Entre as diversas moléstias significativas da minha velhice, o amor aos livros antigos – a mais dispendiosa – leva-me o dinheiro que me sobra da botica, onde os outros achaques me obrigam a fazer grandes orgias de pílulas e tisanas. E, quando cuido que me curo com as drogas e me ilustro com os arcaísmos, arruíno o estômago, e enferrujo o cérebro numa caturrice académica.
Constou-me aqui há dias que a Srª Joaquina de Vilalva tinha um gigo de livros velhos entre duas pipas na adega, e que as pipas, em vez de malhais de pão, assentavam sobre missais, O meu informador denomina missais todos os livros grandes; aos pequenos chama cartilhas. Mandei perguntar à Srª Joaquina se dava licença que eu visse os livros. Não só mos deixou ver, mas até mos deu todos – que escolhesse, que levasse.
Examinei-os com alvoroço de bibliómano. Eles, gordurosos, húmidos, empoeirados, pareciam-me sedutores como ao leitor delicadamente sensual se lhe afigura a face da mulher querida, oleosa de cold-cream, pulverizada de bismuto.
Havia sermonários latinos, um Marco Marullo, três retóricas, muitas teologias morais, um Euclides, comentários de versões literais de Tito Lívio e Virgílio. Deixei tudo na benemérita podridão, tirante uma versão castelhana do mantuano por Diego Lopez e um muito raro Entendimento literal e canstrviçam portugueza de todas as obras de Horacio, por industria de Francisco da Costa, impresso em 1639.
Disse-me a dadivosa viúva de Vilalva que os livros estavam na adega havia mais de trinta anos, desde que seu cunhado, que estudava para padre, morrera ético; que o seu homem – Deus lhe fale na alma – mandara calcar o quarto onde o estudante acabara, e atirou para as lojas tudo o que era do defunto – trastes, roupa e livralhada. Contou-me isto secamente do extinto cunhado, ao mesmo tempo que roçava com a mão fagueira o ventre grávido de uma gata maltesa que lhe resbunava no regaço, passando-lhe pela cara a cauda em atritos de ama flacidez de arminho. E eu que dedico aos bichos um afecto nostálgico, uma sensibilidade retroactiva, um atavismo que me retrocede aos meus saudosos tempos de gorilha, olhava para a gata que me piscava um olho com uma meiguice antiga – a das meninas da minha mocidade que piscavam. Onde isto vai!
A Srª Joaquina, para me obrigar a um eterno reconhecimento, ofereceu-me uma das crias da sua gata que andava para cada hora e se chamava Velhaca – ajuntou com a satisfação de quem completa um esclarecimento interessante. Agradeci o porvindouro filho da Velhaca, fiz uma carícia no dorso crespo da mãe, que ma recebeu familiarmente, e sai com os livros velhos empacotados em duas bulas de 1816 e 1817 que a Srª Joaquina, com um riso céptico indisciplinado, me disse serem do tempo dos Afonsinhos. – Porque o seu sogro, acrescentou, era um asno às direitas que comprava a bula para poder comer carne em dia de jejum; e, sem que eu a provocasse a vomitar heresias, disse que os padres vendiam a bula e compravam a carne; e, juntando è heresia um anexim de limpeza muito duvidosa, disse o que quer que fosse a respeito dos pecados que entram pela boca.
Depois informaram-me que esta viúva, bastante estragada no moral e ainda mais no físico, andara de amores ilícitos com um escrivão do juiz de paz, o Barroso, um dos 7500 do Mindelo, que lera o Bom senso do cura João Meslier, e a saturara de má filosofia, e também a esbulhara de parte dos seus bens de raiz e do melhor da sua
riqueza – a Fé, o bordão com que as velhas e os velhos caminham resignados e contentes para os mistérios da eternidade.
*
Logo que cheguei a casa, entrei a folhear as páginas dos dois livros, preparado para o dissabor de encontrá-los mutilados, defeituosos, com folhas de menos, comidas pelas ratazanas colaboradoras roazes do galicismo na ruína da boa linguagem quinhentista. Folheei o Entendimento literal e constrviçam até páginas 154, e aqui achei um quarto de papel almaço amarelecido, com umas linhas de letra esbranquiçada, mas legível e regularmente escrita. O conteúdo do papel, onde se conheciam vincos de dobras, era o seguinte:
José, teu irmão, quando eu hoje saia da igreja, onde fui pedir a Nossa Senhora a tua vida ou minha morte, disse-me que eu não tardaria a pedir a Deus pela tua alma. Eu já não posso chorar mais nem rezar. Agora o que peço a Deus é que me leve também. Se não morrer, endoideço. Perdoa-me, José, e pede a Deus que me leve depressa para ao pé de ti.
Marta.
Não é preciso ser a gente extraordinariamente romântica para interessar-se, averiguar, querer notícias das duas pessoas que têm nestas linhas uma história qualquer, mais ou menos vulgar. Ocorreu-me logo que o estudante, a quem o livro pertencera, tinha morrido na flor dos anos. Além disso, na margem superior do frontispício do volume, está escrito o nome do possuidor – José Dias de Vilalva, e a carta é dirigida a um José. Concluí ser o cunhado da viúva quem recebera a carta.
Voltei a casa da Srª Joaquina, muito açodado, como um antropologista que procura uni dente pré-histórico, e perguntei-lhe se o seu cunhado se chamava José Dias; e se tinha alguma conversada, quando morreu. – Que sim, que o cunhado era José Dias e que morrera pela Maria da Fonte.
– Pois ele amou a Maria da Fonte? – perguntei com ardente curiosidade histórica, para esclarecer a minha pátria com um episódio romanesco das suas guerras civis. Ela sorriu e respondeu:
– Agora! Quer dizer que o meu cunhado morreu quando por aí andavam os da Maria da Fonte a tocar os sinos e a queimar a papelada dos escrivães, sabe vossemecê? Acho que foi então ou por perto. – E ajuntou: – Ele gostava aí muito de uma moça, isso é verdade. Era a Marta...
– Marta? – disse eu com a satisfação de ver confirmada a assinatura do bilhete.
– Vossemecê conhece-a?
_— Não conheço.
– É a brasileira de Prazins, a mulher do Feliciano da Retorta, que tem quinze quintas entre grandes e pequenas.
– Bem sei; mas nunca vi essa mulher.
– Não que ela nunca sai do quarto; está assim a modos de atolambada há muito tempo. Credo! há muitos anos que a não vejo. Dá-lhe a gota, salvo seja, e estrebucha como se tivesse coisa má no interior. É uma pena. Não sabe o que tem de seu. O Feliciano é o homem mais rico destes arredores, e vivem como os cabaneiros, de caldo e pão de milho. Ele quando vai ao Porto receber um alqueire de soberanos que lhe vem do Brasil todos os anos, vai a pé, e mete ao bolso umas côdeas de boroa e quatro maçãs para não ir è estalagem.
Interrompi com interesse de artista:
– Disse-me que ela endoidecera. Foi logo depois da morte do seu cunhado?
– Isso já me não escordo. Quando eu vim casar para aqui já meu cunhado tinha morrido. O que me lembra é dizer-me o meu defunto, que Deus tem, que o rapaz ganhou doença do peito por mor dela. Esses casos há muita gente que lhos conte. Há por aí muito homem do seu tempo. Pergunte isso ao Senhor Reitor de Caldelas que andou com ele nos estudos e sabe todas essas trapalhadas. – E num tom de notícia festival: – Olhe que o gatinho nasceu esta noite; lá lho mando assim que estiver criado.
Quer que lhe corte as orelhas e o rabito?
– Faça-me o favor de lhe não cortar nada.
Eu tinha lido, dias antes, a judiciosa crítica de uma dama inglesa à nossa costumeira de desorelhar e derrabar gatos. Ela, lady Jackson, escreve que lhe fazem compaixão os pobres bichanos que, sem cauda nem orelhas, estão como que envergonhados de si mesmos. Excelente senhora!
*
Pedi que me apresentassem ao reitor de Caldelas na feira de Santo urso. Achei-lhe um semblante convidativo, animador a entabular-se com ele uma indagação de curiosidades sentimentais.
Fazia respeitável a sua batina sem nódoas o padre Osório. Parece que também as não tem na vida. Passa por ser um velho triste, que não teve mocidade, nem as ambições que suprem os doces afectos do coração mutilados pelo cálculo ou congelados pelo temperamento. Há trinta e dois anos que pastoreia uma das mais pobres freguesias
do arcebispado. Pregou alguns anos com aplauso dos entendidos e inutilidade dos pecadores. A retórica é a arte de falar bem; mas os vícios são a arte de viver bem e alegremente. Assim se pensa, embora não se diga.
Como pregava gratuitamente, o vigário de Caldelas era chamado por todos os mordomos e confrarias festeiras. Quando se esgotavam os panegíricos dos santos mais ou menos hipotéticos, pediam-lhe que pregasse da cura milagrosa de umas maleitas ou de um leicenço – casos que a pobre Natureza e o periódico chamado Esculápio só de per si não poderiam explicar.
O vigário subia ao púlpito e improvisava coisas de grande engenho em linguagem muito singela. Afirmava que Deus era tão bom, tão previdente, que dera à condição enfermiça do homem forças vitais, sobresselentes que resistiam à destruição; e que a Natureza, grande milagre do seu Criador, só de per si era bastante para a si mesma se restaurar. Ora, um abade rico, bacharel em Teologia, que lhe ouvira estas ideias assaz naturalistas, perguntou-lhe, à puridade, se ele negava os milagres. O reitor respondeu que a respeito das sezões e dos leicenços acreditava mais na lanceta e no sulfato de quinino. Depois, acrescentou: – Deus fez o supremo milagre da ciência para centuplicar as forças à natureza enfraquecida. – O teólogo enrugou cientificamente a fronte cheia de suspeitas e replicou: – O Senhor Reitor foi ferido da peste do século. Está iscado de Voltaire e de Alexandre Herculano. Deixou-se contaminar. Mundifique-se. Estude mais e melhor. – O reitor de Caldelas afastou-se triste, e nunca mais frequentou o púlpito.
Estas informações e o aspecto lhano, harmónico do padre, animaram-me a dizerlhe que solicitara o seu conhecimento para lhe pedir alguns esclarecimentos a respeito de uma carta encontrada num livro que pertencera ao seu condiscípulo José Dias de Vilalva. – Recorda-se? – perguntei.
– Se me recordo do meu pobre José Dias! Pois não recordo? Parece-me que ainda sinto neste braço o peso enorme da sua face moda, e já lá vão trinta e cinco anos. É preciso ter na alma dolorosas reminiscências para se recordar um amigo morto há tantíssimo tempo, não lhe parece? Como sabe você que existiu esse obscuro filho de um lavrador?
Mostrei-lhe a carta. O padre olhou para a assinatura, gesticulou afirmativamente, e, após uma breve pausa de recolhimento com as suas recordações, disse:
– Fui eu que pus esta carta entre as páginas de um livro do Dias. O meu pobre condiscípulo, quando este papel lhe foi mandado à cama, já não o podia ler. Tinha caído no torpor, na indiferença que, a meu ver, é a compaixão da Providência pelos que morrem amando e não querendo morrer. Já não via a vida nem a morte. Li esta carta; e, como ele nada me perguntou, eu nada lhe disse... Agora me recordo perfeitamente. Era um comento de Horácio que eu lia nos seus intervalos de modorra, a fim de dar ao meu ânimo uma folga que me fortalecesse para resistir ao golpe final. Já sei pois o que você deseja. Quer saber se esta Marta está no caso de merecer a consagração romântica que Bernardim de Saint-Pierre usurpou às dores verdadeiras, para coroar de uma eterna auréola a sua fantástica Virgínia.
– Não vou tão longe – respondi com a modéstia genial dos escritores que imortalizam. – A brasileira de Prazins não pode contar com o seu imortalizador em mim, nem me parece bastante fecundo o assunto. Sei que temos um namoro de uma menina com um estudante, o estudante morre e a menina casa com um sujeito que tem quinze quintas. Se não há mais do que isto...
O cura interrompeu:
– Vejo que sabe quem é Marta; mas não a conhece bem. Virgínia e Francesca e Julieta não são mais dignas de piedade nem de romance. Parece-me que o amor que enlouquece e permite que se abram intercadências de luz no espírito para que a saudade rebrilhe na escuridão da demência é incomparavelmente mais funesto que o amor fulminante, O que é vulgar é morrer logo ou esquecer quinze dias depois. Quando eu tinha uma irmã que lia novelas, à custa de lhas ouvir analisar com um entusiasmo digno de melhor emprego, achei-me envolvido na literatura de Sue, de Soulié e de Balzac, a ponto de fazer presente do meu santo Afonso Maria de Ligório e da minha Teologia moral de Pizelli a um padre bom e atinado que me profetizou que minha irmã havia de morrer doida, a cismar nas patacoadas das novelas. Ela não morreu doida; mas pensava em romancear a história de Marta, porque dizia ela que, tendo lido trezentos volumes de novelas, não encontrara caso imitante. – E, dando-me o bilhete de Marta: – Este quarto de papel é o exórdio de uma agonia original.
*
Como a exposição do reitor saiu muito enfeitada de jóias sentimentais – detestável espécie arqueológica que ninguém tolera – farei quanto em mim couber por. uma a uma, ir montando e refugando as flores de modo que as cenas dramáticas se exponham áridas, bravias como serro de montanha por onde lavrou incêndio, sem deixar bonina, sequer folhinha de giesta em que a aurora imperle uma lágrima. A Aurora a chorar! de que tempo isto é! Como a gente, sem querer, mostra numa ideia a sua certidão de idade e uma relíquia testemunhal da idade de pedra! Oh! os bigodes tingem-se; mas as frases – madeixas do espírito – são refractárias ao rejuvenescimento dos vernizes.
Marta era filha de um lavrador mediano que tinha em Pernambuco um irmão rico de quem dizia o diabo. Chamava-lhe ladrão porque, no espaço de vinte anos, lhe mandara três moedas, com os seguintes encargos: à mãe
6$000 réis fortes, às almas do Purgatório, de Negrelos, 3$000 réis também fortes, que lhos prometera quando embarcou, e o resto para ele –
A rapariga conversou diversos mancebos, uns da lavoura, outros da arte, e, afinal, quando o pai lhe negociava o casamento com um pedreiro, mestre-de-obras, muito endinheirado e já maduro, apareceu o José Dias, filho de um lavrador rico de Vilalva, a namoriscá-la. Este rapaz estudava latim para clérigo; mas, como era fraco, de poucas carnes e amarelo, o cirurgião disse ao pai que o moço não lhe fazia bem puxar pelas memórias. Os padres do Minho, naquele tempo, não puxavam quase nada pelas memórias; ordenavam-se tão alheios às faculdades da alma que, sem memória nem entendimento, e às vezes sem vontade, eram sofríveis sacerdotes, davam poucas silabadas no Missal e liam os salmos do Breviário com uma grande incerteza do que queria dizer o penitente David. Pois, assim mesmo, sendo tão fácil a ordenação – uma coisa que se fazia com uma perna às costas, diziam certos vigários – sem precisão absoluta de puxar pelas memórias, o Joaquim Dias quis tirar o filho do latim que lhe ensinava um egresso da Ordem Terceira, o Frei Roque. Este padre-mestre tinha uma irmã paralítica: sabia ler, e prendas de costura, marcava, fizera um pavão de missanga, não desconhecia o croché e ensinava raparigas para se distrair.
No quinteiro do padre-mestre Roque foi que o José de Vilalva se afez a reparar na Marta de Prazins, uma rapariga muito alva, magrinha, de cabelo atado, muito limpa, com a sua saia de chita amarela com dois folhos, jaqueta de fazenda azul com o forro dos punhos escarlates, muito séria com propósito de mulher e ares muito sonsos – diziam as outras, que lhe chamavam a songuinha. Os outros estudantes, rapazolas vermelhaços, refeitos, grandes parvajolas, com grandes nacos de boroa nas algibeiras das véstias de saragoça de varas, e os vemos Virgílios ensebados em saquitos de estopa suja, diziam graçolas a Marta – chamavam-lhe boa pequena, franga e peixão. O José Dias, arredado do grupo dos trocistas alvares, via-a passar silenciosa, indiferente aos gracejos, olhos no chão, e um grande resguardo na barra da saia quando subia a escada. Os rapazes, aqueles embriões de abades, como a escada de pedra era íngreme e aberta do lado do quinteiro, punham-se a espreitar as pernas das alunas da paralítica, pela maior parte raparigas entre doze e dezasseis anos, muito musculosas, com pés grandes e os tecidos repuxados e cheios pelo exercício dos carretos nas safras da lavoura.
Marta ia nos catorze quando o pai a quis tirar da mestra. Chegara-lhe aos ouvidos que os estudantes, má canalha, lhe impeticavam com a filha. Queixou-se a Frei Roque. O egresso, resfolegando honradas cóleras e pulverizações de esturrinho, mandou enfileirar os gargajolas na quadra da aula, e chamou a Marta.
– Qual foi destes tratantes o que implicou contigo. cachopa? – perguntou o padremestre olhando-a por cima dos óculos, orbiculares, com as hastes oxidadas de um cobre antigo. E, apontando para o primeiro da fileira que era o José de Vilalva:
– Foi este?
– Esse nunca me disse nada – respondeu com a voz trémula, toda vermelha, a rapariga.
– Foi este?
Marta não ergueu os olhos nem respondeu.
– Então, moça? qual foi dos nove? Diz lá. Tu que te queixaste é que algum embarrou por ti.
– Eu não me queixei... – murmurou a interrogada.
Verdadeiramente ela não se queixara. Foi o Zeferino, o filho do alferes da Lamela, o mestre-pedreiro que andando a construir um canastro na eira do padre-mestre, observara que os estudantes rentavam à cachopa, e ajeitavam-se em atitudes abrejeiradas, como de quem espreita, quando ela subia a escada.
O denunciante ao pai de Marta foi ele, o pedreiro abastado, não porque o espicaçassem nessa denúncia o zelo dos bons costumes, e um justo ódio às concupiscentes espionagens dos rapazes, mas porque gostava, deveras, da moça. Ele passava já dos trinta e dois e era a primeira vez que sentia no coração as alvoradas do amor. Frei Roque, averiguado o caso, advertiu o pedreiro que não fosse má-lingua, que não andasse a difamar os seus discípulos, que se preparavam para o sacerdócio – uma coisa séria. O episódio acabaria assim menos mal, se dois dos estudantes, que se preparavam para o sacerdócio, mais fortes no fueiro que nas conjugações, desistissem de o moer a pauladas, uma noite num pinhal. O mestre-de-obras iniciou-se pelo martírio obscuro num amor que principiava bastante mal. Ele nunca soube ao certo quem lhe batera, e atribuiu a sova a émulos na arte, covardes e misteriosos, por causa da construção de uma igreja que ele desdenhara, citando as regras do Vignola. Vinha a ser o desastre uma tunda por motivos de arquitectura – um martírio de artista. Invejas. Por causa da Arte padecera o seu colega Afonso Domingues, o arquitecto da Batalha, e João de Castilho, o do convento de Tomar, e já tinha padecido seu mestre, o Manuel Chasco, a quem inimigos quebraram a cabeça na feira dos 21, porque ele, desfazendo na obra de um colega, dissera que o botaréu de um cunhal estava torto.
Passado tempo, Marta saiu pronta da mestra. Lia a cartilha do Salamondi e o Grito das Almas, decifrava menos mal uma sentenças velhas, que havia na casa de Prazins, monumentos das ruínas de antigas demandas, e escrevia regularmente. A primeira carta que escreveu por pauta foi para o tio de Pernambuco, o tio Feliciano. Pedia-lhe a sua bênção e duas moedas de ouro para umas arrecadas. Era o pai que lhe ditava a carta, cheia de lástimas mendigas, mentirosas, historietas velhacas de penhoras, as grandes décimas, a ferrugem das oliveiras, o bicho da batata, o gorgulho que pegara no milho, muitas alicantinas.
– Que era a ver se o ladrão mandava alguma coisa – dizia ele, pondo cuspo na obreia vermelha para fechar a carta.
A segunda carta que ela escreveu, já sem pauta, foi a José Dias, ao estudante, que já não estudava por causa das memórias nocivas à sua saúde fraca, um pelém.
Neste tempo já o Zeferino da Lamela se tinha declarado com o Simeão de Prazins, de um modo quase original.
– Você quanto deve, ó tio Simeão? – perguntou.
– Quanto devo? Você quer pagar-me as dívidas?
– Pode ser. Você deve à Irmandade de Nossa Senhora de Negrelos um conto e cem mil-réis; você deve de tornas a seu irmão quatrocentos. Há-de andar lá para um conto e quinhentos, p'ra riba que não p'ra baixo.
– É isso; você sabe a minha vida melhor que eu a sua – um conto e quinhentos e pico.
– Quanto é o pico?
– Obra de dez moedas, mais pinto menos pinto. Miudezas na loja ao mercador e um restito da vaca amarela que comprei ao Tarraxa na feira dos 13.
– Você quer fazer um cambalacho? – tornou o pedreiro recuando o chapéu para a nuca e pondo-lhe as mãos espalmadas com força nos ombros.
– Se pintar... Já sei o que você quer... Não me serve. Você quer comprar-me o lameiro da azenha – não vendo.
– Eu ainda lhe não disse o que queria, tio Simeão. Olhe bem para mim. Você está a falar c'um home. Pago-lhe as dívidas, você não fica a dever nada, e eu caso com a sua Marta. Pode dar os bens ao outro filho que eu não lhe quero uma de X.
– Você fala sério, ó sor Zeferino?
– Se falo sério?! Então você não sabe com quem é que trata.
– Ora bem – entendamo-nos – é a rapariga que você quer, a rapariga estreme, sem dote nem escritura?
– Eu não tenho senão uma palavra. Já lhe disse que sim.
– A rapariga é sua.
Negociara a filha com o Zeferino como tinha negociado com o Tarraxa a vaca amarela na feira dos 13. Eis um caso esquisito de aldeia que pela torpeza parece acontecido numa cidade culta. Conversou-se este diálogo debaixo de um castanheiro frondoso, com um pavilhão de folhagem gorjeado de pássaros, com uns tons de luz esverdeada, na doce placidez crepuscular de uma tarde de Agosto, entre dois homens de tamancos, arremangados, com os peitos cabeludos a negrejar de entre os peitilhos da camisa surrada de suor e poeira, brutos no gesto e na frase. Análogas passagens, com estilo pouco melhor, têm sido dramatizadas nas salas, entre homens da melhor polpa e casca social – uns que mandaram ensinar às filhas os verbos franceses e são assinantes do Journal des Dames que marca às meninas a baliza até onde pode chegar o arrojo da língua francesa e os seus mais avançados destinos. Da outra parte, homens ricos, de fígado ingurgitado, fatigados, sedentos de senhoras finas que ponham no luxo das suas salas os tons vivos da carne constelada de diamantes. É o epílogo de vinte anos de lavra dura, o substrato da compra de negras a milhares: – comprar uma branca, das que o amor pobre e o talento estéril não podem negociar. O contrato feito em Prazins – eis a diferença – por parte do pedreiro era um heroísmo: dava o seu dinheiro por aquela mulher; daria mais depressa o seu sangue. Era uma paixão das que não pegam com os dentes anavalhados em corações civilizados, quase desfeitos. Ora, os pedreiros que vêm de além-mar, e se vestiram no Pool ou no Keil, não amam nem cumpram assim. Fazem o dote económico, comezinho à esposa. Compram uma máquina de propagação, condicionalmente. Se, extinto o comprador, a máquina, não deteriorada, tiver pretendente, o substituto que a compre. O defunto prefere que a sua viúva, adelgaçada e espiritualizada por jejuns, lhe converse com a alma.
Por esses dias chegou carta de Pernambuco, incluindo ordem, primeira via, 48$000 réis, dez moedas de ouro. Feliciano mandava 12$000 réis para as arrecadas da sobrinha, e o resto ao irmão. Dizia-lhe que estava a liquidar para vir, enfim, descansar‚ de vez, que já tinha para os feijões. Recomendava-lhe que fosse deitando o olho a uma ou duas quintas que se vendessem até trinta ou quarenta mil cruzados; que se ainda houvesse conventos è venda, os fosse apalavrando até ele chegar.
– Quarenta mil cruzados, com um raio de diabos! – exclamou o Simeão, e foi mostrar a carta ao padre-mestre Roque, ao Trepa de Santo Tirso e ao ex-capitão-mor de Landim; e, como encontrasse na feira o dono do mosteiro dos beneditinos, o Pinto Soares, um deputado gordo – a retórica viva do silêncio mais facundo que a língua, de uma grande pacificação sonolenta –, perguntou-lhe se queria vender as quintas dos frades, que tinha comprador. O Pinto Soares, como um homem que acorda com espírito e um pouco de ateísmo, respondeu-lhe que não vendia para não transmitir ao comprador a excomunhão que arranjara comprando bens das ordens religiosas. Mas o Simeão, em matéria e raios do Vaticano, tinha na sua estupidez a invenção de Franclim. Continuava a perguntar a toda a gente se sabiam de conventos à venda, ou quintas ai para quarenta mil cruzados.
O Zeferino das Lamelas, o pedreiro que se julgava noivo por ter o negócio fechado num conto quinhentos e pico, procurou o lavrador para se cuidar dos banhos. O velhaco, depois de o ouvir com ares de abstracção palerma, disse-lhe a mastigar as palavras:
– Home, o caso mudou muito de figura. Então você pelos modos ainda não sabe que vem aí o meu irmão de Pernambuco comprar quintas e conventos?
E começou a desenrolar o nastro gorduroso de uma carteira de couro em que tinha recibos da décima, um aviso da junta da paróquia para pagar a côngrua, uma conta de azeviche contra maus-olhados, uma oração manuscrita contra as maleitas, um oficio antigo que o nomeava regedor, de que fora demitido pelos Cabrais, uma velha ressalva de recrutamento, uns versos que ele recitara no Natal, num Auto do Nascimento do Menino, onde ele fazia de rei mago, e finalmente o livrinho de Santa Bárbara, muito sebáceo, com um lustre azulado de graxa e a carta do Feliciano tão suja que parecia ter estado em infusão de pingue.
– Você ainda não ouviu falar desta carta!? – perguntou com sobrançaria impertinente, dando saliva aos dedos para a desdobrar. – Não se fala noutra coisa. Toda a gente sabe que vem aí do Brasil o meu Feliciano para comprar quintas.
– Já me constou – disse o pedreiro –, mas você rói a corda à conta disso, acho eu. – E como o lavrador hesitasse: – O negócio da rapariga está feito ou não está feito? Os homens conhecem-se pela palavra e os bois pelos cornos. Ponha para aí o que tem no interior.
O Simeão mascava, torcia-se, metia com dois dedos a carta estafada na carteira e resmungava:
– Você, enfim, isto é um modo de falar, como o outro que diz; você bem entende que... sim...
– O que eu entendo fisicamente falando é que você não me dá a rapariga.
– Deixe ver, deixe ver o que diz o meu irmão – tartamudeava.
– Sabe você que mais? – volveu iracundo o arquitecto, dando com o olho do machado num canhoto. – Você é de má casta. Não tem palavra nem vergonha nessa cara estanhada. Você é da geração dos Travessas da Serra Negra, e basta... Não lhe digo mais nada... – Alusão pungente a um tio do Simeão, o Barnabé, capitão das maltas de salteadores que infestaram em 1835 aquela serra.
– Veja lá como fala... – interrompeu o lavrador ferido na sua linhagem. – Você não me deite a perder...
E o outro, num ímpeto de consciência robusta:
– Você é um safado. É o que lhe eu digo. Não guarda palavra em contrato que faça. Eu já devia conhecê-lo. Faz para as matanças seis anos que você ajustou comigo uma porca por quatro moedas e foi depois vendê-la ao António do Eido por mais um quartinho. Lembra-se, seu alma de cântaro? – E numa irritação crescente: – Se você não fosse um velho, dava-lhe com este machado na caveira. – E muito esbandalhado nos gestos, com sarcasmo: – Guarde a filha que eu hei-de achar mulher muito melhor que ela pelo preço, ouviu você? que leve o Diabo a burra e mais quem a tange, como o outro que diz. Livrei-me de boa espiga. De você não pode sair coisa boa; e mais da mãe que ela teve, que já lá está a dar contas...
E o lavrador com extremada prudência e na pacatez de um grande espírito de ordem e paz:
– Você não tem que desfazer na minha filha, ouviu?
– Ouvi, que não sou mouco. Ainda ontem a topei na bouça do Reguengo de palestra com o estudante de Vilalva. Espere-lhe a volta. A songuinha, que não olha direito p'ra um home, que anda ali esmadrigada de cabeça ao lado, lá estava de mão na ilharga a dar treta ao estudante, aquele pau de encher tripas, que há-de ser mesmo um padre daquela casta! Olhe se ele lha quer para casar... Pois não quiseste? – e arregaçava a pálpebra do olho esquerdo, mostrando o interior inflamado com uns pontos amarelos, purulentos, indicativos de insuficiente lavagem, um trejeito de garotice. E continuava: – Quem lhe dera dois pontapés, nele e mais nela! – e muito rubro de cólera dava pancadaria nas pedras, nas raízes nodosas dos castanheiros, e metia grande terror no ânimo do Simeão quando faiscava lume nos calhaus com a percussão do machado.
Esta situação prometia acabar pela fuga prudente do pai de Marta, se o estudante de Vilalva não assomasse ao fundo do castanhal com uma matilha de coelheiros que ladravam a um porco muito eriçado, que os esperava com o focinho de esguelha, bufando e grunhindo. O caçador chamava os cães, assobiava, fazia uma bulha convencional para que a Marta o ouvisse.
Ele não tinha visto o pedreiro; os cães é que o viram e deixaram o porco destemido para atacarem o homem, com uma velha birra que lhe tinham. O Zeferino, noutra ocasião, segundo o seu costume, desprezaria a arremetida da matilha; mas, naquela conjuntura de ódio ao caçador, esperou a canzoada com o machado em riste, empunhava o cabo com as mãos cabeludas, e fazia, com o corpo inclinado, avanços provocadores. José Dias chamava os cães obedientes; mas o Zeferino, muito azedo, engelhando na cara uns trejeitos de bazófia, dizia sarcástico:
– Deixe-os vir, deixe-os vir, que o primeiro que chegar faço-lhe saltar os miolos à cara de você.
Que se acomodasse, conciliava pacificamente o estudante – que os cães não tinham outra fala. E o pedreiro insistente, muito arrogante: – Que venham para cá, e mais o dono, o caçador de borra! – e dizia palavradas canalhas, muito danado porque vira aparecer a Marta na varanda, a fazer meia com a cesta do novelo no braço.
– Ó Sr. Zeferino, fale bem, ponha cobro na língua advertiu o José Dias, com uma serenidade de mau agoiro – quando eu lhe ladrar então se fará com o machado para mim. Os cães ladraram-lhe; eu chamei-os, que mais quer você, homem? Siga o seu caminho.
– O meu caminho? o meu caminho é este – disse batendo com o machado na terra. – Quer você mandar-me embora daqui? Ora não seja tolo.
A presença da moça enfurecia-o; contra o seu costume, sentia-se valente. O amor, como um vinho indigesto, dava-lhe a coragem interina dos bêbedos, e berrava:
– Se é homem, venha para cá! Você manda-me sair daqui, seu pedaço-de-asno? E o estudante, já amarelo:
– Eu não o mando sair daí, nem lhe consinto que me chame asno. Olhe que eu largo a espingarda, tiro-lhe das unhas o machado e dou-lhe com ele.
– Ó alma do Diabo! – exclamou o pedreiro crescendo para o caçador.
Nisto, um dos cães, atravessado de cão de gado e cadela coelheira, que aprendera a morder nas ocasiões razoáveis, atirou-se-lhe ao assento das calças de estopa e puxou até lhe descobrir a epiderme da nádega esquerda.
O pedreiro floreava debalde o machado; os golpes cortavam o ar, e nem de leve apanhavam o cão, que dava pulos de esconso, atacando-o pela nádega direita. A restante matilha fraternizara com o outro e juntavam os focinhos num complexo de dentuças minacíssimas com os olhos sanguíneos cravados nos movimentos do machado. José Dias, no entanto, espancava a cainçada, e Marta não sabia se havia de descer para ajudar o pai a acomodar a bulha, ou se havia de cair na varanda a rir-se. Ela sentia-se envergonhada do espectáculo que exibia a calça esfarrapada; mas não havia pudor que resistisse àquilo. O pedreiro sabia que o cão lhe chegara um pouco à calça; mas, no calor da luta, não sentira esfriar-se-lhe a pele descoberta, nem se lembrou que andava sem ceroulas. Depois, como sentisse uma frescura extraordinária na cútis, exposta ao contacto da atmosfera, levou a mão conscienciosamente ao sítio, e achou em si aquele espécime obsoleto do Adão primitivamente inocente. No entanto, Marta, não podendo já consigo, entalada de riso, fugira da varanda e atirara-se de bruços sobre a cama, a rebolar-se, a espernear como se tivesse uma cólica. O estudante retirou-se assobiando à matilha ainda refilada às nádegas do homem. O Simeão coçava-se com as dez unhas e dizia velhacamente comovido:
– Meta-se aí na corte da égua que eu vou-lhe buscar umas calças, seu Zeferino, ou dá-se-lhe aí quatro pontos p'ra remediar. Dê cá as calças, e não se aflija...
O pedreiro respondeu-lhe porcamente e de modo tão trivial, que o outro lhe replicou:
–Vá você!
E meteu-se em casa como quem receava contra-réplica menos suja e mais dura.