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Amor de Salvação

Camilo Castelo Branco

IV

No principio deste ano de 1864, saí de Ruivães, onde, por espaço de oito dias, me escondi à minha estrela funesta - a vigilantísima desgraça, que eu ia esquecendo. No termo deste prazo, estranhei o sossego das minhas noites, faltou-me a mão do Demônio que me arregaçava com dedos de fojo as pálpebras quebrantadas de sono, e fui à procura dele.

Deixei o meu amigo na cumeada do outeiro, vizinho de casa, com sua esposa e filhos. As últimas palavras dele foram: "Quando tiveres o livro escrito, deixa-me gozar a não vulgar satisfação de me ver personagem, e herói de um romance, que me promete uma imortalidade...".

- De quinze dias - interrompi eu.

Não longe da obscura paragem de Afonso de Teive, à margem do córrego chamado Pele, riacho, que pela primeira vez é revelado ao mundo em letra redonda, assentei eu a minha tenda nómada. A minha tenda são uns vinte volumes, um tinteiro de feno e um cabo de pena de osso, que me deram noutro ponto do mundo, onde há quatro anos assentara também a minha tenda - ponto do mundo que por um singular acaso implicava ao meu sestro vagabundo: era no ano do Senhor de 1860, nos cárceres da Relação do Porto, o menos conveniente dos paradeiros para homens de gostos impermanentes em objecto de aposentadoria. Isto, sem embargo, não impedia que esta minha tão querida pena, tão amiga confidente daquelas trezentas e oitenta noites – de Janeiro todas, que lá adentro dos congelados firmamentos de pedra reina perpétuo Inverno, e giam as abóbadas, não sei se lágrimas, se sangue, se água represada nos poros do granito -, não

impedia vinha eu dizendo, que a minha pena, com o seu incansável fremir sobre o papel, me aligeirasse as noites, e aos assomos da alvorada me convidasse para a banca do trabalho, que foi meu altar de graças ao Senhor, e o confessionário onde abri minha alma ao perscrutar do anjo providencial que me dava a unção dos atletas e dos grandes desgraçados, para mais afrontosos e excruciadores suplícios.

Os meus vinte volumes, e o meu tinteiro de ferro, estão hoje sob o tecto gasalhoso de uma alma que eu noutras eras encontrei na minha. Não sei há que séculos isto foi, nem que congérie de abismos nos separam para sempre. Parei aqui, porque ainda aqui, há tempos, se me figura rediviva a imagem do passado, ainda aquela alma se me hospeda no coração em instantes de sonhos do Céu, ainda a pedra tumular das afeições caídas à voragem infernal do desengano está pendida sobre a derradeira: que a saudade é ainda um afecto, excelso amor, o melhor amor e o mais incorruptível que o passado nos herda.

A casa onde vivo rodeiam-na pinhais gementes, que sob qualquer lufada desferem suas harpas. Este incessante ruído é a linguagem da noite que me fala: parece-me que é voz de além-mundo, um como burburinho que referve longe às portas da eternidade. Se eu não amasse de preferência o sossego do túmulo, amaria o rumor destas árvores, o murmúrio do córrego onde vou cada tarde ver a folhinha seca derivar na onda límpida; amaria o pobre presbitério, que há trezentos anos acolhe em seu seio de pedra bruta as gerações pacificas, ditosas e incultas destes selvagens felizes que tão iluminadamente amaram e serviram o seu Criador. Amaria tudo; mas amo muito mais a morte.

Aqui, se Deus se amercear de mim, embargando o passo ao anjo exterminador, que contínuo me assalteia os áditos do meu éden de quinze dias, aqui escreverei, com quanta fidelidade a memória me sugerir, a narrativa que Afonso de Teive me fez.

Seis meses há que se fez noite no meu espírito. Por arrebatados ímpetos de quem quer furtar-se às garras de um imaginário dragão, tenho fugido para defronte do meu tinteiro de ferro e evocado as graciosas imagens, filhas do Céu, que, nos dias da mocidade fremente de más paixões, me refrigeravam a fronte e disputavam ao encanto do mal, salmeando-me o hino de amor ao trabalho. O perdimento desse amor foi a suprema provação, a forja ardentíssima em que minha alma foi lançada à voracidade de um fogo depurante. Mas, no interior, por tudo em que sombreava a negrura do coração, eram tudo trevas, frio, letargia, esquecimento.

Não sei de que futuro Abril do meu porvir me veio esta manhã um bafejo aromático de flores, umas ondulações de luz, que me pareciam as da minha juventude. Tudo me visitou como em mãos do fugaz arcanjo dó contentamento. Passou o núncio misterioso, passou depressa, mas o meu espírito ergueu-se alvoroçado a saudar o sol de Deus, do Deus imenso que na imensidade dos seus mundos ainda guardará para mim um quinhão de alegrias parcas e modestas, as que unicamente podem dar consciência repousada, prelibações de bem-aventurança e honrada aliança com os homens.

Penso que estou escrevendo as tuas palavras, à meu amigo, redimido a lágrimas, a ultrajes e a desapego do mundo. O clarão que hoje alumiou a minha alvorada seria porventura um reflexo das tuas alegrias. Há dias que me disseste: "Sabes tu o que é ter um Deus, que nos escuta, que nos reprova, que nos louva, que nos povoa o espaço onde a alma insaciável do homem encontra um vazio horrendo, uma respiração aflitiva?"

Querias tu dizer-me que orasse? A ti o confesso em grandes enchentes de consolação, e ao mundo o confessarei sem o ímpio rubor dos miseráveis que perderiam sua alma antes que a irregularidade os escarnecesse: orei, meu amigo; porque, num dos mais apertados transes da tua vida, quando mo acabavas de contar, interrompi o teu silêncio, perguntando:

- E que fizeste depois?

E tu respondeste-me:

- Depois, orei.

V

Afonso de Teive estudava, há hoje vinte anos, em Braga, os elementos preparatórios para o curso universitário, quando viu Teodora, conhecida pela morgadinha da Fervença. Era ela então menina de catorze anos. Afonso tinha dezassete.

As mães destes dois meninos entrevistos e amados com o inocente atractivo do beijo aéreo na flor a desatar-se e a enrubescer na tige, tinham sido condiscípulas na educação de um convento. Apartaram-se para serem esposas, com promessa de se continuarem a amar em seus filhos, se a sorte lhos desse com vocação para se unirem.

Votos de virgens ainda, feitos com as faces purpureadas do calor do coração, - que as lavava contentes aos seus novos destinos.

A mãe de Teodora igualou em fidelidade da palavra prometida a mãe de Afonso.

Uma tristeza, porém, a desconsolava, e cada dia se espessava mais a escuridade em seu espírito: sentia-se morrer, aos trinta e três anos, de enfermidade de peito, e deixava Teodora em anos verdes, solteira ainda, à mercê e alvedrio de tutores.

Na última fase da sua vida, foi ela a Braga com sua filha, de propósito a encontrarem-se com o moço predestinado a esposo, já esquecido, talvez, dos primeiros anos em que se haviam conhecido crianças. O ver com que alegria eles se reconheceram e saudaram, como avezinhas pousadas em uma mesma fronde ao mesmo arrebol da manhã, melhorou temporariamente a enferma; porém, a muito rogada vontade do Senhor não lhe concedeu os dois anos de vida pedidos para a efectuação do casamento.

Segredos do Céu previdentíssimo; que, a não o serem, estes rogos de mãe, em favor davirgem, que vai ficar sozinha no mundo, com os seus dois inimigos - inocência e formosura -, tais rogos baldados, e indeferidos em Deus induziriam a argumentar contra

a mediação do Criador nas misérias que criou.

Apenas falecida sua mãe, Teodora foi recolhida ao Convento das Ursulinas, por deliberação de um tio paterno, constituído espontaneamente tutor da órfã.

Afonso, aconselhado pelo coração e por sua mãe, visitava a educanda, disfarçando as frequentes visitas com a inocente mentira de parentesco.

Teodora, com dois meses de convento, desenvolveu-se e granjeou ciência da vida que não alcançaria em dois anos de aldeia, da sua solitária aldeia, onde tinha apenas aves, flores e estrelas a segredarem-lhe iniciações pára amor. No convento, as prelecções eram menos vagas e mais acomodadas à capacidade das educandas. E certo que as mestras não leccionavam ternuras; mas o zelo com que elas vedavam o pomo dava a desconfiar que as precautas religiosas lhe tinham saboreado o travor, a não ser que o desdenhavam à mingua de dentes incisivos com que entrassem na casca daquele execrável e tão convidativo fruto de Pentápolis.

Com menos de quinze anos, Teodora completou o exterior de suas graças e o interior do seu espírito. A beleza sabia ela já quantas invejas lhe ganhava entre as condiscípulas, quantas intrigas, quantas repreensões da mestra, à conta do muito enfeitar-se e remirar-se ao espelho. Não importava. A morgadinha da Fervença gostava de ser bela, de ser invejada e perseguida das inimigas, com condição e ressalva de ser admirada pelos galanteadores das suas perseguidoras. Enquanto ao espírito, o saber precoce de grades adentro igualou-a, se não antes avantajou-a muito ao estudantinho de Ruivães, que, contra toda a natureza e arte, em colóquio amoroso ficava muito aquém de Teodora, e saia do locutório admirado da esperteza palavrosa da morgadinha.

Estas delicias do palratório, porém, foram repentinamente suspensas.

O tio e tutor de Teodora, sabedor dos amorinhos, que as religiosas, contra o seu costume, tomaram entre dentes, impôs a sua jurisdição tutelar- A educanda reagiu sem proveito, e Afonso desafogou em lágrimas a sua saudade.

A velha fidalga de Ruivães, avisada pelo filho aflito, foi a Braga consolá-lo, e dalipartiu a casa do tutor, a lembrar-lhe o consórcio de Afonso e Teodora, desde muito pactuado entre ela e a sua defunta amiga. O tutor replicou, dando como nulos tais arranjos, enquanto os meninos não estivessem em idade de os ratificar.

Afonso esmorecera em dolorosa letargia, ao passo que Teodora pensava em fugir do convento. O instinto de associação, irrecusável em empresa tão arriscada, deu-lhe a conhecer a única pessoa capaz de auxiliá-la.

Estava nas Ursulinas uma menina de Trás-os-Montes, de família distinta e costumes também distintos em natureza depravada. Entrara ali como em prisão; não obstante, como o anjo das trevas nunca desampara as suas dilectas, lá mesmo lhe espiritou traças de poder entender-se com quer que foi que a viera seguindo desde a hora em que a família a desterrara. E que traças, infando sucesso, que revelação afrontadora da humanidade vai hoje estampar-se nesta página!

A menina transmontana, abrindo à flor dos lábios o sorriso condolente de um anjo de candura, selou com um beijo no rosto da sua recente amiga o pacto de se coadjuvarem contra a tirania de pais e tutores.

E posta, desde logo, em discussão a matéria, quis a morgadinha da Fervença, sem mais rodeios, saber de que modo poderia fugir do convento. Libana achou anojado o intento da fuga, e desesperado sem razão, quando se podia melhorar de sorte, sem correr o risco de ser presa e reposta no convento para nunca mais ver Sol nem Lua. Contou ela, para exemplificar o perigo da fuga, a desgraça acontecida naquele mesmo convento uns trinta anos antes. Era a longa história de uma senhora, reclusa ali por violência, que, cuidando salvar-se pelos encanamentos subterrâneos dos escoadouros do mosteiro, morrera asfixiada; e quando as freiras, a família e as justiças a julgavam foragida no estrangeiro, um operário ocupado da limpeza dos valos encontrou um cadáver quase esfacelado, mas ainda reconhecível pelos trajos. Semelhante história, contada e ouvida naquela casa sempre com horror, fez sorrir a morgadinha, e tirou-lhe do peito virginal esta observação: "Tendo eu de morrer na imundície dos canos, antes me deixaria morrer entre a imundície das freiras. Lá enquanto aos aromas enjoativos, tanto faz estar lá em baixo como cá em cima." A resposta foi mais estirada e espirituosa no seu género; mas assuntos desta grossura só podem tratá-los curiosamente engenhos claros e eminentes como o poeta dos Miseráveis, que poetiza os escoadouros de Paris com o mesmo acume de estilo com que falaria dos jardins perpetuamente olorosos do Elísio.

Resolvida a sobrestar no plano da fugida, Teodora travou-se de mui intima amizade com Libana, e formavam a sós um partido, que se fazia respeitar pela audácia da língua, e soberba de sua prosápia e abundância de meios. Neste conluio entrava uma servente de fora e uma criada de dentro, mediante as quais Afonso de Teive recebia cartas de Teodora, e um cavalheirote imberbe de Trás-os-Montes, primo de Libana, recebia as cartas de sua prima.

Numa tarde de Agosto saíram as duas meninas a tomarem a fresca na cerca. Com o jeito cismador e melancólico em que iam, diríeis que eram as duas graças a procurarem a terceira, que lhes fugira enamorada de alguma divindade incógnita. Quem as visse àquela hora, depurativa das fezes de maus pensamentos e más palavras, havia de cuidar que o seu diálogo, todo ferventes arrobos e cantares ao empíreo, versava sobre os céus de Santa Teresa de Jesus, ou semelhantes devaneios do espírito embevecido no foco luminoso dos bem-aventurados.

Agora se recostam elas num escabelo de cortiça, cujo espaldar lhe formam almofadas de fofas murtas, matizadas da flor do maracujá. Perto delas trepida uma fonte; no tanque, onde a Lua já principia a espelhar-se, coaxam as rãs; a viração cicia.nas

ramas do pomar; zumbem os insectos, espanejando-se ao frescor da tardinha. As duas cândidas meninas, enleadas na poesia do quadro, realçam-no e completam-no.

Ouçamos a música daqueles serafins.

Dizia Teodora:

- Se me eu pilhasse fora daqui!... Nestas tardes tão bonitas, havia de ser tão bom andar eu a passear com o meu Afonso!.. - Queimado morra o meu tutor e mais o filho!

Se não fosse aquele bruto, não estava eu engradada! O Libana, tu não farás com que nos escapemos deste inferno! Olha... lá está a madre porteira a espreitar-nos da grade do canto!...

Libana voltou desabridamente as costas à madre porteira e acudiu nestes termos aos anelantes desejos da sua amiga:

- Olha, Loló, não te zangues. A gente, afinal, há-de sair daqui muito a tempo de gozar a vida. Se não formos tolas, podemos ir gozando mais do que temos feito. Queres tu saber o que me diz o meu Alfredo? Queres ver quanto ele me ama? Que sacrifício quer fazer por amor de mim? Olha, eu não quis dizer-te o que ele me pedia na carta de hoje, com medo que tu me aconselhasses a não ceder, mas cedo, filha, cedo, que a paixão não tem leis. Pede-me para vir ser minha criada.

- Tua criada! - exclamou Teodora.

- Minha criada! Pois então? - replicou Libana baixando o tom de voz, abafada pelo frouxo do riso.- Não há nada mais fácil. O meu Alfredo tem cara de mulher e não tem ainda barba. Diz ele que se veste à moda das raparigas da minha terra, que me procura com uma carta fingida de minha mãe a pedir-me que receba a portadora como criada; cá no convento ninguém pode impedir-me que eu o receba; a gente há-de ter todo o cuidado que se não descubra o logro; e... tu que me dizes, Loló?

Teodora acudiu com o rosto chamejante de alegria:

- Olha lá, Lili, o meu Afonso também tem cara de mulher, pois não tem?!... Se ele viesse também para minha criada era tão bom!

- O pior é que ele é conhecido, por ter cá vindo muitas vezes - observou Libana.

- O meu Alfredo é que só veio aqui no princípio uma vez, e ninguém o conhece... Não vamos nós botar tudo a perder, Lóló!

- Que pena! -exclamou a morgadinha com os olhos no céu e a mão direita sobre o coração latejante. - Que pena que o meu Afonso não venha também para cá!... Ó Libaninha, vê se inventas alguma coisa, senão a tua amiga morre de tristeza!...

E, dizendo, escondeu o rosto, aljofrado de quatro lágrimas, no seio da amiga.

Que lágrimas! De onde veio ou para onde foi o anjo da inocência, quando um peito virgem tem daquelas lágrimas e uns olhos que ainda não viram os hediondos espectáculos da farsa do mundo podem chorá-las!

Fechou-se a noite. Já a sineta havia chamado as duas meninas rebeldes ao primeiro e segundo aviso. Ergueram-se, deram-se o braço, e foram, na- cela de Teodora, continuar o recendente colóquio do jardim.

Teodora, a não poder ser feliz, exultava com as venturas da sua amiga. Mimou-a àtemeridade de receber o atrevido rapazola de Trás-os-Montes, idólatra de uma personagem de romance, único que em sua vida lera, o Lovelace, de quem se propunha imitar o entrajamento de mulher. O tolo! Ainda bem que as asneiras, copiadas dos romances, costumam ter, na vida real, umas saídas muito desgraçadas ou irrisórias!

Ainda bem, para desdouro dos livros desmoralizadores e luzimento de outros livros

de sã moral, que só fazem mal ao publicador que os não vende.

Este Alfredo, que vivia oculto nas cercanias de Braga, aplaudido por Libana em seu projecto, foi à sua terra preparar os vestidos e ensaiar-se em trejeitos mulheris.

Libana tinha uns irmãos, oriundos do mesmo tronco de pai e mãe, os quais, pelos. modos, não tinham de que espantar-se do descomedimento e desatino da filha e irmã; de onde vinha o serem eles grandemente avelhacados, astutos e espiões das tramóias de Alfredo.

A vila era pequena e de soalheiro. Correu logo por algumas bocas, até aos ouvidos dos interessados, o estar-se fazendo roupinhas e saiotes, e outros atafais de mulher, afeiçoados ao corpo de Alfredo. Sem detença, um dos irmãos de Libana saiu para Braga; o outro ficou de atalaia aos movimentos do imitador de Lovelace. O que se escondera em Braga foi avisado a tempo que Alfredo vinha de jornada. Uma engenhosa combinação com as autoridades lançou a rede tão a ponto que o infeliz foi capturado na portaria das Ursulinas, vestido de camponesa transmontana, e dali, entre baionetas e escoltado de rapazio, percorreu todas as estações judiciárias desde o regedor até às carícias do carcereiro.

As religiosas, cônscias do escândalo, requereram ao prelado bracarense a expulsão da reclusa que desonrava o convento e contaminava de sua desmoralização as outras meninas. Foi, portanto, Libana entregue a seu irmão, que a levou para casa. Esperava-se geralmente que esta donzela, agourada para extremados desastres, tivesse um fim de exemplo a mulheres desgarradas do trilho da virtude. Os prognósticos da opinião pública erraram, como se há-de ver num futuro livro.

A gente não sabe ainda bem como este mundo está feito..

VI

O escândalo, que felizmente abortou à portaria do convento, pôs de sobrerrolda os pais de família que tinham meninas a educar nas Ursulinas e deu às insones freiras um sexto sentido de observação. Dentro do mosteiro reinava a opinião de que Teodora tinha bastante capacidade para tomar criada, conforme o gorado sistema de Libana. Além disto, depois da expulsão da transmontana, a morgadinha, em vez de quebrar do orgulho e reportar-se, enfuriou-se mais, e saia com invectivas e chacotas às freiras velhas, clamando a vozes descompostas que a mandassem embora, se lhes não servia assim. A comunidade, ofendida e esgotada de paciência, consultado o tutor da educanda, assumiu o uso ou o abuso dos antigos poderes monásticos, e encerrou-a no seu quarto, com ameaças de a fecharem no tronco. Teodora esmoreceu diante da força mista das freiras e dos padres capelães, que prometiam suprir com o pulso a ineficácia da eloqüência persuasiva.

Vagamente informado da situação da sua amada, Afonso de Teive foi à portaria do convento, no heróico propósito de ir arrancar a vítima de sobre as asas da teocracia despótica. A porteira, senhora de óculos e de muita virtude, ofereceu peito de mártir às injúrias ímpias do acriançado amante. Porém, como quer que o acaso ali encaminhasse uni cabo de policia, quando Afonso gesticulava e vociferava um menos mau improviso contra os conventos, o cabo, com as mãos atadas na cabeça, correu ao regedor, e este acudiu no supremo lance, já quando o alucinado aluno de Retórica estrondeava na porta valentes murros, chamando Teodora a clamorosos gritos.

Travado pelos braços pujantes das autoridades, Afonso não pode resistir à surpresa do assalto. Escabujou e esbraveou enquanto as forças da raiva o aqueceram; afinal caiu exânime nos braços da lei, balbuciando ainda "Teodora!". Estava a instaurar-se-lhe processo, quando a fidalga de Ruivães chegou a desfazer com a sua respeitável presença, e auxilio dos mais importantes cavalheiros de Braga, a criminalidade pueril do filho.

Afonso, levado por sua mãe, foi para casa, deliberado a deixar-se morrer. Caiu de cama, e tresvariou em febres de mau carácter. Todavia, os cuidados maternais, cooperados pela robusta natureza dos dezesseis anos, salvaram-no. Os olhos, durante a morosa convalescença, choraram-lhe de continuo; os sonhos eram-lhe ainda suplícios de que despertava em brados e soluços; não obstante, a cura do amor, que chora, é certa: ferida de coração, onde possa chegar o agro e adstringente de uma lágrima, cicatriza cedo ou tarde. Amores incuráveis são os que desabafam em rancorosas explosões.

A parentela do ilustre pimpolho, alvorotada pelas lástimas da fidalga, reunira-se em conselho, e alvitrara que Afonso de Teive fosse completar os estudos preparatórios em Lisboa, hospedando-se em casa de um seu tio desembargador. O moço obedeceu às exortações e rogos de sua mãe, depois que a extremosa senhora lhe prometeu e asseverou que, a despeito de tudo e de todos, Teodora, no prazo de um ano, seria sua esposa.

Os parentes embicaram, resmoneando que o morgado da Fervença o era só em nome, sem vinculo nem foro em ascendente conhecido. Contra estas razões se insurgiu Afonso em termos que feririam a ilustração democrática de um botequineiro antes de ser cavaleiro do hábito de Cristo. A fidalga, mais ufana de proceder do tronco dos primitivos cristãos, iguais entre si e iguais ante Deus, que vaidosa de aparentar-se com os Pinheiros de Barcelos e os Correias e Lacerdas da Honra de Farelães, votou com seu filho, dizendo "que na casa de Ruivães sobejava a fidalguia e faltava a felicidade".

Foi Afonso para Lisboa com o capelão- O tio desembargador agasalhou-o nos braços, e as primas, filhas do bondoso magistrado, a mingua de um irmão, começaram logo a dizer que Deus lhes dera um, e, como tal, o não deixariam voltar mais, sem elas à província.

Pouco montam tantas carícias para o contentamento de Afonso. Ralam-no saudades, emagrecem-no os jejuns, amarelece-o a tristeza. Nas aulas é mau estudante; no círculo dos condiscípulos é um autómato que ri por comprazer, e vai sem saber que vai para onde o impelem; em casa com as primas é um aborrecido, que nem ao menos as acha bonitas, nem cisma sequer em adivinhar as charadas maricas, e logogrifos figurados, em que todas são exímias e sobremodo impertinentes.

A senhora de Ruivães recebe de todos os correios instantes cartas de Afonso acelerando as diligências para o casamento. A consternada mãe já por terceiras pessoas mandou sondar as dificuldades que importa combater. De Braga dizem-lhe que Teodora já saiu do encerramento da cela e tem o convento todo por homenagem, salvo o palratório e a cerca. Ajuntam as informações que o tutor da morgada freqüenta semanalmente o convento, e algumas vezes vai com ele um filho, rapaz de figura absurda, com uma gravata vermelha, capaz de seduzir uma nação de pretos, e urna casaca arqueológica, de cabeção tão copioso que parecia enrolar um capote.

A descrição poderia ser acoimada de desgraciosa; mas de hipérbole não. Este sujeito chama-se Eleutério Romão dos Santos, por ser filho de Eleutéria Joaquina e de Romão dos Santos, tutor de Teodora, lavrador abastado, vizinho do Mosteiro de Tibães.

Eleutério tem vinte e dois anos; quis aprender a ler com seu tio padre Hilário; mas a natureza opôs-se-lhe, logo que ele, após um ano de canseira, entrou a soletrar palavras de três sílabas. Vencido pela natureza, padre Hilário desistiu, visto que lhe era vedado arejar o cérebro do sobrinho por uma fresta aberta a machado.

O filho único de Romão dos Santos recebeu em upas de alegria a notícia da sua incapacidade para soletrar nomes de três silabas. No dia seguinte, o pai mandou-o à feira dos nove com uma junta de bois. O rapaz efectuou a venda dos bois com tamanha astúcia e vantagem que logo dali se deu a conhecer a sua vocação. Uma segunda mercancia robusteceu-lhe o crédito, que outras vieram confirmando, até que Romão deu ordem ilimitada de dinheiro a Eleutério para poder negociar em bezerros e vitelas.

Estava o rapaz neste auge de glorificação própria, e inveja dos vizinhos, quando

faleceu a mãe de Teodora. A órfã, apenas sua mãe cerrou olhos, foi conduzida para casa de Romão, seu tio paterno. A criança ia lagrimosa e carecida de meiguices e consolações de alguma senhora que lhe falasse a linguagem polida à qual estava afeita.

Em casa de Romão havia somente a Srª Eleutéria Joaquina, criatura chã, que, a cada soluço da sobrinha, dizia quase sempre:

- Não chores, pequena; que a morte é portelo que todos temos de passar.

E, para não dizer sempre o mesmo, variava deste teor:

- Isto, como o outro que diz, é hoje tu, amanhã eu.

Eleutério, porém, menos versado em lugares-comuns de pêsames aldeãos, querendo consolar sua prima, tirou estas palavras do peito:

- Senhora prima, olhe que o chorar faz mal às meninas dos olhos. Deixe-se de estar a suspirar, que não lhe dá remédio. Agora o mais acertado é divertir-se pelas feiras.

Vem aí a de Vila Nova de Famalicão, onde eu levo vinte e duas juntas de bezerros. Se a senhora prima quiser, vamos comprar de meias algum gado, e deixe cá isso à minha vigilância, que eu, dentro de um ano, prometo dar-lhe dinheiro de ganho com que há-de comprar um grilhão de duzentos mil réis e umas arrecadas de lhe chegarem aos ombros.

O mais quem morreu morreu, é ditado dos velhos.

- Quem morreu é rezar-lhe por alma - atalhou com má gramática, mas com piedosa intenção, o tio padre Hilário...

Teodora estava a rebentar de raiva quando Eleutério recolheu ao bucho das cruas sandices outras muitas que já lhe ferviam nos gorgomilos.

Aí está uma amostra de Eleutério Romão dos Santos.

O conselho de família deliberou o ingresso da órfã nas Ursulinas. A menina acolheu agradavelmente a notícia, por se desentalar assim da opressão do primo alvar, e da tia, mais boçal do que racionalmente se deve permitir à bondade de uma pessoa qualquer.

Logo que a mãe de Teodora morreu, o tio, que lhe conhecia o valor dos bens, lançou contas ao futuro e deu como realizável um casamento que vinha a ligar as duas casas maiores da freguesia. Custou-lhe a ceder que a pupila se lhe distanciasse de casa; mas os votos dos outros membros venceram, fundados na precisão de educar a menina, que fora criada com mestres, e de todo estranha à vida agrícola.

Entretanto, Romão predispôs o filho a cuidar seriamente no bonito arranjo, que lhe saía a talho de foice: estilo figurado e pitoresco em que são inventivos os nossos camponeses, e em que Romão primava sempre que tinha entre mãos algum bonito arranjo, o qual vinha a ser sempre um arranjo feio para o próximo.

Eleutério, ao principio, disse que a prima lhe parecia um arenque. Fundava o desdenhoso a sua critica na magreza delicada e cortesã de Teodora. Entre galãs da estofa de Eleutério, mulher de encher olho queria-se vermelhaça, alta de peitos, ancha de quadris, roliça e grossa de pulsos, com os queixos túmidos de gargalhadas estrídulas, e as facécias equivocas, e os estribilhos patuscos sempre engatilhados nos beiçosgrossos e oleáceos. Teodora era o invés de tudo isto.

Faz pena vir aqui a ponto o descrevê-la, quando o contraste lhe fica tão de perto. Teodora, aos dezasseis anos, era um modelo acabado de formosura, como raras se vos deparam nas raças patrícias, que o concurso de circunstâncias, umas espirituais, outras fisiológicas, aprimoraram. A palidez era nela o principal característico das belezas de eleição, à escolha de olhos onde parece que os nervos ópticos vêm da alma, e não do

cérebro, a tecerem a retina. A mulher pálida é a que vem cantada em poemas e extremada em romances: ora, quando a poesia e prosa conspiram a dar a realeza do amar e padecer à mulher pálida, havemos de curvar-lhe o joelho, na certeza de que ela se fará amante e mártir, por amor do poema e do romance, ainda mesmo que a natureza lhe tenha temperado o coração de aço. Pode ser que semelhante cláusula, no decurso deste livro, acuda à retentiva do leitor.

Relumbravam no alvor das faces de Teodora olhos negros, não vivos, antes mórbidos, como se a queda das longas pálpebras, iriadas de veias azuladas, lhes vedasse o raio de luz em cheio que rebrilha, aquece, e regira os globos visuais. Do nariz diremos que, nesta feição, a mais rebelde aos desvelos da natureza, tão extremada se mostrara ela, que bastante lhe fora aquela perfeição para desmentir os que a taxam de desprimorosa. Em lábios, não sei se me valha das figuras antigas - rosas e corais, romãs e carmim -, se me avenha com esta verdade pronta e fluentíssima que de um traço copia como o pincel e de uma frase exprime tudo, como em frases de Castilho: "era um ósculo perpétuo de inocência". Como isto sai bem na música da expressão; e que belo seria o mundo se as bocas formosas estivessem sempre absorvidas no ósculo perpétuo da inocência! Ó Teodora, se tu então morresses, o teu rosto, trasladado em marfim, ainda agora nos seria a imagem dos lábios nunca despregados do beijo de algum anjo, ressabiado ainda da voluptuosidade dos anjos mal-aviados com o candor celestial. Mas tu cresceste, e deformaste-te, à crisálida! A tua essência do Céu vaporou para lá no alar-se de alguma virgem, irmã tua, que o Senhor chamou na antemanhã do primeiro dia nebuloso de sua vida; e o que de ti ficou foi a formosura e a desgraça da mulher.

Mas, afora a essência pura do Céu, que esbelta, que peregrina mulher cá se ficou a.25 ostentar as galas mundanas, esse opulento nada que desaba do altar da nossa idolatria a uni roer surdo de vermes e podridão!

Esta última palavra tolhe-me de continuar a descrever Teodora. Esmoreceram-me os espíritos. Caí da minha fantasia na lagoa fétida da verdade. Achei-me como às margens de uma sepultura regélida do gear de uma noite de Dezembro. Parou-me o sangue no pulso, inteiriçaram-se-me os dedos e a pena desprende-se. Assobia o nordeste pelas arestas dos jazigos e remexe e sacode de sobre esta pedra umas coroas húmidas de orvalho, cristalizado em lágrimas; são coroas de perpétuas sagradas à formosura, que se julgou imorredoura, à sexta hora do seu breve dia. Lá vão as coroas no bulcão do vento; lá vão esgalhadas as frondes do chorão e do cipreste; lá vai tudo; a memória dos vivos lá se foge também desta sepultura; tudo foi; só tu ficaste, ó Cruz!.

VII

Beleza absoluta, de telhas abaixo, há uma sé, que é a da mulher formosa; e, na variada manifestação de beleza em diversidade de tipos, há uma superior formosura, que constitui o belo universal, o belo que prende e leva todos os olhos. A mulher assim dotada tanto impressiona o espírito educado na visão e admiração das maravilhas da natureza e arte como o espírito desculto de toda a compostura e discernimento. Dá-se o exemplo desta coisa formulada em tese abstrusa na embriagadora influição dos olhos de Teodora no ânimo selvagem de Eleutério. A menina de catorze anos, que o lerdo vaqueiro comparava a um arenque, apareceu-lhe aos dezasseis na grade do convento, e atordoou-o, O moço, querendo exprimir ao pai a sensação recebida naquela hora, disse com expansiva naturalidade:

- Quando ela me espetava os olhos, havia de dizer que a minha alma estava fora

do corpo! Eu queria dizer-lhe alguma coisa, e a língua grudava-se-me ao céu da boca.

Quem me dera ser rei, e que ela fosse uma pastora de cabras!

Se a linguagem fosse mais joeirada de plebeísmos, a concisão da ideia poderia atribuir-se a Shakespeare. A mais cristalina água é a que rebenta de penhascos ermos: assim, de espíritos selváticos, ressaltam por vezes umas ideias límpidas, de uma sensibilidade original, que faz pensar.

Romão ficou contente da resposta, decorou-a, e assim a pespegou a Teodora. A menina, vezada à linguagem mais florida ou mais delicada de Afonso, riu interiormente dos termos rústicos do primo, e de fora compôs o gesto para fingir que o não entendera, O tutor, porém, instintivo avaliador do capital do tempo, sem saber que os economistas ingleses chamavam ao tempo capital, repetiu, já dilucidando-as, as palavras de Eleutério, aproando o discurso ao ditoso remanso do casamento, que ele, na sua locução figurativa, denominava um lindo arranjo.

A morgadinha ouviu ansiada o tio e respondeu com um ataque de nervos, que era já o terceiro que a insultava; simpática doença em meninas pálidas, se é o amor contrariado que lhes desmancha o aparelho nervoso. Teodora soluçava agudos gemidos, que iam reboando pelos dormitórios. Acudiram algumas freiras e transferiram-na à sua cela. A prelada foi à grade averiguar do acidente e saiu convencida de que a órfã era uma doida a quem Libana, de impudica memória, ensinara a fingir ataques nervosos.

Romão dos Santos saíra do convento no propósito de consultar um egresso do Carmo sobre os trejeitos e feitios que vira em sua sobrinha, para aplicar-se-lhe a reza purgativa de demónios, se o frade entendesse que ela os tinha no corpo. O zeloso e invencíveldemonífugo foi ao convento, avistou-se com a suspeita energúmena, mandou as freiras que depusessem acerca das malfeitorias atribuídas ao espirito imundo e retirou-se capacitado de que a morgada da Fervença estava possessa de uma legião de travessos e intrigantes diabinhos que usam, contra todo o natural, aninhar-se entre religiosas, não as poupando mesmo, quando elas tomassem o expediente salvador do conhecido galego da fábula de Almeida Garrett. Era ilustrado o egresso.

No entretanto, soubera Teodora que Afonso de Teive fora para Lisboa. Esta partida azedou-lhe a vaidade, sem embargo de ter sabido a destemperada arremetida que ele fizera contra a porteira e as vergonhas e trabalhos que lhe ia custando ao pobre moço aquela façanha. Porém, ninguém lhe dissera que dores o puseram à borda da sepultura, que saudades o crucificavam em Lisboa e que vãs solicitações fazia a mãe de Afonso para assegurar à filha da sua defunta amiga a certa realização do casamento.

Sobreveio ao despeito o enojo crescente, que mortificava a reclusa, sempre espiada, e perseguida de velhas conselheiras, que tomaram à sua conta salvá-la. despeito e ao enojo, acresceu o visitá-la com mais frequência, e um pouco melhorado de figura, seu primo Eleutério. Dantes, a cabeça exterior do moço era hórrida, toda escadeada da tesoura hábil em tosquiar reses, tufada de grenhas, com umas repas caracoladas sobre as orelhas, e aquele todo lustroso de azeite. Depois, apareceu Eleutério com o cabelo cortado à escovinha e os caracóis banidos. Depôs a casaca no gavetão-museu da família e envergou uma judia, como se usava então, com matizes e florões nas costas, e borlas de apertar no pescoço. A pantalona continuava-se em polaina até à ponta do pé e abotoava sobre meio palmo do artelho com botões de madrepérola. Além disto, o pai deu-lhe o relógio avoengo, que, no continente e conteúdo de caixas sobrepostas, parecia a baixela de uma família, desde a tina do banho até à bacia do lavatório. Os berloques deste tesouro, que não regulava há quarenta anos, eram placas de diferentes pedras e sinetes periformes de tal tamanho que pareciam armas de defesa.

Teodora custou-lhe a reconhecer o primo Eleutério, afora mãos e pés, que nenhuns outros podiam confundir-se com os dele, a despeito mesmo das torturas em que os trazia entalados. O rapaz tinha conquistado de sua prima uma admiração comparativa: era já grande salto dado para dentro do coração da menina.

Li em algures, e estou convencido de uma verdade que soa como paradoxo, e é que

o espirito de cada pessoa tem muito que ver com o modo como ela está entrajada. A intelectualidade apouca-se e confrange-se quando o sujeito se olha em si e se desgosta da compostura dos seus vestidos. O desaire do espírito como que se identifica ao desaire do corpo. As ideias saem coxas e esconsas do cérebro; a expressão tardia e canhestra denuncia o retraimento da alma; há o que quer que seja fenomenal que eu tivera em conta de desvario meu, se muitos sujeitos me não tivessem confessado semelhantes segredos de psicologia, em que o alfaiate exercita importante alçada.

Demonstrado isto, explica-se o atavio de palavras com que Eleutério se saiu no palratório no dia em que se mostrou desfigurado. De vez em quando, o moço baixava modestamente os olhos requebrados sobre os berloques, e ao levantá-los para sua prima já nos beiços lhe borbulhava alguma ideia bonita. Igual fortuna o bafejava quando, acaso ou por acinte, se via de polainas, abotoadas tanto ao justo da canela, que se ficava algum tempo narcisando nos pés.

Deste primeiro colóquio saiu a morgada pensativa. Algumas senhoras, grandemente e astuciosamente admiradas, entraram na cela da menina a perguntar-lhe se era, em verdade, seu primo Eleutério o peralta que a visitara. Teodora respondia que sim entre ufana e desdenhosa. As freiras benziam-se e exclamavam:

- Que perfeito rapaz ele se fez! Ninguém havia de dizer o que saia dali! Em Braga não passeia outro que o valha, nem quem o exceda.

- Seu primo é uma figura que dá na vista! - ajuntava a mais deliciosa das freiras para não ficar em pecado com a sua consciência.

Teodora, quando acordou na manhã seguinte, viu duas imagens: uma enevoar-se e esvair-se como sonho que a memória não pode já reter: era a imagem de Afonso; outra avultou-lhe completa nos menores traços, radiosa, animada e animadora: era a imagem de Eleutério Romão dos Santos.

Ergueu-se alegre, abriu a janela do seu cubículo, aspirou o ar do céu, que nunca lhe parecera de tão lindo azul, e invejou as aves que volitavam mui serenas gorjeando, ou regirando umas jubilosas voltas, que à menina se figuraram as delicias da liberdade.

Amava ela Eleutério Romão?! Não amava, disse-o ela, e eu juro nas palavras de Teodora. O que ela amava era a liberdade; os anelos de sua alma ansiavam sôfregos um viver, que o temperamento lhe estava pedindo a gritos, gritos que a sociedade não escuta, não acredita e não perdoa, O que ela via em Eleutério era o homem já.desfigurado da repulsão primária; o homem aceitável como libertador de um seio que quer encher-se de perfumes, sem se dar em servidão ao homem que lhe vai descancelar os áditos do mundo. Assim é que muitas mulheres têm amado aqueles que as salvam; deste amor assim chamado por não haver mais elástico epíteto que dar à coisa é que surdem os irremediáveis infortúnios, os ódios irreconciliáveis e as afrontas que levantam as campas, encerram algozes e vítimas e ficam ainda de pé sobre as lousas infamadas, pregoando o opróbrio dos filhos gerados no crime e amaldiçoados na infâmia de suas mães... Colho as velas; que, neste rumo, ia varar em sensaboria encapotada em moralização: coisa duas vezes importuna.

Conseguira, neste tempo, a senhora de Ruivães que uma secular das Ursulinas entregasse uma carta à morgada, carta de esperanças, alento e consolações, com miú-das noticias dos padecimentos do filho em Ruivães e das penas e receios que o desesperavam em Lisboa. Terminava a carta prometendo à menina que, antes de cumpridos dois anos, os votos de todos se haviam de realizar diante de Deus, contanto que Teodora conservasse firmeza, coragem e constância.

- Dois anos! - disse entre si a morgada. - Esperar dois anos neste purgatório... Se Afonso me ama, porque não há-de vir já roubar-me deste cárcere? Dois anos! e viveria eu

aqui tanto tempo à espera de não sei quê?! Eu cativa aqui dois anos, e ele em Lisboa a divertir-se!... Se ao menos eu o esperasse em liberdade, os dias iriam menos arrastados; mas, privada dos prazeres que ele está gozando, esperar um futuro talvez duvidoso... é loucura! Quem me diz a mim que Afonso, neste espaço tamanho de tempo, se não apaixona por outra? Se ele me ama, como dizia, e a mãe me diz agora, quem nos impede de casarmos já? Se somos muito novos, lá virá ocasião de envelhecermos. Oque eu tenho, meu é já; ninguém mo rouba por eu casar contra vontade do conselho de

família... Dois anos!

E, naquele dia e nos dias seguintes, Teodora, de cinco em cinco minutos, dizia: Dois anos! e ficava meditativa, até de novo exclamar: Dois anos! Respondeu a morgada à mãe de Afonso que a sua saúde se havia perdido na opressão e dissabores daquela vida, em que tão contrariada se via. Dizia mais que a precisão de se livrar de tal cativeiro a obrigaria a dar-se como esposa a um homem que ela não amasse. Queixava-se da ausência e silencio de Afonso e citava o namorado da sua amiga Libana como exemplo de rapazes apaixonados. Concluía desejando a Afonso todas as venturas deste mundo, enquanto ela se deliberava a experimentar todas as desgraças. A virtuosa de Ruivães, lendo o final da inesperada carta, acolheu-se à sua capela, e longo tempo esteve em joelhos pedindo à Virgem que defendesse Teodora dos seus funestos instintos.

E, desde aquela hora, a mãe de Afonso, com quanta delicadeza de admoestação e brandura afectuosa pôde, desviou o filho de pensar em Teodora como futura companheira de sua vida. Afonso pedia instantemente explicações de tal mudança no espírito de sua mãe; e ela, podendo responder com o mais idóneo documento, que era a própria carta da morgada, dilatava as suas razões para mais tarde. E, ao mesmo tempo, escrevendo a Teodora, conjurava-a a ter mão de sua imprudente mocidade, descrevialhe o quase nada que conhecia do mundo, citava-a para diante da virtuosa memória de sua mãe; mas não lhe falou de Afonso.

A morgada não deu peso a tal omissão, nem achou razoável o sentimentalismo da fidalga; irritou-se mais por lhe não responderem ao artigo essencial da sua carta, que era apressar-se o casamento, visto que a sua saúde corria perigo.

Eleutério, cada vez mais assíduo na grade, já tinha uma outra judia cor de alecrim, outras pantalonas apolainadas, um colete de veludo escarlate e um cavalo de marca,.29 aparelhado a primor e obediente ao freio para todo o género de upas e galões. Teodora gostou disto, porque um dos seus anelos era a equitação: sonhara-se muitas vezes cavalgando selim raso, trajada em amazona, com as dobras do amplo véu ondulando no frenesi de desapoderado galope. O cavalo - faz pejo dizê-lo!- foi muito no determinarse a morgada a responder categoricamente às tímidas perguntas do primo Eleutério.

Assim foi. Ajeitado o ensejo, a menina, balbuciando com artificial pudor, disse queestava disposta a tomar estado, visto que a idade lho permitia. Eleutério, perplexo de ouvi-la, sem ousar supor-se o noivo escolhido, sopesava o bofe direito cuidando que estala ali o coração; quando, porém, a prima lhe disse: "Faço aquilo que meu tio Romão quiser... Caso com quem ele determinar...", Eleutério expediu um ai de desafogo e riuse alvarmente, esfregando as mãos.

Por amor deste sucesso vim eu a desenganar-me de que a natureza anda muito abastardada e contrafeita no teatro e nos romances. Casos análogos daquele tenho-os visto remedados com trejeitos e exclamações inversas da lógica da natureza. No romance, todos os Artures ou Ernestos, ao saberem que são amados, empalidecem, suam, ajoelham, declamam, quando não podem oscular com frementes soluços a mão da mulher amada. No teatro, em lances idênticos, tenho visto desmaiar sujeitos, que matariam a futura sogra e o próprio pai se lhe atravancassem o caminho da felicidade.

Rir às cascalhadas é que eu ainda não vi amante ditoso nenhum no instante solene de se crer amado. Eleutério Romão dos Santos é o primeiro modelo que a natureza me oferece.

E a verdade é só uma. Ao beijo da felicidade que endoida e transporta, o homem, que não estoura em explosões de riso, deve de estar mui calcinado de coração.

Dramaturgos e romancistas, por via de regra, são umas pessoas áridas, frias e falsas, que inventam a natureza, depois que desbaratam a sensibilidade, exagerando as generosas comoções que receberam dela.

Teodora gostou medianamente dos modos de seu primo. Antes ela o queria falsificado no molde dos romances que a menina transmontana lhe emprestara; mas, ainda assim, aceitou com paciência a linguagem desartificiosa daquela ingénua e bruta alma.

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