aos capoeiras. Se, até aqui, os capoeiras são perseguidos, principalmente, porque oferecem algum tipo de ameaça física aos “pacíficos cidadãos”, seja quando “cometem ferimentos” ou ``provocam desordens”, agora o argumento primordial é outro. Referindo-se à capoeira como uma “doença moral” que prolifera na “grande e civilizada cidade”, o chefe de policia da Corte ressalta a necessidade de se formalizar a criminalização da capoeira, sugerindo a deportação dos estrangeiros e o envio dos brasileiros para colônias penais (op. cit. 1989:669).
Nesse período muda o motivo central da argumentação policial: o discurso da repressão passa a coadunar-se com os pressupostos evolucionistas vigentes àquela época. Esses conceitos, pautados numa abordagem biológica do social, pressupunham a inferioridade racial do negro. Assim, o temor do “contágio moral” da “barbárie negra” orientava a ação das autoridades.
No entanto, a Capoeira, ao mesmo tempo em que sofre uma intensificação da perseguição policial, começará também a ser descrita por alguns literatos cariocas, não apenas pelo que “tem de mau e bárbaro” mas também como uma “excellente gymnastica”, a ser adotada inclusive nas escolas e quartéis, surgindo aqui uma nova representação social para essa prática, vista agora como “herança da mestiçagem no conflito das raças” e, portanto, “nacional” (Moraes Filho,1893/1979:257).
Muitos dos nossos escritores empolgaram-se com a Capoeira e seus adeptos. Joaquim Manuel de Macedo, em Memórias de Um Sargento de Milícias; Aluízio de Azevedo, em O Cortiço, são alguns dos que buscaram retratar cenas do período em que capoeiras pontificavam, nas suas lutas.
Desde o Império (1822-1889) a presença da Capoeira na vida brasileira foi acentuada. Consta que possuía D. Pedro I um capoeira como guarda-costas, servindo-lhe de proteção em suas andanças noturnas. E não eram poucos os nobres que dominavam recursos da Capoeira. Os negros encarregados dos serviços domésticos muitas vezes ensinavam aos sinhozinhos alguns de seus segredos. Cada vez mais a luta era praticada, rompendo todas as barreiras.
O capoeira dessa época tinha por escola as praças, ruas e corredores. Formavam bandos perigosos, que se davam a conhecer entre si pelas características dos chapéus, lenços, roupas, fitas e tantas convenções quanto era possível imaginar.
A criminalização da capoeira não foi consensual mas significou a vitória política de uma determinada facção da classe dirigente nacional.
Em 11 de outubro de 1890 foi promulgada a Lei nº 487, de autoria de Sampaio Ferraz, proibia a prática da capoeira e previa punição de 2 a 6 meses de trabalho forçado na ilha de Fernando de Noronha. No artigo 402, que tratava "Dos vadios capoeira", lia-se: 'Fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal conhecidos pela denominação capoeiragem; andar em correrias, com armas ou instrumentos capazes de produzir uma lesão corporal, provocando tumulto ou desordem, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal. Pena - prisão celular de dois a seis meses. Parágrafo único: é considerada circunstância agravante pertencer o capoeira a algum bando ou malta. Aos chefes e cabeças se imporá a pena em dobro".
Como não eram apenas os negros e mestiços que praticavam a Capoeira, a lei acabou atingindo importantes pessoas da nobreza. Exemplo disso foi o conhecido caso de José Elísio dos Reis. Seu pai era o conde de Matosinhos, proprietário do jornal O País. Conhecido de todos como praticante da Capoeira, Juca Reis, antes da aprovação da lei estava em Portugal. Quando retornou ao Brasil foi preso por Sampaio Ferraz. A sua liberdade foi conseguida graças à influência de Quintino Bocaiúva, ministro das Relações Exteriores no primeiro governo republicano brasileiro. Quintino ameaçou renunciar ao cargo se Juca Reis não fosse liberto. O ministro teve seu pedido aceito pelo marechal- presidente Deodoro: o capoeira Juca Reis foi solto e retornou a Portugal.
Os capoeiras foram perseguidos por todo o século XIX. Se por um lado a sua ação provocava verdadeiro pânico numa parcela da população - especialmente nas elites! - que apoiava a repressão policial, muita gente desconfiava dessa ação. O texto publicado no jornal Diário de Notícias, da cidade do Rio de Janeiro, em 19 de janeiro de 1890, é uma amostra irônica da reação popular à violenta campanha policial: "É polícia das primeiras/É levadinha do diabo/Deu cabo dos capoeiras/Vai dos gatunos dar cabo/Já da navalha afiada/A ninguém o medo aperta/Vai poder a burguesada/Ressonar com a porta aberta A ir assim poderemos/Andar mui sossegadinhos/Nessa terra viveremos/Como Deus com seus anjinhos/Ai! Assim continuando/A polícia hemos de ver/As suas portas fechando/Por não ter mais que fazer" Melo Moraes Filho, em Festas e Tradições Populares do Brasil (1893), fala a respeito dos grupos que formavam - as maltas - e suas proezas ao tempo do Império: “A categoria de chefe da malta só atingia aquele cuja valentia o tornava inexcedível e de chefe dos chefes o mais afoito entre estes, mais refletido e prudente.
'Os capoeiras, até quarenta anos passados, prestavam juramento solene e o lugar escolhido para isso eram as torres das igrejas. As questões de freguesia ou de bairro não os desligavam, quando as circunstâncias exigiam desagravo comum; por exemplo: um senhor, por motivo de capoeiragem, vendia para as fazendas um escravo filiado a qualquer malta; eles reuniam-se e designavam o que havia de vingá-lo.
'No tempo em que os enterramentos faziam-se nas igrejas e que as festas religiosas amiudavam-se, as torres enchiam-se de capoeiras, famosos sineiros que montados na cabeça dos sinos acompanhavam toda a impulsão dos dobres, abençoando das alturas o povo que os admirava, apinhado nas praças ou nas ruas.” Em seguida, passa o memorialista a descrever alguns movimentos da Capoeira, com riqueza de detalhes que nos leva a supor não lhe serem desconhecidos os segredos dessa arte: “A capoeiragem antiga e a moderna tem a sua gíria e sua maneira de expressão, pela qual são compreendidos os lances do jogo. Deveras arriscados, difíceis e dependendo de rapidez e hábito, não é sem longa prática que conseguem tais contendores fazerem-se notáveis. Para darmos uma pálida idéia da gíria e do jogo, ajustamos por aquela algumas evoluções deste. Um dos preparativos mais rudimentares do capoeira é o ‘rabo de arraia’. Consiste ele na firmeza de um pé sobre o solo e na rotação instantânea da perna livre, varrendo a horizontal, de sorte que a parte dorsal vá bater no flanco do contendor, seguindo-se após a cabeçada ou a rasteira, infalíveis corolários da iniciação do combate.
'Por ‘escorão’ entendem eles amparar inesperadamente o pé de encontro ao ventre do adversário, o que é um subterfúgio que difere do ‘pé de panzina’, que é o mesmo resultado porém feito não como um recurso do jogo, mas deixando à destreza tempo de varrê-lo.
'O ‘passo a dois’ (gíria moderna) é um sapateado rápido que antecede à cabeçada e a rasteira, da qual o acometido se livra armando o ‘clube x’, que quer dizer o afastamento completo das tíbias e união dos joelhos, que formando larga base, estabelece equilíbrio, recebendo no embate o salto da botina, que ainda ofende o adversário.
'O ‘tombo da ladeira’ é tocar no ar, com o pé, o indivíduo que pula; a ‘rasteira a caçador’ é o meio ginástico de que servem-se para - deixando-se cair sobre as costas, ao mesmo tempo que firmam-se sobre as mãos - derrubarem o contrário imprimindo-lhe com o pé violenta pancada na articulação tíbio tersianal.” Melo Moraes traça um retrato de fatos sociais do Rio de Janeiro e da intensa repressão policial à Capoeira, associada à criminalidade.
“As escolas de capoeiragem multiplicavam nesta cidade, pertencendo cada turma de discípulos a esta ou aquela freguesia.
'Desde a dos caxinguelês, meninos que iam à frente das maltas provocar inimigos, até a dos mestres que serviam para exercícios preparatórios, esses cursos regulares funcionavam sendo os mais freqüentados o da Praia do Flamengo, o do morro da Conceição, o da Praia de Santa Luzia, não falando nas torres das igrejas - ninhos atroados de capoeiras de profissão.
'Alistados nos batalhões da guarda nacional os capoeiras exerciam poderosa influência nos pleitos eleitorais, decidiam das votações, porque ninguém melhor do que eles arregimentavam votos, emprenhavam urnas, afugentavam votantes, etc.
'Muitos dos comandantes dos corpos e grande parte dos aficionados entendia do jogo, ou eram habilíssimos na arte.
'Os desafios entre as freguesias transmitiam-se por meio de pancadas de sino convencionais e em horas determinadas. Os combates davam-se nas praças, nas ruas, em sítios mais ou menos distantes e desertos.
'Às vezes, interrompendo a marcha de uma procissão, o desfilar de um cortejo, ouvia-se, aos gritos das senhoras correndo espavoridas, dos negros levando senhores moços ao colo, dos pais de família pondo no abrigo a mulher e os filhos, o horroroso ‘Fecha! Fecha!’. Os caxinguelês voavam na frente, a capoeiragem disparava indômita, seguindo-se aos distúrbios cabeças quebradas, lampiões apedrejados, facadas, mortes, etc...
'A polícia, amedrontada e sem força, fazia constar que perseguia os desordeiros, acontecendo raríssimas vezes ser preso este ou aquele que respondia a processo.
'Pertencendo à segunda fase da capoeiragem no Rio de Janeiro, essas cenas tiveram lugar durante a administração policial de Eusébio de Queiroz e de seus sucessores, desaparecendo totalmente com a guerra do Paraguai, que não acabou somente com os capoeiras, porém assinalou o termo do patriotismo brasileiro.” Em seguida o cronista passa a reportar-se às personalidades eminentes da época que se notabilizaram também pelos conhecimentos do jogo da Capoeira.
“É geralmente sabido pela tradição que no Senado, na Câmara dos Deputados, no Exército, na Marinha, no funcionalismo público, na cena dramática e mesmo nos claustros, havia capoeiras de fama, cujos nomes nos são conhecidos.
'Nas garrafadas de março, um dos nossos mais eloqüentes oradores sacros fez prodígios nesse jogo, livrando-se de seus agressores; recordamo-nos de um frade do Carmo que por ocasião de uma procissão de enterro, debandou a cabeçadas e rasteiras um grupo de indivíduos imprudentes que o provocaram.
'Pergunte-se por aí qual o ator cuja valentia e destreza como capoeira eram respeitados, e acreditai que a popularidade precisaria muito para atingir-lhe o pedestal.
'Quando estudamos no Colégio de Pedro II foi nosso lente de francês o bacharel Gonçalves, bom professor e melhor capoeira.
'O Dr. D. M., jurisconsulto eminente e deslumbrante glória da tribuna criminal, cultivou em sua mocidade essa luta nacional, entusiasticamente levada a excessos pelo povo baixo, que a afogou nas desordens, em correrias reprováveis, em homicídios horrorosos.
'Pode-se dizer que de 1870 para cá os capoeiras não existem e se um ou outro, verdadeiramente digno desse nome pela lealdade antiga, pela confiança própria e pelo conhecimento da arte resta por aí, veio daquele tempo em que a capoeiragem tinha disciplina e dirigia-se a seus fins.
'Navalhar à traição, deixar-se prender por dois ou três soldados e espancar a um pobre velho, ser vagabundo e ratoneiro, nunca constituíram os espantosos feitos das maltas do passado, que brigavam freguesia com freguesia, disputavam eleições arriscadas, levavam à distância cavalaria e soldados de permanentes quando intervinham em conflitos de suscetibilidade comum.
'O capoeira isolado, naqueles tempos, trabalhava, constituía família, a vadiagem lhe era proibida, não era gatuno, afrontava a força pública e só se entregava morto ou quase morto.
'Como fizemos ver em princípio, as turmas militantes condensavam as classe operárias e os escravos, expressão nítida da capoeiragem de rua.” Em outro momento da sua narrativa, Melo Moraes fala da presença de portugueses e demais cidadãos no meio da Capoeira, à época assimilada como costume popular.
“Não sendo estranhos ao jogo, portugueses havia que se aliavam às maltas avulsas, distinguindo-se entre eles homens de inaudita coragem e espantosa agilidade.
'Luzidas companhias de batalhões da guarda nacional, de que tinham orgulho briosos comandantes, reuniam magnífica rapaziada, de onde eram tirados praças para diligências perigosas, servindo igualmente para as campanhas eleitorais.
'A prova de que a capoeiragem entrava nos nossos costumes está em que não havia menino que não botasse o boné à banda e soubesse gingar, nem escolas que se não desafiassem para brigar, sendo de data recente as lutas entre os famosos colégios Sabino, Pardal e Vitorio.” Mello Moraes Filho dá uma idéia precisa da simulação e dissimulação da intenção durante o jogo de capoeira: “O capoeira, colocado em frente a seu contendor, investe, salta, esgueira-se, pinoteia, simula, deita-se, levanta-se e, em um só instante, serve-se dos pés, da cabeça, das mãos, da faca, da navalha, e não é raro que um apenas leve de vencida dez ou vinte homens” .
Ao encerrar a reportagem da Capoeira no começo do século XIX, traça Melo Moraes o perfil do famoso capoeira Manduca da Praia.
“O Manduca da Praia era um pardo claro, alto, reforçado, gibento e quando o vimos usava barba crescida em ponta, grisalha e cor de cobre.
'De chapéu de castor branco ou de palha ao alto da cabeça, de olhos injetados e grandes, de andar compassado e resoluto, a sua figura tinha alguma coisa que infundia temor e confiança.
'Trajando com decência, nunca dispensava o casaco grosso comprido, grande corrente de ouro que prendia o relógio, sapatos de bico revirado, gravata de cor com anel corrediço, trazendo somente como arma uma bengala fina de cana da Índia.
'O Manduca tinha uma banca de peixe na praça do Mercado, era liso em seus negócios, ganhava bastante e trabalhava com regalo.
'Constante morador da Cidade Nova, não recebia influências da capoeiragem local nem de outras freguesias, fazendo vida à parte, sendo capoeira por sua conta e risco.
'Destro como uma sombra, foi no curro da rua do Lavradio, canto da do Senado, onde é hoje uma cocheira de andorinhas, que ele iniciou a sua carreira de rapaz destemido e valentão, agredindo touros bravios sobre os quais saltava, livrando-se.
'Nas eleições de S. José dava cartas, pintava o diabo com as cédulas.
'Nos esfaqueamentos e sarilhos próprios do momento ninguém lhe disputava a competência.
'Um dia, na festa da Penha, o Manduca da Praia bateu-se com tanta vantagem contra um grupo de romeiros armados de pau, que alguns ficaram estendidos e os mais inutilizados na luta.
'O fato que mais o celebrizou nesta cidade remonta à chegada do deputado Sant’ana, cavalheiro distintíssimo e invencível jogador de pau, dotado de uma força muscular prodigiosa.
'Sant’ana, que gostava de brigas e não recuava diante de quem quer que fosse, tendo notícia do Manduca, procurou-o.
'Encontrando-se os dois, houve o desafio, acontecendo àquele saltar aos ares ao primeiro canelo do nosso capoeira, depois do que beberam champagne ambos e continuaram amigos.” Outro capoeira famoso no começo do século XX foi Prata Preta, um dos principais líderes populares da Revolta da Vacina (1904), que se notabilizou por seus confrontos com a policia durante o conflito. Sobre essa época é interessante a leitura do relato de Lima Campos, em artigo intitulado “A Capoeira”, publicado em 1906 na Revista Kosmos. trazendo o registro de um flagrante testemunhado pelo jornalista: "A alma do capoeira é o olhar; uma esgrima sutil, ágil, firme, atenta, em que a retina é o florete flexível, penetrante, indo quase devassar a intenção ainda oculta, o desejo apenas pensado, voltada sempre para o adversário, apanhando-lhe todos os movimentos, surpreendendo-lhe os mais insignificantes ameaços, para desviá-los, em tempo, com a destreza defensiva dos braços em rebates lépidos ou evitá-los com os desvios laterais e os recuos saltados do corpo, leve, sobre ponta de pés, até facultar e perceber a aberta e entrar, 'para ver como é, para contar como foi', segundo o calão próprio.
'O capoeira não inutiliza unicamente o adversário pelos seus golpes; inutiliza-o também, e pior, pelo ridículo.
'Não lutava em silêncio, proferia sempre termos grosseiros visando exasperar, ridicularizar o contendor. Na churumela (cabeçada), por exemplo, que eles denominavam 'levar a torre do pensamento ao aparelho mastigante do poeta', o adversário era atingido com a cabeça num golpe vigoroso, desfechado embaixo do queixo, projetado no espaço e finalmente, esborrachava-se de ventre no chão, ou em cambalhotas com pernas para cima".
O jornalista e escritor Coelho Neto (1864-1934), professor de Literatura e Teatro, formado pela Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, autor de mais de cem obras literárias e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras (cadeira nº 2), também praticou a Capoeira. Em 'O Nosso Jogo', um dos capítulos do seu livro Bazar, também registra suas impressões sobre as características da arte no seu tempo: "O que matou a capoeiragem entre nós foi... a navalha. Essa arma, entretanto, sutil e covarde, raramente aparecia na mão de um chefe de malta, de um verdadeiro capoeira, que se teria por desonrado se, para derrotar um adversário, se houvesse de servir do ferro".
Em outra passagem Coelho Neto esclarece que a arma era descartada pelo capoeira que sabia aplicar com eficiência os golpes, tirando de ação o adversário: "O capoeira digno não usava navalha: timbrava em mostrar as mãos limpas quando saía de um turumbamba (briga, desordem). Generoso, se trambolhava (aplicava queda violenta) o adversário, esperava que ele se levantasse para continuar a luta porque "não batia em homem deitado"; outros diziam, com mais desprezo, "em defunto".
É interessante observar os contornos do perfil do capoeira carioca descrito por Coelho Neto: 'O capoeira que se prezava tinha ofício ou emprego, vestia com apuro e, se defendia uma causa, como aconteceu com a do Abolicionismo, não o fazia como mercenário.
'Quanto às provas de superioridade da capoeiragem sobre os demais esportes de agilidade e força são tantas que seria prolixa a enumeração.
'Além dos feitos dos contemporâneos de Boca Queimada e Manduca da Praia, heróis do período áureo do nosso desestimado esporte, citarei, entre outros, a derrota de famoso jogador de pau, guapo rapagão minhoto, que Augusto Mello duas vezes atirou de catrambias (desprezo) no pomar da sua chacarinha em Vila Isabel onde, depois da luta e dos abraços de cordialidade, foi servida vasta feijoada.
'Outro: a tunda infligida por Zé Caetano e dois cabras destorcidos a grupo de marinheiros franceses, de uma corveta Palas. A maruja não esteve com muita delonga e, vendo que a coisa não lhe cheirava bem em terra, atirou-se ao mar, salvando-se a nado, da agilidade dos três turunas, que a não deixavam tomar pé".
O escritor Manoel Querino, no Jornal de Notícias, da cidade de Salvador, na Bahia, do dia 2 de junho de 1914, em depoimento intitulado 'A Combuca Eleitoral' trata das disputas entre liberais e conservadores e do papel dos capoeiras a soldo dos partidos, na ocasião em que se realizavam as eleições.
“O capoeira fora sempre figura indispensável nos pleitos eleitorais, fazendo respeitar a opinião de correligionários, provocando a desordem, sempre que se fazia necessário; espancando o adversário e contribuindo desse modo para a formação da Câmara dos Fagundes.” Prosseguindo em sua narrativa Manoel Querino descreve o dia do pleito eleitoral: “Chegado que fosse o dia da eleição, estavam as hostes preparadas para a luta, cada partido arregimentava o seu pessoal, composto de votantes, turbulentos, capoeiras e aderentes. Todos a postos, começava a chamada, no campo da matriz da paróquia. Na ocasião aprazada, dava-se um conflito, era o meio de perturbar a eleição. Chamava-se um cidadão para votar; o grupo político que dispunha de maior número de desordeiros, gritava: - É fósforo! - É! - Não é!... E fechava-se o tempo... Gritos, protestos, doestos, uma vozeria ensurdecedora, e, por fim, recorriam ao argumento decisivo - o cacete; e o sangue dos partidários ensopava as lajes do templo, sendo alguma vez interdito pela autoridade diocesana.
'Aproveitando a confusão do momento, o votante mais sagaz introduzia na urna um maço de chapas. Chamava-se esta ação - emprenhar a urna. De modo que a vitória das urnas estava na razão de quem dispunha dos maiores elementos de desordem, fossem paisanos ou militares.” O mesmo sistema que gerava a miséria provocava as turbulências no contexto social: fabricava aquele estado de coisas. Os capoeiras faziam uso da violência, indistintamente, contra membros de uma sociedade que sobrevivia às custas da escravidão, a violência institucionalizada sempre gerando mais violência. Enquanto isso, a Capoeira fazia mais adeptos, em todas os segmentos sociais. Segundo Francisco Pereira da Silva, o escritor Coelho Neto era exímio na arte: “Ágil na pena quanto destro na rasteira, duas vezes publicamente se valeu do ensino da capoeiragem recebido nos tempos de rapaz. Josué Montello refere-se a um destes episódios, precisando a data de 6 de agosto de 1886, quando à noite em meeting de abolicionistas no Teatro Politeama do Rio de Janeiro, discursava Quintino Bocaiúva. A certa altura, capoeiristas a soldo dos escravocratas irrompem das galerias e armam tremendo salseiro. Luzes apagadas, vem Coelho Neto e realiza a incrível proeza de desarmar o chefe do bando, que outro não era senão Benjamim - o mais temível capoeira carioca.” De outra feita, o mesmo romancista Coelho Neto, em episódio também narrado por Josué Montello e aqui transcrito de Pereira da Silva, demonstrou seus atributos de destreza e valentia: “Na Academia Brasileira de Letras, fizera o tribuno maranhense referência em desfavor de um colega de imortalidade. Dias depois lhe apareceu um filho do suposto ofendido exigindo satisfação. Gravemente desentenderam-se e o jovem, que era atleta, não retardou seu golpe de jiu-jitsu. Instantaneamente e com agilidade felina, partiu Coelho Neto para o rabo de arraia levando o insolente a beijar o pó da calçada e a sumir no oco do mundo...” Do capoeira da Bahia, no século passado, traçou Manoel Querino um perfil da sua figura inconfundível, que em muito se assemelhava à do seu contemporâneo capoeira do Rio de Janeiro: “Era um indivíduo desconfiado e sempre prevenido. Andando nos passeios, ao aproximar-se de uma esquina tomava imediatamente a direção do meio da rua; em viagem se uma pessoa fazia o gesto de cortejar a alguém, o capoeira, de súbito, saltava longe, com a intenção de desviar uma agressão, embora imaginária.
'Eram conhecidos à primeira vista pela atitude singular do corpo, pelo andar arrevesado, pelas calças de boca larga, ou pantalona, cobrindo toda a parte anterior do pé, pela argolinha de ouro na orelha, como insígnia de força e valentia, e o nunca esquecido chapéu à banda.” Muitos foram os capoeiras que deixaram seus nomes e feitos inscritos nas páginas dos cronistas da história, deixando evidente a aptidão para feitos de coragem e bravura. Exemplo disso são as páginas do jornalista e escritor Monteiro Lobato, cronista e romancista, criador do Sítio do Pica-pau Amarelo e seus personagens, obra que o imortalizaria como maior nome da literatura infantil brasileira. O seu testemunho sobre o 22 do Marajó foi transcrito por João Lyra Filho, em Introdução à Sociologia dos Desportos: “Trata-se de um marinheiro, mestre em desordens, habituado a revirar de pernas para o ar quiosques portugueses; imperava na Saúde, onde suas proezas de capoeira exímio andavam de boca em boca. Tantas fez que o governo o mandou para o Norte, onde foi servir no Alto Amazonas. Ali aclimado, tornou-se rapaz sereno. Com boa pinta, ferrou namoro com a mulher de um ship-chandler, tornando-se seu amante. Mas o trio teve pouca duração; o marido enganado morreu. O marujo casou-se com a viúva, herdeira de bons pacotes, pediu baixa e seguiu para a Europa. No velho mundo, permaneceu dois anos, ao cabo dos quais veio morar no Rio de Janeiro.
'O marinheiro já era outro; transformado em perfeito cavalheiro, embasbacava a rua do Ouvidor com o apuro dos trajes, as polainas de gala, as luvas de pelica e a cartola café-com-leite. Ninguém sabia quem ele era, embora parecesse um fidalgo. Impávido, petroneando de monóculo, olhava de cima. De hábitos certos, todos os dias passava pelo largo São Francisco, assim como paca pelo carreiro. O logradouro era ponto de encontro preferido por alguns rapazes grã-finos, fortemente despeitados ante a esmagadora elegância do desconhecido. Este passou a ser visto como um rival, sobretudo no jogo lúdico do namoro com as donzelas. Os rapazes decidiram quebrar a proa do novo êmulo. Certa vez em que este passava, mais imponente do que nunca, coincidiu aproximar-se da roda um capoeira ‘mordedor’, que se gabava de ser um mestre em soltas. ‘Solta’ era uma cabeçada desferida no adversário, sem encosto da mão.
'Veio a hora da ‘mordida’ e com ela a hora da forra. Os rapazes selaram o trato: o capoeira embolsaria cinco mil réis, desde que sapecasse uma solta naquele freguês de monóculo. ‘É pra já’, disse o valentão, já indo ao encontro do rival. Postou-se perto, na calçada por onde caminhava o ‘22’, desperdiçando passos de lorde e esticado dentro do croisô confeccionado em Londres Um, dois, três. Quando o antigo marujo o defrontou, o capoeira avançou e despejou-lhe primorosa cabeçada. Mas o adversário, surpreendido, quebrou o corpo e mandou a cabeçada do agressor beijar a parede. Ao mesmo tempo, com um pé bem manobrado, plantou-o no chão com uma rasteira de placa. O ‘mordedor’ ergueu-se, tonto e confuso, para desabar, novamente, com outra rasteira de estilo. De agressor passara a agredido; desnorteado, deu sebo às canelas e foi amansar o galo da cabeça a cem passos adiante.
'O Petrônio ficou por ali mesmo, onde estava, dando-se ao conserto do laço da gravata. Mas não perdeu o ímpeto transformado no desprezo dirigido aos rapazes grã-finos e mofinos da roda elegante: ‘- Só uma besta desta dá soltas sem negaça. Já o Cincinato Quebra-Louça dizia que soltas sem negaça só em lampião de esquina; se grampeasse, vá lá. O Trinca-Espinha, o Estrepolia e o Zé da Gamboa admitem soltas neste caso. Mas, assim mesmo, só quando o semovente não é firme de letra.’ E, num giro de bengala entre os dedos, rematou com um suspiro de saudade: ‘- Já gostei desse divertimento. Hoje, minha posição social não me permite cultivá-lo. Mas vejo, com tristeza, que a arte está decaindo.’ E lá se foi, imperturbável e superior, monologando. ‘Soltas sem negaça...Forte besta!’ 'Mas os rapazes não se deram por vencidos. Recuperados após o estupor, uma nova tentativa de desforra cresceu no ânimo deles. A desforra deveria ser contundente. Já então, a surra deveria ser mediante contrato: adjudicaram a empresa ao famoso Dente de Ouro, da Saúde, que haveria de romper o baluarte e quebrar de vez a proa ao estranho figurão. Tudo bem assentado, foram colocar-se no momento aprazado junto ao carreiro, com o rompe-e-rasga à frente. ‘É aquele lá’ - apressaram-se em dizer, assim que ao longe repontou a cartola café-com-leite do sobranceiro lutador. Dente de Ouro avançou para o desconhecido; ao defrontá-lo, entreparou e abriu-se num grande riso palerma: ‘Ei 22! Você por aqui?’ E a resposta: ‘- Cala o bico, moleque, e tome lá para o cigarro. Afasta-te que hoje sou gente; não ando em más companhias.’ E o 22 do Marajó seguiu caminho honesto, depois de meter uma pelega de dez na mão do Dente de Ouro. Este, alisando a nota, voltou ao grupo dos grã-finos. ‘Então?’ - um dos rapazes interrogou-o, desnorteado com o imprevisto desfecho. - ‘Cês tão besta? Aquele é o 22 do Marajó, tem corpo fechado para sardinha e pé que nunca melou saque!’ ” Em A Alma Encantada das Ruas, João do Rio, pseudônimo de Paulo Barreto, jornalista, romancista, cronista, teatrólogo e contista, autor de Dentro da Noite, A mulher e Os Espelhos, e dos livros de reportagens As Religiões do Rio e Movimento Literário, nascido em 1880 e que veio a falecer em 1921, na crônica Presepes, aborda um grupo carnavalesco formado por negros da Bahia, que tem sua sede na praia Formosa, o Rei de Ouros. Descrevendo suas conversas com Dudú, um dos integrantes do grupo, quanto à composição do Presepes, indagou: “- Mas porque, continuo eu curioso, põem vocês junto do rei Baltazar aquele boneco de cacete? - Aquele é o rei da capoeiragem. Está perto do rei Baltazar porque deve estar. Rei preto também viu a estrela. Deus não esqueceu a gente. Ora, não sei se V.S. conhece que Baltazar é pai da raça preta. Os negros de Angola quando vieram para a Bahia trouxeram uma dança cungú, em que se ensinava a brigar. Cungú com o tempo virou mandinga e S. Bento.
- Mas o que tem tudo isso? - Isso, gente, são nomes antigos da capoeiragem. Jogar capoeira é o mesmo que jogar mandinga. Rei da capoeiragem tem seu lugar junto de Baltazar. Capoeiragem tem sua religião.
Abri os olhos pasmados. O negro riu.
- V.S, não conhece a arte? Hoje está por baixo. Valente de verdade só há mesmo uns dez: João da Sé, Tito da Praia, Chico Bolivar, Marinho da Silva, Manoel Piquira, Ludgero da Praia, Manoel Tolo, Moisés, Mariano da Piedade, Cândido Baianinho e outros... Esses cabras sabiam jogar mandingas como homens...
- Então os capoeiras estão nos presepes para acabar com as presepadas.
- Sim senhor. Capoeiragem é uma arte, cada movimento tem um nome. É mesmo como sorte de jogo. Eu agacho, prendo V.S. pelas pernas e viro: - V.S. virou balão e eu entrei de baixo. Se eu cair virei boi. Se eu lançar uma tesoura eu sou um porco, porque tesoura não se usa mais. Mas posso arrestar-lhe uma tarrafa mestra.
- Tarrafa? - É uma rasteira com força. Ou esperar o dégas de galho, assim duro, com os braços para o ar e se for rapaz da luta, passar-lhe o tronco na queda, ou, se for arara, arrumar-lhe mesmo o baú, pontapé na pança. Ah! V.S. não imagina que porção de nomes tem o jogo. Só rasteira, quando é deitada, chama-se banda, quando com força, tarrafa, quando no ar, para bater na cara do cabra, meia lua...
- Mas é um jogo bonito!, fiz para contentá-lo.
- Vai até o auê, salto mortal, que se inventou na Bahia.
'Para aquela lição intempestiva, já se havia formado um grupo de temperamentos bélicos. Um rapazola falou: - E a encruzilhada? - É verdade, não disseste nada da encruzilhada? 'E a discussão cresceu. Parecia que iam brigar...
'Fora, a chuva jorrava torrencial. Um relógio pôs-se a bater preguiçosamente meia-noite. As mulatinhas cantavam tristes: ‘Meu rei de Ouros quem te matou?/Foi um pobre caçadô’ 'Mas Dudú saltou para o meio da sala. Houve um choque de palmas. E diante do quarto, onde se confundia o mundo em adoração a Deus, o negro cantou acompanhado pelo coro: ‘Já deu meia noite/O sol está pendente Um quilo de carne/ Para tanta gente!’ 'Oh! Suave ironia dos malandros! Na baiúca havia alegria, parati, álcool, fantasia, talvez o amor nascido de todas aquelas danças e do insuportável cheiro do éter floral...
'Não havia, porém, com que comer. Diante de Jesus, que só lhes dera o dia de amanhã, a queixa se desfazia num quase riso. Um quilo de carne para tanta gente! 'Talvez nem isso! Saí, deixei o último presepe.
'De longe, a casinhola com as suas iluminações tinha um ar de sonho sob a chuva, um ar de milagre, o milagre da crença, sempre eterna e vivaz, saudando o natal de Deus, através da ingenuidade dos pobres. Como seria bom dar-lhes de comer, ó Deus Poderoso! 'Como lhes daria eu um farto jantar se, como eles, não tivesse apenas a esperança de amanhã obter um quilo de carne só para mim!” João Moniz, poeta nascido em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, deixou nas páginas do jornal A Tarde um relato das suas impressões acerca do famoso capoeira Besouro, personagem que até os dias de hoje é cantado nas rodas do jogo. Com palavras de evidente admiração, afirmou o poeta: “Besouro foi a maior atração de minha infância. Seus combates simulados com Doze Homens, Ioiô, Nicori e outros capoeiristas seus amigos, ao som do berimbau e do pandeiro, eram espetáculos magníficos de força, agilidade e delicadeza, em que os suarentos e leais contendores se aplicavam, mutuamente, os perigosos preceitos de ataque e defesa, cuidadosos de se não machucarem, por que não saíssem mal-avindos do brinquedo. E Besouro, então, primava por essas atitudes de nobreza, ele que era respeitado como o primus inter pares, no recôncavo e no costeiro baianos, da luta, que lhe levaria o nome, em situação privilegiada, ao nosso folclore.
'Conheci Besouro na pujança dos seus vinte e poucos anos. Era amável, brincalhão, amigo das crianças e ‘respeitador dos brancos’. De uma coragem pessoal que parecia loucura, gostava de ‘buli’ com a polícia. E não raro explodia um turundundum dos diabos em frente à cadeia velha, sua terra natal. Era Besouro, que, noite velha, havia acordado o destacamento para um ‘brinquedo’, que se prolongava em correrias e tiros, e de que ele saía ileso e sempre sorrindo, como entrava.
'Às vezes, no calor da luta, tirava um pouco de ‘tinta’ nos praças, mas nunca matou ninguém. Tinha tanto horror a palavra assassino quanto adorava o termo valente, que lhe cabia a rigor.” A respeito de uma versão - até hoje bastante acreditada - da morte de Besouro, onde este teria sido “morto traiçoeiramente pela polícia, por ter abatido oito praças com a capoeira, de uma só vez”, versão esta que foi publicada em reportagem assinada por Cláudio Tuiuty Tavares, em O Cruzeiro, afirmou João Moniz em sua crônica: “Aquele particípio - abatido - empregado pelo repórter, deixa entender que Besouro matou oito soldados e por isso foi morto. Não, já deixei dito que Besouro nunca matou ninguém, e posso afirmar, com absoluta segurança, que não foi morto pela polícia.
'Contam-se duas versões da morte de Besouro. Uma, inverídica, resultante de perfídia política, e a outra, verdadeira, em que Besouro, embriagado, fora ferido a punhal, traiçoeiramente, por um rapazelho subestimado por ele à vista de outros, quando bebiam numa venda. E não morreu propriamente do golpe, mas, de mau trato, que o deixaram no chão por mais de um dia, o intestino à mostra, antes que o trouxessem para a Santa Casa de Misericórdia de Santo Amaro, onde fechou os olhos para a vida, cercado de amigos, admiradores e curiosos.” Além do famoso Besouro, muitos capoeiras se notabilizaram, sendo que alguns se tornaram conhecidos mundialmente, como é o caso do pescador Samuel Querido de Deus, de Salvador, numa fase em que havia cessado a repressão ao jogo da Capoeira e sua prática já não era mais proibida. Jorge Amado, em Bahia de Todos os Santos, traçou o perfil do Querido de Deus, no ano de 1944, quando o pescador ainda vivia, sob o título O Capoeira: “Já começaram os fios de cabelo branco na carapinha de Samuel Querido de Deus. Sua cor é indefinida. Mulato, com certeza. Mas mulato claro ou mulato escuro, bronzeado pelo sangue indígena ou com traços de italiano no rosto anguloso? Quem sabe? Os ventos do mar nas pescarias deram ao rosto do Querido de Deus essa cor que não é igual a nenhuma cor conhecida, nova para todos os pintores. Ele parte com seu barco para os mares do sul do estado onde é farto o peixe. Quantos anos terá? É impossível saber nesse cais da Bahia, pois de há muitos anos que o saveiro de Samuel atravessa o quebra-mar para voltar, dias depois, com peixe para a banca do mercado Modelo. Mas o velhos canoeiros poderão informar que mais de sessenta invernos já se passaram desde que Samuel nasceu. Pois sua cabeça já não tem fios brancos na carapinha que parece eternamente molhada de água do mar? 'Mais de sessenta anos. Com certeza. Porém ainda assim, não há melhor jogador de capoeira, pelas festas de Nossa Senhora da Conceição da Praia, na primeira semana de dezembro, que o Querido de Deus. Que venha Juvenal, jovem de vinte anos, que venha o mais ágil, o mais técnico, que venha qualquer um, e Samuel, o Querido de Deus, mostra que ainda é o rei da capoeira da Bahia de Todos os Santos. Os demais são seus discípulos e ainda olham espantados quando ele se atira no rabo-de-arraia, porque elegância assim nunca se viu... E já sua carapinha tem cabelos brancos...
'Existem muitas histórias a respeito de Samuel Querido de Deus. Muitas histórias que são contadas no Mercado e no cais. Americanos do norte já vieram para vê-lo lutar. E pagaram muito caro por uma exibição do velho lutador.
'Certa vez seu amigo escritor foi procurá-lo. Dois cinematografistas queriam filmar uma luta de capoeira. Samuel chegara da pescaria, dez dias no mar e trazia ainda nos olhos um resto de vento sul. Prontificou-se. Fomos em busca de Juvenal. E, com as máquinas de som e de filmagem, dirigimo-nos todos para a Feira de Água dos Meninos. A luta começou e foi soberba. Os cinematografistas rodavam suas máquinas. Quando tudo terminou, Juvenal estendido na areia, Samuel sorrindo, o mais velho dos operadores perguntou quanto era. Samuel disse uma soma absurda na sua língua atrapalhada. Fora quanto os americanos haviam pago para vê-lo lutar. O escritor explicou então que aqueles eram cinematografistas brasileiros, gente pobre. Samuel Querido de Deus abriu os dentes num sorriso compreensivo. Disse que não era nada e convidou todo mundo para comer sarapatel no botequim em frente.
'Podeis vê-lo de quando em quando no cais. De volta de uma pescaria com seu saveiro. Mas com certeza o vereis na festa da Conceição da Praia, derrotando os capoeiras, pois ele é o maior de todos. Seu nome é Samuel Querido de Deus.” Os principais estudiosos da cultura brasileira, no passado recente, imortalizaram o jogo da Capoeira em páginas magistrais. É este o caso de Eunice Catunda, que concorreu com suas observações para fixar análise do jogo e das suas tradições, em artigo intitulado Capoeira no Terreiro de Mestre Waldemar, publicado em Fundamentos - Revista de Cultura Moderna, no ano de 1952, em São Paulo.
“Todo artista que não acredita no fato de que só o povo é o eterno criador, que só dele nos pode vir a força e a verdadeira possibilidade de expressão artística, deveria assistir a uma capoeira baiana. Ali a força criadora se evidencia, vigorosa, livre dos preconceitos mesquinhos do academismo, tendo como lei primordial e soberana a própria vida que se expressa em gestos, em música, em poesia. Ali se exprime a vida magnífica e bela, em nada prejudicada pela capacidade limitada dos instrumentos musicais primitivos, aos quais se adapta sem ser por eles diminuída.
'O senso de realização coletiva, própria essência da arte, se revela no tríplice aspecto da capoeira, que é uma fusão de três artes: música, poesia e coreografia.” Em seguida, Eunice Catunda acrescenta sua opinião quanto ao lugar ocupado pela Capoeira no contexto das artes, abalizada por sua formação musical erudita: “A dança da capoeira, na Bahia, é o que jamais deixou de ser a verdadeira arte: não um divertimento, mas uma necessidade. Aliás, é esse um dos fatores a que se deve a força mil vezes mais viva da arte popular quando a comparamos à música erudita: esse caráter funcional, esse aspecto de necessidade imperiosa que tem toda arte que o povo cultua. Ao passo que a música erudita soa cada vez mais falsa, se revela sempre mais um simples gozo de sibaritas, sem função, desnecessária.
'Na Bahia, a arte da capoeira é atividade domingueira, tão normal e querida quanto o nosso grande esporte nacional, o futebol. E quem a exerce é, na maioria, o povo trabalhador: operários da construção civil, carregadores do mercado, gente de profissão definida, que passa a semana inteira no duro batente, lutando para garantir o pão de cada dia, para si e para sua família.” Na apreciação da Capoeira e suas características, a cronista prossegue registrando a função do mestre-capoeira e seu papel junto aos praticantes, guardando uma tradição que continua no correr dos anos: “O ritual, a tradição a que obedecem os participantes da capoeira, são muito rígidos. O mestre é o conhecedor da tradição. Daí ser ele, também a autoridade máxima. Supervisiona o conjunto todo, determinando a música, o andamento, tirando ou indicando os cantos ou indicando a pessoa que o faça.
'Os concorrentes novatos dançam entre si. Mas quando algum bailarino se destaca, o mestre dança com ele, apontando-o, por meio dessa distinção à atenção dos veteranos, novatos e assistentes. Essa autoridade do Mestre é uma das coisas mais admiráveis e comoventes que tenho visto. O respeito a ele demonstrado pela coletividade, o carinho com que o cercam, fariam inveja a muito regente de música erudita. Prova isto que o espírito de disciplina é mais vivo no povo rude e inculto da nossa terra, quando este se organiza, que entre as camadas superiores, já mais habituados à organização conseqüente da própria instrução e do exercício de atividades culturais e que, por isso mesmo, teriam maior obrigação de compreender a necessidade e a importância da disciplina na coletividade. Acontece porém que o mestre nunca abusa de seus direitos. Não se atribui poderes ditatoriais. Sabe que sua autoridade emana da própria coletividade e comporta-se como parte integrante desta.” Ao entrar na descrição do terreiro onde aprecia a Capoeira, as anotações descrevem as condições de vida da gente anônima e humilde que resiste com a luta: “O terreiro de mestre Waldemar localiza-se no célebre bairro proletário da Liberdade. Bairro de grande densidade de população, sem pretensões, esquecido da Prefeitura que se preocupa em embelezar e cuidar só daqueles trechos da Cidade do Salvador que se encontram à vista do turista. Quanto ao bairro da Liberdade, não é para ‘gringo’ ver. Como todo bairro operário, não tem calçamento, é cheio de valas onde, em tempo de chuva, as águas parecem envoltas em nuvens de mosquitos; seus incontáveis casebres mal se têm de pé, e se o fazem é por pura teimosia. Abundam as vendolas onde se compra desde o jabá até a caninha. É um bairro repleto de vida e de movimento, corajoso e revoltado.” A descrição da Capoeira praticada à época evidencia a beleza do jogo tradicional, na perícia e habilidade no manejo do corpo, sem resvalar para o confronto aberto.
“Quando chegamos ao terreiro a capoeira já começara. Dois dançarinos coleavam rentes ao chão, enquanto dois berimbaus e três pandeiros acompanhavam com estranhos ritmos e sons aquela dança magnífica e arrebatadora, de gente combativa e forte. Os dançarinos do momento eram um carregador do mercado de Água dos Meninos e um operário da construção civil. O operário estava todo de branco, sapatos brilhando, camisa alvejando. Era um dos melhores dançarinos. É costume da fina-flor dos capoeiristas o dançar assim, ‘de ponto branco’ como se costuma dizer, para demonstrar sua perícia. Chegam ao cúmulo da dançar de chapéu e os bailarinos hábeis se gabam de sair da dança sem uma só mancha de terra na roupa, limpos e bem arrumados como se ainda não houvessem entrado em função.
'A dança da capoeira é a representação simbólica de antigas lutas autênticas. Na Capoeira de Angola, os dançarinos volteiam quase rentes ao chão, realizando paradas de braço, em posição horizontal, girando, escorregando como enguias e escapulindo por sob o corpo do adversário. Os golpes são constatados por mesuras e pelas exclamações dos assistentes. Aliás, não fora a precisão daqueles movimentos, muitos dos golpes seriam mortais. Esse é o caso das célebres cabeçadas assestadas contra o peito e cujo impulso é sustado só no derradeiríssimo momento, quando a cabeça de um dos bailarinos já aflorou o corpo do outro. A violência latente nunca se desencadeia e esse extraordinário domínio de paixões mantêm a assistência numa incrível tensão de nervos, empolgando a todos numa espécie de hipnotismo coletivo quase indescritível. Só aqueles que assistiram a uma demonstração de Capoeira de Angola poderão compreender a monstruosa força e controle exigidos para que realize cada um daqueles movimentos, sem que se dê lugar a qualquer agressão, sem que se perca a elegância e a graça felina de cada gesto, absolutamente medido, calculado por uma espécie de instinto, já que os elementos atuantes se acham inteiramente entregues a aquela arte aparentemente tão impulsiva e espontânea.
'Apesar da violência latente, não sobrevêm a hostilidade. Há no meio daquilo tudo imensa fraternidade e júbilo. Verificam-se passes espirituosos de bailarinos brincalhões e sorridentes, a realizar difíceis e perigosíssimos passos e golpes. E entre os assistentes estouram sonoras risadas... Jamais vi, em danças de conjunto, nacionais ou estrangeiras, tão arrebatadora beleza, aliada a tal rapidez, precisão e força reprimida, dominada por uma inteira disciplina e lucidez.
'Tivemos ocasião de admirar um menino de sete anos que dançou com o próprio mestre Waldemar, de quem é aluno, e com aquele operário exímio de quem já falei. Não se pode imaginar quanto era comovente acompanhar a frágil figurinha infantil, hábil, compenetrada, a competir com o homem mais velho, em cujo rosto se iluminava um sorriso afetuoso, porém nada complacente. Concentrado, o menino aplicava cabeçadas e rasteiras, escapulindo matreira e agilmente das rasteiras e cabeçadas do mestre, cônscio de sua dignidade de futuro capoeirista, de futuro artista popular, imperturbável, sob os olhares e exclamações dos espectadores.
'A voz masculina, pura e profunda, se elevava acima do pulsar do conjunto instrumental, suave e intensa, muitas vezes modal, para só dar lugar ao côro, verdadeiro canto recitativo. Depois a voz continuava, fazendo floreios sobre a mesma base, sem nunca repetir, impossível quase de anotar com exatidão por meios não mecânicos.
'Os solistas se alternavam, dando à melodia a característica própria de seu temperamento humano. Umas eram mais vivas, mais espirituosas, enquanto outras eram sonhadoras, singelas. Mas todos os textos profundamente poéticos.
'Lembro-me bem de uma voz que se elevou para cantar a beleza dos saveiros de velas enfunadas, louvando o mar generoso e o vento que os conduz. Descreveu o vento a acumular nuvens para depois dissolvê-las em gotinhas de chuva, sobre a branca vela dos saveiros que embalou. Era a poesia popular que se fazia presente no esplendor típico da arte única que é a Capoeira de Angola. E a tudo isso o côro continuava a responder pela boca de todos os assistentes e participantes: ‘Eh! Paraná, eh! Paraná, camará...’ enquanto os dançarinos voltejando, girando, desviando os corpos das cabeçadas, rindo alto, aos saltos, elásticos como gatos.”